quinta-feira, 6 de agosto de 2026

CPAD : A Igreja dos Gentios — Lição 6: A suficiência da Graça na cidade de Corinto

 


TEXTO ÁUREO

 “Porque eu sou contigo, e ninguém lançará mão de ti para te fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade.

(At 18.10).

VERDADE PRÁTICA

A graça de Deus é suficiente para sustentar o crente em meio às adversidades.

 LEITURA BÍBLICA EM CLASSE

Atos 18.1-11.

1 — Depois disto, partiu Paulo de Atenas e chegou a Corinto.

2 — E, achando um certo judeu por nome Áquila, natural do Ponto, que havia pouco tinha vindo da Itália, e Priscila, sua mulher (pois Cláudio tinha mandado que todos os judeus saíssem de Roma), se ajuntou com eles,

3 — e, como era do mesmo ofício, ficou com eles, e trabalhava; pois tinham por ofício fazer tendas.

4 — E todos os sábados disputava na sinagoga e convencia a judeus e gregos.

5 — Quando Silas e Timóteo desceram da Macedônia, foi Paulo impulsionado pela palavra, testificando aos judeus que Jesus era o Cristo.

6 — Mas, resistindo e blasfemando eles, sacudiu as vestes e disse-lhes: o vosso sangue seja sobre a vossa cabeça; eu estou limpo e, desde agora, parto para os gentios.

7 — E, saindo dali, entrou em casa de um homem chamado Tito Justo, que servia a Deus e cuja casa estava junto da sinagoga.

8 — E Crispo, principal da sinagoga, creu no Senhor com toda a sua casa; também muitos dos coríntios, ouvindo-o, creram e foram batizados.

9 — E disse o Senhor, em visão, a Paulo: Não temas, mas fala e não te cales;

10 — porque eu sou contigo, e ninguém lançará mão de ti para te fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade.

11 — E ficou ali um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus.

PLANO DE AULA

 

1. INTRODUÇÃO

 

O estudo desta lição nos convida a uma leitura madura e reflexiva da experiência de Paulo em Corinto, integrando fé, contexto e vida. Considerando que a aprendizagem ocorre na interação entre experiências pessoais e a ação formadora da Palavra, este plano valoriza o diálogo e a aplicação consciente da Palavra. Ao reconhecer desafios, medos e decisões do apóstolo, o aluno é levado a reinterpretar sua própria caminhada à luz da suficiência da graça de Deus, fortalecendo a fé e o compromisso cristão.

 

2. APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO

 

A) Objetivos da Lição: I) Conduzir o aluno a compreender Corinto e os desafios do Evangelho; II) Verificar com o aluno a missão de Paulo e a suficiência da graça; III) Conscientizar sobre a graça de Deus diante dos desafios da vida cristã.

B) Motivação: Estudar a experiência de Paulo em Corinto permite compreender que a missão cristã não se sustenta na força humana, mas na graça de Deus. Esse tema fortalece a fé, orienta a prática cristã e ajuda o aluno a interpretar desafios pessoais e ministeriais à luz da fidelidade divina.

C) Sugestão de Método: Para introduzir o primeiro tópico, o professor pode iniciar a aula apresentando um panorama histórico, social e religioso da cidade de Corinto, situando o aluno no contexto em que Paulo desenvolveu seu ministério. Por meio de uma breve exposição dialogada, destaque o contraste entre riqueza material e decadência moral, estimulando o aluno a perceber como o ambiente influencia a nossa jornada de fé. Em seguida, apresente a estratégia inicial de Paulo ao pregar na sinagoga, convidando a classe a refletir sobre desafios, resistências e a necessidade de depender da graça divina em contextos adversos. Use a Bíblia de Estudo Pentecostal: Edição Global, editada pela CPAD, para enriquecer seu plano de aula.

 

3. CONCLUSÃO DA LIÇÃO

 

A) Aplicação: A vida cristã é sustentada pela graça de Deus em meio às pressões e fragilidades. Assim como Paulo, o crente aprende a confiar na presença do Senhor, perseverar diante das dificuldades e servir com fidelidade, mesmo em contextos moral e espiritualmente desafiadores.

4. SUBSÍDIO AO PROFESSOR

A) Revista Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e subsídios de apoio à Lições Bíblicas Adultos. Na edição 106, p.39, você encontrará um subsídio especial para esta lição.

B) Auxílios Especiais: Ao final do tópico, você encontrará auxílios que darão suporte na preparação de sua aula: 1) O texto “Corinto”, localizado depois do primeiro tópico, remonta o contexto religioso e moral da cidade de Corinto; 2) O texto “Porque Eu Sou Contigo”, localizado ao final do segundo tópico, aprofunda o aspecto encorajador do Evangelho ao ministério do apóstolo Paulo.

 AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO

 

 

“CORINTO

 

[...] Corinto ostentava a acrópole mais impressionante da Grécia — a sua Acrocorinto elevava-se a duzentos e quarenta metros acima da cidade. A Acrocorinto servia de fortaleza e abrigava templos, sendo o mais famoso o templo de Afrodite, que, na cidade velha (destruída pelos romanos em 146 a.C.), ostentava mil escravos e prostitutas do templo. A sua presença contribuiu para a reputação de Corinto como cidade excessivamente imoral. Um verbo grego foi cunhado: korinthiazomai (lit., ‘co-rintiar’), que significava ‘praticar imoralidade sexual’.

Na época da chegada de Paulo, Corinto era um dos centros comerciais mais importantes de todo o Império Romano e a maior cidade da Grécia, com uma população livre de cerca de 300.000 habitantes e mais 460.000 escravos. Corinto tinha uma população judaica significativa, sobretudo depois de 49 d.C., quando os judeus foram expulsos de Roma (At 18.2). Durante o ano e meio de ministério de Paulo, ele discutia regularmente na sinagoga (18.4).” (Dicionário Bíblico Baker. Rio de Janeiro: CPAD, 2023, p.127).

AMPLIANDO O CONHECIMENTO

O PAPEL DE CORINTO

 “Corinto desempenhou um papel significativo no ministério de Paulo, pois este a visitou em diversas ocasiões (1Co 12.14; 13.1), escreveu 1 e 2 Coríntios para a sua igreja e foi onde, ao que tudo indica, escreveu Romanos e 1 e 2 Tessalonicenses. Outros líderes da Igreja Primitiva também ministraram em Corinto, como Apolo por exemplo (At 19.1).” Amplie mais o seu conhecimento lendo o Dicionário Bíblico Baker, editado pela CPAD, pp.126,127.

AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO

 “PORQUE EU SOU CONTIGO

Para Paulo, estas palavras não se referem à presença geral de Cristo em todos os lugares (cf. 17.26-28; Sl 139; Jr 23.23,24; Am 9.2-4). Antes, elas se referem à sua proximidade especial com aqueles que são fiéis a Ele. A proximidade de Cristo significa que Ele está pessoalmente aqui para comunicar os seus desejos e propósitos e para cooperar conosco ao realizar estes propósitos. A presença especial de Deus também dá ao seu povo um senso maior do seu amor e os ajuda a experimentar um relacionamento mais profundo com Ele. O fato de que Deus está conosco significa que Ele está presente em todas as situações de nossas vidas para nos abençoar, ajudar, proteger e guiar. 1) Podemos aprender mais sobre o que significa ‘Cristo conosco’ considerando as passagens do Antigo Testamento onde Deus disse que estava com o seu povo fiel. Quando Moisés estava com medo de voltar para o Egito, Deus disse: ‘Eu serei contigo’ (Êx 3.12). Quando Josué se tornou o líder de Israel após a morte de Moisés, Deus prometeu: ‘Serei contigo; não te deixarei nem te desampararei’ (Jo 1.5). E Deus encorajou Israel com estas palavras: ‘Quando passares pelas águas, estarei contigo. [...] Não temas, pois, porque estou contigo’ (Is 43.2,5).” (Bíblia de Estudo PentecostalEdição Global. Rio de Janeiro: CPAD, 2022, p.1981).

