___/___/____ A Autoridade da Santificação
TEXTO
BÍBLICO BÁSICO
Rm 1.1-6,15-17
1 - Paulo, servo de Jesus Cristo,
chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus.
2 - O qual antes prometeu pelos seus
profetas nas santas escrituras,
3 - Acerca de seu Filho, que nasceu
da descendência de Davi segundo a carne,
4 - Declarado Filho de Deus em poder,
segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dentre os mortos, Jesus
Cristo, nosso Senhor,
5 - Pelo qual recebemos a graça e o
apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome,
6 - Entre as quais sois também vós
chamados para serdes de Jesus Cristo.
15 - E assim, quanto está em mim,
estou pronto para também vos anunciar o evangelho, a vós que estais em Roma.
16 - Porque não me envergonho do
evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que
crê; primeiro do judeu, e também do grego.
17 - Porque nele se descobre a
justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá pela fé.
TEXTO
ÁUREO
"E bem sei que,
indo ter convosco, chegarei com a plenitude da bênção do evangelho de
Cristo."
Romanos 15.29
Palavra introdutória
Neste
estudo, entenderemos o conceito bíblico de santificação, descobriremos como
produzi-la em nosso viver e em que aspecto uma vida santa resulta em autoridade
espiritual para o povo de Deus.
1. CONCEITO DE SANTIFICAÇÃO
Santificação
é a atitude contínua de abandonar tudo que ofende o Deus perfeito. A busca da
santidade caracteriza-se por um viver justo, cujo objetivo principal é andar em
conformidade com a vontade do Senhor, não somente por causa da ordem recebida
dele, mas porque essa é a marca da nossa nova condição espiritual.
1.1 Separação para o serviço
exclusivo de Deus
O Antigo
Testamento usa três palavras para descrever a santificação: qadosh (Hb. santo),
qadash (Hb. santificar) e qodesh (Hb. santidade) Qadash tem a ideia de cortar,
tirar de algum lugar. Fragmentos de textos antigos registram o uso de qadosh
ligado ao serviço dos operários cortando blocos de pedras nas pedreiras. Por
isso, santidade requer separação, no sentido de estar em outra esfera de vida.
O Novo
Testamento usa a palavra grega hagios com o sentido de santificado, separado
para uso especial de Deus. O cristão santificado está acima da esfera do mundo
(1 Jo 2.15,16), à parte do sistema moral corrompido e dominado pelo Maligno,
como se lê em 1 João 5.19. Dessa forma compreendemos que santas não são as
pessoas que atingiram alto nível de bondade, porém aquelas que são chamadas e
separadas para compor a Igreja.
1.2. Identificação com o Senhor
Esse é outro
sentido para a palavra santificar: distinguir daquilo que é comum -
consequentemente tornar-se semelhante a Deus, que é absolutamente separado de
todas as Suas criaturas e exaltado sobre elas (Rm 6.19,22). Assim, aquele opta
por um viver santo, pautado nos padrões e princípios divinos, sempre escolhe
concretizar os planos de Deus, a fim de estar no centro da Sua vontade (Mt 6.10).
1.3 Viver justo e digno
Santificação
implica mudança de vida (2 Co 6.14-16). Após a obra regeneradora do Espírito,
purifica-nos, guia-nos em Seus caminhos de justiça e de santidade,
fortalece-nos para enfrentar e vencer a tentação de voltar às antigas práticas
(1 Co 1.30).
No entanto,
o desejo de mudar não basta. É preciso empenho e esforço do cristão sob
constante atuação do Espírito Santo para que, de fato, ocorra essa consagração
diária conforme a graça de Deus (1 Ts 4.4; 2 Co 1.12), na qual somos
aperfeiçoados, confirmados, fortificados e fortalecidos por Ele (1 Pe 5.10).
2. O PROCESSO DA SANTIFICAÇÃO
O processo
contínuo de santificação é realizado pelo Espírito Santo, que trabalha na vida
dos cristãos, tornando-os santos e separando-os de seus caminhos maus, para que
eles sejam cada vez mais parecidos com Deus (Lv 20.24,26; 2 Cr 29.5).
2.1. Em Cristo, no Espírito e pela
Palavra de Deus
Todo aquele
que é santo está em Cristo Jesus, o qual é tudo que todos os santos precisam. O
eterno Filho de Deus é o mediador da reconciliação dos pecadores com o Pai,
pois foi Ele quem tornou possível o nosso acesso a Deus (1 Tm 2.5; Hb 12.24).
2.2. Aperfeiçoamento constante
A Bíblia não
fala de perfeição como ausência absoluta de pecados. A palavra perfeito é usada
em referência a uma pessoa que é idônea, sã e íntegra (Fp 2.15; 1 Ts 5.23).
Entretanto, devem os cristãos buscar a perfeição, pois os salvos formam uma
comunidade que não está moral e espiritualmente estagnada. Se, eventualmente,
assim estiver, aproxima-se de seu fim (Mt 5.48; Cl 4.12).
A
santificação final dá-se na glorificação quando, enfim, estaremos resgatados
totalmente do poder do pecado (Ap 12.23; Fp 3.20,21).
3. A FINALIDADE DA SANTIFICAÇÃO
Que intenção
tem o Senhor ao ordenar e produzir no Seu povo a santificação? Que aspectos da
vida do salvo estão envolvidos nessa atitude?
Em Seu labor
santificador na vida humana, Deus atinge todas as áreas: espírito, alma e corpo
(1 Ts 5.23; Rm 12.1,2); o olhar (Mt 6.22; 18.9); o andar (Gl 5.16); o ler (Sl
1.1,2; Ap 1.3); o vestir (1 Tm 2.9); o comer e beber (Rm 14.17); o adorar (Jo
4.23); o pensar (Cl 3.1-3); o ofertar (Rm 15.16); enfim, todo o viver (Fp 1.21;
Cl 2.20) (GOMES, Central Gospel, 2010, p. 276-277).
3.1. Dedicação irrestrita ao Senhor
Em primeiro
lugar, devemos afirmar que sendo Deus absoluta e perfeitamente santo, tudo o
que se refere a Ele e a Sua atividade atividade deve também sê-lo.
3.1.1. A mente
Paulo nos
orienta a não adotar a forma vã de pensar que caracteriza o mundo, uma atitude
que ofende a santidade de Deus (Ef 4.17). Temos a mente de Cristo. por isso
nosso entendimento recebe a santa influência do Espírito, permitindo-nos a não
conformação com o padrão de conduta
mundano e o desejo íntimo de dar um curso santo aos nossos pensamentos e
intenções (1 Co 2.16; Rm 12.2).
A vida sem
Cristo é uma vida envolta em trevas espirituais (Ef 4.18). É o Espírito Santo quem introduz na mente e no
coração da criatura perdida os primeiros sinais da luz do evangelho salvador de
Cristo, o que possibilita o processo de santificação (2 Co 4.3; Ef 2.1,5).
3.1.2. O corpo
Ao nos
santificarmos, somos uma oferta viva, santa e agradável a Deus, pois indica
nossa rendição a Cristo e, também, nosso esforço para resistir ao diabo e às
suas tentações de modo sóbrio e vigilante (1 Pe 5.9; Rm 12.1).
Devemos
santificar e honrar o nosso corpo, pois somos membros do corpo de Cristo (1 Co
6.15). Assim, podemos entender que a santificação tem também um caráter
material, expresso na mortificação do Senhor no nosso corpo, para que a vida de
Jesus se manifeste também em nossos corpos mortais (2 Co 4.10).
3.1.3. O tempo
Um dos
aspectos mais importantes da santificação diz respeito ao tempo (Lv 23.8; Fv
5.16). Da mesma maneira que Deus separou épocas específicas para a celebração
das festas religiosas em Israel, principalmente, pela observância do dia do
descanso (Hb shabat), devemos remir o
tempo e oferecer a Deus nossa devoção diária por meio da comunhão pessoa com o
nosso salvador. Fazem parte desse devocional a oração e a leitura da Palavra
(Cl 4.5; Hb 3.13; 1 Pe 4.1,2).
3.2. Comunhão dos filhos de Deus
A unidade do
corpo de Cristo só acontecerá se houver santificação. Jesus pediu ao Pai, em
oração, que seus discípulos fossem perfeitos em unidade, uma vez que, por terem
sido santificados, não eram mais do mundo, embora nele ainda vivessem (Jo
17.11-23).
Alguns anos
depois, a Igreja primitiva agiria sob a autoridade e o poder da santificação,
fazendo-se notar a comunhão decorrente da ação do Espírito na vida dos irmãos,
no partir do pão e nas orações (1 Tm 4.5). Nesse sentido, a comunhão santa
produzida pela Palavra da verdade testifica a autoridade da Igreja (1 Jo 6,7;
Fp 2.1,2).
3.3. Ação divina
Os
resultados práticos de um viver santo são evidências espirituais da autoridade
do poder de Deus. No Antigo Testamento, por exemplo, Deus exige santificação
para agir (Js 3.5) e determina até as formas em que essa atitude deve
acontecer, como o jejum solene (Jl 1.14), a reunião da congregação em público
de culto e adoração (Jl 2.16) dentre tantas outras exigências (Êx 20.8; 28;
29).
CONCLUSÃO
Dentre as
verdades aprendidas nesta lição, destacamos que: cristãos santos são parecidos
com seu senhor, diferenciam-se do jeito de ser e de viver do mundo e estão
sempre em constante transformação, visando a maturidade e o crescimento
espiritual.
O poder e a
autoridade de Deus se manifestam na vida do cristão que se santifica. Portanto,
busquemos a autoridade da santificação. Dessa forma, veremos todas as áreas da
nossa vida serem afetadas positivamente pela atitude santa.
