CPAD - A Igreja dos Gentios — Da
chamada missionária à consolidação do Evangelho entre os povos
Comentarista: Wagner Gaby
Lição 2: A porta da fé se abre
entre os gentios
INTRODUÇÃO
A primeira viagem missionária do apóstolo
Paulo está relatada em Atos 13–14. Imediatamente após terem sido separados pelo
Espírito Santo (At 13.2,3), Saulo e Barnabé,
orientados
pelo mesmo Espírito, partiram para a obra que veio a ser chamada de “a primeira
viagem missionária” para anunciar a Palavra de Deus.
Essa
viagem durou um período de aproximadamente dois anos, que ocorreu entre 46 e 48
d.C. Nesse período, Saulo, acompanhado por Barnabé e João Marcos, viajou de
Antioquia da Síria para Chipre, terra natal de Barnabé (At 4.36), e a Ásia
Menor, pregando o evangelho em sinagogas e cidades como Antioquia da Pisídia, Icônio,
Listra e Derbe. O objetivo dessa incursão missionária era a população gentílica
da Ásia Menor.
Eles seguiram as rotas de ligação do Império
Romano, o que facilitou a viagem. Saulo, ainda como assistente de Barnabé,
começou a sua série de viagens missionárias que resultaria na implantação de
igrejas na Ásia Menor, na Macedônia e na Grécia.
I – A MISSÃO EM CHIPRE: A PRIMEIRA PORTA
ABERTA ENTRE OS GENTIOS
Partindo de Antioquia, os missionários
desceram à Selêucia (v. 4), cidade portuária de Antioquia. De Selêucia,
cruzaram o mar em direção a Chipre, aportando diretamente em Salamina (v. 5), situada
na costa ocidental da ilha, a principal cidade de Chipre, onde aconteceu a sua
primeira parada.
Chipre, uma importante ilha do mar
Mediterrâneo, estava situada há uns 160 quilômetros a sudoeste. Tratava-se da
terra natal de Barnabé (At 4.36), lugar de fácil acesso onde alguns helenistas já
tinham evangelizado (At 11.19) e onde alguns membros da igreja em Antioquia
tinham laços familiares, inclusive o próprio Barnabé.
A primeira visita dos missionários a Chipre
foi a Salamina, o ponto mais próximo ao lugar de partida da viagem. Eles logo começaram
a pregar o evangelho nas sinagogas (At 13.4,5), primeiro aos judeus e depois às
demais nações (Rm 1.16). Somente quando a sinagoga não aceitava o evangelho é
que Paulo começava a sua pregação aos gregos e às outras pessoas.
A missão entre os gentios tem, assim, um
sentido tanto positivo como negativo. Isso porque Deus quer missão entre os
gentios (positivo), e essa missão tornou-se necessária porque os judeus negaram
o evangelho (negativo) (vide Rm 9–11). Entretanto, convém notar que Paulo continua
indo primeiro aos judeus mesmo depois de ter-se dirigido aos gentios.
A missão em Chipre é um retrato da missão da
Igreja em todos os tempos: proclamar com ousadia, enfrentar as forças do mal e confiar
no poder transformador do evangelho. Que, como Paulo e Barnabé, estejamos
prontos para levar a Palavra a todos mesmo diante de oposição, confiantes de
que o Senhor confirma a sua obra com sinais e frutos duradouros.
Em seguida, atravessaram a ilha até o outro
extremo dela, cerca de cento e quarenta e cinco quilômetros, chegando a Pafos
(At 13.6-12).
1. O envio missionário e o avanço da Palavra
Como ponte natural entre a Grécia e o
Oriente, Chipre era um centro comercial e cultural, governada por um procônsul
residindo na cidade de Pafos, a capital ocidental da ilha, sede do governo romano
em Chipre. A palavra procônsul indica uma autoridade romana, normalmente o governador
de uma província. Havia desses delegados romanos espalhados por todo o Império Romano.
Juntamente com Barnabé e Saulo, seguiu João
Marcos, sobrinho de Barnabé, que era apresentado como colaborador dos dois
missionários. Não temos informações precisas da pregação em Salamina; somente é
dito que os missionários “anunciavam a palavra de Deus nas sinagogas dos
judeus”. Porém, à medida que atravessavam toda a ilha até Pafos, o foco
missionário alargava-se para além dos judeus. Isso nos ensina que toda missão
começa com a fidelidade à Palavra e com uma disposição para ir aonde for
necessário.
