sábado, 9 de novembro de 2019

Lição 7 - A Complexidade da Alma



TEXTO ÁUREO             
   E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, 
e soprou em suas narinas o fôlego da vida; 
e o homem foi feito 
alma vivente.

Gênesis 2:7




                    COMENTÁRIO

Palavra introdutória

O que é a alma? Qual a sua origem? Quem a criou? O ser humano é uma alma, tem uma alma ou passou a ser uma alma? A alma é imortal? O mundo animal, físico e vegetal tem alma? O que acontece com a alma na morte?
Procuraremos responder a essas e a outras perguntas ao longo da lição.

1. DEFINIÇÃO,ORIGEM E COMPOSIÇÃO
Biblicamente, a alma é a sede das emoções. Por intermédio do espírito, ela põe-nos em contato com o Altíssimo e, por meio do corpo, põe-nos em contato com o mundo natural.

1.1. De onde vem a alma?

Esse tema tem sido debatido há milênios, por pessoas diferentes, em todo o mundo. As principais teorias que procuram responder a essa pergunta são: o preexistencialismo (a preexistência da alma); o traducionismo (a transmissão da alma) o criacionismo (a criação imediata da alma).
  • Preexistencialismo - Declara que as almas dos homens já existiam em um estado anterior; e qualquer deficiência moral demonstrada, neste estado, teria implicação direta na vida material desta alma (espiritismo, panteísmo).
  • Traducionismo - Afirma que a alma é gerada juntamente com o corpo. De acordo com essa teoria, a alma seria transmitida pelos pais, assim como o corpo.
  • Criacionismo - Determina que Deus cria (chama à existência) uma nova alma quando um novo ser humano é concebido. Cada alma seria formada ex-nihilo (do nada) por Deus.

1.2. Deus criou a alma

A alma do homem não é pó, e sim o resultado do sopro pessoal e direto de Deus no corpo humano: (Gn 2.7). O Eterno soprou vida, soprou espírito, soprou parte de Sua natureza no homem, elevando-o a condição de ser racional e espiritual.
As palavras do patriarca Jó descrevem o que aconteceria com o homem se Deus retirasse o que deu a ele, ao torna-lo alma vivente: Se ele pusesse o seu coração contra o homem, e recolhesse para si o seu espírito e o seu fôlego, toda a carne juntamente expiraria, e o homem voltaria para o pó (Jó 34.14,15).

2. ATRIBUIÇÕES DA ALMA
A alma é composta de três partes distintas, onde operam os pensamentos, a vontade e as emoções.

2.1. Pensamentos, tribunal da alma

De todos os seres criados, o homem é o único que tem a capacidade de pensar. Diante dessa realidade, surge um questionamento: na área do conhecimento intelectual, qual é a função da mente? Esse questionamento tem resposta na Palavra de Deus e na ação do Espírito Santo. Observe:
  • Davi orava fervorosamente: Examina-me, Senhor, e prova-me, esquadrinha a minha mente e o meu coração(Sl 26.2).
  • Paulo orientou a igreja: Porque quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instrui-lo? Mas nós temos a mente de Cristo (1 Co 2.16). E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente (Rm 12.2a ARA);
  • Tiago em sua epístola, escreveu: Não pensa tal homem que receberá coisa alguma do Senhor; é alguém que tem mente dividida e é instável em tudo o que faz (Tg 1.7,8 NVI).

2.2. Vontade, força dominante da alma

O patriarca Jó menciona dois aspectos importantes ligados ao campo volitivo da alma. Vejamos nos subtópicos seguintes:

2.2.1. A capacidade de a alma recusar

A minha alma recusa tocar em vossas palavras, pois são como a minha comida fastienta (Jó 6.7). Tal premissa é ratificada no comportamento de dois outros personagens bíblicos:
  • Daniel, no exílio babilônico, recusou todo o manjar e vinho (iguarias oferecidas pelo rei), trocando-os por legumes e água (Dn 1.8-12);
  • José, no Egito, recusou a proposta da esposa de Potifar (Gn 39.11-13).

2.2.2. A capacidade de a alma fazer escolhas

(...) Pelo que a minha alma escolheria, antes, a estrangulação, e, antes, a morte do que estes meus ossos (Jó 7.15). Tal premissa é ratificada no comportamento de dois outros personagens bíblicos:
  • Elias desafiou o povo de Israel a escolher servir ao Deus verdadeiro, ou a Baal, o deus falso (1 Rs 18.21);
  • Josué declarou aos seus contemporâneos que ele e toda a sua família escolheram servir ao Senhor (Js 24.15). 
2.3. Emoção, movimento da alma

A alma é capaz de produzir emoções positivas e negativas. Paulo menciona amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, fé, mansidão, temperança (Gl 5.22) - emoções positivas que nos abençoam, bem como a todos com quem lidamos. Por outro lado, o mesmo apóstolo lista emoções negativas que nos podem fazer adoecer: Toda amargura, e ira, e cólera, e gritaria, e blasfêmias, e toda malícia seja tirada de entre vós (Ef 4.31).

3. A PALAVRA DE DEUS E A ALMA

É surpreendente observar, em todo o texto sagrado, a ação sublime da Palavra de Deus - a fonte da verdade - sobre a alma humana (Sl 119). O Palavra de Deus ensina-nos a fazer o que é certo; ilumina o caminho da vida; instrui-nos na justiça perfeita de Deus; livra-nos do pecado; alegra a nossa alma; dá-nos sabedoria; capacita-nos a viver em santidade; disciplina-nos; restaura-nos e habilita-nos para toda boa obra.

3.1. A Palavra de Deus vivifica a alma

Jesus declarou que veio a este mundo trazer vida eterna aos homens mortos (Jo 10.10). Mas, afinal, que tipo de vida recebe o indivíduo que aceita a Palavra de Deus? Vejamos:
  • Plena de liberdade (Jo 8.36);
  • Repleta de alegria (Ne 8.10);
  • Cheia do Espírito (Ef 5.28);
  • Preservada pela paz (Fp 4.7);
  • Transbordante e tranquila (Sl 23.5);
  • Fortalecida pela Graça (2 Tm 2.1);
  • Santificada pela oração (1 Tm 5.17);
  • Vitoriosa pela fé (1 Jo 5.4);
  • Gloriosa pelo amor (Jo 13.34).
3.2. A Palavra de Deus purifica-nos de todo o mal

Após a salvação, a Palavra de Deus inicia um processo de purificação, alcançando o ser humano por completo, até a volta de Jesus Cristo (1 Ts 5.23).
A verdade é:
  • O caminho original da fé (Sl 119.30);
  • Manejada pelo obreiro purificado e fiel (2 Tm 2.15);
  • A essência da adoração que agrada a Deus (Jo 4.24);
  • Geradora da nova criação para o Senhor (Tg 1.18);
  • Libertadora (Jo 17.17);

3.3. A Palavra de Deus produz alegria

Davi deve ser considerado o salmista alegre de Israel. A despeito de tudo quanto sofrera, ele:
  • Clamava com alegria (Sl 5.11);
  • Agradecia, jubiloso, pelos livramentos recebidos (Sl 9.2);
  • Engrandecia ao Senhor, confiante em suas promessas (Sl 16.92.4).

CONCLUSÃO
Para finalizar o estudo desta lição, lembremo-nos de alguns pontos importantes:
  • A morte não cessa a existência da alma; por isso, devemos temer a Deus que pode lançar no inferno a alma juntamente com o corpo (Mt 10.28);
  • A salvação da alma custou o sangue puro do Cordeiro de Deus, o Senhor Jesus.

Cuidemos, pois, com responsabilidade, de nossa alma.

ATIVIDADE PARA FIXAÇÃO

1. De acordo com o que foi exposto nesta lição, responda: Quais teorias procuram responder sobre a origem da alma?

                                                 Fonte: Revista Lições da Palavra de Deus n° 60




                                                   Capítulo 9

A ORIGEM DA ALMA E DO ESPÍRITO DO HOMEM 

9.1 Introdução    A Bíblia afirma que o homem foi criado por Deus, e que Deus soprou o fôlego de vida e o homem passou a ser alma vivente (Gn 2.7). Enquanto isso não há dúvida. Mas quando se trata da afinidade da alma com a raça, surgem várias dúvidas. Muitos afirmam que somos filhos do nosso pai somente enquanto corpo, enquanto outros que somos filhos dos nossos pais enquanto a toda natureza e até outros que afirmam que as almas já existiam antes que tivessem um corpo.  

O objetivo deste capítulo, não é só responder as perguntas, mas sim procurar trazer também uma melhor compreensão sobre tal assunto. Um assunto que na verdade é pouco falado, mas uma vez analisado profundamente tem uma grande luz esclarecedora por traz dele.  

Os recentes debates em torno do uso de embriões na pesquisa trouxe ao cenário contemporâneo uma questão metafísica. O embrião é apenas "algo" ou é "alguém"? Ou dito de outra forma: por detrás do pequenino "algo" que é o embrião esconde-se "alguém"? Nas igrejas cristãs os fiéis perguntam aos pastores e padres: "O embrião tem alma?" Que não é senão outra forma de perguntar se o embrião é "algo" ou "alguém".  

O embrião tem alma? Em que momento a alma começa a existir? Para responder a questão, peço licença para aborrecê-los com um pouco de teologia com cheiro de Idade Média. São três as opiniões que circularam na história do pensamento cristão: A Preexistencialista afirma que as almas preexistem ao seu nascimento. A Criacionista afirma que cada alma é criada diretamente por Deus, em algum tempo antes do nascimento da criança. A Traducionista afirma que o homem transmite aos filhos todo o seu ser, corpo e alma, reproduzindo-se, conforme todos os animais, segundo a sua espécie.  

