quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

CPAD : A Santíssima Trindade — Lição 9: Espírito Santo — O Regenerador

 

TEXTO ÁUREO

Jesus respondeu e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus.

(Jo 3.3).

VERDADE PRÁTICA

A regeneração é a transformação operada pelo Espírito Santo, pela qual o pecador se torna uma nova criatura.

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE

João 3.1-8.

1 — E havia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos, príncipe dos judeus.

2 — Este foi ter de noite com Jesus e disse-lhe: Rabi, bem sabemos que és mestre vindo de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele.

3 — Jesus respondeu e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus.

4 — Disse-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura, pode tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer?

5 — Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus.

6 — O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.

7 — Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo.

8 — O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.

PLANO DE AULA

1. INTRODUÇÃO

A Regeneração é obra indispensável à salvação. Jesus ensinou que, para entrar no Reino, é necessário nascer de novo. Essa transformação não é exterior, mas interior, realizada pelo Espírito Santo, que regenera o pecador e o torna nova criatura em Cristo. Nesta lição veremos a Regeneração como uma obra trinitária, sua natureza espiritual e seus sinais na vida do crente.

2. APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO

A) Objetivos da Lição: I) Explicar que a Regeneração é uma obra trinitária, planejada pelo Pai, realizada pelo Filho e aplicada pelo Espírito Santo; II) Mostrar que a Regeneração é uma transformação espiritual interior e indispensável à salvação; III) Apontar os sinais práticos do Novo Nascimento: justificação, santificação e o fruto do Espírito.

B) Motivação: Muitos pensam que a vida cristã se resume a boas obras ou a uma mudança de comportamento. Porém, Jesus declarou que é necessário nascer de novo. A Regeneração é obra espiritual e milagrosa do Espírito Santo, que concede ao pecador uma nova vida. Essa verdade deve motivar-nos a viver conscientes de que fomos transformados e chamados a refletir o caráter de Cristo.

C) Sugestão de Método: Inicie a aula destacando no quadro ou de maneira verbal as palavras: “Carne” e “Espírito”. Peça aos alunos que citem exemplos do que pertence à carne (Gl 5.19-21) e do que pertence ao Espírito (Gl 5.22,23). Depois, leia João 3.5,6 e destaque: “O que é nascido da carne é carne; o que é nascido do Espírito é espírito”. Explique que a Regeneração não é um aperfeiçoamento humano, mas um milagre espiritual. Então, inicie a exposição do primeiro tópico.

3. CONCLUSÃO DA LIÇÃO

A) Aplicação: A Regeneração não é resultado de esforço humano, mas obra do Espírito Santo que concede nova vida em Cristo. Essa transformação nos conduz à justificação, ao processo de santificação e à manifestação do fruto do Espírito.

4. SUBSÍDIO AO PROFESSOR

A) Revista Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e subsídios de apoio à Lições Bíblicas Adultos. Na edição 104, p.37, você encontrará um subsídio especial para esta lição.

B) Auxílios Especiais: Ao final do tópico, você encontrará auxílios que darão suporte na preparação de sua aula: 1) O texto “A Regeneração”, localizado depois do primeiro tópico, aprofunda o tópico da Regeneração como obra trinitária na Salvação; 2) O texto “Purificando o Crente”, ao final do segundo tópico, aprofunda o tema da natureza espiritual da obra de Regeneração.

COMENTÁRIO

INTRODUÇÃO

O Novo Nascimento é uma obra indispensável à salvação. Jesus ensinou que para entrar no Reino é necessário nascer de novo. Não se trata de uma mera mudança exterior, mas de uma obra de transformação interior. Esta lição apresenta o Espírito Santo operando no plano trinitário da Salvação como o agente da Regeneração. Sua atuação revela o milagre divino que regenera a natureza humana decaída, concedendo nova vida em Cristo.

Palavra-Chave:

REGENERAÇÃO

 AUXÍLIO TEOLÓGICO

“A REGENERAÇÃO

Quando correspondemos ao chamado divino e ao convite do Espírito e da Palavra, Deus realiza atos soberanos que nos introduzem na família do seu Reino: regenera os que estão mortos nos seus delitos e pecados; justifica os que estão condenados diante de um Deus santo; e adota os filhos do inimigo. Embora estes atos ocorram simultaneamente na vida que crê, é possível examiná-los separadamente. A regeneração é a ação decisiva e instantânea do Espírito Santo, mediante a qual Ele cria de novo a natureza interior. O substantivo grego (palingenesia) traduzido por ‘regeneração’ aparece apenas duas vezes no Novo Testamento. Mateus 19.28 emprega-o com referência a novos tempos do fim. Somente em Tito 3.5 se refere à regeneração do indivíduo. [...] O Novo Testamento apresenta a figura do ser criado de novo (2Co 5.17) e da renovação (Tt 3.5), porém a mais comum é a de ‘nascer’ (gr. gennáō, ‘gerar’ ou ‘dar à luz’). Jesus disse: ‘Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus’ (Jo 3.3). Pedro declara que Deus, em sua grande misericórdia, ‘nos gerou de novo para uma viva esperança’ (1Pe 1.3). É uma obra que somente Deus realiza. ‘Nascer de novo’ diz respeito a uma transformação radical. Mas ainda se faz mister um processo de amadurecimento.” (HORTON, Stanley M. (Ed.). Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2019, pp.371,372).

AMPLIANDO O CONHECIMENTO

O NASCIMENTO ESPIRITUAL

 “Em João 3.1-8, Jesus discute uma das doutrinas fundamentais (isto é, ensinamentos, princípios básicos, as bases da crença) da fé cristã: Regeneração (Tt 3.5), ou nascimento espiritual. Sem ‘nascer de novo’ no contexto espiritual, uma pessoa não pode se tornar parte do Reino de Deus. Isso significa que a vida de uma pessoa deve ser espiritualmente renovada para que ela possa ser salva e receber o dom divino que é a vida eterna através da fé em Jesus.” Amplie mais o seu conhecimento, lendo a obra Bíblia de Estudo Pentecostal — Edição Global, editada pela CPAD.

  AUXÍLIO TEOLÓGICO

 “PURIFICANDO O CRENTE.

A obra do Espírito não cessa quando a pessoa reconhece sua culpa diante de Deus, mas vai crescendo a cada etapa subsequente. A segunda etapa na santificação pelo Espírito Santo na vida do indivíduo é a conversão. Esta é uma experiência instantânea. Inclui a santificação pelo Espírito, ou, em linguagem biblicamente mais correta, o processo da santificação pelo Espírito inclui a conversão. Podemos facilmente demonstrar esse fato pelas Escrituras. Considere as palavras de Paulo: ‘Mas devemos sempre dar graças a Deus, por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito e fé da verdade’ (2Ts 2.13). Note que a palavra ‘salvação’ é qualificada por duas frases preposicionais, que descrevem como foram salvos os crentes de Tessalônica. A segunda frase: ‘fé na verdade’ descreve o papel do crente na salvação: ter fé no evangelho de Jesus Cristo (v.14). A primeira frase: ‘em santificação do Espírito’, é mais importante para o presente estudo. Descreve o papel do Espírito na salvação: santificar o crente.” (HORTON, Stanley M. (Ed.). Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2019, pp.423,424).