Fonte: Revista Lições da Palavra
de Deus n° 58
IX. Justificação
A. Termos Bíblicos Para Justificação e Seus Significados
D. Natureza da Santificação.
1. É UMA OBRA SOBRENATURAL DE DEUS. Alguns têm a equivocada
noção de que a santificação consiste meramente em induzir a nova vida
implantada na alma pela regeneração, de maneira persuasiva, mediante a
apresentação de motivos à vontade. Mas isto não está certo. Ela consiste,
fundamental e primariamente, de uma operação divina na alma pela qual a santa
disposição nascida na regeneração é fortalecida e os seus santos exercícios são
aumentados. É essencialmente uma obra de Deus, embora, na medida em que Deus emprega
meios, possamos esperar que o homem coopere, pelo uso adequado desses meios. A
Escritura mostra claramente o caráter sobrenatural da santificação de diversas
maneiras. Descreve-a como obra de Deus, 1 Ts 5.23; Hb 13.20,21, como fruto da
união vital com Jesus Cristo, Jo 15.4; Gl 2.20; 4.19, como uma obra que é
realizada no homem por dentro e que, por essa mesma razão, não pode ser obra do
homem, Ef 3.16; Cl 1.11, e fala da sua manifestação nas virtudes cristãs como
sendo obra do Espírito, Gl 5.22. Jamais
deverá ser descrita como um processo meramente natural de desenvolvimento
espiritual do homem, nem tampouco deverá ser rebaixada ao nível de uma simples
realização humana, como se faz em grande parte da teologia “liberal” moderna.
2. CONSISTE DE DUAS
PARTES. As duas partes da santificação são expostas na Escritura como:
a. A mortificação do velho homem, o corpo do pecado. Esta
expressão escriturística denota o ato de Deus pelo qual a contaminação e a
corrupção da natureza que resultam do pecado são removidas gradativamente.
Muitas vezes é exposta na Bíblia como a crucificação do velho homem e, assim, é
associada à morte de Cristo na cruz. O velho homem é a natureza humana na
medida em que é dirigida pelo pecado, Rm 6.6; Gl 5.24. No contexto da passagem
de Gálatas Paulo contrasta as obras da carne com as do Espírito, e depois diz:
“E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e
concupiscências”. Significa que, no caso deles, o Espírito obteve predomínio.
b. A vivificação do novo homem, criado em Cristo Jesus para
boas obras. Enquanto que a primeira parte da santificação é de caráter
negativo, esta é de cunho positivo. É o ato de Deus pelo qual a disposição
santa da alma é fortalecida, os exercícios santos são incrementados e, assim, é
gerado e promovido um novo curso da vida. A velha estrutura so pecado vai sendo
posta abaixo aos poucos, e uma nova estrutura é erguida em seu lugar. Estas
duas partes da santificação não são sucessivas, mas, sim, simultâneas. Graças a
Deus, o levantamento gradual do novo edifício não precisa esperar até que o
antigo esteja completamente demolido. Se precisasse, nunca poderia começar
nesta existência. Com a gradativa dissolução do antigo, o novo vai aparecendo.
É como arejar uma casa impregnada de odores pestilentos. Conforme o ar que ali
estava é extraído, o novo ar se precipita para dentro. Esta faceta positiva da
santificação muitas vezes é chamada ressurreição com Cristo, Rm 6.4, 5; Cl
2.12; 3.1, 2. A nova vida à qual conduz é chamada viver para Deus, Rm 6.11; Gl
2.19.
3. AFETA O HOMEM
TODO: CORPO E ALMA; INTELECTO, AFETOS E VONTADE. Isto decorre da natureza
do caso, porque a santificação ocorre na vida interior do homem, no coração, e
este não pode ser mudado sem se mudar todo o organismo do homem. Se se
transforma o homem interior, forçosamente há transformação da periferia da vida
também. Ademais a Escritura ensina clara e explicitamente que a santificação
afeta tanto o corpo como a alma, 1 Ts 5.23; 2 Co 5.17; Rm 6.12; 1 Co 6.15, 20.
O corpo é focalizado aqui como órgão ou instrumento da alma pecaminosa, pelo
qual se expressam os pendores, hábitos e paixões pecaminosos. A santificação do
corpo tem lugar principalmente na crise da morte e na ressurreição dos mortos.
Finalmente, transparece na Escritura que a santificação afeta todos os poderes
ou faculdades da alma: o entendimento, Jr. 31.34; Jo 6.45; – a vontade, Ez
36.25-27; Fp 2.13; – as paixões, Gl 5.24; – e a consciência, Tt 1.15;. Hb 9.14.
530
4. É UMA OBRA DE DEUS
NA QUAL OS CRENTES COOPERAM. Quando se diz que o homem participa na obra de
santificação, não significa que o homem e um agente independente de ação, como
se fizesse em parte a obra de Deus e em parte a obra do homem; mas apenas que
Deus efetua essa obra em parte pela instrumentalidade do homem como ser
racional, requerendo dele devota e inteligente cooperação com o Espírito. Que o
homem precisa cooperar com o Espírito de Deus se deduz: (a) das repetidas
advertências contra males e tentações, que claramente implicam que o homem deve
agir dinamicamente no empenho para evitar as armadilhas da vida, Rm 12.9, 16,
17; 1 Co 6.9, 10; Gl 5.16-23; e (b) das constantes exortações a um viver santo.
Estes fatos implicam que o crente deve ser inteligente no emprego dos meios a
seu dispor, para o aperfeiçoamento moral e espiritual da sua vida, Mq 6.8; Jo
15.2, 8, 16; Rm 8.12, 13; 12.1, 2, 17; Gl 6.7, 8, 15.
E. Características da
Santificação.
1. Como se vê no item imediatamente anterior, a santificação
é uma obra cujo autor é Deus, e não o homem. Somente os defensores do livre
arbítrio, assim chamado, podem pretender que seja obra do homem. Nada obstante,
ela difere da regeneração em que o homem pode e tem o dever de lutar pela
santificação permanentemente crescente, utilizando os meios que Deus colocou a
seu dispor. Isto é ensinado claramente na Escritura, 2 Co 7.1; Cl 3.5-14; 1 Pe
1.22. Os antinomianos coerentes perdem de vista esta importante verdade, e não
sentem necessidade de evitar cautelosamente o pecado, uma vez que é santo com a
santidade de Cristo.
2. A santificação tem lugar, em parte, na vida
subconsciente, e, como tal, é uma operação imediata do Espírito Santo; mas
também, em parte, dá-se na vida consciente, e, neste caso, depende do uso de
certos meios, tais como o exercício da fé, o estudo da Palavra de Deus, a
oração e a associação com outros crentes.
3. Normalmente, a santificação é um processo longo, e jamais
alcança a perfeição nesta vida. Ao mesmo tempo, pode haver casos nos quais ela
é completada num curto período de tempo, ou até num momento, como, por exemplo,
nos casos em que a regeneração e a conversão são imediatamente seguidas pela
morte temporal. Se pudermos partir do pressuposto de que a santificação do
crente é perfeita logo depois da sua morte – e a Escritura parece ensinar isto,
no concernente à alma – então, em tais casos, a santificação da alma deve
completar-se quase imediatamente.
4. Ao que parece, a santificação do crente deve completar-se
no exato momento da morte, ou imediatamente após a morte, no que se refere à
alma, e na ressurreição, quanto ao concernente ao corpo. Isto parece decorrer
do dato de que, por um lado, a Bíblia ensina que, na vida presente, ninguém
pode arrogar-se liberdade do pecado, 1 Rs 8.46; Pv 20.9; Rm 3.10, 12; Tg 3.2; 1
Jo 1.8; e que, por outro lado, os que já partiram estão inteiramente
santificados. Ela fala deles como “espíritos
dos justos aperfeiçoados”,Hb 12.23, e como sem “mácula”, Ap 14.5. Ademais,
é-nos dito que na celestial cidade de Deus de modo nenhum “penetrará cousa
alguma contaminada, nem o que pratica abominação e mentira”. Ap 21.27; e que
Cristo, na Sua vinda, “transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual
ao corpo da sua glória”, Fp 3.21.
F. O Autor e os Meios
da Santificação.
A santificação é obra do Deus triúno, mas é atribuída mais
particularmente ao Espírito Santo na Escritura, Rm 8.11; 15.16; 1 pe 1.2. É
particularmente importante em nossos dias, com sua ênfase à necessidade de
abordar antropologicamente o estudo da teologia e com seu unilateral chamamento
para o serviço no reino de Deus, salientar o fato de que Deus, e não o homem, é
o autor da santificação. Especialmente em vista do ativismo, que é um traço tão
característico da vida religiosa americana,* e que glorifica a obra do homem, e
não a graça de Deus, é necessário acentuar muitas vezes que a santificação é
fruto da justificação, que aquela é simplesmente impossível sem esta, e que
ambas são frutos da graça de Deus na redenção dos pecadores. Conquanto o homem
tenha o privilégio de cooperar com o Espírito de Deus, só pode faze-lo em virtude das forças que o Espírito
lhe comunica dia após dia. O desenvolvimento espiritual do homem não é uma
realização humana, mas é obra da graça divina. O homem não merece crédito algum
pela contribuição que lhe dá instrumentalmente. Na medida em que a santificação
tem lugar na vida subconsciente, é efetuada pela operação imediata do Espírito
Santo. Mas como obra realizada na vida consciente dos crentes, é feita por
diversos meios, que o Espírito Santo emprega.
