quarta-feira, 21 de outubro de 2026

CPAD : O Deus da Aliança — Lição 3: A fidelidade de Deus diante da infidelidade de Israel

 


Capítulo 3

A Fidelidade de Deus diante da Infidelidade de

Israel

  INTRODUÇÃO

  Há um grande significado no capítulo quatro, visto que aborda de modo grandioso a teologia do Antigo Testamento. Em primeiro lugar, é pelo fato de ele fazer o encerramento da introdução dos discursos de Moisés, para seguir-se, de fato, com a repetição da Lei, conforme veremos. Existem quatro pontos maravilhosos que podemos apresentar neste capítulo: o primeiro é um chamado para que todo o Israel procure viver em obediência; o segundo é um alerta contra o pecado da idolatria; o terceiro é um reforço a necessidade de manter-se a fidelidade para com o Senhor e a sua aliança; e o quarto é um destaque singular quanto à revelação divina que os israelitas receberam.

  No âmago do conteúdo desse capítulo, o Senhor é apresentado como um ser transcendente, absoluto, único e que também está perto do seu povo; por isso, Ele fala, redime e disciplina. A sua estrutura pode ser seguida assim: (a) exortação à obediência (1-8); (b) recordações da experiência do Sinai (9-14); (c) advertência contra a idolatria (15-31); (d) testemunho do cuidado de Deus (32-38); e (e) apelo final à fidelidade (39-40).

 

  I-AALIANÇA DE DEUS E A SUA FIDELIDADE

  1.A FIDELIDADE DE DEUS E O APELO À OBEDIÊNCIA

  Deus é descrito na sua Palavra como santo, justo, verdadeiro e imutável (MI 3.6); logo, então, consta na sua Aliança a sua soberana vontade, de modo que ela expressa o seu caráter e, sendo assim, jamais poderá ser infiel a ela.

  A base da aliança divina está firmada no amor de Deus, não em méritos humanos (Dt 7.7-9), a considerar que, diante dos pecados, erros e falhas dos israelitas, o Senhor continuava fiel ao que prometeu aos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó.

  A fidelidade dessa aliança é vista na maneira como Deus aplica a disciplina ao seu povo, quando este não procurava andar conforme os termos dessa aliança. Nesse processo da aplicação da disciplina, Ele buscava preservar e restaurar o relacionamento. Prova disso e que se manifestou de modo claro ao seu povo, não por meio de imagens, e, desse modo, compreende-se que o Senhor e ficl na sua revelaçao verbal. Isso foi esplêndido para que se entendesse que a aliança divina é assegurada e sustentada pela Palavra de Deus e jamais por símbolos humanos (Dt 4.12).

  Logo no primeiro versículo, temos um sermão vivo da parte de Moisés para o povo, na intenção de persuadi-lo a que todos os israelitas estivessem mais próximos de Deus e envolvessem-se no serviço a Ele sem jamais o abandonar. Moisés procura introduzir as suas exortações com consistente retórica divina em orientação e apoiado em argumentos motivacionais.

  Com o seu metodo, o grande lider busca pela aplicaçao das verdades divinas dando ordens e direcionamento, bem como declarando ao povo a importância de servir-se ao Senhor e o que Ele exige de cada um. No versículo primeiro, quer que o povo esteja atento à Palavra de Deus, aos seus estatutos e aos juízos que eram ensinados. Pela introdução "agora pois", que denota uma expressão de urgência e transição, o legislador Moisés está aplicando tudo o que foi falado até o momento. Por meio do verbo owir, que é o Shema, não se trata simplesmente de uma percepção auditiva, mas, sim, de um ato de obedecer, uma resposta prática. O ouvir não seria apenas naquele momento, mas teria que ser constante. Todas as vezes que o livro da Lei fosse lido ou quando eles mesmos fizessem a leitura, deveriam prestar atenção.

  Os estatutos são os mandamentos estabelecidos pela autoridade divina e representam teologicamente a soberania de Deus. Deve-se manifestar obediencia e fidelidade a cles, ainda que deles nao se tenha total compreensão (Lv 18.4-5). Era por demais relevante para os israclitas ouvirem os estatutos, visto que continham os mandamentos de Deus, os grandes interesses da sua vontade; daí a importância de ser dada a eles a máxima atenção. Assim, por ser Deus falando pela sua Palavra, ouvir uma ou duas vezes - ou frequentemente - fazia total e necessário sentido.

  Os juízos do Senhor estão relacionados a decisões legais, normas de justiça social ou leis morais baseadas na equidade e retidão de Deus. Há destaque especial nos juízos para a revelação da justiça ética de Deus e o tratamento para com as relações humanas, o que envolve temas como propriedade, estrangeiros e justiça nos tribunais.

  Cada israclita estaria evidenciando obediência e sujeição à autoridade de Deus quando cumprisse os estatutos, ao passo que, em relacao aos juízos, desenvolveriam a justiça social e revelariam a santidade do caráter de Deus.

  Na verdade, a junção dos dois termos expressam a vontade de Deus presente na Torá e mostram que o que Ele queria do seu povo era o cumprimento, ou seja, a obediência à Palavra, o que lhe daria vida e bênçãos, pois as promessas divinas seriam concretizadas em cada um.

  Está claro no versículo 2 que há suficiência e integridade na Lei de Deus, pois se trata da revelação divina, sem qualquer necessidade de acrescentar ou diminuir o que quer que fosse; logo, a Palavra de Deus deveria ser mantida intacta no meio do seu povo. Era preciso conservá-la pura e não colocar nela qualquer adendo ou acrescimo, pois ela e pura na sua essência (s 1.7; Pv 30.5-6; Ec 12.13).

   Israel deveria seguir na integra o que estava na Palavra de Deus sem inventar nada. O povo de Deus não seria como as outras nações, que davam as suas opiniões e inventavam os seus próprios cultos. Israel não deveria deixar de lado nada do que a Palavra recomendava, muito menos vê-la como supérflua ou desnecessária. Como era a Lei de Deus que estava exigindo - sendo ela suficiente, perfeita, não carecendo de opiniões particulares, nem de reforma, pois é santa e verdadeira -, nada dela pode ser alterado, pois querer fazê-lo seria comprometer a sua fidelidade, a sua verdade.

  Todo salvo em Cristo deve estar plenamente consciente de que a Palavra de Deus expressa a sua vontade soberana, de modo que ela não precisa ser melhorada. Essa proibição está presente nesse texto, bem como em Eclesiastes 3.14, e reforçado em Apocalipse 22.18-19. Precisamos ter reverência, obediência e compromisso para com essa Palavra, pois ela é fiel e sempre será (SI 119.89; Jo 14.23; Tg 1.22).

  2. A relevância da disciplina divina

  O caso narrado nos versiculos 3 e 4 de Deuteronomio 4 envolveu um episódio que consta em Números 25, quando muitos israelitas prostituiram-se com mulheres moabitas e adoraram deuses, como Baal-Peor, deus adorado em Bete-Peor, e passaram a ter contato com o culto da fertilidade dos cananeus, que envolviam elementos sexuais nos seus rituais religiosos. Devido a esse pecado, não demorou muito para a disciplina de Deus chegar e, de imediato, 24 mil pessoas tiveram a vida ceifada.

  A expressão "Vossos olhos viram" mostra que a disciplina dada por Deus aos que pecaram foi real, com justiça e verdade. O Senhor agiu assim porque eles envolveram-se em idolatria e firmaram aliança com deuses falsos. Ao procederem assim, traíram a aliança com Deus. No versículo 4, está claro, porém, que todos quantos manifestaram obediência aos mandamentos divinos foram preservados (Dt 4.4).

