segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Lição 08 - Lucas, o ministério do Filho do Homem




___/___/____  Lucas, o Ministério do Filho do Homem

TEXTO BÍBLICO BÁSICO
Lucas 4.14-21
14 - Então, pela virtude do Espírito, voltou Jesus para a Galileia, e a sua fama correu por todas as terras em derredor.
15 - E ensinava nas suas sinagogas e por todos era louvado.
16 - E, chegando a Nazaré, onde fora criado, entrou num dia de sábado, segundo o seu costume, na sinagoga e levantou-se para ler.
17 - E foi-lhe dado o livro do profeta Isaías; e, quando abriu o livro, achou o lugar em que estava escrito:
18 - O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me a curar os quebrantados do coração,
19 - a apregoar liberdade aos cativos, a dar vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor.
20 - E, cerrando o livro e tornando a dá-lo ao ministro, assentou-se; e os olhos de todos na sinagoga estavam fi tos nele.
21 - Então, começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos.

TEXTO ÁUREO
"Respondendo, então, Jesus, disse-lhes: Ide e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho." Lucas 7.22
ORIENTAÇÕES PEDAGÓGICAS
Caro professor, nesta lição, destacaremos algumas características marcantes do ministério de Jesus como Filho do Homem.
Ele é o exemplo maior a ser seguido por todos os que se identificam como Seus discípulos.
A excelência do ministério do Filho do Homem acha-se em Seu serviço prestado a outros; deste modo, todos os que quiserem ser eficazes, no sentido espiritual, devem imitá-lo (Lc 9.23).
No decorrer da aula, reforce para seus alunos a ideia de que todos os que servem a Deus são ministros em suas respectivas capacidades — não apenas os que exercem algum cargo eclesiástico na comunidade local. À medida que estiver ministrando a aula, faça com que seus alunos reflitam sobre como Jesus agia em Seu ministério e como nós temos seguido Seu exemplo nos dias atuais.
Que sua aula seja excelente!

Palavra introdutória
Ensino, milagres e oposição são características ligadas diretamente ao ministério de Jesus no Evangelho de Lucas.
Suas ações e manifestações sobrenaturais de poder chamaram a atenção de muitas pessoas para Si e, ao mesmo tempo, levantaram controvérsias em outros grupos. Seus atos ministeriais lembravam os profetas veterotestamentários (Lc 7.16); contudo, cada palavra e passo do Mestre demonstravam que havia algo mais nele: Jesus não era apenas outro homem que fazia predições por inspiração divina; na realidade, Ele tinha uma missão, carregada de uma esperança profética, que evocava a chegada de um tempo especial de atividade de Deus entre o povo (Lc 4.18,19).
Esse é o tom dado por Lucas ao anunciar o ministério terreno de Cristo: imbuído de humildade, o Filho do Homem dedicou-se inteiramente à Sua obra; e, mesmo em face às inúmeras oposições que sofreu, permaneceu firme em Seu propósito.

A palavra ministério tem sua
origem no latim, minister,
onde está presente o
comparativo minor, que
significa menor. Deste
modo, ter um ministério (ou
ser um ministro) é, antes
de tudo, tornar-se menor
que outros para servi-los. A
grandeza do ministério de
Cristo está nisto: mesmo
sendo Filho de Deus, Ele veio
como o Filho do Homem, a
fim de libertar os cativos e
reconciliá-los com Deus .

1. UM MINISTÉRIO RECONHECIDO
Lucas mencionou a idade com que Jesus iniciou Seu ministério público: quase trinta anos (Lc 3.23) — era nessa idade que, no Antigo Testamento, os levitas davam início aos serviços ministeriais (Nm 4.47); e era nessa idade também que, segundo a tradição, um homem atingia a maturidade.
Desde os doze anos, o Filho do Homem estava ciente do Seu propósito (Lc 2.42-50); entretanto, Ele aguardou o tempo certo para exercer Seu ministério. Assim que deu início às Suas atividades ministeriais, Sua fama divulgava-se por todos os lugares, em redor daquela comarca (Lc 4.37).

1.1. O Pai afirma
Seria insuficiente as pessoas reconhecerem Jesus como alguém especial, sem que o reconhecimento de Deus fosse evidenciado. Por essa razão, antes de tornar-se célebre entre o povo, o Filho do Homem foi afirmado pelo Céu. Ao sair das águas batismais, no Jordão, o céu se abriu e ouviu-se a voz de Deus, que dizia: Tu és meu Filho amado; em ti me tenho comprazido (Lc 3.22). Este é o momento exato em que o Senhor identifica publicamente o Unigênito da Criação.
O ministério de Cristo começou com o aval celestial; foi o Deus Eterno quem validou a Sua missão. Isto nos faz lembrar de que nenhum reconhecimento humano supera o reconhecimento divino; ao contrário, ainda que não haja reconhecimento por parte dos homens, o reconhecimento de Deus habilita-nos para a missão.