  SUBSÍDIOS ENSINADOR CRISTÃO

  O ESPÍRITO SANTO — O REGENERADOR

  A experiência da salvação não seria completa sem uma profunda transformação no interior do salvo. O milagre da regeneração não se limita a mudar a aparência, mas reveste o interior do crente com uma nova vida que coaduna com a vida de Cristo (Cl 3.10). Um dos maiores desafios da vida cristã é aprender a viver como salvo em meio a uma sociedade corrompida, marcada pelo pecado. Nesse cenário, o crente recém-convertido precisa aprender a lidar com as pressões do mundo e nutrir em sua vida diária a santidade. Uma vez justificado e adotado como filho de Deus pela fé, o salvo passa por um processo contínuo de santificação. Nutrir uma vida de santificação requer submeter-se à condução do Espírito e dispor-se a não viver mais como escravo do pecado (Rm 6.17,18). Para tanto, é necessário disciplina em relação à oração, meditação frequente nas Escrituras Sagradas e posicionamento firme contra maus hábitos. Significa renunciar diariamente ao pecado para praticar a justiça que agrada a Deus, seja por palavras, atitudes ou modo de pensar. Não devemos nos conformar com o mundo, mas assumir uma postura racional e transformada pela renovação do nosso entendimento (Rm 12.1,2).

SUBSÍDIOS ENSINADOR CRISTÃO

  No Comentário Histórico-Cultural do Novo Testamento (CPAD), Lawrence O. Richards explica que “a palavra usada aqui para ‘entendimento’ é ‘nous’, e não deve ser confundida com ‘conhecimento’ nem com ‘razão’. O que Paulo tem em mente é expresso mais apropriadamente como ‘perspectiva’ ou ‘modo de pensamento’. Os crentes devem resistir às pressões exercidas pelo mundo para nos conformar com seu modo de pensamento, e em vez disso ter cada uma de nossas perspectivas sobre as questões da vida a partir da perspectiva de Deus. Que grande dádiva é a Escritura. E que grande dádiva é o Espírito, que usa a Palavra para renovar nosso entendimento e transformar nossa vida” (2007, p.317). Essa postura é fruto do contato com o Evangelho da graça, através do qual, uma vez transformados por ele, experimentamos a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (v.2). Quando compreendemos o modo de pensar ensinado pelo Evangelho, aprendemos que praticar a Palavra de Deus não se limita a conhecer uma nova filosofia, mas é adotar um novo estilo de vida transformado pelo poder de Deus para salvação do homem (Rm 1.16). Por essa razão, o apóstolo Paulo encoraja os filipenses a desenvolverem a salvação com temor e tremor (Fp 2.12). Logo, a salvação não é apenas um estado de espírito, mas um viver diário que preservamos de modo vigilante à espera de nosso Senhor, que voltará em glória para nos buscar.

CONCLUSÃO

  A regeneração é uma obra trinitária operada pelo Espírito Santo. Não é um esforço humano, mas uma transformação espiritual profunda. Como regenerador, o Espírito concede nova vida, uma nova natureza e uma nova direção ao ser humano. É necessário nascer do alto para ver e entrar no Reino. Que cada crente se deixe conduzir pelo Espírito e reflita, dia a dia, a natureza divina recebida no Novo Nascimento.

  CPAD : A Santíssima Trindade — O Deus Único Revelado em Três Pessoas Eternas

Lição 9: Espírito Santo — O Regenerador

  


   A regeneração é a obra inicial do Espírito Santo na aplicação da salvação, pela qual o pecador espiritualmente morto é vivificado e transformado em uma nova criatura. Não se trata de uma mera mudança exterior, mas de uma transformação operada internamente pelo Espírito, que purifica dos pecados e concede nova natureza, e que não depende de obras meritórias, mas da graça divina Jo 1.12-13; Tt 3.5). O "nascer de novo” ou “nascer do alto” expressa essa nova criação de natureza espiritual (1 Pe 1.23).

   A regeneração é obra invisível, mas real, como o vento que não se vê, mas que se sente e produz efeitos (Jo 3.8). Essa metáfora desta catanto a soberania do Espírito, que atua livremente no coração humano, quanto a profundidade da mudança produzida na vida de um convertido. Esse capítulo apresenta o Espírito Santo operando no plano trinitário da salvação, como o agente da regeneração. Sua atuação revela o milagre divino que transforma a natureza humana decaída, concedendo nova vida em Cristo.

  I - REGENERAÇÃO:

  UMA OBRA TRINITÁRIA

  1. A Doutrina Bíblica da Regeneração

   No encontro com o fariseu Nicodemos, Jesus disse ao principal dos judeus: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus” Jo 3.3). A expressão “nascer de novo” une dois vocábulos gregos: o verbo gennáõ (“gerar”, “dar origem”) e o advérbio anõthen (“do alto”, “de cima”). O uso desse ad vérbio, especialmente em João, aponta para uma origem celestial (Jo 3.31; Tg 1.17), indicando que o novo nascimento não procede da vontade humana, nem da vontade da carne, mas de Deus Jo 1.13).

  Na conversa com Nicodemos, Jesus faz um contraste entre o nascimento físico “da carne” (gr. ek sárx) e o nascimento espiritual “do Espírito” (gr. ekpneâma), revelando que a regeneração é uma obra sobre natural Jo 3.6). Jesus explica que o “nascer de novo” é algo espiritual Jo 3.5) — uma segunda origem, não humana — um renascimento a partir do alto, isto é, de Deus. A Teologia Sistemática Pentecostal ensina que a expressão “de novo”, de acordo com o texto original, significa “nascer do alto, de cima, das alturas”.1 Isso quer dizer que se trata de uma obra realizada pelo Espírito.

  Nesse sentido, Paulo ensina que somos salvos “pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo” (Tt 3.5b). Aqui, “regeneração” (gr. palingenesia) significa “novo nascimento” e está intimamente ligada à conversão. Ratifica-se que se trata de renovação interior realizada pelo Espírito, ocasião em que a pessoa se torna uma nova criatura (2 Co 5.17). O pastor Antonio Gilberto afirma que “enquanto a regeneração enfatiza o nosso interior, a conversão, o nosso exterior. Quem diz ser nas cido de novo deve demonstrar isso no seu dia-a-dia”.2 Não é uma mera reforma moral, mas uma recriação plena do ser humano.

  2. A Regeneração como Exigência de Jesus

  Cristo declarou que “aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus” Jo 3.3). F. F. Bruce explica que “nesse Evangelho, bem como nos outros, ‘ver o Reino de Deus’ nesse sentido é a mesma coisa que a ‘vida eterna’ [...] A ‘regeneração’ é outro sinônimo (Mt 19.28). Porém, Jesus fala de uma regeneração a ser experimentada aqui e agora”. A expressão “ver o Reino” é paralelo à frase “entrar no Reino” Jo 3.5) evidenciando que não há participação na salvação sem o novo nasci mento. Equivale dizer que a regeneração é absolutamente necessária.3

   Nos Sinópticos, Jesus reforça essa exigência ao declarar: “se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos céus” (Mt 18.3). Nesse sentido, Henry salienta que a con versão significa “ter uma outra mentalidade, em uma outra estrutura e sentimento; devem ter outros pensamentos, tanto de si mesmos como do Reino dos céus, antes de estarem aptos a ocupar um lugar nele”.4 A regeneração/conversão é a porta de entrada no Reino, a obra inicial da graça que principia a transformação do pecador. A ideia é mudança radical de caráter e de total dependência de Deus (1 Co 6.9-11).

