sábado, 27 de julho de 2019

LIÇÃO 5: A MORDOMIA DA IGREJA LOCAL





           A igreja local é a expressão da comunidade cristã, que constitui a
“ [...] universal assembleia e igreja dos primogênitos, que estão
inscritos nos céus [...]” (Hb 12.23a). Nesse aspecto, o místico, ela
é chamada de a “Igreja Universal”, o “Corpo de Cristo” ou a “Noiva do
Cordeiro”. E formada por todos os crentes, salvos, vivos (ou mortos), santos
e fiéis. Ela só pode ser vista ao mesmo tempo por Deus, que, do seu Trono,
vê todas as pessoas e todas as coisas num “eterno agora”, como diria um
grande teólogo. Como tal, a Igreja é um organismo espiritual, tendo Cristo
como a Cabeça, como diz Paulo aos Colossenses: “E ele é a cabeça do corpo
da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo
tenha a preem inência” (Cl 1.18), e os crentes são como seu Corpo. Nesse
aspecto, a Igreja tem a administração espiritual, sobrenatural, estando sob
a direção do Espírito Santo (Jo 14.26). Só precisamos colocar-nos sob sua
dependência para tudo funcionar bem.

E a essa Igreja que se refere o autor do livro “Aos Hebreus”, que se ex-
pressa de m odo eloqüente nas seguintes palavras: “Mas chegastes ao monte
Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, e aos muitos milhares
de anjos, à universal assembleia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos
céus, e a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados” (Hb
12.22,23 - grifo nosso). Nessa Igreja (com “i” maiúsculo), só os salvos de
verdade estão incluídos, tanto os vivos como os que já morreram, desde a
fundação do mundo.

No âmbito da igreja local, que é o objeto deste estudo neste capítulo, a
igreja é formada por pessoas que se unem e que se reúnem para adorar e servir
a Deus em um determinado lugar (bairro, região, país, etc.), sendo formada
pelos crentes, salvos (ou não), sendo vista por Deus e tam bém pelas pessoas
em geral. No meio dessa igreja (local), estão “o trigo” e “o joio”, ou seja, os
crentes fiéis e, ao mesmo tempo, aqueles que não são fiéis ou santos. Gomo
organização, a igreja local precisa de direção, de atividades, de normas, de
estatutos e, principalmente, de ações humanas. Neste aspecto organizacional,
a igreja precisa de Administração Eclesiástica.

Desse modo, ao analisarmos a mordomia da igreja local, devemos ter em
mente que todos os que a integram são responsáveis perante Deus por sua
mordomia. Os líderes são incumbidos de m aior responsabilidade perante o
“Cabeça” ou Senhor da Igreja. Os membros e congregados não são isentos
de considerar a importância e a relevância da igreja local para sua vida e, de
igual modo, prestarão contas dessa mordomia no tempo próprio, na Eterni-
dade. Meditemos neste importante assunto de interesse de todos os que fazem
parte da Igreja do Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

I - A MOR DOM IA DO S BENS ESPIRITUAIS

A Igreja como Corpo de Cristo reúne os salvos em todo o mundo. Ela é
a instituição de caráter espiritual por excelência, que representa o Reino de
Deus na face da terra. As igrejas locais, que se pautam pelos princípios cristãos,
executam os objetivos de Deus e de Cristo, face o seu plano Redentor para a
humanidade. A igreja local tem a responsabilidade executiva da mordomia que
lhe é confiada por Deus, com base nos ditames e princípios de sua Santa Palavra.

A Mordomia da Palavra de Deus. A Palavra de Deus é um bem
espiritual por excelência. Foi por sua Palavra, fruto de sua mente divina, que
todas as coisas vieram a existir a partir do nada. Ao longo dos séculos, Deus
sempre se comunicou com o ser humano por meio de sua Palavra. Primeiro,
na transmissão verbal. Depois, por intermédio da comunicação escrita e por
meio dos homens escolhidos para serem arautos da vontade divina. Eles fo-
ram mordomos da Palavra de Deus ouvindo, registrando e proclamando as
mensagens de Deus para o povo de Israel e para o mundo.

