Lição 7 - Tentação - A Batalha por nossas Escolhas e
Atitudes
É importante que todos os crentes em Jesus saibam que Deus
permite, às vezes, que sejamos tentados para que o seu nome seja glorificado e
Satanás derrotado. Não é pecado ser tentado; até o nosso Senhor Jesus Cristo
foi tentado (Hb 4.15). É pecado, sim, ceder à tentação. Por mais contraditório
que pareça, a tentação é para o nosso próprio bem: "Bem-aventurado o varão
que sofre a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a
qual o Senhor tem prometido aos que o amam" (Tg 1.12). Dessa forma, é
preciso estarmos preparados para reconhecermos as situações em que somos
tentados e resistirmos.
A tentação de
Jesus no limiar de seu ministério terreno era o prenuncio da completa derrota
final de Satanás e serve-nos de lição sobre como lidar com casos de tentação no
dia a dia. A voz que veio do céu por ocasião do batismo de Jesus no rio Jordão,
"Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo" (Mt 3.17), parece ter
deixado Satanás assustado, visto que se tratava daquele que veio para amarrar
"o valente" e saquear "a sua casa" (Mt 12.29). Deus
expulsou Satanás do céu, mas Jesus veio para expulsá-lo da terra fio 12.31).
TENTAÇÃO
O termo
hebraico massá, "tentação, provação", é um substantivo feminino e ao
mesmo tempo o nome do lugar onde houve a rebelião dos israelitas contra Moisés
e contra Deus: "E chamou o nome daquele lugar Massá e Meribá, por causa da
contenda dos filhos de Israel, e porque tentaram ao SENHOR, dizendo: Está o
SENHOR no meio de nós, ou não?" (Êx 17.7); "Também em Tabe- rá, e em
Massá, e em Quibrote-Hataavá provocastes muito a ira do SENHOR" (Dt 9.22);
"E de Levi disse: Teu Tumim e teu Urim são para o teu amado, que tu
provaste, em Massá, com quem contendeste nas águas de Meribá" (Dt 33.8).
Apesar de ser um substantivo, aparece com certa frequência em nossas versões
como verbo: "ou se já houve algum deus que tentou tomar para si um
povo" (Dt 4.34, NAA); "Não tentareis o SENHOR, vosso Deus, como o
tentastes em Massá" (Dt 6.16). Nas demais passagens, massa é traduzido como
substantivo: "das grandes provas que viram os teus olhos, e dos sinais, e
maravilhas, e mão forte, e braço estendido, com que o SENHOR, teu Deus, te
tirou; assim fará o SENHOR, teu Deus, com todos os povos, diante dos quais tu
temes" (Dt 7.19); "as grandes provas que os teus olhos têm visto,
aqueles sinais e grandes maravilhas" (Dt 29.3); "Matando o açoite de
repente, então, se ri da prova dos inocentes" (Jó 9.23). A Septuaginta
traduziu massá porpeirasmós, "tentação", a mesma palavra usada com
frequência no Novo Testamento como em: "E não nos induzas à tentação"
(Mt 6.13).
O nissá, de
nassá, "testar, provar, tentar", que às vezes vem junto com massá,
tem o sentido de teste como na passagem do sacrifício de Isaque: "E
aconteceu, depois destas coisas, que tentou Deus a Abraão" (Gn 22.1);
"Depois dessas coisas, pôs Deus Abraão à prova" (ARA, NAA);
"Depois disto experimentou Deus a Abraão" (TB); e na visita da rainha
de Sabá a Salomão (1 Rs 10.1). Esse teste tem por finalidade revelar ou
desenvolver o nosso caráter (Êx 20.20; Jo 6.6). Muitas vezes, o sentido desse
verbo é de experimento, até mesmo no campo científico. A Septuaginta traduziu
nissá pelo verbo grego peirázo, "testar, experimentar, tentar, pôr à
prova", usado também no Novo Testamento (At 16.7; 24.6; Ap 2.2); e por
ekpeirázo, "provar, por à prova, testar, tentar", quatro vezes:
"Não
tentareis o SENHOR, vosso Deus, como o tentastes em Massá" (Dt 6.16);
"E
te lembrarás de todo o caminho pelo qual o SENHOR, teu Deus, te guiou no
deserto estes quarenta anos, para te humilhar, para te tentar, para saber o que
estava no teu coração, se guardarias os seus mandamentos ou não... que no
deserto te sustentou com maná, que teus pais não conheceram; para te humilhar,
e para te provar, e para, no teu fim, te fazer bem" (Dt 8.2, 16);
"E
tentaram a Deus no seu coração, pedindo carne para satisfazerem o seu
apetite" (Sl 78.18 [77.18 LXX]).
Esse
mesmo verbo ekpeirázo aparece também quatro vezes no Novo Testamento, na
resposta de Jesus a Satanás: "Não tentarás o Senhor, teu Deus" (Mt
4.7; Lc 4.12), uma citação em Deuteronômio 6.16; a terceira vez com o sentido
de teste, por à prova (Lc 10.25), e a última vez quando o apóstolo Paulo chama
a atenção dos crentes para não tentar a Cristo, citando a passagem de Refidim,
de "Massá e Meribá" (Êx 17.1-7; l Co 10.9).
A TENTAÇÃO DE JESUS
Como Jesus,
sendo Deus em toda a sua plenitude, da mesma substância do Pai e membro da
Trindade juntamente com o Espírito Santo, pôde ser tentado?
"Porque
Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta" (Tg 1.13). Sim, é
possível; veja o por quê. A Bíblia ensina que Deus é perfeito; sendo, pois, o
Filho Deus igual ao Pai e da mesma natureza, Jesus não precisava aumentar ou
diminuir seus conhecimentos. Nada teria para aprender e não havería como
melhorar ou piorar seu comportamento. Porém, a Palavra de Deus revela que o
Senhor Jesus Cristo é o verdadeiro Deus e o verdadeiro homem (Jo 1.1, 14; Rm
1.3, 4; 9.5). As Escrituras Sagradas apresentam diversas características
humanas em Jesus; por exemplo, o relato sagrado de sua infância enfoca o seu
desenvolvimento físico, intelectual e espiritual: "E crescia Jesus em
sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens... E o menino
crescia e se fortalecia em espírito, cheio de sabedoria; e a graça de Deus
estava sobre ele” (Lc 2.40, 52). O profeta Isaías anunciou de antemão que
Emanuel "manteiga e mel comerá, até que ele saiba rejeitar o mal e
escolher o bem" (Is 7.15). A infância de Jesus é uma amostra clara da
natureza humana de Cristo. "Porque há um só Deus, e um só mediador entre
Deus e os homens, Jesus Cristo homem" (l Tm 2.5).
