terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Lição 7 - Tentação – A Batalha por nossas Escolhas e Atitudes





Lição 7 - Tentação - A Batalha por nossas Escolhas e Atitudes

     É importante que todos os crentes em Jesus saibam que Deus permite, às vezes, que sejamos tentados para que o seu nome seja glorificado e Satanás derrotado. Não é pecado ser tentado; até o nosso Senhor Jesus Cristo foi tentado (Hb 4.15). É pecado, sim, ceder à tentação. Por mais contraditório que pareça, a tentação é para o nosso próprio bem: "Bem-aventurado o varão que sofre a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam" (Tg 1.12). Dessa forma, é preciso estarmos preparados para reconhecermos as situações em que somos tentados e resistirmos.
        A tentação de Jesus no limiar de seu ministério terreno era o prenuncio da completa derrota final de Satanás e serve-nos de lição sobre como lidar com casos de tentação no dia a dia. A voz que veio do céu por ocasião do batismo de Jesus no rio Jordão, "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo" (Mt 3.17), parece ter deixado Satanás assustado, visto que se tratava daquele que veio para amarrar "o valente" e saquear "a sua casa" (Mt 12.29). Deus expulsou Satanás do céu, mas Jesus veio para expulsá-lo da terra fio 12.31).
       TENTAÇÃO
       O termo hebraico massá, "tentação, provação", é um substantivo feminino e ao mesmo tempo o nome do lugar onde houve a rebelião dos israelitas contra Moisés e contra Deus: "E chamou o nome daquele lugar Massá e Meribá, por causa da contenda dos filhos de Israel, e porque tentaram ao SENHOR, dizendo: Está o SENHOR no meio de nós, ou não?" (Êx 17.7); "Também em Tabe- rá, e em Massá, e em Quibrote-Hataavá provocastes muito a ira do SENHOR" (Dt 9.22); "E de Levi disse: Teu Tumim e teu Urim são para o teu amado, que tu provaste, em Massá, com quem contendeste nas águas de Meribá" (Dt 33.8). Apesar de ser um substantivo, aparece com certa frequência em nossas versões como verbo: "ou se já houve algum deus que tentou tomar para si um povo" (Dt 4.34, NAA); "Não tentareis o SENHOR, vosso Deus, como o tentastes em Massá" (Dt 6.16). Nas demais passagens, massa é traduzido como substantivo: "das grandes provas que viram os teus olhos, e dos sinais, e maravilhas, e mão forte, e braço estendido, com que o SENHOR, teu Deus, te tirou; assim fará o SENHOR, teu Deus, com todos os povos, diante dos quais tu temes" (Dt 7.19); "as grandes provas que os teus olhos têm visto, aqueles sinais e grandes maravilhas" (Dt 29.3); "Matando o açoite de repente, então, se ri da prova dos inocentes" (Jó 9.23). A Septuaginta traduziu massá porpeirasmós, "tentação", a mesma palavra usada com frequência no Novo Testamento como em: "E não nos induzas à tentação" (Mt 6.13).
       O nissá, de nassá, "testar, provar, tentar", que às vezes vem junto com massá, tem o sentido de teste como na passagem do sacrifício de Isaque: "E aconteceu, depois destas coisas, que tentou Deus a Abraão" (Gn 22.1); "Depois dessas coisas, pôs Deus Abraão à prova" (ARA, NAA); "Depois disto experimentou Deus a Abraão" (TB); e na visita da rainha de Sabá a Salomão (1 Rs 10.1). Esse teste tem por finalidade revelar ou desenvolver o nosso caráter (Êx 20.20; Jo 6.6). Muitas vezes, o sentido desse verbo é de experimento, até mesmo no campo científico. A Septuaginta traduziu nissá pelo verbo grego peirázo, "testar, experimentar, tentar, pôr à prova", usado também no Novo Testamento (At 16.7; 24.6; Ap 2.2); e por ekpeirázo, "provar, por à prova, testar, tentar", quatro vezes:
"Não tentareis o SENHOR, vosso Deus, como o tentastes em Massá" (Dt 6.16);


"E te lembrarás de todo o caminho pelo qual o SENHOR, teu Deus, te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, para te tentar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias os seus mandamentos ou não... que no deserto te sustentou com maná, que teus pais não conheceram; para te humilhar, e para te provar, e para, no teu fim, te fazer bem" (Dt 8.2, 16);

"E tentaram a Deus no seu coração, pedindo carne para satisfazerem o seu apetite" (Sl 78.18 [77.18 LXX]).
    

     Esse mesmo verbo ekpeirázo aparece também quatro vezes no Novo Testamento, na resposta de Jesus a Satanás: "Não tentarás o Senhor, teu Deus" (Mt 4.7; Lc 4.12), uma citação em Deuteronômio 6.16; a terceira vez com o sentido de teste, por à prova (Lc 10.25), e a última vez quando o apóstolo Paulo chama a atenção dos crentes para não tentar a Cristo, citando a passagem de Refidim, de "Massá e Meribá" (Êx 17.1-7; l Co 10.9).

A TENTAÇÃO DE JESUS
      Como Jesus, sendo Deus em toda a sua plenitude, da mesma substância do Pai e membro da Trindade juntamente com o Espírito Santo, pôde ser tentado?
      "Porque Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta" (Tg 1.13). Sim, é possível; veja o por quê. A Bíblia ensina que Deus é perfeito; sendo, pois, o Filho Deus igual ao Pai e da mesma natureza, Jesus não precisava aumentar ou diminuir seus conhecimentos. Nada teria para aprender e não havería como melhorar ou piorar seu comportamento. Porém, a Palavra de Deus revela que o Senhor Jesus Cristo é o verdadeiro Deus e o verdadeiro homem (Jo 1.1, 14; Rm 1.3, 4; 9.5). As Escrituras Sagradas apresentam diversas características humanas em Jesus; por exemplo, o relato sagrado de sua infância enfoca o seu desenvolvimento físico, intelectual e espiritual: "E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens... E o menino crescia e se fortalecia em espírito, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele” (Lc 2.40, 52). O profeta Isaías anunciou de antemão que Emanuel "manteiga e mel comerá, até que ele saiba rejeitar o mal e escolher o bem" (Is 7.15). A infância de Jesus é uma amostra clara da natureza humana de Cristo. "Porque há um só Deus, e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem" (l Tm 2.5).
       Jesus Cristo é o eterno e verdadeiro Deus e ao mesmo tempo o verdadeiro homem. Tomou-se homem para suprir a necessidade da humanidade. O termo "Emanuel", que o próprio escritor sagrado traduziu por "DEUS CONOSCO" (Mt 1.23) mostra que Deus assumiu a forma humana e veio habitar entre os homens: "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Uni- gênito do Pai, cheio de graça e de verdade" (Jo 1.14). O ensino da humanidade de Cristo, no entanto, não neutraliza a sua divindade, pois ele possui duas naturezas: a humana e a divina, o que está claramente expresso no seu nome EMANUEL. Jesus foi revestido do corpo humano porque o pecado entrou no mundo por um homem, e pela justiça de Deus tinha de ser vencido por um ser humano. A Bíblia ensina que o pecado entrou no mundo por Adão (Rm5.12,18,19). Jesus se fez carne, tomou- -se homem sujeito ao pecado, embora nunca houvesse pecado, e venceu o pecado como homem (Rm 8.3). A Bíblia mostra que todo o gênero humano está condenado; que o homem está perdido e debaixo da maldição do pecado (SI 14.2-3; Rm 3.23). Todos são devedores, por isso ninguém pode pagar a dívida do outro. A Bíblia afirma que somente Deus pode salvar (Is 43.11). Então, esse mesmo Deus tomou-se homem, trazendo-nos o perdão de nossos pecados e cumprindo ele mesmo a lei que Moisés promulgou no Sinai (At 4.12; 1 Tm 3.16; Cl 2.14). Quando Jesus estava na terra, ele não se apegou às prerrogativas da divindade para vencer o diabo, mas aniquilou a si mesmo, fazendo-se semelhante aos homens (Fp 2.5-8). Como homem, tinha certa limitação quanto ao tempo e ao espaço e, portanto, era submisso ao Pai. Eis a razão de ele ter dito em João 14.28: "O Pai é maior do que eu".
   Os evangelhos revelam atributos característicos do ser humano em Jesus, como por exemplo:


