quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

CPAD - Lição 07 : A Obra do Filho - A Santíssima Trindade

 



TEXTO ÁUREO 
Pelo que também Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo o nome.

 (Fp 2.9).

VERDADE PRÁTICA 
A humilhação voluntária de Cristo, sua obra redentora e sua exaltação gloriosa revelam que somente Ele é digno de toda adoração e obediência.

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE 
Filipenses 2.5-11; Hebreus 9.24-28. 
Filipenses 2 
5 — De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, 
6 — que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus. 
7 — Mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; 
8 — e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz. 
9 — Pelo que também Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo o nome, 
10 — para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, 
11 — e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai. 
Hebreus 9 
24 — Porque Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para agora comparecer, por nós, perante a face de Deus; 
25 — nem também para a si mesmo se oferecer muitas vezes, como o sumo sacerdote cada ano entra no Santuário com sangue alheio. 
26 — Doutra maneira, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo; mas, agora, na consumação dos séculos, uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo. 
27 — E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo, depois disso, o juízo, 
28 — assim também Cristo, oferecendo-se uma vez, para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para a salvação. 
PLANO DE AULA 
1. INTRODUÇÃO 
A obra do Filho de Deus se revela em três dimensões: sua humilhação voluntária, sua obra redentora e sua exaltação gloriosa. Nesta lição, veremos que Filipenses 2 e Hebreus 9 revelam que Jesus esvaziou-se de sua glória, ofereceu-se em sacrifício vicário e foi exaltado pelo Pai. Confirmaremos que essa obra é completa, suficiente e eterna, revelando que somente Ele é digno de toda adoração e obediência. 

2. APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO 
A) Objetivos da Lição: I) Explicar a humilhação voluntária de Cristo e sua obediência até a cruz; II) Mostrar que a obra redentora do Filho é única, suficiente e vicária; III) Ressaltar a exaltação gloriosa de Cristo e sua soberania universal. 
B) Motivação: Ao contemplarmos a trajetória de Cristo — da humilhação à exaltação —, entendemos que a salvação não vem de nossos méritos, mas da obediência perfeita do Filho. Sua cruz nos redime e sua exaltação garante nossa esperança. Essa verdade deve nos inspirar a viver em santidade, submissão e expectativa do seu retorno. 
C) Sugestão de Método: Antes de iniciar a aula, escreva no quadro três palavras: Humilhação — Redenção — Exaltação. Divida a classe em três grupos e entregue a cada grupo um conjunto de versículos correspondentes (Fp 2.5-8; Hb 9.24-28; Fp 2.9-11). Peça que cada grupo leia e prepare uma explicação simples sobre como o texto se relaciona com sua palavra. Em seguida, cada grupo compartilha com a classe. Finalize mostrando que essas três dimensões formam a obra completa de Cristo.

3. CONCLUSÃO DA LIÇÃO 
A) Aplicação: A obra do Filho é perfeita e suficiente. Ele se humilhou para nos salvar, ofereceu-se como sacrifício vicário para nos redimir e foi exaltado à destra do Pai, onde reina soberano. Diante disso, devemos viver em obediência, gratidão e esperança, aguardando com fidelidade o retorno triunfal de Cristo.

4. SUBSÍDIO AO PROFESSOR 
A) Revista Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e subsídios de apoio à Lições Bíblicas Adultos. Na edição 104, p.39, você encontrará um subsídio especial para esta lição. 
B) Auxílios Especiais: Ao final do tópico, você encontrará auxílios que darão suporte na preparação de sua aula: 1) O texto “A Glória Eterna e o Esvaziamento de Cristo”, localizado depois do primeiro tópico, aprofunda o tema da humilhação voluntária do Filho de Deus; 2) O texto “O Sangue de Jesus Cristo”, ao final do segundo tópico, aprofunda o tema da Obra Redentora do Filho, tendo no derramamento de sangue sua expressão máxima de salvação.

