Sumário
Introdução
Capítulo 1
Deuteronômio: O Livro da Aliança
Capítulo 2
Recapitulando a Jornada no Deserto
Capítulo 3
A Fidelidade de Deus diante da Infidelidade de
Israel
Capítulo 4
O Chamado à Obediência
Capítulo 5
O Grande Mandamento
Capítulo 6
A Aliança e as Bênçaos da Obediência
Capítulo 7
Maldições e Bênçãos da Aliança
Capítulo 8
Escolhendo a Vida ou a Morte
Capítulo 9
A Sucessão de Moisés
Capítulo 10
O Cântico de Moisés: Advertência e Esperança
Capítulo 11
A Bênção Final de Moisés
Capítulo 12
A Morte de Moises e a Continuidade da Promessa
Capítulo 13
O Cumprimento de Deuteronômio em Cristo
Bibliografia
Introdução
Qual seria a pertinência de um livro escrito
há mais de três mil anos para a Igreja dos dias atuais? Em primeiro lugar,
deve-se considerar que a Palavra de Deus é atemporal. Ela não envelhece, não
caduca, posto que, na sua essência, é plenamente divina e inspirada (Is 40.8;
Mt 24.35; 2 Tm 3.16; 1 Pe 1.25); logo, por integrar a Palavra de Deus,
Deuteronômio tem grande relevância, razão por que Peter Vogt disse uma vez:
O último livro do Pentateuco desenvolve o
tema da graça de Deus, em grande parte, da mesma forma que os livros
anteriores. Os discursos fervorosos de Moisés em Deuteronômio podem ser vistos
como manifestações de graça, já que Moisés, o profeta de Deus por excelência,
revela ao povo o que ele precisa saber para sobreviver e prosperar na terra e
fomentar o tipo singular de comunidade para o qual foi chamado (2015, p.
81,82).1
A nova comunidade de Israel estava sendo
preparada para ser introduzida na terra da promessa depois de uma árdua
peregrinação pelo deserto, de lutas e batalhas vencidas e da velha geração que
ficou para trás. Essa nova comunidade tem diante de si a oportunidade de viver
as promessas divinas, mas, para isso, é preciso estar preparada. Assim,
Deuteronômio é a repetiçao da Lei com o objetivo de chamar esse povo para um
real compromisso com Deus e atentar realmente para os termos da aliança.
Israel, como um povo que vivia em meio às
circunstâncias corriqueiras da vida, enfrentava crises políticas, guerras,
lutas, batalhas e, ao entrar na nova terra, enfrentaria tensões e outros
desafios, porém Moisés, o homem de Deus, deixa claro que se, de fato, os
israelitas procurassem ter um compromisso real com a Aliança do Senhor antes de
entrarem na Terra Prometida, as adversidades aparentemente impossíveis de serem
vencidas seriam superadas. Era preciso que procurassem seguir em frente compreendendo
a natureza da aliança e mantendo seriamente o compromisso com o Senhor.
Deuteronômio é, sem dúvida, um livro bíblico
altamente debatido por estudiosos de diversas academias hoje, o que gera as
mais diversas opiniões. Os métodos aplicados jamais chegaram a um consenso
mesmo sendo bem refinados nas suas nuanças. Esse processo cresce cada vez mais
como se pode constatar, por exemplo, por parte da "nova crítica",
que, na sua ênfase da literatura, considera o estudo do Antigo Testamento como
algo já acabado. Na análise estrutural, objetiva-se também ratificar que, na
sua natureza, o texto já está acabado; nesse sentido, a nova estilística que se
faz presente também exerce impacto nessa forma de conceituação.
Os métodos exegéticos aplicados ao estudo do
livro de Deuteronômio são conhecidos, como a crítica histórica, que envolve o
estudo das fontes e a formação histórica do texto. A crítica literária
tradicional volta-se para análise da estrutura, do gênero e dos estilos que
identificam esse livro como um sermão de Moisés ou como coleção de leis em
forma de tratados antigos do Oriente Próximo. Ainda se faz alusão à crítica
canônica e visa-se saber o lugar desse livro na formação final do cânon
bíblico.
O propósito da nova crítica é enfatizar a
análise do texto como unidade literária, independentemente da sua origem
histórica. Nesse particular, a abordagem é feita analisando a leitura sincrônica,
cujo objetivo é o texto final como está hoje. Depois, segue-se a estrutura e o
estilo, atentando para a repetição de palavras como ouvir, amar, coração. Além
disso, têm-se os temas centrais, que abordam sobre a lealdade para com o Senhor
Deus, a eleição de Israel e o conceito de aliança que se firma na relação de
amor e obediência, que resulta não apenas de um processo de edições históricas,
mas também em algo que se fundamenta em uma fé monoteísta, que, por sua vez,
incide sobre a espiritualidade do povo (Dt 6.4).
No caso da nova estilística ou, então,
análise estilística contemporânea, o enfoque é a linguística e a estética
textual, atentando-se para ritmo e a repetição (paralelismo, cadência da linguagem),
bem como uso de formas jurídicas e homilética; também envolve a linguagem do
pacto - maldição e bênção - e, por fim, têm-se as marcas orais, que são
apresentadas em fórmulas repetidas: "Guarda, pois, os mandamentos"
(Dt 7.11; 8.6).
À parte de tais explicações, o leitor deve
estar plenamente certo de que esse livro não é produto da imaginação de Moisés,
mas, sim, uma porção da Palavra de Deus, que tem lugar central na teologia do
Antigo Testamento e realça a importância da renovação da aliança entre Deus e o
seu povo. O livro de Deuteronômio naturalmente faz combinação com diversos
matizes e busca ajustar termos jurídicos, bem como narrativos e teológicos,
cujo propósito e convocar Israel para uma vida de fe, obediência e fidelidade com
Deus, o Senhor.