O s m o r d o m o s d a P a la v r a d e D e u s . “Deus falou com Moisés (Ex
3.1-22; 17.14) 1491 anos antes de Cristo. Ele era profeta (At 3.22). Por in-
termédio dos profetas, Deus falou a juizes, a reis, como a Davi, a Salomão
e a tantos outros em períodos de bonança, de alegria, de vitórias e derro-
tas. Deus usou Samuel, Natã, Ido, Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel, Oseias,
Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu,
Zacarias, Malaquias, no AT”.1

No Novo Testamento, Deus falou m ediante Jesus Cristo, que trouxe a
maior e mais profunda revelação do Pai ao ser humano caído, visando a sua
redenção. E Ele confiou-a à Igreja, a seus servos, aos pregadores, e apóstolos, e
escritores, usando João Batista, Mateus, Marcos, Lucas, João evangelista, Pedro,
Paulo, Tiago e outros, que foram porta-vozes e mordomos da comunicação
da Palavra de Deus a seu povo, a povos estranhos e à sua Igreja em tempos e
lugares diferentes. Hoje, na igreja local, os mordomos da Palavra de Deus são
os pastores, os evangelistas, os discipuladores, que cuidam da evangelização
e da integração dos novos convertidos nas igrejas locais, bem como todos os
salvos em Cristo, que devem zelar pela Palavra de Deus, lendo-a, conhecen-
do-a e testemunhando o seu valor. Isso é mordomia espiritual por excelência!

A p r e s e r v a ç ã o d a P a la v r a d e D e u s . Após a definição do “cânon sa-
grado”, que é o conjunto de livros bíblicos considerados “inspirados” e “reve-
lados” por Deus ao mundo, a Bíblia sagrada reuniu escritos sagrados durante
1600 anos (incluindo o período interbíblico), por meio de cerca de 40 autores
ou escritores usados por Deus para a proclamação de sua vontade, revelada
ao ser humano de forma especial. Esse acervo literário, que é uma verdadeira
“Biblioteca Divina”, é um patrimônio espiritual de valor inestimável para a
Igreja e para a humanidade. Cabe à Igreja, por intermédio dos cristãos nas
igrejas locais, exercer a mordomia da Palavra de Deus, preservando esse ver-
dadeiro “Tesouro de Conhecimentos Bíblicos” para toda a humanidade.

A Palavra de Deus deve ser preservada em seu conjunto espiritual e
profético e, de igual forma, como um bem precioso para a comunhão com
Deus e o afastamento do pecado. Diz o salmista: “Escondi a tua palavra no
meu coração, para eu não pecar contra ti” (SI 119.11). O cristão deve ler a
Palavra de Deus, estudá-la e, acima de tudo, vivê-la, praticando seus ensinos
e preceitos com oração e vigilância para não cair na tentação do pecado. No
Apocalipse, João registrou o que Deus disse sobre a igreja de Filadélfia: “Como
guardaste a palavra da minha paciência, também eu te guardarei da hora da
tentação que há de vir sobre todo o mundo, para tentar os que habitam na
terra” (Ap 3.10). A igreja de Filadélfia soube exercer a mordomia da Palavra
de Deus como nenhum a outra em seu tempo.
A valorização da Palavra de Deus é indispensável n a liturgia dos cultos
cristãos na igreja local. Deve ser reservado tem po e destaque para que a
Palavra tenha efeito no coração das pessoas, fazendo aquilo que ninguém
pode fazer. Ela produz efeitos maravilhosos na transformação de vidas (cf.
Hb 4.12). Q uando o tempo reservado à pregação ou ao ensino da Palavra é
o mais reduzido num culto, e enquanto os louvores são privilegiados, é sinal
de que a mordomia da Palavra está sendo negligenciada, o que acarretará
graves prejuízos para a formação e edificação dos crentes.

A Mordomia da Proclamação do Evangelho. A Palavra de
Deus não pode apenas ser preservada em bibliotecas das igrejas ou tão so-
mente falada no recinto dos templos cristãos. Essa não é a melhor m aneira
de tratarmos com ela. Muito pelo contrário! O Evangelho de Jesus Cristo
é a mensagem de Deus para a salvação do homem. Ela deve ser objeto da
proclamação (gr. kerigma) decorrente da “Grande Comissão”, ordenada
por Jesus. “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda
criatura” (Mc 16.15).