Para Aurélio Agostinho sempre encontrou dificuldades na questão da origem da alma. Certo está de que a alma não pode emanar de Deus no sentido do panteísmo neoplatônico, pois então seria de algum modo parte de Deus. Também corrige Orígenes, cuja doutrina da preexistência não adaptou suficientemente o platonismo ao pensamento cristão. Antes, a alma deve ser criada. Mas aqui surgem várias dificuldades. Ou as almas provêm da alma de Adão (generacionismo); ou cada alma é criada diretamente na sua individualidade (criacionismo); ou as almas existem em Deus e são infundidas no corpo; ou existem em Deus e se unem voluntariamente ao corpo (doutrina cristã da preexistência). O criacionismo oferece dificuldades à teologia de Agostinho, porque então não se poderia explicar bem a transmissão do pecado original. O generacionismo seria melhor adequado a essa transmissão, mas corre o perigo de cair no materialismo. Mesmo mais tarde ainda Agostinho confessa que não encontra nenhuma clareza nessa explicação (Retr. I, 1, 3). Essas aporias (dificuldades de ordem racional) já existiam em Platão, para quem a alma, de um lado, deve ser algo do corpo, i. é, o princípio da sua vida sensível; mas, de outro, deve ser completamente distinta dele (Hist. Fil. Antigüidade, pág. 107). Elas emergem de novo em Aristóteles e no Peripato (1. c., págs. 189, 259) e se fortalecem com a mais acentuada afirmação da substancialidade da alma, no pensamento cristão.  

Agostinho afirma-se incapaz de solucionar a questão da origem da alma e, embora tão influenciado por Platão, não acha a matéria por si mesma condenável, assim como não encara como castigo a união da alma com o corpo. Não seria este, como se disse tanto, a prisão da alma: o que faz do homem prisioneiro da matéria é o pecado, do qual deve libertar-se pela vida moral, pelas virtudes cristãs. O pecado leva o corpo a dominar a alma; a religião, porém, é o contrário do pecado, é a dominação do corpo pela alma, que se orienta livremente para Deus, assistida pela graça. 

Muitos antropólogos bíblicos têm debatido sobre a origem do espírito e a alma dentro do homem, como já foi dito sabe-se que em Adão Deus soprou sobre suas narinas, mas a partir de Adão como tem acontecido para que o espírito e a alma pudessem estar nele? Se a alma é a personalidade do homem, como ela nasce dentro do corpo humano? O corpo sim é gerado através de uma relação sexual, mas e a parte espiritual do homem, e sua alma, como acontecem sua aparição dentro do corpo humano? E o caso de Eva, o corpo foi feito de uma costela de Adão, mas a alma e o espírito? Deus não soprou em suas narinas também! A resposta para tais perguntas tem surgido muitos debates, e há muitos pensamentos sobre o assunto, mas buscando dar um maior entendimento sobre o assunto, apresentaremos a seguir algumas teorias acerca da origem da alma e espírito dentro do homem.  

9.2 Teoria do Pré-existencialismo

De acordo com esta teoria as almas já tiveram uma existência separada, consciente e pessoal, em um estado prévio; que havendo pecado nesse estado pré-existente, elas são condenadas a nascer nesse mundo em um estado de pecado e em conexão com um corpo material em algum ponto do começo do seu desenvolvimento. Muitos acham que os discípulos de Cristo foram influenciados por essa idéia quando disseram a respeito do homem que havia nascido cego: "Mestre quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?" (João 9.2).

Apesar desta visão preexistencialista ser defendida por alguns filósofos tais como Platão, Sócrates e grandes nomes do cristianismo tais como Orígenes (185-254) e Scotus Erígena (810-877), nunca foi incorporada pela fé cristã. Observemos algumas dessas posições.  

Platão. Platão de Atenas (428/27 a.C. — 347 a.C.) foi um filósofo grego, discípulo de Sócrates, fundador da Academia e mestre de Aristóteles. Acredita-se que seu nome verdadeiro tenha sido Aristócles. Platão era um apelido que, provavelmente, fazia referência à sua característica física, tal como o porte atlético ou os ombros largos, ou ainda a sua ampla capacidade intelectual de tratar de diferentes temas. ...t.. (plátos), em grego significa amplitude, dimensão, largura. Sua filosofia é de grande importância e influência.  

Para Platão o homem era dividido em corpo e alma. O corpo era a matéria e a alma era o imaterial e o divino que o homem possuía. Ao passo que o corpo sempre está em constante mudança de aparência e forma. A alma não muda nunca, a partir do momento em que nascemos temos a alma perfeita, porém não sabemos. As verdades essenciais estão escritas na alma eternamente, porém ao nascermos esquecemos, pois a alma é aprisionada no corpo.  

A alma é divida em 3 partes: 

(a) raciona: região da cabeça; esta tem que controlar as outras duas partes; 

(b) tórax: irascível; parte dos sentimentos; 

(c) abdômen: concupiscível; desejo, mesmo carnal (sexual), ligado ao libido. 

Platão acreditava que a alma depois da morte reencarnava em outro corpo, mas a alma que se ocupava com a filosofia e com o Bem, esta era privilegiada com a morte do corpo. A ela era concedida o privilégio de passar o resto de seus tempos em companhia dos deuses. O conhecimento da alma é que dá sentido à vida. Tudo foi criado pelo Demiurgo (seu criador), um divino artesão que criou o mundo real e sua aparência. A ação do homem se restringe ao mundo material; no mundo das idéias o homem não pode transformar nada. Porque se é perfeito não pode ser mais perfeito como se fosse apenas algo material que nos segue.  

A antropologia filosófica de Platão sugere que o verdadeiro homem é um ser imortal, cujo nome próprio é a alma, que entra na comunhão dos deuses. O homem é uma união do corpo e da alma, sendo o corpo considerado apenas um veículo da alma. A alma é propriamente o homem, sendo o corpo uma sombra. Mas esta união é infeliz, pois o corpo serve como uma prisão para a alma, e ela só atingirá a verdade do que busca quando se desprender do corpo. Platão repete a expressão de Pitágoras que considerava o corpo como o túmulo da alma.  

Segundo o pensamento de Platão, a origem da alma está no Demiurgo (Deus criador do Universo), todas as almas humanas são feitas pelo próprio Demiurgo, o qual criou todas individualmente, as entregou para o seu destino seqüencial, aos “deuses criados”, à terra e aos planetas, para introduzirem a alma na existência, revesti-la de um corpo, nutrir o homem e deixá-lo crescer para depois recebê-lo de novo quando deixar esta vida. Para Platão a alma é uma substância invisível, imaterial, espiritual. Só quando é entregue ao instrumento do tempo é que ela se une ao corpo, e só então nascem as percepções.  

Orígenes. Orígenes, em grego ......., (185 — 253 d.C.) foi um teólogo e prolixo escritor cristão. Nasceu em Alexandria, Egito, e faleceu, segundo alguns dados em Cesaréia, na atual Palestina ou, mais provavelmente, segundo outras fontes, em Tiro.  

Foi segundo J. Quasten, o maior erudito da Igreja antiga - nasceu de uma família cristã egípcia e teve como mestre Clemente de Alexandria. Assumiu, em 203, a direção da escola catequética em Alexandria - que havia sido fundada por um estóico chamado Panteno que se havia convertido à mensagem de Cristo - atraindo muitos jovens estudantes pelo seu carisma, conhecimento e virtudes pessoais. Depois de ter também freqüentado, desde 205, a escola de Amônio Sacas - fundador do neoplatonismo e mestre de Plotino -, apercebeu-se da necessidade do conhecimento apurado dos grandes filósofos. No decurso de uma viagem à Grécia, no ano de 230, foi ordenado sacerdote na Palestina pelos bispos Alexandre de Jerusalém e Teoctisto de Cesaréia. Em 231, Orígenes foi forçado a abandonar Alexandria devido à animosidade que o bispo Demétrio lhe devotava pelo fato de se ter feito eunuco no sentido literal e físico desta palavra. Orígenes, então, passou a morar num lugar onde Jesus havia, muitas vezes, estado: Cesaréia, na Palestina, onde prosseguiu suas atividades com grande sucesso abrindo a chamada Escola de Cesaréia. Na seqüência da onda de perseguição aos cristãos, ordenada por Décio, Orígenes foi preso e torturado, o que lhe causou a morte, por volta de 253.  

Orígenes dedicava-se ao estudo e à discussão da filosofia, em especial Platão e os filósofos estóicos. No seu pensamento, podemos referir a tese da pré-existência da alma e a doutrina da "apocatastase", ou seja, da restauração universal (palingenesia), ambas posteriormente condenadas no Segundo Concílio de Constantinopla, realizado em 553, por serem formalmente contrárias ao núcleo irredutível do ensinamento bíblico -, embora estudiosos modernos e contemporâneos reconheçam inequivocamente que a primeira era mais «atribuída a Orígenes (por outros) do que propriamente defendida por ele.  

Orígenes sustentava que Deus, conforme sua infinita justiça criou iguais todas as almas. A atual disparidade de condições dos seres humanos se deve ao diverso comportamento numa existência anterior.  
Ao contrário do que afirmam certos teosofistas, Orígenes era totalmente contrário à doutrina da metempsicose (renascimento do ser humano em animais). Profundo conhecedor deste conceito a partir da filosofia grega, afirma que a metempsicose (transmigração) “é totalmente alheia à Igreja de Deus, não ensinada pelos Apóstolos e não sustentada pela Escritura” ("Comentário ao Evangelho de Mateus" XIII, 1, 46–53).  

Scotus Erígena também sustenta que o pecado deu entrada no mundo da humanidade no estado pré-temporal, e que, portanto o homem começa a sua carreira na terra como pecador.  

E Júlio Muller recorre à teoria, com o fim de conciliar as doutrinas da universalidade do pecado e da culpa individual. Segundo ele, cada pessoa necessariamente deve ter cometido pecado voluntário naquela existência anterior.  


9.2.1 Objeções ao Pré-existencialismo  

(a) É absolutamente vazia de bases bíblicas e filosóficas e, pelo menos nalgumas de suas formas, baseia-se no dualismo de matéria e espírito como ensinado na filosofia pagã, fazendo da ligação da alma com o corpo uma punição para a alma.    (b) Faz realmente do corpo uma coisa acidental. A alma estava inicialmente sem o corpo, recebendo-o posteriormente. O homem era composto sem o corpo. Isto elimina virtualmente a distinção entre o homem e os anjos.  

(c) Destrói a unidade da raça humana, pois presume que todas as almas individuais existiam muito antes de entrarem na vida presente. Elas constituem uma raça. 

(d) Não acha suporte na consciência de uma tal existência anterior; tampouco sente que o corpo é uma prisão ou um lugar de punição para a alma. De fato; ele teme a separação de corpo e alma como uma coisa antinatural.  