  A disciplina descrita aqui mostra que o Senhor jamais tolera o pecado da idolatria. Assim, Deus estava fazendo uma limpeza no acampamento dos israelitas, e isso se fazia necessário para que Ele continuasse no meio deles (Dt 23.14). A disciplina de Deus para com Israel objetiva punir o pecado e levar todos a teme-lo (Dt 8.5-6). Eles deveriam aprender a viver separadamente das nações pagãs (Lv 20.26), procurar preservar a aliança, obedecer aos mandamentos (Dt 28), viver em santidade e proceder com sabedoria para, assim, servirem de modelo às nações pagãs (Dt 4.6-8).

  Ao procurar viver e andar conforme as leis divinas em total obediência, estaria evidenciando sabedoria e retidão, o que o distinguia do procedimento de outros, que faziam parte do povo pagão. Os mandamentos de Deus concedidos a Israel, quando obedecidos, tornavam-no um povo sábio, pois revelavam a justiça e a própria sabedoria de Deus.

As Escrituras Sagradas dizem que o Senhor disciplina e castiga a quem Ele ama. Essa disciplina tem como objetivo corrigir e preservar os seus filhos e jamais deve ser vista ou considerada como rejeição, mas, sim, uma prova real de pertencimento, um ato de amor, ao procurar trazer para perto de si os que procuram a restauração. Assim, jamais devemos rejeitar a disciplina e a correção do Senhor (Pv 3.11-12; Hb 12.6; Ap 3.19).

  Para a igreja, a disciplina da parte de Deus é algo maravilhoso, pois expressa o amor do Pai eterno para com os seus filhos (Hb 12.6), e, se somos de Deus, Ele tem cuidado para conosco e deseja que andemos segundo a sua vontade e mostremos santidade no viver (1 Pe 1.15-16). Essa disciplina, quando praticada na igreja, reveste-se de dois grandes significados: o primeiro é que preserva a sua pureza - daí a razão de a igreja nunca tolerar o pecado no seu meio (1 Co 5.13), pois deve ser zelosa e pura. A segunda razão é que a disciplina gera frutos de justiça (Hb 12.11), e isso mostra que a disciplina não é tão somente punitiva, mas, no seu propósito, busca restaurar.

  3. A vontade de Deus revelada na sua Palavra

  Já é bem comum falar da vontade de Deus e abordar a sua vontade permissiva, em que Ele permite, mas que nao necessariamente seja do seu agrado moralmente (At 14.16). Fala-se tambem da vontade soberana, que é aquela por mcio da qual Ele executa tudo conforme o seu propósito eterno (Ef 1.11). Ainda existe a vontade revelada, que e aquilo que Deus ordena aos homens por meio da sua Palavra (Dt 29.29).

  O foco da vontade de Deus aqui e a sua vontade revelada ao seu povo, a qual está claramente expressa a Israel. Moises diz a Israel que o que ele havia ensinado não era algo dele mesmo, mas que tudo tinha origem no Senhor (Dt 4.5). Não se tratava de algo humano, mesmo porque Moisés figurava apenas como mediador.

  Como os estatutos e juízos vinham de Deus, cada israelita deveria manter- se fiel à Palavra - daí a exortação imperativa de Moisés (v. 6). O procedimento fiel de cada um para com a Palavra de Deus seria um testemunho forte perante as nações da terra. Os que procedessem em total obediência aos mandamentos divinos, cumprindo, assim, a vontade de Deus, revelariam verdadeira sabedoria, que se distingue da sabedoria mundana.

   Nota-se no versículo 7 que o relacionamento com o Senhor era acessível e íntimo e nao se comparava com deuses das nações pagãs, que julgavam estar longe deles. O Deus de Israel e transcendente e imanente (Jr 23.23). Israel poderia alegrar-se pelos estatutos e juízos que receberam do Senhor, que se resumem em uma Lei completa e perfeita (SI 19.7). Israel possuía, portanto, algo que nenhuma outra nação tinha: uma revelação pura e grandiosamente elevada.

  II -A INFIDELIDADE DE ISRAEL AO LONGO DA HISTORIA   1. RELEMBRANDO A REVELAÇÃO DIVINA:

 A BASE DA ALIANÇA

  Vemos nas páginas do Antigo Testamento que a história do povo de Deus, Isracl, não é tão bela, e sim marcada por constantes infidelidades, pois, diante dos grandes milagres operados, da entrega da Lei, da revelação da sua vontade, da aliança que firmou com todos os israelitas, das bênçãos por eles recebidas, esse povo esquecia-se do Senhor e voltava-se para idolos, corrompendo-se e rejeitando os mandamentos divinos.

  A infidelidade de Israel é descrita como um ato de quebrar a aliança, por vezes denominada nas Escrituras Sagradas como adultério espiritual (Ez 16.32; Os 2.2). Deus, que os libertou, manifestou todos os seus favores; logo, porém, era trocado por deuses pagãos, sem vida (1 Rs 11.4-10; 2 Rs 17.7- 18). Essa infidelidade, no âmbito teológico, revela a depravação do coração humano (Jr 17.9), pois, mesmo diante de tantos privilégios divinos concedidos, a inclinação da carne de cada um era para o pecado, ao passo que dá ainda um relevo grandioso à santidade e paciência de Deus pela forma como tratava esse povo rebelde (Ne 9.17). Ademais, tudo isso mostrava a necessidade que se tinha de um mediador perfeito, o Messias. Seria Ele que restauraria definitivamente a aliança (Hb 8.6-13).

  Deuteronômio 4.9-14 trata-se de um sermão de Moisés que envolve o segundo mandamento e aborda a história da salvação no Antigo Testamento. Os israelitas não viram forma alguma de Deus (Êx 20.22; Dt 4.12,15; 5.4); todavia, reconheceram a presença divina por meio da sua palavra falada ao exigir obediência conforme os termos da aliança.

  No versículo 9, temos o verbo hebraico shamar (guardar), que mostra que Deus desejava de cada israclita vigilância constante para com os mandamentos, sem esquecerem-se deles, pois a falta de memória é um tipo de infidelidade espiritual, e, diante disso, Moisés procura alertar e advertir todos a preservarem na memória a base da revelação divina: a Palavra.

  Moisés prossegue dizendo que os filhos da geração antiga estiveram diante do Senhor Deus em Horebe. E claro que não se tem aqui qualquer tipo de erro acidental, mas uma confirmação da contemporaneidade da salvação. O versículo 13 diz que era fácil para todo israelita identificar a aliança com os seus mandamentos e, posteriormente, passou-se a ter uma visão superficial e legalista do relacionamento fundado na aliança.

  Quando Deus firmou a aliança com Israel, isso se deu por meio de uma revelação audível, não envolvendo qualquer elemento visual. Procedeu-se dessa maneira para que tudo se firmasse na centralidade da Palavra, que é a base de nosso relacionamento com Deus (Ex 20.18-21). Nos versos 11 e 12, fala-se de fogo ardente, voz das palavras. No que diz respeito à voz, trata-se de afirmar que essa e a marca da espiritualidade do culto verdadeiro.

   No versículo 13, está anunciada a aliança, os Dez Mandamentos, que se baseia ou se firma na revelação moral de Deus. Pelas dez palavras, tem-se o núcleo ético da aliança; nos estatutos, as ordens fixas que delineiam a santidade de Deus; e, nos juízos, as leis que expressam justiça e sabedoria divina.

  O cristão vive hoje com Cristo na aliança firmada pelo seu sangue e, para manter fidelidade, é preciso ouvir a sua Palavra. Ela é a base de nosso relacionamento para com Deus, o que nos leva à salvação (2 Tm 3.15). Assim como Israel desprezou os termos da aliança, hoje, muitos que se dizem crentes estão fazendo o mesmo: querem tudo - fogo, anjo, movimentos, profecias -, menos o essencial: a Palavra. É cla que devemos guardar, pois é a revelação perfeita (SI 119.11). Os pais devem ensinar essa Palavra aos filhos (Ef 6.4). Cristãos que vivem pela Palavra seguem-na e andam pelo que o Senhor Deus diz e jamais pelo que veem (Rm 10.17; 2 Co 5.7).

