TEXTO ÁUREO
“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.”
(Jo 1.14)
VERDADE PRÁTICA
Jesus Cristo, o Verbo eterno, é a revelação plena e visível de Deus ao mundo, manifestando graça, verdade e a glória do Pai.
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE
João 1.1-5,14.
1 — No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
2 — Ele estava no princípio com Deus.
3 — Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.
4 — Nele, estava a vida e a vida era a luz dos homens;
5 — e a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.
14 — E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.
PLANO DE AULA
1. INTRODUÇÃO
Nesta lição, estudaremos Jesus Cristo como o Verbo eterno de Deus — plenamente divino, Criador e revelador do Pai. Com base no prólogo do Evangelho de João (1.1-18), veremos que Ele é Deus desde a eternidade, agente da criação, fonte de vida e luz dos homens. Destacaremos também a encarnação do Verbo como a suprema revelação de Deus, cheia de graça e de verdade.
2. APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO
A) Objetivos da Lição: I) Explicar a preexistência e a divindade do Verbo; II) Mostrar a atuação do Verbo na criação e como fonte de vida e luz; III) Ressaltar que o Verbo encarnado é a plena revelação do Pai.
B) Motivação: O apóstolo João, inspirado pelo Espírito Santo, começa seu Evangelho revelando que Jesus não é apenas um homem especial — Ele é o próprio Deus, eterno e criador, que se fez carne para revelar o Pai. Essa revelação exige de nós adoração, obediência e proclamação.
C) Sugestão de Método: Antes de iniciar a aula, distribua três folhas com as palavras Eterno, Criador e Revelador. Peça a três voluntários que segurem cada palavra na frente da turma. Explique que, no prólogo de João, Jesus é apresentado nessas três dimensões: Eterno (sempre existiu e é Deus), Criador (todas as coisas foram feitas por Ele) e Revelador (veio para mostrar quem é o Pai). Em seguida, leia João 1.1-18 e, a cada título, peça ao aluno que o segura, que dê um passo à frente, ilustrando como essas três verdades se aproximam de nós na encarnação do Verbo. Finalize destacando João 1.14 e mostrando que, quando Cristo veio, o eterno, o criador e o revelador se tornaram visíveis e próximos de nós
3. CONCLUSÃO DA LIÇÃO
A) Aplicação: O Cristo que servimos é o Verbo eterno, Deus de toda a eternidade, que criou todas as coisas e revelou plenamente o Pai. Negar qualquer uma dessas verdades é distorcer o Evangelho. Por isso, devemos adorá-Lo, obedecê-Lo e anunciar que, em Jesus, vemos o próprio Deus.
4. SUBSÍDIO AO PROFESSOR
A) Revista Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e subsídios de apoio à Lições Bíblicas Adultos. Na edição 104, p.39, você encontrará um subsídio especial para esta lição.
B) Auxílios Especiais: Ao final do tópico, você encontrará auxílios que darão suporte na preparação de sua aula: 1) O texto “O Verbo”, localizado depois do primeiro tópico, aprofunda o tema do Verbo como pessoa distinta em relação ao Pai no Tópico “O Verbo como Deus Eterno”; 2) O texto “A Vida era a Luz dos Homens”, ao final do segundo tópico, aprofunda o tópico “O Verbo como Criador”.
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
O prólogo do Evangelho de João apresenta o Verbo eterno como Deus, Criador e Revelador. Ele se fez carne e revelou de forma plena e completa a glória do Pai. O apóstolo João afirma que viu a glória do Deus Unigênito, cheia de graça e de verdade. Nesta lição, veremos que essa revelação marca o clímax da encarnação do Verbo — o Filho de Deus — onde o invisível se tornou visível, o eterno entrou no tempo e o insondável foi manifestado em Cristo Jesus.