(e) A Bíblia jamais atribui nossa presente condição a alguma causa anterior ao pecado de nosso primeiro pai, Adão (Rm 5.12-21; 1Co 15.22).  

(f) Tal idéia tende a nos fazer encarar a vida presente como transicional ou pouco importante, e nos faz pensar que a vida no corpo é menos desejável, e a criação de filhos, menos importante.  

9.3 Teoria do Criacionismo 

De acordo com esta escola, a alma e o espírito são criados por Deus e agregados ao corpo do minúsculo ser, no momento do ato gerativo, ou ao longo do desenvolvimento fetal ou, ainda, no dia do nascimento. O criacionismo não deve confundir-se com a teoria preexistencialista, a qual preconiza que as almas e os espíritos foram criados antes da geração humana, e ficaram à espera de corpos que lhes fossem preparados para sua agregação. O criacionismo, ao contrário, ensina que Deus cria um espírito para cada corpo, no momento da geração. Entre os adeptos da teoria do criacionismo estão Ambrósio, Jerônimo, Pelágio, Anselmo, Aquino e a maioria dos católicos romanos e luteranos. 
9.3.1 Pontos Favoráveis ao Criacionismo
(a) O relato original da criação indica marcante distinção entre a criação do corpo e da alma. Aquele é tomado da terra, ao passo que esta vem diretamente de Deus. Esta distinção se mantém através de toda a Bíblia, onde o corpo e a alma não somente são apresentados como substâncias diferentes, mas também como tendo origens diferentes (Ec 12.7; Is 42.5). 
(b) É claramente mais coerente com a natureza da alma humana. A natureza imaterial e espiritual, e portanto indivisível, da alma do homem, geralmente admitida por todos os cristãos, é expressamente reconhecida pelo criacionismo.  
(c) Evita perigos latentes na área da cristologia, e faz maior justiça à descrição escriturística da pessoa de Cristo. Ele foi verdadeiro homem, possuindo verdadeira natureza humana, corpo real e alma racional, nasceu de mulher, fez-se semelhante a nós em todos os pontos e, todavia, sem pecado. Diversamente de todos os outros homens, Ele não participou da culpa e corrupção da transgressão de Adão. Isso foi possível porque Ele não compartilhou a mesma  essência numérica que pecou Adão.  
(d) O Salmo 127.3 diz: "Herança do Senhor são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão". Isso indica que não só a alma, mas também toda a pessoa da criança, incluindo seu corpo, é dádiva de Deus.  
(e) Não é possível conceber que a mãe e o pai sejam somente eles responsáveis por todos os aspectos da existência do filho. Disse o salmista: Salmo 139.13 "Tu me teceste no seio de minha mãe".  
(f) Isaías 42.1 O profeta afirma que Deus dá fôlego às pessoas da terra e "espírito aos que andam nela".  
9.3.2 Objeções ao Criacionismo 
(a) O criacionismo não pode explicar o fatos dos filhos se parecerem com os pais nos aspectos intelectuais e espirituais tanto quanto nos físicos.  
(b) As referências que falam de Deus como Criador da alma dão a entender criação imediata. Deus é, com igual clareza, mostrado como o Criador do corpo (por ex. Sl 139.13,14; Jr 1.5), e nem por isso interpretamos isto como se significasse criação imediata, mas sim mediata. 
(c) Não explica a tendência que todos os homens têm de pecar. Ou Deus deve ter criado cada alma em uma condição de pecaminosidade, ou o simples contato da alma com o corpo deve tê-la corrompido. No primeiro caso, Deus é o autor do pecado, e no segundo, o indireto. Tudo isto prova que a teoria da criação é insustentável.   

9.4 Teoria Traducionista

O termo "traduciano" provém do verbo latino traducere ("levar ou trazer por cima", "transportar", "transferir"). Sustenta que a raça humana foi criada imediatamente em Adão, no que diz respeito à alma como também ao corpo, e que ambos são propagados da parte dele para a geração natural. Em outras palavras, Deus outorgou a Adão e Eva os meios pelos quais eles (e todos os seres humanos) teriam descendentes à sua própria imagem, perfazendo, assim, a totalidade da pessoa material e imaterial.  

Essa teoria baseia-se na Bíblia, que parece apresentar este pensamento através de vários de seus textos: Gn 1.28 e 1.22; Gn 2.2 que fala do término da obra criativa de Deus; Gn 2.7 nos fala da origem da alma de Adão, enquanto que os versos 21-23 mencionam a origem da alma de Eva; outros textos são: Gn 46.26; Sl 52.5; Rm 1.3; 1Co 11.8; Hb 7.9,10.  

O Traducionismo se baseia ainda na hereditariedade do pecado de Adão e na hereditariedade de traços mentais, físicos e morais que os filhos têm dos pais. 

Na igreja Primitiva Tertuliano, Rufino, Apolinário e Gregório de Nissa eram traducionistas. Desde os dias de Lutero o traducionismo tem sido o conceito geralmente aceito pela Igreja Luterana. Entre os reformados (calvinistas), tem apoio de H. B. Smith e Shedd. A. H. Strong também tem preferência por ele.    9.4.1 Pontos a Favoráveis do Traducionismo 

(a) Pela descrição bíblica segundo a qual Deus uma única vez soprou nas narinas do homem o fôlego de vida, e depois deixou que o homem reproduzisse a espécie (Gn 1.28; 2:7).  

(b) A criação da alma de Eva estava incluída na de Adão, desde que se diz que ela foi feita "do homem" (1Co 11.8), e nada se diz acerca da criação da sua alma (Gn 2.23). 

(c) Deus cessou a obra de criação depois de haver feito o homem (Gn 2.2).  

(d) As Escrituras afirmam que os descendentes estão nos lombos dos seus pais (Gn 46.56; Hb 7.9,10).  

(e) Tem o apoio da analogia da vida vegetal e animal, em que o aumento numérico é assegurado, não por um número continuamente crescente de criações imediatas, diretas, mas pela derivação natural de novos indivíduos de um tronco paterno (Sl 104.30). 
(f) A teria procura também apoio na herança de peculiaridades mentais e tipos familiais, tantas vezes tão notórios e notáveis como semelhanças físicas, que não podem ser explicados pela educação ou pelo exemplo, desde que se evidenciam mesmo quando seus pais não vivem para criar seus filhos.  

(g) Oferece maior base para explicação da herança da depravação moral e espiritual, que é assunto da alma, e não do corpo. É muito comum combinar o traducionismo com a teoria realista para explicar o pecado original.  

(h) Explica a universalidade do pecado. Entre os anjos, alguns caíram e outros não, porque não havia conexão racial, nem transmissão de natureza pecaminosa, de um para o outro.  

9.4.2 Objeções ao Traducionismo 

(a) Parte do pressuposto de que, depois da criação original, Deus só age mediatamente. Depois dos seis dias da criação a Sua obra criadora cessou. A contínua criação de almas, diz Delitzsch, é incoerente com a relação de Deus com o mundo. Pode-se porém levantar a questão: Que será, então da doutrina  da regeneração, que não é efetuada por causas secundárias. 

(b) Geralmente se alia à teoria do realismo, uma vez que é o único modo pelo qual pode explicar a culpa original. Fazendo isso, afirma a unidade numérica da substância de todas as almas humanas, posição insustentável e também deixa de dar uma resposta satisfatória à questão, por que os homens são responsabilizados somente pelo primeiro pecado de Adão, e não pelos seus pecados subseqüentes, nem pelos pecados dos seus outros antepassados.  

(c) É contrária à doutrina filosófica da simplicidade da alma. A alma é uma substância puramente espiritual que não admite divisão. A reprodução da alma pareceria implicar que a alma do filho se separa de algum modo da alma dos pais. Além disso, levanta-se a questão se ela origina da alma do pai ou da mãe. Ou provém de ambos? Sendo assim, não é um composto?  

(d) A idéia de que Levi estava já no corpo de Abraão (Hb 7.10) deve ser entendida num sentido representativo ou figurado, não literal. Além disso, não se fala nesse caso somente da alma de Levi, mas da pessoa integral, incluindo seu corpo e sua alma, embora seu corpo não estivesse fisicamente presente de modo concreto no corpo de Abraão, pois não haveria naquela época uma combinação distinta de genes que se pudesse atribuir a Levi e a ninguém mais. 

(e) A teoria leva dificuldades no campo da cristologia. Se em Adão a natureza humana pecou globalmente, e esse pecado foi, portanto, o verdadeiro pecado de cada parte dessa natureza humana, não se pode fugir à conclusão de que a natureza humana de Cristo também foi pecadora e culpada, porque teria o pecado de fato em Adão. 
9.5 Considerações finais  

A Bíblia ensina que o homem veio à existência por um ato criativo de Deus, e nesse ato criativo, conforme o relato bíblico, encontramos certas particularidades que fazem com que o homem se diferencie dos outros seres vivo.  

Em Gn 2.7 diz: "Então, formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente", fica evidente que o ser humano é constituído de dois elementos: material e imaterial.  

Na união destes dois elementos o homem passa a ser alma vivente. Essa união deu origem a três grandes teorias que buscam explicar a origem da alma e se tem ou não afinidade com a raça. Ficou claro que a teoria preexistencialista não tem fatos que à apóiem. Enquanto as teorias criacionista e traducionista têm respaldo bíblico. 

De acordo com os pontos favoráveis e as objeções apresentadas, a teoria traducionista merece preferência porque ela melhor se harmoniza com a Escritura, com a teologia e com uma concepção apropriada da natureza humana. Ao mesmo tempo, conforma-se com o teor geral das Escrituras, que dizem ter sido a humanidade criada por Deus em Adão. Faz do homem um todo homogêneo, e livra o Criador Supremo da responsabilidade direta ou indireta, no atual estado moral e espiritual da humanidade.  

E as muitas objeções apresentadas podem ser respondidas como por ex. a participação de Cristo ter tomado à natureza pecaminosa de Maria. A isto replicamos que Sua natureza foi perfeitamente santificada em e por Sua concepção pelo Espírito Santo; ou melhor, a natureza humana que Ele tomou de Maria foi santificada antes dEle tê-la tomado para Si (Lc 1.35; Jo 14.30; Rm 8.3; 2Co 5.21; Hb 4.15; 7.26; 1Pe 1.19; 2.22), foi livrada tanto da condenação quanto da corrupção do pecado. Alegam também que se o primeiro pecado de Adão e Eva foi imputado ao homem devido à chefia natural de nossos primeiros pais. 

