Capítulo 2
A FÉ DE ABRÃO NAS PROMESSAS DE DEUS
ENTÃO, DISSE ABRÃO: SENHOR JEOVÁ, QUE ME HÁS
DE DAR? POIS ANDO SEM FILHOS, E O MORDOMO DA MINHA CASA É O DAMASCENO ELIÉZER.
DISSE MAIS ABRÃO: EIS QUE ME NÃO TENS DADO SEMENTE, E EIS QUE UM NASCIDO NA
MINHA CASA SERÁ O MEU HERDEIRO. E EIS QUE VEIO A PALAVRA DO SENHOR A ELE,
DIZENDO: ESTE NÃO SERÁ O TEU HERDEI-RO; MAS AQUELE QUE DE TI SERÁ GERADO, ESSE
SERÁ O TEU HERDEIRO. ENTÃO, O LEVOU FORA E DISSE: OLHA, AGORA, PARA OS CÉUS E
CONTA AS ESTRELAS, SE AS PODES CONTAR. E DISSE-LHE: ASSIM SERÁ A TUA SEMENTE. (GN
15.2-5)
Dentre as
grandes promessas de Deus a Abrão, está a de que ele haveria de ser pai de
"uma grande nação" (Gn 12.1-2). Aquela altura de sua vida, Abrão já
contava com 75 anos de idade; Sarai era dez anos mais nova que ele; porém,
ambos eram bastante idosos e, além disso, Sarai era uma mulher estéril, o que a
tornava totalmente impedida de ter filhos. Diante de tal realidade, Abrão, ao
ouvir a promessa de Deus, fez uma indagação ao Senhor, dizendo: "Senhor
Jeová, que me hás de dar? Pois ando sem filhos, e o mordomo da minha casa é o
damasceno Eliézer. Disse mais Abrão: Eis que me não tens dado semente, e eis
que um nascido na minha casa será o meu herdeiro" (Gn 15.2-3).
Certamente,
Abrão não estava, em princípio, duvidando de Deus, mas encarando a dura
realidade que envolvia a sua esposa. Chegou a imaginar e a expressar sua
preocupação a Deus, supondo que um servo seu, nascido em sua casa, seria o seu
herdeiro! Provavelmente, a lógica racional humana tinha grande peso para um
ancião, casado com uma mulher que não podia ter filhos. Mas Deus não se guia
nem depende da lógica humana, limitada e falha. Ele está acima de qualquer
racionalidade quando tem um propósito a alcançar. Está escrito: "Porque
para Deus nada é impossível" (Lc 1.37). Em sua onipotência, Ele diz:
"Ainda antes que houvesse dia, eu sou; e ninguém há que possa fazer
escapar das minhas mãos; operando eu, quem impedirá?" (Is 43.13).
Depois do
seu chamado, Abrão continuou tendo sua fé desafiada por meio de provas muito
profundas. Já consciente de ter ouvido a voz de Deus, e de estar no centro de
sua vontade, Abrão passou por muitos desafios espirituais e humanos.
I-ABRÃO VOLTA DO EGITO PARA CANAÃ
No
capítulo anterior, vimos que o patriarca Abrão, com sua família, teve que
descer ao Egito. Anotemos que, quem sai de Canaã para o Egito, desce em sua
jornada. O Egito é um tipo do mundo sem Deus. Para ir do Egito a Canaã, figura
do céu, a pessoa tem que subir. Em sentido contrário. A Bíblia diz que Abrão e
Ló retornaram muito ricos, em termos materiais (Gn 13.1-6). Mas a riqueza do
Egito lhes trouxe sérios problemas.
A FÉ DE ABRÃO NAS PROMESSAS DE DEUS
1. Contenda entre os Pastores
Por causa
da riqueza de Abrão e de Ló, no retorno a Canaã, a terra não comportava a
habitação das famílias do tio e do sobrinho: "[...] porque a sua fazenda
era muita; de maneira que não podiam habitar juntos" (Gn 13.6). Aqui,
temos uma grande lição. Quando os bens materiais causam contendas entre os
parentes, a ponto de não poderem habitar juntos, certamente tais riquezas,
adquiridas no Egito, não têm a bênção de Deus. Esse fato nos lembra o que
acontece, nos dias atuais, no meio eclesiástico.