Palavra-Chave:
VERBO
AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO
“O VERBO. João começa o seu Evangelho (isto é, o relato das ‘boas-novas’ e da verdadeira história de Jesus Cristo) chamando Jesus de ‘o Verbo’ (gr. logos). Ao usar este termo para definir Jesus, o apóstolo o apresenta como a Palavra pessoal de Deus, por meio da qual todas as coisas vieram à existência (v.3; cf. Gn 1.3,6,9,14,20,24). A Bíblia afirma que Deus tem falado conosco através de seu Filho (Hb 1.1-3); e, evidentemente, as próprias palavras de Jesus procedem diretamente de Deus (Jo 8.28; 14.24). A Palavra escrita de Deus declara que Jesus Cristo é a sabedoria divina para nós em todos os aspectos, ajudando-nos a compreender, manifestar e realizar os propósitos do Senhor (1Co 1.30; Ef 3.10,11; Cl 2.2,3). Além disso, a Escritura descreve Jesus como a perfeita revelação da natureza e da personalidade do Pai (Jo 1.3-5,14,18; Cl 2.9) — Cristo é Deus em forma humana. Assim como as palavras de uma pessoa revelam seu coração e sua mente, Cristo, como ‘o Verbo’ (isto é, a Palavra), revela o coração e a mente de Deus (Jo 14.9).
[...] A relação entre o Verbo e o Pai. (a) Cristo estava ‘com Deus’ antes da criação do mundo (cf. Cl 1.15). Ele é uma pessoa que existe eternamente — não tem começo nem fim — diferentemente de Deus Pai, mas em um relacionamento eterno e uniforme com Ele. (b) Cristo é divino (‘o Verbo era Deus’), tem a mesma natureza, o mesmo caráter e o mesmo modo de ser que o Pai (Cl 2.9)” (Bíblia de Estudo Pentecostal — Edição Global. Rio de Janeiro: CPAD, 2022, p.1837).
AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO
“A VIDA ERA A LUZ DOS HOMENS. (1) A ‘vida’ (gr. zōē) é um dos temas centrais do Evangelho de João, aparecendo 36 vezes. Jesus é descrito como o Pão da Vida (Jo 6.35,48) e a Água da Vida (Jo 4.10,11; 7.38). Suas palavras são palavras de vida eterna (Jo 6.68). Ele é quem dá a vida (Jo 6.33; 10.10), e essa vida é um dom de Cristo (Jo 10.28). Na verdade, Cristo é ‘a vida’ (Jo 14.6). Em outras palavras, a verdadeira vida encontra-se em Cristo (cf. Jo 14.6) e é experimentada por meio de um relacionamento pessoal com Ele (Jo 17.3). (2) A ‘luz’ (gr. phōs) é mencionada 23 vezes no Evangelho de João, mais do que em qualquer outro livro do Novo Testamento. A vida de Jesus é a luz para todas as pessoas, o que significa que Ele nos revelou a Deus e aos seus planos para nossa existência, mostrando-nos o caminho de volta a Ele. A verdade, a natureza e o poder de Deus foram manifestados em Cristo e estão disponíveis a todos por meio dEle (Jo 8.12; 12.35,36,46). Em Jesus também podemos tornar-nos filhos da luz (Jo 12.36) e andar na luz (1Jo 1.7).” (Bíblia de Estudo Pentecostal — Edição Global. Rio de Janeiro: CPAD, 2022, p.1837).
SUBSÍDIOS ENSINADOR CRISTÃO
O FILHO COMO O VERBO DE DEUS
Esta lição tem como finalidade apresentar maiores detalhes da Pessoa de Jesus como o Verbo de Deus encarnado. Ele é a revelação plena e visível de Deus neste mundo. A introdução do Evangelho de João ratifica a coexistência de Jesus e Sua participação com o Pai na criação (Gn 1.1,26). Cristo não veio a existir, mas sempre existiu e estava com o Pai na criação de todas as coisas (Jo 1.2,3). Essa é uma das verdades basilares da fé cristã que os hereges tentam distorcer. Há grupos, inclusive, que interpretam equivocadamente o capítulo 1 do Evangelho de João e afirmam que o Verbo era “um” deus, classificando o Senhor Jesus como uma Pessoa menor em relação a Deus Pai. Contudo, reafirmamos de forma contundente que o Senhor Jesus exerce Seu papel de Filho Unigênito como Pessoa da Trindade possuindo a mesma essência do Pai e é Deus em Sua totalidade. A importância de crer nesse ensino é indispensável para vida cristã, tendo em vista que a fé em Jesus é o meio pelo qual somos transformados pelo poder do Espírito Santo e recebemos o poder de sermos filhos de Deus (Jo 1.12).
A Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal (CPAD) discorre: “Em João 1.12, lemos: ‘Mas a todos quantos o receberam deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus: aos que creem no seu nome’. Em outras palavras, Jesus estava redefinindo toda a realidade de alguém tornar-se filho de Deus. Até aquele momento a pessoa precisava nascer especificamente no povo de Israel, chamado segundo a aliança (ou pelo menos afiliar-se a ele), para ter aquela oportunidade. João, porém, enfatiza que a mensagem espiritual, o Evangelho poderoso, chegara às pessoas, e que elas haviam recebido Jesus, o Logos. Recebê-lo importava em obter o direito ou autoridade de se tornar filho de Deus. Alguns dos que o receberam eram judeus, e outros eram gentios. Jesus derrubou o muro divisório e franqueou a salvação a todos os que desejassem chegar a Ele e recebê-lo pela fé (Jo 1.13)” (2021, p.309). Este critério foi definido pelo próprio Deus em Sua Palavra e é verdade inegociável. Se queremos ter e manter nossa comunhão com o Pai, precisamos preservar a fé e comunhão com Seu Filho Unigênito, e nutrir a intimidade com a Pessoa do Espírito Santo. À medida que conhecemos e desenvolvemos nosso relacionamento com Jesus, prosseguimos em conhecer o próprio Pai (Jo 14.8,9). E como testemunhas do Seu amor, compartilhamos esta verdade com o mundo, para que todos conheçam que só podem ter o Pai se receberem e crerem em Seu Filho Unigênito (1Jo 2.23).
CONCLUSÃO
Jesus Cristo é o Deus unigênito que revela o Pai. Nele, a glória, a graça e a verdade de Deus são plenamente manifestas. A encarnação do Verbo não é apenas uma doutrina essencial da fé cristã, mas também um chamado à adoração e proclamação daquEle que é a imagem visível do Deus invisível. O Senhor Jesus é a perfeita revelação do Pai à humanidade. Que cada crente reconheça que conhecer a Cristo é conhecer o próprio Deus, e que proclamar essa verdade é tornar a glória do Pai conhecida no mundo.
CPAD : A Santíssima Trindade — O Deus Único Revelado em Três Pessoas Eternas
Comentarista: Douglas Baptista
Lição 6: O Filho como o Verbo de Deus
0 prólogo do Evangelho de João apresenta o Verbo eterno como Deus, Criador, Revelador e Sustentador Jo 1.1-18). Ele se fez carne e revelou de forma plena e completa a glória do Pai. Trata-se de uma revelação clara e inconfundível da divindade do Filho. A glória que João testemunhou não é uma glória qualquer, mas a glória do Unigênito do Pai, cheia de graça e verdade, refletindo a essência de Deus. Neste capítulo, veremos que essa revelação marca o clímax na en carnação do Verbo.
Nesse ato, o Deus invisível tornou-se visível Jo 1.18), o Eterno irrompeu no tempo (G14.4), o mistério oculto foi revelado em Cristo (Cl 1.26-27), e aquele que é transcendente assumiu forma humana Jo 1.14). Na encarnação, o insondável Deus se revelou de maneira acessível, pessoal e redentora, ofertando graça sobre graça Jo 1.16).