  2. Não devemos corromper a revelação com a idolatria

Bíblica e teologicamente falando, Deus é diferente em essência de tudo o que Ele criou. Isso quer dizer que nada nem ninguém pode ser comparado a Ele. Como já dito, não houve qualquer manifestação de imagem. Logo no versículo 15, está claro que a ausência de imagem é a base teológica contra a idolatria. João diz que Deus é espírito (Jo 4.24). Quando Deus manifestou- se a Israel em Horebe, nada lhes foi dado de imagem (Js 23.11), de modo que deveriam guardar as suas almas contra a idolatria.

  Os versículos 14 a 24 tratam sobre o perigo da idolatria, sendo que a ênfase é direta ao afirmar que toda tentativa de fazer-se uma representação tangível de Deus é corromper a revelação, visto que Deus é invisível, indivisível e transcendente. Israel deveria ter responsabilidade pessoal e espiritual, segundo a expressão "as vossas almas". Para a alma ser cuidadosamente guardada, o verbo guardar está novamente presente aqui com a ideia de preservar, vigiar, proteger. No que se diz respeito à alma, é porque essa vigilância começa pelo lado de dentro, pois a idolatria nunca começa do lado de fora, mas dentro do coração, e coração não transformado tende a inclinar-se para o mal (Mt 15.19).

  Guardar a alma era algo necessário para que não se entrasse no pecado da corrupção, da perversão, da degeneração espiritual, a ponto de serem feitas imagens esculpidas, que é algo abominável pela Lei de Deus (Êx 20.4).

Ora, quando Deus manifestou-se, não houve qualquer forma visível; por isso, Moisés adverte para que Israel jamais viesse a reduzir o eterno em algo transitório, pois nada neste mundo pode representá-lo.

  Em relação aos quatro domínios da criação de Gênesis 1 - terra: animais; céu: aves; solo: répteis; águas: peixes -, o grande líder sava x israelitas a não seguirem a cosmovisão pagã, como, por exemplo, os egípcios e cananeus, que adoravam deuses animais. Nem mesmo os astros deveriam ser adorados, pois são seres criados por Deus como elementos comuns da criação, não tendo qualquer valor de culto. A adoração deve ser a Deus e jamais à criação ou a criaturas. O desvio dessa verdade é seguir o caminho da apostasia (Rm 1.23-25).

  Israel tinha consciência de Deus e do seu grande poder porque fora liberto da fornalha de ferro do Egito, onde foram oprimidos, mas a redenção desse povo foi um ato gracioso de Deus, destruindo todos os deuses falsos daquela nação. O propósito dessa libertação era fazer do povo israelita uma nação santa do Senhor (Ex 19.6; 1 Pe 2.9).

   Moises alerta a nova geração que não se pode brincar com Deus. Ele mesmo ficou de fora da Terra Prometida por causa de desobediência, e isso mostra que nenhum líder espiritual está acima da disciplina divina. Todos jamais deveriam esquecer o concerto do Senhor, mas guardarem-no. O verbo esquecer não e algo meramente mental, mas tem o seu aspecto moral, que aponta para o ato de negligenciar, desprezar a aliança, posto que a pessoa passa a caminhar pelas ruas da idolatria quando se esquece dos mandamentos divinos, mas quem guarda e não se esquece das ordens divinas sempre estará andando em reverência e obediência.

   Essa parte é fechada com um contundente alerta da parte de Moisés. Dois aspectos ele diz de Deus: o primeiro e que Ele e um fogo consumidor. Isso expressa santidade e justiça de Deus, o que também aparece no Novo Testamento (Hb 12.29). O segundo é que Moisés diz que Deus é zeloso, ou seja, Ele tem ciúme santo pela sua glória e exclusividade. Não existe páreo para Deus, nao ha igual, de maneira que Ele não tolera a rivalidade, pois é único e absoluto. Assim, quem se voltasse para a prática da idolatria estaria cometendo adultério espiritual (Os 2.13; Tg 4.4).

  Pela exposição da passagem bíblica em apreço, podemos concluir dizendo que há quatro aspectos de teologia nela: (a) Teologia da Aliança: Deus é o soberano, e o povo deve servi-lo com fidelidade e lealdade exclusiva – no demais, os termos da aliança expressam tacitamente a proibição da idolatria (Êx 20.1-3); (b) Teologia da Revelação: Deus não se revelou por imagens ou forma fisica, mas por palavras e ações (Dt 4.12) - isso é relevante para a compreensão de que a fé vem pelo ouvir da Palavra (Rm 10.17), jamais por meio de ídolos ou visões; (c) Teologia da Adoração: a adoração para com Deus, que é espírito (Jo 4.24), deve ser espiritual e marcada pela obediência e exclusividade; (d) Teologia da Santidade: Deus e santo e justo e jamais tolera o pecado - Ele julga e disciplina todos quantos tratam o que lhe diz respeito de modo trivial, leviano, pois e fogo que consome.

  3. Tratados conforme a revelação divina

  Os versículos 25 a 28 podem ser vistos como profecia condicional, quando Moises está prevendo o exílio para o povo caso este venha cair na idolatria depois de estabelecidos na Terra Prometida. Israel será punido não por um tipo de ira caprichosa de Deus, mas porque substituiu o culto do verdadeiro Deus por um deus falso, mecânico e dominado pela corrupção idolátrica. Detalhe interessante que Moisés evidencia no versículo 25 que o pecado vem, muitas vezes, de modo sutil e atinge as gerações seguintes, de modo que a fé viva vai sendo lentamente substituída por cultos e tradições sem qualquer valor espiritual e sem coração (Jz 2.10-12).

  O verbo corromper está apontando para uma apostasia progressiva, jamais um ato isolado, e vai acontecendo lentamente, atingindo filhos e netos e levando gradualmente todos a uma decadência espiritual. No versículo 26, Moisés faz uso do recurso legal: céus e terra por testemunhas cósmicas (Dt 30.19; Is 1.2). Aqui Deus convoca toda a criação como testemunha para dizer que o castigo é que essa gente idólatra pereceria rapidamente e que os seus dias seriam abreviados. Todos seriam destruídos. Quem quebra a aliança suscita consequências gravíssimas, que envolvem a vida espiritual social e nacional, mas Moisés estava dizendo a todos que o castigo era certo e que há limites para o tempo da graça (Hb 10.26-27).

   Os dois versículos finais dessa seção (27 e 28) mostram as graves consequências para aquela geração que iria quebrar a aliança: em primeiro lugar, seriam espalhados entre os povos; essa era uma profecia que falava do exílio e é importante atentar que o verbo espalhar aqui não se trata de algo comum, mas, sim, de uma maldição por desobediência (Lv 26.33; Dt 28.64). A diminuição numérica do povo envolve a parte da força, tudo por causa da idolatria; isso quer dizer que o pecado da desobediência e da infidelidade contamina a real identidade do povo de Deus e leva-o para uma vida mundana, secularizada e espiritualmente fraca (Jo 15.6; Ap 2.5). Deus iria tratar o povo conforme o seu procedimento. Observa-se que, no versículo 28, eles seriam entregues para servirem aos deuses de madeira e pedra. Isso é uma ironia teológica, posto que o próprio Senhor iria fazer aquilo que eles desejavam: eles serviram aos idolos mortos, sem vida (SI 115.4-8).