     Assim como é pecado negar a humanidade de Cristo (1 Jo 4.2-3; 2 Jo 7), é pecado também negar a sua divindade, pois Jesus é tanto humano como divino. Como homem, sentiu as dores do ser humano; e, como Deus, supriu a necessidade da humanidade. Foi nessa condição humana que Jesus foi tentado por Satanás no deserto logo no início do seu ministério terreno como registrado nos evangelhos sinóticos (Mt 4.1-11; Mc 1.12, 13; Lc 4.1-13). No entanto, a tentação de Jesus não se restringiu apenas aos 40 dias do deserto, mas permaneceu durante toda a sua carreira ministerial (Lc 22.28; Hb 4.15). Essa tentação é o primeiro acontecimento registrado de sua história depois do batismo por João Batista no rio Jordão.

A PEREGRINAÇÃO DE ISRAEL NO DESERTO EA TENTAÇÃO DE JESUS
      Há certo paralelismo entre esses dois acontecimentos: quarenta anos de peregrinação, quarenta dias de tentação; quarenta dias e quarenta noites de jejum, Moisés e Jesus; quarenta anos Israel foi tentado no deserto, Jesus foi tentado durante quarenta dias no deserto. Deus guiou o seu povo no deserto para colocá- -lo à prova (Dt 8.2), e o Senhor Jesus "foi levado pelo Espírito ao deserto" (Lc 4.1); "Então, foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo" (Mt 4.1).
      O deserto é uma das características mais emblemáticas da Terra Santa; é um lugar de perigo com risco de ataques de nômades piratas ou ladrões, serpentes e escorpiões, falta de água, comida, com chances de perder-se e ficar desorientado, entre outros. No entanto, é no deserto que os seres humanos percebem a grandeza de Deus e a fragilidade humana; é um lugar de profundo silêncio para meditação e oração, onde há vastidão de espaço para ouvir a voz de Deus. Burge, especialista em Oriente Médio, na sua obra A Bíblia e a terra, descreve: "O deserto é um símbolo teológico para luta e privação. Para sofrimento e perda. Vulnerabilidade e desamparo. Deslocamento e confusão. Mas também é o local espiritual onde o renovo acontece e o homem, em meio à crise, descobre algo sobre Deus, que antes não conhecia" (p. 46) - o grifo não é nosso. Diante do conhecimento geográfico, então, entendemos que grandes homens de Deus no Antigo e no Novo Testamento, como Moisés (At 7.30-33), Elias (l Rs 19.4-10) e João Batista (Lc 1.80; 3.2), foram transformados e preparados para o serviço sagrado no deserto.
       Os evangelhos não nos informam o local exato em que Jesus suportou os quarenta dias de jejum e tentações. Mas há concordância entre muitos estudiosos de que se trata de uma parte despovoada da Judeia, onde João Batista iniciou o seu ministério. A tradição posterior indica o monte da Quarentena a oeste de Jerico, onde foi construída na encosta da montanha uma igreja no século 6.
       Segundo a narrativa de Mateus, Jesus jejuou "quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome". Moisés também jejuou quarenta dias e quarenta noites quando recebeu as tábuas da lei no monte Sinai: "E esteve Moisés ali com o SENHOR quarenta dias e quarenta noites; não comeu pão, nem bebeu água, e escreveu nas tábuas as palavras do concerto, os dez mandamentos" (Êx 34.28). Moisés reiterou essa experiência posteriormente (Dt 9.9). Há algo similar na tentação de Jesus. Talvez a intenção do Espírito Santo seja apresentar Jesus como um novo Moisés, o novo legislador, pois o próprio Senhor Jesus se apresentou com tal autoridade no pronunciamento do Sermão do Monte com a expressão "ouvistes que foi dito aos antigos", ou fraseologia similar, "eu porém vos digo" (Mt 5.21,22,27,28, 31-34, 38, 39, 43, 44). Depois de Moisés, somente o profeta Elias e o Senhor Jesus tiveram experiência semelhante de um jejum quarenta dias (1 Rs 19.8; Mt 4.2). São três situações específicas que não devem ser tomadas como doutrina da Igreja. Nem mesmo Saulo de Tarso praticou um jejum de quarenta dias no início de sua caminhada com Cristo; ele jejuou apenas três dias e três noites: "E esteve três dias sem ver, e não comeu, nem bebeu" (At 9.9).
      Elias, o segundo Moisés, esteve quarenta dias sem comer (l Rs 19.8), e da mesma maneira o Senhor Jesus, o Moisés Maior, esteve quarenta dias e quarenta noites sem comer (Mt 4.2). Lucas afirma que Jesus, "naqueles dias, não comeu coisa alguma, e, terminados eles, teve fome" (Lc 4.2). O verbo grego, nesteuou, "jejuar", significa literalmente "abster-se de alimento" Nenhum desses evangelistas fala sobre sede ou água. Parece que Jesus se absteve totalmente quarenta dias e quarenta noites de alimento, e não de água (Lc 4.2).
       Apesar de o jejum ser uma prática salutar na vida cristã até os dias atuais, ninguém deve exagerar e querer imitar a Moisés em um jejum desse tipo, durante quarenta dias e quarenta noites. Isso aconteceu só duas vezes com Moisés e ninguém mais; foi algo inédito. Portanto, não deve ser estabelecido como doutrina (Êx 34.28; Dt9.9,18). Esse esclarecimento é importante porque sempre aparecem os exibicionistas dizendo jejuar ou estar jejuando quarentas dias. Na verdade, jejum é abster-se de alimento; essa gente se abstém de sólido, mas se alimenta de milk-shake, vitamina, e chama isso de jejum, que na verdade não passa de uma dieta. O jejum absoluto é abstenção de alimento, seja ele sólido, líquido ou cremoso; o jejum parcial é aquele em que o crente se abstém só de alimento, ingerindo água, aos poucos, e somente água, água pura, sem chá, sem suco, sem vitamina, sem milk-shake.