 SUBSÍDIOS ENSINADOR CRISTÃO

 

 

A SUFICIÊNCIA DA GRAÇA NA CIDADE DE CORINTO

 

A lição desta semana aborda a passagem do apóstolo por Corinto, uma das principais cidades da Acaia. Durante os dezoito meses em que ficou na cidade, Paulo experimentou sensações humanas como temor e cansaço emocional devido às perseguições e prisões que havia sofrido anteriormente na Macedônia (At 17). Como era de praxe, sua dedicação à pregação do Evangelho resultou em mais oposições e conduções a tribunais para prestar testemunho de Cristo diante das autoridades. Depois de muito sofrer pela causa do Evangelho, a percepção que se tem de Paulo em Corinto é de um servo desgastado pelo cumprimento da missão. Mas Deus, que é rico em misericórdia, viu as limitações de seu servo e lhe abriu uma porta na casa de Tito Justo para que ele continuasse a pregação do Evangelho e alcançasse muitos para Cristo. Esta oportunidade, certamente, era o alívio que o apóstolo precisava para continuar a missão. Em meio ao seu momento de fragilidade, pressão e oposição, o Senhor lhe encoraja: “Não temas, mas fala, e não te cales; porque eu sou contigo, e ninguém lançará mão de ti para te fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade” (At 18.9,10). Essas palavras, certamente, soaram como um consolo ao coração de Paulo. Às vezes, no ímpeto de servir na obra de Deus, é natural que o cansaço, o desânimo ou o desgaste emocional façam o servo de Deus pensar que os seus esforços são em vão. Entretanto, o próprio apóstolo Paulo, com a mesma consolação com que foi consolado, encoraja os irmãos de Corinto: “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor” (1Co 15.58). A respeito dessa constância, o Comentário do Novo Testamento — Aplicação Pessoal (CPAD) endossa que “o tempo passado na terra é valioso — temos muito trabalho a fazer para o Reino. Outros poderão ser convidados a se juntar a nós, e os crentes devem ser ensinados a crescer no Senhor. Nada do que é feito para o Senhor é vão. Portanto, os crentes devem ser fortes na fé, sem duvidar ou vacilar; devem ser firmes, sem dar ouvidos às fantasias dos falsos mestres; e ser constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, servindo da melhor maneira possível, sabendo que grandes recompensas os aguardam” (2009, pp.180,181). A experiência de Paulo exemplifica que o servo de Deus não pode se esquecer de que é a graça de Deus quem opera todas as coisas desde o início do chamado. O interessante é que este aprendizado da graça se torna mais lúcido nos momentos de fraqueza e limitações humanas. A graça e o amor divino, porém, sempre estiveram presentes e, certamente, permanecerão com aqueles que esperam e confiam no Senhor (Is 40.31).

 CONCLUSÃO

A experiência de Paulo em Corinto ensina que a missão cristã exige coragem sustentada pela graça e discernimento para anunciar a verdade eterna em contextos marcados por profundas mudanças. A igreja ali não nasceu em terreno favorável, mas foi estabelecida e fortalecida pela suficiência da graça de Deus. O avanço do Evangelho não depende de recursos humanos, mas da presença fiel do Senhor que assegura: “Eu sou contigo”.

  Que aprendamos hoje com Corinto a confiar plenamente na graça divina, proclamando o Evangelho com fidelidade doutrinária, sensibilidade pastoral e amor genuíno, certos de que a graça de Deus continua sendo suficiente para sustentar e fazer frutificar a obra em qualquer tempo e lugar.

   Título: A Igreja dos Gentios — Da chamada missionária à consolidação do Evangelho entre os povos

Comentarista: Wagner Gaby

Lição 6: A suficiência da Graça na cidade de Corinto

  


INTRODUÇÃO

 A fundação da igreja em Corinto,registrada em Atos 18 ,é um capítulo marcante na história do cristianismo primitivo, especialmente por evidenciar duas realidades fundamentais da missão cristã: a suficiência da graça de Deus em meio às

adversidades e a importância de contextualizar a mensagem do evangelho sem comprometer a sua essência.

  Enfrentando oposição e desafios numa cidade moralmente decadente e religiosamente pluralista, encontrou no poder e na graça divina a força necessária para perseverar, ao mesmo tempo que soube adaptar a sua abordagem para alcançar um público altamente diversificado.

  A graça não escolhe ambientes tranquilos; ela manifesta-se nos piores cenários. Como o Senhor disse a Paulo mais tarde: "A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza" (2 Co 12.9).

 

I-PAULO CHEGA A CORINTO (At 18.1-6)

1. Corinto: riqueza material e miséria espiritual

  Depois de retirar-se de Atenas, Paulo chega à cidade de Corinto, capital da província romana da Acaia desde 27 a.C. Ele chega a Corinto após momento de aflição, cansado e abalado: perseguido em Filipos (At 16.19-24); expulso de Tessalônica (At 17.5-10); hostilizado em Bereia (At 17.5-10); ridicularizado em Atenas (At 17.32; cf. 1 Co 2.3). Paulo não chegou a Corinto como um herói invencível, mas como um servo frágil sustentado pela graça. Foi ali, porém, que ele decidiu revelar de maneira marcante a sua sustentação.

  A cidade era o centro político da Grécia, que, nessa época, superou Atenas em importância política e comercial. Corinto era capital famosa pela sua opulência, porém cheia de sensualidade e devassidão, sendo o maior centro de imoralidade de todo o Império Romano (1 Co 6.9-11) por abrigar templos dedicados a várias divindades (At 18.4), como Afrodite, a deusa do amor, cujo culto envolvia práticas sexuais. Estrabão, historiador, geógrafo e filósofo grego, revela que havia em Corinto cerca de mil prostitutas religiosas dedicadas a esse culto.

  Corinto era uma metrópole cosmopolita (1 Co 1.2), isto é, uma grande cidade que se destaca pela diversidade cultural e pela presença de pessoas de diferentes nacionalidades e origens, comercialmente estratégica e espiritualmente caótica, com uma ambiência hostil à mensagem de santidade (2 Co 12.21). Mesmo assim, Deus escolheu esse lugar para plantar uma igreja forte (At 18.8), mas era ali que Ele tinha "muito povo". Entretanto, Deus opera nos ambientes mais dificeis, e a sua graça é suficiente (2 Co 12.9). A graça não escolhe ambientes tranquilos; ela manifesta-se nos piores cenários. Nesse ambiente desafiador, Paulo chegou com temor e tremor, carregando não apenas o peso fisico de perseguições anteriores, mas também a preocupação pastoral por todas as igrejas.

   Em I Coríntios 2.1-5 na Nova Almeida Atualizada, Paulo explica que, ao pregar aos coríntios, não usou "sublimidade de palavras ou de sabedoria", mas decidiu focar em "Jesus Cristo e este crucificado", apresentando-se com "fraqueza, temor e grande tremor", e não com linguagem persuasiva humana, mas com demonstração do Espírito e poder para que a fé deles dependesse do poder de Deus, e não da sabedoria humana.

  Paulo inicia as suas atividades na sinagoga (vv. 1-6)

Paulo encontrou o casal Priscila e Áquila, judeus que se estabeleceram em Corinto como fabricantes de tendas, os quais tinham sido expulsos de Roma pelo decreto do imperador Cláudio, que ordenara que todos os judeus saíssem de Roma, por volta de 49 d.C. A razão, segundo o historiador Suetônio, foi a instabilidade causada pelas "perturbações constantes" dos judeus, possivelmente relacionadas à crescente influência dos primeiros cristãos.