1. A PALAVRA DE DEUS. Em oposição à igreja de Roma, deve-se
afirmar que o principal meio usado pelo Espírito Santo é a Palavra de Deus. A
verdade em si mesma certamente não tem eficiência adequada para santificar o
crente, mas é naturalmente adaptada para ser o meio de santificação empregado
pelo Espírito Santo. A Escritura apresenta todas as condições objetivas para
exercícios e atos santos. Ela é útil para estimular a atividade espiritual
apresentando motivos e incentivos, e nos dá direção para essa atividade por meio
de proibições, exortações e exemplos, 1 pe 1.22; 2.2; 2 Pe 1.4.**
2. OS SACRAMENTOS. Estes são os meios par excellence (por
excelência), segundo a igreja de Roma. Os protestantes os consideram
subordinados à Palavra de Deus, e às vezes falam deles até como “Palavra
visível”. Simbolizam e selam para nós as mesmas verdades que são expressas
verbalmente na Palavra de Deus, e podem ser considerados como uma palavra em
ação, contendo uma viva representação da verdade, que o Espírito Santo torna
ocasião para santos exercícios. Eles não somente são subordinados à Palavra de
Deus, mas também não
* E a que ponto esse ativismo chegou na América Latina! Nota
do tradutor. ** Esta última passagem faz referência às preciosas promessas de
Deus como um meio pelo qual podemos crescer na santificação. Tenha-se em conta
o contexto. Nota do tradutor. 532
podem existir sem ela, e, portanto, sempre são acompanhados
por ela, Rm 6.3; 1 co 12.13; Tt 3.5; 1 pe 3.21.
3. DIREÇÃO PROVIDENCIAL. As providências de Deus, quer
favoráveis quer adversas, muitas vezes são poderosos meios de santificação. Em
conexo com a operação do Espírito Santo mediante a Palavra, elas agem em nossos
afetos naturais e, assim, freqüentemente aprofundam a impressão da verdade
religiosa e a acionam vigorosamente. Devemos ter em mente que a luz da
revelação de Deus é necessária para a interpretação das Suas orientações
providenciais, Sl 119.71; Rm 2.4; Hb 12.10
G. Relação da Santificação com Outros Estágios da Ordo
Salutis.
É de considerável importância ter correta concepção da
relação que há entre a santificação e alguns dos outros estágios da obra de
redenção.
1. COM A REGENERAÇÃO. Há aqui diferença e semelhança. A
regeneração é completada de uma vez, pois o homem não pode ser mais ou menos
regenerado; está vivo ou morto espiritualmente. A santificação é um processo
que produz mudanças graduais, de sorte que é possível distinguir diferentes
graus da santidade resultante. Daí, somos admoestados a aperfeiçoar a
santidade, no temor do Senhor, 2 Co 7.1. O Catecismo de Heidelberg também
pressupõe a existência de graus de santidade, quando declara que, mesmo “os
homens mais santos, nesta existência, têm apenas um pequeno princípio desta
obediência”.1 Ao mesmo tempo, a regeneração é o princípio da santificação. A
obra de renovação, iniciada naquela, tem prosseguimento nesta, Fp 1.6. Diz
Strong: “Ela (a santificação) se distingue da regeneração como o crescimento se
distingue do nascimento, ou como o fortalecimento de uma santa disposição se
distingue da comunicação original dela”.2
2. COM A JUSTIFICAÇÃO. Na aliança da graça a justificação
precede à santificação e lhe é básica. Na aliança das obras a ordem da justiça
e da santidade é precisamente o inverso. Adão foi criado com uma santa
disposição e inclinação para servir a Deus, mas, com base nesta santidade, ele
tinha que se sair bem na prática da justiça para ter direito à vida eterna. A
justificação é a base judicial da santificação. Deus tem direito de exigir de
nós santidade no viver, mas, uma vez que não podemos ter bom êxito com esta
santidade por nós mesmos, Ele gratuitamente a produz em nós, por intermédio do
Espírito Santo, com base na justiça de Jesus Cristo, que nos é imputada na
justificação. O próprio fato de que ela se baseia na justificação, na qual a
livre graça de Deus sobressai com a máxima proeminência, exclui a idéia de que
alguma vez possamos merecer alguma coisa na santificação. A idéia católica
romana de que a justificação habilita o homem para praticar obras meritórias é
contrária à Escritura. A justificação, como tal, não efetua mudança em nosso
ser interior e, portanto, necessita da santificação como seu complemento. Não
basta que o pecador tenha a posição de justo diante de Deus; é preciso também
que ele seja santo em sua vida interior. Barth tem uma descrição bem incomum da
relação entre a justificação e a santificação. Com o fim de evitar toda justiça
própria, ele insiste em que as duas sejam sempre consideradas juntamente. Elas
andam juntas e não devem se consideradas quantitativamente, como se uma
seguisse a outra. A justificação não é um posto pelo qual a gente passa, um
fato realizado em cuja base logo parte para a estrada principal da
santificação. Não é um fato consumado que se possa ver olhando para trás com
definida segurança, mas ocorre sempre de novo, toda vez que o homem chega ao
ponto de completo desespero, e então vai de mãos dadas com a santificação. E,
exatamente como o homem continua sendo pecador depois da justificação, assim
continua sendo pecador na santificação; mesmo as suas melhores ações continuam
sendo pecado. A santificação não gera uma disposição santa, e não purifica
gradativamente o homem. Não lhe dá posse de alguma santidade pessoal, não faz
dele um santo, mas o deixa pecador. A santificação passa a ser realmente um ato
declarativo, como a justificação. McConnachie, intérprete de Barth que o vê com
muita simpatia, diz: “Portanto, para Barth a justificação e a santificação são
duas faces de um ato de Deus sobre os homens. A justificação é o perdão do
pecador (justificatio impii), pelo qual Deus declara justo o pecador. A
santificação é santificação do pecador (sanctificatio impii), pela qual Deus
declara ‘santo’ o pecador”. Por mais louvável que seja o desejo de Barth de
destruir todo vestígio de justiça das obras, certamente ele vai a um extremo
destituído de fundamento, no qual virtualmente confunde a justificação com a
santificação, denega a vida cristã e elimina a possibilidade de confiante
segurança.
3. COM A FÉ. A fé causa mediata ou instrumental
santificação, como também da justificação. Não merece a santificação, como
tampouco a justificação, mas nos une a Cristo e nos mantém em contato com
Aquele que é a Cabeça da nova humanidade, a fonte da nova vida em nós, e também
da nossa progressiva santificação, através da operação do Espírito Santo. A
consciência do fato de que a santificação se baseia na justificação e de que é
impossível sobre qualquer outra base, e de que o constante exercício da fé é
necessário para haver avanço no caminho da santidade, proteger-nos-á de toda
justiça própria em nossa luta para progredir na vida piedosa e na santidade em
nosso viver. Merece particular atenção aqui o fato de que, enquanto que mesmo a
mais fraca fé serve de meio para uma justificação perfeita, o grau de
santificação é proporcional ao vigor da fé cristã e à persistência com que se
apega a Cristo.
I. Santificação e Boas Obras.
A santificação e as boas obras são interrelacionadas muito
intimamente. Precisamente como a velha vida se expressa nas obras do mal, assim
a nova vida, que se origina na regeneração e é promovida e fortalecida na
santificação, naturalmente se manifesta nas boas obras. Estas podem ser
denominadas frutos da santificação e, como tais, entram em consideração aqui.
1. NATUREZA DAS BOAS
OBRAS.
a. As boas obras no sentido especificamente teológico.
Quando falamos das boas obras em conexão com a santificação, não nos referimos
a obras que são perfeitas, que correspondem perfeitamente às exigências da lei
moral divina e que são de tanto valor inerente que dão à pessoa o direito à
recompensa da vida eterna sob as condições da aliança das obras. Referimonos,
porém, a obras que são essencialmente diversas, quanto à qualidade moral, das
ações dos não regenerados, e que são expressões de uma nova e santa natureza,
como o princípio do qual elas provêm. Estas são obras que Deus não somente
aprova, mas, em certo sentido, também recompensa. Eis as características das
obras espiritualmente boas: (1) São frutos de um coração regenerado, visto que,
sem isso, ninguém pode ter a disposição (obedecer a Deus) e o motivo
(glorificar a Deus) exigidos, Mt 12.33; 7.17, 18. (2) Não estão apenas em
externa conformidade com a lei de Deus, mas também são feitas com consciente
desobediência à vontade revelada de Deus, isto é, porque são exigidas por Deus.
Elas brotam do princípio do amor a Deus e do desejo de fazer a Sua vontade, Dt
6.2; 1 Sm 15.22; Is 1.12; 29.13; Mt 15.9. (3) Seja qual for o seu objetivo, seu
alvo final não é o bem-estar do homem, mas a glória de Deus, que é o supremo
alvo concebível da vida humana. 1 Co 10.31; Rm 12.1; Cl 3.17, 23.
b. As boas obras num sentido mais geral. Conquanto a
expressão “boas obras” seja geralmente empregada na teologia no sentido estrito
recém-indicado, permanece sendo verdade que os não regenerados também podem
praticar obras que podem ser chamadas boas num sentido superficial da palavra.