Jesus Cristo é
o eterno e verdadeiro Deus e ao mesmo tempo o verdadeiro homem. Tomou-se homem
para suprir a necessidade da humanidade. O termo "Emanuel", que o
próprio escritor sagrado traduziu por "DEUS CONOSCO" (Mt 1.23) mostra
que Deus assumiu a forma humana e veio habitar entre os homens: "E o Verbo
se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Uni-
gênito do Pai, cheio de graça e de verdade" (Jo 1.14). O ensino da
humanidade de Cristo, no entanto, não neutraliza a sua divindade, pois ele
possui duas naturezas: a humana e a divina, o que está claramente expresso no
seu nome EMANUEL. Jesus foi revestido do corpo humano porque o pecado entrou no
mundo por um homem, e pela justiça de Deus tinha de ser vencido por um ser
humano. A Bíblia ensina que o pecado entrou no mundo por Adão (Rm5.12,18,19).
Jesus se fez carne, tomou- -se homem sujeito ao pecado, embora nunca houvesse
pecado, e venceu o pecado como homem (Rm 8.3). A Bíblia mostra que todo o
gênero humano está condenado; que o homem está perdido e debaixo da maldição do
pecado (SI 14.2-3; Rm 3.23). Todos são devedores, por isso ninguém pode pagar a
dívida do outro. A Bíblia afirma que somente Deus pode salvar (Is 43.11).
Então, esse mesmo Deus tomou-se homem, trazendo-nos o perdão de nossos pecados
e cumprindo ele mesmo a lei que Moisés promulgou no Sinai (At 4.12; 1 Tm 3.16;
Cl 2.14). Quando Jesus estava na terra, ele não se apegou às prerrogativas da
divindade para vencer o diabo, mas aniquilou a si mesmo, fazendo-se semelhante
aos homens (Fp 2.5-8). Como homem, tinha certa limitação quanto ao tempo e ao
espaço e, portanto, era submisso ao Pai. Eis a razão de ele ter dito em João
14.28: "O Pai é maior do que eu".
Os evangelhos
revelam atributos característicos do ser humano em Jesus, como por exemplo:
Assim como é
pecado negar a humanidade de Cristo (1 Jo 4.2-3; 2 Jo 7), é pecado também negar
a sua divindade, pois Jesus é tanto humano como divino. Como homem, sentiu as
dores do ser humano; e, como Deus, supriu a necessidade da humanidade. Foi
nessa condição humana que Jesus foi tentado por Satanás no deserto logo no
início do seu ministério terreno como registrado nos evangelhos sinóticos (Mt
4.1-11; Mc 1.12, 13; Lc 4.1-13). No entanto, a tentação de Jesus não se
restringiu apenas aos 40 dias do deserto, mas permaneceu durante toda a sua
carreira ministerial (Lc 22.28; Hb 4.15). Essa tentação é o primeiro
acontecimento registrado de sua história depois do batismo por João Batista no
rio Jordão.
A PEREGRINAÇÃO DE
ISRAEL NO DESERTO EA TENTAÇÃO DE JESUS
Há certo
paralelismo entre esses dois acontecimentos: quarenta anos de peregrinação,
quarenta dias de tentação; quarenta dias e quarenta noites de jejum, Moisés e
Jesus; quarenta anos Israel foi tentado no deserto, Jesus foi tentado durante
quarenta dias no deserto. Deus guiou o seu povo no deserto para colocá- -lo à
prova (Dt 8.2), e o Senhor Jesus "foi levado pelo Espírito ao
deserto" (Lc 4.1); "Então, foi conduzido Jesus pelo Espírito ao
deserto, para ser tentado pelo diabo" (Mt 4.1).
O deserto é uma
das características mais emblemáticas da Terra Santa; é um lugar de perigo com risco
de ataques de nômades piratas ou ladrões, serpentes e escorpiões, falta de
água, comida, com chances de perder-se e ficar desorientado, entre outros. No
entanto, é no deserto que os seres humanos percebem a grandeza de Deus e a
fragilidade humana; é um lugar de profundo silêncio para meditação e oração,
onde há vastidão de espaço para ouvir a voz de Deus. Burge, especialista em
Oriente Médio, na sua obra A Bíblia e a terra, descreve: "O deserto é um
símbolo teológico para luta e privação. Para sofrimento e perda.
Vulnerabilidade e desamparo. Deslocamento e confusão. Mas também é o local
espiritual onde o renovo acontece e o homem, em meio à crise, descobre algo
sobre Deus, que antes não conhecia" (p. 46) - o grifo não é nosso. Diante
do conhecimento geográfico, então, entendemos que grandes homens de Deus no
Antigo e no Novo Testamento, como Moisés (At 7.30-33), Elias (l Rs 19.4-10) e
João Batista (Lc 1.80; 3.2), foram transformados e preparados para o serviço
sagrado no deserto.
Os evangelhos não
nos informam o local exato em que Jesus suportou os quarenta dias de jejum e
tentações. Mas há concordância entre muitos estudiosos de que se trata de uma
parte despovoada da Judeia, onde João Batista iniciou o seu ministério. A
tradição posterior indica o monte da Quarentena a oeste de Jerico, onde foi
construída na encosta da montanha uma igreja no século 6.