  Eles trabalhavam juntos como fabricantes de tendas e compartilhavam do evangelho, tornando-se colaboradores e amigos de Paulo (Rm 16.3,4; 2 Tm 4.19). Paulo viveu com eles por uns dezoito meses, e juntos eles também foram fundamentais na formação da igreja em Corinto.

  Deus provê conforto e suprimento a Paulo com provisão humana e ministerial. A primcira, com Ele unindo-o a Áquila e Priscila (At 18.2,3); companheiros, amigos e cooperadores (Rm 16.3,4); um lar e trabalho para o seu sustento. A segunda, com a chegada de Silas e Timóteo fortalecendo o trabalho (At 18.5; 1 Ts 3.6), trazendo notícias de consolo (1 Ts 3.7) e provisão financeira que tinham trazido do apoio financeiro dos crentes de Tessalônica e de Filipos (2 Co 11.8,9; Fp 4.15), o que permitiu que Paulo entregasse-se totalmente à pregação do evangelho. Isso nos lembra que o Senhor usa pessoas para sustentar os seus servos nas batalhas. A graça de Deus opera por meio de relacionamentos. Ninguem permanece firme sozinho. Até Paulo precisou de amigos que o levantassem.

Após a chegada de Silas e Timóteo, Paulo intensifica a sua pregação, direcionando-a principalmente aos judeus em Corinto.

  Ele buscava convencê-los de que Jesus era o Cristo (At 18.5), o Messias prometido aos pais e esperado por eles. Paulo pregava na sinagoga (At 18.4), mas os judeus resistiam e blasfemavam (At 18.6). A constante oposição dos judeus impediu Paulo de continuar anunciando o Salvador na sinagoga. Mesmo assim, Crispo, o principal da sinagoga, converteu-se, e muitos coríntios creram e foram batizados (At 18.8). Quanto maior a oposição, mais Deus mostra a sua graça; onde a resistência é maior, mais gloriosa é a intervenção divina.

  Paulo dá continuidade ao trabalho na casa de Justo (vv. 7-11)

  Saindo da sinagoga, certo homem gentio chamado Tito Justo, temente a Deus e frequentador da sinagoga, que deve ter-se convertido sob o ministério de Paulo, ofereceu um espaço na própria residência para o trabalho do apóstolo. A sua casa ficava ao lado da sinagoga (v. 7), o que colaborou com a missão de Paulo, dado a ele e à nova congregação um bom conceito na cidade, o que era muito importante. Houve uma grande repercussão entre os coríntios quando souberam que ele pregava na casa de um cidadão romano, e assim muitos se converteram. Como resultado do trabalho de

Paulo, muitos habitantes de Corinto abraçaram o cristianismo, inclusive Crispo, principal da sinagoga (v. 8).

   Crispo de Calcedônia é um dos primeiros seguidores de Jesus no Novo Testamento. Ele e mencionado em 1 Coríntios 1.14 como um dos líderes da sinagoga de Corinto. Ele e a sua família foram convertidos ao cristianismo por Paulo de Tarso (At 18.8) e batizado pelo apóstolo em Corinto, na Grécia (ver 1 Co 1.14).

  2. Temor humano e dependência da graça

  Ao chegar a Corinto, após sofrer rejeições noutras cidades   como Filipos, Tessalônica e Atenas, Paulo estava emocionalmente abatido e fisicamente cansado. Ele provavelmente estava deprimido, com medo, sentindo solidão e fraqueza, temendo que ali em Corinto o seu trabalho fosse interrompido por judeus opositores (como em Tessalônica e Bereia) ou pela mundanidade altamente carregada ao seu redor. Apesar do seu zelo, Paulo sentiu-se vulnerável. Mais tarde, ele escreveria sobre isso (1 Co 2.3). Isso mostra que Paulo também era humano, sujeito a pressões e inseguranças, especialmente diante da dureza espiritual de Corinto.

  Apesar da presença de amigos na cidade, a permanência em

Corinto seria um período de provações para Paulo, e o Senhor

falou-lhe numa visão com palavras de encorajamento (At 18.9,10). A afirmação divina era apoiada por uma promessa tríplice: o Senhor estaria sempre com ele (Mt 28.19); nada lhe faria mal (não que nenhuma tentativa seria desferida, mas que ele sobreviveria (vv. 12-17; cf. SI 23.4; Is 41.10); Deus tinha muito povo naquela cidade (vv. 10; cf. 1 Rs 19.18; Os 2.23). Essa promessa não apenas encorajou Paulo, como também revelou o quanto a graça divina é suficiente para sustentar o obreiro mesmo nos contextos mais hostis. Depois desse encorajamento, Paulo ficou ali um ano e seis meses ensinando entre eles a palavra de Deus, tempo incomum para alguém tão perseguido (At 18.11).

  É natural o ser humano sentir medo, mas o Altíssimo socorre os seus, e não os deixa desamparados. Quando o servo crê nessa promessa, o medo, a insegurança, as dúvidas e as fraquezas são neutralizadas pela fé que ele possui. Ninguém pode silenciar a voz de quem é cheio do Espírito Santo. Isso prova que, quando Deus abre uma porta, ninguém fecha (Ap 3.7,8). E, quando Ele diz "não temas", nossa fraqueza encontra abrigo na suficiência da sua graça. Pela leitura sequencial do livro de Atos, percebe-se que outro lider da sinagoga em Corinto chamado Sóstenes deve ter assumido o lugar de Crispo na sinagoga durante algum tempo, tendo depois também se convertido ao cristianismo.

  Paulo enfrentou forte oposição e ódio contra ele e contra o

evangelho; por isso, passou a recear a sua permanência naquela cidade (1 Co 2.3). O apóstolo, contudo, recebeu do Senhor uma direção clara para permanecer firme. Essa firmeza não se apoiava em estratégias humanas, mas, sim, no reconhecimento de que a sua força vinha do Senhor. Em outro momento de fraqueza, o próprio Paulo ouviu isso de Deus (2 Co 12.9). Corinto foi, portanto, um laboratório da graça divina, onde a força de Paulo não estava na sua retórica, mas na dependência do Espírito Santo!

  II - PAULO DIANTE DE GÁLIO: A GRAÇA QUE SUS-

TENTA EM MEIO À OPOSIÇÃO (At 18.12-17)

  1. A acusação dos judeus e a proteção divina

  A perseguição não cessou completamente, pois os judeus locais continuaram a opor-se à pregação do evangelho. Dessa forma, eles tentam condenar Paulo, levando-o perante as autoridades civis (vv. 12-17).

  Como predito na visão, Paulo tem sucesso na evangelização, mas também a mão do Senhor protege-o quando os judeus tem suprimir a pregação do evangelho. Quando Gálio torna-se procônsul da província romana da Acaia, os judeus de Corinto, oponentes de Paulo, tiram vantagem da chegada de um novo governador atacando o apóstolo. Gálio era irmão mais velho de Sêneca, o filósofo estoico que foi tutor de Nero durante um tempo. Uma inscrição encontrada em Delfos menciona Gálio como irmão de Sêneca, a qual nos possibilita datar a chegada de Gálio em Corinto mais ou menos no verão de 51 d.C. Delfos era a sede do santuário de Apolo, que estava situado defronte de Corinto, do outro lado do golfo de Corinto. Paulo aparentemente esteve na cidade em torno de um ano e seis meses (ver At 18.11). Isso dizer que Paulo deve ter chegado a Corinto no ano de 50 d.C. Essa é a única data que podemos precisar com exatidão no tocante a todas as viagens do apóstolo dos gentios.