Eles muitas vezes praticam boas obras que estão em conformidade exterior com
alei de Deus e que podem ser chamadas objetivamente boas, em distinção das
flagrantes transgressões da lei. Tais obras atendem a um fim próximo que recebe
a aprovação de Deus. Ademais, em virtude dos restos da imagem de Deus presentes
no homem natural e da luz da natureza, o homem pode ser guiado em sua relação
com outros homens por motivos louváveis e, dentro destes limites, levar o selo
da aprovação de Deus. Contudo, essas boas obras não podem ser consideradas
frutos do coração corrupto do homem. Só encontram sua explicação na graça comum
de Deus. Acresce que devemos ter em mente que, embora estas obras possam ser
chamadas boas em certo sentido, e assim sejam chamadas na Bíblia, Lc 6.33,
todavia, são essencialmente defeituosas. Os feitos dos não regenerados estão
divorciados da raiz espiritual do amor a Deus. Não representam nenhuma
obediência interior à lei de Deus, e nenhuma sujeição à vontade do soberano
Governador de céus e terra. Não têm objetivo espiritual, visto que não são
feitas com o propósito de glorificar a Deus, mas somente atentam para as
relações da vida natural. A verdadeira qualidade de um ato é, naturalmente,
determinada pela qualidade do seu objetivo final. A capacidade dos não
regenerados para a prática de boas obras, nalgum sentido da expressão, tem sido
negada muitas vezes. Barth dá um passo mais, quando chega ao extremo de negar
que os crentes possam fazer boas obras, e afirma que todas as obras dos crentes
são pecados.
2. O CARÁTER MERITÓRIO DAS BOAS OBRAS. Já nos primeiros
tempos da igreja cristã, havia a tendência de atribuir certo mérito às boas
obras, mas a doutrina dos méritos realmente se desenvolveu na Idade Média. Ao
tempo da Reforma, ela era muito proeminente na teologia católica romana e foi
impelida a ridículos extremos na vida prática. Os Reformadores logo mediram
forças com a igreja de Roma sobre este ponto.
a. A posição de Roma sobre o ponto em questão. A Igreja
Católica Romana distingue entre o meritum de condigno (mérito por ser digno),
que representa dignidade e valor inerentes, e o meritum de congruo (mérito por
ser apropriado, proporcional, conveniente), que é uma espécie de semi-mérito,
uma coisa boa para ser recompensada. O primeiro liga-se unicamente a obras
praticadas depois da regeneração, com o auxílio da graça divina, e é um mérito
que intrinsecamente merece a recompensa e a recebe das mãos de Deus. O último
liga-se àquelas disposições ou obras que o homem pode desenvolver ou praticar
antes da regeneração, em virtude de uma simples graça preveniente, e é um
mérito que torna côngruo ou próprio para Deus recompensar o praticante dessas
obras infundindo graça em seu coração. Contudo, desde que as decisões do
Concílio de Trento são dúbias sobre este ponto, há alguma incerteza quanto à
posição exata da igreja de Roma. Parece que a idéia geral é que a capacidade
para praticar boas obras, no sentido estrito da palavra, provém da graça
infundida no coração do pecador por amor a Cristo; e que, depois, estas boas
obras merecem, isto é, dão ao homem o justo direito à salvação e à glória. A
igreja de Roma vai até mesmo além, e ensina que os fiéis podem praticar obras
de supererrogação – podem fazer mais do que o necessário para a sua própria
salvação e, assim, podem estabelecer um depósito de boas obras, que podem vir
em benefício de outros.
b. A posição escriturística sobre este ponto. A Escritura
ensina claramente que as boas obras dos crentes não são meritórias, no sentido
próprio da palavra. Devemos ter em mente, porém, que a palavra “mérito” é
empregada com duplo sentido, o estrito e próprio, e o outro livre. Estritamente
falando, uma obra meritória é uma obra à qual, por causa do seu valor e da sua
dignidade intrínsecas, a recompensa é devida justamente, em função da justiça
comutativa. Falando de modo livre, porém, uma obra merecedora de aprovação e à
qual está ligada uma recompensa (por promessa, acordo ou de outro modo), também
às vezes é chamada meritória. Obras deste tipo são dignas de louvor e são
recompensadas por Deus. Mas, por mais que seja assim, certamente elas não são
meritórias no sentido estrito da palavra. Elas não fazem, por seu valor moral
intrínseco, de Deus um devedor àquele que as pratica. Pela estrita justiça, as
boas obras dos crentes não merecem nada. Eis algumas passagens mais conclusivas
para provar o ponto em foco: Lc 17.9, 10;Rm 5.15-18; 6.23; Ef 2.8-10; 2 Tm 1.9,
Tt 3.5. Estas passagens mostram claramente que os crentes não recebem a herança
da salvação por ser esta devida a eles em virtude das suas boas obras, mas
unicamente como um dom gratuito de Deus. Também atende à razão que tais obras
não podem ser meritórias, pois: (1) Os crentes devem toda a sua vida a Deus e,
portanto, não podem ter merecimento de coisa alguma por darem a Deus
simplesmente o que lhe é devido, Lc 17.9, 10 (2) Eles não podem praticar boas
obras com suas próprias forças, mas somente com as forças que Deus lhes
transmite dia após dia; e, em vista disto, eles não podem esperar crédito por
essas obras, 1 co 15.10; Fp 2.13. (3) Mesmo as melhores obras dos crentes
continuam sendo imperfeitas nesta vida, e todas as obras juntas representam
apenas uma obediência parcial, ao passo que a lei requer obediência perfeita, e
nada menos que isso poderá satisfaze-la , Is 64.6; Tg 3.2. (4) Ademais, as boas
obras dos crentes estão totalmente fora de proporção em relação à recompensa da
glória eterna. Uma obediência temporal e imperfeita nunca pode merecer uma
recompensa eterna e perfeita.
3. NECESSIDADE DAS BOAS OBRAS. Não pode haver dúvida quanto
à necessidade das boas obras, corretamente entendida. Não as podemos considerar
como necessárias para merecimento da salvação, nem como meios pelos quais
segurar a salvação, nem ainda como o único caminho pelo qual seguir rumo à
glória eterna, pois as crianças dão entrada à salvação sem terem praticado
nenhuma boa obra. A Bíblia não ensina que ninguém pode salvar-se sem boas
obras. Ao mesmo tempo, as boas obras decorrem necessariamente da união dos
crentes com Cristo.”Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto”, Jo
15.5. Elas são necessárias também porque exigidas por Deus, Rm 7.4; 8.12, 13;
Gl 6.2, como frutos da fé, Tg 2.14, 17, 20-22, como expressões de gratidão, 1
co 6.20, como conducentes à segurança da fé, 2 pe 1.5-10, e para a glória de
Deus, Jo 15.8; 1 co 10.31. Deve-se defender a necessidade das boas obras contra
os antinomianos, que alegam que, desde que Cristo não somente levou sobre Si a
pena do pecado, mas também satisfez as exigências positivas da lei, o crente
está livre da obrigação de observa-la, erro que ainda está conosco hoje em dia,
nalgumas formas de dispensacionalismo. Esta é uma posição completamente falsa,
pois somente como sistema de penalização e método de salvação é que a lei é
abolida na morte de Cristo. Como padrão para a nossa vida moral, a lei é uma
transcrição da santidade de Deus e, portanto, tem validade permanente para o
crente também, apesar de que a sua atitude para com a lei passou por uma
transformação radical. Ele recebeu o Espírito de Deus, que é o espírito de
obediência, de sorte que, sem nenhum constrangimento, ele obedece
voluntariamente à lei. Strong resume bem isso, quando diz: Cristo nos livra: “(1)
da lei como um sistema de maldição e penalidade; isto Ele faz levando sobre Si
a maldição e a penalidade...; (2) da lei com as suas exigências como método de
salvação; isto Ele faz tornando nossos a Sua obediência e os Seus méritos...;
(3) da lei como compulsão externa e alheia; isto Ele faz dando-nos o espírito
de obediência e de filiação, pelo qual a lei é realizada progressivamente
dentro em nós”.1
C. Natureza e Características da Justificação.
A justificação é um ato judicial de Deus, no qual Ele
declara, com base na justiça de Jesus Cristo, que todas as reivindicações da
lei são satisfeitas com vistas ao pecador. Ela é singular, na obra da redenção,
em que é um ato judicial de Deus, e não um ato ou processo de renovação, como é
o caso da regeneração, da conversão e da santificação. Conquanto diga respeito
ao pecador, não muda a sua vida interior. Não afeta a sua condição, mas, sim, o
seu estado ou posição, e nesse aspecto difere de todas as outras principais
partes da ordem da salvação. Ela envolve o perdão dos pecados e a restauração
do pecador ao favor divino. O arminiano sustenta que ela inclui somente aquele,
e não esta; mas a Bíblia ensina claramente que o fruto da justificação é muito
mais que o perdão. Os que são justificados têm “paz com Deus”, segurança da
salvação, Rm 5.1-10, e uma “herança entre os que são santificados”, At 26.18.
Devemos observar os seguintes pontos de diferença entre a justificação e a
santificação.
1. A justificação remove a culpa do pecado e restaura o
pecador a todos os direitos filiais envolvidos em seu estado de filho de Deus,
incluindo uma herança eterna. A santificação remove a corrupção do pecado e
renova o pecador constante e crescentemente, em conformidade com a imagem de
Deus.
2. A justificação dá-se fora do pecador, no tribunal de
Deus, e não muda a sua vida interior, embora a sentença lhe seja dada a
conhecer na vida interna do homem e gradativamente afete todo o seu ser.
3. A justificação acontece uma vez por todas. Não se repete,
e não é um processo; é imediatamente completa e para sempre. Não existe isso,
de mais ou menos justificação; ou o homem é plenamente justificado, ou
absolutamente não é justificado. Em distinção disto, a santificação é um
processo contínuo, que jamais se completa nesta existência.
4. Enquanto que a causa meritória de ambas está nos méritos
de Cristo, há uma diferença na causa eficiente. Falando em termos de economia,
Deus o Pai declara justo o pecador, e Deus o
D. Elementos da Justificação.
Distinguimos dois elementos na justificação, um negativo e o
outro positivo.