A TRÍPLICE TENTAÇÃO
Nada há no relato da tentação de Jesus no deserto que possa sustentar uma interpretação subjetiva, simbólica ou visionária. A maioria dos expositores bíblicos reconhece os relatos como descrição de fatos externos reais, o diálogo como pessoal: "Alguns estudiosos comparam o debate intelectual entre Jesus e o diabo à forma dos debates rabínicos" (KEENER, 2017, p. 53, 54). As possíveis dificuldades do texto sagrado estão em como "o diabo o transportou à Cidade Santa, e colocou-o sobre o pináculo do templo" (Mt 4.5); e em como o diabo teria transportado Jesus a um monte muito alto e "e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles" (Mt 4.8). Não se sabe como esses deslocamentos ou movimentações ocorreram, nem detalhes de como Satanás se apresentou a Jesus, mas se sabe que ele se apresenta de diversas maneiras, em forma de serpente, como aconteceu no Éden (Gn 3.1-5; Ap 12.9), ou até mesmo como um anjo de luz (2 Co 11.14). De qualquer modo, a formulação: "Então, o tentador, aproximando-se" (Mt 4.3, ARA) é um estilo que expressa nitidamente que o diabo se aproximou de Jesus como personagem físico. Além disso, a teologia rabínica ensinava que os espíritos, ao se mostrarem às pessoas, faziam-no em figura humana. A linguagem: "Então o diabo o transportou à Cidade Santa" parece confirmar esse pensamento rabínico.
      Mateus e Lucas registraram as três últimas investidas de Satanás contra Jesus, e elas foram o ápice dessas tentações. Na verdade, Jesus foi tentado em todos os quarenta dias: "Imediatamente o Espírito o impeliu para o deserto. Ali ficou quarenta dias tentado por Satanás" (Mc 1.12, 13, TB); "quarenta dias foi tentado pelo diabo" (Lc 4.2). E continuou sendo tentado durante todo o tempo de seu ministério (Lc 22.28; Hb 4.15).
       O relato de Mateus apresenta as três tentações na ordem cronológica, como de fato aconteceu, segundo a opinião da maioria dos expositores bíblicos, diferentemente de Lucas, que inverte a ordem entre a segunda e a terceira tentações, isso em relação a Mateus. A tentação no pináculo do templo é posterior à do "monte muito alto" em Lucas (Lc 4.5, 9). O pináculo era o lugar mais alto do complexo do segundo templo. O termo grego é pterygion, que significa "pequena asa" e designa a ponta ou extremidade de alguma coisa, que a Vulgata Latina traduziu por pinnaculum. Estudos em Josefo e na Mishná indicam a extremidade sudeste da área do templo com vista para o vale de Cedrom.
       A sequência do relato de Mateus é a seguinte: l) "Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães" (Mt 4.3); 2) "o diabo o transportou à Cidade Santa, e colocou-o sobre o pináculo do templo, e disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo [...]" (Mt 4.5, 6); 3) "Novamente, o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles" (Mt 4.8).
       O inimigo de nossa alma é identificado na presente narrativa da tentação no deserto por três nomes: o diabo, o tentador e Satanás (Mt 4.1, 3, 10). A primeira tentação tinha como um dos objetivos levar Jesus a se desviar do programa divino. O Filho aceitou a condição humana de completa obediência ao Pai, por isso cabia a Jesus cumprir o dever de confiar em Deus para o seu sustento. Como ser humano, o Senhor precisava confiar na providência divina; do contrário, seria diferente dos humanos. O poder de Jesus para operar milagres não era para benefício próprio; era para servir aos outros, não a si mesmo. Ele nunca fez uso pessoal de seus poderes: "Salvou os outros e a si mesmo não pode salvar-se" (Mt 27.42); "Salvou os outros e não pode salvar- -se a si mesmo" (Mc 15.31). De modo que transformar pedras em pães significava ser Jesus a sua própria providência e subverter a ordem natural do programa divino. Uma vez que nós, seres humanos, precisamos confiar na providência divina, nesse caso o Senhor se tornaria diferente dos humanos.
     Satanás sabia que Jesus era o Filho de Deus; sem dúvida alguma ele ouviu com a multidão o testemunho do Pai: "E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo" (Mt 3.17). Mas, nesse caso, Satanás se aproveita da fragilidade física proveniente da fome para desafiar Jesus a provar a sua filiação divina operando um majestoso milagre de transformar pedras em pães. O Senhor Jesus não precisava provar nada para o diabo, mas o derrotou pelo poder da Palavra de Deus, ao responder: "Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus" (Mt 4.4). Essas palavras são tiradas do Antigo Testamento, de uma tentação de Israel no deserto: "E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram, para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas que de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem" (Dt 8.3). A resposta de Jesus deixou o diabo completamente desarticulado nos seus argumentos. Tendo sido vencido, Satanás tenta um segundo round.
         Na segunda tentação, o diabo ainda se apega à questão da filiação divina e, visto ter sido derrotado pelo poder da Palavra de Deus, ele agora citada de maneira truncada as Escrituras: "Então o diabo o transportou à Cidade Santa, e colocou-o sobre o pináculo do templo, e disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; porque está escrito: Aos seus anjos dará ordens a teu respeito, e tomar-te-ão nas mãos, para que nunca tropeces em alguma pedra" (Mt 4.5,6). O diabo cita Salmos 91.11, 12, mas o faz fora do contexto. A proposta apresentada por ele é substituir a fé pela presunção. O diabo tentou persuadir Jesus a cometer um ato de vaidade como demonstração pública de que era enviado por Deus. Mas a resposta de Jesus mostra que o diabo está tentando Jesus a fazer exatamente o que os israelitas fizeram em Massá, quando se rebelaram contra Moisés e contra Deus (Êx 17.7). É emblemático que o Senhor Jesus tenha respondido usando as palavras do próprio contexto da rebelião do deserto: "Não tentareis o SENHOR, vosso Deus, como o tentastes em Massá" (Dt 6.16); "Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor, teu Deus" (Mt 4.7).
         A terceira e última dessas três investidas satânicas é descrita em Lucas com algumas informações adicionais e algumas omissões em relação ao relato de Mateus: "E o diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe, num momento de tempo, todos os reinos do mundo. E disse-lhe o diabo: Dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero. Portanto, se tu me adorares, tudo será teu" (Lc 4.5-7). Em Lucas essa é a segunda tentação; diferentemente de Mateus, Lucas não segue a ordem cronológica. Lucas diz que o diabo mostrou a Jesus todos os reinos do mundo "num momento de tempo", expressão que parece apoiar a ideia de uma "visão". Não se sabe como isso aconteceu; o certo é que do alto da montanha podia ver os antigos territórios ocupados pelo Egito, Assíria, Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma. O diabo diz a Jesus que a autoridade sobre os reinos do mundo lhe foi entregue, bem como o poder de dá- -los a quem quiser. Portanto, ele ofereceu tudo isso a Jesus pelo preço de uma só adoração.
        Teria Satanás o controle do mundo a ponto de oferecê-lo a quem desejasse? Sabe-se que ele é o "pai da mentira" (Jo 8.44). A fé cristã repousa sobre a convicção de que a autoridade sobre o mundo pertence, em última análise, a Deus. Mas ele pode permitir que outro a exerça de forma passageira e limitada, e é dessa forma que Satanás aparece como "o príncipe deste mundo" (Jo 12.31); "o deus deste século" (2 Co 4.4); "o príncipe das potestades do ar" (Ef 2.2); "os príncipes das trevas deste século, [...] as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais" (Ef 6.12). Tudo isso que o diabo oferece a Jesus em troca de uma adoração, Deus, o Pai, já havia oferecido ao Filho definitivamente e para sempre (Sl 2.8). Mais uma vez, Jesus derrota Satanás pelo poder da Palavra de Deus: "Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele servirás" (Mt 4.10), uma citação da lei de Moisés (Dt 6.13). O diabo usou todos os seus recursos para desviar o Senhor Jesus de sua missão. Adão fracassou no Éden, Israel fracassou no deserto, mas Jesus venceu!