  No começo do governo de Gálio (ao redor de julho de 51 d.C.), os judeus em Corinto tentam arregimentar os poderes de Roma ao seu lado contra o movimento cristão. Juntos, os oponentes de Paulo arrastam-no perante o tribunal de Gálio.   O tribunal (bema) era uma plataforma elevada na porta da cidade, da qual Gálio presidia e julgava (vv. 16,17). Os judeus tentaram impedir a obra de pregação de Paulo em toda a província (v. 13).

  Não está claro no versículo 13 se Paulo está sendo acusado de quebrar a lei romana ou a lei judaica, mas essa acusação tem a ver com a lei dos judeus. Se as leis romanas tivessem em questão, era esperado ouvi-los e sentenciá-los. O governador vê as acusações contra o apóstolo como brigas sobre a religião judaica (vv. 14,15).

  Antes que Paulo pudesse defender-se, Gálio o fez. Gálio mostra a sua impaciência para com os judeus, lembrando-os que Paulo não cometeu crime contra a lei romana.

  A vitória do apóstolo Paulo

  Continuando as suas palavras, o governador Gálio diz aos oponentes de Paulo que os seus alegados crimes não envolvem fraude ou logro do ponto de vista da justiça romana e que eles, os judeus, não têm um caso legal contra Paulo. Até onde o governador vê, a disputa é religiosa e centraliza-se em palavras teológicas e afirmações como

"Jesus é o Messias".

  Gálio explica que, se a acusação dos judeus é para crimes contra o Estado, então ele iria lidar com o caso. Como oficial romano, não é o seu dever investigar assuntos que concernem à religião judaica. Ele não está propenso a envolver-se em assuntos nos quais ele não tem interesse. Assim o governador prontamente rejeita a acusação e fala aos judeus que ele não se aborrecerá em tentar resolver essa disputa religiosa. Tais assuntos devem ser solucionados pelos próprios judeus.

  Gálio fica impaciente com os judeus. A sua ação vigorosa e pronta contra eles é indicada pelo verbo "expulsou" (apelauno). Ele manda os soldados expulsarem os judeus do tribunal.

  Dessa forma, a promessa divina do Senhor, segundo a qual ninguém faria mal a Paulo, teve um cumprimento notável e foi cumprida (v. 10).

  2. O espancamento de Sóstenes e o alcance da graça

  Após a decisão de Gálio, todos os gregos, que também estavam insatisfeitos com a situação, agarraram Sóstenes, principal da sinagoga em Corinto, e espancaram-no diante do tribunal. Ele e outros judeus levaram Paulo perante o procônsul Gálio, acusando-o de ensinar doutrinas contrárias à lei (v. 17). Provavelmente, tanto a multidão quanto o próprio Gálio estavam mais contra os judeus do que a favor de Paulo.

  Sóstenes é mencionado em duas ocasiões distintas na Bíblia. A primeira é em Atos 18.17, sendo mencionado como o principal da sinagoga de Corinto. A segunda e em 1 Coríntios 1.1, passagem em que Sóstenes é mencionado como "nosso irmão Sóstenes", indicando que ele tornou-se cristão e era um companheiro na fé, e coautor da Primeira Carta de Paulo aos Coríntios.   Sóstenes pode ter sido o secretário (amanuense) que escreveu essa carta enquanto Paulo ditava-a. Embora não haja absoluta certeza, a conexão entre os dois Sóstenes é amplamente aceita por estudiosos da Bíblia.

  Outros líderes da sinagoga em Corinto, como Crispo, também se converteram ao cristianismo, o que reforça a ideia de que  Sóstenes pode ter passado por uma mudança semelhante. Em suma, a evidência sugere que o Sóstenes de Atos 18 e o de 1 Coríntios 1 são a mesma pessoa, o que seria um exemplo notável de fé e do poder transformador do evangelho, que faz um líder judeu ser transformado num seguidor de Cristo.

  Sóstenes é um exemplo de fidelidade e do potencial para a

salvação mesmo em meio a dificuldades, o que incentiva outros a que não desistam da fé.

  3 - A suficiência da graça na experiência de Paulo

  A palavra "graça" ocupa lugar central na teologia bíblica. Ela não é apenas o meio pelo qual somos salvos, mas também a base sobre a qual vivemos e servimos a Deus. A experiência do apóstolo Paulo mostra que a graça não elimina dificuldades, mas torna o crente capaz de permanecer firme nelas.

  A doutrina da graça ocupa posição central na fé cristã. Não se trata apenas de um conceito teológico, mas também de uma experiência contínua na vida cristã. Desde a conversão até a glorificação, tudo é sustentado pela graça. O testemunho do apóstolo Paulo revela que a graça de Deus não apenas salva, mas também sustenta, capacita e preserva os que foram alcançados por cla.

  Graça é o favor imerecido de Deus ao dar-nos o seu filho, que oferece a salvação a todos, e dá aos que o recebem como Salvador pessoal uma graça acrescentada para esta vida e uma esperança para o futuro (Rm 11.6; Ef 2.8,9). Graça, portanto, não é recompensa por mérito, mas iniciativa soberana de Deus. Em Cristo, a graça tornou-se visível, acessível e eficaz. A salvação é exclusivamente pela graça (At 15.11; Rm 3.24; Tt 3.5), e nenhuma obra humana pode acrescentar algo à obra de Cristo. A graça produz reconciliação com Deus (Rm 5.1,2; CI 1.20).

  A suficiência da graça para a vida cristã é manifesta da seguinte maneira: a graça sustenta na fraqueza (2 Co 12.7-10); a graça capacita para o serviço (1 Co 15.10; 2 Co 3.5; Hb 12.28); a graça consola em meio às aflições (Is 41.10; At 18.9,10; 2 Co 1.3,4); a graça garante perseverança (2 Co 4.7-9; 2 Tm 4.17,18); a graça ensina-nos a viver em santidade (Rm 6.14; Tt 2.11,12), gerando esperança (Rm 8.18; 1 Pe 5.10). A suficiência da graça é a certeza de que Deus é plenamente capaz de sustentar os seus filhos em todas as circunstâncias. Onde cessam os recursos humanos, a graça começa a agir. Onde a força humana falha, o poder de Deus aperfeiçoa-se. Que essa verdade conduza a Igreja a viver não na autossuficiência, mas na total dependência da graça que basta!

  O apóstolo Paulo experimentou em Corinto a suficiência da

graça de Deus mesmo diante de intensa oposição, perseguição, fragilidades pessoais e desafios espirituais (At 18.1-11; 1 Co 2.3-5). A cidade de Corinto, marcada pela idolatria e decadência moral, tornou-se palco de uma profunda experiência com o Deus que fortalece os fracos e sustenta os fiéis com a sua graça poderosa. Corinto foi, portanto, um laboratório da graça divina, onde a força de Paulo não estava na sua retórica, mas, sim, na dependência do Espírito Santo!

  A graça de Deus gera coragem para continuar mesmo quando o coração está aflito. Paulo foi chamado a continuar pregando.

  A graça não apenas consola, mas também impulsiona. Não é a ausência de problemas que revela a suficiência da graça, mas a presença do Senhor em meio aos problemas.

  Na sua Segunda Carta aos Coríntios, Paulo revela que orou três vezes para que Deus livrasse-o de um "espinho na carne".

  A resposta divina foi marcante: "A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza" (2 Co 12.9). Essa graça experimentada em Corinto, surgida num contexto de sofrimento e limitação, certamente se tornaria uma marca do seu ministério.