Segundo a
narrativa de Mateus, Jesus jejuou "quarenta dias e quarenta noites, depois
teve fome". Moisés também jejuou quarenta dias e quarenta noites quando
recebeu as tábuas da lei no monte Sinai: "E esteve Moisés ali com o SENHOR
quarenta dias e quarenta noites; não comeu pão, nem bebeu água, e escreveu nas
tábuas as palavras do concerto, os dez mandamentos" (Êx 34.28). Moisés
reiterou essa experiência posteriormente (Dt 9.9). Há algo similar na tentação
de Jesus. Talvez a intenção do Espírito Santo seja apresentar Jesus como um
novo Moisés, o novo legislador, pois o próprio Senhor Jesus se apresentou com
tal autoridade no pronunciamento do Sermão do Monte com a expressão
"ouvistes que foi dito aos antigos", ou fraseologia similar, "eu
porém vos digo" (Mt 5.21,22,27,28, 31-34, 38, 39, 43, 44). Depois de
Moisés, somente o profeta Elias e o Senhor Jesus tiveram experiência semelhante
de um jejum quarenta dias (1 Rs 19.8; Mt 4.2). São três situações específicas
que não devem ser tomadas como doutrina da Igreja. Nem mesmo Saulo de Tarso
praticou um jejum de quarenta dias no início de sua caminhada com Cristo; ele
jejuou apenas três dias e três noites: "E esteve três dias sem ver, e não
comeu, nem bebeu" (At 9.9).
Elias, o segundo
Moisés, esteve quarenta dias sem comer (l Rs 19.8), e da mesma maneira o Senhor
Jesus, o Moisés Maior, esteve quarenta dias e quarenta noites sem comer (Mt
4.2). Lucas afirma que Jesus, "naqueles dias, não comeu coisa alguma, e,
terminados eles, teve fome" (Lc 4.2). O verbo grego, nesteuou,
"jejuar", significa literalmente "abster-se de alimento"
Nenhum desses evangelistas fala sobre sede ou água. Parece que Jesus se absteve
totalmente quarenta dias e quarenta noites de alimento, e não de água (Lc 4.2).
Apesar de o
jejum ser uma prática salutar na vida cristã até os dias atuais, ninguém deve
exagerar e querer imitar a Moisés em um jejum desse tipo, durante quarenta dias
e quarenta noites. Isso aconteceu só duas vezes com Moisés e ninguém mais; foi
algo inédito. Portanto, não deve ser estabelecido como doutrina (Êx 34.28;
Dt9.9,18). Esse esclarecimento é importante porque sempre aparecem os
exibicionistas dizendo jejuar ou estar jejuando quarentas dias. Na verdade,
jejum é abster-se de alimento; essa gente se abstém de sólido, mas se alimenta
de milk-shake, vitamina, e chama isso de jejum, que na verdade não passa de uma
dieta. O jejum absoluto é abstenção de alimento, seja ele sólido, líquido ou
cremoso; o jejum parcial é aquele em que o crente se abstém só de alimento,
ingerindo água, aos poucos, e somente água, água pura, sem chá, sem suco, sem
vitamina, sem milk-shake.
A TRÍPLICE TENTAÇÃO
Nada há no relato da tentação de Jesus no deserto que possa
sustentar uma interpretação subjetiva, simbólica ou visionária. A maioria dos
expositores bíblicos reconhece os relatos como descrição de fatos externos
reais, o diálogo como pessoal: "Alguns estudiosos comparam o debate
intelectual entre Jesus e o diabo à forma dos debates rabínicos" (KEENER,
2017, p. 53, 54). As possíveis dificuldades do texto sagrado estão em como
"o diabo o transportou à Cidade Santa, e colocou-o sobre o pináculo do
templo" (Mt 4.5); e em como o diabo teria transportado Jesus a um monte
muito alto e "e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória
deles" (Mt 4.8). Não se sabe como esses deslocamentos ou movimentações
ocorreram, nem detalhes de como Satanás se apresentou a Jesus, mas se sabe que
ele se apresenta de diversas maneiras, em forma de serpente, como aconteceu no
Éden (Gn 3.1-5; Ap 12.9), ou até mesmo como um anjo de luz (2 Co 11.14). De
qualquer modo, a formulação: "Então, o tentador, aproximando-se" (Mt
4.3, ARA) é um estilo que expressa nitidamente que o diabo se aproximou de
Jesus como personagem físico. Além disso, a teologia rabínica ensinava que os
espíritos, ao se mostrarem às pessoas, faziam-no em figura humana. A linguagem:
"Então o diabo o transportou à Cidade Santa" parece confirmar esse
pensamento rabínico.
Mateus e Lucas registraram as três últimas
investidas de Satanás contra Jesus, e elas foram o ápice dessas tentações. Na
verdade, Jesus foi tentado em todos os quarenta dias: "Imediatamente o
Espírito o impeliu para o deserto. Ali ficou quarenta dias tentado por
Satanás" (Mc 1.12, 13, TB); "quarenta dias foi tentado pelo
diabo" (Lc 4.2). E continuou sendo tentado durante todo o tempo de seu
ministério (Lc 22.28; Hb 4.15).
O relato de
Mateus apresenta as três tentações na ordem cronológica, como de fato
aconteceu, segundo a opinião da maioria dos expositores bíblicos,
diferentemente de Lucas, que inverte a ordem entre a segunda e a terceira
tentações, isso em relação a Mateus. A tentação no pináculo do templo é
posterior à do "monte muito alto" em Lucas (Lc 4.5, 9). O pináculo
era o lugar mais alto do complexo do segundo templo. O termo grego é pterygion,
que significa "pequena asa" e designa a ponta ou extremidade de
alguma coisa, que a Vulgata Latina traduziu por pinnaculum. Estudos em Josefo e
na Mishná indicam a extremidade sudeste da área do templo com vista para o vale
de Cedrom.
A sequência do relato de Mateus é a seguinte:
l) "Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em
pães" (Mt 4.3); 2) "o diabo o transportou à Cidade Santa, e colocou-o
sobre o pináculo do templo, e disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, lança-te
daqui abaixo [...]" (Mt 4.5, 6); 3) "Novamente, o transportou o diabo
a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória
deles" (Mt 4.8).