   No milagre do novo nascimento, há fé e arrependimento (Mt 4.17). Implica o abandono da velha vida, do egoísmo e do controle da carne, pela adoção de um novo comportamento de santidade e obediência a Cristo.5 O ser uma nova criatura é uma exigência absoluta, uma condição essencial para a salvação (G1 6.15). Aponta para uma nova ordem de existência, criada por Deus, não apenas melhorada. Essa “nova criação” é a evidência visível de que houve regeneração. Por essa razão, a pregação apostólica priorizava o chamado ao arrependimento e à fé (Mc 6.15; At 20.21), colocando a regeneração no centro da proclamação.

  3. O Pai como o Autor da Salvação

  A regeneração, ou novo nascimento, tem sua origem no plano eterno e soberano de Deus Pai. Paulo faz uso de dois termos que revelam a soberana vontade divina: “como também nos elegeu [...] e nos predestinou” (Ef 1.4-5). A expressão eleição significa “escolha”, e predestinação tem o sentido de “determinar antes”. Esses vocábulos ligados entre si explicam que, pela presciência divina, Deus soube de antemão quem iria crer e perseverar em Cristo desde a eternidade e elegeu-os conforme a sua vontade e, para esses eleitos, determinou pro Jesus explicou essa ação do Espírito ao dizer: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” (Jo 3.6). O texto descreve o Espírito Santo como o executante da regeneração. Isso indica que, onde o Espírito opera, ocorre transformação interna e espiritual. O Espírito não apenas desperta, mas implanta vida Jo 6.63). O resultado dessa nova vida é evidenciado pelo fruto do Espírito (G1 5.22-23), que é o caráter de Cristo formado no crente (Rm 8.29). Essa obra é contínua, pois o mesmo Espírito que regenera, também santifica e preserva o crente até o final (Fp 1.6; Rm 8.11).

  II - A NATUREZA ESPIRITUAL DA REGENERAÇÃO

  1. Uma Transformação Interior

  Nicodemos revelou total incompreensão espiritual ao questionar Jesus: “Como pode um homem nascer, sendo velho?” Jo 3.4). A pergunta reflete sua visão limitada ao plano natural. Sua interpretação naturalista revela que ele entendeu o “nascer de novo” literalmente como se fosse algo físico (da carne). Nicodemos, mesmo sendo mestre em Israel Jo 3.10), não foi capaz de discernir a realidade do novo pacto prometido pelos profetas. Evidencia que a mente religiosa, espiritualmente morta, e presa à lógica humana é incapaz de compreender que a justiça de Deus não advém das obras da carne (Rm 10.3).

   Stronstad anota que “o novo nascimento” na compreensão espiritual inepta de Nicodemos significava nascer “de novo” no sentido literal, mas Jesus lhe dizia que o sentido era “nascer de cima”, pelo Espírito.9 Significa que a natureza humana não pode ser mudada da for ma como pensou Nicodemos. Uma repetição do nascimento natural, estava fora de cogitação.10 Jeremias usou uma metáfora para ilustrar que o ser humano, por si mesmo, não pode mudar sua natureza pecaminosa, sendo necessária a ação transformadora de Deus: “Pode o etíope mudar a sua pele ou o leopardo as suas manchas?” Jr 13.23).

   Paulo ensina que “o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura” (1 Co 2.14). Sinaliza que o “homem natural” (gr. ánthrõpos psychikós) não consegue assimilar as coisas do Espírito, pois estas se discernem espiritualmente. Implica dizer que “qualquer um que vive afastado do Espírito de Deus é inca paz de avaliar assuntos que estão no plano do Espírito”.11 Nesse aspecto, aos Romanos, o apóstolo apresenta o correlato ético-religioso em que se alguém tentar “estabelecer a própria justiça” perderá a justiça de Deus (Rm 10.3). Era dessa forma que pensava Nicodemos; ele estava apegado à ideia de mérito para entrar no Reino de Deus, mas Jesus lhe exigiu algo totalmente novo.

   Era imprescindível, não nascer “de novo”, mas nascer “do alto” Jo 3.3). Não apenas um aperfeiçoamento de conduta, mas um novo nascimento, operado de dentro para fora, como ato do Espírito Jo 3.5). Jesus não propõe aprimoramento da velha natureza, mas nova origem “do alto”, isto é, a purificação e vivificação prometida pelos profetas, realizada pelo Espírito Santo em virtude da obra do Filho, segundo o decreto do Pai. A regeneração, portanto, é interior, soberana, eficaz e transformadora — começa no coração e floresce na vida.

  2. Uma Obra Soberana do Espírito

  Jesus acrescenta a Nicodemos que, para entrar no Reino de Deus, é necessário nascer “da água e do Espírito” Jo 3.5). A construção gramatical do texto grego (ek hydõr kai pneüma) forma uma ideia unificada — indicando que “água” e “Espírito” não são dois nascimentos distintos, mas aspectos complementares de um mesmo ato regenerador.

    Essa metáfora da água é recorrente nas Escrituras e aponta para limpeza e purificação do pecado (Ef 5.26; Hb 10.22). Água, sobretudo no Evangelho de João, é símbolo do Espírito Jo 7.37-39). Jesus está retomando a linguagem profética de Ezequiel, em que Deus promete purificar Israel com água limpa e colocar neles um novo espírito (Ez 36.25-27). O Espírito Santo é o agente que concede essa nova vida, capacitando o homem a viver em comunhão com Deus (2 Go 3.6).

  Aqui, água e Espírito formam um par inseparável — purificação e vivificação para descrever a regeneração.

   Cristo também compara a ação do Espírito com o vento (gr. pneüma), termo que no hebraico (ruach) tem o mesmo campo semântico. Assim como o vento sopra onde quer (Jo 3.8), o Espírito age livremente, sem depender de controle humano ou de rituais externos (1 Co 2.11- 12). Isso reforça e harmoniza a revelação bíblica: no Antigo Testamento, Deus prometeu tirar o “coração de pedra” e dar um “coração de carne” (Ez 36.26), colocando seu Espírito para capacitar à obediência. No Novo Testamento, Paulo descreve o mesmo processo como “lavagem da regeneração e renovação do Espírito Santo” (Tt 3.5).

   Por conseguinte, “nascer da água e do Espírito” significa uma transformação espiritual completa: ser purificado dos pecados e receber renovação interior pelo poder do Espírito (Ef 3.16; 5.26).

   Essa mudança não pode ser produzida pela carne. E um ato soberano do Espírito que age de acordo com a vontade eterna do Pai (Ef 1.4-5). Somente a ação divina é capaz de renascer o homem espiritualmente. Aquele que nasce do Espírito torna-se nova criatura (2 Co 5.17), com uma natureza renovada (Cl 3.10) e um coração transformado (Ez 36.26-27). Passa a ter uma nova vida e uma nova identidade.

  3. Uma Nova Vida e Nova Conduta

   Como ensinou Jesus, aquele que nasce apenas da natureza humana permanece limitado àquilo que é da carne; mas quem nasce pela ação do Espírito Santo recebe uma nova natureza espiritual Jo 3.6). Conforme F. F. Bruce, o ensino se refere a uma “antítese entre o campo de ação da carne e o do Espírito”.12 A expressão “carne” (gr. sárx) não diz respeito apenas ao “corpo”, mas indica a condição humana na sua limitação e incapacidade de comunhão com Deus Jo 1.13; 6.63). O vocábulo “Espirito” (gr. pneuma) assinala nova origem e nova ordem de existência. Essa distinção enfatiza que nada da carne pode produzir vida espiritual. As “obras da carne” descrevem a produção natural da velha natureza, tais como imoralidades, inimizades e heresias (G15.19-21). A carne gera concupiscência, escravidão e morte (Rm 8.6a). Aquele que é nascido da carne permanece dominado pela natureza pecaminosa. A Escritura revela que tanto a inclinação como o pensamento da carne são inimizade contra Deus (Rm 8.7). A tendência da carne é voltada para o pecado. E quem está “na carne” não pode agradar a Deus (Rm 8.8).