1.2. Os anjos reconhecem
Os anjos também reconheceram e serviram ao ministério do Filho do Homem das 16 citações que Lucas faz sobre anjos, em seu Evangelho, 12 estão atreladas a Jesus. Observe.
Gabriel, que é citado em Daniel 8.16 e 9.21, foi quem anunciou a Maria que ela traria ao mundo o Salvador.
Em Nazaré, o mensageiro de Deus declarou à jovem: o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus (Lc 1.35b).
Após o nascimento de Jesus, um anjo apareceu aos pastores de Belém, acompanhado por uma multidão dos exércitos celestiais (Lc 2.13), e anunciou-lhes: na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor (Lc 2.11).
Jesus, ao triunfar no episódio da Tentação, foi servido por anjos (Mc 1.13).
Enquanto estava em agonia no Getsêmani, apareceu-lhe um anjo do céu, que o confortava (Lc 22.43).

1.3. Os demônios temem
Merece destaque a autoridade com que o Filho do Homem enfrentava os demônios.
Ao longo do registro lucano de Atos, encontramos relatos de feitiçaria e ilusionismo (práticas comuns no mundo antigo; conf. At 8.9-25; 13.4-12; 16.16-19); entretanto, o evangelista fez questão de destacar que Jesus diferia de todos esses engodos, pois agia com autoridade em Seu ministério, fazendo com que os demônios o temessem. Em Lucas, os demônios, ao perceberem a aproximação de Jesus, manifestavam-se dizendo:
“Bem sei quem és: o Santo de Deus” (Lc 4.34); “Tu és o Cristo, o Filho de Deus” (Lc 4.41); “Que tenho eu contigo Jesus, Filho do Deus Altíssimo?” (Lc 8.28).
O Filho do Homem não invocava qualquer lista de divindades, não recitava fórmulas de encantamento e não fazia uso de qualquer outra parafernália mística. Uma simples frase de repreensão era suficiente para fazer calar o Maligno: cala-te e sai (Lc 4.35)!

2. UM MINISTÉRIO QUE BUSCA E SALVA O PERDIDO
A partir da narrativa de Lucas, é fácil perceber que determinadas classes de pessoas receberam atenção especial do Mestre. Observe:
mulheres — a palavra mulher aparece dezenas de vezes em Lucas, e isso é impactante para uma cultura social e religiosa em que as mulheres não recebiam o devido valor (Lc 7.12,13; 8.1-3; 43-48; 23.27,28); pobres — muitas parábolas do Evangelho de Lucas fazem contraste entre riqueza e pobreza ou salientam necessidades econômicas (Lc 7.41-43; 11.5-8; 12.13-21; 15.8-10; 16.1-13; 16.19-31; 18.1-8); crianças (Lc 8.49-56; 9.46-48).
Lucas deixa claro que o Filho do Homem agiu como defensor dos desfavorecidos.
As parábolas que aparecem
em sequência no capítulo
15 do Evangelho de Lucas
são um quadro em cores do
que representa a missão do
Filho do Homem: a ovelha,
a dracma e o filho pródigo
estavam perdidos e foram
achados e restaurados.
Os ensinamentos inclusos
nessas parábolas corroboram
a declaração de Jesus: O Filho
do Homem veio buscar e
salvar o que se havia perdido
(Lc 19.10)

2.1. Seu ministério transpôs barreiras
2.1.1. Geográficas
Logo no início do Seu ministério público, Jesus anunciou que Sua missão não se restringia a uma área geográfica específica (Lc 4.43). O Messias transpôs barreiras territoriais e fez milagres em terras gentílicas, não medindo esforços para restaurar pessoas necessitadas. Certa ocasião, Ele enfrentou uma tempestade no mar da Galileia, para que pudesse libertar um jovem possesso por uma legião de demônios na terra dos gadarenos (Lc 8.22-39).

2.1.2. ReligiosasO conflito religioso existente entre judeus e samaritanos, à época, não impediu que o Filho do Homem exercesse o Seu ministério. Em determinada ocasião, Ele passou pelo meio de Samaria (Lc 17.11) e curou dez leprosos de uma só vez (Lc 17.12-14). Quando foi operar tal milagre, Jesus não fez distinção entre leprosos judeus, galileus ou samaritanos, Ele simplesmente curou todos eles. Lucas fez questão de registrar que o samaritano foi o único que voltou para agradecer.

2.1.3. Culturais
Entende-se por cultura o conjunto de tradições transferidas de geração a geração, oriundas dos costumes de um povo. Entre os judeus contemporâneos de Jesus, a transmissão cultural era observada ao extremo, a ponto de pessoas serem sentenciadas à morte em caso de rompimento de dado costume (At 6.14; 16.21). Entretanto, tais barreiras culturais jamais impediram Jesus de anunciar a salvação a qualquer necessitado.
Mesmo diante de conflitos entre a cultura judaica e a cultura helenista (relativa à Grécia antiga) — imposta pelo império romano —, o Salvador recebia os gregos (Jo 12.20-23), fazia refeições com publicanos (Lc 5.29,30) e dava atenção às rechaçadas mulheres (Lc 7.36-50; 8.43-48).


3. UM MINISTÉRIO DE ANUNCIAÇÃO DO ANO ACEITÁVEL DO SENHOR
Após a Tentação, indo para Nazaré, onde fora criado, [Jesus] entrou, num sábado, na sinagoga, segundo o seu costume, e levantou-se para ler (Lc 4.16 ARA) — naquela ocasião, fora-lhe dado o livro do profeta Isaías para recitar (cap. 61; conf. Lc 4.17). Ao término da leitura, o Filho do Homem declarou: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos (Lc 4.21); pois Ele fora ungido pelo Espírito para anunciar o ano aceitável do Senhor (Lc 4.18,19).