                              Palavra-Chave: OBRA

AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO 
A GLÓRIA ETERNA E O ESVAZIAMENTO DE CRISTO 
“Jesus Cristo é o Filho de Deus, possuindo em sua própria essência a natureza divina, sendo, portanto, igual ao Pai antes, durante e depois de seu tempo na terra (cf. Jo 1.1; 8.58; 17.24; 20.28; Cl 1.15,17; Mc 1.11; veja o artigo Os Atributos de Deus, p.1025). Em outras palavras, Jesus é, foi e sempre será Deus. O fato de Cristo não ter considerado ‘usurpação ser igual a Deus’ significa que Ele, voluntariamente, abriu mão de seus privilégios e de sua glória celestial para viver na terra como homem e, por fim, entregar a sua vida a fim de que pudéssemos ser salvos. A expressão grega utilizada é ekenōsen (do verbo kenoō, derivado de kenos, ‘vazio, vão’), que literalmente significa ‘ele esvaziou-se’. Isso não quer dizer que Jesus tenha renunciado à sua divindade (isto é, à sua plena natureza como Deus), mas que voluntariamente deixou de lado suas prerrogativas divinas, incluindo sua glória celestial (Jo 17.4), posição (Jo 5.30; Hb 5.8), riqueza (2Co 8.9), direitos (Lc 22.27; Mt 20.28) e o uso de seus atributos como Deus (Jo 5.19; 8.28; 14.10). Esse esvaziamento implicou não apenas a suspensão voluntária de seus privilégios divinos, mas também a aceitação do sofrimento humano, de maus-tratos, do ódio e, em última instância, da maldição da morte na cruz.” (Bíblia de Estudo Pentecostal — Edição Global. Rio de Janeiro: CPAD, 2022, p.2199).

 AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO 
“O SANGUE DE JESUS CRISTO. O sangue de Jesus Cristo, que representa o seu sacrifício pelos nossos pecados, está intimamente ligado ao conceito de redenção no Novo Testamento, isto é, à salvação espiritual [...]. Ao morrer na cruz, Jesus derramou o seu sangue inocente para remover os nossos pecados e restaurar a possibilidade de desfrutarmos de um relacionamento correto com Deus (Rm 5.8,19; Fp 2.8; cf. Lv 16). Por meio de seu sangue, Jesus realizou uma grande obra: (1) Seu sangue fornece o perdão para os pecados de todos aqueles que se convertem de suas próprias maneiras e depositam sua fé em Cristo (Mt 26.28). (2) Seu sangue resgata (isto é, restaura) todos os verdadeiros crentes do controle de Satanás e dos poderes malignos (At 20.28; Ef 1.7; 1Pe 1.18,19; Ap 5.9; 12.11). (3) Seu sangue justifica (isto é, torna correto com Deus) todos os que confiam a vida a Ele (Rm 3.24,25).” (Bíblia de Estudo Pentecostal — Edição Global. Rio de Janeiro: CPAD, 2022, p.2315). 

  CONCLUSÃO 
A obra do Filho é completa, suficiente e gloriosa - da humilhação à exaltação. Ele se humilhou para nos salvar, ofereceu-se em sacrifício vicário para nos redimir e foi exaltado para governar eternamente. Como Igreja, somos chamados a viver em comunhão com essa verdade, aguardando o retorno do nosso Senhor e Salvador. Vivamos como servos daquEle que nos serviu com sua vida e nos salvou com seu sangue.

   CPAD - Lição 0: A Obra do Filho - A Santíssima Trindade  

  Jesus Cristo é o Filho eterno de Deus, que assumiu a forma humana, viveu uma vida sem pecado, morreu e ressuscitou vitoriosamente. Sua missão abrange não apenas o perdão dos pecados, mas a revelação do caráter do Pai e a restauração de toda a criação. A encarnação e a vida terrena de Jesus Cristo revelam o mistério profundo da humilhação voluntária do Filho de Deus. Ele renunciou ao exercício pleno de seus direitos divinos em favor da salvação dos pecadores.

