
Capítulo
4
A |
Os Atributos do Ser Humano
pesar dos efeitos danosos da Queda, ainda
possuímos admiráveis atributos espirituais, morais e intelectuais. Desde Adão e
Eva, seis mil anos já se passaram, de acordo com algumas cronologias. De fato,
não é muito tempo, mas foi o suciente para o homem chegar à Lua e sondar as
mais distantes estrelas. Será que os nossos protogenitores imaginaram que isso,
algum dia, haveria de acontecer? De uma coisa, porém, temos certeza: Adão e Eva
não eram ignorantes. Acredito que eram mais sábios do que nós, embora não
tivessem os mesmos conhecimentos de que hoje dispomos, instruíram seus lhos
para que as conquistas atuais se tornassem possíveis.
Neste
capítulo, veremos como Deus nos proveu dos atributos necessários para nos relacionarmos
tanto com Ele, o Amoroso Pai, quanto com os nossos semelhantes, a quem devemos
amar e guardar. Por intermédio da Bíblia Sagrada, destacaremos as qualidades
que nos diferenciam dos animais irracionais: espiritualidade, racionalidade,
sociabilidade, liberdade e criatividade. Constataremos que o ser humano, apesar
da Queda, continua a executar a missão que Deus lhe entregou no Éden. A
desobediência humana não frustrou os planos divinos. Se Deus assim nos dotou,
usemos cada um de nossos atributos para gloricá-lo. No aperfeiçoamento desses,
leiamos a Bíblia, oremos, vigiemos noite e dia, evangelizemos e exerçamos o
amor cristão. Portemo-nos de tal forma, a m de que o Pai Celeste seja exaltado,
eternamente, por meio de nossas qualidades espirituais, psicológicas e físicas.
Que o Espírito Santo nos abra o entendimento e
faça-nos conhecer as demandas, e as reivindicações da Palavra de Deus.
I.
A
Espiritualidade Humana
Neste tópico, aprenderemos que o homem é,
também, um ser espiritual. Vejamos, pois, a origem de nosso espírito, seu
anseio natural por Deus e como ele pode ser revivicado.
1. A origem divina de nosso
espírito. Após formar Adão do pó da terra, o Senhor Deus
soprou-lhe nas narinas o fôlego de vida (Gn 2.7). A partir daquele momento, o
homem passou a ser alma vivente — plenamente cônscio de sua existência e de sua
presença no Universo (Jó 33.4). O corpo humano é, de fato, a obra-prima da
criação divina; não há nada igual em todo o Universo. Embora carne, abriga a
alma e o espírito. Apesar de mortal, esconde a imortalidade que nos veio das
narinas do Criador. Tal harmonia é tão perfeita, que, entre a nossa
constituição física e a espiritual, reina a mais absoluta unidade. Não sabemos
onde começa uma e termina a outra; inexiste incompatibilidade entre ambas.
Já imaginou se houvesse rejeição entre as
constituições de nosso ser? Se o corpo rejeitasse a alma; se a alma rejeitasse
o espírito; e se este e aquela viessem a rejeitar o corpo? Se isso acontecesse,
nossa existência seria impossível. Mesmo os ímpios e ateus referem-se a si
utilizando-se de uma linguagem teológica e claramente metafísica. Ao falarem de
sua constituição física, tratam-na de “meu corpo”. Ouvindo-os, temos a
impressão de que, naquele momento, é o espírito daquela pessoa que, mesmo inconsciente,
dirige-se do interior ao exterior, para descrever as suas condições físicas.
A
composição do ser humano não é meramente complexa; é maravilhosa e
inexplicável. Somente Deus para criar um ser capaz de abrigar, em sua parte
física e tangível, substâncias imateriais tão elevadas e perfeitas como a alma
e o espírito. E, mesmo assim, a alma não se aparta do espírito, e ambos não
deixam o corpo. Quando isso ocorre, dá-se o que a Bíblia chama de morte: a
separação de nossas substâncias material e imateriais.
2. O anseio natural do espírito
humano.
Sendo proveniente de Deus, o espírito humano
anseia pelo Pai Celeste, conforme Paulo muito bem acentuou aos atenienses (At
17.21,22). Já o salmista confessou que a sua alma suspirava por Deus (Sl 42.1).
Infelizmente, não são poucos os que, devido a uma vida ímpia e blasfema,
sufocam o seu almejo pelo Criador. Nossa substância imaterial, embora provinda
de Deus, chega-nos ao corpo sem qualquer pré-existência, pois uma existência
prévia denotarlhe-ia eternidade — um atributo exclusivamente divino. Todavia,
não podemos ignorar nossa origem divina; todo o nosso ser provém de Deus.
O mesmo
alento que o Criador assoprou nas narinas de Adão, tornando-o alma vivente,
continua a dar vida a cada ser humano, no exato instante de sua concepção.
Embora nossa parte imaterial não tenha um histórico de existência prévia, ela
veio de Deus e, para Deus, anseia voltar com todo o nosso ser. A ressurreição,
portanto, compreende a revivicação de nosso corpo, alma e espírito.
Se a
nossa parte imaterial não tem histórico algum de pré-existência, não carrega,
em si, obviamente, aquele sentimento que, na língua portuguesa, chamamos de
saudade. Como todos sabemos, a saudade é um sentimento de melancolia e
tristeza, que nos remete a uma pessoa já distante ou a um lugar mui longínquo.
Logo, não podemos ter saudades dos Céus, porque lá jamais estivemos; todavia,
ansiamos por Deus, porquanto o nosso interior — a sede de nossas mais profundas
afeições — saiu de Deus e, para esse mesmo Deus, todo o nosso ser anseia
voltar, conforme Davi certa vez confessou: “Como suspira a corça pelas
correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma. A minha alma
tem sede de Deus, do Deus vivo; quando irei e me verei perante a face de Deus?”
(Sl 42.1,2, ARA).
Entre o espírito e a carne, há uma luta
renhida. Esta, por ser carne, propende às coisas deste mundo; aquele, por ter
saído de Deus, suspira pelas coisas divinas. A guerra que se trava em nosso
ser, às vezes, torna-se insuportável. E, conforme a narrativa sagrada, grandes
santos, como Davi, deixaram-se dominar, ainda que momentaneamente, pelos
desejos do corpo. Mas, depois, arrependidos, voltaram a Deus. Quando lemos o
Salmo 51, percebemos como o rei de Israel, agora suplantando a carne, permite
ao seu espírito sobressair-se. Num outro cântico, o salmista confessa que a sua
carne, apesar de sua natureza pecaminosa, anseia pelo Senhor: “A minha alma
suspira e desfalece pelos átrios do Senhor; o meu coração e a minha carne
exultam pelo Deus vivo!” (Sl 84.2, ARA).
O anseio natural do espírito humano é pelas
coisas divinas. Mas, se permitirmos que o corpo domine a alma, como poderá o
espírito vencer uma luta tão desigual. Por essa razão, o apóstolo Paulo roga
aos irmãos de Tessalônica que, dominados pelo Divino Consolador, consagrem todo
o seu ser ao Deus Único e Verdadeiro — corpo, alma e espírito. A santidade,
portanto, é o domínio pleno de nosso espírito sobre a alma e o corpo. Nessa
batalha, às vezes, tão assimétrica e cruel, confiemos nas provisões divinas. Se
pecarmos, o sangue de Jesus Cristo nos purificará de todo o pecado.
3. A revificação do espírito
humano. Por intermédio de sua morte redentora, Jesus
Cristo vivifica o homem que jaz morto espiritualmente (Ef 2.1; Cl 2.13). Só Ele
é a ressurreição e a vida (Jo 11.25). Antes de Adão morrer fisicamente, veio a
experimentar, ali mesmo no Éden, o óbito espiritual. A morte de que lhe falara
o Senhor, pouco depois de o haver criado, começaria por deteriorá-lo do
interior para o exterior; de dentro para fora; do espírito, passando pela alma,
até, finalmente, corroer-lhe todo o corpo. Portanto, a primeira vítima da
transgressão de nosso primeiro genitor foi o seu espírito. Mas Deus não
permitiu que o espírito do primeiro ser humano se perdesse; redimiu-o mesmo
tendo de expulsá-lo do Paraíso. E, alguns milênios depois, servia ele de figura
para a redenção que nos proporciona o Senhor Jesus — o Último Adão.