O inimigo de
nossa alma é identificado na presente narrativa da tentação no deserto por três
nomes: o diabo, o tentador e Satanás (Mt 4.1, 3, 10). A primeira tentação tinha
como um dos objetivos levar Jesus a se desviar do programa divino. O Filho
aceitou a condição humana de completa obediência ao Pai, por isso cabia a Jesus
cumprir o dever de confiar em Deus para o seu sustento. Como ser humano, o
Senhor precisava confiar na providência divina; do contrário, seria diferente
dos humanos. O poder de Jesus para operar milagres não era para benefício
próprio; era para servir aos outros, não a si mesmo. Ele nunca fez uso pessoal
de seus poderes: "Salvou os outros e a si mesmo não pode salvar-se"
(Mt 27.42); "Salvou os outros e não pode salvar- -se a si mesmo" (Mc
15.31). De modo que transformar pedras em pães significava ser Jesus a sua
própria providência e subverter a ordem natural do programa divino. Uma vez que
nós, seres humanos, precisamos confiar na providência divina, nesse caso o
Senhor se tornaria diferente dos humanos.
Satanás sabia que
Jesus era o Filho de Deus; sem dúvida alguma ele ouviu com a multidão o
testemunho do Pai: "E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho
amado, em quem me comprazo" (Mt 3.17). Mas, nesse caso, Satanás se
aproveita da fragilidade física proveniente da fome para desafiar Jesus a
provar a sua filiação divina operando um majestoso milagre de transformar
pedras em pães. O Senhor Jesus não precisava provar nada para o diabo, mas o
derrotou pelo poder da Palavra de Deus, ao responder: "Está escrito: Nem
só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus"
(Mt 4.4). Essas palavras são tiradas do Antigo Testamento, de uma tentação de
Israel no deserto: "E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou
com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram, para te dar a
entender que o homem não viverá só de pão, mas que de tudo o que sai da boca do
SENHOR viverá o homem" (Dt 8.3). A resposta de Jesus deixou o diabo
completamente desarticulado nos seus argumentos. Tendo sido vencido, Satanás
tenta um segundo round.
Na segunda tentação, o diabo ainda se apega à
questão da filiação divina e, visto ter sido derrotado pelo poder da Palavra de
Deus, ele agora citada de maneira truncada as Escrituras: "Então o diabo o
transportou à Cidade Santa, e colocou-o sobre o pináculo do templo, e
disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; porque está
escrito: Aos seus anjos dará ordens a teu respeito, e tomar-te-ão nas mãos,
para que nunca tropeces em alguma pedra" (Mt 4.5,6). O diabo cita Salmos
91.11, 12, mas o faz fora do contexto. A proposta apresentada por ele é
substituir a fé pela presunção. O diabo tentou persuadir Jesus a cometer um ato
de vaidade como demonstração pública de que era enviado por Deus. Mas a
resposta de Jesus mostra que o diabo está tentando Jesus a fazer exatamente o
que os israelitas fizeram em Massá, quando se rebelaram contra Moisés e contra
Deus (Êx 17.7). É emblemático que o Senhor Jesus tenha respondido usando as
palavras do próprio contexto da rebelião do deserto: "Não tentareis o
SENHOR, vosso Deus, como o tentastes em Massá" (Dt 6.16); "Disse-lhe
Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor, teu Deus" (Mt 4.7).
A terceira e
última dessas três investidas satânicas é descrita em Lucas com algumas
informações adicionais e algumas omissões em relação ao relato de Mateus:
"E o diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe, num momento de tempo,
todos os reinos do mundo. E disse-lhe o diabo: Dar-te-ei a ti todo este poder e
a sua glória, porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero. Portanto, se
tu me adorares, tudo será teu" (Lc 4.5-7). Em Lucas essa é a segunda
tentação; diferentemente de Mateus, Lucas não segue a ordem cronológica. Lucas
diz que o diabo mostrou a Jesus todos os reinos do mundo "num momento de
tempo", expressão que parece apoiar a ideia de uma "visão". Não
se sabe como isso aconteceu; o certo é que do alto da montanha podia ver os
antigos territórios ocupados pelo Egito, Assíria, Babilônia, Pérsia, Grécia e
Roma. O diabo diz a Jesus que a autoridade sobre os reinos do mundo lhe foi
entregue, bem como o poder de dá- -los a quem quiser. Portanto, ele ofereceu
tudo isso a Jesus pelo preço de uma só adoração.
Teria Satanás
o controle do mundo a ponto de oferecê-lo a quem desejasse? Sabe-se que ele é o
"pai da mentira" (Jo 8.44). A fé cristã repousa sobre a convicção de
que a autoridade sobre o mundo pertence, em última análise, a Deus. Mas ele
pode permitir que outro a exerça de forma passageira e limitada, e é dessa
forma que Satanás aparece como "o príncipe deste mundo" (Jo 12.31);
"o deus deste século" (2 Co 4.4); "o príncipe das potestades do
ar" (Ef 2.2); "os príncipes das trevas deste século, [...] as hostes
espirituais da maldade, nos lugares celestiais" (Ef 6.12). Tudo isso que o
diabo oferece a Jesus em troca de uma adoração, Deus, o Pai, já havia oferecido
ao Filho definitivamente e para sempre (Sl 2.8). Mais uma vez, Jesus derrota
Satanás pelo poder da Palavra de Deus: "Vai-te, Satanás, porque está
escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele servirás" (Mt 4.10), uma
citação da lei de Moisés (Dt 6.13). O diabo usou todos os seus recursos para
desviar o Senhor Jesus de sua missão. Adão fracassou no Éden, Israel fracassou
no deserto, mas Jesus venceu!
VENCENDO AS TENTAÇÕES
Quando for o
momento da batalha espiritual, em que percebemos algo atacando o trabalhar de
Deus na nossa vida, lembrar o episódio da tentação de Jesus no deserto é
encorajador. A história demonstra que Jesus entende o que nós passamos quando
somos tentados porque ele enfrentou as mesmas tentações para pecar que
vivenciamos todos os dias. O Senhor Jesus resistiu à tentação, e por isso
podemos contar com sua ajuda para agirmos da mesma forma, "porque, naquilo
que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados"
(Hb 2.18). As perguntas que Satanás faz a Jesus envolvem devoção a Deus. Isso
nos leva a analisar qual nosso comprometimento com o Senhor e qual o fundamento
da nossa fé, se é a comida física ou a Palavra de Deus. É o indicativo de
estarmos ou não preparados para enfrentar os ataques malignos.