A Era da Graça, o tempo em
que vivemos, é o ano aceitável
proclamado por Jesus.
Em Sua segunda vinda, o
Filho do Homem proclamará
o dia da vingança do nosso
Deus (Is 61.2b). Note que
o tempo aceitável compreende
um ano, e o tempo da
vingança, um dia; isto nos
permite afirmar que a graça
de Deus é infinitamente
superior à vingança que Ele
empreenderá.

3.1. O ano aceitável do Senhor
A expressão ano aceitável do Senhor, em Isaías 61, é uma alusão ao Ano do Jubileu, quando (por propósito divino), as dívidas entre o povo eram perdoadas (Lv 25.8-55). Jesus fez uso dessa referência para anunciar o desígnio de Seu ministério.
Diferente do Ano do Jubileu, o ano aceitável do Senhor não representa qualquer ano no calendário civil. Trata-se, na realidade, de uma referência à era da salvação, que teve início com o advento do Messias. Em essência, essa é a mensagem que Jesus estava anunciando em Lucas 4.18,19.
O Ano do Jubileu israelita acontecia a cada cinquenta anos, ou seja, a cada ciclo de sete anos sabáticos. O propósito maior dessa data era equilibrar o sistema econômico da nação: nessa ocasião, os escravos eram libertos e retornavam ao convívio com suas famílias; as propriedades que haviam sido vendidas eram devolvidas aos primeiros donos; e todas as dívidas do povo eram canceladas. A terra permanecia em repouso, enquanto os homens e animais descansavam e se alegravam em Deus.
Jesus anunciou o ano aceitável do Senhor e, em Seu ministério, realizou o que prometera, não em termos políticos ou econômicos, mas no sentido espiritual. Com a Sua chegada, os pobres de espírito receberam as boas novas de salvação; os quebrantados de coração foram curados, e os cativos, libertos; os cegos recobraram a visão; e os oprimidos tiveram suas cargas aliviadas.
É importante destacar que Jesus terminou a citação do texto veterotestamentário pouco antes das palavras finais ditas por Isaías em seu livro: e o dia da vingança do nosso Deus (Is 61.2b); isto porque o Messias sabia que viria a este mundo duas vezes: a primeira para salvar os homens; a segunda, para julgá-los.

CONCLUSÃO
Reconhecido por muitos, perseguido por outros tantos, porém, ungido e aprovado por Deus-Pai: assim foi o ministério do Filho do Homem.
Que o Espírito Santo nos ajude a compreender que a aprovação e a capacitação necessárias para darmos continuidade à nossa missão não podem estar embasadas em reações alheias, mas, sim, naquilo que Deus nos diz por intermédio da Sua Palavra (Lc 10.1-12). Se direcionarmos o foco da nossa visão para as barreiras que se opõem, provavelmente ficaremos estagnados. Sejamos, pois, resolutos como Cristo, crendo que é Ele quem nos garante a vitória (Lc 24.45-47).

ATIVIDADE PARA FIXAÇÃO
1. O que significa o ano aceitável do Senhor, em Lucas 4.19?
R.: Trata-se de uma referência à era da salvação, que teve início com o advento do Messias.

Fonte: Revista Lições da Palavra de Deus n° 57




Capítulo 6

Mulheres que Ajudaram Jesus


Mulheres em Evidência Não faz muito tempo fui convidado para ministrar em uma convenção de pastores. A minha palestra versava sobre o valor da apologética cristã no ministério pastoral. Durante os dias que ali passei naquele conclave, pude observar um debate acirrado sobre a ordenação de mulheres para o ministério pastoral. As posições estavam polarizadas e os enfrentamentos se tornaram bastante calorosos! Com o não havia sido convidado para esse propósito, não tive participação ativa naquele debate.
Não é meu propósito neste capítulo tratar da ordenação ou não de mulheres ao ministério pastoral. Nem tampouco é meu objetivo entrar no mérito dessa questão emitindo um juízo de valor sobre esse assunto. Isso fugiria completamente do nosso foco aqui que é procurar entender o lugar que as mulheres ocuparam no ministério público de Jesus. Todavia acredito que precisamos conhecer o que a história registrou sobre esse assunto a fim de entendermos melhor como a mulher tem sido tratada ao longo dos anos, quer dentro da cultura judaica, cristã ou secular.

0 Catolicismo Medieval e as Mulheres!

Embora o debate em tomo da participação feminina nos contextos social e religioso é bastante atual, todavia, como observaram os escritores Bonnidell Cluse e Robert G. Bonnidell, ele não é novo.1 Bonnnidell faz um excelente apanhado histórico sobre a participação feminina no movimento evangélico através dos séculos. Aqui sintetizarei essa análise.
No contexto católico romano, por exemplo, as mulheres possuem atribuições religiosas bastante limitadas. Isso se deve ao fato da analogia que o catolicismo criou entre o sacerdócio levítico e o sacerdócio católico. Sendo o sacerdócio católico uma adaptação do sacerdócio levítico, inclusive com sua função de mediador, somente homens, como era no antigo judaísmo, poderiam participar do culto. As mulheres estavam excluídas por uma série de razões. Uma delas é que a Lei considerava uma mulher, no período menstruai, cerimonialmente impura para o culto. Dessa forma o catolicismo medieval entendia que as mulheres também estavam excluídas para as atividades religiosas pelas mesmas razões.