Se o homem, ao pecar, começa a morrer em seu
espírito, depreende-se que a sua redenção tem início não em seu corpo, ou em
sua alma, e sim no mais interior de seu âmago: no espírito já morto em delitos
e iniquidades. É nessa região tão insondável de nosso ser que o Espírito Santo
inicia a nossa vivicação. Dá-se, então, o que o Senhor Jesus chama de “nascer
do espírito”. Somente o Divino Consolador é capaz de trazernos o espírito
novamente à vida (Jo 3.6). A partir daí, renova-se todo o nosso ser. Corpo,
alma e espírito, já plenamente redimidos, tornam-se templo de Deus e santuário
do Espírito Santo.
II.
A
Racionalidade Humana
Tenhamos em mente esta proposição: Deus é um
ser racional. Logo, há perfeita harmonia entre a genuína razão e a fé bíblica.
Por isso mesmo, Ele requer, de cada um de nós, um culto racional.
1.
Deus
é um ser racional. Certa vez, o Senhor desafiou o
povo de Judá, que caíra na apostasia, a arrazoar acerca do verdadeiro caminho
(Is 1.18). Portanto, Ele requer de seus servos uma postura racional, porquanto
dotou-nos de razão. Não temos uma natureza animal e bruta, mas racional e inteligente
(Sl 32.9).
De acordo com a Bíblia Sagrada — o mais
razoável e lógico dos livros —, a razão é o instrumento com que o Criador nos
dotou, afim de administrarmos o universo visível. Não há, pois,
incompatibilidade entre a razão, quando usada corretamente, e a genuína fé em
Deus. Embora esta se ache acima daquela, entre ambas não há qualquer
antagonismo. Em sua Epístola aos Romanos, o apóstolo Paulo demonstra que os
gentios, ao atentarem razoavelmente à criação divina, chegam a uma conclusão
mais do que lógica: a existência do Único e Verdadeiro Deus. Haja vista o
ocorrido em Atenas. Apesar de todos os altares dedicados, ali, ao panteão
grego, havia um espaço singular consagrado ao Deus Desconhecido.
Tributamos erradamente a Aristóteles (384-322
a.C.) a invenção da lógica, pois tal ciência, cujo objetivo é investigar nossas
operações intelectuais, não foi inventada por homem algum; é um recurso que
Deus colocou na alma de todos os seres humanos. Se dela zermos bom uso,
lograremos descobrir as verdades que estão ao nosso alcance. Mas, se a
alimentarmos com inverdades, concluiremos enganos e mentiras, pois nem tudo o
que é lógico é verdadeiro. No que tange à lógica, como legítimo instrumento de
pesquisa, Salomão usou-a de forma sistemática bem antes de Aristóteles e de
Francis Bacon (1561-1626). Assim escreveu o mais sábio dos homens: “Eis o que
achei, diz o Pregador, conferindo uma coisa com outra, para a respeito delas
formar o meu juízo [...]. Eis o que tão-somente achei: que Deus fez o homem
reto, mas ele se meteu em muitas astúcias” (Ec 7.27-29, ARA).
2.
A
harmonia entre racionalidade e espiritualidade. A verdadeira
espiritualidade manifesta-se de maneira racional, porquanto o nosso Deus é um
ser racional por excelência. Ele não é de confusão (1 Co 14.33). Para que o
agrademos, o Espírito Santo nos desenvolve a inteligência espiritual (Cl 1.9).
Se Deus não fosse um ser racional, nós também
não o seríamos, porquanto Ele nos criou segundo à sua imagem e semelhança. E,
nessa semelhança e imagem, encontra-se, logicamente, o atributo da
racionalidade. Doutra forma, a comunhão da criatura com o Criador seria
impossível, porque jamais viríamos a entendê-lo, nem Ele, apesar de toda a sua
ciência e presença, lograria compreender-nos. Mas, sendo Ele um Ser perfeitamente
racional e innitamente sábio, criou seres racionais e também sábios: anjos e
homens. É claro que a nossa racionalidade e sabedoria são imperfeitas e
limitadas, quando comparadas à razão e ao saber divinos, mas tais limites e
imperfeições não nos incapacitam de ouvir e entender o Pai Celeste.
Que Deus é um ser racional, não há dúvida.
Todavia, não necessita Ele de operações intelectuais, como a lógica, para
descobrir o que é certo e errado, ou o que é verdade e mentira. Ele sabe de
todas as coisas; conhece-as absolutamente desde o princípio até o m; presente,
passado e futuro não lhe constituem qualquer mistério. Enfim, Deus não precisa
raciocinar para concluir que dois mais dois são quatro, porque não somente as
operações matemáticas, como a própria matemática, saiu de seu espírito. NEle, e
somente nEle, residem todos os tesouros da ciência. Embora perfeito em
conhecimento, Deus revelou-se de tal maneira à humanidade, que até mesmo a
criança mais débil e o homem mais ignóbil são capazes de compreender as belezas
e mistérios do Evangelho, conforme o Filho, exultante, agradece ao Pai: “Graças
te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos
sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi
do teu agrado” (Lc 10.2, ARA). Por esse motivo, o Senhor Jesus ordenou-nos a
pregar as Boas Novas a toda criatura, porque todos, até mesmos os loucos, são
habilitados, pelo Espírito Santo, a entender, aceitar e viver as verdades
evangélicas (Is 3.8). Caso contrário, a mensagem da cruz seria algo tão inútil
como as losofias que, forjadas nas academias mundanas, são ininteligíveis até
mesmo aos que as escrevem.
Quanto aos sábios deste mundo, que confiam no
próprio saber e fazem da lógica a sua pedra de esquina, o Evangelho torna-se
algo incompreensível, louco e escandalizável, conforme escreve Paulo aos irmãos
de Corinto (1 Co 1.18-25).
Há os que ensinam que só viremos a compreender
o Evangelho de Cristo se nos munirmos de um método hermenêutico de comprovada eficácia.
Uns propõem o histórico-crítico. Outros, o histórico gramatical. Ainda outros
sugerem a desconstrução sumária dos profetas e dos apóstolos, a m de se erguer,
sobre os despojos dos autores sagrados, um evangelho que, rigorosamente, em
nada lembra o Evangelho de Cristo, que Paulo pregava com poder e graça (1 Co
1.18; Gl 1.8). Quanto a mim, proponho um método comprovadamente eficaz: o
canônico, cuja essência é resumida nesta proposição áurea — a Bíblia
interpreta-se a si mesma. Foi o método, aliás, utilizado pelos apóstolos e
evangelistas do Novo Testamento (At 7; 8.35). O Cristo fez uso desse recurso
(Lc 24.27). Colocando-o em prática, valemo-nos de outra proposição igualmente
áurea: o Espírito Santo é o real intérprete da Bíblia Sagrada.
Tenhamos em mente, pois, um dos atributos mais
sublimes da Palavra de Deus: a conspicuidade — a excelência daquilo que é claro
e perceptível. No Salmo 119, o autor sagrado discorre sobre as qualidades da
Bíblia Sagrada; um livro que restaura o sábio e dá vida ao ignorante. Mas, para
que isso ocorra, é necessário que tanto um quanto outro se curvem à soberania
das Escrituras Sagradas.
3. O culto racional agrada a Deus.
Posto que Deus é um ser racional, devemos cultuá-lo racionalmente (Rm 12.1).
Isso significa, antes de tudo, que a nossa adoração ao Pai Celeste tem de ser
perfeitamente entendida, explicada e praticada (Êx 12.26; 1 Pe 3.15). Doutra
forma, não terá valor algum (Jo 4.22). Aliás, o culto cristão é o mais racional
de todos, apesar de parecer, para os incrédulos, escândalo e loucura (1 Co
1.18,24).
O culto que rendemos a Deus tem de ser
racional, mas não pode ser racionalista, nem deve estar submisso ao
racionalismo. Essa proposição não é um jogo de palavras, nem um mero ornato
retórico; é algo a ser observado em todos os nossos atos de adoração ao
Todo-Poderoso. Ela traduz plenamente o que Paulo ensinou à igreja em Roma:
“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso
corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto
racional” (Rm 12.1). Não sei quantas vezes li essa passagem. Mas, somente
agora, começo a descobrir-lhe as reais belezas e mistérios.
Antes de tudo, atentemos à recomendação que o
apóstolo faz aos irmãos de Roma. Solícito e preocupado, escreve-lhes:
“Rogo-vos”. Tal expressão é usada, no grego moderno, para se pedir um obséquio
a alguém: Parakaló, “por favor”. Então, gentilmente, o apóstolo dirige-se
àquele rebanho, para implorar-lhe um grande obséquio não para si, mas para cada
uma daquelas ovelhas: a apresentação de seus corpos como sacrifício vivo a
Deus, que é o seu culto racional. O culto a Deus deve ter início no lugar mais
reservado e santo de nosso ser — o espírito: a sede de nossas afeições e
sentimentos. A m de qualicar esse ato cultual, o apóstolo escolhe o termo grego
latreia, para mostrar-nos como deve ser a adoração que agrada a Deus. Essa
palavra denota serviço único, adoração singular, devoção excelente e entrega
incondicional. Mas, para alcançar tais qualidades, o culto não pode ser marcado
apenas por emoções e sentimentos. Precisa ser caracterizado, em primeiro lugar,
pela racionalidade, que nos advém da leitura piedosa e atenta das Sagradas
Escrituras.