  Paulo, um homem usado poderosamente por Deus, suplica pela remoção de um espinho na carne. Deus, no entanto, não remove a dor; Ele concede algo maior: a graça suficiente. Isso nos ensina que a graça não é ausência de luta, mas presença de Deus no meio dela. Além disso, a graça capacita o crente para o serviço. Paulo reconhece que tudo o que realizou foi resultado da graça de Deus operando nele (1 Co 15.10). Nao e a habilidade humana que sustenta o ministério, mas a graça divina. É ela que transforma servos frágeis em instrumentos eficazes.

  Por fim, a graça também educa e transforma o caráter do crente. Conforme Tito 2.11,12, a graça que salva é a mesma que ensina a viver em santidade. Assim, a suficiência da graça não gera acomodação, mas compromisso; não produz negligência espiritual, mas obediência amorosa.

  A graça que sustentou Paulo foi a mesma que chamou e santificou aqueles irmãos (1 Co 1.2). Apesar de todos os obstáculos,

Paulo permaneceu dezoito meses em Corinto e ali estabeleceu uma igreja. Como Paulo, precisamos reconhecer que é em nossa fraqueza que se aperfeiçoa o poder de Deus.

  A dependência da graça de Deus é uma das verdades mais profundas e, ao mesmo tempo, mais negligenciadas da vida cristã. Muitos compreendem que a salvação é pela graça, mas passam a viver como se o crescimento espiritual e a perseverança dependessem exclusivamente do esforço humano. A Escritura, contudo, ensina que toda a jornada cristã é sustentada pela graça do início ao fim.

  O apóstolo Paulo declara com clareza: "[ ... ] pela graça sois salvos" (Ef 2.8). Entretanto, o mesmo apóstolo também afirma:

  "Pela graça de Deus, sou o que sou" (1 Co 15.10). Essa confissão revela que a graça não apenas nos alcança no momento da conversão, como também nos acompanha diariamente. Viver na dependência da graça é reconhecer que nada podemos realizar sem a ação contínua de Deus em nós.

  O próprio Jesus ensinou essa verdade (Jo 15.5). Essa declaração elimina qualquer ilusão de autossuficiência espiritual. O ramo não produz fruto por si mesmo; ele depende da videira. Da mesma forma, o cristão só pode viver de maneira frutífera quando permanece ligado a Cristo, confiando na sua graça.

A experiência de Paulo ilustra claramente essa dependência.

Ao enfrentar fraquezas, limitações e sofrimentos, ele ouviu do

Senhor que a graça dEle bastava (2 Co 12.9). Deus não removeu o espinho, mas concedeu graça suficiente. Isso nos ensina que a graça não é ausência de dificuldades, mas presença divina que sustenta em meio a elas.

  O episódio de Corinto reforça essa verdade. Em meio ao medo e à perseguição, Deus disse a Paulo: "Não temas [ ... ] porque eu sou contigo" (At 18.9,10). A presença de Deus foi a fonte da sua coragem e perseverança. Paulo permaneceu ali por longo tempo, não por causa da sua força, mas porque estava sustentado pela graça.

  Além disso, a graça também educa o crente. De acordo com

Tito 2.11,12, a graça ensina-nos a negar a impiedade e a viver de modo santo. Depender da graça não é, portanto, viver de forma negligente, mas submissa; não é passividade, mas confiança ativa em Deus.

  Concluímos que viver na dependência da graça é o chamado diário do cristão; é reconhecer nossa fragilidade, confiar plenamente no Senhor e caminhar sustentados pela sua misericórdia. Quando aprendemos a depender da graça, experimentamos a verdadeira liberdade espiritual e a plenitude da vida em Cristo.

  CONCLUSÃO

  A experiência de Paulo em Corinto revela que a missão cristã exige coragem sustentada pela graça e sensibilidade para comunicar a verdade eterna em contextos mutáveis. O ministério em Corinto ensina a necessidade de contextualização. A sua Carta posterior aos Coríntios mostra que ele preocupava-se em transmitir o evangelho com clareza, sem diluir a mensagem da cruz (1 Co 1.18-24), mas também sem alienar os seus ouvintes com uma linguagem ou cultura estranhas.

  Essa contextualização, contudo, não significava concessão ao pecado. Ao escrever aos crentes coríntios, Paulo exortava-os à santidade, denunciava divisões e práticas imorais e lembrava-os de que haviam sido "lavados, [ ... ] santificados, [ ... ] justificados em nome do Senhor Jesus" (1 Co 6.11). Ou seja, a graça que salva também transforma. Ela é suficiente não só para sustentar o mensageiro em meio à perseguição, mas também para transformar pecadores em santos dentro de uma cultura marcada pelo hedonismo.

  A experiência de Paulo em Corinto, portanto, revela que a missão cristã exige coragem sustentada pela graça e sensibilidade para comunicar a verdade em contextos mutáveis. A igreja de Corinto nasceu sob resistência, mas firmou-se sob a suficiência da graça. A força do evangelho não está em métodos humanos, mas na presença fiel de Deus, que diz: "Eu sou contigo".

  Que a igreja de hoje aprenda com Corinto a confiar no poder da graça e a proclamar o evangelho com sabedoria, amor e fidelidade.

   A Suficiência da Graça na Cidade de Corinto 70



CPAD : A Igreja dos Gentios — Lição 5: Cristo entre os filósofos: o Deus desconhecido se revela

 



I - CONTEXTO HISTÓRICO, CULTURAL E

RELIGIOSO DE ATENAS

1. Atenas: o centro intelectual marcado pela idolatria

(At 17.16)

Na época da chegada de Paulo a Atenas (meados do século I d.C.),

a cidade já havia perdido a sua glória política e militar de outrora,

mas continuava a ser um centro cultural e intelectual importante.

Famosa pelos seus filósofos Sócrates, Platão e Aristóteles, dava tanta

ênfase às artes, à poesia e à filosofia como nenhuma outra cidade.

  Atenas tinha cerca de cinco mil cidadãos. A Grécia não era uma

superpotência militar, e Atenas era politicamente insignificante.

Apesar disso, a cidade ainda servia de grandíssimo interesse cul-

tural, sendo conhecida como a capital da sabedoria grega e berço

da democracia. A cidade era um destino de passagem obrigatória

para estudantes e filósofos, que buscavam as suas academias e

escolas para estudar filosofia, retórica e outras artes liberais. A sua

importância era cultural, e não política.

  Embora os romanos admirassem e absorvessem a cultura grega,

o poder político e a administração do vasto império estavam con-

centrados em Roma. Portanto, enquanto Atenas era um venerável

e ativo centro de erudição e filosofia, a sede do império e o coração

da vida política e social era Roma.

  Contudo, por trás da sua sofisticação, havia uma religiosidade

profundamente idólatra e politeísta. Lucas registra a reação de

Paulo, que se comoveu ao ver a cidade "entregue à idolatria" (At

17.16). Os debates filosóficos continuavam a ser uma característica

proeminente da cidade, como evidenciado pelo relato bíblico da

visita de Paulo ao Areópago, onde o apóstolo dialogou com filósofos

epicureus e estóicos (At 17.16-34).


2. O início da evangelização de Paulo na sinagoga

(At 17.17a)

Enquanto esperava por Silas e Timóteo em Atenas, Paulo ficou

profundamente indignado com a idolatria generalizada. Chocado

com a quantidade de ídolos, o início da evangelização de Paulo em

Atenas, registrado em Atos 17.16-34, começou na sinagoga, onde

ele debatia com judeus e gentios tementes a Deus diariamente,

tentando convencer os seus ouvintes. Ali ele encontrara pelo menos

alguma compreensão, dado o terror que sentira face à idolatria

daquele povo. O público na sinagoga já tinha conhecimento prévio

dos textos sagrados e de um monoteísmo básico, o que permitia a

Paulo uma argumentação teológica mais direta - e ele também

poderia compartilhar o evangelho com os seus patrícios. Era a

prática padrão de Paulo em cidades com presença judaica, onde

ele usava as Escrituras do Antigo Testamento como ponto de

partida para demonstrar que Jesus era o Messias.