É possível
preparar-nos para lidar com as tentações do dia a dia, estabelecendo algumas
maneiras de responder quando o pecado se apresentar. O texto de Provérbios
4.14, 15 nos alerta para não seguirmos o caminho dos maus, não os tomarmos como
exemplo de vida e nos desviarmos da comunhão com ele. O apóstolo Paulo
recomenda em suas cartas que os irmãos e as irmãs fujam da tentação (l Co 6.18;
10.14; l Tm 6.9-11), e Tiago aconselha que se resista ao diabo (Tg 4.7). Além
disso, como servos de Cristo, somos instrumentos para ajudar as outras pessoas
a vencerem a tentação. Nosso papel é encorajá-las na sua jornada com Cristo e
não as induzir ao caminho mau.
TENTAÇÃO -A BATALHA POR NOSSAS ESCOLHAS E ATITUDES
Esequias Soares & Daniele Soares

NOTAS :
FONTE
:APAZDOSENHOR,ORG
O diabo conduziu JESUS para o alto, mostrando-lhe dali todos os reinos
do orbe terrestre, particularmente “num momento”. O tentador afirma que toda
essa esfera de poder e sua glória lhe fora entregue. Por isso também poderia
passá-la adiante segundo seu bel-prazer. O diabo exige de JESUS que o adore se
quiser o que oferece.
Essa condição (a adoração) que Satanás relaciona com a transferência de
seu senhorio foi considerada uma tentação grosseira demais. Qualquer israelita
teria rejeitado, imediatamente e com indignação e justa ira, uma proposta
dessas. O sentido é, porém, o seguinte:
O povo de Israel havia recebido de DEUS a promessa de reinar sobre os
outros povos, motivo pelo qual aguardava o Messias, por meio do qual essa
promessa deveria ser cumprida.
Portanto, não havia absolutamente nada incorreto no desejo de avançar em
direção a esse futuro. É a essa incumbência que DEUS dera ao povo que o inimigo
se reporta. Do cume da montanha o tentador lhe mostra, em um único relance,
todos os reinos do mundo, toda a terra habitada. Foram magia e ofuscamento
satânicos. Todos os milagres satânicos têm uma faceta enganosa. Possuem uma
aparência fascinante (2Ts 2.9). Não são milagres de bênção, que conduzem a
DEUS, mas artifícios, ilusão fantástica, que desviam as almas de DEUS.
Estaríamos muito equivocados se imaginássemos o tentador como aquela figura
distorcida em que a Idade Média o transformou.
A palavra do diabo “Todo esse poder e sua glória… me foi entregue”
contém a alusão a uma reivindicação legítima de senhorio. Portanto, como
podemos inferir, antes de sua rebelião Satanás tinha recebido nossa terra como
seu domínio. E diante dele encontra-se aquele a quem havia sido prometida a
soberania sobre o mundo (cf. Sl 2.8; Dn 7.13s; etc.) e que agora viera para
destruir as obras do diabo (1Jo 3.8b). É inegável que Satanás exerce um terrível
poder no mundo. É capaz de elevar a pessoa favorecida por ele ao mais alto
degrau do poder terreno. É o que a experiência demonstra repetidamente. O
próprio JESUS fala do archon deste mundo, i. é, do detentor de poder e soberano
deste mundo, em Jo 12.31; 14.30; 16.11. O Senhor levou este potentado sumamente
a sério. E também os apóstolos do Senhor sabem do terrível poder do deus deste
éon [desta era] em 2 Co 4.4 e Ef 6.12. E toda pessoa que trabalha no reino de
DEUS pode relatar a respeito desse terrível fato de ter o terrível inimigo
dentro e em redor de si, pela mais amarga experiência própria. O cristão sabe
como é poderoso o velho inimigo mau. Porém – e novamente porém – apesar dessas
declarações sobre o diabo como inimigo mortal de DEUS, a fé sempre,
constantemente, pode testemunhar maravilhosamente o singular e único DEUS do
céu e da terra! O cristão tem certeza do bendito fato de que em tudo o que vem
a seu encontro ele não precisa contar com dois senhores, ou seja, DEUS e
Satanás, mas apenas e integralmente com o único Senhor. Foi isso que também
sustentou o Senhor, como nosso inigualável exemplo, nessa segunda tentação pelo
diabo. Contou exclusivamente com DEUS, seu Pai.
JESUS havia desmascarado a artimanha do diabo. JESUS também conhecia as
promessas que haviam sido dadas ao povo de Israel e a seu Messias em vista da
primazia de Israel sobre os demais povos. Contudo, em lugar algum a Escritura
dizia que essas promessas dadas no AT acerca da eleição divina e universal de
Israel dentre as nações forçosamente significaria, p. ex., um privilégio
exterior ou uma posição de domínio político de Israel sobre os povos. Era
precisamente esse o elemento satânico na intenção tentadora do diabo. –
Infelizmente, na época de JESUS o povo eleito já havia se devotado inteiramente
a essa dimensão satânica da imagem política universal do Messias (cf. o exposto
sobre Lc 3, no tocante à falsa expectativa messiânica daquele tempo, e ao 17º
salmo de Salomão).
O assédio sedutor de Satanás na segunda tentação, portanto, consistia em
que JESUS deveria ceder, no curso de sua obra, aos desejos messiânicos terrenos
do Israel carnal. Desse modo ele conquistaria o favor do povo e a cooperação
dos líderes religiosos (os fariseus e escribas). Então colheria um triunfo após
o outro, levando, pois, à gloriosa e esplendorosa realização e execução das
promessas do AT acerca de Israel e seu Messias. Essa era a interpretação
satânica da Bíblia.
Fritz Rienecker. Comentário Esperança Evangelho de Lucas. Editora
Evangélica Esperança.
2- A BUSCA PELO PODER TERRENO.
Satanás exigiu dele honra e adoração: Portanto, se tu me adorares, tudo
será teu, v. 7.
(1) Satanás deseja que o Senhor o adore.