E mais o ato criador do corpo e do espírito é atribuído a Deus, indistintamente, sem qualquer diferença. O homem, porém, dotado de protoplasma genético, é o meio instrumental, usado por Deus, para consecução dos seus planos criativos. Sendo assim, Deus cria e o homem, em cumprimento da lei divina da genética, gera filhos e filhas na sua composição biológica integral.  

Em suma segundo a Bíblia, Deus é o Criador da relva, das ervas e das árvores (Gn 1.11), embora criasse primeiro a terra e a mandasse, depois, produzir erva. Assim também Deus é o Criador de cada indivíduo por intermédio dos pais.

                     FONTE : https://www.universalidadedabiblia.com.br/
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  A ALMA
                                                       


      Um dos assuntos mais controvertidos na história da humanidade
é o estudo da existência humana, especialmente, da alma. Durante milênios,
pesquisadores têm discutido a origem e as funções dela. A razão principal
é que o ser humano busca respostas acerca da complexidade da psique.


       Qual é a origem da alma? 
       Quem a criou? Qual a sua importância na composição do homem?
Somos uma alma ou temos uma alma? A alma é o sangue, a mente, o coração?
Alma e espírito significam a mesma coisa? Recebemos a alma do pai, da mãe ou dos dois?
Como nossa alma é originada em nós? A alma está sujeita a ser ferida ou adoecer?
Que significa salvação e perdição da
alma? Ela pode ser considerada imortal ou eterna?


      Pretendemos oferecer as respostas a essas indagações e a outras
pertinentes ao tema por meio da Bíblia. Na revelação do Espírito Santo,
descobriremos as verdades bíblicas sobre a alma, quem a criou e suas funções.

Como o cervo brama 
pelas correntes das 
águas, assim suspira a 
minha alma por ti, ó
Deus! A minha alma 
tem sede de Deus, do
 Deus vivo; quando
 entrarei e me
apresentarei ante a face
 de Deus?
Salmo 42.1,2

A ALMA DO SER HUMANO


      A alma (hb. nephesh; gr. psyche), frequentemente traduzida como
“vida”, pode ser definida como os aspectos
imateriais da mente, das emoções e da vontade, resultantes da união entre
o espírito e o corpo. Juntamente ao espírito humano, ela continuará a existir após a
morte física. Além disso, ela está ligada à natureza imaterial do homem.


       Às vezes, o termo alma é usado como sinônimo de pessoa (Lv 4.2; 7.20; Js 20.3).
Ela é um princípio espiritual, tido como imortal e, portanto, separável do corpo material.
Também abriga o conjunto das faculdades intelectuais e morais que caracterizam o
ser humano. Por meio do espírito, põe-nos em contato com Deus e, por meio do corpo,
põe-nos em contato com o mundo. Assim, ela faz o homem ter consciência de si mesmo.


       Para a maioria dos escatólogos cristãos e teólogos fundamentalistas,
a alma é o princípio inteligente e vivificante que anima o corpo humano,
usando os sentidos físicos como agentes na exploração das coisas materiais e
os órgãos do corpo para expressar-se e comunicar-se com o mundo exterior.
Ela é uma entidade espiritual, incorpórea, que pode existir dentro do corpo ou fora dele.
Junto ao espírito, forma o homem interior, a parte imaterial de todo ser.


TEORIAS SOBRE A ORIGEM DA ALMA


      Entre os conceitos e as teorias existentes que tentam explicar a origem da alma,
examinaremos a teoria preexistencialista, a teoria traducianista e a teoria criacionista.


Teoria preexistencialista



      De acordo com essa teoria, as almas já tiveram uma existência separada,
consciente e pessoal, em um estado prévio. Havendo pecado nesse estado preexistente,
elas são condenadas a nascer neste mundo, em um estado de pecado e em
conexão com um corpo material, em algum ponto do começo do seu desenvolvimento.
Muitos acham que os discípulos de Cristo foram influenciados por essa ideia quando
disseram a respeito do homem que havia nascido cego: Rabi, quem pecou,
este ou seus pais, para que nascesse cego? (Jo 9.2).


      Apesar de essa visão preexistencialista ser defendida pelos filósofos Platão e
Sócrates e por grandes nomes do cristianismo, como Orígenes e João Escoto Erígena,
ela nunca foi incorporada pela fé cristã. Entretanto, alguns teólogos afirmam que as almas
têm uma existência anterior à sua união ao corpo. Para eles, a pecaminosidade da alma
só existe pelo fato de ela unir-se ao corpo, já que este é o elemento mal que a contamina.


       Essa teoria, portanto, não tem base bíblica para ser aceita. Segundo Wayne Grudem,
mestre em teologia sistemática, “para um selecionado grupo de teólogos, essa teoria
(preexistencialismo) se aproxima perigosamente das ideias de reencarnação
encontradas nas religiões orientais”.


Teoria traducianista


     O traducianismo afirma que as almas dos homens são reproduzidas junto aos seus
corpos pela geração natural e, portanto, são transmitidas pelos pais aos filhos, ou, ainda,
que os filhos recebem a alma dos pais no momento de sua geração.


      O traducianismo ou generacionismo corporal admite que a alma de cada genitor
pode emitir uma semente vital, e a respectiva fecundação daria origem à alma da prole.
Tal teoria é falha por atribuir à alma
espiritual sementes vitais corpóreas, das quais se originaria outra alma espiritual.


        Dessa forma, espírito e corpo são realidades radicalmente diferentes, de modo
que não há transição de um para outro. O espírito é precisamente o ser incorpóreo,
inextenso e imaterial, dotado de inteligência e vontade.


      O traducianismo ou generacionismo espiritual afirma que, por ocasião da fecundação,
a alma da prole se deriva das almas dos genitores como a chama se deriva da chama,
sem semente corpórea. Tal afirmação também é falha, pois supõe que a alma humana
se possa repartir, o que contradiz a natureza espiritual da alma, pois o espírito não tem
extensão nem partes.


Teoria criacionista


       Essa corrente teológica afirma que cada alma é criada pelo ato
direto de Deus. No momento da concepção, o Senhor a cria e a faz ligar-se ao corpo.
De todas as teorias conhecidas, o criacionismo tem a maior sustentação
bíblica (Is 42.5; 57.16; Ec 12.7; Zc 12.1; Hb 12.9). Os criacionistas argumentam
que as origens do corpo e da alma são distintas e que essa teoria preserva a simplicidade
e a indivisibilidade da alma.


      De acordo com Wayne Grudem, o criacionismo é a concepção de que Deus cria uma
nova alma para cada pessoa e a envia ao corpo desta, em algum momento entre a
concepção e o nascimento. Os argumentos bíblicos a favor do criacionismo parecem
abordar a questão mais diretamente e oferecem uma sustentação bastante forte
a favor dessa tese (Sl 127.3).


       Algumas escrituras fortalecem a tese do criacionismo como a mais aceita e confiável
pelos antropologistas bíblicos. Parece difícil desprezar o testemunho bíblico a favor de que
Deus cria ativamente cada alma humana, assim como Ele se mostra ativo em todos os
eventos da Sua criação. O próprio Criador, na Sua infalível Palavra, declara que o homem
foi criado de forma imediata (direta) em oposição à gradual (evolução teísta).


A CRIAÇÃO DA ALMA


      A palavra alma é mencionada pela primeira vez na Bíblia nos dois primeiros
capítulos do livro de Gênesis, no processo da criação do homem. Ela é um termo
equivalente ao hebraico nephesh e ao grego psyche, que significam “ser”, “vida”
ou “criatura”, e aparece na Bíblia aproximadamente 1.600 vezes. A alma é a personalidade
de cada indivíduo. Todos vivem mais nela do que no espírito e no corpo. Por meio dela,
toda pessoa sente (sentimentos), quer (desejos) e pensa (intelecto).


      À medida que nosso intelecto raciocina, sentimos emoção e fazemos o que temos
vontade. Assim, a vontade é o resultado do que a mente propõe. Ela manifesta o que
se passa no intelecto e nas emoções. Logo, a alma é o centro das nossas atitudes,
certas ou não.


REFLEXÕES SOBRE A ALMA


      A alma é o centro de comunicação com nossos semelhantes, para amizade
ou inimizade. Quando vamos a um lugar tranquilo, sentimos alegria e paz.
Caso estejamos em um local de conflito, sentiremos perturbação.
Na alma, também reside o nosso livre-arbítrio, e, por meio dos nossos cinco sentidos,
levamos informações para ela.
Como somos o resultado do que vemos e ouvimos, devemos selecionar o que ver e
ouvir para que a manifestação seja em padrão correto. O corpo tem ações físicas,
mas a alma se expressa mediante do corpo. Por exemplo, quando estamos alegres ou
tristes, as pessoas rapidamente notam nosso estado emocional apenas pelo nosso rosto.


      Portanto, nosso corpo reflete a nossa alma, que se preocupa
com o mundo natural. Recebendo informações por meio do corpo, ela reage no
mundo natural; já o espírito age e reage nas coisas espirituais.


SIGNIFICADOS DA ALMA


       Nas Sagradas Escrituras, a alma aparece de forma literal e, várias vezes,
em sentido figurado. O emprego do método textual de estudo bíblico nos
ajudará a ter uma compreensão relevante deste assunto.

Como pessoa

      O texto em Êxodo 1.5 diz que todas as almas que descenderam de Jacó foram setenta.
Nesse relato, a alma aparece como pessoa ou indivíduo, semelhante à interpretação
de Gênesis 46.26,27; 14.21; Êxodo 16.16; Números 31.35; Provérbios 11.25,30;
Ezequiel 13.18; Atos 2.41; e Apocalipse 20.4.