O adjetivo “racional”, usado por Paulo, advém
do termo grego logikos, que, num primeiro momento, pode ser traduzido como
lógica e razão. Mas, aqui, suplanta tanto a razão quanto a lógica, mas não as
contradiz quando legitimamente usadas. Os gregos e romanos, conquanto
ilustrados e cultos, não sabiam como harmonizar a razão com o culto ao Deus
Único e Verdadeiro. Por isso, ostentando um saber que jamais tiveram, zeram-se
loucos devido à sua vida libertina e devassa (Rm 1.22). Os discípulos de
Cristo, porém, em virtude de sua pureza e santidade, mostravam, na prática, um
culto racional e, ainda, apresentavam a razão de sua fé e serviço a Deus:
“antes, santicai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre
preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há
em vós” (1 Pe 3.15, ARA).
No verdadeiro culto a Deus, a latreia precede a
leitourgia. Que nos lembremos dessa proposição em todos os nossos atos
cultuais. Se a nossa adoração particular não for caracterizada pelo amor e pela
racionalidade de que fala o apóstolo, o nosso culto público tende a ser frio,
mecânico e formal. Assemelhar-nos-emos aos judeus contemporâneos de Isaías. Não
obstante todo o seu aparato cerimonial, louvavam a Deus apenas com os lábios,
pois o seu coração achava-se longe do Senhor. Quando se chega a esse estado de
decadência espiritual, a adoração — latreia — torna-se idolatria, e o serviço
público a Deus — leitourgia — redunda num mero e pecaminoso liturgismo. Nessas
condições, o que deveria ser um culto racional converte-se numa reunião
racionalista, na qual as razões humanas suplantam a sabedoria divina. Daí, em
diante, um racionalismo satânico começa a dominar todos os elementos da Igreja
de Cristo — doutrina, teologia, cânticos, ministérios e a própria esperança na
vinda do Senhor.
O que
Deus requer, de cada um de nós, é um culto verdadeiramente racional: a posse
completa de nosso corpo, alma e espírito. Consagremo-nos inteiramente ao Senhor!
Se não o fizermos, jamais o veremos.
III. A Sociabilidade Humana
Deus nos criou gregários e sociais; a solidão é
contrária à nossa natureza. Por essa razão, Ele instituiu, em primeiro lugar, a
família e, só depois, o Estado. Nesse contexto, a Igreja de Cristo é
apresentada como a sociedade perfeita.
1.
A solidão é nociva ao ser humano. No período da
criação, a única coisa que Deus armou não ser boa foi a solidão (Gn 2.18). Por
isso, Ele fez a mulher para que o homem tivesse uma companhia idônea e sábia
(Gn 2.21-25). Somente os que se insurgem contra a verdadeira sabedoria buscam
viver isolada e solitariamente (Pv 18.1).
3.
A
família é a origem da sociedade humana. A família é mais
importante do que a sociedade e mais imprescindível do que o Estado, pois ambos
dependem do lar doméstico. Salomão, um dos maiores estadistas de todos os
tempos, escreveu dois salmos (127 e 128), exaltando o papel fundamental da
família na sociedade e no Estado. Somente as ideologias malignas, como o
comunismo, exaltam o Estado em detrimento da família.
3.
A Igreja de Cristo, a sociedade perfeita. Em o Novo
Testamento, a Igreja de Cristo é apresentada como a sociedade perfeita, porque
nela todos formamos um único corpo (1 Co 12.13). Essa união, impensável em
termos sociológicos, é denominada o mistério de Deus pelo apóstolo Paulo (Ef
3.1-12).
III.
A
Liberdade Humana
Deus
concedeu-nos o livre-arbítrio, para que escolhêssemos entre o bem e o mal. Se,
por um lado, temos a liberdade de agir; por outro, não podemos esquecer-nos da
soberania divina.
1.
O livre-arbítrio. O livre-arbítrio pode ser denido
como a capacidade humana de tomar livremente uma decisão. Tal atributo é
observado em diversas passagens das Escrituras (Gn 13.9; Js 24.15; Hb 4.7).
2.
O ato de decidir. Segundo a Bíblia, o ato de
decidir entre o bem e o mal, entre Deus e os ídolos, e entre aceitar Jesus e
recusá-lo é um direito que o Todo-Poderoso nos concedeu (Gn 2.9; 1 Rs 18.21; Mc
15.15,16).
3.
A soberania divina. Já que Deus concedeu-nos o
direito de escolha, ajamos com responsabilidade e discernimento, porque todos
seremos responsabilizados por nossas escolhas (Ec 11.9; Rm 14.12). Portanto, o
livre-arbítrio humano e a soberania divina não são excludentes; são
perfeitamente harmônicos. Entre ambos, conforme disse alguém mui sabiamente,
encontra-se o Senhor Jesus Cristo.
4.
A
liberdade cristã e o amor. A liberdade cristã é um dos
maiores institutos que o Senhor Jesus nos confiou mediante a sua morte.
Todavia, temos de usá-la com temor e responsabilidade, para não a
mundanizarmos. Eis o que nos recomenda o apóstolo: “Porque vós, irmãos, fostes
chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne;
sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor” (Gl 5.13). Quando somos
dirigidos pelo Espírito Santo, usamos dessa liberdade com prudência e cuidado,
visando não propriamente nossos interesses, mas a saúde espiritual dos que nos
cercam. Se determinados alimentos, como a carne, escandalizam o meu irmão, por
que me dar a essa iguaria em público? Mais vale a saúde espiritual desse meu
conservo, em Jesus Cristo, do que um prazer que, embora lícito, faz-se ofensivo
naquele momento. Como diz Paulo, todas as coisas me são lícitas, mas nem todas
me convêm.
Na sociedade pós-moderna, os escândalos se
sucedem. Ignorando fronteiras e limites, os que os praticam alegam ter
liberdade para agir como bem entenderem. Mas nós que somos salvos temos uma
norma de conduta alta e sublime; somos orientados pela Bíblia Sagrada. E, dessa
forma, nosso livre-arbítrio coloca-se, amorosa e voluntariamente, sob a
soberania de Jesus Cristo. Por esse motivo, privamo-nos, às vezes, de algo
lícito, a m de que um amado irmão em Cristo não se aprisione por causa de minha
liberdade.
IV.
A
Criatividade Humana e o Trabalho
O
trabalho não é consequência do pecado, mas uma bênção na vida do homem. Neste
tópico, veremos que, através do trabalho, o ser humano transforma e preserva a
Terra.
1.
A dignicação do trabalho. Deus criou o homem para
trabalhar a Terra, ará-la e transformá-la, a m de torná-la habitável (Gn 1.26;
2.15). Por conseguinte, o trabalho não é um castigo devido ao pecado de Adão,
mas uma bênção a todos os seus descendentes. A Queda apenas tornou as
atividades laborais mais árduas e estressantes (Gn 3.17-19). A Santíssima
Trindade é um exemplo de trabalho e operosidade (Gn 2.1-3; Jo 5.17).
2.
A criatividade humana. Os descendentes de Adão,
trabalhando metodicamente, logo descobriram as mais variadas técnicas (Gn
4.2,3,20- 22). Rapidamente, evoluíram. Na terceira geração, já dominavam a
agricultura, a pecuária, a metalurgia e a arte musical. A partir da torre de
Babel, o homem já dava mostras de ter condições de governar tecnologicamente
todo o planeta, em virtude de sua criatividade (Gn 11.6). Todavia, jamais
poderemos ultrapassar os limites que o Senhor nos estabeleceu.
Conclusão
No
Areópago de Atenas, o apóstolo Paulo reconhece todos os atributos que o Criador,
bondosamente, nos concedeu. Sem tais qualidades, nossa existência seria
impossível. Tendo em vista a jornada do homem, desde a sua expulsão do Éden,
podemos armar que, apesar da Queda, a humanidade vem evoluindo continuamente.
Mas, em termos espirituais, o homem regride de forma nociva e fatal. Só o
Evangelho de Cristo é capaz de restaurar-nos.
Você já recebeu o Senhor Jesus como o seu
Salvador pessoal? Faça-o, agora mesmo. Sem Ele, a vida humana perde todo o seu
significado .