A e v a n g e liz a ç ã o d in â m ic a . A melhor e mais eficaz maneira de a
mordomia da Palavra de Deus ser exercida não é conservando-a nas praté-
leiras de bibliotecas famosas ou de museus literários. De forma alguma! A
Palavra de Deus deve ser proclamada de alto e bom som, como diz Paulo: “ [...]
que pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas,
exortes, com toda a longanimidade e doutrina” (2 Tm 4.2). A Palavra de Deus
tem eficácia para transformar o interior das pessoas de maneira poderosa.

Nenhuma filosofia ou ideologia pregada em universidades ou em escolas
do país pode produzir efeito tão poderoso no coração dos homens quanto a
Palavra de Deus. Está escrito: “Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e
mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até à divisão
da alma, e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pen-
sarnentos e intenções do coração” (Hb 4.12). Ela é “ [...] o poder de Deus para
salvação de todo aquele que crê [...]” (Rm 1.16).

Por isso, mediante a igreja local, a Palavra de Deus precisa ser proclamada,
como Cristo ordenou na “Grande Comissão”, mandando pregar o evangelho
“por todo o mundo” e “a toda a criatura” (Mc 16.15). Sem a m enor sombra
de dúvidas, a missão principal na m ordomia cristã é proclam ar o Evangelho
de Cristo. Por isso, o Senhor, o Cabeça da Igreja, o Salvador do mundo
usou a parábola do servo fiel para definir a ação de sua igreja: “E disse o
Senhor: Qual é, pois, o mordomo fiel e prudente, a quem o senhor pôs sobre
os seus servos, para lhes dar a tempo a ração? Bem-aventurado aquele servo
a quem o senhor, quando vier, achar fazendo assim” (Lc 12.42,43). Deixar
de proclam ar a Palavra de Deus é um grave erro, substituindo a “Grande
Comissão” por um a “grande omissão”.

O d is c ip u la d o e fic a z . Além da pregação do evangelho, a mordomia
cristã é estabelecida na igreja local mediante um discipulado intenso e di-
nâmico. Não adianta pregar, investir recursos em cruzadas, em missões, em
evangelização pessoal ou em massa se não houver um cuidado com os re-
sultados da pregação na vida dos novos convertidos. Embora o discipulado
seja permanente, na igreja cristã, o discipulado “inicial” deve ter prioridade
nas atividades e na programação. Um grande pregador dizia: “Nas igrejas,
há muita obstetrícia e pouca pediatria”. O u seja, há pouco cuidado com as
“crianças” espirituais. O Senhor pedirá a prestação de contas aos seus mor-
domos dos bens espirituais. Será “Bem-aventurado aquele servo a quem o se-
nhor, quando vier, achar fazendo assim” (Lc 12.43). Estatísticas missionárias
constatam que, quando há discipulado verdadeiro, o índice de permanência
dos que aceitam a Cristo é elevado: em torno de mais de 60%. Quando há
evangelização, mas não há o discipulado cuidadoso e sistemático com base
na Palavra de Deus, a permanência dos novos decididos não chega a 20%.

A Mordomia dos Dons Espirituais. Os dons espirituais são con-
siderados bens de grande significado para a vida da igreja cristã. No Novo
Testamento, que foi escrito em grego, a palavra “dom” assume significados
diversos. O termo “doma” indica a oferta de um “presente”, “boa coisa” (Mt
7.11); “dons”, concedidos por Deus aos homens (Ef 4.8), com base no Salmo
68.19. A palavra cháris indica “dom gratuito” ou “graça” (2 Co 8.4). O termo
chansma é muito utilizado em estudos bíblicos, pois tem o significado de “dons
do Espírito”, concedidos pela graça de Deus, com propósitos muito elevados;
é relacionado ao termo ta charismata, utilizado em 1 Coríntios 12.4,9,28,30 e
31, que tem o sentido de “dons da graça”. H á o termo grego ta pneumática,
usado por Paulo em 1 Coríntios 12.1; 14.1, que se refere a “dons espirituais”.
“No Novo Testamento, os dons de Deus estão à disposição de todos os que
creem, com a finalidade de promover graça, poder e unção à Igreja no exer-
cício de sua missão, de forma que Cristo seja glorificado”.2 A mordomia dos
dons espirituais é de grande valor para a Igreja do Senhor Jesus.