1. O ELEMENTO NEGATIVO. Há primeiramente um elemento
negativo na justificação, qual seja, a remissão dos pecados com base na obra
expiatória de Jesus Cristo. Este elemento se baseia mais particularmente,
embora não exclusivamente, na obediência passiva do Salvador. Calvino e alguns
dos teólogos reformados mais antigos falam ocasionalmente como se este elemento
constituísse a justificação completa. Isto se deve, em parte, à descrição
veterotestamentária, na qual este lado da justificação está decisivamente no
primeiro plano, Sl 32.1; Is 43.25; 44.22; Jr 31.34, e em parte à sua reação
contra Roma que não faz justiça ao elemento da graça e do perdão gratuito.
Contudo, em reação ao arminianismo, a teologia reformada sempre sustentou que a
justificação é mais que perdão. Tanto o Velho Testamento como o Novo dão prova
de que o perdão dos pecados é um elemento importante da justificação, como se
vê em passagens como Rm 4.5-8; 5.18, 19; Gl 2.17.
O perdão concedido na justificação aplica-se a todos os
pecados, passados, presentes e futuros, e, desse modo, envolve a remoção de
toda culpa e de toda penalidade. Isto decorre do fato de que a justificação não
admite repetição, e de passagens como Rm 5.21; 8.1, 32-34; Hb 10.14; Sl 103.12;
Is 44.22, que nos asseguram que ninguém pode lançar nada na conta do homem
justificado, que isento da condenação, e que é constituído da vida eterna.
Também está implícito na resposta à pergunta n.º 60 do Catecismo de Heidelberg.
Esta concepção de justificação, embora eminentemente escriturística, não está
livre de dificuldade. Os crentes continuam a pecar depois de justificados, Tg
3.2; 1 Jo 1.8, e, como os exemplos bíblicos mostram claramente, muitas vezes
caem em pecados graves. Daí, não admira que Barth goste de acentuar o fato de
que o homem justificado continua sendo um pecador, se bem que um pecador
justificado. Cristo ensinou os Seus discípulos a orar diariamente pelo perdão
dos pecados, Mt 6.12, e os santos da Bíblia estão freqüentemente suplicando e
obtendo perdão, Sl 32.5; 51.1-4; 130.3, 4. Conseqüentemente, não é
surpreendente que alguns se sintam constrangidos a falar de uma justificação
repetida. Dos dados para os quais chamamos a atenção, a igreja de Roma infere
que os crentes precisam, de algum modo, expiar os pecados cometidos depois do
batismo, e, daí, crê também numa justificação crescente. Por outro lado, os
antinomianos, desejando honrar a ilimitada graça perdoadora de Deus, afirmam
que os pecados dos crentes não são atribuídos como tais ao novo homem, mas
unicamente ao velho homem, e que lhes é completamente desnecessário orar pelo
perdão dos pecados. Por temor desta posição, até alguns teólogos reformados
sentiam escrúpulos quanto a ensinar que os futuros pecados dos crentes também
são perdoados na justificação, e falavam de uma justificação repetida, e mesmo
de uma justificação diária.1 Contudo, a posição usual da teologia reformada
(calvinista) é que, na justificação, Deus deveras remove a culpa, mas não a
culpabilidade do pecado, isto é, Ele remove a justa sujeição do pecador à
punição, mas não a culpabilidade inerente de quaisquer pecados que ele continue
praticando. Esta permanece e, portanto, produz sempre nos crentes um sentimento
de culpa, de separação de Deus, de tristeza, de arrependimento, e assim por
diante. Daí, eles sentem a necessidade de confessar os seus pecados, mesmo os
pecados da sua mocidade, Sl 25.7; 51.59. O crente que está realmente cônscio do
seu pecado, sente no íntimo uma compulsão que o impele a confessa-lo e a buscar
a consoladora segurança do perdão. Alem disso, tal confissão e oração não é
apenas uma necessidade sentida subjetivamente, mas também uma necessidade
objetiva. A justificação e, essencialmente, uma declaração acerca do pecador no
tribunal de Deus, mas não é meramente isso; é também um actus transiens (ato em
transição) que penetra a consciência do crente. A sentença divina de absolvição
é dada a conhecer ao pecador e desperta a jubilosa consciência do crente. A
sentença divina de absolvição é dada a conhecer ao pecador e desperta a
jubilosa consciência do perdão dos pecados e do favor de Deus. Ora, esta
consciência do perdão e de um renovado relacionamento filial muitas vezes é
perturbada e obscurecida pelo pecado, e de novo é despertada e fortalecida pela
confissão e oração, e por um renovado exercício da fé.
2. O ELEMENTO POSITIVO. Há também um elemento positivo na
justificação, o qual se baseia mais particularmente na obediência ativa de
Cristo. Naturalmente, aqueles que, como Piscator e os arminianos, negam a
imputação da obediência ativa de Cristo ao pecador, com isso negam também o
elemento positivo da justificação. De acordo com eles, a justificação deixa o
homem sem nenhum direito à vida eterna, coloca-o simplesmente na situação de
Adão antes da Queda, embora, segundo os arminianos, debaixo de uma lei
diferente, a lei da obediência evangélica, e deixa a cargo do homem fazer por
merecer a aceitação da parte de Deus e a vida eterna, pela fé e obediência. Mas
é evidente, na Escritura, que a justificação é mais que o perdão puro e
simples. A Josué, o sumo sacerdote, que, como representante de Israel, estava
perante o Senhor usando vestes sujas, disse Jeová: “Eis que tenho feito que
passe de ti a tua iniqüidade (elemento negativo), e te vestirei de finos
trajes” (elemento positivo), Zc 3.4. Segundo At 26.18, obtemos pela fé
“remissão de pecados e herança entre os que são santificados”. Romanos 5.1, 2
nos ensina que a fé nos traz não somente paz com Deus, mas também acesso a Deus
e alegria na esperança da glória. E segundo Gl 4.5, Cristo nasceu sob a lei
também “a fim de que recebêssemos a adoção de filhos”. Neste elemento positivo
podemos distinguir duas partes:
a. A adoção de filhos. Os crentes são, antes de tudo, filhos
de Deus por adoção. Isto implica, naturalmente, que eles não são filhos de Deus
por natureza, como os “liberais” modernos gostariam de fazer-nos acreditar,
pois ninguém iria adotar os seus próprios filhos. Esta adoção é um ato legal,
pelo qual Deus coloca o pecador no estado de filho, mas não o transforma interiormente,
como tampouco os pais mudam, pelo mero ato de adoção, a vida interior de um
filho adotado. A mudança efetuada tem que ver com a relação em que o homem se
acha com Deus. Em virtude da sua adoção, os crentes são, por assim dizer,
iniciados na própria família de Deus, ficam sob a lei da obediência filial e,
ao mesmo tempo, passam a ter direito a todos os privilégios da filiação.
Devemos distinguir cuidadosamente a doação da filiação moral dos crentes,
filiação resultante da regeneração e da santificação. Eles não são somente
adotados por Deus para serem Seus filhos, mas também são nascidos de Deus.
Naturalmente, as duas coisas não podem separar-se. São mencionadas juntas em Jo
1.12; Rm 8.15, 16; Gl 3.26, 27; 4.5, 6. Em Rm 8.15 é empregado o termo
hyothesia (de hyios e tithenai), que significa “colocar ou posicionar como
filho”, e no grego clássico é sempre empregado para denotar uma colocação
objetiva na posição de filho. O versículo subseqüente contém a palavra tekna
(de tikto, “gerar”), que qualifica os crentes como gerados por Deus. Em Jo 1.12
a idéia de adoção é expressa pelas palavras: “Mas, a todos quantos o receberam,
deu-lhes o poder (exousian edoken) de serem feitos filhos de Deus”. A expressão
aí empregada significa “dar direito legal”. Imediatamente após, no versículo
13, o escritor fala da filiação ética, devida à regeneração. A conexão entre
ambas é exposta claramente em Gl 4.5, 6...”a fim de que recebêssemos a adoção
de filhos. E, porque vós sois filhos (por adoção), enviou Deus aos nossos
corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai”. O Espírito de Cristo
nos regenera e nos santifica e nos move a dirigir-nos a Deus cheios de
confiança, vendo-o como o Pai que é.
b. O direito à vida eterna. Este elemento está virtualmente
incluído no anterior. Quando os pecadores são adotados para serem filhos de
Deus, são revestidos de todos os direitos filiais legais e se tornam herdeiros
de Deus e co-herdeiros com Cristo, Rm 8.17. Isto significa, antes de tudo, que
eles se tornam herdeiros de todas as bênçãos da salvação na presente vida,
sendo que a mais fundamental delas é descrita com as palavras, “o Espírito
prometido”, isto é, a bênção é oferecida na forma do Espírito, Gl 3.14; e, numa
frase um pouco diferente, “o Espírito de seu Filho”, Gl 4.6. E no Espírito e
com Ele, recebem todos os dons de Cristo. Mas isto não é tudo; sua herança
inclui também as bênçãos eternas da vida futura. A glória de que Paulo fala em
Rm 8.17 vem em seguida aos sofrimentos do tempo presente. De acordo com Rm
8.23, a redenção do corpo, que ali é chamada “adoção”, também pertence à
herança futura. E na ordo salutis de Rm 8.29, 30, a glorificação está ligada
imediatamente à justificação. Sendo justificados pela fé, os crentes são
herdeiros da vida eterna.
E. Esfera em Que
Ocorre a Justificação.
A questão quanto à esfera em que ocorre em que ocorre a
justificação deve ser respondida com discriminação. É costume distinguir entre
uma justificação ativa e uma passiva, também denominadas objetiva e subjetiva,
cada qual com a sua própria esfera.