A Raça Humana – Claudionor
de Andrade
A DOUTRINA DO HOMEM
1.
BASE DA RELIGIÃO A religião tem o seu fundamento e
a sua razão de ser numa relação vital entre duas pessoas: Deus e o homem. A
teologia, para ser fiel à sua significação, deve ocupar-se não só do estudo
acerca de Deus, mas também acerca do homem. Ê mister que conheçamos bem o homem
para que não caiamos em erro. Um erro neste assunto poderia levar-nos a erros
ainda mais graves e perigosos no decorrer do estudo que fazemos tocante às
relações entre o homem e Deus. Convém, pois, que conheçamos o homem na sua
constituição e nos seus poderes essenciais. E verdade que nem todos os poderes
pessoais têm o mesmo valor para o nosso estudo, mas, mesmo assim, são
indispensáveis. Tudo quanto pudermos conhecer sobre o homem e sua natureza nos
servirá nq estudo da sua relação com Deus.
Daremos mais atenção, naturalmente, ao estudo
dos poderes essenciais do homem, porque são estes que o separam dos irracionais
e melhor o definem.
2. A CONSTITUIÇÃO DO HOMEM
Compõe-se o homem de corpo e alma. Esta dupla divisão da constituição do homem
é a mais geralmente observada na vida. É a divisão que ressalta logo à vista
quando ele começa a pensar a respeito da sua própria natureza. E, ainda mais, é
a que se observa mais facilmente nos outros. O homem compõe-se, então, de corpo
e alma.
3.
O CORPO Quanto ao corpo, podemos dizer que é o
instrumento, o tabernáculo, a oficina do espírito. È o meio pelo qual ele se
manifesta e age no mundo material. O corpo é o órgão dos sentidos, é o laço que
une o espírito ao universo material. É bom notar, desde já, que o agente moral
não 6 o corpo, senão o espírito que nele habita.
As impressões vêm de fora pelo corpo, porém
elas só têm significação quando reconhecidas e atendidas pelo espírito. A
consciência própria, a direção própria, o poder de pensar, querer e amar
pertencem exclusivamente ao espírito. O espírito é o agente, o corpo, a
agência. "Alguém há entendido que as Escrituras apresentam uma tríplice divisão
do homem. Firma-se esta idéia em passagens da Bíblia onde se empregam os termos
corpo, alma e espírito em conjunto. Por exemplo; em I Tessalonicenses 5:23,
lemos: «E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso sincero
espírito, e alma, e corpo sejam conservados irrepreensíveis para a vinda de
nosso Senhor Jesus Cristo.» Segundo esta idéia da tríplice divisão da natureza
humana, a parte mais elevada do homem é o espírito. Em segundo lugar, vem a
alma; e por último, o corpo.
O
espírito é o órgão de comunhão com Deus: a alma é a sede da personalidade; e o
corpo, o tabernáculo da alma. I»Dizem, portanto, que o homem é uma alma e tem
corpo e espírito. Esta idéia, porém, é errônea. As passagens citadas em seu
abono, uma vez bem entendidas, têm outra significação. Muitas vezes o uso
destes três termos é feito apenas para enfatizar a idéia de que o homem é
contemplado no seu todo, como, por exemplo, vemos no verso 30 do capítulo 12 do
Evangelho de Marcos: «Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda
a tua alma e de todo o teu entendimento e de toda a tua força.»
Geralmente, quando os escritores sagrados
faziam uso destes dois termos alma e espírito tratavam de uma só coisa, em
diferentes relações. Empregavam eles ordinariamente o termo espírito quando se
referiam à relação da vida do homem para com Deus; e alma, quando faziam
referência à relação da vida do homem para com as coisas terrenas.
O homem pode ser comparado não a uma casa de
três andares, mas a uma de dois. No segundo andar, porém, além de janelas que
dão para o mundo, há uma clarabóia, que dá para o céu. A alma é a janela pela
qual o homem contempla as coisas desta vida aqui na terra, e a clarabóia é o
meio pelo qual a mesma pessoa contempla as coisas celestiais. Nesta comparação,
o andar térreo representa, naturalmente, o corpo. Ainda mais, na criação do
homem encontramos somente duas coisas: a alma, ou espírito, e o corpo.
A teologia mui pouco tem a dizer a respeito do
corpo. E preciso, porém, notar, de passagem embora, que ele é do universo
físico quanto à sua matéria e estrutura. O corpo compõe-se da mesma matéria do
planeta em que vivemos. Ensina-nos a Bíblia que o corpo foi tirado da terra. 0
corpo é pó. É criação de Deus. Quanto ao modo por que Deus o criou, nada sabemos
além do que nos declaram as Escrituras, a saber, que Deus usou da matéria já
existente, para a sua formação.
4. RELAÇÃO
ENTRE 0 CORPO E A ALMA No tocante à relação entre o corpo e a alma ninguém
saberá dar uma explicação satisfatória. O mais que se pode dizer é que essa
relação é muito Íntima. Para compreender-se esta verdade basta pensar-se nas
muitas maneiras pelas quais o espírito influi sobre o corpo, e o corpo, sobre o
espírito. Às vezes uma só notícia desagradável basta para mergulhar o espírito
na maior tristeza. Por outro lado, uma notícia boa enche o corpo de alegria
indescritível. É tão íntima a relação entre alma e corpo que o estudo de
psicologia começa com o de fisiologia. E é pela mesma razão que este precede
aquele. É tão íntima esta relação, que muitas pessoas há que julgam serem o
corpo e o espírito uma mesma coisa.
5.
O
ESPIRITO Em se tratando do espírito, podemos afirmar
que ele é também criação de Deus. «E formou o Senhor Deus o homem do pó da
terra, e soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma
vivente» (Gênesis 2:7). O espírito é imaterial e invisível. Ele habita no corpo
e age por meio dele. Não se submete, naturalmente, a uma análise, como o corpo,
pelo que só nos é possível julgá-lo pelas suas manifestações. Tem o espírito
três modos de proceder, dependentes de três poderes, que o caracterizam, que
são o intelecto, a afeição e a vontade. E ao intelecto que o homem deve a sua
faculdade de julgar, recordar, imaginar e raciocinar; à afeição, a de sentir
dor, prazer, ódio, etc.; e à vontade ele deve a faculdade de escolher, rejeitar
isto e aceitar aquilo, e seguir o seu destino, pondo em prática as deliberações
tomadas. Cada ato humano deve compor-se destes três elementos, isto é, estes
três poderes devem associar-se harmonicamente na realização de qualquer ação
que pratiquemos. E dever do intelecto julgar bem os fatos. Este juízo vem,
então, servir de base aos sentimentos, que têm por fim induzir a pessoa à ação.
Toda ação, porém, espera pela decisão da vontade. E assim que operam os três
poderes dentro do espírito. O indivíduo compõe-se, assim, destes três poderes
combinados numa só unidade. Nas três divisões da pessoa não falamos do corpo
porque cremos que o homem pode existir sem corpo. O espírito é o ego % é o homem,
e o corpo é aliado seu, e também servo e instrumento, e ainda sua oficina e
moradia.
Notemos
agora os característicos que distinguem o espírito das outras criaturas. Como
já observamos, quanto ao corpo, o homem não difere tanto dos animais como no
que concerne ao espírito. E no espírito que encontramos a grande diferença
entre o homem e os irracionais. Em muitos pontos, fisicamente falando, parece
haver certa semelhança entre o homem e os irracionais, mas quando chegamos a
tratar do espírito, ai a diferença é tão grande que já não encontramos meio de
compará-los entre si. Quais são, neste caso, os característicos que distinguem
o homem dos animais irracionais? Notemo-los.
Consciência própria
O primeiro ponto que serve de distinção entre o homem e os irracionais, que
aqui discutiremos, é a consciência própria. 0 homem tem o dom de fixar em si
mesmo o pensamento, e isto o faz cônscio de sua própria personalidade. A
faculdade que ele tem de proferir o pronome Eli, faz surgir um abismo
intransponível entre ele e os outros animais. Nenhum animal jamais pronunciou
EU, e a razão é que eles não têm consciência própria.
5.2. O
poder de pensar em coisas abstratas
Este é o segundo ponto que separa o homem dos
outros animais. Qualquer animal pode pensar numa laranja amarela, porém não é
capaz de separar a cor amarela da laranja e pensar nela independentemente do
objeto. Se um animal pensa numa cor, será uma cor identificada com algum
objeto. 0 homem, ao contrário, tem capacidade de pensar não só na cor
independente de qualquer objeto colorido, como também em outras coisas
abstratas, tais como ódio, amor, prazer, etc. A faculdade de cogitar das coisas
abstratas é privilégio exclusivo do homem, privilégio que lhe abre um campo
vastíssimo de desenvolvimento, que ao irracional está eternamente fechado. Aqui
temos uma das bases das artes, como a pintura, a escultura, etc.