Mulheres no Contexto da Reforma

No contexto evangélico ou protestante, no que se refere ao papel das mulheres, os debates têm se restringido à participação ou não das mesmas no ministério pastoral. Em outras palavras, a questão gira em torno da ordenação ou não de mulheres para o exercício pastoral ou para a função de liderança. Robert G. Clouse explica como é vista essa questão nas igrejas protestantes. Na maioria das igrejas, observa ele, a ordenação para o ministério se entende como a eleição de algumas pessoas que vão ocupar posições de autoridade dentro da congregação. Isso as qualifica para pregar, administrar os sacramentos e supervisionar os assuntos da congregação. Devido a importância da pregação nas igrejas protestantes, o tema da ordenação está muito relacionado com essa função.2
 Com o advento da Reforma Protestante de 1517, a visão bíblica do sacerdócio universal de todos os crentes foi restaurada dentro do contexto evangélico. Seguindo o ensino neotestamentário, Lutero ensinou que o cristão era seu próprio sacerdote (1 Pe 2.9). Isso abolia a figura do sacerdote católico e também tornava desnecessária a figura de um mediador. Apesar de alguns historiadores acharem que Lutero, graças a sua grande influência, deveria ter olhado com mais atenção para a função de liderança das mulheres na igreja, ele não o fez.3 Mas ele acreditava que sob circunstâncias especiais as mulheres poderiam exercer algumas funções na igreja, como por exemplo, a da pregação.4 Essa sua posição mais maleável para com as mulheres exerceu influência entre luteranos e reformados, seguidores de João Calvino.5 Esse ponto de vista do reformador alemão se fundamentava no relato da criação. Ele acreditava que antes da queda tanto o homem quanto a mulher desfrutavam da mesma posição diante de Deus, mas com a entrada do pecado no mundo esse quadro mudou. O homem passou então a exercer a função de liderança. Por outro lado, João Calvino partia do princípio de que a mulher havia sido criada a partir do homem e como tal deveria ser subordinada a ele.

 Os Anabatistas e as Mulheres

A posição dos anabatistas sobre a participação das mulheres na liturgia do culto era muito mais maleável do que a dos reformadores. Os anabatistas radicalizaram mais ainda a Reforma exigindo o batismo de adultos e a participação de leigos no ministério da igreja. Na verdade os anabatistas eram totalmente contra toda forma de elitização clerical. Não há dúvida de que esse posicionamento dos anabatistas fez com que as mulheres tivessem muito mais espaço entre eles. De fato os batistas do século XVII e os Quakers, claramente influenciados pelo movimento anabatista de onde surgiram, permitiram a participação ativa de mulheres em suas liturgias.

As Mulheres e o Movimento Pietista Alemão

Essas e outras controvérsias surgidas por conta da Reforma fez com que as igrejas institucionalizadas procurassem definir seus credos doutrinários de forma muito mais precisa. A conseqüência natural dessa ortodoxia foi a classificação desses movimentos como sendo de natureza sectária e herética. Muitos cristãos não ficaram satisfeitos com esse enrijecimento doutrinário da igreja institucional e procuraram um retorno ao fervor bíblico primitivo. Passaram a enfatizar a conversão, a ansiar por uma vida mais santa e uma vida devocional mais dinâmica. Esses crentes foram apelidados de “pietistas”. Eles enfatizam a vida interior e não apenas os rituais exteriores. No movimento pietista as mulheres voltaram a ter um papel de destaque.

0 Metodismo e as Mulheres

 É com o movimento metodista, fundado por John Wesley, que as mulheres vão receber a visibilidade que ainda não possuíam, tanto na In­glaterra como nos Estados Unidos. Wesley acreditava que as restrições de Paulo quanto à função das mulheres na igreja era uma norma a ser seguida. Todavia, ele cria que Deus havia chamado a todos para a sublime missão de pregar o evangelho. Pensando assim, ele permitiu que leigos e mulheres tivessem participação ativa no seu movimento.

Os Movimentos de Reavivamento e as Mulheres

Entre os anos de 1725 e 1770, os Estados Unidos foram abalados pelo que se chama comumente de “O Grande Avivamento”. Tendo origem nas igrejas reformadas holandesas, influenciando posteriormente as igrejas congregacionais da Nova Inglaterra, esse avivamento trouxe conversões em massas e gerou também o famoso pregador Jonathan Edwards. Nesse avivamento, as mulheres tiveram uma participação especial. A mais famosa delas foi Sarah Osborn que desenvolveu um ministério público de pregação. Um outro avivamento, que se seguiu a esse, denominado de “O Segundo Grande Despertamento”, ocorreu em meados do século XIX. Cerca de dois terços dos convertidos nesse movimento eram mulheres que em sua grande maioria estavam na casa dos trinta anos. Esse fato fez com que as mulheres também tivessem proeminência dentro desse movimento.
Com o advento do pentecostalismo no início do século XX, o papel da mulher na igreja ganhou muito mais expressão. Todavia, o mesmo fenômeno que ocorreu dentro de outros movimentos evangélicos passados se repetiu dentro do pentecostalismo e a posição de liderança das mulheres ficou outra vez limitada.6

Observa-se que embora as mulheres tenham exercido diferentes funções dentro do movimento protestante, o protestantismo se manteve sempre conservador ao restringir a função de liderança eclesiástica ao sexo masculino.