VENCENDO AS TENTAÇÕES
      Quando for o momento da batalha espiritual, em que percebemos algo atacando o trabalhar de Deus na nossa vida, lembrar o episódio da tentação de Jesus no deserto é encorajador. A história demonstra que Jesus entende o que nós passamos quando somos tentados porque ele enfrentou as mesmas tentações para pecar que vivenciamos todos os dias. O Senhor Jesus resistiu à tentação, e por isso podemos contar com sua ajuda para agirmos da mesma forma, "porque, naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados" (Hb 2.18). As perguntas que Satanás faz a Jesus envolvem devoção a Deus. Isso nos leva a analisar qual nosso comprometimento com o Senhor e qual o fundamento da nossa fé, se é a comida física ou a Palavra de Deus. É o indicativo de estarmos ou não preparados para enfrentar os ataques malignos.
        É possível preparar-nos para lidar com as tentações do dia a dia, estabelecendo algumas maneiras de responder quando o pecado se apresentar. O texto de Provérbios 4.14, 15 nos alerta para não seguirmos o caminho dos maus, não os tomarmos como exemplo de vida e nos desviarmos da comunhão com ele. O apóstolo Paulo recomenda em suas cartas que os irmãos e as irmãs fujam da tentação (l Co 6.18; 10.14; l Tm 6.9-11), e Tiago aconselha que se resista ao diabo (Tg 4.7). Além disso, como servos de Cristo, somos instrumentos para ajudar as outras pessoas a vencerem a tentação. Nosso papel é encorajá-las na sua jornada com Cristo e não as induzir ao caminho mau.

TENTAÇÃO -A BATALHA POR NOSSAS ESCOLHAS E ATITUDES
                                                     Esequias Soares & Daniele Soares

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NOTAS :
FONTE :APAZDOSENHOR,ORG

O diabo conduziu JESUS para o alto, mostrando-lhe dali todos os reinos do orbe terrestre, particularmente “num momento”. O tentador afirma que toda essa esfera de poder e sua glória lhe fora entregue. Por isso também poderia passá-la adiante segundo seu bel-prazer. O diabo exige de JESUS que o adore se quiser o que oferece.
Essa condição (a adoração) que Satanás relaciona com a transferência de seu senhorio foi considerada uma tentação grosseira demais. Qualquer israelita teria rejeitado, imediatamente e com indignação e justa ira, uma proposta dessas. O sentido é, porém, o seguinte:
O povo de Israel havia recebido de DEUS a promessa de reinar sobre os outros povos, motivo pelo qual aguardava o Messias, por meio do qual essa promessa deveria ser cumprida.
Portanto, não havia absolutamente nada incorreto no desejo de avançar em direção a esse futuro. É a essa incumbência que DEUS dera ao povo que o inimigo se reporta. Do cume da montanha o tentador lhe mostra, em um único relance, todos os reinos do mundo, toda a terra habitada. Foram magia e ofuscamento satânicos. Todos os milagres satânicos têm uma faceta enganosa. Possuem uma aparência fascinante (2Ts 2.9). Não são milagres de bênção, que conduzem a DEUS, mas artifícios, ilusão fantástica, que desviam as almas de DEUS. Estaríamos muito equivocados se imaginássemos o tentador como aquela figura distorcida em que a Idade Média o transformou.
A palavra do diabo “Todo esse poder e sua glória… me foi entregue” contém a alusão a uma reivindicação legítima de senhorio. Portanto, como podemos inferir, antes de sua rebelião Satanás tinha recebido nossa terra como seu domínio. E diante dele encontra-se aquele a quem havia sido prometida a soberania sobre o mundo (cf. Sl 2.8; Dn 7.13s; etc.) e que agora viera para destruir as obras do diabo (1Jo 3.8b). É inegável que Satanás exerce um terrível poder no mundo. É capaz de elevar a pessoa favorecida por ele ao mais alto degrau do poder terreno. É o que a experiência demonstra repetidamente. O próprio JESUS fala do archon deste mundo, i. é, do detentor de poder e soberano deste mundo, em Jo 12.31; 14.30; 16.11. O Senhor levou este potentado sumamente a sério. E também os apóstolos do Senhor sabem do terrível poder do deus deste éon [desta era] em 2 Co 4.4 e Ef 6.12. E toda pessoa que trabalha no reino de DEUS pode relatar a respeito desse terrível fato de ter o terrível inimigo dentro e em redor de si, pela mais amarga experiência própria. O cristão sabe como é poderoso o velho inimigo mau. Porém – e novamente porém – apesar dessas declarações sobre o diabo como inimigo mortal de DEUS, a fé sempre, constantemente, pode testemunhar maravilhosamente o singular e único DEUS do céu e da terra! O cristão tem certeza do bendito fato de que em tudo o que vem a seu encontro ele não precisa contar com dois senhores, ou seja, DEUS e Satanás, mas apenas e integralmente com o único Senhor. Foi isso que também sustentou o Senhor, como nosso inigualável exemplo, nessa segunda tentação pelo diabo. Contou exclusivamente com DEUS, seu Pai.
JESUS havia desmascarado a artimanha do diabo. JESUS também conhecia as promessas que haviam sido dadas ao povo de Israel e a seu Messias em vista da primazia de Israel sobre os demais povos. Contudo, em lugar algum a Escritura dizia que essas promessas dadas no AT acerca da eleição divina e universal de Israel dentre as nações forçosamente significaria, p. ex., um privilégio exterior ou uma posição de domínio político de Israel sobre os povos. Era precisamente esse o elemento satânico na intenção tentadora do diabo. – Infelizmente, na época de JESUS o povo eleito já havia se devotado inteiramente a essa dimensão satânica da imagem política universal do Messias (cf. o exposto sobre Lc 3, no tocante à falsa expectativa messiânica daquele tempo, e ao 17º salmo de Salomão).
O assédio sedutor de Satanás na segunda tentação, portanto, consistia em que JESUS deveria ceder, no curso de sua obra, aos desejos messiânicos terrenos do Israel carnal. Desse modo ele conquistaria o favor do povo e a cooperação dos líderes religiosos (os fariseus e escribas). Então colheria um triunfo após o outro, levando, pois, à gloriosa e esplendorosa realização e execução das promessas do AT acerca de Israel e seu Messias. Essa era a interpretação satânica da Bíblia.
Fritz Rienecker. Comentário Esperança Evangelho de Lucas. Editora Evangélica Esperança.