5.3. A
lei moral
Queremos, em
terceiro lugar, chamar a atenção para o fato de que o homem reconhece a
existência de uma lei moral a que ele está sujeito. Por meio dela, o homem tem
ciência da diferença entre o bem e o mal, e compreende o dever de obedecer à
lei moral, não só pelo respeito de qualquer autoridade exterior, como também
por um constrangimento interior. Até o ente mais embrutecido reconhece a obrigação
de andar em conformidade com esta lei moral, e todas as vezes que a transgride
sente-se condenado pela consciência e até castigado pelo remorso. Este juízo
pessoal é inevitável, pelo fato de conhecer o homem a existência desta lei.
Neste ponto o homem se afasta muito dos irracionais, porque ninguém jamais
ouviu contar de um animal que devolvesse um roubo, o que se dá amiúde com os
homens. Haja vista a «caixa da consciência», instituída pelo governo americano
do norte, com o intuito de receber, sem que se saiba a procedência, quantias
voluntariamente devolvidas por pessoas acusadas pela consciência de haverem
defraudado o governo. Passam, às vezes, anos e anos antes de aparecer o
resultado da operação da consciência ou do remorso na vida da pessoa, mas finalmente
o homem cede e decide espontaneamente a devolver aquilo a que não tem direito.
O homem está sob o império da lei moral, e isto constitui um dos pontos de
distinção entre ele e o bruto. Podemos, portanto, apelar para a consciência do
homem, porque ela é uma realidade.
5.4. A
natureza religiosa do homem
A natureza
religiosa estabelece um ponto de profundo contraste entre o homem e o animal.
Alguém já disse que o homem é um ser incuravelmente religioso. E isto é
verdade, porque, onde quer que o encontremos, haveremos de achar também as
manifestações de sua natureza religiosa. Ele reconhece a existência de um Ser
Supremo, diante do qual sente o dever de prostrar-se, prestando-lhe obediência
e culto. As catedrais, os templos, as casas de oração espalhadas por todo o
mundo, são testemunhas silenciosas, mas que patenteiam» de modo eloqüente, esta
grande verdade. E de interesse notar que ainda não houve, em tempo algum, um
irracional, mesmo entre os de inteligência mais desenvolvida, que erigisse um
templo ou um altar em nome da religião. Isto basta para demonstrar o valor da
religiosidade do homem, o que constitui um abismo intransponível entre ele e o
irracional.
5.5. A
escolha de um alvo
O poder de
escolher um alvo para a vida é faculdade exclusiva do homem; e isto é outro
característico que distingue e distancia o homem dos animais. O homem pode e
deve ter dois objetivos na vida: o objetivo imediato e o mediato. Os animais
não têm objetivo mediato. Não lhes é possível pensar em alguma coisa tendo
outras de permeio. 0 alvo deles é sempre imediato. Por exemplo, se comem é para
matar a fome que sentem, se bebem é para saciar a sede que os incomoda, se
dormem é para descansar o corpo fatigado. Todos estes objetivos são imediatos.
0 homem, porém, pode e deve comer, beber e
dormir não simplesmente para satisfazer às suas necessidades fisiológicas, mas
para que esteja em condições de desempenhar a sua missão na terra, atingindo,
assim, o alvo que tem diante de si. Por isto; enquanto o animal é impelido, o
homem é atraído, é chamado, é convidado por aquilo que tem como alvo na vida.
O animal, como
acabamos de observar, prende-se ao presente, mas ao homem é possível transferir
sua vida da atualidade e viver retamente no futuro. 0 animal segue apenas sua
natureza; o homem, pelo contrário, pode inibir ou expandir, obedecer ou
desobedecer, ser fiel ou infiel à sua natureza. Goza o homem de liberdade para
elevar-se às mais altas regiões morais ou rebaixar-se ao nível do irracional.
Tem a oportunidade de alcançar as maiores glórias, ou provar as maiores
vergonhas, de subir até os céus, ou de descer até o inferno. A esfera da vida
humana é vastíssima, enquanto a do animal é muito limitada.
5.6. A
intensidade da vida humana
Ainda outro característico que distingue o
homem dos irracionais é o da intensidade e vastidão da vida. Quase não há
termos com que comparar-se, neste sentido, o homem e o irracional.
Ordinariamente um animal de dois anos já experimentou tudo o que lhe era
possível experimentar na vida inteira. A vida tornase-lhe de então por diante
uma contínua repetição das mesmas sensações. Mui diferente é a vida humana,
porque o homem, aos dois anos nem sequer começou a viver, e, até os cem anos e
mais, está sempre experimentando coisas novas.
5.7. As
Atividades humanas
Ainda
outro característico, muito notável no homem, são as suas atividades. Façamos,
em torno deste ponto, algumas considerações. Se bem que não seja a linguagem
privilégio exclusivo da raça humana, verdade é que os meios de comunicação
entre os homens são muito mais vastos que entre os irracionais. Na linguagem
que lhe é própria, fala a galinha aos seus pintainhos, e quaisquer outros
animais aos de sua espécie; o homem, porém, além de falar, escreve os seus
pensamentos e pinta as suas imaginações, o que jamais ouvimos dizer fizesse
qualquer irracional.
Sabemos que os animais brincam, mas não fazem
nenhum progresso em suas diversões, ao passo que o homem melhora cada dia os
seus meios de divertir-se, transformando as suas diversões em verdadeira arte.
Haja vista o teatro, os jogos de futebol, tênis, etc. Somente o homem acende
fogueiras, constrói maquinismos, faz instrumentos, desenvolvendo, destarte, os
seus poderes naturais. O telefone, o telescópio, o microscópio, o telégrafo sem
fio, o avião, etc., são exemplos que confirmam o que vimos dizendo. É verdade
que o castor constrói represas, mas só ao homem é dada a capacidade de
utilizar-se do poder da água a fim de impelir maquinismos, melhorando assim as
suas condições de vida e promovendo o bem estar da humanidade.
O homem funda instituições educativas,
estabelecimentos comerciais e bancários, casas de caridade, e desenvolve, por
todos os meios imagináveis, a marcha progressiva da raça humana. São tão
grandes e numerosos os pontos de diferença entre o homem e o irracional que não
há confundi-los, salvo se desprezarmos todas estas considerações.
6. A SEMELHANÇA ENTRE O HOMEM E
DEUS
Estabelecida a dessemelhança entre o homem e o
irracional, desejamos agora demonstrar a semelhança espiritual que existe entre
Deus e o homem. É interessante notar, embora de passagem, que os atributos que
aproximam o homem de Deus são os mesmos que o distinguem e afastam dos seres
irracionais.
Conforme Gênesis 1:27, sabemos que Deus criou o
homem à sua imagem e semelhança; logo, a constituição do homem, espiritualmente
falando, é semelhante à de Deus, que é Espírito perfeito.
A revelação de Deus traz a evidência de que,
intelectualmente, o homem se parece com Deus, porque, se não houvesse
conformidade. na estrutura mental, seria impossível a comunicação de um com
outro, e não poderia haver, portanto, tal revelação. 0 fato de Deus
manifestar-se ao homem prova que o homem pode receber e compreender esta
manifestação. O homem é uma pessoa como Deus é uma Pessoa, e a semelhança entre
um e outro acha-se no espírito, naquilo que o homem é na sua natureza pessoal.
Assim sendo, a semelhança natural entre Deus e
o homem perdura sempre, porque o homem não poderá jamais deixar de ser uma
pessoa como Deus o é. Mas, além desta semelhança natural, há ainda a semelhança
moral, porque assim foi o homem criado por Deus. Essa semelhança moral
consistia nas qualidades morais que faziam, e ainda hoje fazem, parte do
caráter de Deus. O homem foi criado bom. Todas as suas tendências eram boas. Todos
os sentimentos do seu coração inclinavam-se para Deus, e nisto consistia a sua
semelhança moral com o Criador. As Escrituras ensinam mui claramente que o
homem foi criado natural e moralmente semelhante a Deus, e ensinam também que
ele perdeu esta semelhança moral quando caiu pelo pecado.
Além do
que já mencionamos, convém que notemos mais alguma coisa a respeito do homem.
Ele é imortal. Naturalmente falamos do espírito, porque reconhecemos que o
espírito é o homem. Entendemos por imortalidade que o espírito está destinado a
viver para sempre. Não discutiremos aqui a questão de como pode viver o
espírito sem o corpo; afirmamos apenas, sem fazer referência ao corpo, que o
espírito vive eternamente. 0 espírito tem em si os elementos essenciais para
uma vida sem fim. Uma pessoa pode continuar a viver fora do corpo.