A Igreja tem exclusividade n o u s o d o s d o n s e s p ir itu a is . Ne-
nhuma instituição no mundo tem a capacidade e o dever de administrar
o uso dos dons espirituais de acordo com a Palavra de Deus. Somente à
Igreja foi confiada essa grande mordomia de caráter espiritual, dada não
só aos líderes, como também aos crentes de modo geral. Diz Pedro: “Cada
um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons despenseiros da
multiforme graça de Deus” (1 Pe 4.10 — grifo acrescentado). Como já foi
visto no primeiro capítulo, a palavra despenseiro eqüivale a mordomo ou
administrador (gr. oikonomos). O s dons espirituais são elencados no capítulo
12 da primeira carta de Paulo aos Coríntios. São instrumentos poderosos,
bem como disponíveis a todos os membros da Igreja, que os capacitam a
exercer sua missão no mundo.

O u so c o rre to d o s d o n s e sp iritu a is. H á grande necessidade do
exercício da mordom ia desses dons de form a correta e equilibrada. Os
movimentos neopentecostais têm deturpado o uso dos dons espirituais. H á
um a ocorrência de manifestações emocionalistas, de exibicionismo carnal
travestido de espiritualidade. Por falta de ensino, alguns creem que “mar-
char”, “pular”, “correr de um lado para outro”, fazer espalhafato com
“aviõezinhos”, rodopiar, além de outras esquisitices, são manifestações do
poder de Deus. Pela Bíblia, podemos afirm ar que essas coisas não passam
de carnalidade por falta de zelo no uso dos dons conforme a Palavra de
Deus. Pior do que isso, é o uso dos dons de forma fraudulenta e ganan-
ciosa, quando igrejas promovem reuniões de cura e milagres em troca de
pagamento de dinheiro, entrega de casas, automóveis e salários. Isso é “Si-
monia”. E negociar com os dons de Deus, visando enriquecer o patrimônio
de igrejas locais e de obreiros. Somente o ensino ortodoxo da Palavra pode
corrigir esses desvios ditos espirituais.

Os dons são “ferramentas” espirituais, por assim dizer, à disposição da
igreja, para que essa exerça sua missão profética, de proclamadora do
evangelho de Cristo, de modo eficaz, contra “[...] os principados, contra
as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes
espirituais da maldade, nos lugares celestiais” (Ef 6.12), usando a “armadura
do salvo”, na guerra espiritual sem tréguas a que todo salvo é submetido.
Nunca foi tão necessária a manifestação dos dons do Espírito Santo, como
nos dias atuais, visto que estamos vivendo numa sociedade corrompida pelo
pecado e enganada por falsos milagres e ensinamentos que contradizem o
verdadeiro evangelho de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.3

Por isso, precisamos pregar um evangelho que contenha a Palavra acom-
panhada de Sinais e prodígios como ocorreu com a Igreja Primitiva no início.

O s d o n s e sp iritu a is d e v e m s e r u sa d o s c o m a m o r. Nessa mor-
domia, os dons espirituais só devem ser exercidos no seio da igreja local se
o forem com o verdadeiro amor de Deus no coração dos que os recebem,
como dádivas de Deus para o benefício da igreja e de si próprios, visando a
glorificação ao Senhor e a edificação da igreja. H á indagações pertinentes
sobre se é possível alguém ter esses dons e não ter amor face à explicação de
Paulo. Podemos responder que sim. Jesus disse que, no julgamento eterno,
haverá pessoas que, mesmo tendo profetizado, expulsado demônios e ope-
rado “muitas maravilhas”, não serão salvas: “Muitos me dirão naquele Dia:
Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E, em teu nome, não
expulsamos demônios? E, em teu nome, não fizemos muitas maravilhas? E,
então, lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós
que praticais a iniqüidade” (Mt 7.22,23). Tais pessoas tiveram dons, mas não
tinham amor. Viviam na prática da iniqüidade. E um a das maiores iniquida-
des é não ter amor (ver 1 Jo 3.15). Diante dessa solene advertência da parte
de Jesus Cristo, todos os crentes, sejam líderes ou liderados, devem ter muito
cuidado na mordomia dos dons espirituais.