Como sangue


       O teólogo Elienai Cabral comenta sobre a alma, significando sangue:


        O sangue representa a vida física, sem o qual não há possibilidade de o homem
viver (Dt 12.23; Lv 17.14). É a fonte da vida física; isso equivale tanto para o homem
como para o animal (Gn 4.10; Lm 2.12; Jó 24.12; Hb 12.2). O organismo humano tem
no sangue a matéria original.
Usa-se o coração como meio de vida. Todas as partes do corpo são alimentadas pela alma.
O sangue, por isso, tem um significado importante na vida humana e é tratado,
às vezes, como alma. No Antigo Testamento, o sangue nada tem a ver com a alma racional,
ou a vida intelectual, nem tampouco com a emocional. Normalmente, o sangue é
considerado como a sede da vida física (Pv 1.18). Portanto, o sangue é alma no
sentido mais simples — a vida do homem (Sl 72.15). A Bíblia usa a figura de linguagem
chamada prosopopeia, que dá voz, ação ou movimento às coisas inanimadas (sem vida).
Temos um exemplo muito claro em Gn 4.10: “A voz do sangue de teu irmão clama da
terra a mim”. Isto quer dizer que a força do sangue de Abel, o assassinado, bradava
por vingança. O sangue estava a pedir conta pela vida extirpada. Cobrar ou vingar o
sangue de alguém é dar conta da vida cobrada (Gn 42.22).


Como coração


      O termo coração é mencionado na Bíblia centenas de vezes. Podemos atribuí-lo
como sinônimo de alma? Observe a definição da palavra na Concordância de Strong,
nos idiomas hebraico e grego:


No hebraico o termo é leb significando coração, intelecto, atenção, mente, ser interior,
sentimentos internos, pensamentos mais profundos, ego. O conceito hebraico de
“coração” abrange o órgão físico (2 Rs 9.24) e também os anseios internos da pessoa
(Sl 37.4). Talvez a ocorrência mais nobre de ‘leb esteja em Dt 6.5, em que
a Israel é ordenado amar o Senhor de todo o teu coração.


O vocábulo grego para coração é kardia, que significa “estremecer” ou “palpitar”
(compare com “cardíaco”). O coração humano é o lugar onde habita o Senhor e o
Espírito Santo. Na maioria das vezes, a palavra coração, no texto bíblico, refere-se
à alma (veja 1 Rs 3.9; Sl 14.1; 73.26; 105.3; Pv 4.23;23.7;Jr 17,9 ; Lc 2.51; Rm 2.15;
Hb 10.22; 1Jo 3.19-21).

ATRIBUTOS DA ALMA


    Temos aprendido que o homem é um ser tridimensional formado de corpo, alma e espírito.
Essas três unidades distintas operam influenciando-o na forma de pensar, nas emoções
e na qualidade dos desejos.


      O homem espiritual tem sua alma influenciada pelo espírito, em um processo de
renovação permanente. Quando a alma se submete ao governo espiritual, ela entende
que só se tornou alma vivente por causa da ação direta e exclusiva de Deus (Gn 2.7).


O atributo do intelecto


       O intelecto é parte essencial da mente humana. Fisicamente, encontra-se na cabeça,
a parte superior do corpo de onde procedem os pensamentos, as decisões e o comando
dos outros membros. A palavra intelecto vem do latim e significa “ler por dentro”.
Ele é um ato exercitado por meio da inteligência. Aquele que faz uso dele se denomina
inteligente.


Padrão divino 
recomendado pela Bíblia
Controlemos nossa imaginação nos padrões bíblicos (Gn 6.5) 
Meditemos dia e noite na
 Palavra de Deus (Js 1.8)
Lavemos a mente todos os pensamentos maus (Jr 4.14)
Rejeitemos toda vaidade dos pensamentos (Ef 4.17)
Resistamos, com o escudo da fé, às ações da mente carnal (Cl 2.18)
Rendamos a mente ao governo do Espírito (Rm 8.6)
Tomemos posse da mente de Cristo (1 Co 2.16) 
Conservemos a alma pura das mentes contaminadas (Tt 1.15)

O atributo da emoção


       Os sentimentos do ser humano estão na alma. Sua vida emocional constitui-se
nos múltiplos sentimentos que ele tem. A emoção, em geral, é despertada por estímulos
externos. Em sua maior parte, é instável. Ela começa na alma e, em seguida, repercute
no espírito e no corpo, com manifestações benéficas ou prejudiciais, dependendo da
natureza dos sentimentos.
Durante a jornada da vida, temos sentimentos que vão da tristeza à alegria (Jr 31.25).
Um dos mais desejados é a felicidade. Esta é um estado durável de plenitude,
satisfação e equilíbrios físico e psíquico, em que o sofrimento e a inquietude
são transformados em emoções ou sentimentos, que vão desde o contentamento
até a alegria intensa ou júbilo. Para as emoções associadas a ela, os filósofos
preferem utilizar a palavra prazer.


O atributo da vontade

A vontade faz parte da alma e tem o poder de representar mentalmente um ato levado
por motivos ditados pela razão. É a capacidade de querer, de livremente praticar ou
não alguma ação. Vontade é a necessidade física ou emocional que o indivíduo sente
de fazer algo. E o fruto do desejo da tua alma foi-se de ti, e todas as coisas gostosas
e excelentes se foram de ti, e não mais as acharás (Ap 18.14).


Entendendo a vontade de Deus


       Os crentes em Éfeso foram instruídos pelo apóstolo Paulo a render a sua vontade
à de Deus (Ef 5.17). Essa doutrina foi ministrada aos cristãos em Roma nos mesmos
princípios (Rm 12.2). Nessas duas igrejas, a comunidade cristã batalhava fortemente
contra o mundanismo maligno que predominava na adoração a deuses pagãos.


     Permanecendo na vontade de Deus

   

       Para que permaneçamos na vontade de Deus, devemos estudar a Bíblia (Js 1.8),
abster-nos de todo tipo de pecado se xual (1 Ts 4.3), fazer a vontade de Deus com alegria
(Sl 40.8), permanecer no centro da Sua vontade (Lc 22.41,42), dar graças ao
Senhor (1 Ts 5.18) e praticar o bem (1 Pe 2.15).

COMO LIDAR COM AS EMOÇÕES NEGATIVAS?
       Do ponto de vista médico, emoções são formas de energia que não se pode recalcar
por muito tempo. Elas precisam ser expressas pela fala. Quando as emoções não
são expostas, manifestam-se por meio de adoecimentos. Tais patologias podem ser
de origem emocional/psicológica (depressão, ansiedade etc.) ou aparecer em forma
de doenças. William Motsloy advertiu: “Quando o sofrimento não pode expressar-se
pelo pranto, ele faz chorarem os outros órgãos”.
       À luz da Bíblia, um dos primeiros passos para vencermos os sentimentos
negativos é descobrir quem somos. Hoje, há uma crise de identidade
dominando milhões de vidas preciosas. Somos confrontados com as
questões essenciais da existência humana diariamente.
Buscamos respostas acerca de nós mesmos e vivemos uma
crise existencial, sem saber qual é o propósito da nossa existência.
Por mais que algumas pessoas ignorem tais questões, elas jamais se livrarão delas.
INSTINTOS DA ALMA


        O instinto é uma reação espontânea manifestada dentro dos padrões do
comportamento animal. É caracterizado como um impulso interior, que faz o ser
vivo agir de maneira inconsciente, provocando atos adequados que visem à sobrevivência
própria, da espécie ou da sua prole. O impulso espontâneo independente de reflexão.

Já o impulso natural é o instinto de conservação. É o primeiro movimento que dirige
o homem e os animais em seu procedimento. Deus capacitou o ser humano,
com instintos em sua alma, para preservação da sua existência terrena.



Compreendendo 
os instintos humanos
Autopreservação: capacita o ser humano a cuidar de si mesmo, de forma automática, sem o uso do raciocínio.
Aquisição: conduz o homem à aquisição de provisões para sua sobrevivência.
Fome e sede: impulsionam o ser humano a buscar alimentos para sua satisfação física.
Reprodução: obedece às leis da multiplicação da espécie humana.
Domínio: direciona o homem ao exercício da iniciativa própria, no sentido de desenvolver a vocação natural.

MENTE: A PARTE MAIS IMPORTANTE DA ALMA


          Quem vive segundo a 

carne tem a mente 
voltada para o que a 
carne deseja; mas quem, 
de acordo com o 
Espírito, tem a mente 
voltada para o que o 
Espírito deseja. A 
mentalidade da carne é
 morte, mas a 
mentalidade do Espírito 

é vida e paz; a 
mentalidade da carne é
 inimiga de Deus porque 
não se submete à lei de
Deus, nem pode fazê-lo.
Romanos 8.5-7 NVI

      Na dimensão da alma, seu componente de maior importância é a mente.

Nela estão armazenadas todas as memórias registradas durante a vida.
Ela é o lugar estratégico das decisões da alma. Após captar as imagens por
meio dos olhos, os pensamentos são formados e, em seguida, selecionados pela
vontade para execução mediante o corpo.



Faculdades da mente
Memória: capacita o ser humano a guardar, em seu cérebro, os fatos passados e presentes, retém os conhecimentos adquiridos e os traz à lembrança.
Inteligência: faz o homem conhecer, compreender, raciocinar, pensar e interpretar. A inteligência é uma das principais distinções entre o ser humano e os outros animais.
Consciência: torna o homem capaz de julgar os próprios atos entre o que é certo ou errado do ponto de vista moral. Ela é a voz secreta da alma.
Imaginação: processo do pensamento que habilita o ser humano a construir imagens por meio do raciocínio.
Razão: leva o homem a pensar, a julgar e a compreender as relações entre as coisas, bem como a distinguir entre o verdadeiro e o falso, o bem e o mal.

PROTEJA SUA MENTE
        A mente precisa estar protegida durante todo o tempo. O adágio popular “não perca
a cabeça”, em sua essência, ensina-nos duas verdades fundamentais: primeira,
não podemos perder a cabeça nos sentidos psicológico, emocional e espiritual;
segunda, no aspecto biológico, ao perdermos a cabeça, o corpo perde a estabilidade,
fica sem comando, direção e firmeza. Diante disso, cabe-nos entender que as medidas
protetivas estão disponíveis na Palavra de Deus.