Proclamar a Palavra de Deus com fidelidade
significa anunciar e viver a mensagem bíblica de forma íntegra e verdadeira,
sem distorções, como um “dispenseiro dos mistérios de Deus” (1 Co 4.1,2), que é
responsável por entregar a mensagem sem acrescentar ou remover. Isso exige
santidade na conduta, perseverança na fé e uma resposta pessoal e prática à
fidelidade de Deus, que Ele demonstra não só através das suas promessas, mas
também na forma como nos sustenta nas tentações, como ensina 1 Coríntios 10.13.
Proclamar a Palavra de Deus com fidelidade
significa comunicá-la de forma precisa e verdadeira, sem adulterações ou
omissões, honrando a sua mensagem original (Mt 4.4; 2 Tm 3.16,17). A
proclamação da Palavra de Deus exige preparo, reverência e fidelidade (Jr
23.28,29). Ela não se limita à pregação, mas estende-se ao testemunho de vida.
Viver conforme os mandamentos de Deus e praticar a sua palavra — como, por
exemplo, Maria fez ao acolher a palavra do anjo Gabriel — é um ato de
fidelidade. Para proclamar com fidelidade, é preciso cultivar uma vida
espiritual profunda mediante a oração e a contemplação, que proporciona a graça
de doar-se ao próximo e cumprir a missão confiada por Deus. A missão em Chipre
lembra-nos de que evangelizar exige movimento, planejamento e obediência à
direção do Espírito Santo.
2. O confronto com as trevas e a vitória do
evangelho (vv. 6-8)
Em Pafos, os missionários encontraram um
judeu mágico, encantador, feiticeiro e falso profeta chamado Barjesus, cujo
segundo nome era Elimas, pelo qual era conhecido — nome de origem árabe que
significa “mágico” ou “bruxo” (ver Dt 18.9-11; Gl 5.20,21; Ap 22.15). Elimas
ocupava um cargo oficial na administração do procônsul Sérgio Paulo, principal
governante de Chipre, o qual era considerado varão prudente, homem sensato.
Apesar de estar debaixo da influência do referido mágico judaico, demonstrou claramente
a sua inteligência em chamar Barnabé e Saulo querendo ouvir o evangelho que eles
pregavam. E é aqui em Pafos que, pela primeira vez, vemos Saulo revelar a
mensagem cristã a um alto funcionário romano. É nessa ocasião que Lucas apresenta
pela primeira vez o nome de Paulo, que, na continuidade da sua narração,
substituirá o nome Saulo, provavelmente porque é a primeira vez que Paulo
apresenta-se diante dos gentios. Nessa oportunidade, convém dar-lhe o nome que
ele usou na comunicação com os gentios. Paulo, portanto, é a forma grega do
nome Saulo.
O falso profeta, verificando que estava
perdendo a sua influência sobre o procônsul, resistia a Barnabé e Paulo,
tentando desviar a fé de Sérgio Paulo para que este não ouvisse a Palavra de
Deus. Cheio do Espírito Santo, Paulo repreende Elimas com autoridade, chamando-o
de: “Filho do diabo”, devido ao seu caráter enganador, malicioso e caluniador.
Ao ouvir o juízo de Deus anunciado por Paulo — “contra ti a mão do Senhor” (v.
11) —, ele ficou cego para que não mais ousasse falar nada contra os caminhos
do Senhor. Tanto Jesus (Lc 8.27-30) como os apóstolos (At 5.1-11; 8.23) tinham
a capacidade de reconhecer e desmascarar o mal e chamá-lo pelo devido nome. O
mago tinha a pretensão de iluminar o caminho das pessoas que o consultavam, mas
o “iluminador” ficou cego após o encontro com Paulo. Tanto ele mesmo como as
pessoas ao redor podiam ver a cegueira que o mago representa. Nos relatos de
milagres na Bíblia, é normal que a conclusão seja a conversão de pessoas.