Talvez ele não queira dizer nunca mais adorar a DEUS Pai, mas adorá-lo
junto com a adoração oferecida a DEUS Pai; porque o diabo sabe, que se ele
conseguir apenas uma vez se fazer sócio, logo será o único proprietário. Em
segundo lugar, Satanás faria um contrato com o Senhor JESUS, de que quando, de
acordo com esta promessa, Ele tomasse posse dos reinos deste mundo, não faria
nenhuma alteração nas religiões do mundo, mas toleraria as nações como havia
feito até aquele momento, permitindo que sacrificassem aos demônios (1 Co
10.20). Por esta proposta, o Senhor JESUS deveria ainda manter o culto aos demônios
no mundo, e então deixá-lo tomar todo o poder e a glória dos reinos se lhe
agradasse. Que a riqueza e a grandeza desta terra fiquem para quem quiser;
porém, quanto a Satanás, este nada terá, pois não tem o coração dos homens, bem
como os seus sentimentos e a sua adoração. O diabo só pode operar nos filhos da
desobediência, e é assim que ele eficazmente os devora.
(2) Como o nosso Senhor JESUS triunfou sobre esta tentação.
Ele deu à tentação uma repulsa terminante, e a rejeitou com veemência
(v. 8): “Vai-te, Satanás, não suporto a menção disto. O que? Adorar o inimigo
do DEUS a quem eu vim servir? e do homem a quem eu vim salvar? Não, Nunca farei
isto.” Uma tentação como esta não era para ser analisada, mas recusada
imediatamente; o assunto foi liquidado com uma única frase, Está escrito:
Adorarás o Senhor, teu DEUS, e só a Ele servirás; e não somente isto, mas
somente a Ele adorarás; a Ele e a nenhum outro. Portanto, CRISTO não adorará a
Satanás, e quando tiver os reinos do mundo entregues a si por seu Pai, como
espera em breve receber, jamais permitirá que qualquer adoração ao diabo
continue neles. Onde quer que chegue o seu Evangelho, tudo o que for maligno
será perfeitamente arrancado e abolido. CRISTO não fará nenhum acordo com o
diabo. O politeísmo e a idolatria deverão sucumbir, quando se levantar o reino
de CRISTO. Os homens devem se converter do poder de Satanás para DEUS, do culto
aos demônios para o culto ao único DEUS vivo e verdadeiro. Esta é a grande lei
divina que DEUS restabelecerá entre os homens, e por sua santa religião
reduzirá o homem à obediência: só DEUS deve ser adorado e servido; portanto,
qualquer que toma qualquer criatura como objeto de culto religioso - mesmo que
seja um santo ou um anjo, ou a própria virgem Maria - frustra diretamente o
desígnio de CRISTO, e cai no paganismo.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento MATEUS
A JOÃO Edição completa.Editora CPAD. pag. 547-548.
Lc 4.8 Uma vez mais, JESUS respondeu a Satanás com as Escrituras. Para
JESUS, obter o domínio do mundo mediante a adoração de Satanás seria não apenas
uma contradição (Satanás ainda estaria no comando), mas também romperia o
primeiro mandamento, “Adorarás o Senhor, teu DEUS, e só a ele servirás” (Dt
6.4,5, 13). Para realizar a sua missão de trazer salvação ao mundo, JESUS
precisaria seguir o caminho da submissão a DEUS.
Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal. Editora CPAD.
Vol. 1. pag. 341.
Também desta vez JESUS sai vitorioso da tentação, rejeitando a oferta do
diabo com as palavras: “Ao Senhor, teu DEUS, venerarás prostrado e só a ele
servirás!” Essa declaração é citação de Dt 6.13 conforme o texto alexandrino da
Septuaginta. O texto hebraico diz: “A Javé, teu DEUS temerás, a ele honrarás.”
A resposta de JESUS, que também pode ser traduzida como “Ao Senhor, teu
DEUS, adorarás e somente a ele servirás, passou a ser o grande lema de sua vida
na terra. Com tudo o que é e possui, ele coloca-se à disposição obediente ao
Pai e DEUS. “O Filho nada pode fazer de si mesmo (“não tem poder” não deve ser
interpretado segundo a natureza do Filho, mas segundo sua vontade), senão
somente aquilo que vir fazer o Pai” (Jo 5.19). Quem adora a DEUS abre mão de si
integralmente, a fim de perder-se totalmente para DEUS em obediência
incondicional a cada instante, dissolvendo-se no seu serviço. A palavra para
servir (latréuo - εξυπηρετούν - Lê-se éxipiretô) designa, no presente caso, o
serviço sacerdotal. A vida e atuação de JESUS foram um constante serviço
sacerdotal na singela obediência, até a morte, sim, até a morte na cruz (Fp
2.8). “Embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu” (Hb
5.8).
Esse aspecto de obediência absoluta também deve ser conferido à nossa
vida por intermédio de JESUS. Deve ser sustentado pela adoração a DEUS e devoção
a ele no serviço sacerdotal (latréuo - εξυπηρετούν - Lê-se éxipiretô). – Essa
trajetória de obediência, no entanto, representa uma trajetória de sacrifício
radical. Cabe render-se constantemente, com todos os desejos vãos, teimosos e
arbitrários, sobre o altar de DEUS, entregando assim a vida como oferenda a
nosso DEUS (cf. Rm 12.1).
Esse sacrifício em que constantemente entregamos ao Senhor a nós mesmos
e a vida – inclusive e principalmente em todos os instantes críticos do
dia-a-dia – é obediência diante da vontade de DEUS. Ele é, como Paulo ainda
acrescenta, “o culto a DEUS condizente com a palavra”. É importante que aqui se
use para “culto a DEUS” a mesma palavra grega (na forma de substantivo) que
JESUS emprega na frase “E somente a ele servirás (a saber, latreia -
εξυπηρετούν - Lê-se éxipiretô)”, ou seja, o serviço sacerdotal em devotada
obediência.
Essa obediência que “sacrifica”, e por meio da qual se processa a
santificação do cristão, só tem um único comportamento: obediência integral,
pura, pontual, conscienciosa e alegre!
Sintetizando: na segunda tentação, JESUS deveria simbolizar e incorporar
vitoriosamente a obediência incondicional, não dividida e alegre, que constitui
o outro lado tão importante da autêntica fé.
Fritz Rienecker. Comentário Esperança Evangelho de Lucas. Editora
Evangélica Esperança.
IV - A TENTAÇÃO DE SER NOTADO
1- A ARTIMANHA DO INIMIGO.