1. JUSTIFICAÇÃO ATIVA OU OBJETIVA. Esta é a justificação no
sentido mais fundamental da palavra. É básica em relação ao que se chama
justificação subjetiva, e consiste numa declaração que Deus faz a respeito do
pecador, declaração feita no tribunal de Deus. Não se trata de uma declaração
de que Deus simplesmente absolve o pecador, sem levar em conta as
reivindicações da justiça, mas, sim, de uma declaração divina de que, no caso
do pecador em foco, as exigências da lei são satisfeitas. O pecador é declarado
justo em vista do fato de que a justiça de Cristo lhe é imputada. Nesta
transação Deus comparece, não como um Soberano absoluto que simplesmente põe de
lado a lei, mas como um Juiz justo, que reconhece os méritos infinitos de
Cristo como uma base suficiente para a justificação, e como um Pai
misericordioso, que perdoa e aceita graciosamente o pecador. Esta justificação
ativa antecede logicamente à fé e a justificação passiva. Cremos no perdão dos
pecados.
2. JUSTIFICAÇÃO PASSIVA OU SUBJETIVA. A justificação passiva
ou subjetiva tem lugar no coração ou na consciência do pecador. Uma
justificação puramente objetiva, que não fosse dada a conhecer ao pecador, não
corresponderia ao propósito colimado. A concessão de perdão a um prisioneiro
não significaria nada, se as alegres novas não lhe fossem comunicadas e as
portas da prisão não fossem abertas. Ale´m disso, é exatamente neste ponto,
melhor do que noutro qualquer, que o pecador aprende a entender que a salvação
é inteiramente de graça. Quando a Bíblia fala de justificação, normalmente se refere
àquilo que é conhecido como justificação passiva. Deve-se ter em mente, porem,
que as duas são inseparáveis. Uma se baseia na outra. Faz-se a distinção
simplesmente para facilitar a correta compreensão do ato de justificação.
Logicamente, a justificação passiva vem em seguida à fé; somos justificados
pela fé.
F. Ocasião em que se da a Justificação.
Alguns teólogos separam cronologicamente a justificação
ativa e passiva. Neste caso, dizem que a justificação ativa deu-se na
eternidade, ou quando da ressurreição de Cristo, ao passo que a justificação
passiva realiza-se pela fé, e, portanto, assim se diz, segue-se à outra, no
sentido cronológico. Consideremos sucessivamente a justificação desde a
eternidade, a justificação na ressurreição de Cristo e a justificação pela fé.
1. JUSTIFICAÇÃO DESDE A ETERNIDADE. Os antinomianos
afirmavam que a justificação do pecador aconteceu na eternidade ou na
ressurreição de Cristo. Eles a confundiam, quer com o decreto eterno de
eleição, quer com a justificação objetiva de Cristo., quando Ele ressurgiu dos
mortos. Eles não distinguiam acertadamente entre o propósito divino na
eternidade e sua execução no tempo, nem entre a obra de Cristo, em que Ele obteve
as bênçãos da redenção, e do Espírito Santo, na aplicação delas. Segundo esta
posição, somos justificados antes de crermos, embora inconscientes disto, e a
fé apenas nos transmite a declaração deste fato. Além disso, o fato de que os
nossos pecados foram imputados a Cristo faz dele pessoalmente um pecador, e a imputação
da Sua justiça a nós faz-nos pessoalmente justos, de modo que Deus não pode ver
absolutamente nenhum pecado nos crentes. Alguns teólogos reformados também
falam de uma justificação desde a eternidade, mas, ao mesmo tempo, recusam-se a
subscrever a elaboração antinomiana desta doutrina. As bases sobre as quais
eles acreditam numa justificação desde a eternidade merecem breve consideração.
a. Bases da doutrina
da justificação desde a eternidade.
(1) A Escritura fala de uma graça ou misericórdia de Deus
que é desde a eternidade, Sl 25:6; 103.17. Ora, toda graça ou misericórdia que
seja desde a eternidade tem que ter como sua base judicial uma justificação que
seja também desde a eternidade. Mas, em resposta a isto, pode-se dizer que
existem misericórdias e bondades eterna de Deus que não são baseadas em nenhuma
justificação do pecador, como, por exemplo, o Seu plano de redenção, a dádiva
de Seu Filho e a voluntária função de penhor exercida por Cristo no pactum
salutis.
(2) No pactum salutis a culpa dos pecados dos eleitos foi
transferida para Cristo, e a justiça de Cristo lhes foi imputada. Quer dizer
que o fardo do pecado foi retirado dos ombros deles e que eles foram
justificados. Pois bem, não há dúvida de que houve certa imputação da justiça
de Cristo ao pecador no conselho de redenção, mas nem toda imputação pode ser
chamada justificação, no sentido escriturístico do termo. Devemos distinguir
entre o que teve apenas um caráter ideal no conselho de Deus e aquilo que se
concretiza no transcurso da historia.
(3) O pecador recebe a graça inicial da regeneração sobre a
base da justiça de Cristo a ele imputada. Conseqüentemente, os méritos de
Cristo têm que lhe ser imputados antes da sua regeneração. Mas apesar desta
consideração levar à conclusão de que a justificação precede logicamente à
regeneração, isto não prova a prioridade cronológica da justificação. O pecador
não pode receber a graça da regeneração com base numa justificação existente
idealmente no conselho de Deus e que conta com a certeza de que se concretizará
na vida do pecador.
(4) As crianças também precisam da justificação, para serem
salvos, e, todavia, é-lhes totalmente impossível experimentar a justificação
pela fé. Mas, embora seja mais que certo que as crianças que ainda não
atingiram a maturidade não podem ter experiência da justificação passiva, podem
ser justificados ativamente no tribunal de Deus e, assim, podem ter posse
daquilo que é absolutamente essencial.
(5) A justificação é um ato imanente de Deus e, como tal, só
pode ser oriundo da eternidade. Não é bem correto, porém, falar da justificação
como um actus immanens (ato imanente) em Deus; é, antes, um actus transiens
(ato transitivo), exatamente como a criação a encarnação e outros mais. Os
defensores da justificação desde a eternidade vêem o peso desta consideração e,
daí, apressam-se a garantir-nos que eles não pretendem ensinar que os eleitos
são justificados desde a eternidade actualiter (em termos de ação
concretizada), mas unicamente na intenção de Deus, no decreto divino. Isto nos
leva de volta à distinção usual entre o conselho de Deus e sua e sua execução.
Se esta justificação presente na intenção de Deus nos permite falar de uma
justificação desde a eternidade, então não há absolutamente nenhum motivo pelo
qual não devamos falar também de uma criação desde a eternidade.
b. Objeções à
doutrina da justificação desde a eternidade.
(1) A Bíblia ensina uniformemente que a justificação se dá
pela fé ou é provinda da fé. Naturalmente, isto se aplica à justificação
passiva ou subjetiva, que, entretanto, não pode separarse cronologicamente da
justificação ativa ou objetiva, exceto no caso das crianças. Mas, se a
justificação se realiza pela fé, certamente não precede à fé, no sentido
cronológico. Ora, é certo que os defensores da justificação desde a eternidade
também falam da justificação pela fé. Mas, na sua descrição da matéria, isto só
pode significar que, pela fé, o homem ganha consciência daquilo que Deus fez na
eternidade.
(2) Em Rm 8.29, 30, onde vemos alguns dos degraus (scalae)
da ordo salutis (ordem da salvação), a justificação está entre dois atos de
Deus realizados no tempo, quais sejam, a vocação e a glorificação, sendo que
esta começa no tempo e se completa na eternidade futura. E estes três , juntos,
resultam de outros dois que são explicitamente indicados como eternos. O dr.
Kuyper não tem base para dizer que Rom 8.30 se refere àquilo que aconteceu com
os regenerados antes de nascerem, como até o dr. De Moor, que também acredita
numa justificação desde a eternidade, mostra-se disposto a admitir.1
(3) Ao ensinar-se a justificação desde a eternidade, o
decreto de Deus a respeito da justificação do pecador, que é um actus immanens,
é identificado com a própria justificação, que é um actus transiens. Isto só
leva a confusão. O que teve lugar no pactum salutis (aliança da salvação) não
pode ser identificado com o que disso resulta. Toda imputação ainda não é
justificação. A justificação é um dos frutos da obra redentora de Cristo
aplicada aos crentes pelo Espírito Santo. Mas o Espírito não aplicou, nem
poderia aplicar, este ou qualquer outro fruto da obra de Cristo desde a
eternidade.
2. JUSTIFICAÇÃO NA RESSURREIÇÃO DE CRISTO. A idéia de que,
nalgum sentido da
expressão, os pecadores são justificados na ressurreição de
Cristo, foi apregoada por alguns arminianos, é ensinada por aqueles teólogos
reformados (calvinistas) que acreditam numa justificação desde a eternidade, e
também é definida por alguns outros eruditos reformados. Este conceito se funda
nas seguintes base:
a. Com Sua obra expiatória, Cristo satisfez todas as
exigências da lei pelo Seu povo. Na ressurreição de Cristo dentre os mortos, o
Pai declarou publicamente que todas as condições da lei foram preenchidas para
todos os eleitos e, com isso, eles foram justificados. Mas aqui também se
requer uma distinção muito cuidadosa. Mesmo que seja verdade que houve uma
justificação objetiva de Cristo e de todo o corpo de Cristo em Sua
ressurreição, não se deve confundir isto com a justificação do pecador a que a
Bíblia se refere. Não é verdade que, quando Cristo prestou plena satisfação ao
Pai por todos os Seus, a culpa destes acabou naturalmente. O débito penal não é
como uma dívida pecuniária, neste sentido. Mesmo depois de pago o resgate, a
remoção da culpa pode depender de certas condições, e não ocorre como um
resultado liquido e certo. No sentido escriturístico, os eleitos não são
justificados enquanto não aceitam a Cristo pela fé, apropriando-se assim dos Seus
méritos.
b. Em Rm 4.25 lemos que Cristo “ressuscitou por causa da
(dia, causal) nossa justificação”, isto é, para efetuar a nossa justificação.