Esse sinal sobrenatural foi decisivo para a
conversão de Sérgio Paulo, um homem inteligente e influente, que ficou
maravilhado com a doutrina do Senhor, o qual creu maravilhado com a Palavra de
Deus. O procônsul reconhece a superioridade dos ensinamentos de Paulo,
comprovada pelos fatos. Ele chega a ter fé no poder de Jesus, mas nada indica
que ele foi batizado e incluído na comunidade cristã. Lucas relata o fato
provavelmente para mostrar a superioridade do evangelho sobre o sincretismo
religioso.
Esse confronto mostra que a missão não é
apenas uma questão de estratégia ou oratória, mas também um campo de batalha espiritual.
Sempre haverá resistência das trevas quando a luz do evangelho brilhar. Elimas
simboliza a resistência espiritual ao evangelho, bem como os que se opõem à
verdade espiritual por interesse próprio ou engano. Isso exige da Igreja
discernimento, coragem e autoridade espiritual. Missões envolvem discernimento e
coragem, pois não se tratam apenas de ideias, mas também de um combate
espiritual. Você já enfrentou oposição ao compartilhar a fé? Se sim, como
reagiu?
3. Conando no poder transformador do Evangelho
(vv. 9-12)
Paulo não limitou os seus esforços a nenhuma
camada social. Ele tinha em mira alcançar os desprivilegiados assim como os influentes
(Rm 1.14,15). Encontramos em Atos 16.9-34 a narração da experiência de Paulo em
Filipos, onde Deus abriu o coração de Lídia, libertou uma jovem possessa do
espírito de adivinhação e transformou o carcereiro em um homem salvo e batizado
em um terremoto. Deus age de maneiras diferentes para alcançar o mesmo resultado
transformador. A experiência de Lídia, da escrava possuída e do carcereiro são
distintas, mas igualmente válidas para o propósito de Deus.
Somente o evangelho pode libertar uma pessoa
do pecado e livrá-la da condenação eterna. O que a medicina não pode fazer para
curar o desenganado, ou o que os tratamentos não são capazes de fazer para
libertar o dependente químico, bem como tudo o que está além da capacidade
humana, o evangelho é capaz de resolver, pois é o poder de Deus que está
disponível para mudar qualquer situação. Basta somente nEle crer (Rm 1.16).
O “confronto espiritual” (Rm 13.6-8)
refere-se à aplicação do amor cristão em um contexto de relacionamento com as
autoridades, onde a dívida de amor a todos é a única obrigação que não se quita,
ao passo que os impostos e honras às autoridades devem ser pagos, pois elas
servem a Deus. Essa passagem ensina que quem ama cumpre a lei, resumida no
mandamento “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22.37-39) e que essa
dívida de amor é a única que se deve e que se paga continuamente. Esse episódio
mostra que o evangelho é poderoso não apenas para condenar o engano, mas também
para transformar vidas (vv. 9-12).
O poder transformador do evangelho refere-se
à capacidade de o cristianismo mudar vidas profunda e radicalmente, tornando-as
novas e dignas do Senhor, levando à libertação do pecado e das trevas, à
redenção e a um estilo de vida segundo os princípios de Deus. Essa
transformação ocorre a partir de um encontro com Jesus
Cristo,
que muda as prioridades, a visão de mundo e as atitudes das pessoas, resultando
numa vida de plenitude e crescimento espiritual.
A missão em Chipre mostra que Deus abre
portas entre os gentios, alcançando até os governantes e mudando realidades por
meio da pregação fiel (1 Tm 3.2-6). O evangelho não se limita a uma dimensão
isolada, mas permeia todas as áreas da vida, transformando a maneira como
pensamos, sentimos e agimos
O impacto do evangelho é intelectual,
espiritual e prático.
Impacto intelectual – A fé cristã
desafia e transforma a maneira como pensamos, oferecendo um novo entendimento
sobre Deus, o mundo e nós mesmos (Rm 12.2; 2 Co 10.5), incentivando a renovação
da mente e a submissão dos pensamentos a Cristo, indicando que o evangelho
opera uma transformação intelectual.
Impacto espiritual
– Promove uma transformação espiritual, ou seja,no interior do ser humano, por
meio da graça de Deus, levando-o à conversão, ao crescimento espiritual e a uma
nova vida em Cristo (2 Co 5.17).