  Sua missão não terminou na manjedoura. O propósito da encarnação foi a redenção da humanidade por meio de sua morte substitutiva na cruz e sua ressurreição gloriosa (Lc 19.10; Hb 9.12). A cruz não foi o fim, mas o caminho para a glória. Sua humilhação foi seguida por sua exaltação suprema, como resposta do Pai à sua perfeita obediência e sacrifício expiatório (Fp 2.9-11). Sob tais premissas, este capítulo apresenta a obra do Filho em três dimensões: sua humilhação, sua redenção e sua exaltação. 

 I - A HUMILHAÇÃO VOLUNTÁRIA DO FILHO

 1. A Submissão de Cristo

  Aos Filipenses, Paulo exorta a Igreja à unidade e à humildade (Fp 2.1-4). O apóstolo adverte o cristão a ter a mente de Cristo: “De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Fp 2.5). Aqui, Paulo apresenta Cristo com o exemplo supremo de humildade, e modelo máximo de serviço abnegado, contrastando com a tendência do ser humano ao orgulho e à autopromoção (Gn 3.5; Is 14.13-14). O termo grego para “sentimento” é phroneõ, que significa mais do que uma emoção passageira — trata-se de um modo de pensar, uma disposição humilde que dirige e molda a mente por uma visão ética e espiritual.1 Na sequência do texto, Paulo introduz o chamado “hino cristológico” (Fp 2.6-11), considerado uma das porções mais sublimes acerca da encarnação e da exaltação de Cristo. A perícope apresenta dois movimentos: (i) a humilhação voluntária do Filho (Fp 2.6-8); e (ii) a exaltação gloriosa de Cristo pelo Pai (Fp 2.9-11). Nessa perspectiva, Paulo convida os Filipenses a seguirem o exemplo deixado por Cristo e assumirem concretamente sua atitude de humildade e serviço voluntário. Isso demonstra que o crente deve, em todo tempo e de toda a maneira, imitar o mesmo modo de pensar e viver que foi demonstrado por Jesus Cristo (1 Jo 2.6). Essa conduta a ser assumida pelo cristão refere-se a uma consciência orientada pela humildade e pelo exercício do amor Jo 13.15). Imitar a mente de Cristo significa o abandono de exclusivida de e busca por prestígio, trata-se de um convite à cruz diária (Lc 9.23). A submissão voluntária de Cristo ao Pai Jo 6.38; Mt 26.39) revela o caminho da obediência plena, que deve caracterizar todo cristão. Des sa forma, o chamado é para pensar e agir como Cristo, o que envolve transformação da mente (Rm 12.2), vida de serviço (Mc 10.45) e a renúncia do próprio eu (Fp 2.3-4). 

 Implica, ainda, buscar o bem do próximo, e não se moldar ao espírito do presente século. Reporta-se a um viver diário prático e renovado (Rm 12.1-2). Essa renovação é operada pelo Espírito Santo por meio da Palavra (2 Co 3.18Ef 4.23; Cl 3.10). Tal transformação habilita o crente a discernir e praticar a vontade de Deus, e essa vontade é sempre voltada para a glória do Pai em todas as esferas da existência — trabalho, família, relacionamentos e ministério (1 Co 10.31Mt 5.16). Como cristãos, somos chamados não apenas a crer em Cristo, mas a pensar e agir como Ele (Mt 11.29).

  2. O Esvaziamento de sua Glória

  O apóstolo Paulo escreve que Jesus, “subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus” (Fp 2.6 ARA).

  Essa construção do texto grego é teologicamente profunda. O verbo “subsistindo” (gr. hyparcho) indica um estado contínuo e permanente, ou seja, Cristo sempre foi Deus, mesmo antes de sua encarnação (Jo 1.1; Cl 1.17). A expressão “forma de Deus” (gr. morphê Theou) aponta para a essência divina compartilhada com o Pai, não apenas uma apa rência. Conforme leciona Barclay, “Jesus está de maneira inalterável na forma de Deus; sua essência e seu ser imutável são divinos”.2

  Contudo, Cristo não considerou esse status divino como algo a ser usado em benefício próprio. A frase traduzida “como usurpação” (gr. harpagmós) pode ser entendida como “algo a ser retido a todo custo” ou “algo a ser explorado egoisticamente”. A versão brasileira (TB) traduz como “não julgou que o ser igual a Deus fosse coisa de que não deves se abrir mão”. Como escreve Hendriksen, “Ele não considerou o fato de ser igual a Deus como sendo algo que não devesse escapar de seu domínio”.3 Ao contrário do primeiro Adão, que almejou ser “como Deus” (Gn 3.5), Cristo, o segundo Adão, sendo Deus, por amor preocupou-se com bem-estar dos outros (Fp 2.4b).