  Como cristãos, devemos ter todo cuidado com a idolatria contemporânea, cujos ídolos são o poder, o status, o dinheiro, a vaidade, as ideologias e as pessoas. É nesse sentido que João diz para guardarmo-nos dos ídolos (1 Jo 5.21). Moisés procurou ensinar preventivamente que é necessário viver conforme a aliança divina para que se possa desfrutar das bênçãos do Senhor, pois a corrupção da fe ocasiona a disciplina, e a idolatria conduz ao cativeiro, ao exílio.

  Todo cristão, por meio dessa leitura bíblica, deve estar consciente de que Deus é ciumento no tocante à nossa adoração; por isso, devemos procurar viver de mancira que o agrade, centrados na sua Palavra c com uma fé pura, em fidelidade e vigilância, jamais nos deixando levar por modismos e novidades vãs e efêmeras.

  III -DEUS NÃO SE ESQUECE DO SEU CONCERTO

MENCIONAMOS ANTERIORMENTE QUE, NO RELACIONAMENTO COM ISRAEL, DEUS SEMPRE SE

MANIFESTOU FIEL, SANTO, JUSTO E VERDADEIRO, AO

PASSO QUE ISRAEL NÃO; ANTES, FOI SEMPRE

DESOBEDIENTE E INFIEL PARA COM DEUS E A SUA

ALIANÇA. APESAR DE TUDO, MOISÉS VEM COM AS SUAS

EXORTAÇÕES SEVERAS, PESADAS, POR CAUSA DO

PROCEDIMENTO DESSE POVO, QUE SE ENVOLVEU COM O PECADO DA IDOLATRIA E REBELIÃO. AO MESMO TEMPO, ELE REVELA O CARÁTER DE DEUS, QUE É MARAVILHOSO, GRANDIOSO E MISERICORDIOSO, POIS JAMAIS SE ESQUECE DO SEU CONCERTO. ELE PERMANECE FIEL MESMO QUANDO O SEU POVO FALHA (2TM 2.13).

  Deus agia dessa forma porque a aliança que fez com os patriarcas era fundamentada na sua soberania, graça e misericórdia eterna, e não em méritos humanos. Biblicamente, pode-se ver que essa fidelidade divina é manifestada na Biblia para com Israel na misericórdia (Dt 4.31), nas experiencias que esse povo tinha com Ele e nos demais privilegios que a ele foram concedidos.

  1. Ele é misericordioso

  Pontuamos já a profecia de Moisés sobre um tempo em que Israel iria afastar-se de Deus e cair em grande tribulação por causa do seu pecado de infidelidade (Dt 4.27-28). Assim, ainda que os israelitas fossem dispersos, a miscricordia de Deus logo se manifestaria quando buscassem a Deus de todo o coração (Dt 4.29; 2 Cr 15.4; Ne 1.9).

   Teologicamente, a misericórdia divina expressa a aliança da graça. Deus permanece fiel ainda que o povo peque (Ex 34.6-7; SI 103.8-10). A fidelidade de Deus, portanto, é um esteio da identidade do povo de Israel, pois há esperança mesmo que o Senhor venha em juízo, pois Ele é também o Deus da misericórdia. Nós, cristãos, também somos alvo da misericórdia de Deus, pois, pela sua graça, Ele enviou o seu filho amado, Jesus, para dar- nos a salvação (Jo 3.16; Ef 2.4). A sua misericórdia é a causa de não sermos consumidos (Lm 3.22). Assim, mesmo quando falhamos, mas voltamo-nos  para Deus totalmente arrependidos, Ele novamente nos cobre com a sua compaixão (Lc 15.20).

  2. O valor das experiências com Deus

  Nesses versículos, o grande Moises agora está chamando a nação israelita para um momento de reflexão, pois a fé também é reflexiva e serve para meditar sobre a grandeza das maravilhosas e únicas experiências que esse povo teve com Deus. Nessa ordem de Moises, tem-se uma apologética histórica, pois nenhuma nação viu o que Israel contemplou, e jamais outro povo teve um Deus que falasse do meio do fogo e que tomasse para si uma nação com sinais e prodígios.

  A tcofania descrita aqui por Moisés é incomparável. Tudo o que os israelitas viram e ouviram não se tratava de argumentos falhos, tradições velhas e vazias de uma religião sem vida, mas, sim, experiências maravilhosas da revelação real, poderosa e histórica de Deus, que agiu em favor do seu povo (Js 2.10-11).

  A teofania que Israel viu no Sinai e o livramento concedido por Deus, que o tirou do poder opressor do Egito, constroem a estrutura da identidade teológica e espiritual de Israel, de modo que as experiências divinas que teve são transformadoras e conduzem a um relacionamento com o Deus vivo e verdadeiro.

  Os cristaos, como salvos em Cristo, tambem desenvolvem com Ele um relacionamento transformador (2 Co 5.17) e vivo. O apóstolo João esclarece isso com precisão (1 Jo 1.1-3). Nosso resgate espiritual não foi das terras do Egito, mas, sim, do mundo de pecado por meio do precioso sangue do Cordeiro, Jesus (1 Pe 1.18-19). Louvamos a Deus porque nossa fe não é construída em meras concepções ou abstrações religiosas, mas no evento historico e de fe, na morte de Jesus, como também em experiências espirituais vivas e reais alicerçadas na Palavra.

  3. O privilégio de conhecer a Deus e honrá-lo com obediência

  Nesses versiculos de Deuteronomio 4, as palavras de Moises são extraordinárias, pois revelam as grandes maravilhas e privilégios que Deus concedeu ao seu povo. Logo no versículo 35, ele declara o porquê de todos esses privilégios, e, por meio deles, Israel tomaria conhecimento da revelação que deveria ser total e exclusiva para com o Senhor (v. 36). Os

israelitas desfrutaram de um livramento histórico, pois foram libertos do Egito com o grande poder de Deus (v. 37), receberam como promessa a herança da Terra Prometida (v. 38). Essas bênçãos não eram resultado de seus méritos, mas do amor de Deus pelos seus pais. As promessas seriam cumpridas por causa da fidelidade de Deus ao assumir compromisso com Abraão, Isaque e Jacó.

  Os salvos em Cristo desfrutam de grandes privilégios espirituais em função dos méritos de Jesus. O primeiro grande privilégio é que somos filhos de Deus pela fé (Jo 1.12). Já somos abençoados com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais (Ef 1.3) e recebemos a condição de geração eleita, povo adquirido (1 Pe 2.9). Desde que fomos libertos do pecado, passamos a viver em Cristo e manifestamos para com Ele fidelidade e obediência, não vivemos mais como escravos, mas, sim, como filhos de Deus.

  3. Honrando ao Senhor de todo o coração

  O fechamento aqui se dá com Moisés com a sua primeira exortação ao povo para que fosse obediente e reconhecesse Deus, num compromisso exclusivo para com Ele e a sua vontade. O verbo hebraico saber indica não só conhecimento intelectual, mas também experiencial, íntimo e envolvente. Por meio dele, a pessoa seria impactada na sua maneira de viver, pois é impossível uma pessoa ter o conhecimento verdadeiro de Deus, do seu amor, santidade e verdade e continuar no pecado e na irreverência. Esse conhecimento não é um mero entendimento, mas, sim, interiorizar a verdade divina no coração.

  "Coração" não pode ser visto aqui apenas como o centro das emoções, mas o centro da razão, da vontade e da consciência moral. É isso o que o pensamento hebraico quer expressar. E com tais palavras que Moises desejava que cada israelita trouxesse para dentro do seu coração uma convicção real e profunda, internalizasse no seu ser a verdade de que só o Senhor é Deus e fizesse a confissão dessa verdade como o testemunho de uma fe monoteísta, pois nenhum Deus ha como o nosso. Essa é uma exclusividade ontológica de Deus no Antigo Testamento: não há outro como Ele (Is 45.5; Mc 12.29). A unicidade integra a perfeição da sua natureza.