Impacto
prático – Pode ser observado na transformação
pessoal, como mudança de comportamento, promovendo uma vida mais justa, ética e
altruísta. Nas relações interpessoais (familiares, amizades, comunidade). Na
área social (prática da justiça social, compaixão pelos necessitados, na busca
pelo bem comum). Quanto à nossa missão e serviço ao próximo (partilha das Boas
Novas de salvação, levando esperança e transformação a todas as pessoas)
(Mt
7.24-27; Jo 13.34,35; ; Lc 11.27,28; Tg 2.14-26; 1 Jo 2.3-6).
Ore por uma pessoa que ainda resiste ao
evangelho. Compartilhe a Palavra com alguém esta semana, confiando que Deus
pode fazer maravilhas mediante o poder transformador do evangelho!
II – A MISSÃO EM ANTIOQUIA DA PISÍDIA: O
EVANGELHO QUE ILUMINA
1. A exposição apostólica que revela Cristo nas Escritu-
ras (At 13.16-43)
Depois de
atravessar Chipre, os missionários navegaram para um lugar que hoje é a atual
Turquia e deram uma rápida parada em Perge, pequena cidade um pouco mais para o
interior (At 13.13).
Foi neste lugar que João Marcos desistiu da
viagem, mas Paulo e Barnabé continuaram (At 13.14-52). Transpondo primeiro uma região
montanhosa, penetraram no território da Psídia e prosseguiram através dele em
direção à outra cidade chamada Antioquia da Pisídia. Paulo aceitou o convite
para pregar, seguindo o que era costume nas sinagogas helenísticas, ficando em
pé para ensinar, e enfatizava com gestos a sua mensagem. No século I, o
discurso por um membro da sinagoga, ou por um visitante, era prática costumeira
na observância do sábado. Para Paulo, provavelmente não fosse incomum, quem
sabe, vestido como fariseu, ser convidado a falar.
O auditório consistia de judeus e gentios que
temiam a Deus (cf. At 10.2). Paulo dirigiu-se aos judeus em particular, a quem
chamou de israelitas como o povo detentor da história de Israel.
Ele entrou diretamente num panorama da
história dos judeus, cujo propósito era demonstrar que Israel fora escolhido
por Deus e que este lhe deu uma terra e líderes; essa sucessão de líderes tinha
chegado a um ponto culminante quando Jesus foi enviado como salvador.
Em seguida, Paulo passa a abordar os
seguintes assuntos: O período dos juízes e o reinado de Saul (Jz 2.16-1; 1 Sm
31.13); Jesus, a descendência de Davi (Mt 1.1-17; Lc 3.23-38); João Batista, o
precursor de Jesus (Mt 3); a crucificação de Jesus cumprindo os profetas (Is
53; Sl 22); a ressurreição de Jesus, que é comprovada por muitas testemunhas
(Mt 28; Mc 16; Lc 24; Jo 20–21; 1 Co 15.1-23); a ressurreição de Jesus, que é
confirmada pelas profecias que se cumpriram (Sl 2.7; 16.10); a justificação
pela fé somente em Jesus, e não pela Lei (Rm 4.13-21; a justificação para todos
que têm semelhante fé em Cristo (Jo 3.16,36; 5.24); aviso para não rejeitar a
Cristo.
O discurso de Paulo pode ser resumido a um
tipo de panorama histórico que visa arraigar a vinda de Jesus na sucessão real
de Judá e para demonstrar que a carreira de Jesus cumpria a profecia. O sermão
termina com um apelo aos ouvintes no sentido de não repetirem o erro do povo de
Jerusalém que rejeitaram a Jesus.
Com o encerramento do sermão, os judeus
saíram da sinagoga, mas os gentios permaneceram para implorar aos missionários que
lhes pregassem mais sobre essa verdade no sábado seguinte (vv. 42,43).
Os ouvintes gentios responderam, em grande
parte, de maneira mais favorável do que os ouvintes judeus: “E, no sábado
seguinte, ajuntou-se quase toda a cidade a ouvir a palavra de Deus” (At 13.44).
Os judeus não podiam suportar que os gentios fossem iguais a eles em Cristo (At
13.45; 1 Co 12.13; Gl 3.28; Cl 3.11). Contradiziam os argumentos dos cristãos e
blasfemavam de Jesus Cristo. Grandemente abençoado é o culto em que há
verdadeira fome da Palavra de Deus. Grandemente abençoada é a cidade cujo povo
procura a casa de Deus, em vez dos lugares de divertimentos. Grandemente
abençoado é o pregador que pode dirigir-se à “quase toda a cidade”.