 0 Movimento Feminista e as Mulheres

No contexto secular o movimento feminista surge com a bandeira que promete acabar com toda e qualquer discriminação que existe contra a mulher. De acordo com a Enciclopédia Barsa, o movimento feminista defende a igualdade de direitos e status entre homens e mulheres, que devem ter garantida a liberdade de decisão sobre suas próprias carreiras e padrões de vida.7 A origem desse movimento está associado à revolução francesa de 1789. Durante esse período de convulsão social o sistema político e social então vigente na França e no resto do Ocidente foi abalado. Ainda de acordo com a Barsa, esse movimento “encorajou as mulheres a denunciar a sujeição a que eram mantidas e que se manifestava em todas as esferas da existência: jurídica, política, econômica, educacional, etc. ”8 Com o se observa, esse movimento de contestação francês em seu início centrava-se mais na conquista de direitos civis para as mulheres, situação que viria a mudar radicalmente no século XX. O movimento feminista contemporâneo acredita que a mulher vive marginalizada e oprimida pela cultura masculina, descrita por ele como patriarcal e machista. Pensando nisso, o movimento procura denunciar os supostos mecanismos psicológicos e psicossociais que favorecem essa marginalização ao mesmo tempo em que oferece recursos que possibilitem à mulher se livrar dessas amarras. Acreditam que somente assim a mulher se torna livre em seu corpo e em seus desejos! Fundamentado nessa tese, reivindica a interrupção voluntária da gravidez (aborto) a radical igualdade nos salários e o acesso a postos de responsabilidade.9 Em muitos países esse movimento tem se tornado radical entrando constantemente em confronto com as autoridades constituídas.10
Jesus, o Judaísmo e as Mulheres
Pois bem, tendo dado essa visão panorâmica sobre como foi tratado o sexo feminino ao longo dos séculos, é nosso objetivo agora voltar para a Palestina do primeiro século a fim de entendermos como Jesus tratou as mulheres.
 Tem causado espanto em muitos pesquisadores o relato dos evangelhos sobre a participação feminina no ministério público de Jesus. Essa admiração existe em razão da atenção que os evangelistas, especialmente Lucas, dão às mulheres.11 O relato lucano mostra que as mulheres tiveram participação ativa no ministério de Jesus. “E aconteceu, depois disso,.que andava de cidade em cidade e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do Reino de Deus; e os doze iam com ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demônios; e Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, e Suzana, e muitas outras que o serviam com suas fazendas” (Lc 8.1-3).
O escritor José A. Pagola destaca essa atenção especial que o terceiro evangelho dispensa às mulheres. “Em seu relato aparecem personagens femininos de uma força extraordinária: Maria mãe de Jesus, Isabel, Ana, a viúva de Naim, a pecadora na casa de Simão, suas amigas Marta e Maria, Maria de Magdala, uma mulher anônima que tece elogios à sua mãe... Lucas tem um interesse especial em apresentar Jesus curando mulheres enfermas —a sogra de Simão, a mulher que sofria de hemorragia, a anciã encurvada, Maria de Magdala, da qual liberta “sete demônios” (8.2). Também sublinha sua compaixão e sua ternura com a mulher pecadora (7.36-50), com a viúva de Naim (7.11-17), com as que saem chorando ao seu encontro no caminho da cruz (23.27- 31).12 Pagola destaca ainda que essas “mulheres são seguidoras de Jesus e acompanham os Doze: Maria Madalena; Joana, mulher de Cuza; Susana e ‘muitas outras que o serviam com seus bens’ (8.1-3). Quando os varões abandonaram Jesus, elas permanecem fiéis até o fim junto à cruz (23.49). São elas as primeiras a anunciar a ressurreição de Jesus, embora os discípulos não acreditem nelas (24.22). O Evangelho de Lucas nos ajudará a olhar a mulher como Jesus a olhava, para defender sua dignidade e para fazer com que elas ocupem em sua comunidade o lugar que lhes corresponde”.13
Essa forma de enxergar a mulher, não a tratando como objeto como fazia, por exemplo, o antigo judaísmo, era totalmente inusitada na Palestina dos dias de Jesus. Jesus, portanto, mudou o paradigma que via as mulheres como “coisa” e não como um ser especial formado por Deus.
Assim como Pagola, outros teólogos têm procurado também entender o papel desempenhado pelas mulheres nas comunidades da Palestina dos dias de Jesus. Dentre eles estão J. Jeremias, John P. Meier, Gerd Theissen e os escritores Ekkehard e Wolfgang Stegemann. A obra desses autores procura reconstruir a vida cotidiana das mulheres nos dias bíblicos.14 John P. Meier, por exemplo, em sua obra Um Judeu Marginal observa que embora Lucas não use o substantivo mathetes ou a sua forma feminina equivalente mathetria para se referir a uma discípula, todavia o substantivo masculino em sua forma plural hoi mathetai pode ser usado em referência tanto para homens como para mulheres.