  Não obstante, todo aquele que vive no Espírito já está sob nova jurisdição (Rm 8.6b). Ratifica-se que não se trata de uma mera reforma comportamental; mas de fato uma vida nova (Jo 3.5-8; Tt 3.5). A antiga identidade “em Adão” dá lugar à identidade “em Cristo” (1 Co 15.22; Rm 8.1). O domínio da carne é vencido pela vida cheia do Espírito (G1 5.16). O pecado deixa de ser a prática dominante (1 Jo 3.9). O caráter de Cristo emerge em contraste com as obras da carne (G15.22).

   O Espírito gera nova vida com fruto espiritual (G1 5.22). Ao nascer do Espírito, o crente passa a viver sob uma nova condição de ordem espiritual. O salvo passa a viver em novidade de vida (Rm 6.4), não uma continuidade melhorada, mas um novo modo de existir. Torna-se uma nova criatura, com uma nova mentalidade, novos desejos e nova direção de vida (Ef 4.22-24). Essa nova vida se evidencia na prática da justiça, no amor fraternal, no desejo pela Palavra e na obediência a Cristo — que são marcas da regeneração genuína (1 Jo 3.9).

  III - SINAIS DO NOVO NASCIMENTO EM CRISTO

  1. A Justificação pela Fé

   A doutrina da justificação pela fé é a grande verdade que a Reforma Protestante restituiu à Igreja. Lutero vivia atormentado com o seguinte raciocínio: “Se Deus julga o homem de acordo com a sua estrita justiça, quem poderá ser salvo?”. Em certa ocasião, ele escreveu: “Eu era o homem mais miserável da terra. Dia e noite eram gritos e desespero, e ninguém podia ajudar-me”.13 E, foi somente após compreender o texto “o justo viverá dá fé” (Rm 1.17) que Lutero encontrou alívio para sua alma.

  A doutrina da justificação pela fé ensina que o pecador é justificado (absolvido da condenação do pecado) unicamente pela fé na graça divina. Ratifica que as obras humanas não podem salvar, mas apenas a fé em Cristo por meio da recepção da graça de Deus (Ef 2.8-9). Ao descrever a ação divina para justificar pecadores, os ter mos usados na Bíblia apontam para o contexto judicial e forense. Em outras palavras, Deus torna livres os pecadores condenados e os declara plenamente justos e isentos de toda culpa, mediante a fé na obra de Cristo na cruz.

   Quanto a essa verdade, o Novo Testamento jamais afirma que a justificação é “diapistin” (“em troca da fé”), mas sempre “diapisteos” (mediante a fé). Isso significa que a fé não é meritória, ou seja, a fé é o meio de se receber a justificação. Desse modo, a justificação pela fé está atrelada à graça divina. Lutero, ao receber a paz que vem me diante a fé, escreveu: “Finalmente compreendí que a justiça de que fala o evangelho é aquela pela qual Deus, em sua graça, nos justifica. Imediatamente senti que renascia para uma nova vida”.14

   Em síntese, pela fé em Cristo, o pecador é justificado, e recebe uma nova posição diante de Deus, não por mérito pessoal, mas pela obra redentora do Calvário (Rm 3.24,28). O crente não é apenas per doado, mas é declarado justo diante de Deus, isto é, absolvido da culpa e da condenação do pecado (Rm 4.7-8). Essa dádiva é recebida somente por meio da fé, como resposta à graça de Deus revelada em Cristo (Rm 3.22). Os efeitos da justificação pela fé incluem a paz com Deus (Rm 5.1) e a adoção como filhos amados do Pai Jo 1.12).

 2. A Vida de Santificação

  O Novo Dicionário de Teologia leciona que “santificação” é um ter mo técnico de ritual de culto. Apresenta a ideia tanto de limpeza (Êx 19.10,14) quanto de consagração e dedicação a Deus (Êx 19.22; Dt 15.19; 2 Sm 8.11; Is 13.3). A palavra hebraica “qadash”, traduzida por “santo”, possui o significado básico de separação do uso comum para uso exclusivo ao serviço de Deus.15 Contudo, o significado de santificação e santidade se estende além do ritual para a esfera moral.16

   No Novo Testamento, o termo grego mais comum traduzido por “santo” é “hagios”. No singular, é usado com o adjetivo para descrever Deus e o seu o Espírito. No plural, é empregado como substantivo para referir-se ao povo de Deus.1' O verbo “hagiazo” é utilizado no sentido ritual de separar algo dentre o que é comum para a utilização com propósitos sagrados (Mt 6.9; Jo 10.39; 1 Pe 3.15). A expressão “hagnos” se refere particularmente a pureza no sentido ético. Em ter mos gerais, “a obra da santificação é a separação de tudo que é contrá rio à pureza do Espírito”.18

   A Teologia Sistemática Pentecostal define que santificar é “pôr à par te, separar, consagrar ou dedicar uma coisa ou alguém para uso estritamente pessoal”. Assim, “santo” é todo crente que vive no domínio exclusivo de Deus, separado do pecado e das práticas mundanas pecaminosas. E exatamente o contrário do crente que se mistura com as coisas tenebrosas do pecado.19 Nesse entendimento, na obra da redenção, o pecador é imediato e simultaneamente salvo, regenerado, justificado e adotado como filho de Deus (At 13.39;Jo 5.24; Rm 8.15).

   A partir da regeneração/conversão, inaugura-se o processo contínuo de santificação, isto é, uma vida separada do pecado e consagrada à obediência, até a sua glorificação final no Dia de Cristo (2 Co 3.18). O crente passa a viver segundo o Espírito, e não mais como escravo da carne (1 Ts 4.3-4). Conforme abordado no capítulo anterior, a santificação apresenta aspectos posicionais e progressivos, à medida que o crente avança em maturidade espiritual e se torna mais semelhante a Cristo (1 Pe 1.15-16). Essa nova vida recebida na regeneração se manifesta pela renúncia ao pecado e pela prática contínua da justiça e santidade (Rm 6.11; Ef 4.24).

  3. O Fruto do Espírito

   O fruto do Espírito Santo se relaciona com o crescimento espiritual e o desenvolvimento do caráter do cristão. Refere-se à nova vida em Cristo, ao modo de andar e proceder daqueles que pertencem a Cristo e vivem no Espírito (G1 5.16-18; Ef 5.18). Cristo ensinou que é pelo fruto que se conhece a árvore (Mt 12.33). Desse modo, o verdadeiro cristão é identificado pelo bom fruto que evidencia no seu caminhar diário. E que o contrário, o fruto mau — a prática das obras da carne (Cl 5.19-21) , denuncia que a pessoa ainda não experimentou a genuína regeneração.