II - A M O R D O M IA D O S SER VO S D E D EU S

N a Igreja, como Corpo de Cristo, “A Noiva do Cordeiro”, integrada por
todos os salvos em todos os tempos e em todos os lugares, não se conhece todos
os crentes. Só Deus tem a dimensão dos milhões e milhões dos remidos por
Cristo. Todavia, na igreja local, numa cidade, num bairro ou num distrito,
numa igreja sede ou em suas congregações, a liderança e os membros normal-
mente se conhecem uns aos outros por meio das redes de relacionamento, nos
cultos, nas reuniões, nos departamentos e em outras estruturas da organização
local, onde é desenvolvida e efetivada a mordomia da Igreja do Senhor Jesus
Cristo. E na igreja local que as pessoas aceitam a Cristo como Salvador e é
nela que permanecem servindo a Cristo, ou se afastam, ou se desviam dela.
Diante dessa realidade, vê-se a grande importância de cada igreja cristã, no
âmbito local, ser um lugar de pregação, de discipulado, de louvor e também
um lugar de acolhimento cristão em termos espirituais, emocionais e, se ne-
cessário, de assistência social.

Os Líderes Cristãos com o Mordomos. Os pastores das igrejas
locais, como mordomos cristãos, têm grande responsabilidade diante de
Deus pelas almas que lhe são confiadas. Eles não têm ovelhas próprias, mas
são pastores de ovelhas do “rebanho de Deus” (1 Pe 5.2) e, ao mesmo tempo,
são ovelhas e servos de Deus.

O magistral exemplo de Jesus . Jesus deu o maior exemplo sobre
como cuidar dos seus servos em João 13.12-17. Nessa passagem bíblica Jesus
quis dizer que, se Ele, “Senhor e Mestre” , dispôs-se a colocar-se na posi-
ção de servo, de escravo (doulos), seus discípulos também deveriam assumir a
posição de servos uns dos outros. Existem obreiros que, à frente de um a
igreja — principalmente se for um a igreja grande — , não têm postura de
servos e mais se parecem com marajás, presidentes de multinacionais ou
com generais! São inacessíveis aos humildes servos de Deus. Para falarmos
com eles, a burocracia é enorme. Precisamos falar com o secretário, mar-
car audiência, e, muitas vezes, o irmão não pode nem chegar perto do líder
por questões “de segurança”. Tais pastores estão precisando fazer parte da
“diaconia da bacia e da toalha”.4

Dois tipos de mordomos . Em seus sermões, Jesus usou a figura de
dois servos ou dois mordomos. Um foi chamado de “servo fiel”. O outro foi
chamado de “mau servo”. Cristo refere-se a um “Senhor” que constituiu dois
servos sobre a sua casa para cuidar dela, dando o sustento aos outros servos “a
seu tempo”. A esse, Ele assim o chama de “servo fiel e prudente”, consideran-
do-o “bem-aventurado” por desincumbir bem seu trabalho ou sua mordomia,
e, “quando vier, achar servindo assim”, recompensa-o pondo-o “sobre todos
os seus bens”. Ele passa a ser um “mordomo-mor” (Mt 24.46,47). Observe
que esse servo “fiel e prudente” não é üm servo comum, mas, sim, um mor-
domo, pois “o Senhor constituiu sobre a sua casa, para dar o sustento a seu
tempo” (Mt 24.45). O pastor da igreja local deve saber cuidar bem dos servos
de Deus sob sua responsabilidade, dando “o alimento espiritual” sadio, tirado
da despensa de Deus. Ele também deve cuidar da orientação do rebanho de
Deus em seus diversos segmentos, desde as crianças, os adolescentes, os jovens
e os adultos e idosos. Essa missão só pode ser confiada a quem é chamado,
capacitado e comissionado para tanto. Por outro lado, o outro servo é con-
siderado um “m au servo”, negligente, que imagina o retorno do seu Senhor
tardiamente, passando a comportar-se irresponsavelmente, não cuidando de
sua mordomia, mas só pensando em aproveitar-se de sua posição. Primeiro, o
texto diz que o “mau servo” passa a “espancar os seus conservos”; logo, ele era
líder sobre os outros na casa do seu senhor. Depois, ele resolve aproveitar-se,
buscando seus interesses e satisfações, passando “a comer, e a beber com os
bêbedos”, ou seja, utilizando os bens do seu senhor de maneira irresponsável,
desperdiçando o fruto de seu trabalho com outros de sua qualidade. Na volta
inesperada do seu senhor, o “mau s e m )” é desqualificado, demitido e lançado
para ser contado “com os hipócritas”, num lugar de punição e de tormento,
onde “haverá pranto e ranger de dentes” (Mt 24.47-51).