Como o diabo apoiou e reforçou esta tentação. Ele fez a sua sugestão
dizendo, “Está escrito”, v. 10. CRISTO havia citado as Escrituras contra ele; e
ele achou que estaria em pé de igualdade com CRISTO, e mostraria que podia
citar as Escrituras tanto quanto o Senhor. Os hereges e sedutores têm procurado
perverter as Escrituras, utilizando textos isolados e fora de contexto, para
cometer as piores iniquidades. Mandará aos seus anjos, acerca de ti, se tu
fores seu Filho, que te guardem e que te sustentem nas mãos. E agora que JESUS
estava (supostamente, creio eu, em pensamento - Observação do Pr.
Henrique) no pináculo do templo, poderia esperar especialmente esta
ministração de anjos; porque, sendo o Filho de DEUS, o templo era o lugar
adequado onde Ele deveria estar (cap. 2.46). E, além disto, se algum lugar
debaixo do sol tivesse uma guarda de anjos constantemente, deveria ser este
lugar, Salmos 68.17. É verdade, DEUS prometeu a proteção de anjos para nos
encorajar a confiar nele, não para tentá-lo; a promessa da presença de DEUS
está conosco, e junto com ela está também a promessa da ministração dos anjos;
mas esta promessa referente aos anjos não vai além da promessa da presença do
Senhor: Eles te guardarão quando estiveres andando pelo caminho, onde estiver o
teu caminho, mas não se presumires voar nos ares.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento MATEUS
A JOÃO Edição completa. Editora CPAD. pag. 548.
A passagem citada é do Salmo 91.11, 12. De acordo com a forma em que se
apresenta aqui em Lucas 4.10, 11, segue a Septuaginta (SI 90.11, 12). Não
obstante, segundo citada pelo diabo, existe uma omissão que alguns consideram
importante, outros não tanto. Segundo o texto hebraico, o Salmo 91.11 termina
com as palavras: “que te guardem em todos os teus caminhos”. Lucas 4.10
simplesmente diz “que te guardem”. Portanto, estão suprimidas as palavras “em
todos os teus caminhos”. Ao incluir essas palavras, DEUS promete proteger o
homem justo em todos os seus justos caminhos, pois estes são os caminhos do
homem que habita no abrigo do Altíssimo, que mora sob a sombra do Onipotente e
que encontrou refúgio em Jeová, sobre quem ele pôs seu amor. Por conseguinte,
estes são os caminhos do santo (Pv 2.8), do homem bom (Pv 2.20). É a tal pessoa
que se aplicam as palavras “Dará instruções a seus anjos a teu respeito, que te
guardem em todos os teus caminhos”. Ao omitir as palavras “em todos os teus
caminhos”, porventura não se favorece a interpretação da passagem como uma
promessa de Jeová de proteger o justo, não importa o que faça? Interpretado
assim, a passagem parece corresponder mais ao que o diabo quer que JESUS faça.
Não obstante, esse aspecto é provavelmente de menor importância, já que
o que Satanás omite vem a ser muito mais que as palavras de uma citação. Ele
omite qualquer referência à verdade bíblica que DEUS não tolera, mas condena e
castiga a imprudência, jogar com a providência, lançar-se impulsivamente a um
perigo totalmente injustificado (Gn 13.10, 11; Et 5.14; 7.6, 10; SI 19.13; Dn
4.28-33; 5.22, 23; Rm 1.30; 2 Pe 2.10).
Atender à proposta de Satanás era tentador, pois JESUS sabia que possuía
poderes extraordinários. Em contrapartida, que homem existe que, quando se lhe
pede que prove o argumento que tem apresentado, não se sente como que no dever de
responder imediatamente, em vez de refletir primeiro quanto ao direito de
atender tal exigência? Não obstante, JESUS não caiu nessa armadilha. Ele
percebe que fazer o que Satanás lhe propõe equivaleria a substituir a fé pela
conjectura, e a submissão à direção de DEUS pela insolência. Teria significado
nada menos que expor-se à autodestruição. A falsa confiança no Pai, que o diabo
pedia a JESUS nessa tentação, não era melhor que a desconfiança que propusera
na primeira. Equivaleria a fazer uma experiência com o Pai.
Uma tradição rabínica diz: “Quando o Messias Rei se revelar, ele virá e
se deterá no teto do lugar santo”. Com base nessa tradição, alguns expositores
opinam que o tentador estava propondo que JESUS, ao lançar-se do pináculo do
templo provaria ser realmente o Messias, já que, depois da descida miraculosa e
ilesa, a multidão, observando com espanto, gritaria: “Vejam, ele se saiu ileso!
Só pode ser o Messias!” Para JESUS, continua o argumento, esse seria, pois, um
caminho fácil para o êxito. Evitaria a cruz e obteria a exaltação sem luta nem
agonia.
HENDRIKSEN. William. Comentário do Novo Testamento.
Lucas II. Editora Cultura Cristã. pag. 326-327.
Aqui, pela primeira vez, Satanás fez uso das Escrituras. Os rabis deram
uma interpretação messiânica ao Salmo 91:11 e seguintes. JESUS não argumentou
contra o uso feito por Satanás dessa passagem, desde que esse não era o
conflito básico. A tentação pedia que JESUS criasse uma situação de perigo,
enquanto na primeira tentação a crise (fome) já existia. Era como se Satanás
estivesse dizendo: “Você não poderá conhecer- se, nem a veracidade da promessa
de DEUS, enquanto não fizer um teste’’.
Anthony Lee Ash. O Evangelho Segundo Lucas. Editora
Vida Cristã. pag. 84.
2- A BUSCA PELO PRESTÍGIO.
Holofotes e Celebridades
Na terceira tentação, a exemplo da primeira, Satanás usa a expressão:
“se tu és o filho de DEUS” (Lc 4.3,9). Esse “Se”, como uma cláusula
condicional, pode expressar dúvida e às vezes, dependendo do contexto, até
mesmo certeza.