  É provável que os judeus não fossem numerosos em Atenas,

mas, como era costumeiro, a comunidade judaica provia-lhe uma

base por onde começar o seu trabalho.

  O método paulino de apresentar o evangelho é o mesmo em-

pregado em Tessalônica (At 17.2). O evangelho que Paulo pregava

tinha como foco inicial os judeus e, posteriormente, os gentios (Rm

1.16). O método de Paulo na sinagoga era de argumentação e

persuasão, dialogando com judeus e gentios tementes a Deus com

base nas Escrituras judaicas, buscando convencê-los a respeito do

Reino de Deus. Esse método diferia da sua abordagem posterior

no Areópago, que se adaptou à cultura e filosofia gregas.

  Atos 17 relata que, na sinagoga de Atenas, Paulo argumentou

com os judeus e os gentios tementes a Deus, mas não há menção

de uma aceitação em massa ou de uma rejeição violenta por parte

dos judeus daquela cidade, como ocorreu em outras localidades.

Paulo "disputava na sinagoga entre os judeus e os gentios piedosos"

diariamente. Isso indica um debate ou discussão das Escrituras, o

que era um procedimento comum para ele.

  Diferentemente de cidades como Tessalônica ou Bereia, onde

a pregação de Paulo gerou aceitação por parte de alguns, mas

também perseguição intensa por parte de outros judeus, o relato

em Atenas não descreve a formação de um grupo de crentes judeus

nem a oposição organizada deles.

  3. A proclamação do evangelho na ágora (At 17.17b)

Paulo iniciou a sua pregação na Sinagoga e, em seguida, prin-

cipalmente na ágora, que era a praça central da cidade para o

público em geral interessado em novidades. Os atenienses eram

conhecidos pelo interesse que tinham por novas ideias e filosofias,

o que os levou a convidar Paulo para falar no Areópago, um lugar

para discussões importantes.

  A palavra ágora referia-se, na Grécia Antiga, à praça pública

e significa "local de reunião" ou "assembleia", o centro da vida

pública e social de uma cidade grega antiga. Tratava-se um espaço

aberto que servia como ponto de encontro para diversas ativi-

dades dos cidadãos, como reuniões políticas, debates, atividades

comerciais e religiosas. Representava o coração da vida cívica,

social e religiosa das cidades-estado gregas. Os gregos reuniam-se

na Ágora para discutir leis, fazer negócios, votar e até assistir a

apresentações artísticas.

  A ágora antiga de Atenas é o exemplo mais conhecido onde

Sócrates foi julgado e condenado. Simbolizava o espaço público

e a democracia, sendo fundamental para a constituição dos pri-

meiros estados gregos. A ágora mais famosa é a de Atenas, onde

aconteciam eleições, celebrações religiosas, atividades mercantis

e competições atléticas. Os filósofos e os homens cultos estavam

sempre prontos para ouvir algo novo. A praça principal (ágora)

era o local onde Paulo falava diariamente com qualquer pessoa

que estivesse por ali, como faziam os filósofos da época.

  Paulo também leva o seu método evangelístico à ágora, onde

ele debatia com os que se apresentavam (gentios piedosos e alguns

filósofos frequentadores desse lugar).

  A ágora foi crucial para a pregação de Paulo em Atenas por-

que era o centro social, político e comercial da cidade, onde as

pessoas reuniam-se e debatiam ideias, oferecendo a Paulo um

público diversificado para iniciar o seu ministério. Além disso, a

ágora era um local de grande atividade religiosa e filosófica, o que

permitiu a Paulo observar a idolatria local, usar a inscrição "Ao

Deus Desconhecido" como ponto de partida para a sua pregação

e iniciar o diálogo com os atenienses antes de ser convidado a

apresentar-se no Areópago.

  A ágora permitia a Paulo encontrar e interagir com uma varic-

dade de pessoas, incluindo filósofos epicureus e estoicos, que eram

curiosos sobre novas ideias. A natureza aberta e pública da ágora

ofereceu a Paulo uma plataforma para iniciar o seu sermão sobre

um Deus que eles não conheciam, usando o altar como um ponto

de partida contextualizado para a mensagem cristã.

  A experiência de Paulo na ágora serve como uma metáfora

para a forma como os cristãos devem estar engajados na cultura,

entrando em contato com as expressões culturais e religiosas do

tempo, em vez de isolarem-se.

  II. OS FILÓSOFOS EPICUREUS E ESTÓICOS

(At 17.18-21)

  1. Os epicureus: o prazer como finalidade da vida

(At 17.18)

Epicureus eram filósofos em Atenas que confrontaram Paulo jun-

tamente com os estóicos (v. 18). Eles seguiam os ensinos de Epicuro

(341-270 a.C.), um cidadão ateniense, embora nascido na ilha de

Samos, perto de Éfeso, fundador da escola dos epicureus.

  A familiaridade de Paulo com a filosofia é evidente. Menandro,

escritor e amigo de Epicuro, é aparentemente citado por Paulo em

1 Corintios 15.33ss. Os epicureus ensinavam que o bem supremo

é o prazer ou a felicidade (gr. hefone); mas é o prazer da mente e da

vida inteira, e não o deleite dos caprichos e instintos momentâneos.

  Por "prazer", Epicuro não se referia aos desejos sensuais ("como

alguns, por ignorância, preconceito ou interpretação deliberada-

mente equivocada, entendeu que "somos", mas "a ausência de

sofrimento no corpo e de inquietação na alma". Ele não defendia

festas com bebida, sexo e alimento, mas o raciocínio sóbrio. Na

realidade, Epicuro via o sexo como potencialmente prejudicial e,

em geral, desencorajava o casamento. As consequências de todas

as ações devem ser consideradas antes de deleitar-se em uma

atividade ou mesmo aprová-la.

  Os filósofos epicureus buscavam o prazer moderado e a ausência

de sofrimento como bem supremo. Eram materialistas e negavam

a providência divina, os milagres, a profecia e a imortalidade. Não

acreditavam em nenhum deus, exceto de nome. Eles negavam que

os deuses exercessem qualquer governo sobre o mundo ou os seus

habitantes. Para os epicureus, a divindade, por sua natureza, era

transcendente e indiferente ao sofrimento humano.

  Para os Epicureus, mente e alma consistiam de partículas minúsculas

de algo como ar, dispersas pelo corpo e afetando-o. Portanto, a alma,

o ser material, pereceu na morte; nem bem-aventurança, nem aflição

aguardam os seres humanos após a morte. No fim do século I, Josefo

declarou que as predições de Deus a Daniel refutavam as declarações

epicureias que "exclui a Providência da vida humana e recusa-se a

acreditar que Deus governa os assuntos da vida humana".

  Epicuro repudiava a astrologia e ensinava que a religião era uma

superstição; dizia que, para ser feliz, era necessário ser liberto do

medo dos deuses. Também ensinava que "o prazer é o companhei-

ro inseparável da virtude". Os seus seguidores, porém, mudaram

essa doutrina, chegando, por fim, a ensinar que o prazer é o fim

principal da vida. Sustentavam que o mais importante consistia

em satisfazer os apetites e que o prazer era a única finalidade da

vida. Em última análise, o ensino deles era: "Comamos e bebamos

que amanhã morreremos".