Esses dois tipos de servo podem muito bem representar objetivamente dois
tipos de obreiros, de pastores, dirigentes de congregação ou de outras ativida-
des nas igrejas locais. O “servo fiel e prudente” é o pastor ou obreiro que se
desincumbe de sua missão diante de Deus para com sua igreja de forma sábia,
honesta, fiel, humilde e prudente. O mau servo representa o pastor, dirigente
ou líder de uma igreja ou de um órgão na igreja local que usurpa a autoridade
e comporta-se como um obreiro irresponsável, negligente, que se serve do cargo
em vez de usá-lo para servir à igreja do Senhor Jesus.

A Mordomia dos Membros e Congregados. Os que integram
uma igreja local são normalmente categorizados como “membros” ou “con-
gregados”. São considerados membros da Igreja de Jesus aqueles que pro-
fessam a fé cristã e submetem-se à ordenança do batismo em águas (cf. Mc
16.16), crendo “de todo o coração” (At 8.36,37). Os congregados são aqueles
que aceitam a Cristo como Salvador e permanecem caminhando e servindo
ao Senhor até confirmarem a sua fé e batizarem-se em águas. Os membros
e congregados na igreja local também têm sua parcela de responsabilidade
na mordomia e na contribuição para o cumprimento da missão da igreja.
Eles devem viver a condição de nascidos de novo, dando testemunho como
“sal da terra” e “luz do mundo” (Mt 5.13); isso fala do testemunho e do
porte de cada crente. Devem também viver em santidade e santificação (1
Pe 1.15; H b 12.14), que é condição indispensável para ser salvo e um dia ir
aos céus na vinda de Jesus (1 Ts 5.23). Os salvos em Cristo Jesus devem ter
a consciência de sua condição perante Deus e perante 0 mundo. Em meio
a todos os povos e nações, a Igreja na terra é integrada por pessoas com
qualificações elevadíssimas. Diz a Bíblia acerca dos crentes em Jesus: “Mas
vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido,
para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua
maravilhosa luz” (1 Pe 2.9).

A Prestação de Contas. Em toda a organização que se preza, sua
administração inclui, além do planejamento, o indispensável controle ou
acompanhamento das atividades desenvolvidas em função dos objetivos a
serem alcançados. N a igreja local, são desenvolvidas muitas atividades em
função da missão confiada pelo Senhor Jesus. E Deus, como o Supremo
Criador, Senhor e preservador do Universo, pedirá prestação de contas a
todos os seus servos, líderes ou liderados, como na parábola dos Dez Ta-
lentos (Mt 25.14-19). Nessa parábola, vemos Jesus ensinando que Deus dá a
cada servo seus encargos e responsabilidades de acordo com a capacidade
que cada um tem. Cada servo utilizou os bens conforme as habilidades
que possuíam, sabendo que, na volta do senhor deles, haveria um ajuste ou
prestação de contas. Ao avaliar o desempenho de cada servo, o senhor re-
compensou e elogiou o trabalho dos que fizeram os bens do patrão produ-
zir outros bens, multiplicando, assim, sua riqueza. Os que cumpriram bem
a sua missão ouviram o reconhecimento do seu senhor: “E o seu senhor lhe
disse: Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te
colocarei; entra no gozo do teu senhor” (Mt 25.21). Houve, entretanto, um
servo que foi negligente e murmurador, não honrando a confiança do seu
patrão. Em lugar de aplicar os recursos recebidos, preferiu desperdiçá-los,
enterrando-os na terra. Seu fim foi trágico (Mt 25.26-30). D a mesma for­
ma, os que fazem a igreja local, que deve estar a serviço do Reino de Deus,
haverão de prestar contas de sua m ordomia, tanto n a adm inistração dos
bens espirituais, como na m ordom ia dos recursos humanos ou materiais,
que são vinculados à obra do Senhor no âmbito local.