Faça uma limpeza profunda 
       Comece a limpeza a partir de tudo que é nocivo (Is 1.16,18).
Não fique divagando se deve ou não tirar da sua mente coisas que
você sabe que o estão prejudicando, mesmo que lhe tragam emoções “agradáveis”.
Estude a vida de Daniel para entender quando ele decidiu não participar dos alimentos
e do vinho servidos na mesa do rei da Babilônia. Ele e seus companheiros serviam ao Deus
verdadeiro e poderiam ser contaminados ao ingerir alimentos caracterizados como
imundos na lei dada aos filhos de Israel. O perigo da contaminação era real (Dn 1.8,9).
Utilize o sangue do Cordeiro de Deus para purificar todo o seu ser (1 Jo 1.7). Tudo
o que desagrada Deus debilita a alma e precisa ser removido, antes que ocorra algo
irreparável ou a própria morte. Unicamente o sangue do Senhor Jesus tem poder para
a limpeza total da mente humana. Quando você permitir que Cristo limpe sua mente,
outras ações incomuns acontecerão em seu corpo, na sua alma e no seu espírito (Hb 9.14).

Construa uma blindagem bíblica na mente

       A mente humana é o alvo preferido do inimigo, que usa, em todo o tempo,
seus artifícios para atacá-la. Somente Deus pode levantar uma cerca protetora,
na mente humana, para neutralizar as setas malignas que possam ser disparadas contra
você. E nada pode derrubar a proteção do Senhor em sua mente (Sl 91.10).




Passos importantes para 
a blindagem da mente

Leia todos os dias a Palavra de Deus em voz alta (Jo 5.39)
Medite nas verdades bíblicas, pedindo ao Espírito Santo a aplicação delas em sua vida (Js 1.8)
Afixe textos bíblicos em casa, no trabalho ou onde você possa ver e ler em voz alta (Dt 6.9)
Memorize textos bíblicos o máximo que puder (Sl 23.1-5)
Abra as Escrituras para todos, em todas as oportunidades (Lc 24.25-32)
Alimente sua alma com a Palavra de Deus (Mt 4.4) Permita que a luz divina brilhe na sua jornada (Sl 119.105)
Vença todas as tentações com a Palavra (Lc 4.1-13)
Manuseie com autoridade a espada do Espírito (Ef 6.17)
Guarde no coração (alma) a Palavra que derrota o pecado (Sl 119.11)
Coloque o capacete da salvação

A cabeça é o único órgão do corpo humano totalmente encapsulado no osso. Isso,
por decreto da natureza, afirma a importância de proteger um componente de
funcionamento vital do nosso corpo, o cérebro. O capacete é um objeto que serve
para proteger a cabeça de impactos externos, pois a gravidade do acidente pode
produzir vítimas mortais, mesmo com a utilização dele. Por esse motivo, sua função
é muito importante.
Como a mente é o alvo preferido do inimigo, caso seja conquistada, as emoções
também serão. A partir daí, o corpo e o espírito se tornarão fracos e não terão alternativas,
senão render-se à supremacia da mente conquistada pelo adversário.

Atitudes para receber o 
capacete da salvação
Receba o Senhor Jesus, crendo em Seu nome poderoso (Jo 1.12) Invoque o Senhor com toda a força da sua alma (At 2.21)
Confesse que você é um pecador e que Jesus é o seu Salvador (Rm 10.9)
Abra a porta do seu coração para Deus morar nele (Ap 3.20)
      Estar equipado com o capacete da salvação significa receber a salvação da alma.
Com ele, o indivíduo tem plena certeza de que sua alma está salva, uma vez que a
salvação proporciona à consciência a paz permanente: E a paz de Deus, que excede
todo o entendimento, guardará os seus corações e as suas mentes em Cristo Jesus
(Fp 4.7 NVI).

RENOVE A SUA MENTE

       Um dos passos mais importantes para proteção da alma é a renovação da mente
(Rm 12.2). A mente acompanha o ser humano nesta vida e o acompanhará na eternidade
(Lc 16.19-31; Ap 6.9-11). Como todos passam por momentos específicos, a renovação é
um processo necessário para cada ser humano. Quando a pessoa vive a experiência
da salvação ao aceitar o Senhor Jesus, ela não recebe um corpo; ela torna-se uma
nova criatura em Cristo, com a mesma alma e o mesmo espírito vivendo o ciclo da
renovação.

Renove a fé
      Não permita que pensamentos errados invadam sua mente e passem a governá-la,
pois a qualidade dos pensamentos produzirá um viver com excelência.
Para isso, renove a sua fé no Filho de Deus, para que Ele o ajude (Gl 2.20).
Além disso, não rejeite as provas da fé que ocorrerem na sua vida. Saiba que,
ao passar pelo teste, sua fé será aprimorada e fortalecida (Tg 1.3).


      Também procure ouvir a Palavra de Deus com os ouvidos do corpo e da alma
(Rm 10.17), confiar no Senhor para sua fé ser renovada e justificada (4.5),
crer em Deus por meio da fé, para obter o galardão (Hb 11.6), e transformar derrotas
em vitórias, medo em coragem, e dúvidas em certezas, para renovar todo o seu viver
(Mt 21.21).

Renove a vigilância

        Assim como o lutador permanece todo o tempo concentrado na vitória,
precisamos estar vigilantes e rejeitar todo pensamento negativo que pode prejudicar-nos.
Para que isso ocorra, devemos evitar a preocupação excessiva com o futuro,
a autoavaliação negativa, o compromisso com responsabilidades alheias, a tentativa
de agradar sempre as pessoas etc.

TENHA A MENTE DE CRISTO

       Esse segmento deveria ser o primeiro para a proteção da mente e salvação da alma,
já que elas precisam pertencem ao Senhor. Como você é ramo original ligado à videira
verdadeira (Jo 15.1-7), e essa ligação lhe permite ter a mente de Cristo (1 Co 2.16).
       Perdoar pecados, curar doentes, libertar almas oprimidas, censurar a hipocrisia,
jantar na casa de um leproso, abraçar carinhosamente as crianças, consolar famílias
destroçadas pela ação da morte, comer e beber com pecadores, nunca rejeitar
o sofrimento consciente de que morreria crucificado, ir ao encontro das pessoas
onde estivessem — oferecendo-lhes um novo sentido de vida e a garantia da felicidade
eterna no Reino de Deus — foram atitudes que Jesus sempre honrou, cumprindo
integramente a vontade divina.
Mente ungida
        Os reis, os sacerdotes e os profetas do Antigo Testamento eram ungidos para o
exercício da missão designada pelo Senhor. A unção real, a sacerdotal e a profética
eram sobre a cabeça (2 Rs 9.3; Lv 8.12; 1 Rs 19.16). O profeta Isaías profetizou, e,
após quase 800 anos, a profecia cumpriu-se literalmente em um sábado, na sinagoga
dos judeus na cidade de Nazaré (Is 61.1-3; Lc 4.16-21).
       A unção de Deus, diferentemente de todas as outras sobre reis, sacerdote
e profetas, tocou a mente do Senhor, tornando-a apta para realizar a obra de cura,
libertação, resgate e salvação do ser humano (At 10.38). Logo, a unção na mente
confere autoridade, poder e discernimento. É a se mente que faz o coração transbordar
de alegria, paz e esperança (Sl 23.6).
Ela patrocina, promove e contempla a união dos filhos de Deus (133.1-3).
Mente pura


        O Senhor Jesus nunca pensava mal das pessoas, não as discriminava,
nem as rejeitava, tampouco as afastava da Sua presença. Ao olhá-las, Ele focalizava
sempre o melhor que cada uma possuía. Ao lidar com elas, Sua mente projetava um
novo começo para aquelas vidas dilaceradas pelo pecado (Jo 8.2-11).

        O exemplo do Senhor Jesus deve ser seguido por todos os que desejam proteger
a sua mente. A despeito de qualquer situação vivida, pense o melhor sobre as pessoas.
Faça da sua mente uma fonte geradora de pensamentos puros. Assim, você a protegerá
de pensamentos negativos e abençoará poderosamente a vida das pessoas com quem
interagir (Fp 4.8)
Agradar o Pai

        O viver do Senhor Jesus durante Seu ministério terreno foi assinalado por agradar
o Pai que o enviou para realizar a maior obra de salvação. Quando as multidões intentavam
glorificá-lo diante dos milagres que realizava publicamente, Ele declarava: Não crês
tu que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não
as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras (Jo 14.10).
       Jesus nunca abriu mão de agradar o Pai a qualquer preço. Até mesmo no sofrimento
imerecido em Sua morte, Ele agiu como o disse o profeta Isaías: Todavia, ao SENHOR
agradou o moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do
pecado, verá a sua posteridade, prolongará os dias, e o bom prazer do SENHOR
prosperará na sua mão (Is 53.10).
       Seguindo os passos do Senhor Jesus, quem deseja manter a mente protegida
deve rejeitar qualquer glória pessoal. O poder, o prestígio e as posses têm dominado
muitas mentes e as escravizado. Portanto, façamos o que Jesus fez: Eu não posso
de mim mesmo fazer coisa alguma; como ouço, assim julgo, e o meu juízo é justo,
porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai, que me enviou (Jo 5.30).