Deuteronômio é visto, sobretudo, no tocante
aos discursos finais de Moisés, que, em essência, procuram relembrar os atos
poderosos de Deus, rever os seus mandamentos e, assim, exortar todo o Israel a
viver em obediência e manter uma fidelidade exclusiva para com o Senhor. O
livro chama a nova geração de israelitas a viver a aliança (Dt 6.4-5), que não
tem apenas um cerne juridico, mas que tambem se fundamenta num relacionamento
que responde a Deus com amor, obediência e fidelidade.
O leitor há de entender que a estrutura de
Deuteronômio firma-se em modelos de tratados ou alianças comuns no Antigo
Oriente Próximo, com o propósito de que esse compromisso reforce a renovação do
pacto, de modo que o documento apresenta introdução (Capítulo 1), a narrativa
histórica da relação (Capítulos 1-3), as cláusulas da aliança (4-26), que são
retratadas em termos de bênçãos e maldições (27-30), e, por fim, a sucessão da
nova liderança (31-34). Em todo esse conteúdo, o alvo é levar cada israelita a
ter consciência do compromisso que assumiu com o Senhor, que deve firmar-se na
fidelidade e na confiança das suas promessas para ter um futuro certo.
Portanto, amado irmão, ao pisar no terreno de Deuteronômio, não o veja apenas como um aglomerado de leis; o seu conteúdo é espiritual e destaca a importância da aliança, bem como a fidelidade, a justiça e o amor de Deus, que é apresentado neste livro como aquEle que libertou o seu povo da agrura e que agora deseja manter um relacionamento pessoal e pleno com ele, alicerçado na fé e na obediência.
Tratando
da questao da autoria de Deuteronomio, analisaremos isso em tres linhas
interpretativas: (1) a tradição judaica, (2) a concepção ortodoxa e (3) a autoria
mosaica. Seguindo a tradição judaica, é preciso que voltemos para o próprio
Pentateuco, que ratifica Moisés como sendo o seu autor. No
prefácio do livro, é
dito: "Estas são as palavras que Moisés falou" (Dt 1.1), reforçado
pela expressão "E Moisés escreveu está lei" (Dt 31.9).
Outros livros biblicos referenciam Moises
como o seu autor. Em Josue 8.31,32, é dito que este seguiu a instrução de Moisés
(cf. 1 Rs 2-3). Davi faz recomendações para o seu filho com o livro de Moisés.
Já no Novo Testamento, mais especificamente nos Evangelhos de Marcos e de João,
ambos falam que Deuteronômio foi escrito por Moisés, e isso é assegurado pelo
próprio Senhor Jesus Cristo (Mc 12.26; Jo 1.45; 5.46,47).
Quando se fala sobre a concepção ortodoxa, o
seu posicionamento é o da Palavra de Deus como plenamente inspirada (2 Tm 3.16)
e de que os homens que a escreveram foram movidos pelo Espírito Santo de Deus.
Isso se confirma, por exemplo, em 2 Pedro 1.20-21. A natureza do termo ortodoxo,
cuja formação é composta (orthos, que quer dizer "correto", "verdadeiro",
e doksa, que quer dizer "opinião", "glória"), em suma, diz respeito
àquilo que é reto, correto - ou seja, doutrina correta. Na visão do cristianismo,
esse termo expressa religiosamente "fé" ou "doutrina",
aquilo que está de acordo com os ensinos das Sagradas Escrituras. Segundo a posição
ortodoxa, portanto, fica claro que Deuteronômio tem como autor principal
Moisés, que foi inspirado por Deus para escrevê-lo - exceto, claro, o capítulo
34, que narra a sua morte; acredita-se que ou Josué ou um profeta posterior
tenha escrito os versículos finais.
Consideracões quanto à autoria mosaica Há três fatores que devemos levar em consideracao em relacao a autoria mosaica. A primeira e que o que Moises escreveu tem autoridade divina, posto que a Lei nao foi um produto da sua mente, uma criacao humana, mas, sim, uma revelação da parte de Deus. Em segundo lugar, ao analisar o Pentateuco como um todo, a harmonia entre os livros é algo esplêndido, visto que tudo se entrelaça perfeitamente; não existe dissonância entre o teor de Gênesis, Exodo, Levítico e Numeros com o de Deuteronômio. Na sua unicidade, todos eles levam a uma unidade, que é algo que provém da inspiração divina. Em terceiro lugar, nosso Senhor Jesus Cristo fez uso do livro de Deuteronomio e, ao faze-lo, evidenciou a sua autoridade canônica e a sua confiabilidade, reiterando a sua inspiração plenamente divina (Dt 8.3; Mt 4.1-4).
Data Em relação à data, a composição de Deuteronômio indicar ser de, aproximadamente,
1405 a.C., por volta do fim da vida de Moisés, no quadragesimo ano da
peregrinacao no deserto. O contexto histórico permite afirmar que o escrito
aconteceu nas planícies de Moabe, antes de os israelitas adentrarem a Terra
Prometida (Dt 1.3).
Da parte da Alta Crítica, há oposição tanto
com relação ao autor quanto à data, ao não atribuir a Moisés a autoria do
livro, mas a um redator posterior, já do século VII a.C., tempo em que Josias
reinava. Esses argumentos estão estabelecidos pela linha de pensamento denominada
hipótese documentária.
Não havia questionamento quanto a Moisés ser
o autor do Pentateuco até o século XVII. Ambos, judeus e cristãos, viam-no como
sendo ele o autor; porem, a partir de 1671, quando foi conjecturado por parte
de Baruch Spinoza que, possivelmente, Esdras seria o seu autor, abriu-se o
precedente para que outras diversas teorias sobre o assunto surgissem, passando
a fazer- se uso de nomes diferentes de Deus, estilos literários diversos, bem
como enumeração de distintas fases do desenvolvimento do culto, o que possibilitou
críticos pensarem na existência de vários documentos originais.