III - A MORDOM IA DA AÇÃO SOCIA L

A mordomia da igreja local inclui o cuidado com os necessitados, os
carentes ou menos favorecidos na vida. Com relação a isso, as igrejas locais
têm a enorme tarefa de cuidar dos que precisam alimentar o corpo e não o
podem fazer, convenientemente, por falta de recursos e de meios para adquirir
alimentação, roupas, sapatos, etc. Quantos cristãos não conseguem ir à igreja
local por falta de roupa e/o u por não terem o mínimo para alimentar-se.
E o que a igreja tem a ver com isso? Tudo! A Bíblia dem onstra que Deus
não quer apenas o atendimento às necessidades espirituais, mas tam bém a
assistência social como expressão do am or ao próximo.

A Assistência Social no Antigo Testamento
Nos salmos . Davi, homem de Deus, analisando a situação do próximo
afirmou: “Fui moço e agora sou velho; mas nunca vi desamparado o justo,
nem a sua descendência a mendigar o pão” (SI 37.25). Certamente, já com
idade avançada, o salmista podia concluir que o ‘ Jeová Jiré” não desamparava
nunca aqueles que o seriam. Asafe, músico e salmista, exortava: “Defendei o
pobre e o órfão; fazei justiça ao aflito e necessitado. Livrai o pobre e o necessi-
tado; tirai-o das mãos dos ímpios” (SI 82.3,4). A igreja tem condições de cuidar
dos necessitados a ela agregados. Basta que o coração dos crentes seja aberto
para isso sob a orientação segura da liderança constituída por Deus.

Nos provérbios . O sábio dos provérbios pregava: “O que dá ao pobre
não terá necessidade, mas o que esconde os olhos terá muitas maldições” (Pv
28.27). “Informa-se o justo da causa dos pobres, mas o ímpio não compreende
isso” (Pv 29.7). Os versículos dizem que quem não se interessa pelos pobres
terá muitas maldições, enquanto quem os ajuda não terá necessidades. São
promessas de Deus na Bíblia que são derramadas como bênçãos sobre aqueles
que agem de modo altruísta, cuidando dos carentes da igreja. A igreja local é
um a comunidade de apoio mútuo de acordo com a Palavra de Deus.

Nos profetas . Os profetas do AT não eram apenas vaticinadores,
videntes e mensageiros de predições quanto ao futuro. Suas profecias
também tinham um alcance para os seus dias. Suas profecias denuncia-
vam os erros dos reis e sacerdotes e muitas vezes proclamavam o dever de
atender aos pobres e necessitados. Isaías, o profeta messiânico, num a vi-
são em favor dos necessitados, bradava: “Aprendei a fazer o bem; praticai
o que é reto; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão, tratai da causa das
viúvas” (Is 1.17). Jeremias, o profeta das lamentações, assim conclamava
o povo a praticar a justiça em favor dos oprimidos J r 22.3). O profeta
Ezequiel não ficou sem dar sua contribuição e protestou contra Jerusalém
por causa da omissão desta em atender aos pobres, dizendo: “Eis que
esta foi a maldade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e abun-
dância de ociosidade teve ela e suas filhas; mas nunca esforçou a mão do
pobre e do necessitado” (Ez 16.49). Zacarias foi igualmente usado por
Deus para exortar sobre o cuidado com os necessitados: “Assim falou o
S e n h o r dos Exércitos, dizendo: Executai juízo verdadeiro, mostrai pie-
dade e misericórdia cada um a seu irm ão; e não oprimais a viúva, nem
o órfão, nem o estrangeiro, nem o pobre, nem intente o mal cada um
contra o seu irm ão, no seu coração” (Zc 7.9,10).


Assistência Social no Novo Testamento. N a dispensação da Igre-
ja, o cuidado com os necessitados faz parte da missão e da ação da igreja local.