  Sendo Ele igualmente Deus, compartilhando da mesma natureza do Pai Jo 1.1), preferiu privar-se de seus direitos — não da sua divindade. Essa realidade é confirmada quando Jesus “fez a si mesmo de nenhuma reputação” (Fp 2.7a, ACF). Essa frase também pode ser traduzida como “a si mesmo se esvaziou” ou “aniquilou-se a si mesmo”. O termo “esvaziou-se/aniquilou-se” (gr. ekenõsen, de kénosis) refere-se à autoabnegação voluntária, assumindo a natureza humana (Fp 2.7b). Isso não significa a perda de sua divindade, mas a renúncia da glória que Ele possuía na eternidade com o Pai Jo 17.5).4 

  Aqui é importante ratificar que, na encarnação, Jesus não perdeu seus atributos divinos. Cristo não deixou de ser Deus, mas abriu mão da manifestação externa da sua glória e dos privilégios celestiais Jo 17.5). Stronstad corrobora com essa interpretação ao afirmar que a “divindade foi algo que Jesus se recusou a reconhecer como seu direito inalienável. Ele colocou de lado os seus direitos (não a sua divindade), e não os defendeu”.5 Sim, Ele se humilhou, tornando-se servo (gr. doulos), com total identificação com os homens (Hb 2.14-17; 4.15). 

 3. Obediência Sacrificial até a Cruz 

 A obediência de Cristo foi plena, desde a encarnação até o Calvário: “na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.8). Esse versículo descreve uma progressão descendente: da eternidade divina à condição humana, e da humanidade até a morte. A expressão “humilhou-se a si mesmo” (gr. etapdrwsen heauton) indica um ato voluntário e intencional de submissão. Ele não foi humilha do pelos homens apenas — Ele escolheu se humilhar Jo 10.17-18). 

  Cristo desceu à condição mais humilde e morreu como servo (2 Co 8.9). Em obediência ao Pai, submeteu-se à humilhação da cruz (Hb 12.2). Beacon descreve que “a morte de cruz fala do clímax da humilhação própria de Cristo, pois era a maneira mais infame de morte conheci da nos dias de Paulo [...] associada à cruz estava a vergonha mais intensa”,6 A frase “morte de cruz” era uma expressão carregada de horror e escândalo para os judeus (Dt 21.23; G1 3.13) e vergonha para os gentios (1 Co 1.23). Mas Cristo, o Santo de Deus, submeteu-se a essa ignomínia por amor aos pecadores (Hb 12.2).

  O termo “obediente” (gr. hypekoos) carrega a ideia de submissão completa à autoridade. A obediência de Jesus não foi parcial, nem condicional, mas plena, ativa e contínua, desde a manjedoura até o Cal vário. As Escrituras ensinam que pela desobediência, o primeiro Adão trouxe condenação pelo pecado; e Cristo, o segundo Adão, trouxe justiça por meio de sua perfeita obediência (Rm 5.19). Essa verdade ratifica que a obra redentora do Filho está fundamentada na obediência completa de Cristo ao Pai Jo 6.38). Por sua obediência, Cristo “não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho” (2 Tm 1.10, ARA). A salvação dos pecadores é resultado dessa obediência, e não de méritos humanos (Ef 2.8-9).