Os estudiosos que se sobressaíram sobre o
tema foram: Jean Astruc (1684- 1766), que fez destaque de uma autoria dupla por
causa do aparecimento de dois nomes de Deus: Elohim (E) e Yahweh (J); Johann
Eichorn (1752- 1827)), que se destacou pelas suas pesquisas no aspecto
literário com diferenciação para os dois nomes de Deus e, por causa disso,
afirmava serem dois autores; Alexander Geddes (1737-1802), que dizia que o
livro de Gênesis teve vários autores, porém uma só pessoa, isto é, um redator
que
reuniu todos esses
fragmentos, partindo daquele que era o mais primitivo e unificando diversos
documentos; Herman Hupfeld (1796-1866), Karl Graf (1815-1869), Abraham Kuenen
(1828-1891) dividiram os documentos (E) com o propósito de separar um Código
Sacerdotal (P), afirmando que Deuteronômio seria último documento (D). Por fim,
tem-se o nome de Julius Wellhausen (1844-1918), de quem vem a organização
clássica da Teoria Documentária, que firma a seguinte ordem: J.E.D.P.
A tradição ortodoxa rejeita rigidamente a Alta
Crítica. Para os ortodoxos, aceitar a Hipótese Documentária (JEDP) significa
negar a inspiração profética de Moisés e fragmentar o texto bíblico em recortes
humanos. Além disso, essa abordagem questiona a autoridade divina da Palavra, reduz
os relatos históricos a mitos e invalida a legislação bíblica. Contudo, pode-se
ratificar com firmeza que essa teoria carece de sustentação, pois não encontra
amparo em evidências internas do texto nem no testemunho do Novo Testamento.
Em resumo, dizemos que a teoria da hipótese
documentária é fraca e falha pelas seguintes razões: 1) falta de evidência
documental: as fontes nunca foram encontradas em manuscritos separados e são
construídas em cima de suposições estilísticas, sem evidência arqueológica ou
literária; 2) critérios literários inconsistentes: as divisões são feitas a partir
de critérios frágeis; 3) capacidade literária dos antigos subestimada: crer que
Moisés ou alguém da sua época não poderia ter escrito uma obra tão complexa; 4)
ignora a unidade teológica do Pentateuco: a divisão JEDP fragmenta o texto; 5)
consiste em uma suposição evolucionista e racionalista: afirma que a religião
de Israel é evoluída de um politeísmo primitivo para um monoteísmo ético; 6) não
leva em consideração o testemunho do Novo Testamento e de Jesus Cristo: Ele
atribui a autoria do Pentateuco a Moisés (Jo 5.46); 7) as múltiplas versões
apresentam-se vulneráveis: os próprios críticos contemporâneos, com o passar do
tempo, deixaram de concordar sobre a forma tradicional JEDP, pois diversas
modificaçoes foram propostas.
A posição ortodoxa conservadora, por sua vez,
é mais consistente porque confere destaque à unidade e à integridade do
Pentateuco, concebendo Moisés como autor - apenas com edições editoriais de
Deuteronômio 34 -, e também à inspiração divina plenária (2 Tm 3.16).
Admitir Moisés como autor de Deuteronômio é
entender que foi Deus que o levantou para ser um instrumento seu na terra, para
fazer a sua vontade. Moisés tornou-se líder do povo, profeta, legislador e intercessor;
no demais, foi inspirado para deixar registrado no cânon bíblico um conteúdo tão
esplêndido que o evangelista João diz: "Porque a lei foi dada por Moisés; a
graça e a verdade vieram por Jesus Cristo" (Jo 1.17). O homem Moisés, escolhido
por Deus, considerado como o mais manso da terra e fiel em toda a casa (Nm
12.3,7) irá figurar na história como um tipo de Cristo (Hb 3.2- 6).
2.
Definição
A tradição judaica denomina os cinco primeiros
livros do Antigo
Testamento de Torá, e a
tradição cristã, como Pentateuco. São livros considerados o pilar ou o alicerce
da revelação divina veterotestamentária. Logo no primeiro capítulo, em 1.1, temos:
"Estas sao as palavras que Moisés falou". Uma prática bastante comum
na tradição judaica era que os livros recebiam o título com base nas primeiras
palavras, e não pelo seu conteúdo.
Esse livro era por demais importante para os
judeus, que, ao longo do tempo, deram diversos nomes a ele, em especial: Sefer
Devarim (Livro das Palavras), o mais tradicional; Mishneh Torah (Repetição da
Torá), termo usado preferencialmente pelos rabinos pelo fato de tratar-se das
repreensões que envolviam bênçãos e maldições (Dt 28-30); em se tratando de
contexto litúrgico e rabínico, outro nome que se dava a esse livro era A Última
Palavra de Moisés, como se fosse um testamento final, mas, claro, com o seu
peso profético e espiritual.
Em se tratando da estrutura do livro, a sua
naturcza descreve-o como sendo organizado, evidenciando que se seguiu um plano
bem tratado. No seu aspecto estrutural, contempla os três discursos de Moisés.
Esses três discursos são extraordinariamente preciosos, pois objetivam tratar
sobre a formação teológica e espiritual do povo de Deus, Israel, antes de
adentrar a Terra Prometida. Por meio desse testamento, Moisés transmitia as
verdades divinas da aliança envolvendo o Senhor e o seu povo.
No primeiro discurso, que consiste numa
recapitulação histórica do Sinai a Moabe, Moisés tratou do erro da antiga
geração: ele queria educar a nova geração a não proceder igualmente à anterior.