   Israel deveria guardar todos os estatutos e mandamentos divinos como foram revelados e ordenados por Deus, envolver-se tanto nas questões morais como nas cerimoniais, procurar observar tudo cuidadosamente e zclar e proteger tudo, visto que o Senhor não queria obediência externa, de mera aparencia, mas, sim, um honrar com fidelidade, verdade e santidade, pois somente assim é que os israclitas poderiam ir bem em tudo, inclusive os seus filhos. Esse "ir bem" seria integral e envolveria saúde, paz, segurança e prosperidade. Eles receberiam prolongamento de ideias, longevidade fisica e estabilidade nacional na terra de Canaã. Todas essas bençaos seriam condicionadas à fidelidade para com Deus, e, caso quebrassem a aliança divina, os israelitas seriam tirados da terra - e isso se prova muito bem pelo exílio babilônico.

   Israel foi chamado para reconhecer e obedecer ao único e verdadeiro Deus, e, de igual modo, o cristão é chamado para obedecê-lo por causa da aliança feita por Cristo Jesus, que nos revelou o Deus verdadeiro Jo 1.14; 14.9). Ao guardar os mandamentos de Cristo, o cristão mostra o quanto o ama e acata Jo 14.21; Tg 1.22) e pode desfrutar das bênçãos espirituais em todos os níveis (Mt 6.33).

  CONCLUSÃO

  O capítulo 4 de Deuteronômio traz no seu âmago a perfeita revelação da importância de manter-se fiel para com o pacto firmado com Deus, que é misericordioso e fiel. Por causa da sua fidelidade, preserva os termos da aliança (Dt 4.29-31), revela-se de modo majestoso para com o seu povo (Dt 4.32-34) e concede grandes privilégios aos que são fiéis e obedientes (Dt 4.39-40). Deus deseja como resposta dos seus filhos temor, amor sincero, obediência e arrependimento.

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terça-feira, 20 de outubro de 2026

CPAD : O DEUS DA ALIANÇA – | Lição 02: Recapitulando a Jornada no Deserto

 


Capítulo 2

Recapitulando a Jornada no Deserto

  INTRODUÇÃO

  Diante da análise da trajetória de Israel pelo deserto, o cristão é chamado a refletir sobre o seu próprio deserto, que pode servir como uma sala de aula onde se aprende a depender do Senhor mesmo quando tudo parece escasso.

  O deserto espiritual é desafiador; nele, às vezes, parece que Deus está distante, que as promessas não se cumprirão, que tudo está tardando, mas é nesse lugar que estamos sendo provados, lapidados e preparados pelo

Senhor para desfrutarmos das suas promessas. O apóstolo Tiago fala muito bem sobre os propósitos das provas e lutas em nossa vida (Tg 1.2-3).

  Há um propósito em toda prova divina. O Senhor não aplica provas ou promove sofrimento para ver-nos padecer. Pelo contrário. As lutas e provações são corretivas, formativas, lapidadoras, transformadoras, fortalecedoras. Devemos ter ciência de que, mesmo não o vendo em momentos conflitantes, a "coluna de nuvem e fogo" (Êx 13.21-22) está lá. O Senhor constantemente nos guia, e o seu cuidado não falha, de modo que o deserto não é o fim de uma jornada; antes, pode ser o começo.

  I-O VALOR DA LIDERANÇA COMPARTILHADA 1.A

  NECESSIDADE DE LIDERANÇA

  Moisés já estava consciente de que o momento da sua morte aproximava-se, o que fez com que se preocupasse em ratificar a autoridade daquele que daria prosseguimento à condução do povo de Deus. Então, o que vem logo como questão primordial era a sua sucessão. Josué ocupara o posto, conforme Deuteronômio 1.38; 3.1,28.

  Pela leitura do versículo 9, vemos que Moisés é ciente da sua fragilidade humana; ele sabe que é pó e que ao pó voltará (Gn 3.19). Por outro lado, ao contemplar o crescimento do povo, ele admite que não o poderia conduzir sozinho (Dt 1.9). Moisés sentiu o peso do ministério, que envolve tanto o lado emocional quanto o administrativo. Num primeiro momento, o seu sogro, Jetro, deixou bem claro que o desgaste de fazê-lo só será tremendo (Êx 18.17-18; ver Ec 4.9).

  O pastor à frente da obra jamais deve trabalhar sozinho. A sua missão primaz é treinar e dar oportunidade a outros para que se tenha pessoas capazes para levar avante o projeto divino (2 Tm 2.2). É claro que, por vezes, alguns temem pelo fato de já haver dado oportunidade a alguém e vir a sofrer traição ou ingratidão; todavia, a obra é de Deus e os que procedem assim não prosperarão em nada, pois o destino do traidor, quando não há arrependimento, é triste (S1 41.9; Pv 17.13).

  Moisés lembra à nova geração que a liderança também foi partilhada com oficiais judiciários, que possuíam autoridade para o desempenho das suas funções (Ex 18.13). O grande legislador mostra que, por causa da promessa e da fidelidade do Senhor manifesta para com os patriarcas, o povo de Deus cresceu (Gn 12.2; 15.5), e será devido a esse crescimento da população, tal como as estrelas, que haverá a necessidade de a liderana ser compartilhada. No Novo Testamento, quando houve crescimento na Igreja Primitiva, para não haver detrimento da fé e a obra não ser apenas uma agência humana - sem Palavra e oração, que era e é o essencial -, os apóstolos sentiram a necessidade de compartilhar a liderança - e assim o fizeram (At 6.1-5), e Paulo ordenou o mesmo a Tito (Tt 1.5).

  É importante ressaltar que Moisés não vê o crescimento como problema, mas como bênçao do Senhor, mas era preciso administrar toda aquela situação. Jesus estava sempre cercado de uma grande multidão e, em momento algum, procurou desfazer-se dela, pois a via sem rumo, sem direção, precisando de um pastor, sendo essa a razão por que Ele manifestava compaixão para com ela (Mt 14.14). Todo líder cheio de Deus quer sempre ver a Igreja do Senhor crescendo como rebanho, família, corpo, lavoura, e jamais se contenta com a casa vazia. Aliás, o desejo de nosso Senhor Jesus é que a sua casa esteja sempre cheia, como sinal de pessoas alcançadas pelo evangelho.

  Os versículos 9-12 destacam pontos valiosíssimos para a liderança atual: o primeiro é que fica claro que ninguém sozinho poderá fazer um trabalho bem-feito; logo, é preciso compartilhar a sua execução. O segundo é quanto à limitação humana, ou seja, todos devemos reconhecer nosso limite para não tentarmos fazer as coisas além de nossas forças e sofrermos consequências (Ec 9.10). E a terceira é que trabalhar para Jesus é bênção, muito embora também apresente certo peso.

   No versículo 12, Moises faz uso de três palavras que sempre estarão presentes na vida do pastor: peso, carga e contenda. Elas expressam que o líder sempre se deparará com as demandas fisicas, emocionais e judiciais. Todo líder escolhido por Deus deve ser consciente de que o seu ministério é um dom, mas tambem um fardo; por isso, deve-se sempre contar com outros para o cumprimento dessa missão, e, para obter sucesso, a sua grande tarefa é treinar obreiros para o ministério (Ef 4.11.12).