2. A rejeição dos judeus e a tristeza de Paulo diante da incredulidade
(At 13.44,45)
Paulo, o apóstolo dos gentios, ao chegar a
uma nova cidade, sempre iniciava o seu ministério pelas sinagogas (At 9.20;
13.5,14; 14.1; 17.10,17; 18.4,19; 19.8). As sinagogas eram locais estratégicos ideais
(At 22.10) para encontrar judeus, principalmente na Diáspora (At 9.2), além de
encontrar-se gentios com certa estima pelo monoteísmo e pela tradição bíblica.
Essa sequência, na opinião dos estudiosos,
refere-se à prioridade “histórico-salvífica”, ou seja, Israel deveria ter
prioridade, pelo fato de que Deus ofereceu a sua obra aos gentios somente por
causa da rejeição de Israel (Rm 11.11,30). Isso demonstra o amor que Paulo nutria
pelo seu povo, desejando a sua salvação (Rm 9.1-3; 10.1; 11.14).
Ele via a prioridade da história da salvação
primeiramente para os judeus e depois para os gentios (Rm 1.16; 2.9,10),
afirmando que o evangelho é para todos (Rm 10.12; Gl 3.28).
A grande tristeza e contínua dor no coração
que Paulo sentia (At 9.2) devia-se à condição espiritual dos judeus que, pela
dureza do coração, continuavam separados de Deus e distantes da salvação. Eles
não reconheciam que as Escrituras tiveram o seu cumprimento no Senhor Jesus e
que Ele era o Messias anunciado pelos profetas e, por essa razão,
rejeitaram-no.
A tristeza de Paulo por causa da incredulidade
dos judeus encontra-se em Romanos 9.1-5. Nesse texto, Paulo declara a sua imensa
tristeza e angústia constante pelo sofrimento do seu povo, os israelitas, que
rejeitaram o Messias e a salvação oferecida por Deus. Essa dor contínua que Paulo
trazia na sua alma por causa dessa situação era tão profunda que ele chegou a
dizer que poderia desejar ser maldito (separado do Salvador) por amor a eles,
enfatizando o sofrimento que ele sentia se isso tivesse algum proveito para
livrar o seu povo da destruição. Obviamente que ele sabia que isso não teria
nenhum valor, pois a salvação é individual, mas o que ele quis demonstrar era o
seu grande desejo de ver os seus compatriotas salvos. O verdadeiro homem de
Deus sofre ao ver as pessoas rejeitarem a salvação, pois sabe do terrível
sofrimento que as aguarda. O seu sonho de salvar almas é tão grande, que ele abre
mão de tudo para dedicar-se à obra do Senhor.
Embora Paulo fosse considerado um traidor por
alguns dos judeus, ele fala nesses versículos sobre a importância de Israel ter
sido adotado por Deus para ser o seu povo. O apóstolo enumera algumas dádivas
que eles receberam: a glória de Deus para diferenciá-los das demais nações; as
Alianças feitas com os antepassados; a Lei no monte Sinai (Êx 31.18); o culto verdadeiro
de adoração e devoção a Ele mediante os ensinamentos no Tabernáculo e no
Templo; as promessas; os patriarcas; os profetas e, principalmente, a maior
honra de todas: o Senhor Jesus Cristo, o Salvador, que descendeu deles segundo
a carne. Paulo conclui o argumento declarando publicamente a divindade e a
superioridade do Senhor Jesus sobre todos.
3. A
porta da fé aberta aos gentios pela graça de Deus (At
13.46-49)
O apóstolo Paulo vê nas suas Epístolas a
rejeição temporária de Israel como base para alcançar os gentios (Rm
11.11-15,19,20). Entretanto, para ele, conforme Romanos 1.16 e 2.9,10, a mensagem
não era exclusiva para o povo judeu, mas era para eles primeiro (ver At 26.20)
e depois aos gentios. No entanto, os judeus de Antioquia da Pisídia, tomados de
inveja, não apenas rejeitavam, como também contradiziam e blasfemavam contra a
mensagem de salvação que Paulo pregava. Como é trágico estarmos tão tristes com
a popularidade de alguém a ponto de ignorarmos a verdade fundamental dos
problemas da vida! Em razão disso, eles tornaram-se indignos da vida eterna.