Pois bem, é indubitavelmente certo que dia com o acusativo é causal nesta
passagem. Ao mesmo tempo, não é necessariamente retrospectiva, mas também pode
ser retrospectiva e, daí, pode significar “com vistas à nossa justificação”, o
que equivale dizer: “ a fim de que pudéssemos ser justificados”. A
interpretação retrospectiva entraria em conflito com o contexto imediatamente
subseqüente, que mostra claramente: (1) que Paulo não está pensando na
justificação objetiva de todo o corpo de Cristo, mas na justificação pessoal
dos pecadores; e (2) que ele entende que isto se dá por meio da fé.
c. Em 2 Co 5.19 lemos: “Deus estava em Cristo, reconciliando
consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões”. Desta
passagem se deduz a inferência de que a reconciliação do mundo com Cristo
envolve a não imputação do pecado ao pecador. Mas esta interpretação não é correta.
O que o apostolo que dizer é, evidentemente: Deus estava em Cristo
reconciliando Consigo o mundo, como transparece no fato de que Ele não imputa
aos homens os seus pecados, e de que Ele confiou aos Seus servos a palavra da
reconciliação. Observe-se que me logizomenos (tempo presente) refere-se a algo
que está indo avante constantemente. Não se pode conceber que isto faz parte da
reconciliação objetiva, pois, neste caso, a clausula seguinte, “e nos confiou a
palavra da reconciliação”, também teria que ser interpretada assim, o que é
inteiramente impossível.
Com relação a esta matéria, pode-se dizer que podemos falar
de uma justificação do corpo global de Cristo em Sua ressurreição, mas esta
justificação é puramente objetiva, e não deve ser confundida com a justificação
pessoal do pecador.
I. Conceitos Divergentes de Justificação.
1. O CONCEITO CATÓLICO ROMANO. O conceito católico romano se
confunde coma a santificação. Inclui os seguintes elementos na justificação:
(a) a expulsão do pecado que há no homem; (b) a infusão positiva da graça
divina; e (c) o perdão dos pecados. O pecador é preparado para a justificação
pela graça preveniente, sem quaisquer méritos de sua parte. Esta graça
preveniente leva o pecador a uma fides informis, à convicção de pecado, ao
arrependimento, a uma segura confiança na graça de Deus em Cristo, aos
princípios da nova vida, e ao desejo de ser batizado. Realmente, a justificação
consiste na infusão de novas virtudes, depois de efetuada a remoção da
corrupção do pecado no batismo. Depois da expulsão do pecado que nele há,
segue-se necessariamente o perdão do pecado ou a remoção da culpa do pecado. E
conforma o cristão avança de virtude em virtude, é capacitado a realizar obras
meritórias e recebe como recompensa uma porção maior da graça e uma
justificação perfeita. Pode-se perder a graça da justificação, mas também ela
pode ser restaurada pelo sacramento da penitência.
2. O CONCEITO DE PISCATOR. Piscator ensinava que somente a
obediência passiva de Cristo é imputada ao pecador na justificação, para o
perdão dos pecados; e que a Sua obediência ativa não tem nenhuma possibilidade
de lhe ser imputada, para a adoção de filhos e para uma herança eterna, porque
o homem Cristo devia isto a Deus em Seu próprio benefício. Ademais, se Cristo
tivesse cumprido a lei por nós, não poderíamos mais ser responsabilizados pela
observância da lei. Piscator considerava a sujeição à penalidade e a guarda da
lei como alternativas, uma excluindo a outra. Ele deixou aberta a porta para a
consideração da obediência pessoal do pecador como único fundamento da sua
esperança futura. Este conceito é muito semelhante ao dos arminianos, e segue de
perto a linha da doutrina de Anselmo, na Idade Média.
3. O CONCEITO DE OSIANDER. Osiander revelou a tendência de
reviver na Igreja Luterana os pontos essenciais da concepção católica romana da
justificação, embora com uma diferença característica. Ele afirmava que a
justificação não consiste da imputação da justiça vicária de Cristo ao pecador,
mas sim, da implantação de um novo princípio de vida. Segundo ele, a justiça
pela qual somos justificados é a justiça eterna de Deus o Pai, em nós infundida
por Seu Filho Jesus Cristo.
4. O CONCEITO ARMINIANO. Os arminianos afirmam que Cristo
não prestou estrita satisfação à justiça de Deus, mas, todavia, ofereceu uma
real propiciação pelo pecado, propiciação que foi graciosamente aceita como
satisfatória por Deus e por Ele posta como base para o perdão do pecado e,
assim, para a justificação do pecador. Embora isto só sirva para zerar contas
passadas, Deus também faz provisão para o futuro. De maneira igualmente
graciosa, Ele imputa ao crente a sua fé, para justiça, a fé que inclui toda a
vida religiosa do crente – sua obediência evangélica. Neste conceito, a fé não
é mais o simples instrumento do elemento positivo da justificação, mas a base
graciosamente admitida sobre a qual aquela repousa. Neste caso, a justificação
não é um ato judicial, mas, sim um ato soberano de Deus.
5. O CONCEITO BARTIANO. Apesar de Barth falar da
justificação como um ato instantâneo, todavia não a considera como um ato
realizado uma vez por todas, seguido então pela santificação. Segundo ele, a
justificação e a santificação vão de mãos dadas o tempo todo. Diz Pauck que,
segundo Barth, a justificação não é um crescimento ou um desenvolvimento ético;
ela sempre ocorre de novo, toda vez que homem chega ao ponto do completo
desespero quanto às crenças e aos valores sobre os quais edificou a sua vida.
Thurneysen também rejeita a idéia de que a justificação se dá uma vez por
todas, qualifica-a de pietismo e afirma que ela é fatal para a doutrina da
Reforma.
IV. A Santificação
2. O tempo da santificação.
A santificação reúne: 1) idéia de posição
perante Deus e instantaneidade; 2) prática e progressiva.
(a) Posicional e instantânea. A seguinte
declaração representa o ensino dos que aderem à teoria de santificação da
"segunda obra definida", feita por alguém que ensinou essa doutrina
durante muitos anos:
Supõe-se que a justificação é
obra da graça pela qual os pecadores, ao se entregarem a Cristo, são feitos
justos e libertados dos hábitos pecaminosos. Mas no homem meramente justificado
permanece um princípio de corrupção, uma árvore má, "uma raiz de
amargura", que continuamente o provoca a pecar. Se o crente obedece a esse
impulso e deliberadamente peca, ele perde sua justificação; segue-se portanto,
a vantagem de ser removido esse impulso mau, para que diminua a possibilidade
de se desviar. A extirpação dessa raiz pecaminosa é santificação. Portanto, é a
purificação da natureza de todo pecado congênito pelo sangue de Cristo
(aplicado pela fé ao realizar-se a plena consagração), e o fogo purificador do
Espírito Santo, o qual queima toda a escória, quando tudo é depositado sobre o
altar do sacrifício. Isso, e somente isso, é verdadeira santificação — a
segunda obra definida da graça, subseqüente à justificação, e sem a qual essa
justificação provavelmente se perderá.
A definição supra citada ensina que a pessoa
pode ser salva ou justificada sem ser santificada. Essa teoria, porém, é
contrária ao ensino do Novo Testamento.
O apóstolo Paulo escreve a todos os crentes como a
"santos" (literalmente, "os santificados") e como já
santificados (1 Cor. 1:2; 6:11). Mas essa carta foi escrita para corrigir esses
cristãos por causa de sua carnalidade e pecados grosseiros. (1 Cor. 3:1;
5:1,2,7,8.) Eram "santos" e "santificados em Cristo", mas
alguns desses estavam muito longe de ser exemplos de cristãos na conduta. Foram
chamados a ser santos, mas não se portavam dignos dessa vocação santa.
Segundo o Novo Testamento existe, pois, um sentido em que a
santificação é simultânea com a justificação.
(b) Prática e progressiva. Mas
será que essa santificação consiste somente em ser conferida a posição
de santos? Não, essa separação inicial é apenas o começo duma vida
progressiva de santificação. Todos os cristãos são separados para Deus em Jesus
Cristo; e dessa separação surge a nossa responsabilidade de viver para ele.
Essa separação deve continuar diariamente: o crente deve esforçar-se sempre
para estar conforme à imagem de Cristo. "A santificação é a obra da livre
graça de Deus, pela qual o homem todo é renovado segundo a imagem de Deus,
capacitando-nos a morrer para o pecado e viver para a justiça." Isso não
quer dizer que vamos progredir até alcançar a santificação e, sim, que
progredimos na santificação da qual já participamos.
A santificação é posicionai e prática — posicional em que é
primeiramente uma mudança de posição pela qual o imundo pecador se transforma
em santo adorador; prática porque exige uma maneira santa de viver. A
santificação adquirida em virtude de nova posição, indica-se pelo fato de que
todos os coríntios foram chamados "santificados em Cristo Jesus, chamados
santos" (1 Cor. 1:2). A santificação progressiva está implícita no fato de
alguns serem descritos como "carnais" (1 Cor. 3:3), o que significa
que sua presente condição não estava à altura de sua posição concedida por
Deus. Em razão disso, foram exortados a purificar-se e assim melhorar sua
consagração até alcançarem a perfeição. Esses dois aspectos da santificação
estão implícitos no fato de que aqueles que foram tratados como santificados e
santos (1 Ped. 1:2; 2:5), são exortados a serem santos (1 Ped. 1:15). Aqueles
que estavam mortos para o pecado (Col 3:3) são exortados a mortificar (fazer
morto) seus membros pecaminosos (Col 3:5). Aqueles que se despiram do homem
velho (Col. 3:9) são exortados a vestirem-se ou revestirem-se do homem novo.