Consideremos agora algumas razões por que
cremos na imortalidade do homem.
6.1.
A crença na continuação do espírito depois de sua separação do corpo há
existido desde os primeiros tempos, e fortalece-se hoje mais que em qualquer
outra época. A humanidade não deixa morrer esta idéia; onde quer que
encontremos o homem, descobriremos, arraigada no seu coração, a crença na
imortalidade. Uma das coisas que têm contribuído, em grande parte, para a permanência
desta crença é a própria morte física. Por ser universal, todos têm sido
obrigados a meditar nela como sendo o maior problema, e daí se originou, em
parte, a crença na imortalidade do homem. Podemos dizer que, de certa maneira,
a mortalidade do corpo tem pregado a imortalidade do espírito, porque os homens
viam o corpo morrer, mas não o espírito. Esta observação, ligada à idéia da
superioridade que o homem tem sobre o seu corpo, deu origem à crença na
imortalidade.
Até mesmo as frases que a linguagem humana foi
formando no correr dos tempos para designar a morte física revelam a crença na
imortalidade: «A alma voou», «a alma partiu», «passou aos céus», etc.
6.2. O
segundo argumento que abona a crença na imortalidade do espírito é que
precisamos de uma vida além para explicar a vida atual. É difícil crer que Deus
haja dado ao homem tantos dons, tantas possibilidades de desenvolvimento, para
que tudo acabe com a morte do corpo. Se o homem não é imortal, todos os poderes
que o distinguem dos irracionais não têm razão de ser. Os animais vivem hoje
como viviam há mil anos passados. Não têm feito, nem fazem, progresso algum. E
por que faz o homem tanto progresso material, espiritual e intelectual, se tudo
se acaba em poucos anos? 0 que recebemos nesta vida não nos recompensa pelos
sacrifícios que o progresso exige de cada um de nós. Estamos num mundo onde o
progresso depende de sacrifício. Um tem que viver e morrer por outro.
0 sacrifício é a
base de todo progresso. Qual é, pois, a razão destes sacrifícios, se não há
nada além desta vida corpórea? Seria melhor adotar os ensinamentos do
epicurismo antigo: «Comamos e bebamos hoje, porque amanhã morreremos.»
Observamos, no entanto, que a vida futura exerce mais poder na vida presente do
que os próprios interesses atuais.
Os interesses mais
imperiosos de todos os ramos de atividade humana são os que visam a vida
futura. Se estudarmos bem a vida aqui na terra, não poderemos fugir à evidência
de uma vida futura. Há muitas injustiças impunes nesta vida, e muitos atos de
justiça não recompensados. Será possível que vivamos num mundo onde se não
condene a injustiça e se não recompense a justiça? Não. A vida futura é uma
conclusão lógica da presente. Depara-se-nos ainda a questão: Por que é que Deus
criou o homem à sua imagem, se esta vida terrena encerra tudo? Não haveria
razão para isso se não houvesse nada além desta vida. 0 fato de nos haver Deus
criado à sua imagem basta para provar que somos mais do que os irracionais e
que a nossa alma é imortal. A natureza de Deus sustenta a doutrina da
imortalidade.
6.3. Cristo
e a imortalidade. Cristo confirmou e enriqueceu a crença e a esperança na
imortalidade da alma. Esta doutrina é parte integrante do cristianismo. É
verdade que a doutrina da imortalidade não está muito acentuada e clara no
Velho Testamento, mas, mesmo assim, não deixa de ter nele a sua raiz e origem.
Não obstante, é com a vinda de Jesus que a doutrina da imortalidade chegou à
plenitude de luz.
O que Cristo fez
para reforçar e esclarecer esta doutrina podemos ver em passagens como estas:
«Porque sei que disto me resultará salvação, pela vossa oração e pelo socorro
do Espírito de Jesus Cristo, segundo a minha intensa expectação e esperança de
que em nada serei confundido; antes, com toda a confiança, Cristo será, tanto
agora como sempre, engrandecido no meu corpo, seja pela vida seja pela morte.
Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho. Mas, se o viver na carne,
este é o fruto da minha obra, não sei então o que deva escolher. Porque de
ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de ser desatado, e estar com
Cristo, porque isto é ainda muito melhor. Mas julgo mais necessário, por amor
de vós, ficar na carne, e confio nisto, e sei que ficarei, e permanecerei com
todos vós, para proveito vosso e gozo da fé» (Filipenses 1:19-25). «Porque
sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de
Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna nos céus.
E por isso também
gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu; se,
todavia, formos achados vestidos, e não nus. Porque também nós, os que estamos
neste tabernáculo, gememos carregados: porque não queremos ser despidos, mas
revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida. Ora, quem para isto
mesmo nos preparou foi Deus, o qual nos deu também o penhor do Espírito. Pelo
que estamos sempre de bom ânimo, sabendo que, enquanto estamos no corpo vivemos
ausentes do Senhor (porque andamos por fé, e não por vista). Porém temos
confiança, e desejamos muito deixar este corpo e habitar com o Senhor. Pelo que
muito desejamos também ser-lhe agradáveis, quer presentes, quer ausentes» (II
Coríntios 5:1-9). «Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que,
segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança,
pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança
incorruptível, incontaminável, e que se não pode murchar, guardada nos céus
para vós, que pela fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já
prestes para se revelar no último tempo» (I Pedro 1:3-5). Sobre este assunto,
além de outras passagens, podemos examinar I Pedro 5:10 e II Timóteo 1:10-12.
Jesus fez exatamente o que disse Paulo,
«destruiu a morte, trouxe à luz a vida e a imortalidade pelo evangelho». Convém
notar que, em trazer para a luz a imortalidade, Jesus não estava criando a
doutrina, mas simplesmente revelou, esclareceu o que até então se achava um
tanto oculto e velado. Jesus tirou, da obscuridade em que se achava, a doutrina
da imortalidade, trazendo-a para a luz. O espírito fora criado imortal, e o
Mestre fez irradiar a sua luz sobre este fato; esclarecendo-o, mostrou que a
vida não era tanto uma questão de tempo como de qualidade.
A ressurreição de
Cristo confirmou também a doutrina da imortalidade do homem. Os discípulos
viram Jesus resistir e vencer a morte, c isto alicerçou mais solidamente a
crença e a esperança que eles tinham na imortalidade da alma.
7. O HOMEM COMO SER MORAL
Um ser moral é um ente livre e ativo, mas ao
mesmo tempo sujeito a uma lei no que diz respeito ao bem e ao mal. 0 homem é
tal ser. Desejamos estudar aqui, analiticamente, os elementos da constituição
moral do homem, como já o fizemos em relação aos elementos da sua constituição
natural. Iniciemos o estudo pela consciência humana.
7.1.
A consciência A consciência é o juízo do homem aplicado ao seu próprio
procedimento, quer aprovando as boas ações, quer reprovando as más. Ampliemos
esta definição: juizo é o intelecto operando no discernimento das relações entre
objetos e entre idéias. Uma das relações é aquela que um ato ou uma qualidade
tem para com o bem ou o mal. Este poder do homem de julgar o bem e o mal
chama-se faculdade moral; mas isso não quer dizer que esta faculdade moral
representa um poder diferente do poder geral do intelecto em julgar qualquer
coisa. Não. A faculdade moral não é um poder à parte, e, se toma este nome, não
é por diferir do poder intelectual, mas simplesmente por causa da natureza das
coisas julgadas. A faculdade moral é a mesma inteligência julgando atos e
qualidades do ponto de vista moral, já os condenando, já os aprovando. A pessoa
é um juiz, e, portanto, exerce o juízo.
Notemos aqui que esta faculdade moral julga os
atos e qualidades tanto dos outros como de si próprio, se bem que o julgamento
próprio não tem a mesma significação que o ato de julgar a outrem. 0 julgamento
próprio é o mais perfeito que ao homem é dado fazer. /U vezes este julgamento
se faz acompanhar de muito gozo, muito prazer; outras vezes, segue-o um cortejo
de dor e tristeza. Sendo natural ao homem julgar os seus próprios atos e
qualidades, a consciência é, por isso mesmo, um elemento integrante da própria
pessoa. É uma faculdade inseparável do homem. No ato de julgar, a consciência
usa da medida que a própria pessoa lhe fornece. A consciência não cria o seu
próprio aferidor ou padrão moral, porque não é uma faculdade à parte da pessoa.
Podemos dizer que a consciência é a própria pessoa julgando-se a si mesma; e
visto que as pessoas diferem muito umas das outras, diferem também as
consciências. Concluímos, pois, que há tantas consciências quanto são as
pessoas.