Satanás já sabia que JESUS era o Filho de DEUS: “Bem sei que és, o SANTO
de DEUS” (Lc 4.34) e quer que JESUS faça uso dos seus atributos divinos. Vimos
quando comentamos a kenosis (ξεφούσκωμα - Lê-se sífoscomá), isto é, o
esvaziamento de JESUS por ocasião da sua encarnação, que Ele não perdeu os seus
atributos, mas que como homem não fez uso dos mesmos. Aqui Satanás,
astutamente, quer que JESUS faça uma demonstração sensacionalista de sua
divindade. Quer que Ele renuncie a sua condição de homem e aja como DEUS. Desde
que JESUS supostamente se jogasse do alto do templo, haveria uma queda livre de
150 metros até o fundo do ribeiro de Cedron. Sem dúvida Satanás queria que
JESUS fizesse um espetáculo.
Não existem dúvidas de que a tentação de ser visto, celebrado e admirado
continua sendo o que mais atrai os homens!
JESUS venceu essa tentação com Deuteronômio 6.16!
José Gonçalves.
Lucas, O Evangelho de JESUS, o Homem Perfeito. Editora
CPAD. pag. 53.
Como já se explicou, a teoria segundo a qual tanto a terceira quanto a
segunda tentação descrita em Lucas - talvez mesmo as três - ocorreram numa
visão, é digna de séria consideração. (Para mim as três tentações são
apenas visões - Observação do Ev. Luiz Henrique).
A presente tentação se desenvolve, pois, em Jerusalém, lugar ao qual o
diabo levou JESUS. Satanás pôs o Salvador sobre o mesmo pináculo (literalmente,
ala) da muralha externa do complexo inteiro do templo. O ponto exato não é
fornecido. Poderia ter sido a cornija do pórtico real de Herodes que se projeta
para o vale de Cedrom, numa altura de cerca de 150 metros, altura que provocava
vertigem, segundo Josefo assinala (Antiguidades XV. 412). Esse lugar se
encontrava a sudeste do pátio do templo, talvez no lugar, ou perto do lugar de
onde, segundo a tradição, Tiago o irmão do Senhor, foi atirado. Veja o relato
muito interessante em História Eclesiástica, Il.xxiii, de Eusébio.
“Já que és Filho de DEUS”, diz o tentador (exatamente como no v. 3),
“lança-te daqui.” Seu argumento provavelmente tenha este teor: “Poderás assim
provar sua confiança na proteção do Pai. Além disso, se a Escritura, que tão
prontamente citas, é verdadeira, nenhum mal te sobrevirá, pois está escrito:
‘Ele dará instruções a seus anjos a teu respeito’. Eles não só deterão tua
queda. Não, eles farão ainda mais. De forma muito terna te levarão em suas
mãos, a fim de que tu, que só levas sandálias, não te firas tropeçando teu pé
contra alguma dessas pedras afiadas que existem em tanta abundância no abismo
embaixo”.
HENDRIKSEN. William. Comentário do Novo Testamento.
Lucas I. Editora Cultura Cristã. pag. 325-326.
Lucas coloca a tentação relativa a Jerusalém no ponto culminante,
de acordo com sua ênfase especial sobre a cidade (veja 2:22). Como na primeira
tentação, a fé que JESUS tinha como Filho de DEUS foi de novo desafiada (veja
versículo 3). Como antes, esta pode ter sido uma experiência visionária (cf. Ez
8:3).
Anthony Lee Ash.
O Evangelho Segundo Lucas. Editora Vida Cristã. pag.
84-85.
A vitória de JESUS na primeira tentação deixou claro o que está em jogo
no uso correto dos dons concedidos por DEUS e que “fé” genuína é confiança
ilimitada e incondicional em DEUS, o Pai. O Pai há de fazer tudo bem feito!
A segunda tentação mostrou JESUS como aquele que demonstrou a obediência
integral e alegre da fé, que não faz concessões nem para a esquerda nem para a
direita, e que tampouco se inclina diante do eu ou diante do mundo.
A terceira tentação nos revela um terceiro lado da “fé de JESUS CRISTO”,
sendo também aqui a fé vista como genitivo subjetivo, i. é, como traço
essencial da pessoa de JESUS.
Essa última tentação no deserto constitui um estímulo para a exacerbação
ou agudização da essência da fé.
Por se tratar, nessa tentação, da exacerbação da fé, o diabo recorre
pessoalmente à palavra de DEUS, citando o Sl 91.11s. “Está escrito: Aos seus
anjos ordenará por tua causa que te guardem, e eles te carregarão nas mãos,
para não tropeçares nalguma pedra.” O diabo havia notado que JESUS
desembainhara duas vezes uma palavra da Escritura como espada do ESPÍRITO.
Então o diabo tenta também utilizar a mesma arma. Sua arguição tem como base
uma conclusão a fortiori (rumo ao elemento mais forte): “Se DEUS é capaz de
proteger dessa maneira o justo comum, quanto mais ele o fará contigo, que és
seu Filho!”
É significativo que Satanás, nesta terceira tentação, cite uma grande
palavra de fé da Escritura, do Sl 91, o salmo de fé do AT, a fim de desviar o
Senhor (leia esse salmo de fé). Em que consiste o elemento tentador, o
satânico, nessa terceira tentação? Em nossa opinião trata-se do seguinte: JESUS
deve declarar-se publicamente como Messias, i. é, como Redentor do povo. Nessa
notória proclamação, que ainda por cima aconteceria diante do santo templo em
Jerusalém, JESUS deve agir com fé audaciosa. – Isso parece ser autenticamente
bíblico e de acordo com a fé. Contudo, há um calcanhar de Aquiles em tudo isto:
em um ato de fé tão arbitrário, a majestade e santidade de DEUS não seriam
honradas e respeitadas, mas desafiadas e coagidas. O relacionamento entre o Pai
celeste e o Filho em peregrinação sobre a terra seria totalmente invertido. O
Filho se tornaria Senhor, e o Pai seria degradado a servo! – Algo inconcebível!
Na verdade era esse o pecado do próprio diabo, que queria apoderar-se como um
ladrão da igualdade com DEUS, que ele não possuía (bem ao contrário de JESUS,
que desde a eternidade era essencialmente igual a DEUS). – Ele pretendia
seduzir JESUS para esse tipo de causa satânica.
Fritz Rienecker. Comentário Esperança Evangelho de Lucas. Editora
Evangélica Esperança.



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