  2. Critérios espirituais para compartilhar a liderança

  Jetro já falara sobre a necessidade de Moisés partilhar a sua liderança com outros. Podemos notar que o genro assim procedeu (Ex 18.13-27), mas, ao colocar o seu projeto em execução, seleciona muito bem quem irá acompanhá-lo à frente da obra e especifica as qualificações necessárias aos candidatos, que, ao serem tomados das tribos, sejam: sábios, inteligentes e experimentados. Em seguida, oportuniza aos israelitas a oportunidade de eles apresentarem candidatos aceitaveis, que foram posteriormente nomeados. Vejamos essas qualidades: (1) Sábio, do hebraico chakamim, é a pessoa que tem discernimento e sabedoria espiritual (1 Co 2.14); (2) o entendido ou inteligente (hb. nevonim) tem a capacidade de compreender o povo, os seus problemas e as situações; (3) já o experimentado, (hb. yeduaim) é aquele reconhecido pela integridade e liderança. A liderança da obra de Deus não pode ser conduzida por obreiro neófito, alguém infantil, tampouco alguém que apresente pouco ou nenhum testemunho (At 16.1; 1 Tm 3.6); não se pode colocar pessoas para serem experimentadas, pois o posto requer homens ja experimentados no manejo da Palavra (2 Tm 2.15).

   O povo teve participação na escolha dos líderes. Esse procedimento é imprescindível por duas razões: a primeira é porque ele conhece bem quem será escolhido, sendo que indicará homens sinceros para liderá-los; a segunda é porque esse procedimento é importante para excluir a política de consagrar-se homens isoladamente para proveito pessoal. Na escolha de novos líderes, os apóstolos procederem semelhantemente na escolha de homens para a consecução da obra, a exemplo de Estêvão (At 6.1-6).

  Os homens que viriam a ser lideres exerceriam grandes responsabilidades e estariam inseridos numa estrutura escalonada, de maneira que os níveis de responsabilidade seriam diversos: chefes de mil, de cem, de cinquenta e de dez, e, nesse particular, o Senhor queria as coisas organizadas, bem delegadas e descentralizadas, dirigidas por homens cheios do temor de Deus, sem ganância de poder nem avarentos, mas verdadeiros, sinceros e competentes (Êx 18.21).

  A escolha de homens para liderar que nao tennam temfor a Deus Causa grande estrago diante do rebanho, pois eles não temem pecar contra as ovelhas do Senhor e procedem como os filhos de Eli, que não fizeram caso do que é sagrado (1 Sm 2.12). Colocar na dianteira do ministério homens dominados pela avareza, por torpe ganância, mostra apenas que a intenção será sempre a de explorar o rebanho, sempre se voltando para as suas demandas pessoais, o seu status, e não o dos seus liderados. Essa liderança nunca será exercida de maneira voluntária, mas por força, sempre querendo exercer domínio sobre a herança de Deus (1 Pe 5.2-3). Colocar homens no comando que não sejam verdadeiros é chamar problemas, pois são hipócritas, falsos, aparentam estar servindo, mas agem como Absalão, com humildade desfaçatada apenas para chegarem ao poder. O desejo deles não é o de servir, pois não têm chamado, mas, sim, alcançar grandes postos (2 Sm 15.1-6). Para isso, não medirão esforços para chegarem onde querem.

  Queridos obreiros do Senhor, não devemos ter temor de compartilhar nossa liderança, porém devemos procurar saber com quem e para quem ela será compartilhada; por isso, é preciso oração e jejum na escolha desses homens (At 13.1-2), pois esses precisam estar qualificados espiritual, emocional e moralmente. Jamais devemos escolher alguém para ser líder atentando para os seus aspectos fisicos, pois tamanho e beleza não revelam nem caráter nem comunhão com Deus. No demais, o Senhor observa o lado interno de cada um de nós (1 Sm 16.7-8). Jamais se deve entregar a liderança a alguém por causa das suas habilidades ou dons naturais, por amizade, por filiação, por pressão; antes, a liderança deve ser compartilhada com os que possuem chamado e vocação, maturidade espiritual. Diante disso, o melhor é seguir as recomendações bíblicas (Pv 11.4; Mt 9.38; At 6.3; 1 Tm 3.10).

  3. O exercício justo e subordinado da liderança

  Os versículos ora em apreço revelam a importância de homens sábios, inteligentes e experimentados para estarem à frente da obra do Reino e conduzirem com ordem tudo o que se relaciona a Deus (Tt 1.5). Meninos, neófitos, homens sem maturidade alguma e sem caráter não podem liderar o rebanho do Senhor. Moises fala que os candidatos precisariam ser justos nos seus julgamentos, ou seja, sem parcialidade, e que a justiça teria que alcançar os irmãos e os estrangeiros com equidade.

  O verso 17 traz um brilho extra ao evidenciar tres grandes princípios imprescindíveis para o julgamento. O primeiro deles é: sem parcialidade, sem acepção de pessoas. Quando o homem que tem Deus na vida exerce uma posição de liderança, é consciente de que deve primar pela justiça divina, visto que ela não procura privilégios, nem oprime ninguém; antes, quer que aquilo que for justo seja feito.

Imagine colocar na liderança um homem sem o temor a Deus, sem a sua justiça? Só é bom colocar como líderes homens que têm fome e sede de justiça, pois jamais procederão tendo como base a ilegalidade (Mt 5.6).

  O segundo princípio exposto por Moisés para a liderança é colocar homens que tratem todos igualmente, que ouçam o grande e o pequeno, o rico e o pobre, pois todos merecem a justiça de Deus. O terceiro princípio é que o líder precisa apresentar coragem moral, não temendo a face de ninguem e tendo consciência de que o posto que exerce sobreveio-lhe por determinação divina e confirmação da assembleia de salvos; isso lhe concede autoridade para liderar sem temer o poder humano, seja ele de que natureza for.

  A seção é encerrada com uma lição que deve ser seguida por todos que exercem a liderança: (Dt 1.18). Moises não era um lider dificil, a quem o povo não tinha acesso; além de compartilhar a sua liderança, ele dispõe-se a servir a todos, dando-lhes suporte e orientação e acompanhando outros liderados.

 

  II -A RECUSA DE ENTRAR NA TERRA PROMETIDA 1. UMA RECORDAÇÃO RESUMIDA

  A expressão "recordação resumida" dá-se pelo fato de Moisés não procurar relatar todos os fatos nos seus pormenores, mas a recusa de entrar na Terra Prometida por parte dos israclitas pode ser visto com todos os detalhes nos capítulos 13 e 14 de Números. O que se tem nos versículos 19-21 são relatos da jornada desde Horebe (Sinai) até Cades-Barneia, uma afirmação também segura de que o Senhor já lhes havia dado a terra, e uma exortação para não se temer e nem se assustar.

   É importante entender também que o foco aqui não é apenas histórico, mas também espiritual e didático, mostrando que a incredulidade atrasa as promessas de Deus. Trata-se de exortar a nova geração a confiar e a obedecer ao Senhor, e nao ser incredula como a anterior. Todos deveriam lembrar que Deus já havia dado a terra a eles, essa recordação é, então, resumida, seletiva e teológica. Tudo isso tem grande valor para os cristãos dos dias atuais (Rm 15.4; Hb 3.18-19). Para nao repetir os erros dos seus pais, Moisés diz à nova geração o que havia dito à passada. A sua fala objetivava ensinar a nova geração a não cometer os mesmos erros e pecados da antiga.

   Moisés relembra à nova geração a jornada que se iniciou desde Horebe (Sinai) até Cades-Barnéia, que era a porta de entrada da Terra Prometida. Foi em Horebe que Israel recebeu a Lei e teve a revelacao de Deus e o seu poder (Ex 19). Isso mostra que partir desse lugar era sair consciente da revelação e do pacto e estar pronto para viver-se a promessa feita. Nessa recapitulação, Moisés mostra que a reviravolta que aconteceu com o povo de Deus, já estando na fronteira da Terra Prometida, foi devido aos seus pecados, que os levou a voltar a peregrinar pelo deserto ate que fossem mortos.