Há casos
conhecidos de pastores evangélicos que contendem entre si por causa de
"campo eclesiástico", causando dissensões e até divisões entre as
igrejas locais. Sem a menor dúvida, essa não é a vontade de Deus. Ele deseja
que os pastores, e todos os crentes em Cristo, como irmãos na fé, vivam em
união. Diz o salmo:
Oh! Quão bom e quão suave é que os irmãos
vivam em união! É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba,
a barba de Arão, e que desce à orla das suas vestes. Como o orvalho do Hermom,
que desce sobre os montes de Sião; porque ali o Senhor ordena a bênção e a vida
para sempre. (SI 133.1-3)
2. Os Parentes se Separam
Deve ter
sido uma grande decepção para Abrão constatar que seus pastores de gado e os de
Ló estavam tendo contenda por causa do espaço físico, que não comportava o
suprimento de pastagens aos respectivos rebanhos. Mas Abrão, percebendo o grave
problema, disse ao seu sobrinho, em tom conciliador:
[...] Ora, não haja contenda entre mim e ti
e entre os meus pastores e os teus pastores, porque irmãos somos. Não está toda
a terra diante de ti? Eia, pois, aparta-te de mim; se escolheres a esquerda,
irei para a direita; e, se a direita escolheres, eu irei para a es-querda. (Gn
13.8-9)
Abrão,
sendo de mais idade, tio de Ló, poderia ter requerido para si o direito de
escolha. Mas, como homem generoso, humilde e altruísta, concedeu ao sobrinho
oportunidade de escolher primeiro a direção que tomaria, para que se evitassem
contendas entre seus pastores e, mais do que isso, que não fosse alimentada a
desunião familiar. Sem dúvida, é um grande exemplo para nós, cristãos, para não
darmos lugar a contendas, desuniões ou desavenças, como irmãos em Cristo. A
Palavra de Deus nos diz: "Se for possível, quanto estiver em vós, tende
paz com todos os homens" (Rm 12.18).
3. As Escolhas de cada um
3.1. A escolha de Ló
Ló
aproveitou a liberalidade oferecida por seu tio, e não perdeu tempo. Como homem
carnal, não buscou a direção de Deus em sua decisão. Escolheu pelos olhos.
E
levantou Ló os seus olhos e viu toda a campina do Jordão, que era toda bem
regada, antes de o Senhor ter destruído Sodoma e Gomorra, e era como o jardim
do Senhor, como a terra do Egito, quando se entra em Zoar. Então, Ló escolheu
para si toda a campina do Jordão e partiu Ló para o Oriente; e apartaram-se um
do outro. (Gn 13.10-11)
Ele optou
por "toda a campina do Jordão". O rio Jordão sempre foi conhecido
pela fertilidade às suas margens, com terras bem regadas e árvores produtivas.
Mas os que habitavam em sua região eram homens ímpios, que se entregavam a
todas as abominações a Deus. Sua escolha não poderia ter sido pior. As
consequências foram trágicas tanto para ele quanto para sua família.
A FÉ DE ABRÃO NAS PROMESSAS DE DEUS
3.2. A escolha de Abrão
Já em
idade avançada, Abrão era homem de fé, temente a Deus, que buscava sua direção.
Dando a Ló o direito de escolha em primeiro lugar, certamente submeteu sua
escolha à direção do Senhor. Preferiu escolher a terra prometida por Deus, a
terra de Canaã.
Habitou Abrão na terra de Canaã, e Ló habitou
nas cidades da campina e armou as suas tendas até Sodoma. Ora, eram maus os
varões de Sodoma e grandes pecadores contra o Senhor. (Gn 13.12-13)
O lugar
escolhido por Abrão não era tão aprazível quando o que Ló escolheu. Mas teve a
bênção de Deus. Por outro lado, a terra escolhida por Ló, em si, era uma terra
de uma paisa-gem bonita, cheia de plantações atraentes e produtivas. Mas, no
meio daquela pujança e da beleza natural, havia um povo reprovado por Deus.