TRECHO DO LIVRO CORPO ALMA E ESPÍRITO
                                                                                              JOÁ CAITANO


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CAPÍTULO SET E

A Criação do Universo e
da Humanidade
Timothy Munyon

Tendo passado em revista várias opiniões a respeito do ser humano e observado possíveis erros dentro de cada posição, estamos prontos a formular uma síntese. Os escritores sagrados, segundo parece, empregam os termos de várias maneiras. "Alma" e "espírito" às vezes parecem sinônimos, ao passo que em outras ocasiões se apresentam distintos. Vários termos bíblicos, na realidade, parecem descrever a totalidade da pessoa humana, ou do próprio-eu, inclusive "homem", "carne"', "corpo" e "alma", bem como o substantivo composto "carne e sangue". O Antigo Testamento, talvez mais obviamente que o Novo, vê a pessoa individual como um ser unificado. Os seres humanos são humanos por causa de tudo quanto são. Fazem parte do mundo espiritual e podem relacionar-se com a realidade espiritual. São criaturas com emoções, vontade e moral. Fazem parte do mundo físico e podem, portanto, ser identificados como "carne e sangue" (Gl 1.16; Ef 6.12; Hb 2.14). O corpo físico, criado por Deus, não é inerentemente mau (era o que os gnósticos argumentavam, e parece que alguns cristãos assim acreditam hoje).
O ensino bíblico a respeito da natureza pecaminosa do ser humano caído é que todo ele está afetado, não apenas uma parte. 92 Além disso, os seres humanos - conforme os conhecemos e a Bíblia identifica - não podem herdar o Reino de Deus (1 Co 15.50). Em primeiro lugar, é necessária uma mudança essencial. Acrescente-se que, quando o componente imaterial do ser humano parte, por ocasião da morte, nenhum dos dois elementos em separado pode ser descrito como um ser humano. O que permanece na terra é um cadáver, e o que partiu a estar com Cristo, um ser desencarnado, imaterial, ou espírito (que tem existência consciente pessoal, mas não "plenamente humana"). Na ressurreição do corpo, o espírito será reunido com um corpo ressurreto, transformado e imortal (1 Ts 4.13-17), e, mesmo assim, nunca mais será considerado humano, na concepção atual (1 Co 15.50).
Considerar o ser humano uma unidade condicional resulta em várias implicações.
Primeira: o que afeta um elemento do ser humano afeta a pessoa inteira. A Bíblia vê a
pessoa como um ser global, "e o que toca numa parte afeta a totalidade". Em outras palavras, uma pessoa portadora de doença crônica (no corpo) por certo terá afetadas as emoções e a mente e até o canal da comunhão normal com Deus. Erickson observa: "O cristão que deseja ter saúde espiritual dedicará atenção a questões tais como a dieta, o repouso e o exercício".93 De modo semelhante, a pessoa que sofre certas pressões mentais poderá manifestar sintomas físicos ou até mesmo doenças físicas. Segunda: os conceitos bíblicos de salvação e santificação não devem ser considerados como a redução do corpo mau à escravidão do espírito bom. Quando os escritores do Novo Testamento mencionam a "carne" num sentido negativo (Rm 7.18; 8.4; 2 Co 10.2,3; 2 Pe 2.10), falam da natureza pecaminosa, e não especificamente do corpo físico. No processo da santificação, o Espírito Santo renova a pessoa inteira. De fato, somos inteiramente uma "nova criatura" em Cristo Jesus (2 Co 5.17).
A ORIGEM DA ALMA
Ninguém no campo da medicina ou da biologia discute a origem do corpo físico do ser humano. Na concepção, quando o espermatozóide se une ao óvulo, a molécula de DNA deste desenrola-se e une-se à daquele, formando uma célula inteiramente nova (zigoto). Essa nova célula viva é tão diferente que, depois de se afixar à parede uterina, o corpo da mãe reage, enviando anticorpos para eliminar o intruso não reconhecido. Somente alguns aspectos especiais e inatos do novo organismo o guardam da destruição. 94 Por isso é incorreta a expressão "meu corpo", empregada pelas defensoras do aborto quando falam do embrião ou do feto - em qualquer estágio. O organismo desenvolvido no útero da mãe é, na realidade, um corpo individual, diferente. A partir da concepção, esse corpo distinto produzirá mais células, e todas elas manterão o padrão único dos cromossomos do zigoto original. Está claro, portanto, que o corpo humano tem sua origem no ato da concepção.
A origem da alma é mais difícil de ser determinada. Visando os propósitos do estudo que se segue, definiremos "alma" como a totalidade da natureza imaterial do
ser humano (que abrange os termos bíblicos "coração", "rins", "entranhas",
"mente", "alma", "espírito" etc). As teorias da origem da alma que buscam
bases na Bíblia95 são três: a preexistência, o criacionismo (Deus cria diretamente cada alma)
e o traducianismo (cada alma é derivada da alma dos pais).
A teoria da preexistência. Segundo esta teoria, uma alma criada por Deus em tempos passados entra no corpo humano em algum momento do desenvolvimento inicial do feto. Mais especificamente, a alma de cada pessoa tinha existência consciente e pessoal num estado prévio. Essas almas pecam, em vários graus, nesse estado preexistente, e por isso são condenadas a "nascer neste mundo num estado de pecado e em conexão com um corpo material". O proponente cristão mais importante desse ponto de vista foi Orígenes, o teólogo de Alexandria (c. de 185 - c. de 254). Ele sustentava que o estado presente da existência que observamos agora (o indivíduo alma/corpo) é apenas uma etapa na existência da alma humana. Hodge aprimora o conceito de Orígenes: "Tem passado por inúmeras outras épocas e formas de existências anteriores, e ainda há de passar por incontáveis épocas semelhantes no futuro". 96
Devido às suas dificuldades insuperáveis, a teoria da preexistência nunca conquistou muitos adeptos. (1) Baseia-se na noção pagã de que o corpo é inerentemente mau e, portanto, uma forma de castigo para a alma. (2) A Bíblia nunca menciona a criação de seres humanos anteriores a Adão ou qualquer apostasia da humanidade antes da queda, em Gênesis 3. (3) A Bíblia jamais atribui nossa presente condição a alguma causa anterior ao pecado de nosso primeiro pai, Adão (Rm 5.12-21; 1 Co 15.22).
A teoria do criacionismo. De acordo com esta teoria, "cada alma individual deve ser considerada uma criação imediata de Deus, que deve sua origem á um ato criador
direto".97 A cronologia exata da criação da alma e de sua união com o corpo não é assunto levantado nas Escrituras (por essa razão, as análises dos proponentes e antagonistas dessa teoria são um pouco vagas). Entre os adeptos da teoria do criacionismo estão Ambrósio, Jerônimo, Pelágio, Anselmo, Aquino e a maioria dos teólogos católicos romanos e reformados. As evidências bíblicas usadas para reforçá-la são os textos que atribuem a Deus a criação da "alma" e do "espírito" (Nm 16.22; Ec 12.7; Is 57.16; Zc 12.1; Hb 12.9).
Alguns dos que a rejeitam argumentam que as Escrituras também asseveram que Deus criou o corpo (SI 139.13,14; Jr 1.5). "Não hesitamos, porém, em interpretar esses últimos textos como expressões da criação mediata, e não imediata", diz Augustus Strong. 98 Além disso, a teoria do criacionismo não leva em conta a tendência inerente das pessoas ao pecado.
O traducianismo. Strong cita Tertuliano, o teólogo africano (c. de 160 - c. de 230), Gregório de Nyssa (330 - c. de 395) e Agostinho (354-430), que comentaram
favoravelmente o traducianismo,99 embora nenhum deles forneça uma explicação integral. Mais recentemente, os reformadores luteranos, de modo geral, aceitavam o traducianismo. O termo "traduciano" provém do verbo latino traducere ("levar ou trazer por cima", "transportar", "transferir"). Sustenta que "a raça humana foi criada imediatamente em Adão, no que diz respeito à alma como também ao corpo, e que ambos são propagados da parte dele para a geração natural".100 Em outras palavras,
Deus outorgou a Adão e Eva os meios pelos quais eles (e todos os seres humanos)
teriam descendentes à sua própria imagem, perfazendo, assim,
a totalidade da pessoa material / imaterial.

Gênesis 5.1 registra: "No dia em que Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez". Por contraste, Gênesis 5.3 declara: "E Adão viveu cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem". Deus outorgou a Adão e Eva a capacidade de gerar filhos de composição semelhante à deles mesmos. E, na declaração de Davi: "Em pecado me concebeu minha mãe" (SI 51.5), temos evidências de que ele herdou dos pais, ao ser concebido, uma alma com tendência ao pecado. Finalmente, em Atos 17.26, Paulo declara: "Deus... de um só fez toda a geração dos homens", que subentende que tudo quanto se constitui em "humanidade" provém de Adão. Para os proponentes do traducianismo, o aborto, em qualquer etapa do desenvolvimento do zigoto, do embrião ou do feto significa pôr fim a uma vida plenamente humana.
Os oponentes do traducianismo objetam que, se os pais geram uma alma assim como um corpo, aquela é reduzida a uma substância material. Os traducianistas respondem que este fato não leva necessariamente a essa conclusão. A própria Bíblia não demonstra com exatidão o processo de procriação da alma. Os mesmos oponentes argumentam também que o traducianismo estaria afirmando que Cristo participou da natureza pecaminosa ao nascer de Maria. Os traducianistas respondem que o Espírito Santo santificou o que Jesus recebeu da parte de Maria, protegendo-o de qualquer sinal de tendência pecaminosa. 101
A UNIDADE DA HUMANIDADE