  Não foi uma viagem fácil. O povo teve que atravessar o grande e terrível deserto, evidenciando, assim, as dificuldades naturais, mas, ao mesmo tempo, destacando a fidelidade, a bondade e o cuidado divino em tudo (Dt 8.15). A rememoração dessa história também serviu para mostrar o fim dos tolos e desobedientes, que manifestam descontentamento com o que é de

Deus, querendo retornar ao Egito.

  Moises logo exorta todos a entrar e possuir a Terra Prometida. A ordem divina "não temas" envolvia uma chamada para que todos tivessem fé e ação. Moisés informou à nova geração que a antiga esteve bem perto da Terra Prometida, mas fora ela mesmo que colocou uma barreira que a impediu de avançar: a incredulidade.

  O caminhar da antiga geração não se deu por causa de uma ordem de Moisés. O texto é claro em dizer: "Como o Senhor nos ordenara", o que mostra que os israelitas poderiam avançar com fé rumo à promessa, pois

não se tratava de uma ideia de Moisés, mas, sim, de uma ordem de Deus.

  Eles conseguiram chegar ate a porta de entrada para Canaa, no sul da Terra Prometida, que era um ponto estratégico, uma grande oportunidade para desfrutarem da promessa de Deus, bastando apenas que respondessem com fe e obediência. "Monte dos amorreus" é uma expressão simbólica e geográfica direcionada à terra de Canaã, que era dominada por esse povo, os representantes dos cananeus como um todo (Gn 15.16). A posse da terra por parte de Israel não se daria por causa dos seus méritos, mas era uma promessa; os israelitas não a conquistariam por meio da força ou habilidade humana, mas, sim, da confiança em Deus.

  No versículo 21, é dito: "Eis que o SENHOR nos entregou". Mais uma vez, destacamos o verbo "dar", que é enfático no texto, como um ato consumado de Deus. Isso quer dizer que, da parte divina, a terra já era deles. Bastava subirem e possuírem-na pela fé. Vale dizer que Israel não deveria primeiramente lutar para ganhar, mas ter fe. O reforço das expressõess divinas "não temas" e "não te assustes" à antiga geração é porque, como onisciente, Ele sabia da duvida, do medo e da falta de coragem que os assaltavam.

  2. Fracassando pela linguagem da incredulidade

  Nessa passagem, há um detalhe que não se encontra em Números: Moisés permitiu a ida dos espias para olharem a terra porque foi um desejo dos israelitas. Em Numeros 13.1-2, é dito que o Senhor enviou. Moisés deu a eles a Palavra de Deus, por meio da qual deveriam ter fe e seguir em frente, mas, como essa Palavra não encontrava lugar nos seus corações, sempre havia dúvidas, questionamentos e, por consequência, falta de confiança.

  O que prevalecia grandiosamente na vida desses israelitas eram as suas opiniões, as suas políticas e visões próprias, o que os fazia desprezar a sabedoria divina, razão por que estavam sempre enfrentando dificuldades.

  Se confiassem em Deus, que os havia escolhido e que ia adiante deles, não haveria necessidade de enviar espias, mas as normas humanas seguem onde falta a fé. Assim, podemos dizer que o envio dos espias partiu do povo, jamais de Deus, e isso porque não confiaram plenamente nas promessas

divinas, Os espias foram à Terra Prometida, constataram tratar-se de uma grande bênção, trouxeram de lá alguns dos seus frutos e evidenciaram a fertilidade.

  Eles eram juízes descrentes, mas viram a verdade. É bem provável que jamais examinaram com cuidado a terra santa, mas podiam constatar que cra uma boa terra, mas escolheram duvidar mesmo com com provas visíveis.

  Em Numeros 13.31-33, vemos que veio desses espias a percepção negativa: "Não podemos subir [ ... ] são mais fortes do que nós". Foi essalinguagem negativa que agiu como fermento corruptor e contaminou o povo. Como cristaos, devemos ter todo cuidado com linguagem marcada pela incredulidade, pois ela pode contaminar a fé, paralisar a marcha do povo do Senhor e promover duvidas, medo e derrota. Nunca promove a promessa, mas apenas o negativo, o impossível, impedindo que se tome posse das bênçãos do Senhor. Sigamos o conselho de Paulo (C1 4.6).

  3. Pecados marcantes na vida de Israel

  Os israelitas não vão querer subir para tomar posse da Terra Prometida, pois, mesmo vendo a prosperidade da terra e sabendo da promessa divina, não fizeram caso disso, mas olharam apenas para as dificuldades e acharam impossível tomar posse. Logo, então, tornaram-se rebeldes, e a rebeldia aqui cra tanto moral quanto espiritual, e não apenas civil. Os israclitas recusaram-se a obedecer, mesmo tendo recebido as devidas instruções (Nm 20.10; SI 78.8).

  O outro pecado cometido foi o da murmuração, que é o ato de reclamar em tom de queixa sussurrada, maledicência velada. No Antigo Testamento, diz respeito à murmuração desleal e envolve desconfiança, difamação do caráter de Deus e acusações ocultas (Nm 14.27; SI 106.25).

  Nesse espírito negativista, os israclitas começaram a dizer que era impossível atacar essa cidade, que ninguém podia superá-la, que lá havia gigantes e que nenhum tipo de cerco funcionaria, pois a cidade era bem guardada e fortificada até os céus. Para isso, eles faziam uso de uma hipérbole para os seus próprios argumentos negativos - tudo na intenção de desencorajar o povo.

  Diante de todo esse quadro, Moisés diz para a nova geração que ainda tentou incentivá-la na intenção de acalmar o tumulto e encorajá-la, porém sem sucesso (Dt 1.29). Ele fez de tudo, inclusive os lembrou de que o Senhor estava com os israelitas e que daria a vitória a eles, lutando no seu lugar. O grande legislador fez uso do relato milagroso de como Deus agiu em favor deles quando estavam no Egito, quando peregrinaram pelo deserto, sempre manifestando a sua bondade pela coluna de nuvem e de fogo. O Senhor carregou-os nos seus braços como aio e suportou todos os seus costumes (At 13.18). Não faltava nada para que esse povo confiasse em Deus.

  Moisés relembra os pecados da antiga geração, sendo que alguns herdaram dos seus pais certos costumes e envolveram-se em alguns tumultos. Moisés acusou a geração antiga de dois pecados: rebeldia e desobediência contra a Lei de Deus, pois estavam agindo contra a autoridade do Senhor, afirmando que Ele aborrecia-os.

   A descrença desse povo era grande e, por isso, ele rejeitou a ordem de Deus deliberadamente. O povo agia assim porque o seu coração já estava contaminado. Restou a Moisés acusá-los, deixando claro que eles não creram no Senhor, de maneira que se sabe que a incredulidade e a raiz de todo pecado.

  Devemos ter todo o cuidado e vigiarmos para não cairmos no pecado da rebeldia, murmuração, ingratidão e incredulidade, pois são eles que nos impedem de desfrutarmos das bênçaos do Senhor. No demais, jamais devemos duvidar do amor e da bondade de Deus para não cometermos o pecado de ingratidão, tornarmo-nos cegos e passarmos a viver na incredulidade e desobediência; daí o alerta bíblico (SI 106.24-25; 1 Co 10.10-11; Hb 3.12).

  III -A SENTENÇA DIVINA PELA DESOBEDIÊNCIA 1.A

GRAVIDADE DA REBELDIA E O VALOR DA FIDELIDADE

   Nesta seção, Moisés repete a sentença que veio à geração antiga de Israel, evidenciando a causa de ela não ter entrado na Terra Prometida: desobediência, falta de fé e incredulidade. Por causa disso, todos foram condenados a morrer no deserto, exceto Josué e Calebe. Aquela geração peregrinaria pelo deserto por longo tempo até que fosse destruída.