No segundo discurso, o seu enfoque é mostrar que todos devem estar atentos à
Lei da Aliança, que deve ser cumprida pelo amor e pela obediência. Já no
terceiro discurso, o apelo é para a renovação da aliança junto à nova geração, bem
como a preparação para o futuro.
Pela estrutura desse livro, entende-se que
Moisés tinha um coração pastoral, sendo os seus discursos vistos como testamento
teológico; ele deseja que o povo de Deus seja sincero, obediente e fiel para
com o Senhor, atitude somente de quem tem compromisso com a obra dEle. O homem
de Deus que conhece as Sagradas Escrituras é consciente que o propósito de Deus
foi chamar e preparar um povo para si desde o Antigo Testamento (Êx 19.6).
Semelhantemente, no Novo Testamento, Jesus morreu para dar-nos vida (Jo 3.16) e
deseja um povo zeloso de boas obras (Tt 3.8). Desse modo, o pastor comprometido
com as Escrituras trabalhara para apresentar uma Igreja santa (Ef 5.27).
Na base estrutural dos discursos, pode-se
notar semelhança com os tratados de alianças hititas, ou tratado suseranos, do
segundo milênio a.C., os quais eram descritos como tendo o seu prólogo,
histórico, estipulações, bênçãos e maldições, testemunhos e disposições finais.
Outra característica desses tratados era a coerência literária. Da parte de
críticos liberais, reconhecem-se diversas camadas editoriais; porém, da parte
da tradição ortodoxa, a estrutura é bem elaborada, e o livro segue na sua
unidade com o discurso final de Moisés sob inspiração divina.
3. Valor e
propósito de Deuteronômio
São diversos os propósitos do livro de Deuteronômio
para o povo de Israel. Ele revestia-se de grande significado pelo fato de ser
central para a vida dos israelitas; a sua natureza era levar a nova geração a
renovar a aliança com Deus antes de entrar na Terra Prometida, Canaã, pois a
geração antiga pereceu pelo castigo divino devido aos seus muitos pecados (Nm
14.29-35). Essa nova geração, que não pôde testemunhar o ocorrido no Sinai de
modo direto, é chamada a viver em fidelidade e obediência (Dt 4.1). Isso fala seriamente
para nós nos dias atuais, a considerar que toda geração precisa renovar a sua
aliança com o Senhor.
O conteudo de Deuteronômio salienta a
necessidade de um povo que entrou em aliança com Deus ter o compromisso de
viver em santidade, pois ninguém verá o Senhor sem ela (Hb 12.14).
As instruções presentes nesse livro da parte
de Moisés pela inspiração divina eram seguidas de orientações morais e sociais
para um povo que estava às vésperas de tomar posse da Terra Prometida. Lá o seu
viver teria que ser conforme o querer do Senhor. Só se pode tomar posse das
bênçãos divinas quando se procura viver em fidelidade e obediência à Palavra. Facilmente
se compreende a importância de Deuteronômio para a vida do povo de Deus,
Israel, porque nele está claro que Israel não poderia servir a outro deus, e
sim firmar uma aliança e viver o monoteísmo ético e espiritual (Dt 6.4). Esse
livro iria ensinar à nova geração que o Senhor não exigia nem queria da parte
dela uma obediência forçada, mas que ela fosse fruto de amor (Dt 6.5).
Deuteronômio tem a sua importância porque
faz parte do cânon bíblico. Foi selecionado para tal como sendo um livro
inspirado por Deus. Além disso, é considerado o coração do Pentateuco e da
teologia do Antigo Testamento; também traz no seu bojo o resumo da Lei, bem
como a reinterpreta e apresenta a sua aplicabilidade. Os assuntos presentes
nesse livro são relevantes, pois abordam sobre a aliança, a obediência, a fidelidade,
a bênção e a maldição, o culto, a santidade, a justiça social.
Deuteronômio é tão importante que os seus
temas serão propalados pela boca de profetas, que estariam clamando o povo a viver
em obediência, fidelidade e verdade, pois, assim sendo, as bênçaos da parte de
Deus viriam. Isso é claramente visto nas falas de Isaías, Jeremias e Ezequiel.
Esse livro servirá de alicerce para os livros proféticos e históricos, como se
pode observar nos livros de Josué, Juízes, 1 e 2 Reis e 1 e 2 Crônicas. Os seus
conteúdos seguem a estrutura de Deuteronômio e fazem a junção de obediência e
bênção, desobediência e maldição, como bem se nota no seu capítulo 28.
A importância de Deuteronômio é de tal forma
grandiosa que pode ser comprovada pela atenção que Jesus dispensou a este
livro, sendo este o mais citado por Ele quando da sua tentação (Mt 4.1-11; Lc
4.1-13), ao resistir ao Diabo fazendo citações (Dt 8.3; 6.13,16); logo, ao
fazê-lo, deu valor incalculável ao seu conteúdo, vendo-o como inspirado, cheio
de autoridade e útil para a vida.
O conteúdo expresso em Deuteronômio tinha
como propósito conclamar toda a nação de Israel a viver em fidelidade e obediência
ao Senhor, praticar ações de amor para com os pobres e estrangeiros, cuidando
deles e protegendo-os, manter a pureza em todos os sentidos, especialmente nos cultos,
e ter a missão de conduzir os seus filhos nos caminhos de Deus por meio do
ensino (Dt 6.6,7; 10.12-19).
O Senhor deixou claro naqueles dias que as
palavras que Ele estava entregando a Israel pela instrumentalidade de Moisés no
livro de Deuteronômio eram o fundamento para o bem da vida espiritual de toda a
nação (Dt 32.47); assim, para que os israelitas tivessem essa vida, de fato,
era preciso que o ensino entre eles fosse algo constante. Os pais, em especial,
deveriam exercer a missão docente nos lares para que os filhos tivessem vida; de
igual modo, deveriam proceder os líderes. A vida está no ensino da Palavra. O
avivamento vem pela Palavra. O temor a Deus vem pelo conhecimento da Palavra. A
fé é fortalecida pela Palavra (Rm 10.17). Triste é ver um lar e uma igreja que
não têm Palavra. Ambos jamais terão a verdadeira vida, que só vem ao crente
pela Palavra (Jo 5.24).