  Portanto, a morte de cruz não foi um acidente de percurso, mas o culminar do propósito redentor de Deus (At 2.23). Cristo obedeceu até o fim, por amor ao Pai e à humanidade. A obediência ativa de Cristo inclui toda a sua vida de conformidade com a vontade do Pai (Jo 4.34; Jo 6.38), e sua obediência passiva culmina na cruz Jo 10.17-18). A justificação do salvo se fundamenta nessa perfeita obediência de Cristo, imputada por meio da fé (2 Co 5.21; Ef 2.8-9). A obediência de Cristo não é apenas substitutiva, mas serve de exemplo ao crente para obedecer à vontade do Pai (Rm 12.1; Mt 16.24). 

 II - A OBRA REDENTORA DO FILHO 

 1. A Ineficácia do Sacerdócio Levítico 

 O sacerdócio levítico da Antiga Aliança tinha por função mediar entre Deus e os homens por meio de rituais prescritos na Lei (Êx 28-29). O ponto culminante desse ministério era o Dia da Expiação (Tom Kippur), quando o sumo sacerdote adentrava ao Santo dos Santos, uma vez ao ano, com o sangue de animais, para fazer expiação tanto por seus próprios pecados quanto pelos do povo (Lv 16.11-15). O autor aos Hebreus explica a limitação desse sistema levítico, cuja eficácia era temporária e simbólica, apontando para algo maior (Hb 9.7,25; 10.1-4). A repetição anual demonstrava sua incapacidade de purificar a consciência ou de oferecer redenção plena.' 

 Esse sacerdócio estava marcado pela transitoriedade. Seus ministros eram homens pecadores (Hb 7.27-28), o sumo sacerdote terreno era uma figura (tipo) de Cristo, que é o real e eterno Sumo Sacerdote (Hb 2.17). Seu santuário era terreno e provisório (Hb 8.5; 9.1). Seus sacrifícios eram apenas tipológicos, incapazes de remover definitivamente o pecado (Hb 10.4). A Lei levítica não conduziu à perfeição, pois foi dada como “sombra dos bens futuros” (Hb 10.1). Por ser imperfeito, o sacerdócio levítico foi substituído por um superior, o sacerdócio de Cristo (Hb 7.23-24).

  A doutrina cristã entende que Cristo é o antítipo perfeito, o cumprimento do que o sistema levítico apenas prenunciava. Enquanto o sacerdote levítico oferecia sangue alheio (animal), Cristo ofereceu o seu próprio sangue (Hb 9.12). Enquanto o sumo sacerdote terreno voltava ano após ano, Jesus entrou no céu mesmo e de uma vez por todas, para interceder pelos pecadores diante do Pai (Hb 8.1-2). A entrada única de Cristo no santuário assegura uma eterna redenção (Hb 9.25-26). 

  Por conseguinte, no plano redentor de Deus, o sacerdócio levítico era pedagógico (G1 3.24), revelando tanto a santidade de Deus quanto a gravidade do pecado. O sacerdócio levítico foi substituído por um sacerdócio superior — segundo a ordem de Melquisedeque (Hb 7.11- 17) — cuja perfeição se encontra em Cristo. Ele é o sumo sacerdote eternamente (Hb 7.24-28), sem pecado (Hb 4.15; e capaz de salvar perfeitamente os que por Ele se chegam a Deus (Hb 7.25). Assim, o crente em Cristo já não precisa mais viver sob o peso de sacrifícios repetitivos ou de uma culpa não resolvida. Cristo ofereceu um único e definitivo sacrifício. O perdão não depende de esforço humano, mas da obra perfeita do Redentor.

 2. O Sacrifício Único e Suficiente

  Como já observado, na Antiga Aliança, ofereciam-se sacrifícios continuamente pelo pecado por causa da ineficácia dessas ofertas. O sumo sacerdote repetia o mesmo rito muitas vezes (Hb 9.25 . O advérbio multiplicativo “muitas vezes” (gr. pollákis) significa (‘frequentemente”.8 Transmite a ideia de algo feito repetidamente, enfatizando a reiterada necessidade de sacrifícios no sistema levítico. Essa repetição constante evidencia a insuficiência dos sacrifícios antigos para tratar o pecado de forma definitiva, porque “nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem cada ano, pode aperfeiçoar os que a eles se chegam” (Hb 10.1). Diferente do sistema levítico, Cristo não se ofereceu sistematicamente, como o sumo sacerdote terreno fazia. A Escritura revela que Jesus “ao se cumprirem os tempos, se manifestou uma vez por todas, para aniquilar, pelo sacrifício de si mesmo, o pecado” (Hb 9.26b, ARA). O termo “aniquilar” (gr. athetésis) também pode ser traduzido como abolir, remover ou anular completamente. O texto enfatiza que o pecado foi tratado de forma decisiva pela entrega voluntária de Cristo.9