1 - O VERBO COMO DEUS ETERNO
1. O Verbo Preexistente
O prólogo de João (dezoito versículos iniciais) é chamado de "Hino Logos”. No versículo de abertura, o uso da frase “no princípio, era o Verbo” Jo 1.1a) remete diretamente ao livro de Gênesis, “no princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1), identificando o Verbo com o Deus Criador. Aqui, o evangelista apresenta o Verbo como preexistente, eterno, coessencial com o Pai. Essa é uma maneira de referir-se ao atributo da Eternidade que somente Deus possui. O Verbo não teve um início; Ele sempre existiu. Isso é um atributo exclusivo de Deus (SI 90.2; Is 43.10). O vocábulo ‘‘Verbo” (gr. Logos) vem de “lego”, uma expressão grega empregada para “palavra”, “fala”, “expressar uma opinião”. Para os gnósticos, o Logos é uma emanação intermediária entre o Deus supremo e o mundo material, associado ao Demiurgo, uma divindade inferior responsável pela criação imperfeita e corrupta do cosmos físico.1 Conforme Richards, no pensamento filosófico grego, logos era usado em relação ao princípio racional ou à Mente que regia o uni verso. No hebraico, o termo “memrd’ era utilizado nos Targuns como referência à manifestação de Deus como o Anjo de Jeová, e a Sabedoria de Deus (Pv. 8.23).2
Enquanto os gregos pensavam em um princípio impessoal e os gnósticos num ser intermediário, João apresenta o Logos como o próprio Deus Eterno: Jesus Cristo, o Filho Unigênito do Pai Jo 1.14; 3.16). A doutrina do Logo?, em João não é dependente dos filósofos especulativos e nem da doutrina do gnosticismo. Em João, o Logos é o Deus encarnado, a segunda Pessoa da Trindade Jo 10.30; 20.28). Essa designação e identificação do Logos como sendo o Cristo aparece três vezes nos textos neotestamentária Jo 1.1, 14; 1 Jo 1.1 e Ap 19.13).
Conforme Hendriksen, “Cristo é o Verbo (ou a Palavra) de Deus: Ele expressa ou reflete a mente de Deus e também revela Deus para os homens Jo 1.18; Mt 11.27; Hb 1.3).3 Jesus não começou a existir em Belém; Ele é coexistente com o Pai desde o princípio. Antes de tudo o que existe, o Verbo já existia: “Ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste” (Cl 1.17, NAA). Significa que “todas as leis pelas quais todo o mundo é uma ordem e não um caos são a expressão da mente do Filho [...] o Filho é o princípio e o fim da criação, e o poder que lhe dá consistência”.4 Esse texto pauüno reforça a pré-existência e a sustenta ção do cosmos pelo Filho.
2. O Verbo como Pessoa Distinta
Como observado, João apresenta o Verbo (.Logos) como pré-existente, ativo na criação e totalmente divino. E na frase “estava com Deus” (Jo 1.1b), do grego “enproton Theorí\ destaca tanto a distinção de Pes soas quanto a eterna e íntima comunhão dentro da Trindade (Dt 6.4; 1 Jo 5.7). A preposição “pros” (“com”) expressa face a face — uma convi vência pessoal contínua — sustentando a ideia de que o Logos tem identidade distinta, enquanto permanece em unidade com Deus Pai. Esse “com” não é temporal, mas relacionai e eterno. Hendriksen enfatiza que o Logos “existe desde toda a eternidade como uma Pessoa distinta e estava gozando da comunhão amorosa com o Pai.5
Barclay ratifica que “sempre existiu a relação mais íntima e mais próxima entre o Verbo e Deus [...] Jesus sempre esteve com Deus [...] Jesus mantém uma relação tão íntima com Deus que Deus não tem segredos para Ele”.6 Assim, a expressão “o Verbo estava com Deus” Jo 1.1b) ensina que “o Verbo não é uma parte do mundo que começou a existir no tempo; o Verbo é uma parte da eternidade e estava com Deus antes do tempo e antes do princípio do mundo”.7 Desse modo, “se o Verbo estava com Deus antes de que começasse o tempo, se o Verbo de Deus é parte do esquema eterno das coisas, quer dizer que Deus sempre foi como Jesus”.8 Essa doutrina refuta visões heréticas, tais como o modalismo, o unicismo sabelianista e moderno que ensina ser o Pai, o Filho e o Espírito Santo três modos sucessivos de aparecimento de uma mesma pessoa divina. No entanto, a Escritura diz que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são Pessoas coexistentes desde o princípio Jo 1.2; 17.5). Refuta também o triteísmo, que afirma existir três deuses separados, pois a Bíblia revela a existência de um único Deus (Mc 12.32); e, ainda, nega o unitarismo, que afirma que somente o Pai é Deus, porém as Escrituras Sagradas ensinam a divindade do Filho e do Espírito Santo (At 5.3, 4).