Assim como nos dias de Moises, tambem hoje e
imprescindível a Palavra para que se tenha vida. Ela jamais deve ser vista como
coisa vã, pois é nosso sermão profético, o livro que chama cada um de nós a
viver em aliança com Deus pelo sangue de Cristo no Calvario, que nos ensina que
recebemos bênçãos por meio da obediência, mas que, pela desobediência, vêm as maldições.
Portanto, amados irmãos, a Palavra de Deus é
atemporal e essencial para a vida do homem em qualquer tempo e época. Quem a
ela der ouvidos terá a vida eterna.
II-CONTEXTO
HISTÓRICO DE DEUTERONÔMIO 1.
PANORAMA ESPIRITUAL
O preâmbulo assemelha-se aos tratados de
suserania da época, pois o senhor identificava-se ao vassalo e exigia dele submissão,
fidelidade e obediência. No texto de Deuteronômio, Moisés está falando como um
ser representativo, um instrumento, pois o soberano celestial é o Senhor.
Uma forma introdutória padrao e extrabíblica
usada para iniciar aqueles tratados era: "Estas sãos as palavras",
porém sabemos que Deuteronômio é um livro inspirado, de modo que tal expressão
apontava diretamente para aquilo que o Senhor queria transmitir ao seu povo (Dt
1.3). Nesse particular, trata-se de algo espiritual; não eram meras palavras ou
um discurso qualquer, mas, sim, a Palavra de Deus, que é viva e eficaz, e todos
quantos a escutam têm vida (Hb 4.12).
Na expressão "Estas são as
palavras", não se tem apenas o título do livro, mas envolve o seu
conteúdo, por palavras; trata-se especificamente dosdiscursos doutrinários e
pastorais de Moisés. Ele dirigiu-se a toda aquela nova geração que haveria de
entrar na Terra Prometida, que se encontrava dalém do Jordão, que era do lado
leste, em Moabe (Dt 1.5).
Para qualquer tempo ou epoca, a Palavra de
Deus deve ser dirigida ao povo, e os que se prontificarem a ouvi-la comprometidamente
e a render-se a ela de todo coração serão bem-aventurados (Ap 1.3). Fica,
portanto, uma lição grandiosa para os líderes atuais: devem sempre falar a
Palavra de Deus por meio de instruções e advertências às novas gerações e
alertar que, antes de tomar posse das bênçãos do Senhor, é preciso conhecer a
sua Palavra, pois, se assim não for, "o maná poderá criar bicho".
O peso espiritual que envolve essa narrativa
é que a nova geração viveu e cresceu no deserto e pôde contemplar o cuidado e a
fidelidade de Deus em tudo para com os seus pais. Ela não presenciou os sinais,
e isso era sério porque ela poderia esquecer-se da aliança e deixar-se envolver
pelas práticas pecaminosas dos povos cananeus (Dt 8.11-14), de modo que ela
precisava renovar o compromisso com o Senhor - a aliança -, ter o viver marcado
pelo temor, bem como a consciência da santidade de Deus para manter exclusividade
para com Ele e adorá-lo de coração. É frente a tudo isso que Moisés, como
líder, lembra ao povo os feitos do Senhor (Dt 8.2), a necessidade de
constantemente se ensinar os filhos (Dt 6.6-7) e jamais se esquecer dEle (Dt
8.11-14). Por isso é que a expressão "Estas são as palavras" encerram
em si todo um aspecto espiritual.
É na terra de Moabe, região do rio Jordão,
que o livro de Deuteronômio descreve uma cerimônia em que Moisés fará o seu
discurso para a nova geração, que está no limiar da Terra Prometida (Dt 1.1-8;
4.44-46). Isso acontece no último mês do quadragésimo ano após o Exodo (Dt 1.3)
e, nesse tempo, toda aquela geração antiga, composta pelos homens de guerra, já
havia perecido (Dt 2.16), bem como a conquista da Transjordânia (além do
Jordão) concretizara-se (Dt 1.4; 2.24) e já estava próxima a morte de Moisés.
Foi em meio a todo esse momento que se deu a renovação da aliança. O desejo do
Senhor era assegurar a continuação da história do seu povo por meio da sua
liderança, que, depois da morte de Moisés, seria encabeçada por Josué, a quem
todos deveriam manifestar obediência (Dt 31.3; 34.9). Da parte do povo, deverá
haver o compromisso de uma consagração plena para com o Senhor. Essa cerimônia
foi marcada pela declaração da Lei de Deus (Dt 1.5). Isso se fazia necessário
pelo fato de tais estimulações integrarem a aliança, conforme se descrevia nos
tratados de suserania.
2. Um
panorama geográfico
Logo a partir do versículo 2, tem-se,
geograficamente, a descrição do local em que essa assembleia aconteceu. Ainda que
muitos desses lugares sejam desconhecidos, o objetivo textual era o de orientar
aquela turba que estava em Moabe, envolvendo o aspecto histórico e geográfico,
para deixar claro que foi no fim da viagem de Horebe, através do deserto de
Arabá. Atentar para esse detalhe geográfico é relevante, pois, por meio dessa
rota, a viagem a Canaa durou quarenta anos, sendo que, na rota original,
seguindo a Parã, seria de apenas onze dias (Dt 1.2); onze jornadas falam de uma
distância curta, mas os quarenta anos de peregrinação aconteceram por causa do pecado
da desobediência e infidelidade de Israel (Nm 12 e 16), de modo que toda aquela
velha geração foi sepultada no deserto. Paulo diz que quem trabalha para o
pecado tem como salário a morte (Rm 6.23). No demais, a desobediência prolonga
o caminho (Hb 3.18-19b) devido à falta de confiança em Deus, pois quem nEle crê
sempre obedece.