  Assim sendo, a morte de Jesus foi definitiva, completa e eficaz. Ele se ofereceu “uma vez para levar os pecados de muitos” (Hb 9.28a, ACF). A expressão “uma vez” (gr. hápax) significa literalmente “uma única vez para sempre”, e indica que não há necessidade de repetição, o que Ele fez é perfeito e eterno (Eíb 10.10). Conforme anota Guthrie, “a frase expressa a completa suficiência do sacrifício de Cristo”.10 A salvação não é progressiva por méritos ou rituais humanos, mas plena e gratuita, alcançada pela fé na obra consumada de Cristo (Jo 19.30). Cristo, ao morrer, rasgou o véu que separava o homem da presença de Deus (Mt 27.51). Não há outro meio de salvação, nenhuma outra oferta, nenhum outro nome (At 4.12). O Calvário é suficiente. Jesus é tudo!  

 3. A Substituição Vicária

  A expressão “substituição vicária” é central para a compreensão do sacrifício de Cristo. A palavra “vicária” deriva do latim vicarius, que significa “aquele que age em lugar de outro” — conceito claramente expresso em textos bíblicos tanto na Antiga como na Nova Aliança (Is 53.4-6; Rm 8.32). A substituição vicária é inseparável da justiça divina (Rm 3.26). Conforme interpreta Pohl, “na morte de Jesus o Deus todo se revelou totalmente — inteiramente como juiz, inteiramente como redentor. Ele julgou com o máximo rigor, porém amou seus inimigos com amor supremo”.11 No entanto, o pecado não podia ser ignorado, o peca do precisava ser punido (Rm 5.21). 

  Em virtude disso, Deus não poupou seu próprio Filho, mas o entregou para morrer em lugar dos pecadores, assumindo sobre si a penalidade destinada aos transgressores (Rm 8.32). A expressão “não poupou” (gr. ephásato) indica a recusa de evitar um sofrimento — evidenciando a determinação divina em punir o pecado não no pecador, mas no Substituto Perfeito. No sistema sacrificial da Lei, os animais oferecidos tipificavam essa substituição, mas não removiam o pecado (Hb 10.4). Somente Cristo, o Cordeiro de Deus sem mácula, podería cumprir cabalmente essa função substitutiva (Jo 1.29). Ele não apenas cobriu o pecado, como nos ritos do Antigo Testamento, mas o removeu definitivamente, assumindo sobre si a culpa da humanidade caída. Dessa forma, a substituição vicária é o cerne da doutrina da expiação, ela integra o plano eterno de redenção, revelado progressivamente nas Escrituras desde o Éden (Gn 3.21). Ratifica-se que a doutrina afirma que Cristo morreu em lugar do pecador, suportando a ira justa de Deus contra o pecado (Rm 3.25- 26). A justiça divina exige punição, e o amor divino proveu um substi tuto: Jesus Cristo. Nesse entendimento, Horton ratifica que “Cristo su portou em nosso lugar a total penalidade que deveriamos pagar [...] Ele sofreu, não meramente para nosso beneficio ou vantagem, mas em nos  lugar”.12 Essa verdade da substituição vicária de Cristo deve produzir em todo crente salvo sentimento de gratidão reverente, adoração sincera e uma vida consagrada. Como diz Paulo: “Ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2 Co 5.15). Cristo morreu pelos pecadores, e isso muda tudo. A cruz não é apenas um símbolo religioso, mas o local onde a dívida da culpa foi paga, o pecado foi julgado e a salvação foi selada. 