   O Comentário de Aplicação Pessoal anota que “os crentes exibem o fruto do Espírito, não porque eles trabalham nele, mas simplesmente porque o Espírito controla as suas vidas”.20 Paulo observa que “o melhor antídoto contra o veneno do pecado é andar no Espírito, estar em íntima sintonia com as coisas espirituais, dedicar-se às coisas da alma, que é a parte espiritual do homem”.21 Nesse sentido, a ênfase é assim resumida: “Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito” (G1 5.25). Biblicamente (G1 5.22,23) as características do fruto do Espírito classificam-se em três categorias, a saber: (i) as três primeiras são interiores e só podem vir de Deus — amor, alegria e paz; (ii) as três seguintes dizem respeito ao relacionamento de cada crente com os de mais — longanimidade, benignidade e bondade; e (iii) as três últimas apresentam traços mais gerais de caráter que devem guiar a vida de todo crente — fé, mansidão e temperança.22

   Não se trata de dons espirituais, mas de virtudes que o Espírito Santo produz no caráter do regenerado, como expressão de sua nova vida (Ef 2.10). Antes, era dominado pelas paixões carnais, mas agora manifesta a presença do Espírito em suas atitudes diárias (Rm 8.5). Portanto, o fruto do Espírito é a evidência prática da regeneração (Mt 7.16). Quem nasceu de novo passa a refletir, ainda que imperfeitamente, o caráter de Cristo em suas palavras, ações e reações (Lc 6.40). Tal postura não pode ser esporádica, e sim uma marca contínua da nova vida recebida em Cristo (Mt 5.16).

  CONCLUSÃO

    A regeneração é uma obra trinitária operada pelo Espírito Santo. Não é um esforço humano, mas uma transformação espiritual profunda. Como regenerador, o Espírito concede nova vida, uma nova natureza e uma nova direção ao ser humano. E necessário nascer do alto para ver e entrar no Reino. Que cada crente se deixe conduzir pelo Espírito e reflita dia a dia a natureza divina recebida no novo nascimento.

     Espírito Santo — O Regenerador | 111

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

CPAD : A Santíssima Trindade — Lição 8: O Deus Espírito Santo

 


TEXTO ÁUREO

E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre.

(Jo 14.16).

VERDADE PRÁTICA

O Espírito Santo é a Terceira Pessoa da Trindade, plenamente divino, atuando como Consolador, Ensinador e Santificador da Igreja.

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE

João 14.25-31.

25 — Tenho-vos dito isso, estando convosco.

26 — Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito.

27 — Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.

28 — Ouvistes o que eu vos disse: vou e venho para vós. Se me amásseis, certamente, exultaríeis por ter dito: vou para o Pai, porque o Pai é maior do que eu.

29 — Eu vo-lo disse, agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, vós acrediteis.

30 — Já não falarei muito convosco, porque se aproxima o príncipe deste mundo e nada tem em mim.

31 — Mas é para que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui.

  PLANO DE AULA

1. INTRODUÇÃO

O Espírito Santo é a terceira Pessoa da Trindade, plenamente divino e coigual ao Pai e ao Filho. Ele não é uma força impessoal, mas Consolador, Ensinador e Santificador da Igreja. Nesta lição, estudaremos sua Pessoa, sua divindade e suas principais obras, confirmando sua atuação indispensável na vida cristã e na missão da Igreja.

2. APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO

A) Objetivos da Lição: I) Mostrar que o Espírito Santo é uma Pessoa, distinta, mas coigual ao Pai e ao Filho; II) Evidenciar a plena divindade do Espírito Santo e seus atributos; III) Ressaltar as principais obras do Espírito Santo: encarnação, ressurreição e santificação.

B) Motivação: Muitos confundem o Espírito Santo como mera força ou influência. A Bíblia, porém, o apresenta como Pessoa divina, com mente, vontade e emoções. Ele age em nossa vida como Consolador, Ensinador e Santificador. Reconhecer sua divindade fortalece nossa fé e nos leva a viver em plena dependência de sua ação.

C) Sugestão de Método: Inicie a aula convidando os alunos a refletirem sobre como têm experimentado a presença de Deus em sua caminhada. Depois, leia pausadamente João 14.16, destacando a promessa de Jesus: o Consolador estaria conosco para sempre. Pergunte: “De que forma o Espírito Santo já consolou, guiou ou fortaleceu você em momentos difíceis?”. Permita que alguns compartilhem brevemente suas experiências. Em seguida, destaque: o Espírito é Pessoa, que se relaciona conosco; é Deus, que habita em nós; e realiza obras divinas, transformando nosso coração. Finalize com uma breve oração de gratidão, pedindo que a classe viva diariamente sob a direção do Espírito Santo.

3. CONCLUSÃO DA LIÇÃO 

A) Aplicação: O Espírito Santo é plenamente Deus, distinto do Pai e do Filho, mas coigual em essência, poder e glória. Ele habita em nós como Consolador, guia nossa vida, transforma nosso caráter e fortalece nossa missão. Devemos abrir espaço para sua atuação, andando em santidade e vivendo sob sua direção até a volta de Cristo.

4. SUBSÍDIO AO PROFESSOR

A) Revista Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e subsídios de apoio à Lições Bíblicas Adultos. Na edição 104, p.40, você encontrará um subsídio especial para esta lição.

B) Auxílios Especiais: Ao final do tópico, você encontrará auxílios que darão suporte na preparação de sua aula: 1) O texto “Como Consolador”, localizado depois do primeiro tópico, aponta para a reflexão a respeito da Pessoa do Espírito e sua identidade revelada na Bíblia; 2) O texto “Símbolos do Espírito Santo”, ao final do segundo tópico, aprofunda o tema sobre a divindade do Espírito Santo.

COMENTÁRIO 

INTRODUÇÃO

O Espírito Santo é uma Pessoa divina, não uma força impessoal ou uma mera influênci

Palavras-Chave:

 

ESPÍRITO SANTO

 

“COMO CONSOLADOR

  Conforme observado no estudo dos títulos do Espírito Santo, eles nos oferecem chaves para entendermos a sua pessoa e obra. A obra do Espírito Santo como Consolador inclui o seu papel como Espírito da Verdade que habita em nós (Jo 14.16; 15.26), como Ensinador de todas as coisas, como aquEle que nos faz lembrar tudo o que Cristo tem dito (14.26), como aquEle que dará testemunho de Cristo (15.26) e como aquEle que convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo (16.8). Não se pode subestimar a importância dessas tarefas. O Espírito Santo, dentro em nós, começa a esclarecer as crenças incompletas e errôneas sobre Deus, sua obra, seus propósitos, sua Palavra, o mundo, crenças estas que trazemos conosco ao iniciarmos nosso relacionamento com Deus. Conforme as palavras de Paulo, é uma obra vitalícia, jamais completada neste lado da eternidade (1Co 13.12). Claro está que a obra do Espírito Santo é mais que nos consolar em nossas tristezas; Ele também nos leva à vitória sobre o pecado e sobre a tristeza. O Espírito Santo habita em nós para completar a transformação que iniciou no momento de nossa salvação. Jesus veio para nos salvar dos nossos pecados, e não dentro deles. Ele veio não somente para nos salvar do inferno no além. [...] Jesus trabalha para realizar essa obra por intermédio do Espírito Santo.” (HORTON, Stanley M. (Ed.). Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2019, pp.397,398).