Isso nos mostra que, quando se faz uma escolha pela vista dos olhos humanos, sem
a direção de Deus, os resultados a serem colhidos poderão ser os piores
possíveis, principalmente em teremos espirituais e morais.
II - AS CONSEQUÊNCIAS DAS ESCOLHAS
1. A Colheita de Abrão
É fato
que as escolhas de cada pessoa são opcionais. Porém, as consequências são
inevitáveis e quase sempre imprevisíveis.
Num primeiro instante, a escolha de Ló
prometia ser mais lucrativa, mas estava relacionada com uma situação
potencialmente explosiva. A generosidade de Abrão parecia ter-lhe sido danosa,
se considerada sob a ótica dos costumes da época. Mas, às vezes, decisões
difíceis devem ser tomadas quando o homem busca fazer a vontade de Deus. Não
obstante, em virtude das promessas e da ajuda do Senhor, o futuro de Abrão
garantia lucros profusos.¹
O texto
bíblico nos mostra que Deus aprovou a escolha de Abrão, e o fez expressando sua
aprovação de modo bem claro e evidente.
1.1. Olhando na direção de Deus
"E disse o Senhor a Abrão, depois que Ló
se apartou dele: Levanta, agora, os teus olhos e olha desde o lugar onde estás,
para a banda do norte, e do sul, e do oriente, e do ocidente" (Gn 13.14).
Depois que Ló fez sua escolha, o Senhor orientou Abrão sobre o futuro daquela
terra, bem como as consequências de sua submissão à vontade do Senhor. Nada
fica fora da bênção de Deus quando o homem resolve seguir o rumo determinado
por Ele. Deus poderia ter dito a Abrão: "Olha a terra que escolheste".
Já seria grande bênção. Mas Deus lhe disse que olhasse em todas as direções,
nos quatro pontos cardeais: para o Norte, para o Sul, para o Leste e para o
Oeste!
1.2. A promessa para os descendentes
Deus
repetiu a promessa já feita no capítulo anterior (Gn 12.6-8) e acrescentou a
Abrão:
porque toda esta terra que vês te hei de dar a
ti e à tua semente, para sempre. E farei a tua semente como o pó da terra; de
maneira que, se alguém puder contar o pó da terra, também a tua semente será
contada. Levanta-te, percorre essa terra, no seu comprimento e na sua largura;
porque a ti a darei. (Gn 13.15-17)
A FÉ DE ABRÃO NAS PROMESSAS DE DEUS
III-OS ALTARES DE ABRAÃO
Abraão foi um homem de fé e obediência e também um
gran-de adorador. Por onde passou, sempre levantou um altar de adoração ao
Senhor.
1. Um Altar na Terra Escolhida
"E
Abrão armou as suas tendas, e veio, e habitou nos carvalhais de Manre, que estão
junto a Hebrom; e edificou ali um altar ao Senhor" (Gn 13.18). Além de ser
um homem de fé, Abrão valorizava a vida espiritual. Em sua jornada, ele
construiu quatro altares. Sempre em louvor, gratidão e adoração a Deus.
1.1. O primeiro altar
Abrão
construiu seu primeiro altar em Siquém, que signifi-ca "ombro". Era
uma das cidades refúgio. Ali Josué despediu o povo: "[...] escolhei hoje a
quem sirvais [...]" (Js 24.15). Em gratidão a Deus pelas bênçãos e
promessas que lhe concedera, Abrão edificou um altar ao Senhor em Siquém. “E
apareceu o Senhor a Abrão, e disse: À tua descendência darei esta terra. E
edificou ali um altar ao Senhor, que lhe aparecera" (Gn 12.7). Na nossa
vida, algumas vezes, precisamos de um "ombro" amigo para nos apoiar.
Abrão teve o poderoso ombro de Deus, como homem de fé.
1.2. O segundo altar
Abrão
construiu outro altar em Betel (lugar que significa "Casa de Deus").
Foi ali que invocou o nome do Senhor.