(Efés 4:22; Col. 3:8.)
6. Santificação completa.
Muitas vezes esta verdade é discutida sob o tema:
"Perfeição cristã."
(a) Significado de perfeição. Há dois
tipos de perfeição: absoluta e relativa. É absolutamente perfeito aquilo que
não pode ser melhorado; isso pertence unicamente a Deus. E relativamente
perfeito aquilo que cumpre o fim para o qual foi designado; essa perfeição é
possível ao homem.
A palavra "perfeição", no Antigo
Testamento, significa ser "sincero e reto" (Gên 6:9; Jó 1:1). Ao
evitar os pecados das nações circunvizinhas, Israel podia ser uma nação
"perfeita" (Deut. 18:13). No Antigo Testamento a essência da
perfeição é o desejo e a determinação de fazer a vontade de Deus. Apesar dos
pecados que mancharam sua carreira, Davi pode ser chamado um homem perfeito e
"um homem segundo o coração de Deus", porque o motivo supremo de sua
vida era fazer a vontade de Deus.
No Novo Testamento a palavra "perfeito"
e seus derivados têm uma variedade de aplicações, e, portanto, deve ser
interpretada segundo o sentido em que os termos são usados. Várias palavras
gregas são usadas para expressar a idéia de perfeição: 1) Uma dessas palavras
significa ser completo no sentido de ser apto ou capaz para certa tarefa ou
fim. (2 Tim. 3:17.) 2) Outra denota certo fim alcançado por meio do crescimento
mental e moral. (Mat. 5:48; 19:21; Col. 1:28; 4:12 ; Heb. 11:40.) 3) A palavra
usada em 2 Cor. 13:9; Efés 4:12; e Heb. 13:21 significa um equipamento cabal.
4) A palavra usada em 2 Cor. 7:1 significa terminar, ou trazer a uma
terminação. A palavra usada em Apoc. 3:2 significa fazer repleto, cumprir,
encher (como uma rede), nivelar (um buraco).
A palavra "perfeito" descreve os
seguintes aspectos da vida cristã: 1) Perfeição de posição em Cristo (Heb.
10:14) — o resultado da obra de Cristo por nós. 2) Madureza e entendimento
espiritual, em contraste com a infância espiritual. (1 Cor. 2:6; 14:20;2Cor.
13:11; Fil. 3:15;2Tim. 3:17) 3) Perfeição progressiva. (Gál. 3:3.) 4) Perfeição
em certos particulares: a vontade de Deus, o amor ao homem, e serviço. (Col.
4:12; Mat. 5:48; Heb. 13:21.) 5) A perfeição final do indivíduo no céu. (Col.
1:28,22; Fil. 3:12; 1Ped. 5:10.) 6) A perfeição final da igreja, ou o corpo de
Cristo, isto é, o conjunto de crentes. (Efés. 4:13; João 17:23.)
(b) Possibilidades de perfeição. O Novo
Testamento apresenta dois aspectos gerais da perfeição: 1) A perfeição como um
dom da graça, o qual é a perfeita posição ou estado concedido ao arrependido em
resposta à suafé em Cristo. Ele é considerado perfeito porque tem um Salvador
perfeito e uma justiça perfeita. 2) A perfeição como realmente efetuada no
caráter do crente. É possível acentuar em demasia o primeiro aspecto e
descuidar do Cristianismo prático. Tal aconteceu a certo indivíduo que, depois
de ouvir uma palestra sobre a Vida Vitoriosa, disse ao pregador: "Tudo
isso tenho em Cristo." "Mas o senhor tem isso consigo, agora, aqui em
Glasgow?" foi a serena interrogação. Por outra parte, acentuando demais o
segundo aspecto, alguns praticamente têm negado qualquer perfeição à parte do
que eles encontram em sua própria experiência.
João Wesley (o fundador do Metodismo) parece
haver tomado uma posição intermediária entre os dois extremos. Ele reconhecia
que a pessoa era santificada na conversão, mas afirmava a necessidade da inteira
santificação como outra obra da graça. O que fazia essa experiência parecer
necessária era o poder do pecado, que era a causa de o cristão ser derrotado.
Essa bênção vem a quem buscar com fidelidade; o amor puro enche o coração e
governa toda a obra e ação, resultando na destruição do poder do pecado.
Essa perfeição no amor não é considerada como
perfeição absoluta, nem tampouco isenta o crente de vigilância e cuidados
constantes. Wesley escreveu: "Creio que a pessoa cheia do amor de Deus
ainda está propensa a transgressões involuntárias. Tais transgressões vocês
poderão chamá-las de pecados, se quiserem; mais eu não." Quanto ao tempo
da inteira santificação, Wesley escreveu:
"É esta morte para o
pecado e renovação no amor, gradual ou instantânea? Um homem poderá estar à
morte por algum tempo; no entanto, propriamente falando, não morre enquanto não
chegar o instante em que a alma se separa do corpo; e nesse momento ele vive a
vida da eternidade. Da mesma maneira a pessoa poderá estar morrendo para o
pecado por algum tempo; entretanto, não está morto para o pecado enquanto o
pecado não for separado de sua alma; é nesse momento que vive a plena vida de
amor. E da mesma maneira que a mudança sofrida quando o corpo morre é duma
qualidade diferente e infinitamente maior que qualquer outra que tenhamos
conhecido antes, tão diferente que até então era impossível conceber, assim a
mudança efetuada quando a alma morre para o pecado é duma classe diferente e
infinitamente maior que qualquer outra experimentada antes, e que ninguém pode
conceber até que a experimente. No entanto, essa pessoa continuará a crescer na
graça, no conhecimento de Cristo, no amor e na imagem de Deus; e assim
continuará, não somente até a morte, mas por toda a eternidade. Como
esperaremos essa mudança? Não em um descuidado indiferentismo, ou indolente
inatividade; mas em obediência vigorosa e universal, no cumprimento fiel dos
mandamentos, em vigilância e trabalho, em negarmo-nos a nós mesmos, tomando
diariamente a nossa cruz; como também em oração fervorosa e jejum, e atendendo
bem às ordenanças de Deus. E se alguém pensa em obtê-la de alguma outra maneira
(e conservá-la quando a haja obtido, mesmo quando a haja recebido na maior
medida) esse alguém engana sua própria alma."
João Calvino, que acentuara a perfeição do crente
pela consumada obra de Cristo, e que não era menos zeloso da santidade de que
Wesley, dá o seguinte relato da perfeição cristã:
"Quando Deus nos
reconcilia consigo mesmo, por meio da justiça de Cristo, e nos considera como
justos por meio da livre remissão de nossos pecados, ele também habita em nós,
pelo seu Espírito, e santifica-nos pelo seu poder, mortificando as
concupiscências da nossa carne e formando o nosso coração em obediência à sua
Palavra. Desse modo, nosso desejo principal vem a ser obedecer à sua vontade e
promover a sua glória. Porém, ainda depois disso, permanece em nós bastante
imperfeição para repelir o orgulho e constranger-nos à humildade." ( Ecl.
7:20; 1Reis 8:46.)
Ambas as opiniões, a perfeição como dom em Cristo
e a perfeição como obra real efetuada em nós, são ensinadas nas Escrituras; o
que Cristo fez por nós deve ser efetuado em nós. O Novo
Testamento sustenta um ideal elevado de santidade e afirma a possibilidade de
libertação do poder do pecado. Portanto, é dever do cristão esforçar-se para
conseguir essa perfeição. (Fil. 3:12; Heb.6:l.)
Em relação a isto devemos reconhecer que o
progresso na santificação muitas vezes implica uma crise na experiência, quase
tão definida como a da conversão. Por um meio ou outro, o crente recebe uma
revelação da santidade de Deus e da possibilidade de andar mais perto dele, e
essa experiência é seguida por um conhecimento interior de ter ainda alguma
contaminação. (Vide Isa. 6.) Ele chegou a uma encruzilhada na sua experiência
cristã, na qual deverá decidir se há de retroceder ou seguir avante, com Deus.
Confessando seus fracassos passados, ele faz uma reconsagração, e, como
resultado, recebe um novo aumento de paz, gozo e vitória, e também o testemunho
de que Deus aceitou sua consagração. Alguns têm chamado a essa experiência uma
segunda obra da graça.
Ainda haverá tentação de fora e de dentro, e daí a
necessidade de vigilância (Gál. 6:1; ICor. 10:12); a carne é fraca e o cristão
está livre para ceder, pois está em estado de prova (Gál. 5:17; Rom. 7:18, Fil.
3:8); seu conhecimento é parcial e falho; portanto, pode estar sujeito a
pecados de ignorância. Porém ele pode seguir avante, certo de que pode resistir
e vencer toda a tentação que reconheça (Tia. 4:7; 1 Cor. 10:13; Rom. 6:14;
Efés. 6:13,14); pode estar sempre glorificando a Deus cheio dos frutos de
justiça (1 Cor. 10:31; Col. 1:10); pode possuir a graça e o poder do Espírito e
andar em plena comunhão com Deus (Gál. 5:22, 23; Efés. 5:18; Col. 1:10,11; 1
João 1:7); pode ter a purificação constante do sangue de Cristo e assim estar
sem culpa perante Deus. (1 João 1:7; Fil. 2:15; 1Tess. 5:23).
Conhecendo as
Doutrinas da Bíblia
Myer Pearlman



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