Portanto, o uso de “enproston Theon” sustenta a doutrina trinitária clássica: o Verbo é uma Pessoa distinta, não apenas uma manifestação transitória. Essa distinção não implica separação, mas reflete a comunhão eterna no seio divino. O Verbo não é uma força ou uma mera ideia divi na, como pensavam os gregos, Ele é plenamente pessoal (1 Jo 1.1). Apesar de ser Deus, o Verbo estava “com Deus” mostrando tanto a distinção de pessoas quanto a unidade essencial entre o Pai e o Filho Jo 14.9-11).
3. O Verbo É da mesma Essência do Pai
Na sequência do versículo de abertura, João revela “o Verbo era Deus” Jo 1.1c). No grego, a ordem normal seria: “ho Lógos ênTheós” (o Verbo era Deus). Porém, João usa “Theósênho Lógos”9. O escritor faz uso dessa construção por razões doutrinárias e teológicas. Ao posicionar “Theós” (Deus) antes do verbo, João dá ênfase à natureza divina do Verbo. Esse enunciado ratifica a deidade do Verbo eterno. Assim como Deus é eterno, o Verbo também é eterno (Ap. 1.8). Reafirma a plena divindade do Filho, não meramente um ser criado ou intermediário, mas verdadeiro Deus. Não obstante, como a palavra grega Deus (Theós) aparece sem o artigo definido (ho), isso tem gerado discussões exegéticas acerca do Logos. No entanto, na estrutura grega, a ausência do artigo não implica indefinição ou inferioridade. Essa construção enfatiza a qualidade ou a natureza do sujeito. A omissão do artigo não significa “um deus”, como sustentam traduções heréticas, mas é um indicativo da natureza do Verbo.10 Esclarece que o Verbo compartilha da mesma essência divina Jo 10.30; 14.9). Assim, a interpretação correta indica que “o Verbo era Deus” em essência/natureza. Portanto, a ausência do artigo em Theós não significa que o Logos fosse um “deus” qual quer, mas que o Logos possuía a mesma substância divina (gr. homoousios) do Pai, isto é, Deus em sua totalidade (Cl 1.15; 2.9). Em vista disso, João apresenta o Logos como: Eterno (Jo 1.1a); Distinto do Pai (Jo 1.1b); e Consubstanciai com o Pai Jo 1.1c). Essa tríplice formulação expressa de modo conciso as verdades fundamentais da doutrina da Trindade: unidade de essência, distinção de pessoas e igualdade de divindade.
II - O VERBO COMO CRIADOR
1. O Agente da Criação
O Evangelho de João também apresenta Jesus como Criador: “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” Jo 1.3). A expressão “todas as coisas” (gr. panta), refere-se ao universo em sua totalidade, tanto visível quanto invisível (Cl 1.16). A construção verbal “foram feitas” (gr. gínomai) usado no aoristo, indica um evento consumado, a criação ex nihilo, um ato divino e não contí nuo.11 A frase “por meio dele” (gr. diá autoii), revela a mediação ativa do Verbo na criação; Ele é o agente em cooperação com o Pai (Hb 1.2).
O versículo está dividido em duas cláusulas. João utiliza uma construção enfática, típica da literatura judaica (antítese afirmativa e negativa), para excluir qualquer possibilidade de que algo tenha existido in dependentemente do Verbo.12 A primeira cláusula é afirmação positiva: “todas as coisas foram feitas por ele”, isto é, o Verbo é o agente criador. E a segunda afirmação é negativa: “sem Ele nada do que foi feito se fez”, que reforça a exclusividade e totalidade da ação criadora do Verbo. As sim, o texto ratifica a divindade do Verbo e sua pré-existência absoluta.
Essas afirmações remetem ao livro de Gênesis. A Escritura declara que a criação é uma prerrogativa exclusiva de Deus: “no princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). O vocábulo “criou” traduz o verbo hebraico bãrã\ termo reservado à atividade criadora de Deus e nunca usado para atividade humana13 (Gn 1.21,27; 2.4; 5.1-2; 6.7). Significa que o universo foi criado por Deus a partir do nada — do latim ex nihilo (Hb 11.3). A doutrina de Deus como Criador possui eco no Antigo Testamento: “Pela palavra do Senhor foram feitos os céus [...] porque falou, e tudo se fez” (SI 33.6,9); “Eu fiz a terra e criei nela o homem” (Is 45.12).