Deus se manifestou a Abrão quando e onde ele
edificou um altar, visando o Deus que lhe aparecera. Assim ele retribuiu a
visita de Deus, e manteve a sua correspondência com o céu, como alguém que
estava decidido a não deixar que ela falhasse por alguma negligência de sua
parte. Assim ele reconheceu, com gratidão, a bondade de Deus a ele, ao
fazer-lhe esta graciosa visita e promessa. E assim ele testificou a sua
confiança e dependência da palavra que Deus tinha dito.2
1.3. O terceiro altar, em Hebrom (Unido)
Abrão
construiu esse altar depois da separação do seu sobri-nho Ló (Gn 13.1-13).
"E Abrão armou as suas tendas, e veio, e habitou nos carvalhais de Manre,
que estão junto a Hebrom; e edificou ali um altar ao Senhor" (Gn 13.18). É
interessante que Abrão foi para Hebrom, que significa "união", depois
que seu sobrinho separou-se dele. Tal fato lembra-nos que, em nossa jornada,
devemos viver em união (Sl 133.1) e em amor fraternal (Hb 13.1).
1.4. O quarto altar, no Monte Moriá (Entrega)
Em Moriá,
Abraão viveu sua maior prova. Deus provou sua fé, ordenando que, naquele monte,
oferecesse Isaque em sacrificio. Não foi fácil para o patriarca ouvir aquela
determinação. Mas Abraão, mesmo com dor na alma, não questionou a Deus. Deixou
seus servos à beira do monte e caminhou só com seu filho para o lugar do sacrifício.
Ele pôs a lenha sobre Isaque e levou o fogo, e o facão na sua mão. A prova
começou a se apresentar quando seu amado filho falou: "Meu pai! E ele
disse: Eis-me aqui, meu filho! E ele disse: Eis aqui o fogo e a lenha, mas onde
está o cordeiro para o holocausto?" (Gn 22.7). A resposta do patriarca foi
digna de estar registrada na Palavra de Deus: "E disse Abraão: Deus
proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho. Assim, caminharam
ambos juntos" (Gn 22.8).
Não foi
uma encenação. Foi uma prova real! Ali, Abraão, diante de Isaque, inocente,
edificou um altar, chamou o seu filho e o amarrou sobre a lenha. Se Abraão é
chamado de "o Pai da Fé", creio que Isaque pode ser chamado de
"o Pai da Obediência". Como jovem, forte, poderia ter protestado. Mas
entendeu a prova de seu pai, e submeteu-se resignadamente. Deixou-se amarrar em
silêncio. A hora crucial chegara.
E
estendeu Abraão a sua mão e tomou o cutelo para imolar o seu filho. Mas o Anjo
do Senhor lhe bradou desde os céus e disse: Abraão, Abraão! E cle disse: Eis-me
aqui. Então, disse: Não estendas a tua mão sobre o moço e não lhe faças nada;
porquanto agora sei que temes a Deus e não me negaste o teu filho, o teu único.
(Gn 22.10-12)
Em
seguida, o anjo mostrou um cordeiro para o sacrificio.
Diz a
Bíblia:
Pela fé ofereceu Abraão a Isaque, quando foi
provado, sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito.
Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus
era poderoso para até dos mortos o ressuscitar" (Hb 11.17-18).
CONCLUSÃO
Como
homem de fé, Abraão tinha um excelente relacionamento com Deus. E fazia questão
de demonstrar isso perante todas as pessoas ao seu redor. Em cada fase de sua
jornada, boa ou difícil, ele sempre construía um altar de adoração a Deus.
[...] onde quer que ele tivesse uma tenda, Deus
tinha um altar, e um altar santificado pela oração. Pois ele [Abraão] não
somente se preocupava com a parte cerimonial da religião, a oferta do
sacrifício, mas com o dever natural de buscar o seu Deus, e de invocar o seu
nome, este sacrificio espiritual no qual Deus se compraz.3
Abraão
era um verdadeiro adorador. Que Deus nos ajude a ter, em nossa vida cristă,
altares erguidos ao nosso Deus. Em nossas residências, em lugar de termos o
"altar da televisão", ou "altar das redes sociais", tomando
nosso tempo e de nossas famílias, tenhamos sempre o altar da adoração a Deus,
realizando, diariamente, o culto doméstico.
HOMENS DOS QUAIS O MUNDO NÃO ERA DIGNO 30