Por terem desprezado a Palavra, os apóstolos
voltaram a sua atenção à pregação aos gentios, que se alegraram com as Boas Novas.
Deus planejou que Israel fosse essa luz (Is 49.6). De Israel nasceu Jesus, a
luz das nações (Lc 2.32), e essa luz seria expandida e iluminaria os gentios.
Muitos gentios creram (At 13.48). A resposta
dos gentios que ouviram a mensagem foi imediata e de todo o coração. Regozijavam-se
com as Boas Novas e glorificavam a palavra do Senhor.
Uma observação foi incluída: “creram todos
quantos estavam ordenados para a vida eterna” (v. 48). Daí vem a pergunta: Quem está ordenado para a vida eterna?
Resposta: Todo aquele que crê! Os gentios receberam com alegria a mensagem de
salvação e glorificaram a Deus. Independentemente de cultura, classe social, raça,
cor ou grau de escolaridade, todos os que creem no Senhor Jesus e estão
dispostos a obedecer aos seus ensinamentos estão aptos a viver eternamente ao
seu lado. Não existe uma predestinação arbitrária, e sim a responsabilidade
pessoal de aceitar ou rejeitar a Salvação, que é oferecida por Deus a todos.
O pensamento não é que Deus havia limitado a
salvação a uns poucos, mas, sim, que a estendera a muitos, constratando com o exclusivismo
judaico. É óbvio que essa escolha divina não dispensa a fé pessoal. Alguns
entendem que o verbo está na voz média, e não na passiva, e traduzem o texto
desta forma: “e tantos quantos destinaram-se a si mesmos mediante sua reação
positiva aos apelos do Espírito Santo” para a vida eterna creram.
III – A MISSÃO EM ICÔNIO, LISTRA E DERBE: A FÉ
QUE PERSEVERA
1. Icônio: o testemunho ousado que enfrenta oposição
(At
14.1-7) Icônio, Listra e Derbe eram três cidades que Paulo visitou na região sul
da Galácia. O apóstolo escreveu uma carta a essas igrejas, a Epístola aos
Gálatas, porque muitos cristãos judeus afirmavam que os cristãos gentios não
poderiam ser salvos a menos que seguissem as leis e os costumes judaicos. A
Carta de Paulo refutou esse pensamento e trouxe os crentes de volta ao padrão
correto de compreensão da fé em Jesus Cristo (Gl 3.3,5). Talvez Paulo tenha escrito
a Carta aos Gálatas logo depois de ter deixado a região (At 14.28). A Epístola
aos Gálatas foi escrita provavelmente antes do Concílio de Jerusalém (capítulo
15), porque nela a questão dos cristãos gentios terem ou não que seguir a Lei
judaica ainda não estava resolvida. Tal conselho reuniu-se para solucionar esse
problema.
Icônio era a capital da Licaônia e um
próspero centro cosmopolita inspirado na cidade-estado grega. Era também um
centro de comunicações e cidade-quartel de tropas romanas. Paulo, com o seu
estilo próprio, privilegiou a sinagoga judaica para lançar o seu ministério. Em
primeiro lugar, a sua estratégia foi marcada pela contínua preocupação para com
a sua própria gente (At 13.46;
9.2-5). Em segundo lugar, pela consciência de
que os gentios adeptos do judaísmo que congregavam nas sinagogas, eram provavelmente
os mais receptivos ao evangelho. De fato, a maioria das igrejas do século I
tinha um núcleo de crentes gentios que já dispunham de alguma familiaridade com
o Antigo Testamento.
Sinais e prodígios ali foram operados “[...]
falando ousadamente acerca do Senhor, o qual dava testemunho à palavra da sua
graça” (At 14.3); todavia, a multidão ainda ficou dividida. Provavelmente, isso
quer dizer que o Espírito Santo testemunhava ao coração dos ouvintes que aquilo
que os missionários estavam pregando era verdade, permitindo também que “por
suas mãos se fizessem sinais e prodígios (v. 3). Os milagres deveriam convencer
“aqueles que pediam um sinal” (1 Co 1.22). Tanto Paulo como Barnabé são
chamados apóstolos (At 14.14).