2- A BUSCA PELO PODER TERRENO.

Satanás exigiu dele honra e adoração: Portanto, se tu me adorares, tudo será teu, v. 7.
(1) Satanás deseja que o Senhor o adore.
Talvez ele não queira dizer nunca mais adorar a DEUS Pai, mas adorá-lo junto com a adoração oferecida a DEUS Pai; porque o diabo sabe, que se ele conseguir apenas uma vez se fazer sócio, logo será o único proprietário. Em segundo lugar, Satanás faria um contrato com o Senhor JESUS, de que quando, de acordo com esta promessa, Ele tomasse posse dos reinos deste mundo, não faria nenhuma alteração nas religiões do mundo, mas toleraria as nações como havia feito até aquele momento, permitindo que sacrificassem aos demônios (1 Co 10.20). Por esta proposta, o Senhor JESUS deveria ainda manter o culto aos demônios no mundo, e então deixá-lo tomar todo o poder e a glória dos reinos se lhe agradasse. Que a riqueza e a grandeza desta terra fiquem para quem quiser; porém, quanto a Satanás, este nada terá, pois não tem o coração dos homens, bem como os seus sentimentos e a sua adoração. O diabo só pode operar nos filhos da desobediência, e é assim que ele eficazmente os devora.
(2) Como o nosso Senhor JESUS triunfou sobre esta tentação.
Ele deu à tentação uma repulsa terminante, e a rejeitou com veemência (v. 8): “Vai-te, Satanás, não suporto a menção disto. O que? Adorar o inimigo do DEUS a quem eu vim servir? e do homem a quem eu vim salvar? Não, Nunca farei isto.” Uma tentação como esta não era para ser analisada, mas recusada imediatamente; o assunto foi liquidado com uma única frase, Está escrito: Adorarás o Senhor, teu DEUS, e só a Ele servirás; e não somente isto, mas somente a Ele adorarás; a Ele e a nenhum outro. Portanto, CRISTO não adorará a Satanás, e quando tiver os reinos do mundo entregues a si por seu Pai, como espera em breve receber, jamais permitirá que qualquer adoração ao diabo continue neles. Onde quer que chegue o seu Evangelho, tudo o que for maligno será perfeitamente arrancado e abolido. CRISTO não fará nenhum acordo com o diabo. O politeísmo e a idolatria deverão sucumbir, quando se levantar o reino de CRISTO. Os homens devem se converter do poder de Satanás para DEUS, do culto aos demônios para o culto ao único DEUS vivo e verdadeiro. Esta é a grande lei divina que DEUS restabelecerá entre os homens, e por sua santa religião reduzirá o homem à obediência: só DEUS deve ser adorado e servido; portanto, qualquer que toma qualquer criatura como objeto de culto religioso - mesmo que seja um santo ou um anjo, ou a própria virgem Maria - frustra diretamente o desígnio de CRISTO, e cai no paganismo.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento MATEUS A JOÃO Edição completa.Editora CPAD. pag. 547-548.

Lc 4.8 Uma vez mais, JESUS respondeu a Satanás com as Escrituras. Para JESUS, obter o domínio do mundo mediante a adoração de Satanás seria não apenas uma contradição (Satanás ainda estaria no comando), mas também romperia o primeiro mandamento, “Adorarás o Senhor, teu DEUS, e só a ele servirás” (Dt 6.4,5, 13). Para realizar a sua missão de trazer salvação ao mundo, JESUS precisaria seguir o caminho da submissão a DEUS.
Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal. Editora CPAD. Vol. 1. pag. 341.

Também desta vez JESUS sai vitorioso da tentação, rejeitando a oferta do diabo com as palavras: “Ao Senhor, teu DEUS, venerarás prostrado e só a ele servirás!” Essa declaração é citação de Dt 6.13 conforme o texto alexandrino da Septuaginta. O texto hebraico diz: “A Javé, teu DEUS temerás, a ele honrarás.”
A resposta de JESUS, que também pode ser traduzida como “Ao Senhor, teu DEUS, adorarás e somente a ele servirás, passou a ser o grande lema de sua vida na terra. Com tudo o que é e possui, ele coloca-se à disposição obediente ao Pai e DEUS. “O Filho nada pode fazer de si mesmo (“não tem poder” não deve ser interpretado segundo a natureza do Filho, mas segundo sua vontade), senão somente aquilo que vir fazer o Pai” (Jo 5.19). Quem adora a DEUS abre mão de si integralmente, a fim de perder-se totalmente para DEUS em obediência incondicional a cada instante, dissolvendo-se no seu serviço. A palavra para servir (latréuo - εξυπηρετούν - Lê-se éxipiretô) designa, no presente caso, o serviço sacerdotal. A vida e atuação de JESUS foram um constante serviço sacerdotal na singela obediência, até a morte, sim, até a morte na cruz (Fp 2.8). “Embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu” (Hb 5.8).
Esse aspecto de obediência absoluta também deve ser conferido à nossa vida por intermédio de JESUS. Deve ser sustentado pela adoração a DEUS e devoção a ele no serviço sacerdotal (latréuo - εξυπηρετούν - Lê-se éxipiretô). – Essa trajetória de obediência, no entanto, representa uma trajetória de sacrifício radical. Cabe render-se constantemente, com todos os desejos vãos, teimosos e arbitrários, sobre o altar de DEUS, entregando assim a vida como oferenda a nosso DEUS (cf. Rm 12.1).
Esse sacrifício em que constantemente entregamos ao Senhor a nós mesmos e a vida – inclusive e principalmente em todos os instantes críticos do dia-a-dia – é obediência diante da vontade de DEUS. Ele é, como Paulo ainda acrescenta, “o culto a DEUS condizente com a palavra”. É importante que aqui se use para “culto a DEUS” a mesma palavra grega (na forma de substantivo) que JESUS emprega na frase “E somente a ele servirás (a saber, latreia - εξυπηρετούν - Lê-se éxipiretô)”, ou seja, o serviço sacerdotal em devotada obediência.
Essa obediência que “sacrifica”, e por meio da qual se processa a santificação do cristão, só tem um único comportamento: obediência integral, pura, pontual, conscienciosa e alegre!
Sintetizando: na segunda tentação, JESUS deveria simbolizar e incorporar vitoriosamente a obediência incondicional, não dividida e alegre, que constitui o outro lado tão importante da autêntica fé.
Fritz Rienecker. Comentário Esperança Evangelho de Lucas. Editora Evangélica Esperança.

IV - A TENTAÇÃO DE SER NOTADO
1- A ARTIMANHA DO INIMIGO.