  Se a morte fosse o fim de tudo, então apreciar cada momento

seria o mais importante. Os cristãos, porém, sabem que existe vida

além-túmulo e que nossa vida na terra é só uma preparação para a

vida eterna. O que você faz hoje é importante para a eternidade.

Levando-se em conta a eternidade, pecar é uma atitude tola.

   2. Os estóicos: razão, destino e impessoalidade divina

(At 17.18)

  Estes eram filósofos em Atenas que confrontaram Paulo juntamente

com os epicureus (vv. 18-21). Os filósofos estoicos, seguidores de

Zeno (333 a.C-263 a.C.), fundador do estoicismo, valorizavam

a razão, a virtude e o autocontrole. Acreditavam em deuses, mas

criam que todas as questões humanas eram regidas pelo destino,

que nenhum bem supremo era virtude e que o homem devia liber-

tar-se das paixões e não devia ser guiado pela alegria ou tristeza,

pelo prazer ou sofrimento. Eram os fatalistas e panteístas daquela

época. Essencialmente, tratava-se de um panteísmo racional embora

apresentasse raras aproximações do monoteísmo.

  Deus não era um ser pessoal no estoicismo, mas uma força

espiritual ou energia mental imanente aos homens e às coisas. Ele

recebeu muitos nomes, como: Logos ou Razão, Natureza, Provi-

dência, Espírito divino e outros. A sua substância era o mundo

todo e também o Céu. O bem supremo era obedecer à razão ou

à virtude, suprimir as emoções e conduzir-se conforme o que a

natureza ordenasse. No fim, haveria uma reabsorção no mundo

da alma, mas nenhuma imortalidade individual.

  Ambas as escolas negavam a ressurreição do corpo; a primeira

negava a imortalidade da alma (v. 18). Os poetas citados por Paulo

(At 17.18ss), eram os estóicos Aratus (Phaenomena) e Cleanthes

(Hino a Zeus). A filosofia estóica foi adotada por muitos romanos

como Sêneca, tutor de Nero, e o imperador Marco Aurélio.

  O pensamento estoico foi propagado e afetou a cultura popular

no século I. O imperador Cláudio empregou o filósofo estóico

Sêneca para educar membros da família. No fim do século I, os

líderes de Roma também viam favoravelmente o estoico Musônio

Rufo. O estoicismo era a seita mais popular no período, em especial

entre os envolvidos nos assunto público .

  Outros grandes estoicos foram Crisipo de Solos, Epiteto, Lúcio

Aneu Cornuto e Caio Musônio Rufo. Essa filosofia, muito influente

no período helenista, foi admitida por Sócrates, Aristóteles e pelas

escolas cínicas. Os estóicos, em contraste com os epicureus, asso-

ciavam o prazer ao vício, embora a alegria de espírito fosse boa.

 Das principais escolas filosóficas gregas, apenas o estoicismo

preocupava-se com ajustar os deuses ao seu esquema; embora a sua

percepção dos deuses não fosse convencional, a piedade popular

iria considerá-la muito mais aceitável do que os seus competido-

res. Eles falavam do Logos que designava e governava o cosmos

(ver At 17.26). Eles também enfatizavam o destino. Os estoicos,

apesar de serem originalmente monistas e, por isso, panteístas (ver

At 17.28), no início do império falavam de "Deus" de um modo

mais pessoal, usando também durante muito tempo a linguagem

de amizade com Deus. O elemento panteísta, no entanto, nunca

esteve completamente ausente; por isso, o verdadeiro Júpiter não

só era o guardião do Universo, como também a alma e espírito

do mundo.

  A apologética estoica para a existência e a natureza da divindade

lembra o argumento de Paulo em Atos 17. Os estoicos podiam

argumentar que os deuses existem e, a seguir, definir o caráter deles

e, depois, as necessidades da humanidade. Esse esboço básico do

argumento era bastante conhecido para servir como um modelo

para o esboço do discurso de Paulo no Areópago, naturalmente

recomendando mais uma vez o discurso mais para os estoicos do

que para os epicureus.

  Paulo, distante de pregar deuses estranhos (At 17.18), chama

os seus ouvintes a abandonar os falsos deuses, voltando-se para

o único Deus verdadeiro, que não está longe de cada um deles

(At 17.27). Eles levaram Paulo a um tipo de audiência oficial; ele

adverte-os do julgamento iminente contra a idolatria (At 17.30,31).

Essa coragem dificilmente seria característica do estrangeiro normal

em busca de hospitalidade nem de alguém sendo avaliado numa

audiência (At 7.51-53), mas era uma forma retórica boa em alguns

cenários (ver At 4.13).

  3. Paulo levado ao Areópago: o Evangelho diante da cul-

tura (At 18-21)

Areópago é a forma grega para "Colina de Marte", visto que, se-

gundo os gregos, foi ali que o deus Netuno chamou o deus Marte

a juízo. Estava situado em um alto rochoso de Atenas em frente

da Acrópole. O nome Areópago foi também dado ao tribunal

supremo de Atenas. Inicialmente, é o nome de um lugar, mas era

também o termo para designar o conselho de sábios e literatos.

Os seus trinta e um membros, como juízes, sentavam-se ao ar livre

em bancos de pedra, escavados na rocha. Foi a esse lugar que o

apóstolo Paulo foi levado e onde pregou aos atenienses (At 17.22).

  A direita do apóstolo, enquanto este pregava, estava a Acrópole

com o Paternon, templo dedicado à Minerva. Em todo o canto,

ao redor do pregador, havia altares, templos, imagens e estátuas.

Na colina do Areópago, conservam-se ainda hoje algumas ruínas

interessantes.

  O Areópago, embora fosse uma corte de julgamento, era tradi-

cionalmente a corte aristocrática de Atenas, distinta da massa

do povo. O Areópago exercia grande influência; na Atenas

clássica, julgava, às vezes, casos capitais, incluindo de homi-

cídio. Em uma tendência positiva, também podia honrar um

estrangeiro, mas, infelizmente, não existe resposta para Paulo

em Atos 17.32-34.

  A declaração que Paulo prega esses "deuses estranhos" e o

fato de ser levado ao Areópago evoca uma versão da acusação

contra o filósofo Sócrates, que também fora examinado no

Areópago antes. Embora até mesmo os ouvintes de primcira

viagem não esperassem que Paulo fosse martirizado ali como

Sócrates (embora a lei romana não permitisse essa prática),

a alusão traz suspense, em vista da rejeição pública de Paulo

nas narrativas precedentes sobre a Macedônia (At 16.22,23;

17.5-8,13).

  Apesar de o Conselho do Areópago (At 17.19) reunir-se ori-

ginalmente na colina com esse nome, a maioria dos estudiosos

reconhece que Lucas refere-se ao Conselho, não à localização.

As duas palavras de Lucas em Atos 17.19,22 podem sugerir as

alusões ao julgamento de Sócrates, à natureza apologética do

discurso e à menção a um "areopagista" (At 17.34).

  O cerne da mensagem de Paulo tanto na sinagoga quanto na

praça era o evangelho de Jesus e a ressurreição. Alguns filósofos

nada viram no ensino de Paulo e desligaram-se, considerando-o

um "tagarela" ou pregador de deuses estrangeiros, dando-lhe

a alcunha de "este paroleiro". Essa palavra tem o sentido de

"varejista de segunda mão". Outros achavam que o seu ensino

merecia uma investigação mais profunda, e, com esse objetivo,

Paulo é levado ao Areópago pelos filósofos epicureus e estoicos

por causa do seu "ensino estranho" (vv. 18-20). O interesse dos

filósofos pelo ensino de Paulo talvez não passasse de curiosida-

de acadêmica, mas poderia haver ali um pequeno indício de

ameaça, visto que, em Atenas, a introdução de deuses estranhos,

embora fosse prática comum, constituía ofensa capital se, por

essa razão, as deidades locais fossem rejeitadas e a religião

estatal perturbada.