Nos evangelhos. Em seu ministério, Jesus multiplicou o pão para
multidões duas vezes: em Mateus 14.13-21 eem Mateus 15.29-39. Isso indi-
ca, a nosso ver, que Jesus deu muita importância à necessidade de alimentar
as pessoas que estavam com fome. Os discípulos simplesmente queriam que
Jesus não se esforçasse muito e tão somente mandasse a multidão procurar
comida nas aldeias circunvizinhas. O Mestre, porém, ordenou-lhes incisi-
vãmente: “Dai-lhes vós de comer”. Assim sendo, na igreja local, os cristãos
têm o dever de prover o alimento necessário para aqueles irmãos que se
encontram em situação de necessidade. Como veremos mais adiante, não
adianta apenas dar a “Paz do Senhor” para eles ou dizer “Graça e Paz”
e, em seguida, despedi-los vazios e famintos. Assim como no AT, o mes-
mo Deus de Davi faz-nos saber que nunca deveremos ver “desamparado o
justo, nem a sua descendência a mendigar o pão”. A ética cristã não pode
compactuar com a miséria entre os irmãos.

Nos Atos dos Apóstolos . Os diáconos foram escolhidos para cuidar
da assistência social. Tal trabalho foi considerado um “importante negócio”
(At 6.3). Dentre as características da Igreja Primitiva vemos que os crentes
“tinham tudo em comum” (At 2.44). A visão deles era comunitária e social,
com base nos valores espirituais de amor e ação. A Bíblia diz que, entre os
primeiros cristãos, “ [...] havia abundante graça.

Não havia , pois , entre eles necessitado algum ; porque todos os que
possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam 0 preço do que fora vendido e 0 depo-
sitavam aos pés dos apóstolos. E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada
um tinha” (At 4.33-35 — grifo acrescentado).

Nas epístolas . Em suas epístolas, o apóstolo Paulo não se descuidou
do cuidado para com os necessitados nas igrejas locais. Ensinando sobre os
dons, ele dá ênfase ao ministério do socorro aos pobres e carentes diversos.
Quando Paulo doutrina sobre os chamados “dons de Deus” em Romanos
12.8, ele inclui os dons de repartir e usar de misericórdia. Quando ensina
acerca dos “dons de Cristo”, Paulo sublinha que a verdade deve ser prega-
da “em caridade”, que é o am or em ação (Ef 4.15). Em outra ocasião, ve-
mos o apóstolo solicitando oferta para os irmãos necessitados de Jerusalém
e da Judeia (1 Co 16.1,2).

E de Paulo, ainda, a solene recomendação, segundo a qual, “enquanto te-
mos tempo, façamos o bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé”
(G1 6.10). O apóstolo Tiago talvez seja o mais contundente quando exorta os
crentes quanto à atenção que deve ser dada aos irmãos necessitados. De início,
em seu livro, ele já começa a afirmar que a verdadeira religião é a que atende
ao espírito, levando o fiel a guardar-se da corrupção, bem como às necessida-
des do corpo e da mente, por meio da visita aos órfãos e viúvas (Tg 1.27). Ele
ainda afirma que “a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma” (Tg 2.17).

CONCLUSÃO

Algumas questões podem ser levantadas. Que estrutura têm as igrejas locais
em geral para dar assistência social a pessoas que estão aceitando a Cristo,
tais como: prostitutas, mendigos, inválidos, famintos, menores abandonados,
cegos, aleijados e outros infelicitados na vida? Se uma prostituta aceita a Jesus,
há casos em que sua família não mais a recebe de volta; ela precisa sair dos
prostíbulos e, assim sendo, para onde vai? Se não tiver quem a acolha, poderá
voltar ao antigo poço de perdição. Quando um cego, um aleijado ou um aidético
aceita a Cristo, para aonde irá de imediato se não tiver para onde ficar? Para
a casa dos membros da igreja? Isso nem sempre é possível. Conhecemos o
caso de um cego que tocava na praça, pedindo esmolas. Ele, inclusive, morava
na praça. U m a noite, ele aceitou a Cristo com seu acordeom. Depois de ter
sido recebido com alegria, ficou sentado depois do culto, pensando que seria
acolhido, só que o zelador pediu para ele ir embora. Ele saiu triste, voltou

para a praça e não retornou à igreja. Precisamos refletir sobre isso.



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