A doutrina da unidade da humanidade prega que todos os seres humanos, masculinos e femininos, de todas as raças, tiveram sua origem em Adão e Eva (Gn 1.27,28; 2.7,22; 3.20; 9.19; At 17.26). Que tanto os homens quanto as mulheres estão inclusos na imagem de Deus, está claro em Gênesis 1.27: "Macho e fêmea os criou" (ver também Gn 5.1,2). A lição é que todos os seres humanos, de ambos os sexos e pertencentes a todas as raças, classes econômicas e faixas etárias, levam igualmente a imagem divina e, portanto, são de igual valor aos olhos de Deus.
Desde que a Bíblia revela terem sido os dois sexos da raça humana feitos à imagem de Deus, não há justificativa para os homens considerarem inferiores as mulheres. A palavra "adjutora" (Gn 2.18) também é usada frequentemente (traduzida como "ajuda") a respeito do próprio Deus (Ex 18.4) e não indica uma categoria inferior.102 Além disso, quando o Novo Testamento coloca a esposa em subordinação funcional ao marido (Ef 5.24; Cl 3.18; Tt 2.5; 1 Pe 3.1), não significa que a mulher seja inferior ao homem, nem que essa subodinação seja geral. O padrão neotestamentário é que a esposa esteja subordinada ao seu próprio marido. 103
O verbo "sujeitar-se" (grego hupotassõ), empregado nos quatro textos referentes à submissão, também é empregado em 1 Coríntios 15.28, onde Paulo declara que o Filho "se sujeitará" ao Pai.104 Mesmo assim, todos os crentes entendem aqui uma sujeição administrativa - o filho, de modo algum, é inferior ao pai. O mesmo pode ser dito dos textos a respeito da esposa e do marido. Embora Deus tenha ordenado papéis funcionais diferentes aos vários membros da família, a nenhum desses membros se atribui valor menor que o do seu líder administrativo. Realmente, o apóstolo Paulo ensina que em Cristo "não há macho nem fêmea" (Gl 3.28). As bênçãos, promessas e provisões do Reino de Deus estão à disposição de todos, igualmente.
O racismo torna-se insustentável ao se levar em conta a origem da raça humana em Adão e Eva. Pelo contrário, são outras as distinções que a Bíblia focaliza. Por exemplo, os escritores do Antigo Testamento mencionam "semente", "descendente" (zera'); "família", "clã", "parentela" (mishpachah); "tribo" (matteh, shavet), para as divisões gerais
pela linhagem biológica; e "língua" (lashon), para divisões por idioma. Seguindo um padrão semelhante, os escritores do Novo Testamento mencionam "descendente", "família", "nacionalidade" (genos); "nação" (ethnos); e "tribo" (phulê).
Os escritores bíblicos não tinham absolutamente preocupação com a raça, como distinção entre cor e textura dos cabelos, cor da pele e dos olhos, estatura, proporções físicas e coisas semelhantes. M. K. Mayers conclui: "A Bíblia não se refere ao termo 'raça'; e nenhum conceito de raça é desenvolvido na Bíblia". Por isso, os mitos raciais de que a maldição de Caim trouxe ao mundo a raça negra, ou que a maldição de Cão era ficar com a pele escura, devem ser rejeitados.105 Ao invés, Gênesis 3.20 simplesmente declara: "E chamou Adão o nome de sua mulher Eva, porquanto ela era a mãe de todos os viventes".
No Novo Testamento, o evangelho de Cristo invalidou todas as distinções entre os seres humanos - que existiam no século I d.C. Incluíam divisões entre judeus e samaritanos (Lc 10.30-35); judeus e gentios (At 10.34,35; Rm 10.12); judeus e incircuncisos, bárbaros e citas (Cl 3.11); homens e mulheres (Gl 3.28); escravos e livres (Gl 3.28; Cl 3.11). Em Atos 17.26 Paulo declara: "Deus... de um só fez toda a geração dos homens para habitar sobre toda a face da terra". No versículo seguinte, o apóstolo revela o propósito de Deus nesse ato criador: "... para que buscassem ao Senhor, se, porventura, tateando, o pudessem achar" (17.27). A luz de textos bíblicos como estes, não resta a mínima possibilidade de se sustentar uma teoria racista baseada em algum suposto apoio da Bíblia.
Finalmente, não há maneira de se estabelecer categorias de valor humano com base nas condições econômicas ou na idade. O propósito de Deus para a humanidade é que conheçamos, amemos e sirvamos a Ele. Deus nos criou "com a capacidade de conhecêlo.
Essa é a característica distintiva fundamental... que toda a humanidade tem em comum".106 Por isso, qualquer avaliação ou classificação do valor intrínseco de algum grupo de seres humanos deve ser rejeitada como artificial e antibíblica.
A IMAGEM DE DEUS NOS SERES HUMANOS
A Bíblia afirma que os seres humanos foram criados à imagem de Deus. Gênesis 1.26 registra as palavras do Criador: "Façamos o homem ['adam - "humanidade"] à nossa imagem, conforme a nossa semelhança" (ver também 5.1). Outros textos bíblicos
demonstram com clareza que os seres humanos, embora descendentes de Adão e Eva e já caídos (ao invés de criados diretamente por Deus), continuam a levar a imagem de Deus (Gn 9.6; 1 Co 11.7; Tg 3.9).
Os termos hebraicos em Gênesis 1.26 são tselem e demuth. Tselem, empregado 16 vezes no Antigo Testamento, refere-se basicamente a uma imagem ou modelo funcional. Demuth, empregado 26 vezes, refere-se, de modo variado, a semelhanças visuais, audíveis e estruturais num desenho, padrão ou forma. Esses termos parecem estar explicados na continuação (vv. 26-28), quando a humanidade recebe poder para subjugar a Terra (ou seja, controlá-la pelo conhecimento, por saber aproveitá-la) e governar (de modo benéfico) as demais criaturas (ver também SI 8.5-8).
O Novo Testamento emprega as palavras eikõn (1 Co 11.7) e homoiõsis (Tg 3.9). Eikõn geralmente significa "imagem", "semelhança", "forma" ou "aparência" em toda a sua gama de usos. Homoiõsis significa "semelhança", "correspondência", "aparência semelhante". Posto que os termos, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, parecem ter sentido amplo e intercambiável, devemos olhar para além dos estudos lexicógrafos a fim de determinar a natureza da imagem de Deus.
Antes de afirmarmos o que é a imagem de Deus, explicaremos resumidamente o que ela não é. A imagem de Deus não é uma semelhança física - opinião esta abraçada pelos mormons e por Swedenborg. A Bíblia declara que Deus, que é Espírito onipresente, não pode ser limitado a um corpo físico (Jo 1.18; 4.24; Rm 1.20; Cl 1.15; 1 Tm 1.17; 6.16). O Antigo Testamento utiliza, de fato, termos como "o dedo de Deus" ou o "braço de Deus" para expressar o seu poder. Também fala de suas "asas" e "penas" para expressar o seu cuidado protetor (SI 91.4). Esses termos, porém, são antropomorfismos, figuras de linguagem empregadas para retratar algum aspecto da natureza ou do amor de Deus.107 Deus advertiu Israel de que não deveria fazer imagens para adorar, pois quando Ele falou ao seu povo, no Horebe (monte Sinai), não foi vista "semelhança nenhuma" (Dt 4.15). Qualquer forma física seria contrária ao que Deus realmente é.
Outro erro, talvez uma versão moderna da mentira da serpente em Gênesis 3.5, é que a imagem de Deus faz dos seres humanos "pequenos deuses".108 Certamente, "a exegese e a hermenêutica sadias são, e sempre serão, o único antídoto eficaz contra muitas doutrinas 'novas', a maioria das quais não passam de heresias antigas". 109 Identificadas as posições a serem evitadas, atentemos para o conceito bíblico. Vários textos do Novo Testamento oferecem alicerce à nossa definição de imagem de Deus na pessoa humana. Em Efésios 4-23,24, Paulo relembra aqueles crentes de que foram ensinados assim: "Que vos renoveis no espírito do vosso sentido, e vos revistais do novo homem, que, segundo Deus, é criado em verdadeira justiça e santidade". Em outro trecho, o apóstolo diz que a razão de fazermos escolhas morais apropriadas está em nos vestirmos do novo homem, "que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou" (Cl 3.10).
Esses versículos indicam que a imagem de Deus pertence à nossa natureza
moralintelectual-espiritual. Explicando melhor: a imagem de Deus na pessoa humana
é algoque somos, e não algo que temos ou fazemos. Esta opinião está em perfeito
acordo como que já estabelecemos como propósito de Deus na criação da humanidade.
Primeiro: ohomem foi criado para conhecer, amar e servir a Deus. Segundo:
relacionamo-nos comoutros seres humanos e temos a oportunidade de exercer
o domínio apropriado sobre acriação de Deus. A imagem de Deus em nós ajuda-nos
a fazer exatamente essas coisas. Wiley, chamando nossa atenção à natureza específica da imagem de Deus, distingue entre a "imagem natural ou essencial de Deus no ser humano" e a "imagem moral ou incidental de Deus que existe no ser humano".110 Com "imagem natural de Deus" queremos dizer o que é essencialmente humano nos seres humanos e que, portanto, os distingue dos animais. Isto inclui a espiritualidade, ou a capacidade de reconhecer e ter comunhão com Deus. Além disso, Colossenses 3.10 afirma que a imagem de Deus
inclui o conhecimento, ou o intelecto, por meio do qual temos a capacidade incomparável de manter comunicação inteligente com Deus e uns com os outros - com uma qualidade totalmente desconhecida no mundo animal. 111
Somente os seres humanos, na criação de Deus, possuem a virtude da imortalidade. Mesmo depois de rompida a comunhão entre Deus e a humanidade, na Queda (Gn 3), a cruz de Cristo providenciou meios que possibilitam a comunhão com Deus por toda a eternidade. Finalmente, segundo o contexto de Gênesis 1.26-28, a imagem de Deus inclui, sem dúvida, um domínio provisório (com a responsabilidade de cuidar devidamente) sobre as criaturas da Terra.
A respeito da imagem moral de Deus nos seres humanos, "Deus fez ao homem reto" (Ec 7.29). Até mesmo os pagãos, que não possuem conhecimento da lei escrita de Deus, conservam uma lei moral escrita por Ele em seus corações (Rm 2.14,15). Em outras palavras, somente os seres humanos possuem a capacidade de sentir o que é certo e errado, bem como o intelecto e a vontade necessários para escolher entre eles. Por esta razão, os seres humanos são chamados livres agentes morais. Diz-se também que possuem autodeterminação. Efésios 4.22-24 parece indicar que a imagem moral de Deus, embora não completamente erradicada na Queda, foi afetada negativamente até certo ponto. Para ter restaurada a imagem moral "em verdadeira justiça e santidade", o pecador precisa aceitar a Cristo e se tornar uma nova criação.
Vale a pena mencionar mais uma palavra a respeito da liberdade volitiva desfrutada pelos seres humanos. Estes, mesmo possuindo tal liberdade, são incapazes de escolher a Deus.112 Deus, portanto, pela sua bondade, equipa as pessoas com uma medida de graça que as capacita e prepara a corresponder ao Evangelho (Jo 1.9; Tt 2.11). O propósito de Deus era ter comunhão com as pessoas que de livre vontade resolvessem aceitar sua chamada universal à salvação. Em conformidade com esse propósito divino, Deus outorgou aos seres humanos a capacidade de aceitá-lo ou rejeitá-lo. A vontade humana foi liberta o suficiente para "voltar-se para Deus", "arrepender-se" e "crer".113 Logo, quando cooperamos com o Espírito que nos chama e aceitamos a Cristo, essa cooperação não é o meio da renovação. Pelo contrário, é o fruto da renovação. Para os crentes bíblicos de todas as denominações, a salvação é cem por cento externa (uma dádiva imerecida de um Deus gracioso). Deus nos tem dado graciosamente aquilo que necessitamos para cumprir o seu propósito na nossa vida: conhecer, amar e servir a Ele.

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