Ao falarmos do aspecto geográfico e darmos
destaque às campinas de Moabe, que ficava ao leste do Jordão, estando de frente
para Jericó (Dt 34.1), não nos atemos apenas ao seu aspecto literal, mas também
simbólico, a considerar que a nova geração estava à vista da Terra Prometida,
mas não dentro dela. Atentar a esse pormenor é importante para que se
compreenda que aquela nova geração estava diante de uma decisão: para entrar e
tomar posse da Terra Prometida, era preciso viver para Deus e obedecê-lo, mas a
desobediência acarretaria maldição. A geografia era, portanto, real e espiritual,
o que evidencia que o Senhor conduz o seu povo por lugares que, em algum
momento, terão que decidir: seguir em frente pela fé ou retroceder pela
incredulidade.
3. O
discurso exortativo de Moisés
O Senhor testemunhou de Moisés, diante dos
seus dois irmãos, que ele era fiel em tudo (Nm 12.7). Logo no versículo 3, esta
escrito que falou tudo conforme lhe mandara o Senhor; foi assim que agiu com a
velha geração e, agora, estava procedendo com a nova, antes que morresse (Dt
34). Vemos que Moisés foi um líder fiel para com a revelação divina. É
lamentável, mas atualmente vemos líderes que se deixam levar por tendências
ocasionais, modismos teológicos, dentre outros fatores, não se mantendo fiel
aos parâmetros divinos. Os que se portam dessa maneira receberão a justa paga,
especialmente os que dizem que o Senhor falou o que não é verdade. O líder
comprometido com Deus fala somente o que Ele ordena, o que está na Palavra (2
Tm 2.4), pois são os seus ensinos que nos conduzirão às promessas da herança
celestial (2 Tm 3.15).
A partir dos versículos 4-8, Moisés, antes que
o povo adentre a terra, faz uma descrição histórica para aquela nova geração
sobre o grande poder de Deus, que destruiu dois reis poderosos: Siom e Ogue (Nm
21.21-35), tudopelo bem de Israel. Por meio dessas vitórias, estava confirmado
o seu grande poder. Isso foi uma maneira de preparar o povo para viver pela fé,
seguir em frente e realizar novas conquistas, em especial a terra de Canaã. Por
meio desses sinais divinos, estava claro que o Senhor abriria grandes portas (SI
78.11-12). Esse discurso acerca de milagres passados era para lembrar aquela
geração nova sobre quem era o Senhor e fortalecer a fé de cada um.
A partir do versículo 5, Moisés começa a sua
exortação ao declarar a lei. Há dois aspectos que precisamos considerar: primeiro,
o verbo declarar, que, do hebraico be'er, significa explicar, tornar claro;
segundo, o substantivo Torá, a Lei de Deus. Moisés não cria qualquer tipo de
novidade, de atrativo e de apelação, muito menos inventa um novo culto para
aquela nova geração. Ele simplesmente repete a Lei, mas faz isso explicando,
expondo detalhadamente, agindo com coração pastoral e teológico. Lendo Neemias 8.8,
vemos que Esdras semelhantemente procedeu junto ao povo que voltara do
cativeiro e procurou ensinar com detalhes a Palavra de Deus, expondo-a e
aplicando-a precisamente. O papel do homem de Deus é tornar compreensível a
todos a mensagem divina sem jamais a complicar.
Moisés relembra à nova geração que, desde
que a antiga esteve no Sinai ou Horebe, Deus queria o seu povo em movimento, em
ação, pois o Sinai seria apenas o lugar da revelação, mas não a parada final.
Os israelitas deveriam avançar sempre. Isso nos ensina que o melhor é
permanecermos na vontade de Deus. Ele sabe o momento em que devemos parar, bem como
a hora de prosseguirmos (Fp 3.13,14). No versículo 7, o grande legislador
deixou claro que o Senhor havia dado a ordem para que partisse, pois a terra
que lhes fora prometida estava diante deles. Era preciso que tão somente
conservassem a fe e a obediencia na certeza de que Ele iria entregá-la por
causa do juramento feito aos seus pais, em referência à aliança abraâmica (Gn
12.1-3; 15.18-21). Biblicamente, sabemos que as promessas de Deus são verdadeiras,
mas, para desfrutarmos delas, é preciso que nos movimentemos e andemos em
obediência e fé (Js 1.3; Hb 4.2).
Está claro no versículo 8 o porquê da ênfase
e da repetição de tudo para aquela nova geração: revelar a autoridade da
promessa, a necessidade de andarem em obediência e a certeza de que Deus
cumpriria o que prometeu por causa da aliança. O Senhor é fiel em tudo o que
diz e, quando promete, cumpre (Nm 22.23). Ele colocou diante da antiga geração
uma oportunidade que não foi valorizada e, por isso, fracassaram. Agora a coloca
diante da nova geração: para entrar na terra, precisava apenas ter fé, ação e
obediência (2 Co 1.20).
4.
Desafiando a nova geração a ser decisiva
Moisés falou para a nova geração não seguir o
exemplo da antiga, a qual falhou por desobediência e infidelidade e não pôde
entrar na Terra Prometida. Agora, porem, os israelitas podiam seguir em frente,
com responsabilidade e fidelidade, ainda que nao tenham visto os grandes milagres
operados por Deus, como o viram os seus pais (Dt 11.2-7). Paulo disse que
andamos por fé, e não por vista. Jesus falou que são bem- aventurados os que
não viram e creram. Nossa fé deve firmemente nos conduzir em obediência, de
modo a desfrutarmos das promessas de Deus (Hb 11.1).