Em Antioquia, os judeus haviam conseguido que
as mulheres gregas e os magistrados expulsassem Paulo e Barnabé da sua cidade
(13.50). Entretanto, em Icônio, a oposição foi feita por uma multidão, e tanto
gentios como gregos fizeram um atentado contra os missionários para ultrajá-los
e, se possível, apedrejá-los. Como a prudência foi mais importante, Paulo e
Barnabé tiveram que fugir para Listra (14.6), porém sem abandonar a missão.
Podemos supor
que
a mesma alegria e o mesmo poder que houve em Antioquia permaneceram com eles
também na recém-formada igreja. Não significa que eles tiveram medo, mas essas
foram as instruções do Senhor (Mt 10.14,23; At 14.20). Icônio fica na divisa
com a Frígia e a Licaônia, e a rota de escape levava a Listra, ao sul, no coração
da Licaônia. O crescimento da igreja frequentemente vem acompanhado de
oposição, mas isso não deve impedir o avanço do evangelho.
2. Listra: milagres, confusão religiosa e sofrimento por
Cristo (At 14.8-20)
Em Listra, não se faz menção de sinagogas e
tampouco de judeus. Diante dessas circunstâncias, os missionários precisavam de
um local de reuniões públicas, sendo o fórum o local apropriado, além de ser o
mercado da cidade um local de reuniões públicas.
O relato da visita em Listra começa com um
milagre: a cura de um coxo de nascença. A história do milagre é semelhante à da
cura do aleijado por Pedro na porta do templo (At 3.1-8). Paulo, sem dúvida,
tinha pregado ao ar livre de tal maneira que o coxo, presumivelmente um mendigo,
foi atraído para a mensagem e teve “fé para ser curado”. A ordem é simples e
direta, e o salto e o caminhar são instantâneos (14.9,10).
As
multidões impressionadas com o milagre que acabaram de presenciar acreditavam
que Paulo e Barnabé deviam ser dois deuses da mitologia grega que vieram visitá-los
e resolveram que os dois deviam ser honrados. Paulo foi considerado igual a
Mercúrio, por ser o principal portador da palavra, pois Mercúrio era o
mensageiro dos deuses, ao passo que Barnabé foi considerado como Júpiter, a principal
divindade dos gregos. Por causa da barreira idiomática, os missionários não
sabiam o que estava acontecendo, mas o sacerdote local do templo de Zeus estava
trazendo bois e grinaldas de flores para oferecer sacrifícios a eles como
deuses (vv. 11-13).
Paulo e Barnabé finalmente entenderam a má
compreensão que a multidão tem da missão deles e tentam restringi-la (vv.
14-18) com a pregação a respeito do Deus verdadeiro (vv. 15-17). Os argumentos apresentados
por Paulo no seu eloquente sermão não produziram grande efeito entre os seus
ouvintes e foi com dificuldade que Barnabé e ele impediram a multidão de
oferecer-lhes sacrifícios (v. 18).
Enquanto Paulo e Barnabé estão enfrentando a
situação em
Listra,
“sobrevieram uns judeus de Antioquia e Icônio a Listra”.
A distância de Antioquia a Listra era de uns
duzentos quilômetros e de aproximadamente sessenta e cinco quilômetros de
Icônio a Listra. Esses judeus invejosos (13.45,50; 14.2), cheios de ódio pelos dois
missionários, seguiram-lhes a pé por toda aquela distância a fim de criar
problemas (13.50; 14.2,5; 17.13). Influenciado pelos invejosos, o povo ignorou
a cura que Paulo realizou pelo poder de Deus e as palavras de fé ministradas
(vv. 9,10).
Eles convenceram o povo de Listra, talvez
atribuindo o milagre da cura a um poder demoníaco (Mt 12.24). Desejando
silenciar o evangelho, esses judeus, junto com a cooperação de cidadãos de Listra,
apedrejaram Paulo (2 Co 11.25), “arrastando-o para fora da cidade, cuidando que
estava morto” (At 14.19).
A avó, mãe e pai de Timóteo moravam em
Listra, uma cidade na província romana da Licaônia, não muito longe de Tarso,
na Cilícia, onde Paulo nasceu. O pai de Timóteo era grego e pagão, enquanto a
sua mãe, Eunice, e a sua avó, Loide, eram judias. Elas foram as primeiras
cristãs convertidas ao cristianismo na cidade de Listra. É provável que a
conversão delas tenha ocorrido durante a primeira viagem missionária do
apóstolo Paulo a Listra (16.1,2).