“SÍMBOLOS DO ESPÍRITO SANTO

   Os símbolos oferecem quadros concretos de coisas abstratas, tais como a terceira Pessoa da Trindade. Os símbolos do Espírito Santo também são arquétipos. Em literatura, arquétipo é uma personagem, tema ou símbolo comum a várias culturas e épocas. Em todos os lugares, o vento representa forças poderosas, porém invisíveis; a água límpida que flui representa o poder e refrigério sustentador da vida a todos os que têm sede, física ou espiritual; o fogo representa uma força purificadora (como na purificação de minérios) ou destruidora (frequentemente citada no juízo). Tais símbolos representam realidades intangíveis, porém genuínas. Vento. A palavra hebraica ruach tem amplo alcance semântico. Pode significar ‘sopro’, ‘espírito’ ou ‘vento’. É empregada em paralelo com nephesh. O significado básico de nephesh é ‘ser vivente’, ou seja, tudo que tem fôlego. A partir daí, seu alcance semântico desenvolve-se ao ponto de referir-se a quase todos os aspectos emocionais e espirituais do ser humano vivente.” (HORTON, Stanley M. (Ed.). Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2019, pp.387,388).

   CONCLUSÃO

Compreender a divindade do Espírito Santo fortalece nossa fé na Trindade. O Espírito é distinto do Pai e do Filho, mas coigual em essência, poder e glória. Como Consolador, Ele continua a Obra de Cristo, e habita na vida dos crentes. Sua presença é viva e transformadora, indispensável na edificação, ensino, e missão da Igreja. Que todos nós vivamos guiados pelo Espírito, até que Cristo volte.

   CPAD : A Santíssima Trindade — O Deus Único Revelado em Três Pessoas Eternas

  Comentarista: Douglas Baptista

   Lição 8: O Deus Espírito Santo

 


   0 Espírito Santo é Deus, a terceira Pessoa da Trindade. Não se trata de um mero símbolo da presença divina ou uma força impessoal. Ele é Pessoa, com intelecto, vontade e emoções, capaz de falar (At 13.2), ensinar (Jo 14.26), interceder (Rm 8.26) e entristecer-se (Ef 4.30). Jesus o chama de “outro Consolador”, indicando que Ele possui a mesma natureza divina do Filho, sendo distinto em Pessoa, mas idêntico em essência. O presente capítulo tratará da Pneumatologia bíblica e teológica sob três eixos principais: (i) a Pessoa do Espírito Santo — evidências bíblicas de sua personalidade e relação trinitária e igualdade com o Pai e o Filho; (ii) a eterna divindade do Espírito — seus atributos divinos e símbolos representativos; e (iii) as obras do Espírito Santo — passando pela encarnação e ressureição até a santificação e glorificação final dos santos.

 1 - A PESSOA DO ESPÍRITO SANTO

 1. O Espírito Santo

  E uma Pessoa Na teologia cristã, a Pessoa é compreendida como um sujeito com vontade, inteligência, emoção e ação própria. O Espírito Santo, como revelado nas Escrituras, age de modo consciente, relacionai e autônomo, características que evidenciam sua personalidade. Ele age com autonomia, exercendo funções próprias de uma Pessoa.

  Paulo ensina que o Espírito tem propósito, mente e consciência: “E aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito; e é ele que segundo Deus intercede pelos santos” (Rm 8.27). O termo grego para “intenção” aqui é phronêma, que se refere a mentalidade, disposição, pensamento.' O apóstolo atribui ao Espírito uma mente ativa e consciente, que intercede de forma compatível com a vontade de Deus. Isso confirma sua racionalidade e intenção volitiva, própria de uma Pessoa. O Espírito Santo pode ser entristecido (Ef 4.30). Implica dizer que o Espírito tem emoções, mas não como emoções humanas voláteis, e sim sensibilidade moral e relacionai, ou seja, Ele responde com pesar ao pecado e à quebra de comunhão. Ele ensina e faz lembrar (Jo 14.26), o que demonstra inteligência e comunicação consciente com propósito pedagógico.

   O Espírito Santo apresenta na memória do crente tudo o que Cristo falou, palavras que jamais podem ser esquecidas.1

   Ele guia e orienta os crentes, função que exige entendimento e relacionamento, como de um mestre para o discípulo Jo 16.13). Ele distribui os dons “como quer”, demonstrando vontade deliberada, pessoal e ativa (1 Co 12.11). Ele fala diretamente e com clareza, e designa tarefas missionárias, o que comprova seu papel ativo no plano divino (At 13.2). Negar a pessoalidade do Espírito Santo é reduzir o próprio Deus a uma força impessoal, algo completamente alheio à revelação bíblica.

  2. Pessoa Distinta na Trindade

   A doutrina da Trindade afirma que Deus é um só em essência, mas subsiste eternamente em três Pessoas. Pedro distingue as três Pessoas divinas, cada uma agindo em uma etapa do processo da salvação: “eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo” (1 Pe 1.2). Nesse versículo, em três orações separadas, o apóstolo descreve três atos do Deus Triúno: o Pai elege, o Espírito santifica e o Filho redime.3 Contudo, essa distinção funcional não implica inferioridade, mas ordem trinitária. Embora o Espírito Santo compartilhe da mesma natureza divina do Pai e do Filho, sendo plenamente Deus, Ele é uma Pessoa distinta dentro da unidade da Trindade: “fomos salvos pelo poder regenerador e renova dor do Espírito Santo” (Tt 3.5, BJ). O texto demonstra que o Espírito tem um papel distinto de dar vida, dentro da função trinitária (Gn 2.7; > 6 .63; Rm 8.11). Hendriksen leciona que “na Escritura é especialmente a terceira pessoa da Trindade a que é representada como quem outorga a vida; daí, ela também outorga a vida espiritual”.4

   Essa distinção do Espírito Santo é essencial para refutar heresias, como o modalismo que ensina que Pai, Filho e Espírito são apenas “modos” sucessivos de uma única Pessoa divina. Sabélio (séc. III) foi o maior defensor desse pensamento. Ele argumentava que a natureza do Filho era apenas semelhante à do Pai; não era, portanto, idêntica à do Pai. Essa heresia foi condenada no Concilio de Antioquia (268 d.C.).5 A distinção do Espírito também combate o arianismo, que negava a divindade do Filho. Ário ensinava que Deus Pai é o único Eterno, e que Cristo tinha sido criado, portanto, não Eterno. Ele foi excomungado por heresia no Concilio de Niceia (325 d.C.).6

   Nessa esteira, a ortodoxia ratifica o papel distinto e a missão específica do Espírito Santo. Em João, essa distinção é facilmente percebi da: “aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas” (Jo 14.26). A construção grega desse versículo é clara: cada sujeito tem ações próprias, o que descarta a ideia de que são apenas manifestações ou modos de uma única Pessoa. O texto destaca três sujeitos distintos atuando simultaneamente: o Pai envia; o Filho é a referência do envio (“em meu nome”); e o Espírito é o enviado com missão específica. Em suma, o Espírito Santo é distinto do Pai e do Filho, mas plenamente Deus (1 Co 2.10-11).

  3. O Consolador Prometido

   Jesus fez uma promessa aos discípulos: “[...] eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre” Jo 14.16). O termo grego jbaráklêtos, formado pela preposição “para” (ao lado de) e o verbo “kaléõ” (chamar), significa “aquele chamado para estar ao lado”. Os campos semânticos do vocábulo permitem a tradu ção como “Consolador” — que ampara, encoraja e traz conforto em meio à dor (2 Co 1.3-4); “Ajudador” — que assiste, presta auxílio ativo e prático nas necessidades (Rm 8.26-27); e “Advogado” —- defensor le gal ou intercessor que pleiteia a causa de outro diante de um juiz (1 Jo 2.1).7 Em João, a expressão parákletos aparece cinco vezes, referindo-se ao Espírito Santo e também a Cristo. Observa a tabela abaixo:


  “Outro Consolador” (gr. állos parákletos) significa alguém da mesma natureza que Jesus. O uso do adjetivo állos (outro), e não heteros , sinaliza que o Espírito Santo é divino, pessoal e eterno.8 Esse versículo sustenta a Personalidade do Espírito Santo, que não é inferior ao Filho, mas assume o papel da presença permanente de Deus na vida dos crentes (Mt 28.19-20).