Como o diabo apoiou e reforçou esta tentação. Ele fez a sua sugestão dizendo, “Está escrito”, v. 10. CRISTO havia citado as Escrituras contra ele; e ele achou que estaria em pé de igualdade com CRISTO, e mostraria que podia citar as Escrituras tanto quanto o Senhor. Os hereges e sedutores têm procurado perverter as Escrituras, utilizando textos isolados e fora de contexto, para cometer as piores iniquidades. Mandará aos seus anjos, acerca de ti, se tu fores seu Filho, que te guardem e que te sustentem nas mãos. E agora que JESUS estava (supostamente, creio eu, em pensamento - Observação do Pr. Henrique) no pináculo do templo, poderia esperar especialmente esta ministração de anjos; porque, sendo o Filho de DEUS, o templo era o lugar adequado onde Ele deveria estar (cap. 2.46). E, além disto, se algum lugar debaixo do sol tivesse uma guarda de anjos constantemente, deveria ser este lugar, Salmos 68.17. É verdade, DEUS prometeu a proteção de anjos para nos encorajar a confiar nele, não para tentá-lo; a promessa da presença de DEUS está conosco, e junto com ela está também a promessa da ministração dos anjos; mas esta promessa referente aos anjos não vai além da promessa da presença do Senhor: Eles te guardarão quando estiveres andando pelo caminho, onde estiver o teu caminho, mas não se presumires voar nos ares.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento MATEUS A JOÃO Edição completa. Editora CPAD. pag. 548.

A passagem citada é do Salmo 91.11, 12. De acordo com a forma em que se apresenta aqui em Lucas 4.10, 11, segue a Septuaginta (SI 90.11, 12). Não obstante, segundo citada pelo diabo, existe uma omissão que alguns consideram importante, outros não tanto. Segundo o texto hebraico, o Salmo 91.11 termina com as palavras: “que te guardem em todos os teus caminhos”. Lucas 4.10 simplesmente diz “que te guardem”. Portanto, estão suprimidas as palavras “em todos os teus caminhos”. Ao incluir essas palavras, DEUS promete proteger o homem justo em todos os seus justos caminhos, pois estes são os caminhos do homem que habita no abrigo do Altíssimo, que mora sob a sombra do Onipotente e que encontrou refúgio em Jeová, sobre quem ele pôs seu amor. Por conseguinte, estes são os caminhos do santo (Pv 2.8), do homem bom (Pv 2.20). É a tal pessoa que se aplicam as palavras “Dará instruções a seus anjos a teu respeito, que te guardem em todos os teus caminhos”. Ao omitir as palavras “em todos os teus caminhos”, porventura não se favorece a interpretação da passagem como uma promessa de Jeová de proteger o justo, não importa o que faça? Interpretado assim, a passagem parece corresponder mais ao que o diabo quer que JESUS faça.
Não obstante, esse aspecto é provavelmente de menor importância, já que o que Satanás omite vem a ser muito mais que as palavras de uma citação. Ele omite qualquer referência à verdade bíblica que DEUS não tolera, mas condena e castiga a imprudência, jogar com a providência, lançar-se impulsivamente a um perigo totalmente injustificado (Gn 13.10, 11; Et 5.14; 7.6, 10; SI 19.13; Dn 4.28-33; 5.22, 23; Rm 1.30; 2 Pe 2.10).
Atender à proposta de Satanás era tentador, pois JESUS sabia que possuía poderes extraordinários. Em contrapartida, que homem existe que, quando se lhe pede que prove o argumento que tem apresentado, não se sente como que no dever de responder imediatamente, em vez de refletir primeiro quanto ao direito de atender tal exigência? Não obstante, JESUS não caiu nessa armadilha. Ele percebe que fazer o que Satanás lhe propõe equivaleria a substituir a fé pela conjectura, e a submissão à direção de DEUS pela insolência. Teria significado nada menos que expor-se à autodestruição. A falsa confiança no Pai, que o diabo pedia a JESUS nessa tentação, não era melhor que a desconfiança que propusera na primeira. Equivaleria a fazer uma experiência com o Pai.
Uma tradição rabínica diz: “Quando o Messias Rei se revelar, ele virá e se deterá no teto do lugar santo”. Com base nessa tradição, alguns expositores opinam que o tentador estava propondo que JESUS, ao lançar-se do pináculo do templo provaria ser realmente o Messias, já que, depois da descida miraculosa e ilesa, a multidão, observando com espanto, gritaria: “Vejam, ele se saiu ileso! Só pode ser o Messias!” Para JESUS, continua o argumento, esse seria, pois, um caminho fácil para o êxito. Evitaria a cruz e obteria a exaltação sem luta nem agonia.
HENDRIKSENWilliam. Comentário do Novo Testamento. Lucas II. Editora Cultura Cristã. pag. 326-327.

Aqui, pela primeira vez, Satanás fez uso das Escrituras. Os rabis deram uma interpretação messiânica ao Salmo 91:11 e seguintes. JESUS não argumentou contra o uso feito por Satanás dessa passagem, desde que esse não era o conflito básico. A tentação pedia que JESUS criasse uma situação de perigo, enquanto na primeira tentação a crise (fome) já existia. Era como se Satanás estivesse dizendo: “Você não poderá conhecer- se, nem a veracidade da promessa de DEUS, enquanto não fizer um teste’’.
Anthony Lee Ash. O Evangelho Segundo Lucas. Editora Vida Cristã. pag. 84.

2- A BUSCA PELO PRESTÍGIO.

Holofotes e Celebridades
Na terceira tentação, a exemplo da primeira, Satanás usa a expressão: “se tu és o filho de DEUS” (Lc 4.3,9). Esse “Se”, como uma cláusula condicional, pode expressar dúvida e às vezes, dependendo do contexto, até mesmo certeza.
Satanás já sabia que JESUS era o Filho de DEUS: “Bem sei que és, o SANTO de DEUS” (Lc 4.34) e quer que JESUS faça uso dos seus atributos divinos. Vimos quando comentamos a kenosis (ξεφούσκωμα - Lê-se sífoscomá), isto é, o esvaziamento de JESUS por ocasião da sua encarnação, que Ele não perdeu os seus atributos, mas que como homem não fez uso dos mesmos. Aqui Satanás, astutamente, quer que JESUS faça uma demonstração sensacionalista de sua divindade. Quer que Ele renuncie a sua condição de homem e aja como DEUS. Desde que JESUS supostamente se jogasse do alto do templo, haveria uma queda livre de 150 metros até o fundo do ribeiro de Cedron. Sem dúvida Satanás queria que JESUS fizesse um espetáculo.
Não existem dúvidas de que a tentação de ser visto, celebrado e admirado continua sendo o que mais atrai os homens!
JESUS venceu essa tentação com Deuteronômio 6.16!
José Gonçalves.
 Lucas, O Evangelho de JESUS, o Homem Perfeito. Editora CPAD. pag. 53.