 III - A EXALTAÇÃO GLORIOSA DO FILHO 

 1. Recebido à Destra do Pai

  Após sua humilhação voluntária, o Filho foi entronizado nos céus com glória eterna: “Pelo que também Deus o exaltou soberanamente” (Fp 2.9a). O termo grego hyperypsõsen, traduzido como “exaltou soberanamente” ou “exaltou sobremaneira”, é um composto intensificado de hypsóõ (elevar, exaltar), mais o prefixo hyper, que comunica que Deus o elevou de forma suprema, incomparável e singular, exaltando-o acima de toda criatura,13 em virtude de sua obediência perfeita até a morte (Fp 2.8). Henry corrobora com esse entendimento ao afirmar que a exaltação de Cristo “foi a recompensa da sua humilhação. Pelo fato de Ele se humilhar, Deus o exaltou; e o exaltou soberanamente a uma posição extraordinariamente elevada”.14  

 Cristo não apenas venceu a morte, mas foi exaltado à posição suprema no Universo: “depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas” (Hb 1.3). Estar “à destra do Pai” não é apenas uma referência espacial, mas uma metáfora rica em significados. Simboliza autoridade suprema, honra, glória e domínio (SI 110.1; Mt 26.64). A destra é o lugar de honra reservado ao herdeiro real (1 Rs 2.19). Estar assentado expressa descanso depois do conflito (Ef 4.10; Hb 8.1). Deus exaltou a Jesus crucificado, não apenas o ressuscitando dos mortos, mas também o entronizando no céu.15 Assim, o fato de Cristo estar assentado demonstra o reconhecimento divino da obra completa realizada pelo Filho (Jo 17.4-5).16  

 Nesse aspecto, a exaltação de Cristo é uma das fases da Cristologia, que contempla os estados de humilhação e exaltação de Jesus. A humilhação inclui sua encarnação, sofrimento, morte e sepultamento. A exaltação compreende sua ressurreição, ascensão, assentamento à destra de Deus e ainda o seu retorno glorioso. Essa doutrina da exaltação de Cristo é confessada universalmente na fé cristã ortodoxa. O Credo dos Apóstolos afirma: “subiu ao céu, e está sentado à mão direita de Deus, o Pai Todo-Poderoso”.17Ele não apenas retornou para o céu; Ele assentou-se no trono (Ap 3.21). O Cristo exaltado é a nossa esperança viva, pois está entronizado e intercede por nós (Rm 8.34; Hb 7.25). João confirma essa esperança em sua visão apocalíptica: “Ao que vencer, lhe concederei que se assente comigo no meu trono, assim como eu venci e me assentei com meu Pai no seu trono” (Ap 3.21). Ele não está ausente ou inativo, mas reina soberanamente, dirige a histó ria, cuida de sua Igreja e prepara a consumação de todas as coisas.

 2. Um Nome acima de todo

  Nome Cristo recebeu de Deus Pai “um nome que é sobre todo o nome” (Fp 2.9b). A expressão grega para “nome” (gr.ónoma) vai muito além de um título ou identificação. No Antigo e Novo Testamentos, o “nome” representa a essência, o caráter, a autoridade e a reputação da pessoa (SI 8.1; Pv 18.10; Mt 1.21). Ao dizer que Cristo recebeu um nome sobre-excelente, a Escritura afirma que nenhuma autoridade, visível ou invisível, se compara ao seu poder e posição (Ef 1.21a). Henry anota que se trata de “um título de dignidade acima de todas as criaturas, homens e anjos”.18 

 Isso significa que Cristo foi exaltado acima de toda eminência do bem e do mal e de todo título que se possa conferir nesta ere também no porvir (Ef 1.21b). Implica dizer que nenhuma força — seja humana, seja demoníaca, política ou espiritual — pode se comparar ou rivalizar com Cristo. Ele não apenas reina sobre todos; Ele é o Rei dos reis e Senhor dos senhores (Ap 19.16). Desse modo, a frase “nome acima de todo nome” reflete a soberania universal e messiânica de Jesus, como anunciado pelos profetas (Is 9.6-7Dn 7.13-14) e confirmado pela ressurreição (Rm 1.4).  