  II - A DIVINDADE DO ESPÍRITO SANTO

  1. O Debate “Filioque”

  Fundamentada nas Escrituras, a fé cristã ratificou a doutrina trinitária nos concílios ecumênicos. Em Niceia (325 d.C.), estabeleceu a divindade do Filho: “Cremos [...] em um só Senhor Jesus Cristo, Fi lho de Deus, o Unigênito do Pai, que é da substância do Pai, Deus de Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não feito, de uma só substância [homooúsios\ com o Pai”.9 Em Constantinopla (381 d.C.), no Credo niceno-constantinopolitano, após confirmar que o Pai, o Filho e o Espírito Santo possuem a mesma natureza, o concilio ratificou a divindade do Espírito: “Cremos [...] no Espírito Santo, o Senhor e Vivificador, o que procede do Pai e do Filho, o que juntamente com o Pai e o Filho é adorado e glorifica- do, que falou por meio dos profetas”.10

  O debate da divindade de Jesus e do Espírito ocorreu durante o século I\( em virtude do arianismo negar a igualdade e eternidade do Filho com o Pai, e de forma indireta também do Espírito. Nesse período o grupo dos “pneumatómacos” de tendências semiarianas apesar de aceitarem que o Filho era divino, negavam que o Espírito Santo fosse Deus. Os primeiros concílios ecumênicos foram realizados para dirimir essas controvérsias.

   A respeito do Espírito, em Constantinopla (381 d.C.) o credo grego declarou “to ektou Patros ekporeuommorP (que procede do Pai). Em Toledo (589 d.C.) a frase correspondente do credo latino acrescentou “qui ex Pa ire FilioqueprocediF (que procede do Pai e do Filho). O termo “filioque” (e do Filho) foi inserido para salvaguardar a fé bíblica que o Espírito procede tanto do Pai como do Filho Jo 15.26; 16.7).

   Os textos-chaves são: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador” (Jo 14.16); e, “quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito da verdade, que procede do Pai” (Jo 15.26). Os verbos “rogarei” (gr. erõtáo) e “proceder” (gr. ekporeuetai) são cruciais para esse debate.

   O verbo erõtáõ significa “pedir em termo de igualdade e, por isso, é sempre usado por Cristo em relação ao seu próprio pedido para o Pai, no conhecimento de sua igual dignidade”.11 O verbo “proceder” sinaliza que “o Espírito Santo é dado pelo Pai, em resposta à solicitação do Filho. Ele procede tanto do Pai como do Filho. O Pai o dá; o Filho o envia”.12 O apóstolo Paulo usa preposições gregas como ek (“de”) para expressar a relação do Espírito com o Pai e o Filho compatíveis com a doutrina que o Espírito também pro cede do Filho, a saber: “[...] se alguém não tem o Espírito de Cristo” (Rm 8.9); e, “Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho” (G1 4.6).

  2. Os Atributos Divinos do Espírito

  O reconhecimento da divindade do Espírito não se apoia apenas nas declarações dos concílios da Igreja, mas, sobretudo, no fato de que a Bíblia lhe atribui os mesmos atributos exclusivos dc Deus. Esses atributos não são adquiridos ou conferidos, mas são inerentes à sua essência eterna, como Pessoa da Trindade. Desse modo, todos os atributos divinos do Pai e do Filho são igualmente relacionados com o Espírito Santo:

  Onipotência. O Consolador tem pleno poder sobre todas as coisas. O nascimento virginal de Jesus é atribuído ao poder do Espírito, revelando que sua ação é ilimitada e criadora (Lc 1.35). O vocábulo “po der” (gr. dynamis) expressa capacidade absoluta de realizar tudo o que está de acordo com a vontade divina. Todos os milagres e obras poderosas no evangelho são realizados pela operação do Espírito (Rm 15.19). Somente Deus é onipotente (SI 115.3), logo, se o Espírito Santo é dotado de onipotência, Ele é Deus.

   Onisciência. Não existe nada além de seu conhecimento. Pedro identifica que o Espírito conhecia o que estava oculto no coração de Ananias (At 5.3-4). Paulo ensina que o Espírito possui conhecimento completo e direto, sem limitação alguma (1 Co 2.10-11). A onisciência pertence unicamente a Deus (SI 147.5). Assim, o conhecimento pleno do Espírito é prova de sua divindade.

   Onipresença. O Espírito possui conhecimento absoluto. O sal- mista reconhece que o Espírito está em todos os lugares (SI 139.7-10). A presença simultânea em toda a criação é prerrogativa divina (Jr 23.24), portanto, o Espírito é plenamente Deus.

  Eternidade. Existência sem princípio nem fim. O Espírito já atuava no momento da criação, pairando sobre as águas (Gn 1.1 -2). O Espírito é eterno, Ele não passou a existir no Pentecostes, mas já estava ativo na inspiração profética e na história da salvação (Hb 9.14). A eternidade é atributo essencial de Deus (SI 90.2); por conseguinte, o Espírito não é criatura, mas divino. Como observado, esses atributos absolutos são exclusivos da divindade. Tais virtudes são de modo inequívoco evidências da deidade do Espírito Santo. A terceira Pessoa da Trindade possui a mesma essência do Pai e do Filho.

  3. Os Símbolos do Espírito

  A expressão “símbolo” é uma combinação de duas palavras gregas “sjn” (com) e “ballein” (lançar), que significa literalmente “comparar uma coisa com outra”. Não é o objeto real, mas serve como ponte para compreendê-lo ou expressá-lo. A Declaração de Fé é das Assembléias de Deus afirma que “os símbolos do Espírito Santo são reflexos das suas múltiplas operações, mas, de maneira alguma, comprometem a sua personalidade e divindade”.13 Os principais símbolos representativos do Espírito são

   Fogo. No relato do Pentecostes, o fogo aparece como línguas que pousam sobre os discípulos, simbolizando o batismo no Espírito Santo (At 2.3). O fogo é um símbolo bíblico multifacetado, associado à pu rificação (Ml 3.2-3), ao poder divino (Ex 3.2), à presença de Deus (Ex 19.18), à santificação, ao zelo e ao fervor espiritual (Rm 12.11).

   Agua. Simboliza o Espírito como fonte de vida, pureza e renovação espiritual. O Espírito flui da Palavra como “água viva” vivificante e refrescante que satisfaz a sede espiritual, refrigera o crente e o reveste de poder (Jo 7.37-39; Ef 5.26).

   Vento. Invisível e imprevisível, ilustra a natureza espiritual e livre do Espírito (Jo 3.8). No Pentecostes, o som do vento impetuoso anuncia a manifestação do Espírito de forma poderosa e transformadora (At 2.2). Simboliza o caráter soberano e ativo do Espírito Santo.

   Oleo. Usado como símbolo de unção, consagração e capacitação para o ministério. Na antiguidade, o óleo também era usado para iluminação, indicando o Espírito como fonte de iluminação espiritual e entendimento das Escrituras (2 Co 1.21-22; 1 Jo 2.20,27). O Espírito capacita o crente a viver em santidade e exercer dons espirituais.