A responsabilidade agora estava com a nova
geração. Moisés claramente a desafia a assumir o compromisso da aliança de modo
pessoal. Ela não deveria firmar-se apenas no desejo de herdá-la. Dessarte, é
também desafiada a não se envolver com a idolatria e os pecados das nações da
terra de Canaã, isto é, não poderiam ser influenciados pelas suas práticas pecaminosas
e corruptoras (Dt 12.2-4).
Moisés, portanto, desafia essa nova geração
a escolher entre a vida e a morte (Dt 30.19), manter exclusividade na adoração
para com Deus, amá-lo de todo o coração (Dt 6.5) e procurar andar nos seus
caminhos (Dt 10.12- 13). Sabemos que tudo está em constante mudança - líderes,
famílias -, e todos sofrem pressões espirituais e culturais (como salienta
Salomão em Eclesiastes 1.4: "Uma geração vai, e outra geração vem"),
mas o que se quer dizer é que cada geração é responsável por viver e assumir o
seu compromisso de fé com Deus (Dt 30.19), e não ser apenas herdeira de uma tradição,
mas que se tenha fé tal como Timóteo, que resolveu viver uma fé sem fingimento,
sobre a qual todos davam bom testemunho (At 16.1; 2 Tm 1.5).
III -O LADO DOUTRINÁRIO E PRÁTICO DE
DEUTERONÔMIO
1.
RELEVÂNCIA DOUTRINÁRIA
O peso teológico de Deuteronômio está nas
suas expressões atinentes às doutrinas - verdades espirituais que envolvem as
revelações sobre Deus, o homem e a aliança. Esse livro traz no seu bojo
teológico verdades gloriosas sobre a fe e revela o caráter de Deus e a
importância de o homem desenvolver com Ele um relacionamento marcado pela fé e
obediência, além de destacar princípios morais, culturais e espirituais.
No que diz respeito ao lado teológico de
Deuteronômio, deve-se levar em consideração cinco aspectos importantes: o primeiro
diz respeito à ênfase à aliança, e isso porque esse livro fala sobre a necessidade
de Israel renovar o seu pacto com o Senhor; expressa, por meio de um tratado
antigo, um aspecto histórico que envolve cláusulas, bênçãos e maldições.
A grande ênfase está em conscientizar a
todos os israelitas que Deus é o grande Senhor que os libertou do poder de
Farao e que agora requer deles fidelidade exclusiva e obediência, ao estabelecer
uma aliança que exige lealdade exclusiva e acatamento (Dt 5.2). Essa aliança
apresenta dois lados:
o histórico e o relacional (Dt 6.20-25). O cristão
também vive segundo uma aliança, nao mais a Mosaica, mas a que foi firmada com
Cristo por meio do seu sangue (Lc 22.20), razão por que se deve demonstrar
amor, fidelidade e obediência a Deus (Rm 1.5). O segundo aspecto relevante é
expressar a soberania divina, bem como o monoteísmo, a exclusividade na
devoção, isto é, a unicidade de Deus.
Ele é único e verdadeiro, sem páreo, e cada
israelita deveria manifestar sinceridade, obediência e fidelidade sem abrir
possibilidade alguma para a adoração de qualquer deus pagão, pois, nesse caso,
já se estaria incorrendo em idolatria; antes, deveriam saber que o Senhor Deus
é único (Dt 6.4).
Esse versículo descreve a confissão de fé de
Israel, que diariamente é expressa pelos judeus; isso é relevante para nós, cristãos,
pois, ainda que vivamos num mundo que se dá ênfase ao pluralismo e ao relativismo,
devemos manter nossa fidelidade para com o unico e verdadeiro Deus Jo 17.3; 1
Co 8.6).
O terceiro aspecto teológico relevante orbita
em termos de obediência e bênção. Isso se dá pelo fato de a bênção estar
atrelada à obediência, e a maldição, à desobediência; ademais, deve-se entender
que Deus é santo, zeloso e justo (Dt 28.1,2). Já no quarto aspecto,
compreende-se que há uma ênfase à teologia da história e da memória. É por meio
dela que Moisés relembra à nova geração os grandes feitos do Senhor. Ele assim
o faz para que o povo não se esqueça dEle. Na verdade, a teologia histórica
como memória era pedagógica e procurava ativar e provocar na nova geração um compromisso
verdadeiro e fiel para com Deus (Dt 8.2).
Em quinto lugar, a teologia de Deuteronômio
mostra que cada israelita deveria ter para com Deus atitude de temor e amor,
que seria a base da motivação certa para que algo fosse feito para Deus, pois
não deveria ser frio, mecânico, mas algo afetuoso (Dt 10.12), inclusive
obedecer. O temor envolveria a reverência, e essa conscientização levaria cada
um a servir a Deus sem receio de punição (Dt 6.5; 14.23).
O cristão sabe que a base da sua nova vida
de comunhão com Deus bascia-se no amor (Rm 5.8), que é descrito por Cristo como
o maior de todos os mandamentos (Mt 22.37-38); assim, o cristão desenvolve a
sua vida de fidelidade, fé e obediência alicerçado no amor, e não apenas em um sentimento
de obrigação (Jo 14.15).
Por fim, o lado teológico desse livro mostra
que Israel é o povo que foi salvo pelo Senhor, passando a ser exclusivamente
dEle, de maneira que deveria proceder como uma nação santa (Dt 7.6), apresentar
um viver em conformidade com os princípios éticos e espirituais (Dt 10.16) e
afastar-se de todas as práticas de injustiça, bem como das contaminações
provenientes de práticas pagãs. Semelhantemente, a Igreja, como povo santo,
deve viver neste mundo mantendo um padrão de santidade e alegria, sendo sal e
luz e separando-se cada vez mais do pecado (Mt 5.1-16; 1 Pe 1.9).