Como já observamos, o juízo ou julgamento feito
pela própria consciência tem uma força que nenhum julgamento estranho pode ter.
Por que esta importância excepcional da consciência? Por que ela muitas vezes
não nos deixa dormir?
Quando se considera uma questão moral, isto é,
uma destas lutas que muitas vezes se travam entre o bem e o mal, uma parte do
homem procura arrastá-lo ao mal, e da outra ele ouve como que uma voz a
segredarlhe: Fase o bem. A aprovação de si mesmo significa que se fez o que se
deveria fazer; e a condenação indica o contrário. Sempre quando faz o que não
deve, o homem se torna culpado diante da própria consciência, o homem prova-se
falso e traidor de si mesmo, perdendo o respeito próprio. Segue-se, então,
severo juízo da consciência, que, em certos casos, leva o homem ao remorso, ao
desespero e até ao suicídio.
Aquele que fica sem o apoio de si mesmo
torna-se desamparado, condenado pela própria consciência e por Deus. Aquele que
não tem o apoio de si mesmo condena-se a um fracasso completo na vida.
Precisamos, portanto, viver em paz com a nossa consciência. É de muito mais
importância que haja paz entre nós e a nossa consciência do que gozar paz em
nossas relações com outras pessoas. Haja vista o caso de Jó. 0 julgamento,
portanto, de si mesmo é muito mais grave, e não há fugir dele. 0 homem é de tal
natureza que este julgamento lhe vem impreterivelmente.
Este
juízo não está sujeito à vontade, não depende dela e nem lhe pede permissão
para surgir em qualquer ocasião na vida da pessoa. Se dependesse da vontade,
bem diferente seria a vida aqui, porque ninguém se condenaria voluntariamente,
como, às vezes, faz a consciência. A alma humana reconhece que deve praticar o
bem e evitar o mal; e este reconhecimento do dever inato da alma é que torna a
consciência de tão alto valor e de tão excepcional importância.
7.2. O padrão universal
Sabemos já que a consciência usa da medida que
a própria pessoa lhe fornece e que, por isso mesmo, há tantas consciências
quantas são as pessoas. Mas alguém nos perguntará se não há uma medida comum
para todos. Sim, respondemos, a medida perfeita e universal é a que existe em
Deus. «Sede perfeitos como vosso Pai que está no céu», é a expressão bíblica
desta verdade. 0 caráter de Deus é o aferidor universal ou estalão, é a base da
justiça e do dever do homem. 0 que é direito, o que é justo, determina-se pelo
caráter de Deus, e não pela consciência do homem. A nossa consciência não pode
ser árbitro final da luta em nós: Deus é o tribunal de á ultima instância.
Tudo, portanto, que é semelhante a Deus é direito, é justo; porém, tudo o que é
contrário à sua natureza é condenado.
Ele é o aferidor porque todos seremos julgados
por ele. 0 caráter de Deus é o que determina e fixa o que é justo, o que é
moral, o que é direito relativamente ao dever do homem. A expressão mais clara
deste fundamento do dever humano é Cristo Jesus. Ele é o nosso padrão. Nele e
por ele tem Deus mostrado o que é bom e justo. Jesus realizou em sua vida o que
deve ser cada pessoa. Por sua vida ele nos mostrou como deveríamos viver, e
pela sua morte e ressurreição nos deu o poder de viver como ele viveu.
Em Jesus o homem encontra o mais alto ideal, o
mais alto padrão, e por isso é que temos nele a mais patente expressão do
dever. Na própria natureza da pessoa encontramos uma expressão desta base do
dever. Como sabemos, o homem foi criado à imagem de Deus. E há uma lei natural
segundo a qual toda criatura se aproxima do seu tipo superior, o tipo modelo.
Sendo o homem feito à imagem de Deus, tem, naturalmente, o dever de
assemelhar-se a ele o mais possível. Esta lei é universal, porque cada coisa
viva tem o seu tipo de modelo, e por natureza impende-lhe o dever de se
aproximar dele. Esta lei é universal; exige que o homem viva de acordo com a
sua natureza mais alta e mais verdadeira. Isto é, exige que o homem seja o que
Deus tinha em vista quando o criou.
Cada ser neste mundo tem um tipo superior,
ideal, e dele se aproximam, por semelhança, todos os seres da mesma espécie. É
uma tendência natural. Exemplifiquemo-la. Dizem haver no Japão pessoas que se
ocupam exclusivamente da criação de passarinhos. Tomam canarinhos novos, de
raça amarela, e os põem a crescer num ambiente onde tudo é branco: gaiolas
brancas, casas brancas, móveis brancos, criados vestidos de branco, etc. Desta
maneira as penas dos canários se desenvolvem brancas também. Mas, apenas soltos
no campo, entre os outros de penas amarelas, tornam-se, em pouco, amarelos como
os demais. Isto é, voltam ao tipo original.
Um gato doméstico, logo que passe a viver no
mato, nele se desenvolve a frieza e outras qualidades do tipo superior, o
tigre. E assim por diante; todos os seres vivos obedecem a essa ordem natural.
Só o homem é um «desordeiro», porque não obstante dotado de poderes especiais,
como as faculdades de pensar, de sentir e de querer, o que falta aos
irracionais, desvia-se, ao invés de procurar aproximar-se de Deus, seu Criador,
o tipo perfeito e ideal.
Possuindo Deus toda a excelência moral, é ele,
por isso mesmo, o aferidor universal; e a necessidade de ser moralmente
semelhante a ele faz parte da constituição do homem, da sua própria natureza.
Convém saber que ninguém há que, de um momento para outro, esteja em condições
de satisfazer às exigências deste aferidor. Como o carvalho, que de humilde
semente se transforma em árvore gigantesca, atingindo o seu pleno
desenvolvimento, assim deve crescer o homem, gradualmente, neste longo processo
de tornar-se semelhante a Deus. E, como não é justo julgar um carvalho de um
ano por outro de um século, não é também justo que se julgue um homem em
qualquer época de sua vida por não haver atingido a sua estatura completa. Nem
mesmo Deus assim nos julga. Ele é justo e só nos condena por não sermos o que
podíamos e devíamos ser na hora do julgamento.
É por isso que a consciência do homem pode
servir de aferidor na vida prática; porém o homem deve reconhecer que está
debaixo da obrigação de ir aproximando-se mais e mais do caráter de Deus, o
aferidor final. A nossa consciência tem, portanto, um valor realmente grande na
vida prática. A consciência é a voz de Deus e dela podemos usar como aferidor
dos nossos atos desde que ela continue, progressiva, ininterruptamente, a
aproximar-nos de Deus.
7.3. A
vontade
Em nossa discussão acerca do homem como ser
moral temos que discutir também, além da consciência, a vontade. A vontade é o
poder que leva o homem a decidir se vai ou não proceder, e que o leva a
escolher qual a maneira por que vai executar uma ação. O homem recebe mil
sugestões de dentro e de fora; e no meio destas sugestões fica a vontade, que
tem o dever de escolher e decidir qual a sugestão que vai ser posta em ação.
Todo ato espera a decisão da vontade.
Em
relação aos demais poderes do homem, a vontade é como o presidente, o
executivo. É o homem decidindo e executando as deliberações tomadas. 0 filho
pródigo é um belíssimo exemplo de decisão. «E, tornando em si, disse: «Quantos
jornaleiros de meu pai têm abundância de pão, e eu pereço de fome!
Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu
e perante ti» (Lucas 15:17,18). Durante o tempo em que está decidindo, está o
homem debaixo de muitas influências. Há quase sempre considerações que
favorecem uma linha de ação e outras que favorecem outra. Estas considerações
denominam-se motivos.
Apesar de tudo o que já ficou dito sobre as
influências que levam o homem a agir, a vontade permanece livre. Os motivos não
forçam a vontade. Os motivos são apenas considerações entre as quais a vontade
escolhe qual será aceita e executada.
A força dos motivos depende do caráter da
pessoa. Isto é, a qualidade que faz este ou aquele motivo prevalecer não reside
no motivo, porém na própria pessoa. E, assim sendo, como já observamos, a
vontade é livre, porque, afinal de contas, é a pessoa que faz a decisão. Se a
força do motivo partisse do próprio motivo, poderia este forçar a vontade, mas
visto que sua força é emprestada da pessoa, a vontade fica livre. Por liberdade
de vontade entendemos apenas a capacidade que o homem tem de escolher a ação e
o modo de efetivá-la. A própria pessoa é quem, em última análise, determina a
ação. Pode haver muita pressão de influências externas, mas, mesmo assim, a
vontade tem que decidir a respeito do ato que se vai realizar. A vontade,
portanto, é livre neste sentido.