   Pomba. Presente no batismo de Jesus, simboliza a mansidão, paz e pureza do Espírito (Mt 3.16). Esse pássaro, conhecido por sua natureza pacífica e inofensiva, expressa o caráter gentil e consolador do Espírito. Representa a presença serena e pacificadora do Espírito Santo que habita no crente. Assim, os símbolos são figuras humanas para compreender aspectos invisíveis do Espírito Santo, mas o Espírito não está limitado a esses símbolos. Cada figura revela um atributo divino ou uma ação específica do Espírito a fim de auxiliar na compreensão do caráter e da atuação do Espírito.

   III - AS OBRAS DO ESPÍRITO SANTO

   1. O Espírito Santo e a Encarnação

   A encarnação do Filho de Deus revela o papel singular do Espírito como o agente divino na concepção de Jesus. Lucas registra que o anjo Gabriel declarou a Maria: “Descerá sobre ti o Espírito Santo [...] o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus” (Lc  1.35). O verbo “descerá” (gr. eperchomai) transmite a ideia de uma vinda intencional e eficaz, enfatizando que a ação do Espírito Santo é pessoal e direcionada.14 Essa linguagem indica que a concepção de Jesus não foi resultado de ação humana, mas o Espírito Santo em união com o poder do Pai, atua de modo sobrenatural no ventre de Maria.

   Mateus enfatiza a origem divina da concepção, ao revelar que Maria “se achou grávida pelo Espírito Santo” (Mt 1.18, NAA). O Evangelista reforça a informação: “porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo” (Mt 1.20, NAA). Aqui o verbo “gerado” (gr. gennáo) confirma a obra misteriosa do Espírito Santo e ratifica a ausência de qualquer intervenção física. Essa verdade está em consonância com o livro dos começos. Barclay destaca que “no princípio o Espírito de Deus sobrevoava a face das águas, e o caos se converteu em cosmos (Gn 1.2). O Espírito é o criador do mundo e o doador da vida. De maneira que, em Jesus Cristo, ingressa no mundo o poder de Deus que dá vida e cria”.15

   Embora Jesus tenha sido concebido pelo Espírito Santo, Ele é eternamente o Filho do Pai, gerado e não criado Jo 1.1; Mq 5.2). A concepção virginal não cria o Filho, mas introduz a sua natureza humana na história. O Espírito Santo atua como agente da nova criação, formando no ventre de Maria o corpo santo do Salvador (Efb 10.5), sem a mácula do pecado, para que Ele pudesse ser o Cordeiro perfeito (1 Pe 1.19). Essa participação direta do Espírito confirma sua divindade, pois a concepção do Verbo encarnado é obra exclusiva de Deus.

   A concepção virginal de Jesus é, em essência, uma obra trinitária. O Pai é a fonte e o autor do plano redentor. O Pai é quem envia o Filho: “vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho” (G1 4.4, ARA). O Filho voluntariamente assume a natureza humana: “a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens” (Fp 2.7, ARA). O Espírito Santo executa o milagre da concepção, unindo a natureza divina do Verbo à natureza humana recebida de Maria, de forma santa e sem a transmissão do pecado original (Mt 1.20; Hb 4.15). Essa coopera ção revela a participação direta do Espírito na encarnação do Verbo, uma obra que somente Deus podería realizar.16

  2. O Espírito Santo e a Ressurreição

   A ressurreição é uma demonstração incontestável da soberania divina sobre a morte. As Escrituras afirmam que apenas Deus possui o poder de dar vida e restaurá-la: “Pois assim como o Pai ressuscita os mortos e os vivifica, assim também o Filho vivifica aqueles que quer” (Jo 5.21). Desse modo, a ressurreição de Cristo é um ato conjunto e inseparável do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O Pai é apresentado como aquEle que ressuscitou Jesus dentre os mortos (At 2.24).

   O Filho, por sua vez, declarou possuir autoridade para entregar a sua vida e retomá-la: “Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la” Jo 10.18, ARA). O verbo “reaver” (gr. lambáno) que sig nifica “pegar de volta”, aponta para a divindade de Jesus, pois a vida e a ressurreição são prerrogativas exclusivas de Deus Jo 5.21; 11.25). Além disso, Jesus não apenas afirma que ressuscitará, mas se apresenta como a própria ressurreição: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá” Jo 11.25, ARA).

  Nas Escrituras, também o Espírito Santo é revelado como o agente vivificador dessa obra. Paulo declara: “o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dos mortos [...] também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós” (Rm 8.11, TB). Essa afirmação possui duas dimensões: (i) aponta para a ação direta do Espírito Santo na ressurreição de Cristo; e (ii) garante aos crentes que esse mesmo Espírito lhes concederá vida na ressurreição final (1 Co 15.51-54). Dessa forma, a ressurreição de Cristo é uma obra trinitária: Esse ato revela a unidade e a igualdade do Espírito Santo com o Pai e o Filho, afirmando que Ele é plenamente Deus e participante da obra salvífica desde a encarnação até a consumação final.

   3. O Espírito Santo e a Santificação

   A santificação é uma das obras essenciais do Espírito Santo na vida do crente. O próprio Cristo declarou que o Espírito viria para convencer o mundo do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8). Sinaliza que o Espírito não apenas convence o homem do pecado, mas também promove sua transformação (2 Co 3.18). O plano eterno de Deus inclui a santidade do seu povo. Desde antes da fundação do mundo, o Pai elegeu os salvos em Cristo para serem santos e irrepreensíveis diante dEle (Ef 1.4). Essa escolha soberana é aplicada pelo Espírito, conforme Paulo ensina: “Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade” (2Ts 2.13, ARA).

   A santificação possui duas dimensões complementares: uma posicionai, que ocorre no momento da conversão, quando o pecador é separado para Deus e declarado justificado pela obra de Cristo: “Mas vocês foram lavados, foram santificados, foram justificados no nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus” (1 Co 6.11, NAA). A outra dimensão é progressiva, isto é, um processo contínuo de conformidade à imagem de Cristo, que dura por toda a vida do cristão.1' O autor de Hebreus exorta: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14).

   Conforme as Escrituras, o Espírito Santo habita no crente desde a regeneração até a glorificação, guiando-o no caminho da santidade. Contudo, esse processo envolve responsabilidade humana: “[...] andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne” (G1 5.16, ARA). Ao mesmo tempo, o apóstolo adverte: “Não entristeçais o Espí rito Santo de Deus, no qual estais selados para o Dia da redenção” (Ef 4.30). Essa dinâmica mostra que a santificação não é fruto exclusivo do esforço humano, mas resultado de uma ação permanente e soberana do Espírito Santo (1 Pe 1.2).

   Essa ação atesta a deidade do Espírito, pois somente Deus é capaz de transformar o coração humano, como já havia profetizado Ezequiel: “[...] vos darei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei o coração de pedra da vossa carne e vos darei um coração de carne” (Ez 36.26). Assim, a santificação é, ao mesmo tempo, uma dádiva concedia pela graça e um chamado à cooperação diária com o Espírito. Ela comprova a divindade do Espírito Santo, pois ape nas Deus pode regenerar e preservar um pecador frutificando por toda a vida até o dia de Cristo.

   CONCLUSÃO

   Compreender a divindade do Espírito Santo fortalece nossa fé na Trindade. O Espírito é distinto do Pai e do Filho, mas coigual em essência, poder e glória. Como Consolador, Ele continua a obra de Cristo e habita na vida dos crentes. Sua presença é viva e transformadora, indispensável na edificação, ensino, e missão da Igreja. Que todos nós vivamos guiados pelo Espírito, até que Cristo volte.

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