  Por causa da incredulidade desse povo, rebeldia e falta de fé na promessa, Deus indignou-se contra eles. Essa indignação divina acontece por causa do pecado de incredulidade e murmuração, e, desse modo, Ele iria deflagrar a sua justa santidade contra o pecado. Isso iria acontecer com certeza porque Deus fez um juramento irrevogável, deixando claro que a sentença de morte no deserto era certa.

  Essa geração é chamada de maligna ou má, mas não se trata apenas de uma descrição superficialmente ética, e sim de uma corrupção moral, profunda e continuada, o que remete ao texto de Gênesis 6.5, que diz que a maldade do homem proliferara-se sobre a terra (SI 78.8; Mt 12.39).

  A indignação da parte de Deus acontece para mostrar que Ele leva a sério a questão do pecado. É mais sério ainda porque o povo recebera a revelação divina e tivera experiências gloriosas com Ele, mas não fez caso, e, assim, o diagnóstico de Deus para ele era: uma geração maligna. Isso descreve o estado coletivo de um povo que rejeitou a Deus persistentemente (Hb 3.10- 11).

   O texto mostra que ate Moises caiu no desagrado do Senhor por causa de uma palavra impensada que pronunciou por causa do povo (Nm 20.12; Dt 1.37). O procedimento pecaminoso desse povo fez com que a morte entrasse na vida dos israelitas, e tudo isso foi por causa da falta de fé. Assim, como todos receberam a sentença de não entrarem na terra, Moisés foi incluído. Porém, mesmo em meio a tudo isso, nota-se a misericórdia divina. O grande lider falhara na sua comissao, mas agora Josue iria prosseguir com o trabalho e continuar com o projeto divino, de modo que ele incentiva Josué, por saber que não seria nada fácil.

  A nova geração recebeu de Moisés todos os detalhes que fizeram a antiga geração fracassar, mas, agora, os israelitas poderiam proceder melhor, seguir em frente e lembrar que a misericordia prevalece sobre o juízo. Que fique claro: o Senhor sempre honra todos os que procedem com fe, mas pune os que escolhem trilhar o caminho da incredulidade. Isso ocorre porque a incredulidade não é vista como um tipo de fraqueza, mas, sim, como um ato de rebeldia, pois, diante da revelação divina e dos seus grandes milagres, as pessoas continuam pecando e, assim, atraem para si o juízo divino. O certo é andarmos com integridade e fe, como Josué e Calebe, para adentrarmos a Terra Prometida (Nm 14.24; Rm 11.22; Hb 3.17-19).

   2. A formação da nova geração pela fidelidade

  A geração antiga de israclitas estava sempre pecando contra Deus e agora o acusa de querer destruir os seus filhos (Dt 1.27), que cram jovens que já tinham alguma consciência, mas ainda estavam em fase de aprendizado ou transição. Assim, em Deuteronômio, esses "filhos" referem-se à geração mais nova, que ainda nao havia atingido maturidade moral ou responsabilidade pela rebeldia do povo.

   A expressão "não conhecem hoje o bem e o mal" quer dizer que não tinham maturidade moral, discernimento ou responsabilidade ética, num estado de inocência frente à exigência da Lei (Is 7.16). Compreende-se, então, nesses versículos, que Deus estava deixando claro que tanto as crianças quanto os jovens não se envolveram conscientemente com o pecado da geração antiga e, por isso, teriam direito a prosseguir para mais adiante e a herdar a Terra Prometida. Para isso acontecer, teria que ser ensinada, moldada e lapidada no deserto, de modo a andar em fidelidade e obediência. Isso tudo mostra a relevância da transmissão de fé de uma geração para outra (Dt 6.6-7).

  Enquanto a geração antiga e maligna acusou Deus de querer destruir os seus filhos, a resposta divina contraria tal colocação com a graça em ação, quando Ele assegura: "[ ... ] ali entrarao, e a eles a darei, e eles a possuirão" (Dt 1.39), mas a antiga teria agora que voltar para o deserto - e não seria um retorno para conquista, mas, sim, de punição.

   Falar de uma nova geraçao e relevante, porque ela sempre aponta para renovo, nova esperança; mas, para que a nova geração de filhos não proceda pecaminosamente e perca-se na falta de fé nas promessas divinas, é preciso que cla seja instruída e ensinada a discernir entre o bem e o mal para que jamais venha a trilhar os passos errados dos seus pais. Assim, há que se ter uma formação espiritual consistente, seguir o exemplo de líderes fieis a Deuse estar num ambiente familiar que expresse obediência e reverência para com o Senhor (Pv 22.6; SI 78.6-8; Ef 6.4).

  3. As consequências da desobediência persistente

  Agora, retornando ao deserto, a geração antiga tenta, de modo infrutífero, reverter a sentença divina, só que é tarde demais. Com iniciativa própria, quer fazer o que se omitiu a fazer com Deus: subir contra os cananeus.

   Todos prontamente pegaram as suas armas de guerra e lançaram-se ao projeto. É sempre bom termos cuidado e vivermos na dispensação da graça do Senhor, pois, quando a porta da graça fechar e o dia terminar, não haverá chance para os que ficarem do lado de fora, pois a porta não se abrirá. Foi o que aconteceu com a velha geração de israelitas.

  O que parecia um ato de fe era novamente uma rebeliao, pois Moisés  aconselhara aos israclitas não irem, mas eles não obedeceram. Ao invés disso, subiram a montanha presunçosamente e agiram com desprezo às ameaças e com desdém às promessas de Deus, em espírito de rebelião; logo, foram perseguidos e derrotados por terem provocado Deus e aprenderam que poderiam ter sucesso em tudo se tivessem procurado andar em obediência e amor.

   Os versículos 41-46 mostram que a confissão feita agora pelos israelitas na intenção de corrigirem os seus pecados e erros não era verdadeira, mas superficial. Eles tentam pela sua própria vontade, sem obediência verdadeira, mas já era tarde demais. O arrependimento não era verdadeiro. Deus não estava mais com eles para o triunfo. Eles foram feridos pelos amorreus. Essa derrota era devido às consequências dos seus próprios pecados: presunção e desobediência. O seu choro e as suas lágrimas não mais foram percebidas por Deus, pois o tempo em que deveriam ter sido fiéis e obedientes havia passado.

  Israel andava na incredulidade. Os seus pecados repetidos eram de um coração endurecido, sem qualquer sensibilidade para Deus e a sua maravilhosa voz. Dessarte, sem a direção divina, andavam agora num tipo de presunção espiritual, tentando fazer o que era certo, mas na hora errada, razão por que foram à ruína.

  Devemos ter todo o cuidado para sempre andarmos em obediência, verdade, santidade e fidelidade para com Deus e seguirmos a sua Palavra, pois ha momentos em que Ele fecha a porta. Ainda que busquemos com lágrimas, como fez Esaú, não receberemos, posto que o arrependimento que Ele deseja de nós é marcado pela verdade, humildade, obediência e prontidão. Devemos buscar ao Senhor enquanto se pode achar, porque depois poderá ser tarde demais (Is 55.6; Pv 1.28-29; Hb 12.17).

  CONCLUSÃO

  Todo cristão salvo em Cristo, ao ler essa história de Israel já à beira da Terra Prometida, deve observar que não se trata de uma narrativa simplesmente histórica, mas ela deve ser vista como um espelho espiritual para todas as gerações, pois é certo que o Senhor é sempre fiel e cumpre o que promete (Nm 23.23). Para desfrutar das suas promessas, porém, é preciso fé, obediência e constante confiança. A geração antiga fracassou porque murmurou, duvidou, foi presunçosa, desobediente; a nova teria a oportunidade de ser formada na fe e não repetir os mesmos erros. Há, portanto, duas gerações: uma rebelde, que murmura e fracassa, e outra que obedece e, por isso, adentrara a Terra Prometida. De qual delas você quer fazer parte? (Hb 3.15).

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