Como já se explicou, a teoria segundo a qual tanto a terceira quanto a segunda tentação descrita em Lucas - talvez mesmo as três - ocorreram numa visão, é digna de séria consideração. (Para mim as três tentações são apenas visões - Observação do Ev. Luiz Henrique).
A presente tentação se desenvolve, pois, em Jerusalém, lugar ao qual o diabo levou JESUS. Satanás pôs o Salvador sobre o mesmo pináculo (literalmente, ala) da muralha externa do complexo inteiro do templo. O ponto exato não é fornecido. Poderia ter sido a cornija do pórtico real de Herodes que se projeta para o vale de Cedrom, numa altura de cerca de 150 metros, altura que provocava vertigem, segundo Josefo assinala (Antiguidades XV. 412). Esse lugar se encontrava a sudeste do pátio do templo, talvez no lugar, ou perto do lugar de onde, segundo a tradição, Tiago o irmão do Senhor, foi atirado. Veja o relato muito interessante em História Eclesiástica, Il.xxiii, de Eusébio.
“Já que és Filho de DEUS”, diz o tentador (exatamente como no v. 3), “lança-te daqui.” Seu argumento provavelmente tenha este teor: “Poderás assim provar sua confiança na proteção do Pai. Além disso, se a Escritura, que tão prontamente citas, é verdadeira, nenhum mal te sobrevirá, pois está escrito: ‘Ele dará instruções a seus anjos a teu respeito’. Eles não só deterão tua queda. Não, eles farão ainda mais. De forma muito terna te levarão em suas mãos, a fim de que tu, que só levas sandálias, não te firas tropeçando teu pé contra alguma dessas pedras afiadas que existem em tanta abundância no abismo embaixo”.
HENDRIKSENWilliam. Comentário do Novo Testamento. Lucas I. Editora Cultura Cristã. pag. 325-326.

Lucas coloca a tentação relativa a Jerusalém no ponto culminante, de acordo com sua ênfase especial sobre a cidade (veja 2:22). Como na primeira tentação, a fé que JESUS tinha como Filho de DEUS foi de novo desafiada (veja versículo 3). Como antes, esta pode ter sido uma experiência visionária (cf. Ez 8:3).
Anthony Lee Ash.

 O Evangelho Segundo Lucas. Editora Vida Cristã. pag. 84-85.

A vitória de JESUS na primeira tentação deixou claro o que está em jogo no uso correto dos dons concedidos por DEUS e que “fé” genuína é confiança ilimitada e incondicional em DEUS, o Pai. O Pai há de fazer tudo bem feito!
A segunda tentação mostrou JESUS como aquele que demonstrou a obediência integral e alegre da fé, que não faz concessões nem para a esquerda nem para a direita, e que tampouco se inclina diante do eu ou diante do mundo.
A terceira tentação nos revela um terceiro lado da “fé de JESUS CRISTO”, sendo também aqui a fé vista como genitivo subjetivo, i. é, como traço essencial da pessoa de JESUS.
Essa última tentação no deserto constitui um estímulo para a exacerbação ou agudização da essência da fé.
Por se tratar, nessa tentação, da exacerbação da fé, o diabo recorre pessoalmente à palavra de DEUS, citando o Sl 91.11s. “Está escrito: Aos seus anjos ordenará por tua causa que te guardem, e eles te carregarão nas mãos, para não tropeçares nalguma pedra.” O diabo havia notado que JESUS desembainhara duas vezes uma palavra da Escritura como espada do ESPÍRITO. Então o diabo tenta também utilizar a mesma arma. Sua arguição tem como base uma conclusão a fortiori (rumo ao elemento mais forte): “Se DEUS é capaz de proteger dessa maneira o justo comum, quanto mais ele o fará contigo, que és seu Filho!”
É significativo que Satanás, nesta terceira tentação, cite uma grande palavra de fé da Escritura, do Sl 91, o salmo de fé do AT, a fim de desviar o Senhor (leia esse salmo de fé). Em que consiste o elemento tentador, o satânico, nessa terceira tentação? Em nossa opinião trata-se do seguinte: JESUS deve declarar-se publicamente como Messias, i. é, como Redentor do povo. Nessa notória proclamação, que ainda por cima aconteceria diante do santo templo em Jerusalém, JESUS deve agir com fé audaciosa. – Isso parece ser autenticamente bíblico e de acordo com a fé. Contudo, há um calcanhar de Aquiles em tudo isto: em um ato de fé tão arbitrário, a majestade e santidade de DEUS não seriam honradas e respeitadas, mas desafiadas e coagidas. O relacionamento entre o Pai celeste e o Filho em peregrinação sobre a terra seria totalmente invertido. O Filho se tornaria Senhor, e o Pai seria degradado a servo! – Algo inconcebível! Na verdade era esse o pecado do próprio diabo, que queria apoderar-se como um ladrão da igualdade com DEUS, que ele não possuía (bem ao contrário de JESUS, que desde a eternidade era essencialmente igual a DEUS). – Ele pretendia seduzir JESUS para esse tipo de causa satânica.

Fritz Rienecker. Comentário Esperança Evangelho de Lucas. Editora Evangélica Esperança.


3. Felicidade pela tentação (v. 12).
A alegria no sofrimento (5.3-5a)
 
A justificação não apenas nos prepara para o céu, mas também nos equipa para vivermos vitoriosamente aqui na terra. Paulo não está tratando de algo apenas para o porvir, mas de algo que nos capacita a viver vitoriosamente em meio às tensões da vida. Nas palavras de John Stott, há paz, graça e glória, sim! Porém, há também sofrimento Aquele que foi justificado demonstra gloriosa alegria não apenas na esperança da glória, mas também no sofrimento. A força do verbo grego kaucometha indica que nos alegramos com grande e intenso júbilo. Tanto as tribulações presentes como a glória vindoura são objetos de júbilo do cristão. Em outras palavras, regozijamo-nos não somente no alvo, a glória, como também nos meios que conduzem a ela, isto é, nos sofrimentos. Nestas duas coisas encontramos alegria. Nessa pedagogia divina, quatro estágios devem ser observados.
 
Em primeiro lugar, nós nos gloriamos nas próprias tribulações (5.3).
Este gloriar-se na tribulação é um fruto da fé. As tribulações na vida do salvo não vêm para destruí-lo, mas para purificá-lo. Elas não agem contra ele, mas a seu favor. As tribulações não operam por si mesmas, à revelia, na vida dos salvos, mas são trabalhadas pelo próprio DEUS, para o nosso bem. Por meio das tribulações, DEUS esculpe em nós a beleza de CRISTO.
 
Em segundo lugar, sabemos que a tribulação produz perseverança (5.3). A tribulação é pedagógica. Ela gera paciência triunfadora. Não poderíamos exercer a paciência sem o sofrimento, porque sem este não haveria necessidade de paciência. A paciência nasce do sofrimento. A palavra grega hupomone significa “paciência triunfadora”. Trata-se de uma paciência vitoriosa, que não se entrega nem é passiva, mas triunfa alegremente diante das intempéries da vida. Hupomone é paciência diante das circunstâncias adversas. E o espírito que enfrenta as coisas e as supera.
 
Em terceiro lugar, sabemos que perseverança produz experiência (5.4). A palavra grega dokime, traduzida por “experiência”, significa literalmente algo provado e aprovado. Essa palavra era usada para descrever o metal submetido ao fogo do cadinho com o propósito de remover-lhe as impurezas e torná-lo um metal provado, legítimo e puro.
O que Paulo nos está ensinando é que não devemos ter uma fé de segunda mão. Devemos conhecer a DEUS não apenas de ouvir falar. Devemos conhecê-lo pessoalmente, profundamente, experimentalmente.
 