  III. O DISCURSO DE PAULO NO AREÓPAGO

(At 17.22-34)

No Arcópago, Paulo proferiu um dos seus mais notáveis discursos,

demonstrando grande sensibilidade e estratégia: a sua abordagem

mudou significativamente daquela utilizada na Sinagoga, em que

ele utilizou um método de argumentação bíblica com um público

familiarizado com o judaísmo. Já no Areópago, ele adotou uma

abordagem apologética adaptando-se ao contexto cultural e filo-

sófico grego para introduzir o evangelho a filósofos pagãos.

  O discurso de Paulo no Areópago de Atenas é um dos momentos

mais marcantes do diálogo entre o cristianismo primitivo e a cultura

helênica. Contudo, ao invés de iniciar o seu discurso com ataques,

ele emprega uma abordagem inteligente e respeitosa, estabelecendo

uma conexão com os ouvintes antes de apresentar o evangelho.

  1. Observação cultural como ponto de contato com o

evangelho (At 17.22,23)

Na introdução do discurso, Paulo elogia os atenienses por conta

da religiosidade deles (At 17.22,23) Essa ponte cultural revela a

sua sensibilidade missional: em vez de confrontar diretamente a

idolatria, ele utiliza-se de um símbolo da própria religiosidade

ateniense para introduzir a revelação do Deus verdadeiro (1 Ts

1.9). O apóstolo propõe apresentar-lhes justamente aquele que eles

adoravam sem conhecer (v. 23), assumindo o papel de anunciador

desse Deus desconhecido, agora revelado em Cristo.

  2. O Deus Criador, Sustentador e Senhor da história

(At 17.24-29)

 A segunda parte do discurso é uma exposição teológica sobre Deus

como criador e sustentador do Universo (v. 24). Aqui, ele rompe

com a concepção pagã de divindades localizadas e dependentes

dos serviços humanos. Deus não é servido por mãos humanas

como se precisasse de alguma coisa (v. 25), pois é Ele quem dá vida,

respiração e tudo o mais. A universalidade do Criador é enfatizada

(v. 26a), contrapondo a visão elitista grega de superioridade étnica.

Além de Criador, Deus também é o sustentador e o governador

soberano da história humana (v. 26b). Esse governo divino tem um

propósito (v. 27a) e, embora pareça estar longe, "não está longe de

cada um de nós" (v. 27c,28a).

Paulo, então, cita poetas gregos [Epimênides, um poeta e filó-

sofo cretense do século VI a.C., e Cleanto, um filósofo estoico do

século III a.C.] (v. 28). Ele demonstra familiaridade com a cultura

grega, revelando que nela existem lampejos da verdade passíveis

de redenção em Cristo.

  A conclusão da seção apela à coerência: se somos geração de

Deus, não devemos imaginar a divindade semelhante a ouro,

prata ou pedra (v. 29). Paulo desconstrói respeitosamente a ido-

latria e propõe o conhecimento de um Deus pessoal, espiritual e

transcendente.

  3. O chamado ao arrependimento e o anúncio do Juízo

(At 17. 30,31)

Paulo, por fim, chega à terceira e mais direta parte do discurso, com

um chamado claro ao arrependimento. Ele afirma: "Mas Deus, não

tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos

os homens, em todo lugar, que se arrependam" (v. 30). Essa decla-

ração é revolucionária: o convite ao arrependimento é universal e

imediato. O motivo é apresentado a seguir: Deus estabeleceu um

dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um

homem que Ele mesmo designou - Jesus Cristo - oferecendo

como garantia disso a sua ressurreição dentre os mortos (v. 31).

  A ressurreição de Cristo garante que todos os homens ressuscita-

rão e serão julgados (1 Co 15.1-23). Ele designou a Cristo como

juiz. Para os filósofos epicureus e estoicos, a ressurreição e o juízo

eram o delírio de um louco. Somente aqueles cujo coração estava

aberto creram.

  A mençao da ressurreicao e o ponto de ruptura. Alguns zom-

bam (At 17.32), e outros mostram interesse em ouvir mais tarde,

e apenas poucos creem, entre eles Dionísio, o areopagita, e uma

mulher chamada Dâmaris (v. 34).

  A menção a Dionísio na Bíblia, especificamente em Atos 17.34,

relata que ele era um membro do Areópago que se converteu ao

cristianismo após ouvir a pregação do apóstolo Paulo, sendo um

dos primeiros atenienses a acreditar em Cristo. A designação dele

como o primeiro bispo de Atenas provém de tradições da Igreja

Primitiva, registradas por historiadores eclesiásticos posteriores.

Dionísio sofreu o fim de um mártir cristão ao ser queimado. A sua

história foi preservada pelo historiador cristão primitivo Eusébio

de Cesareia na obra História Eclesiástica, do século IV.

Na teologia evangélica, a ênfase principal recai sobre o relato

bíblico da sua conversão em Atos dos Apóstolos, que demonstra a

propagação do evangelho para as elites intelectuais gregas. Embora

a maioria das denominações evangélicas não atribua o mesmo peso

à tradição extrabíblica do que a Igreja Católica ou a Ortodoxa,

o fato de ele ter sido um líder proeminente na Igreja Primitiva de

Atenas é geralmente aceito com base nessas referências históricas.

  Dâmaris é uma mulher mencionada no Novo Testamento que

vivia em Atenas por volta de 55. De acordo com os Atos dos Após-

tolos (17.34), Dâmaris abraçou o cristianismo depois do discurso

de Paulo no Areópago, tornando-se uma das poucas atenienses a

acreditar na mensagem do apóstolo.

  É provavel que ela tenha tido um alto status social, que lhe

permitiu estar no Areópago, um local que só as mulheres de maior

prestígio conseguiam ter acesso à época. E pode ser também esse

o motivo de o seu nome ter sido preservado. É provável ainda que

cla tenha sido estrangeira, pois as atenienses dificilmente estariam

presentes no Areópago.

  O resultado do discurso não é um grande número de conversões,

mas demonstra a fidelidade de Paulo à sua missão: comunicar o

evangelho de forma contextualizada, respeitosa e fiel à verdade.

  CONCLUSÃO

O discurso de Paulo permanece um modelo para o engajamento

cristão com culturas contemporâneas: começa onde o ouvinte está,

reconhece o que há de verdadeiro na cultura e, por fim, conduz à

revelação plena de Deus em Jesus Cristo. Ele também nos ensina

que o evangelho é suficientemente robusto para dialogar com

qualquer filosofia, mas também é suficientemente confrontador

para chamar todos, inclusive os mais cultos, ao arrependimento

e à fé no Cristo ressurreto. Em 2 Coríntios 4.4, o apóstolo Paulo

afirmou que "o deus deste mundo cegou o entendimento dos

descrentes, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da

glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus".

  O texto descreve como os não crentes não conseguem enxer-

gar a mensagem do evangelho por causa do "deus deste mundo"

(frequentemente interpretado como Satanás), que cega as suas

mentes. A passagem segue o raciocínio de que o ministério de

Cristo é a fonte de luz e que os cristãos são servos de Cristo para

o beneficio de outros.

  Em seguida, no versículo 6 desse mesmo capítulo, Paulo escre-

ve: "Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz,

é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do

conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo".

  Jesus Cristo é a verdadeira luz que liberta o homem das trevas

e da ignorância espiritual. Ele certamente nos trouxe revelação e

o conhecimento de um Deus pessoal, que se interessa individual-

mente por cada um de nós.

    Cristo entre os Filósofos: o Deus desconhecido se Revela