O texto joanino também está em harmonia com outras passagens do Novo Testamento que atribuem a obra da criação a Cristo: Ele é o originador, sustentador e o fim (gr. telos) da criação; Cristo não é uma criatura, mas o Criador eterno (Cl 1.16,17); o Filho é o mediador da revelação e da criação (Hb 1.2); a adoração no céu é baseada na obra criadora de Deus — o mesmo atributo que João aplica ao Verbo (Ap 4.11). Esses textos, dentre outros, evidenciam que a Palavra de Deus é o meio criador, conceito que João associa diretamente à pessoa do Verbo (Logos).
2. A Fonte da Vida
O versículo “Nele, estava a vida” Jo 1.4a) refere-se diretamente ao Logos, o Verbo eterno Jo 1.1-3). Percebe-se que o texto não diz “por meio dele”, mas “nele” estava a vida. Essa cláusula, “nele estava a vida”, aponta para a ‘Aseidade Divina”, uma das doutrinas centrais da teologia cristã, isto é, Cristo possui vida em si mesmo — Ele não depende de ninguém ou de nada para viver. Significa que, desde toda a eternidade, e ao longo de toda a antiga dispensação, a vida sempre residiu no Verbo.14 Essa declaração indica que a vida não vem de fora; ela está no Verbo por sua natureza, reafirmando a preexistência de Cristo e sua divindade da mesma essência do Pai (Hb 1.1-2).
Esse enunciado revela que o Verbo é a fonte absoluta e originária de toda forma de vida, tanto física quanto espiritual, eterna e imortal Jo 3.36; 1 Jo 5.11-12). O versículo confirma a unidade entre o Pai e o Filho, apontando para a doutrina da Trindade consubstanciai.
Assim sendo, o Verbo é aquEle em quem reside a vida — a causa de toda a existência. O Comentário Bíblico Pentecostal ratifica que “a Palavra divina, como Deus Pai, tem vida em si mesma, vida incriada (ou seja, é a fonte da vida eterna). Essa vida revelou a pessoa e natureza de Deus para todas as pessoas”.15 O Gênesis mostra que a vida humana foi soprada por Deus (Gn 2.7). Essa vida emana do Verbo autor da criação (Cl 1.16-17). Paulo confirma que “ele mesmo é quem a todos dá vida, a respiração e todas as coisas” (At 17.25 . ratificando a autossuficiência do Verbo (At 17.25). Assim, a curta declaração “Nele, estava a vida” é densa de significado teológico. Afirma que Jesus Cristo, o Verbo eterno, é a fonte original, autossuficiente e absoluta de toda a vida. Ele compartilha da mesma substância divina: “Porque assim como o Pai tem vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter vida em si mesmo” Jo 5.26, NAA). Essa verdade ensina que a vida eterna e imutável que está no Pai está igual mente no Filho, apontando para a mesma essência entre as Pessoas da Trindade Jo 10.30; 14.9; 17.5).
3. A Luz dos Homens
O texto bíblico assevera que “a vida era a luz dos homens; e a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam” Jo 1,4b-5). A metáfora da luz é recorrente nas Escrituras, e simboliza o caráter de Deus, porque nEle não há trevas alguma (1 Jo 1.5). A luz também representa, desde o Antigo Testamento, a presença e a atuação salvífica de Deus. No primeiro dia da criação, como símbolo de ordem e vida. Deus disse: “Haja luz. E houve luz” (Gn 1.3). O Messias é anunciado como a “grande luz” que brilha para os que habitavam na sombra da morte (Is 9.2; Mt 4.16).