3.
Derbe: frutos que brotam da perseverança
(At 14.20,21)
A obra missionária em Derbe é relatada de
forma mais resumida do que o relato de Icônio. No dia seguinte, Paulo e Barnabé
vão para Derbe, uma cidade da província romana da Galácia (hoje identificada
com a atual cidade de Kerti Hüyük), localizada na extremidade sudeste da
Licaônia, na estrada principal de Listra a Laranda, no centro-sul da Ásia
Menor, na atual Turquia, cerca de 96 quilômetros de Listra.
A experiência missionária em Derbe revela a
essência da obra evangelística da Igreja. Após ser apedrejado e dado por morto
, Paulo não desistiu, mas, fortalecido pelo Senhor, levantou-se e seguiu
adiante. Ele não se deixou intimidar pelo sofrimento, mas entendeu que “por
muitas tribulações nos importa entrar no Reino de Deus” (At 14.22). Esse ato
demonstra que a missão não se apoia em circunstâncias humanas, mas na
fidelidade de Deus que sustenta os seus servos (2 Co 4.8-10; Cl 1.28).
Mesmo após o sofrimento, Paulo continua
pregando e discipulando. Em contraste com Antioquia, Icônio e Listra, os
apóstolos não sofrem perseguição aqui.
Em Derbe, Paulo e Barnabé encontraram sucesso
ao pregar
o
evangelho e fizeram muitos discípulos (A Grande Comissão é fazer discípulos —
Mt 28.19-20), e não há menção de existência de sinagoga judaica na cidade. O
trabalho de Paulo e Barnabé em Derbe foi marcante devido à grande quantidade de
pessoas que creram e à formação de uma igreja, mesmo após terem sido perseguidos
em cidades vizinhas, como Icônio e Listra.
Paulo e Barnabé geralmente começavam o
trabalho nas sinagogas, mas, em Derbe, eles focaram na pregação direta à
população, conseguindo um número muito maior de convertidos. Evangelização
genuína não consiste tão somente em ganhar almas, mas principalmente em formar
discípulos que amadureçam na fé.
Ainda que Atos não diga literalmente “fundaram
uma igreja em Derbe”, o texto mostra que os missionários ganharam muitos novos
discípulos, sendo altamente provável que tenha sido formada uma igreja local
nessa cidade. Gaio, um amigo de Paulo, que o acompanhou em algumas das suas
viagens missionárias, era natural de Derbe (At 20.4).
A evangelização em Derbe ensina-nos sobre
perseverança, foco em Cristo e compromisso com o discipulado. A igreja de hoje
deve seguir esse exemplo, confiando que o Espírito Santo continua capacitando a
sua missão no mundo.
A obra missionária em Derbe também antecipa o
alcance universal do evangelho. A multiplicação de discípulos naquela cidade mostra
que a mensagem de Cristo não é limitada por fronteiras,
mas destinada a todas as nações (Mc 13.10; Ap
7.9). A igreja contemporânea, como herdeira dessa missão, precisa manter acesa
a chama missionária: evangelizar, discipular e enviar. Assim, a evangelização
em Derbe deixa-nos três grandes lições: a perseverança diante da perseguição, a
centralidade do discipulado e o caráter universal da missão. Como Paulo
declarou em 1 Coríntios 9.16:
“Ai
de mim se não anunciar o evangelho”.
CONCLUSÃO
Tendo
encerrado a primeira viagem missionária, Paulo e Barnabé voltaram a Listra,
Icônio e Antioquia (At 14.21), “Confirmando o ânimo dos discípulos,
exortando-os a perseverar na fé” e elegendo presbíteros em cada igreja (vv. 22,23).
Finalmente retornaram a Antioquia, “onde tinham sido recomendados à graça de
Deus para a obra que já haviam cumprido” (v. 26).
Eles apresentaram o relatório à igreja,
relatando: “quão grandes coisas Deus fizera por eles e como abrira aos gentios
a porta da fé” (v. 27). Essa era a finalidade principal da sua missão.
A Porta da Fé se Abre entre os Gentios
A Igreja dos Gentios