2.
Relevância ética e prática
Em termos de aplicabilidade de Deuteronômio
para a vida do cristão, o ensino da Lci vem como uma exigencia constante, pois
é a base para a educação familiar, envolvendo a repetição e a memorização, o
que contribui para a formação do caráter dos filhos (Dt 6.6-7). Sabemos dos
ataques severos que estão sendo disparados hoje contra nossos filhos, mas é
fato que a educação no lar continua sendo a forma mais segura para que os mantenhamos
protegidos, por exemplo, das correntes pedagógicas equivocadas do mundo
pós-moderno. Cabe aos pais a missão de continuar ensinando no lar a Palavra de
Deus com todo amor e sem severidade (Ef 6.4; 2 Tm 3.14,15).
A aplicação dos ensinos ainda envolve o aspecto
da justiça e da equidade social, e isso porque, no conteúdo de Deuteronômio, há
destaque para os temas que abordam os cuidados com pobres, órfãos, viúvas e
estrangeiros (Dt 2.17-22). Essa justiça jamais poderia ser alterada, pois,
teologicamente, estava firmada no caráter de Deus, que ama e usa de
misericórdia para com todos, sempre cuidando e socorrendo os necessitados (Dt
10.18). O salvo em Cristo encontra no exemplo do seu Pai a importância de agir
com compaixão, amor e cuidado no tocante às pessoas com necessidades, visto que
é chamado para viver neste mundo desenvolvendo a justiça do Reino (Mt 25.30-40;
Tg 1.27).
O lado prático de Deuteronômio reforçava a
cada israelita a necessidade de andar em plena obediência, pois esse era o
caminho certo para se ter a vida (Dt 30.19). A obediencia teria que ser
praticada à luz da Palavra de Deus. Desse modo, ele receberia paz,
prosperidade, vida e benção; do contrário, maldição e juízo. Todo cristão sabe
que o caminho para um viver abençoado é proceder segundo o evangelho de Cristo
Jesus, que é o caminho para a vida e a bênção espiritual (Jo 5.24; Hb 5.9).
3. O
posicionamento de Jesus e dos apóstolos sobre Deuteronômio
Nosso Senhor Jesus Cristo viu Deuteronômio
como um livro divino, a Palavra de Deus com autoridade. A prova disso é que
Jesus fez uso dele no seu ministério terreno em determinados momentos e
demonstrou conhecimento profundo e reverência. Em Mateus 4.1-11, na tentação
que enfrentou por parte do Inimigo, Ele respondeu com segurança, firmado nesse
livro sagrado. As suas citações, alinhadas com Mateus, foram: Deuteronômio 8.3;
6.13,16. Com esse procedimento, Jesus mostra a cada cristão a necessidade de a
Palavra de Deus ser conhecida e usada com sabedoria, no momento certo,
inclusive no momento de resistir a quaisquer investidas do Maligno (Sl 119.11).
Jesus também fez uso de Deuteronômio para
destacar o amor como o centro da Lei de Deus. Ele procedeu dessa maneira ao
responder sobre qual seria o maior de todos os mandamentos, deixando claro que
seria o amor (Mc 12.31). Jesus novamente nos ensina que o amor a Deus é a base
para a verdadeira espiritualidade.
Assim como Jesus, os apóstolos consideraram
Deuteronômio como Palavra inspirada e de autoridade divina, vendo-o como útil
em tudo para a vida de fé e obediência cristã, para ensinar, corrigir e educar,
razão por que o citaram. Para falar do povo de Deus como nação santa,
sacerdócio real, que são conceitos veterotestamentários, Pedro recorreu a esse
livro (Dt 7.6, 14.2; 1 Pe 2.9), o que prova que a identidade da Igreja e a sua
eleição em Cristo vêm desde o Pentateuco, em especial Deuteronômio, que,
doravante, é direcionado a Cristo (Ef 1.4).
Destacamos ainda mais dois apóstolos que
viram a autoridade de
Deuteronômio como Palavra
de Deus: Paulo fez uso dele ao abordar nas suas cartas, especialmente Romanos,
sobre o tema justificação. O apóstolo mostrou que Cristo fez-se maldição em
nosso lugar para dar-nos a salvação (Rm 5.1; Gl 3.3). O pecado estava revelado
por meio da Lei, e a justificação e a redenção vinham por meio de Cristo. A
justiça que a Lei exigia foi cumprida em Cristo quando Ele morreu na cruz por
nossos pecados, de modo que o cristão é agora liberto não por meio de uma lei
de letras
mortas, legalista, mas,
sim, por meio da fé no Senhor Jesus (Rm 3.20-24).
Outro apóstolo que também fez uso de
Deuteronômio e falou da Lei como espelho foi Tiago, que a destacou como guia
moral e revelou a natureza desse livro como a Lei sendo vida, bênção e
liberdade (Tg 1.25). A Lei nao salva, obviamente, mas pode ser vista como um
espelho que expressa a vontade de Deus e que mostra o caminho certo para que alcancemos
um viver santo (Rm 7.12).
CONCLUSÃO
Amado irmão, ao abrir o livro de Deuteronômio para ler e meditar, saiba que você está diante de um conteúdo inspirado e de autoridade divina, um documento da aliança que evidencia o caráter de Deus e que mostra que a vida de fé expressa-se na obediência, no amor e na fidelidade. Esse livro não é - nem jamais será - obsoleto, arcaico. A prova disso é que Jesus e os apóstolos recorreram ao livro de Deuteronômio ao darem ênfase à sua autoridade e grande valor espiritual.
O Deus da Aliança — Advertências, promessas e bênçãos no livro de Deuteronômio
Comentarista: Osiel Gomes
Lição 1: Deuteronômio: o livro da
Aliança