Em João, Jesus declara: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida” Jo 8.12). Nesse contexto, Ele não apenas possui luz; Ele é a própria Luz. Desse modo, a expressão joanina “a vida era a luz dos homens” não apresenta Jesus como uma luz, mas como a Luz verdadeira que veio ao mundo Jo 1.9). Segundo Vicente, “a expressão luz verdadeira denota a realização da ideia divina original da Luz, a Luz arquetípica, contrastada com todas as manifestações imperfeitas”.16 Por conseguinte, Jesus é a fonte de iluminação moral e espiritual de toda a humanidade. F. F. Bruce ratifica que “a iluminação que o evangelista tem em mente é principalmente espiritual, que dissipa as trevas do pecado e da descrença”.17 Nesse sentido, João destaca que essa luz não apenas revela o pecado, mas ilumina os perdidos e os chama ao arrependimento (Jo 3.19-21). A luz de Cristo não é apenas iluminação intelectual, mas um convite à transformação espiritual. As sim sendo, Chafer lembra que “o homem, à parte da iluminação divina, é totalmente incapaz de receber ou entender a verdade a respeito de Deus”.18 A declaração “as trevas não prevaleceram contra ela” Jo 1.5, NAA) é traduzida por diferentes formas: “não a compreenderam” (ARC); “não a derrotaram” (NVI); “não a apreenderam” (BJ); “não a reteve” (HD). Isso porque o verbo grego katalambánõ pode significar tanto “compreender” como também “dominar/apoderar-se” (Mc 9.18; Jo 12.35). Em vista disso, os estudiosos concordam que a ideia é dupla: os homens em trevas não entenderam a luz de Cristo e, ao mes mo tempo, as trevas não conseguiram detê-la. Assim, todas as versões expressam que as trevas do pecado não podem resistir à luz do Filho de Deus (Rm 13.12). A vitória da luz sobre as trevas antecipa a derrota final do mal (Ap 21.23-25).
III - O VERBO COMO REVELAÇÃO DO PAI
1. A Encarnação do Verbo
João apresenta o Verbo como o supremo meio de autorrevelação do Pai: “o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória” Jo 1.14a). A declaração “o Verbo se fez carne” combate a heresia do docetismo — uma forma incipiente do gnosticismo — que negava a verdadeira humanidade de Cristo. Os docetas acreditavam que Jesus apenas parecia ser humano, mas não possuía um corpo real. Contra isso, João afirma que o Verbo “se fez carne”, não diz apenas que o Verbo se fez homem, mas carne, ou seja, tornou-se verdadeiramente humano, com um corpo físico, emocional e espiritual.
Essa afirmação ressalta a totalidade da natureza humana assumi da pelo Filho e marca o ponto culminante da revelação divina: o Verbo se tornou homem sem deixar de ser Deus (Fp 2.6-8). Na sequência, João enfatiza que o Verbo “habitou” entre nós. O termo grego correspondente é eskênõsen, que tem como raiz a palavra “tenda” (gr. skêne), e significa literalmente “armou sua tenda”. A expressão remete ao Tabernáculo do Antigo Testamento (Ex 25.8-9), onde a presença de Deus habitava no meio do povo de Israel. João emprega essa imagem para ensinar que, agora, o próprio Deus tabernaculou entre nós em Cristo. Henry ressalta que “uma vez que o Verbo eterno se fez carne, vestiu-se com um corpo, como nós, e habitou neste mundo, como nós”.19 Dessa forma, o corpo de Cristo é comparado a esse Tabernáculo, onde Deus se revela e onde a glória de Deus se manifestou visível entre os homens: “e vimos a sua glória” Jo 1.14). Essa manifestação da glória (gr. dóxa) foi reveladora do caráter de Deus e da divindade de Cristo: “Pois em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9, NVT). A glória vista pelos discípulos em Jesus não foi um reflexo da glória mosaica, mas a revelação do amor, graça e verdade de Deus na Pessoa do Filho Jo 1.17; Hb 1.3). Descreve também a união hipostática das duas naturezas do Filho: divina e humana. Ele é o Emmanuel, o Deus conosco (Mt 1.23) — a plena revelação do Pai (Hb 1.1).
2. A Plenitude da Graça e da Verdade
João, testemunha ocular de Cristo (1 Jo 1.1-2), faz uma revelação singular: o Verbo, que é Deus Jo 1.1), encarnou-se plenamente Jo 1.14), e essa encarnação revelou a “glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” Jo 1.14b). Na Septuaginta, o grego “dóxa” (glória) traduz o hebraico “kcwôd\ muitas vezes associado à “Shekmah”, a presença visível da glória de Deus entre o seu povo (Ex 40.34-35; 2 Cr 5.13-14). Contudo, na Antiga Aliança, essa glória era limitada, temporal e mediada por símbolos (como o Tabernáculo). Em contraste, João afirma que, na pessoa de Jesus, essa glória é plena, pessoal e permanente Jo 2.11; 17.1-5).