O que pode ser afirmado, diz Meier, com razoável probabilidade sobre a existência ou a natureza de discípulas em torno do Jesus histórico? Para começar, havia seguidoras? E, se havia mulheres seguindo Jesus em um sentido literal e físico, eram elas chamadas ou consideradas “discípulas” durante a vida de Jesus? Tais questões, embora pareçam simples, são surpreendentemente difíceis de responder. Na verdade, quando várias passagens do Evangelho falam em geral de grupos de “discípulos” com Jesus, sem maiores especificações sobre a composição do grupo, é lícito assinalar que o substantivo masculino plural hoi mathetai pode ser entendido inclusivamente, pois pelo menos alguns substantivos masculinos plurais em grego eram entendidos assim (p. ex., o masculino plural hoi goneis para “pai [pai e mãe]”). Ao contrário da tendência contemporânea do uso no inglês dos Estados Unidos, o masculino plural em grego admite uma interpretação inclusiva se o contexto não dá outra indicação. Portanto, a forma gramatical hoi mathetai poderia se referir a discípulos masculinos e também femininos. Pode-se montar um argumento para mostrar que Lucas em particular interpreta o plural dessa maneira, embora ele nunca use clara e diretamente mathetai apenas para um grupo de mulheres.15
O fato de um grupo de mulheres serem citadas como seguidoras de Jesus tem chamado a atenção dos estudiosos. Isso mostra que a missão do Filho do Homem não se limitou aos excluídos economicamente, mas também aquelas que haviam sido excluídas socialmente. É possível observar que essas mulheres, embora discípulas de Jesus, não se sentiram constrangidas a renunciar os seus bens. Com o bem observou Meier, se assim tivessem feito não poderiam servir de forma contínua a Jesus e a seus apóstolos (Lc 8.1-3).
O contraste existente, portanto, entre o tratamento que Jesus deu às mulheres e aquele que elas recebiam da sociedade de seus dias é de fato enorme. Na verdade, Jesus promoveu uma verdadeira “inversão” de valores naqueles dias. O objeto passou a ser sujeito! Os escritores Ekkehard e Wolfgang Stegemann na obra História Social do Protocristianismo, fizeram resgate histórico sobre a participação feminina nas culturas do mundo mediterrâneo. Citando o escritor judeu Filo de Alexandria, contemporâneo de Jesus, eles resumem o pensamento que se tinha sobre as mulheres no judaísmo do primeiro século. “Praças, reuniões do conselho, tribunais, associações, ajuntamentos de grandes massas e o relacionamento cotidiano a céu aberto, por meio da palavra e da ação, na guerra e na paz, são apropriados apenas aos homens; o sexo feminino, em contrapartida, deve cuidar do lar e permanecer em casa; mais exatamente, as virgens devem (ficar) nos aposentos mais retirados e encarar as portas de acesso como seu limite; as mulheres casadas, por sua vez, as portas da casa. Pois há dois tipos de complexos urbanos, casas (oikíai); destes dois, com base na divisão, os homens têm a direção dos maiores, que constitui a administração da cidade (politeia), e as mulheres dirigem os menores, as chamadas economias domésticas (oikonomía). A mulher, portanto, não deve se preocupar com qualquer coisa que vá além das obrigações da economia doméstica.”16
Por outro lado, as culturas gregas e romanas eram muito mais flexíveis com a participação das mulheres na vida pública. Mas, de uma forma geral, a cultura oriental era bastante rígida com a participação feminina na coletividade. Ainda sobre a presença feminina na vida pública na Palestina nos dias de Jesus, o escritor e historiador J. Jeremias destaca que as mulheres não podiam sair de casa sem terem seus rostos cobertos por uma espécie de burca. Dessa forma não era possível nem mesmo reconhecer seu rosto. E conhecido o caso de um sacerdote que mandou açoitar a própria mãe porque não a reconheceu por causa da indumentária que ela vestia! Jeremias destaca que a mulher que saía de casa sem ter a cabeça coberta, que dizer, sem o véu que ocultava o rosto, faltava de tal modo aos bons costumes que o marido tinha o direito, até mais, tinha o dever de despedi-la sem ser obrigado a pagar a quantia que, no caso de divórcio, pertencia à esposa, em virtude do contrato matrimonial.17
As regras do decoro, observa ainda J. Jeremias, proibiam encontrar-se sozinho com uma mulher, olhar para uma mulher casada, e até mesmo cumprimentá-la. Seria vergonhoso para um aluno de escriba falar com uma mulher na rua. Aquela que conversasse com alguém na rua ou ficasse do lado de fora de sua casa podia ser repudiada sem receber o pagamento previsto no contrato de casamento.18 Isso nos permite entender outros textos dos Evangelhos onde Jesus aparece conversando com mulheres! No Evangelho de Lucas, por exemplo, vemos Jesus dialogando com as irmãs Marta e Maria e no Evangelho de João a clássica história da samaritana. Até mesmo os apóstolos, que acompanhavam Jesus de perto, admiraram-se dessa ousadia do Mestre.