Em quarto lugar, sabemos que a experiência produz esperança (5.5a). Esta não é uma esperança vaga nem vazia. E uma esperança segura, que não nos decepciona nem nos deixa envergonhados. Mas como saber que essa esperança não é uma fantasia nem uma ficção? A resposta de Paulo é meridianamente clara: porque o amor de DEUS é derramado em nosso coração pelo ESPÍRITO SANTO que nos foi outorgado. O apóstolo Paulo diz que o fundamento sólido sobre o qual descansa nossa esperança de glória é o amor de DEUS. Há uma efusão do amor de DEUS em nosso coração. Nesse momento o céu desce à terra e somos inundados pelas profusas torrentes do amor divino. A justificação não é apenas um ato jurídico de DEUS feito no céu; tem também reflexos concretos e reais na terra. O resultado da justificação é uma bendita experiência de transbordamento do amor de DEUS em nosso coração.
 
LOPES. Hernandes Dias. ROMANOS O Evangelho segundo Paulo. Editora Hagnos. pag. 207-211.

«...na muita paciência...» Esta última palavra, no original grego, é «upomone». Trata-se não simplesmente da capacidade de esperar com tranquilidade e sem queixumes, pela concretização de algo que se espera, conforme a definição ordinária da palavra moderna «paciência». Antes, dentro do uso neotestamentário há a ideia de «constância», «fortaleza», «permanência», «perseverança», em face das dificuldades, das perseguições e de um trabalho árduo e prolongado. Por isso mesmo, um elevado lugar é atribuído a essa virtude, nas páginas do N.T., bem como em outras literaturas cristãs. Notemos a «constância de CRISTO», em seus sofrimentos (Pol. 8:2); a fortaleza «similar à de CRISTO» (ver II Tes. 3:5); a «constância» na prática do que é direito (ver Rom. 2:7); a «perseverança dos santos» (em, Apo. 3:10). O Senhor JESUS dava a essa virtude uma importância muito grande, conforme se vê em Luc. 8:16; 21:19; Marc. 13:13; Mat. 10:22 e 24:13. Esta epístola torna a mencioná-la, no trecho de II Cor. 12:12. E nas passagens de I Tim. 6:11; II Tim. 3:10 e Tito 2:2, essa virtude aparece logo depois do «amor», nas listas das virtudes cristãs. Crisóstomo teceu louvores a essa virtude como segue: «É ela a raiz de toda a bondade, a mãe da piedade, o fruto que nunca murcha, uma fortaleza jamais conquistada, um porto que desconhece tempestades». (Hom. 117). O mesmo autor diz em sua Ep. ad Olymp. 7: «(ela é) a rainha das virtudes, o alicerce das ações corretas, a paz na guerra, a calma na tormenta, a segurança nas maquinações, que nenhuma violência humana e nenhum poder do mal poderá prejudicar». Clemente de Roma, ao referir-se às várias virtudes que recomendavam aos apóstolos, deu o primeiro lugar a essa virtude. (Ver Cl. 12:12).
Aquieta-te, minha alma: o Senhor está a teu lado; Suporta com paciência a cruz da tristeza ou da dor; Deixa ao teu DEUS ordenar e providenciar; Em toda a modificação ele permanecerá fiel; Aquieta-te, minha alma; teu melhor e celeste Amigo Por caminhos espinhosos te conduz a um fim feliz. (Katharina von Schlegel).
«Todos os homens aprovam a paciência, embora poucos estejam dispostos a praticá-la». (Tomás à Kempis, 1380-1471, em sua famosa obra Imitação de CRISTO).
«É na vossa perseverança que ganhareis as vossas almas» (Luc. 21:19).
«Tendes ouvido da paciência de Jó...» (Tia. 5:11).
«...aflições...» No grego temos o termo «thlipsis», uma palavra geral que indica várias formas de aflição, produzidas por circunstâncias externas adversas, pelas tribulações, pelas perseguições, pelas angústias mentais e espirituais. A ideia à raiz dessa palavra é «pressão». O verbo grego «thlibo» significa «premir», «espremer», «restringir», «estreitar», e, por conseguinte, «oprimir, «afligir». Esse vocábulo é usado por nada menos de quarenta e cinco vezes nas páginas do N.T., com tais sentidos como «tribulação» (como em Mat. 13:21 e 24:21,29), «aflição» (como em Marc. 4:17 e 13:19); «angústia» (como em I Cor. 7:28); e «perseguição» (como em Atos 11:19).
«...privações...» é tradução do vocábulo grego «anagke», que quer dizer «necessidade», «calamidade». Essa palavra, no original grego, também podia transmitir a idéia da «falta» de algo necessário, ou seja, a redução a uma pobreza extrema. Sabemos que Paulo sofreu assim, porquanto aprendeu como ter abundância e sofrer penúria. (Ver Fil. 4:12). Essa palavra grega, entretanto, pode significar simplesmente «calamidades», «experiências adversas», o que também se verificou na vida do apóstolo dos gentios. Esse vocábulo é empregado por dezoito vezes no N.T., e ambas essas ideias aparecem inerentes nas ocorrências do mesmo. «...angústias...», no grego, é «stenochoria», que literalmente traduzido seria «estreiteza», demonstrando um estado de «confinamento», de «restrição», dando a ideia de angústias, apertos de muitas formas.
É interessante que alguns estudiosos veem certa intensificação crescente das dificuldades mencionadas por Paulo —«Aflições» (II Cor. 1:4,8; 2:4 e 4:7), que podem ser evitadas; «necessidades» (II Cor. 12:10), que não podem ser evitadas; e «apertos» (II Cor. 12:10), do que não há como escapar». (Plummer, in loc.).
«A ideia aqui prevalente é a de pressão e confinamento: cada estágio mais estreito do que o anterior, de tal modo que nenhum espaço é deixado para movimento ou escape». (Stanley, in loc.).
Paulo expressa as suas grandes tribulações mediante o emprego de diversos trios, três ao todo, expressando nove formas de angústia (nos versículos quarto e quinto deste capítulo). Comenta Faucett(ín loc.), acerca disso: «O primeiro trio expressa as aflições em geral; o segundo trio, aquelas que se originam nas violências dos homens; e o terceiro trio, expressa aquelas que ele provocou contra si mesmo, direta ou indiretamente. Tudo isso comprovava o seu direito de exortá-los com autoridade, bem como sua capacidade de servir-lhes de exemplo.
O recital que se segue (nos versículos quarto a décimo deste capítulo) é uma extravasam do coração de Paulo, com o objetivo único de revelar o seu amor, através daquilo que ele teve de tolerar. Tudo começa com a menção de seus sofrimentos físicos, uma lista impressionante, repetida com maiores detalhes em II Cor. 11:23-28. Paulo se regozijava nesses sofrimentos, mas não mediante alguma ufania no martírio, conforme com freqüência os sofrimentos dos santos se transformam em uma espécie de indulgência masoquista. Para Paulo, essas coisas eram as ‘marcas do Senhor JESUS’ (ver Gál. 6:17). Os sinais de seu companheirismo com seu Senhor, o resultado e aprova de sua fidelidade a seu Senhor e à sua mensagem...Em seguida nos é oferecida uma descrição sobre as qualidades que acompanhavam a mensagem do apóstolo. Nisso se encontram os frutos e manifestações do ESPÍRITO SANTO. Essas são as graças que Paulo procurava cultivar, e que ele reputava como essenciais naquele que quisesse recomendar o seu ministério aos outros». (James Reid, ín loc.).
 
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 4. pag. 353-354.




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