A frase empregada por João, “cheio de graça e de verdade”, revela o conteúdo dessa glória. Essa expressão remete ao livro do Êxodo, quando Deus se revela a Moisés como “Deus compassivo, clemente, longânimo e grande em misericórdia e fidelidade” (Ex 34.6, ARA). A fórmula “graça e verdade”, utilizada por João, ecoa esse momento da autorrevelação divina. Carson sustenta que “a glória revelada a Moisés, quando o Senhor passou diante dele e ressoou seu nome, manifestando que a bondade divina se caracteriza por inefável graça e verdade, era exatamente a mesma glória que João e seus amigos viram na Palavra que se tornou carne”.20 A graça refere-se à benevolência redentora de Deus, e a verdade à fidelidade à sua promessa e à realidade eterna que Ele revela. João, ao usar essa linguagem, indica que Cristo é o cumprimento pleno da autorrevelação de Deus no Sinai. Desse modo, diferente da lei dada por Moisés Jo 1.17a), que revelava o pecado e apontava para a necessidade de redenção (G1 3.24), Cristo encarnou a própria graça salvadora e a verdade eterna. Ele trouxe a realidade daquilo que a Lei prefigurava — o favor imerecido de Deus (graça) e a verdade revelada de forma plena.
Cristo não apenas ensina a verdade — Ele é a verdade Jo 14.6). Ele não apenas oferece graça — Ele é a plenitude da graça de Deus, uma provisão contínua que se manifestou salvadora a todos os homens (Tt 2.11). Assim, Cristo não apenas possui ou transmite esses atributos — Ele é a própria personificação deles (Cl 2.3,9). Mercê dessa verdade, como receptor da plenitude da graça Jo 1.16), o cristão é convidado a contemplar a glória do Verbo encarnado e a viver sob a influência da sua graça e verdade (2 Co 3.18; Jo 8.31-32).
3. O Revelador do Deus Invisível
No último versículo de seu prólogo, João afirma: “Ninguém jamais viu Deus; o Deus unigênito, que está junto do Pai, é quem o re velou” Jo 1.18, NAA). Aqui, o apóstolo enfatiza que Deus é invisível e inacessível (1 Tm 1.17; 6.16). A primeira afirmação, “ninguém jamais viu Deus”, é um eco do Antigo Testamento, onde a santidade e transcendência de Deus tornam impossível à humanidade vê-lo em sua essência (Dt 4.12; Is 6.5). A teologia judaica estabelece que Deus habita em luz inacessível e que o ser humano, por si só, não pode contemplar sua glória total e viver (Êx 33.20).
No entanto, o Verbo o revelou de forma plena e perfeita. O Deus unigênito “quebrou a barreira que tornava impossível para seres hu manos ver a Deus, e o tornou conhecido”.21 Essa expressão, “Deus unigênito” (gr. monogenês Thsos), significa literalmente “o Deus único ge rado”. Refere-se a Cristo — o Filho da mesma substância (gr. homoou- sios) do Pai — o único em sua categoria. Conforme Boor, “somente Ele podia verdadeiramente trazer notícia de Deus, porque Ele era esse — único sem igual”.22 Essa leitura reforça a plena divindade e a eternidade de Cristo, enfatizando que o Verbo não apenas veio de Deus, mas Ele é Deus (Jo 1.1). Ratifica então que Cristo é a autorrevelação completa do Pai. Como disse Paulo, “Ele é a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15, NAA). E também Cristo declarou: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14.9, NVT). Assim, o Verbo eterno torna o invisível, visível; o transcendente, imanente; e o insondável, revelado.
CONCLUSÃO
Jesus Cristo é o Deus unigênito que revela o Pai. NEle, a glória, a graça e a verdade de Deus são plenamente manifestas. A encarnação do Verbo não é apenas uma doutrina essencial da fé cristã, mas também um chamado à adoração e proclamação daquEle que é a imagem visível do Deus invisível. O Senhor Jesus é a perfeita revelação do Pai à humanidade. Que cada crente reconheça que conhecer a Cristo é conhecer o próprio Deus, e que proclamar essa verdade é tornar a glória do Pai conhecida no mundo.
O Filho como o Verbo de Deus | 75