  Conforme lecionStronstad, Cristo foi entronizado como Senhor “acima de todo principado, e poder, e potestade, e domínio” (Ef 1.21); e nomeado como a autoridade suprema para a Igreja (Ef 1.22,23).19 Essa declaração faz analogia com o texto messiânico em que todos os inimigos estariam sob o estrado dos pés de Cristo (SI 110.1b). Nesse sentido, Stronstad ratifica que Cristo foi “nomeado como o soberano acima de todas as coisas, isto é, o chefe supremo da criação, a manifestação final do que nos espera no futuro (Ef. 1.10)”.20 

  Portanto, não existe poder algum que seja maior e nem mesmo igual ao poder de Cristo (1 Pe 3.22).21 22 O nome de Jesus não é apenas um símbolo de fé, mas uma fonte real de autoridade. O Senhor delegou à Igreja o uso de seu nome, para curar, libertar, pregar e vencer as forças do mal \ 1 c 16.17-18). Contudo, o nome de Jesus não e uma fórmula mágica, mas representa sua presença e poder concedidos à Igreja. A expressão “nome de Jesus”; não se refere ao som da palavra, mas à autoridade de Jesus. Usar o nome de Jesus significa agir em sua missão, segundo sua vontade, sob seu senhorio e para sua glória.  

 3. Soberania Universal e Retorno Triunfal

  A exaltação de Cristo culmina não apenas na sua entronização, mas também na plena manifestação de sua soberania sobre todo o uni verso, no presente e no futuro escatológico. A Bíblia declara que todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor (Fp 2.10-11). A expressão “todo joelho se dobre” (NVT) ecoa a profecia, onde o próprio Deus declara que toda criatura se curvará diante dEle (Is 45.23). Ao aplicar esse texto ao Filho, Paulo ratifica a divindade e o senhorio de Cristo. A estrutura tripartida “nos céus, na terra e debaixo da terra” (Fp 2.10b, NVT) indica o alcance universal e cósmico do domínio de Cristo. Hendriksen chama atenção para as três classes de seres: (i) no céu: os humanos redimidos e os seres celestiais; (ii) na terra: os seres humanos vivos; e (iii) debaixo da terra: os condenados no inferno, tanto humanos quanto anjos maus ou demônios." Não haverá criatura que escape ao reconhecimento do senhorio de Jesus. 

  A confissão universal de que ‘Jesus Cristo é o Senhor se dará de duas maneiras: voluntária, por aqueles que hoje confessam Jesus como Senhor e vivem sob seu senhorio (Rm 10.9-10); e compulsória, por aqueles que, mesmo tendo rejeitado a Cristo, um dia o reconhecerão, não para salvação, mas para condenação (Rm 14.11; Fp 2.11). Hendriksen explica que “os anjos e os seres humanos redimidos farão isso com intenso regozijo; os condenados farão isso com profunda tristeza e profundo remorso”.23 

 Hebreus afirma que Ele voltará para levar para si os que o esperam (Hb 9.28). Esse retorno será em glória e majestade, poder e juízo (Mt 24.30). Sua glória será reconhecida por todos — para salvação ou para condenação. Ele voltará triunfante para buscar sua Noiva e para reinar eternamente Jo 14.2-3; Ap 11.15). Diante da soberania de Jesus e da certeza do seu retorno triunfal, o cristão é convocado a dobrar seus joelhos em adoração e proclamar com ousadia: Maranata! Jesus Cristo é o Senhor! 

CONCLUSÃO

  A obra do Filho é completa, suficiente e gloriosa — da humilhação à exaltação. Ele se humilhou para nos salvar, ofereceu-se em sacrifício vi- cário para nos redimir e foi exaltado para governar eternamente. Como Igreja, somos chamados a viver em comunhão com essa verdade, aguar dando o retorno do nosso Senhor e Salvador. Vivamos como servos daquEle que nos serviu com sua vida e nos salvou com seu sangue.

    88 | A Santíssima Trindade