 Mulheres que tiveram um Encontro Pessoal com Jesus

Aprecio o esboço feito pela escritora Wanda de Assumpção sobre as mulheres que tiveram um encontro pessoal com Jesus. Ela divide em quatro grupos todas as mulheres que de alguma forma se encontra­ ram com Jesus. No grupo das que tiveram Jesus como seu sustento e consolo, estão: Ana, a profetisa, a viúva de Naim e a viúva pobre. No grupo das mulheres que tiveram Jesus como a sua justificação, estão: a pecadora que ungiu os pés de Jesus e a mulher adúltera. N o grupo das que tiveram Jesus como a cura, estão: a sogra de Pedro, a mulher com hemorragia, a mulher curvada por enfermidade, a mulher siro-fenícia e Maria Madalena. Por último, no grupo das mulheres que tiveram Jesus como a água viva que sacia a sede, encontram-se: a mulher samaritana, Marta, Maria de Betânia, a mãe de Tiago e João e Maria, a mãe de Jesus.19
De todas essas histórias, a narrativa sobre a mulher pecadora que ungiu os pés de Jesus se mostra como uma das mais belas e fascinantes. Ela mostra que Jesus valorizou as mulheres e devolveu-lhes a dignidade perdida.
 “E rogou-lhe um dos fariseus que comesse com ele; e, entrando em casa do fariseu, assentou-se à mesa. E eis que uma mulher da cidade, uma pecadora, sabendo que ele estava à mesa em casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com unguento. E, estando por detrás, aos seus pés, chorando, começou a regar-lhe os pés com lágrimas, e enxugava-lhos com os cabelos da sua cabeça e beijava-lhe os pés, e ungia-lhos com o unguento. Quando isso viu o fariseu que o tinha convidado, falava consigo, dizendo: Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, pois é uma pecadora. E, respondendo, Jesus disse-lhe: Simão, uma coisa tenho a dizer-te. E ele disse: Dize-a, Mestre. Um certo credor tinha dois devedores; um devia- lhe quinhentos dinheiros, e outro, cinqüenta. E, não tendo eles com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Dize, pois: qual deles o amará mais? E Simão, respondendo, disse: Tenho para mim que é aquele a quem mais perdoou. E ele lhe disse: Julgaste bem. E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês tu esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; mas esta regou-me os pés com lágrimas e mos enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo, mas esta, desde que entrou, não tem cessado de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta ungiu-me os pés com unguento. Por isso, te digo que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco é perdoado pouco ama. E disse a ela: Os teus pecados te são perdoados. E os que estavam à mesa começaram a
Algumas deduções são possíveis a partir desse texto:

1. A mulher pecadora era “cobiçada” pelos homens, mas não se sentia amada por Deus. Essa mulher que ungiu os pés de Jesus, que não deve ser confundida com uma outra mulher citada no capítulo 12 do evangelho de João, trazia o estigma de ser “pecadora”. Esse adjetivo significava que ela era uma mulher de vida “livre” ou mais popularmente uma “prostituta”. Isso a excluía da vida religiosa e da vida em sociedade. Não há dúvida de que essa mulher, sempre disponível para os homens, sendo cobiçada por eles, não se sentia uma mulher amada. É somente quando ela encontra o Senhor Jesus que ela de fato vai saber o que é se sentir realmente amada. Jesus fez com que a mulher pecadora se sentisse perdoada por Deus.

2. A mulher pecadora levava consigo um frasco de perfume, mas não conseguia encobrir o fedor do seu passado. O fariseu que convidou Jesus, ao observar a cena da mulher ungindo o Senhor, pensou: “Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, pois é uma pecadora”. Esse fariseu tinha o olfato refinado para sentir o cheiro do “pecado”. Pela lei, aquela mulher de fato era uma pecadora! O fariseu e todos os presentes ali sabiam disso. Parece que aquela mulher fedia a pecado. Foi somente quando teve o contado com o Mestre que o seu pecado e conseqüente o seu passado foram esquecidos diante de Deus. Agora ela não fedia mais a pecado, mas tornara-se o bom perfume de Cristo (2 C o 2.15).

3. A mulher pecadora vendia o seu corpo, mas não conseguia comprar a paz. O que de fato essa mulher procurava e buscava com intensidade era encontrar a paz! Ela tinha os homens à sua volta, ganhava dinheiro com seu corpo, mas não conseguia encontrar a paz. Jesus mostra-lhe que ser amada por Deus e perdoada por Ele é o que importa. A paz vem quando o perdão de Deus é derramado em seu coração.dizer entre si: Quem é este, que até perdoa pecados? E disse à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz” (Lc 7.36-50).

4. A mulher pecadora derramou diante de Jesus tudo o que tinha para que Deus juntasse o que havia sobrado dela. O relato lucano diz que ela ungia o Senhor. Ela derramou tudo o que possuía de mais precioso sobre o Senhor. O seu gesto de entrega e de arrependimento possibilitou o Senhor restaurá-la por completo. A sua vida, que se encontrava fragmentada em retalhos foi totalmente reconstruída. 5. A mulher pecadora aprendeu que a Lei condena, mas a graça perdoa! A Lei puniu aquela mulher, a graça a perdoou! A Lei a excluía, a graça a abraçou! A Lei foi dada através de Moisés, a graça e a verdade vieram através de Jesus Cristo (Jo 1.17).