7.4. Quatro teoria» errôneas
Façamos
algumas ligeiras considerações a respeito de quatro teorias errôneas e muito
comuns sobre este principio de voluntariedade. Não temos tempo para desenvolver
estes pontos, nem é necessário que o façamos, pelo que apenas faremos menção
delas, a titulo de precaução, para que não suceda cairmos em quaisquer dessas
heresias.
7.4.1. Fatalismo.
Ensina o
fatalismo que tudo está fixado por um poder qualquer que não o de Deus. Não há
liberdade de vontade. Tudo quanto o homem faz, fá-lo obrigatoriamente. 0
fatalismo é um caminho tão estreito que não deixa ao homem nenhuma liberdade de
ação. 0 indivíduo entra no mundo, dá certo número de passos já determinados e
sai sem ter praticado sequer um ato próprio. Numa usina de fundição, lança-se o
ferro bruto em determinado lugar e ele sai em lugar diferente, já transformado
nas pequenas peças que ali fabricam. Segundo a teoria do fatalismo, o homem
passa pelo mundo qual matéria bruta pela usina de fundição.
7.4.2. Predeterminismo.
Segundo esta teoria, todas as coisas foram já
fixadas por Deus. Os adeptos dessa doutrina crêem que a única vontade no mundo
é a vontade de Deus, e tudo quanto acontece é por ele predestinado,
predeterminado. Desde o principio Deus criou não só o mundo, como também a
natureza dos atos que os homens haveriam de praticar. Assim sendo, desaparece,
naturalmente, a liberdade de vontade do indivíduo. A diferença entre o
Fatalismo e o Predeterminismo é que neste Deus determina tudo, ao passo que
naquele tudo é determinado por qualquer outro poder das circunstâncias.
7.4.2. Necessarianismo.
Segundo esta filosofia, tudo o que acontece é
tão-somente uma série ou sucessão de causas e efeitos. Até a decisão da vontade
do indivíduo é um efeito que causa outro efeito, o qual, por seu turno, trará
outros efeitos, c assim sucessivamente. Desta maneira qualquer ato se explica
pelo seu prece- dente.
7.4.3. Determinismo.
Em essência o
determinismo pouco difere do fatalismo, porque no determinismo a própria
matéria determina tudo. A matéria determina o motivo, o motivo determina a
força, a força, a vontade, e assim por diante. Basta, porém, que apelemos para
a consciência para encontrarmos provas da falsidade de todas estas filosofias.
Cada pessoa sabe que pode proceder de modo diferente, embora opere só dum modo.
7.4.5.
Mais duas reflexões sobre o assunto
a) Notemos primeiramente que a liberdade do
homem é limitada. Muitas coisas há em nossa vida que estão além da nossa
faculdade de escolha: a nossa nacionalidade, a nossa origem, bem como a maneira
de satisfazer à fome, de saciar a sede, de aprender a verdade, etc., são coisas
que estão fora da escolha do homem. Quem não quer comer padecerá fome, quem não
quer crer não se salvará.
O homem é finito, e sua liberdade, por isso
mesmo, é também finita.
b) O efeito da liberdade da vontade é diminuído
pela falta de harmonia entre os poderes do homem. Isto é, o homem vai perdendo
a sua faculdade de escolha quando não se utiliza dela. Um fumante, por exemplo,
depois de escravizado pelo fumo, só poderá fazer a escolha da qualidade do
cigarro que quer fumar. Da mesma maneira o alcoólatra dominado pelo vicio já
não pode escolher entre o beber e o deixar de beber; o que faz é apenas
escolher a bebida de sua preferência. A liberdade ideal, portanto, só pode
existir numa vida moralmente perfeita. A vontade é perfeitamente livre só
quando a pessoa escolhe o que há de melhor, e quando não há divergência alguma
por parte dos poderes em praticar o bem.
8. A RELAÇÃO DO INDIVÍDUO COM A
RAÇA
A relação do homem
com a raça é a mesma que há entre ele e a causa que o produziu. 0 indivíduo é
filho da raça. Ninguém faz objeção a esta idéia em se tratando do corpo; há,
porém, quem afirme que o espírito ou alma não tem afinidades com a raça. Isto
é, crêem, os que assim afirmam, que somos filhos de nossos pais somente quanto
ao corpo e não quanto ao espírito. Há diversas teorias sobre este assunto.
Notemos algumas delas.
8.1.
A teoria da preexistência
O próprio termo
explica esta teoria. Conforme este ensino, todas as almas existem antes de
entrar no corpo. O nascimento é apenas uma encarnação. Deus criou todas as
almas no principio, e em certo período do crescimento de cada corpo,
adiciona-lhe a alma. A maior dificuldade dessa teoria é que ela é inverídica, e
não há fatos que a apóiem.
8.2.
A teoria da criação imediata
Segundo esta
teoria o corpo é produzido por um processo natural, e Deus cria uma alma para
cada corpo. Neste caso, a alma não tem preexistência, mas Deus cria-a em
ocasião própria. 0 indivíduo, neste caso, só descende de seus pais quanto ao
corpo, porque o espírito é uma criação imediata de Deus. Duas dificuldades
deparam-se-nos nesta teoria: a primeira é que a semelhança entre pai c filho é
tanto no corpo como no espírito, fato este inexplicável para os adeptos dessa
teoria. A segunda dificuldade é em relação ao pecado. Conforme este ensino, ou
o pecado é só do corpo ou então Deus cria a alma pecaminosa.
8.3.
A teoria da transmissão
A teoria da
transmissão ensina que os pais transmitem aos filhos a sua natureza toda. São
pais não somente quanto ao corpo, mas também quanto ao espírito. Todos somos
criação de Deus, mas criação mediata, isto é, por intermédio de nossos pais.
Diversas considerações podemos fazer a respeito desta teoria. Ela explica
melhor os seguintes fatos:
a) A semelhança
espiritual e física entre pais e filhos.
b) O pecado inato.
c) A continuação do pecado na raça.
d) O método geral
de Deus multiplicar a sua criação. A Bíblia diz que Deus deu ao homem o poder
de multiplicar-se (Gênesis 1:28).
e) A unidade da raça.
Somente esta teoria estabelece de um modo
perfeito a unidade completa apenas em relação ao corpo, e não à alma. A teoria
da transmissão, porém, ensina a unidade da raça em sentido mais largo. Não é
verdade como alguns alegam que esta teoria seja materialista.
É
impossível. Não se constitui o homem de corpo e espírito? Pois o que eles
transmitem aos filhos são apenas elementos do seu ser. Se há uma teoria
materialista, há de ser certamente aquela que afirma que o homem descende dos
pais só quanto ao corpo, e que o espírito vem diretamente de Deus. Deve-se
notar também que a teoria da transmissão dá lugar ao fato de que Deus é o
Criador de cada indivíduo por intermédio dos pais. Segundo a Bíblia, Deus é o
Criador da erva dos campos, embora criasse primeiro a terra e a mandasse,
depois, produzir erva. Assim também Deus é o Criador de cada indivíduo por
intermédio dos pais.
Conforme essa teoria, a raça humana é uma
unidade, quer fisicamente, quer espiritualmente. Este principio é uma das
verdades mais gloriosas de que trata a Teologia Sistemática. Na raça humana
todos padecem por causa de um; e, graças a Deus, um pôde padecer por todos.
O indivíduo, é, portanto,' parente de todos os
homens por consangüinidade.
Na raça temos a base para irmandade universal.
0 brasileiro está ligado por parentesco de sangue ao chinês, o chinês ao
inglês, o inglês ao indu, todos estes entre si, e assim por diante, até
abranger a raça inteira. Para que se torne bem esclarecido este ponto, é
bastante que procuremos enumerar os nossos avós e bisavós, até a trigésima
geração. Tudo isso evidencia que cada pessoa é mais do que uma individualidade;
é o resumo, a síntese da raça inteira. Por isso é que a doutrina do
individualismo extremado conduz ao erro e exagero. Ninguém vive para si somente
e ninguém morre para si. Somos um em muitos e muitos em um.
A raça é uma unidade.
TEOLOGIA
SISTEMÁTICA A. B. LANGSTON
.
Lição 4 - Os Atributos do Ser Humano, apresentado pelo Comentarista das Revistas Lições Bíblicas de Adultos da CPAD, pastor Claudionor de Andrade. A Raça Humana - Origem, Queda e Redenção Uma obra guiada pelo Santo Espírito que nos esclarece que a antropologia tem que ser bíblica e genuinamente teológica e há de repousar em Deus, o Criador.

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