Capítulo 7 Poder sobre as Doenças e a Morte


A Secularização da Fé

“E impossível usar a luz elétrica e o telégrafo sem fio, e beneficiar-se das modernas descobertas médicas e cirúrgicas, e ao mesmo tempo acreditar no mundo de (...) milagres do Novo Testamento”.1 Estas palavras não foram ditas por um ateu, mas por um dos mais conceituados teólogos liberais da Alemanha, Rudolf Bultmann (1884-1976).
Bultmann não está sozinho na sua posição. Dezenas de outros teólogos também compartilham de seu pensamento. Recentemente o teólogo liberal Jonh Shely Spong escreveu: “Partindo do princípio de que não considero Deus um “ser”, não posso também interpretar Jesus como a encarnação desse Deus sobrenatural, nem posso assumir com credibilidade que ele possua poder divino suficiente para fazer coisas tão miraculosas quanto acalmar as águas do mar, expulsar demônios, andar sobre a água ou multiplicar cinco pães para alimentar cinco mil pessoas. Se tivermos que reivindicar a natureza divina desse Jesus, terá que ser sobre outras bases. Milagres da natureza, estou convencido, dizem muito sobre o poder que as pessoas atribuíram a Jesus, mas não dizem nada sobre o que ocorreu literalmente.”

“Não creio que Jesus”, continua Spong, “pudesse ressuscitar os mortos, curar pessoas cuja paralisia já fora diagnosticada pela medicina, restaurar a visão dos cegos de nascença ou daqueles que perderam a visão por outra causa, nem acredito que ele tenha feito literalmente tudo isso. Também não creio que ele fez ouvir alguém surdo e mudo de nascença. Histórias de cura podem ser vistas de diversas formas. Considerá-las sobrenaturais ou milagrosas, em minha opinião, é a possibilidade de menor credibilidade”.2

As obras de Bultmann e Spong procuram provar que milagres não existem. Para entendermos o pensamento desses teólogos liberais será preciso recuarmos no tempo, mais precisamente aos séculos XVII e XVIII. Foi durante esse período da história que a cultura ocidental experimentou o que os filósofos denominam de mudança de paradigma. A visão de mundo aceita até então, era aquela dada pelo catolicismo medieval. As explicações para os fenômenos cosmológicos não eram dadas por físicos e matemáticos, mas pelos teólogos da Escolástica.3
As novas descobertas nos campos da física e da matemática passaram a se contrastar com a cosmovisão católica. Em 1637, o matemático Rene Descartes (1596-1650) lançou a sua famosa obra intitulada: Discurso do Método. Nesse livro, Descartes propunha um novo método de investigação dos fenômenos naturais que fosse muito além do que ele considerava como meras especulações teológicas. Descartes elegeu a dúvida como seu método de investigação. Ele passou a duvidar de tudo e somente aquilo que não admitisse mais dúvida, depois de acurada investigação, deveria ser aceito como verdade absoluta.
Essa nova visão de mundo idealizada por Descartes, também denominada de cartesianismo ou cientificismo, marcou o fim da cosmovisão medieval e o início da Modernidade. Com as descobertas das leis físicas que regem o Universo feitas por Isaac Newton (1642-1727), o paradigma moderno se consolidou. No século XVIII, um movimento cultural europeu denominado de Iluminismo tomou para si como dogma essa nova concepção de mundo. A partir dessa nova visão de mundo, somente o que poderia ser explicado racionalmente, isto é, o que pudesse ser objeto de pesquisa e mensurado empiricamente deveria ser aceito como verdade absoluta. Nada que não passasse pelo crivo da razão podia ser aceito como verdade. Dentro desse contexto as narrativas religiosas ou bíblicas, por não se enquadrarem nesse novo modelo, não deveriam ser tidas como verdades absolutas. Estava aberta a porta para o criticismo bíblico!
Com o vimos, essa visão de mundo teve um impacto enorme sobre as igrejas europeias, especialmente as protestantes. Através das academias e seminários teológicos, uma onda de incredulidade varreu as igrejas europeias e posteriormente as americanas. O cristianismo secularizado passou a usar a razão para explicar as narrativas bíblicas e não a fé como mostram os Evangelhos. Voltarei a tratar com mais detalhes sobre esse modelo cultural no capítulo 13.

Milagres Existem?

 Em seu livro L/m Judeu Marginal, o teólogo John Meier faz uma excelente apologia em favor da ocorrência de milagres nos dias atuais.4 Para Meier há três formas de se conceituar um milagre:

 1) um evento incomum, surpreendente ou extraordinário que, em princípio, é perceptível a qualquer observador interessado e imparcial;

2) um evento que não encontra explicação razoável nas habilidades humanas ou em outras forças conhecidas que agem em nosso mundo de tempo e espaço, e

3) um evento resultante de um ato especial de Deus, fazendo o que nenhum poder humano consegue fazer.5 Meier evita o conceito de milagre como sendo um evento que ultrapassa, transgride, viola ou contradiz “as leis da natureza” ou a “lei natural”. Isso ele faz acertadamente para evitar cair no mesmo erro no qual incorreram os teólogos liberais. Como filha legítima do Iluminismo alemão, a teologia liberal também abraçou a ideia de que o Universo era regido por leis naturais fixas e invioláveis. De acordo com essa visão de mundo, um milagre é algo impossível de acontecer porque Deus não iria quebrar leis que Ele próprio criou. Milagres, portanto, não existiriam.

Meier escreve:
“A noção filosófica de que o curso suave da ‘natureza’ é regulado por leis imanentes não encontra paralelo direto na vasta maioria dos livros do AT escritos em hebraico. A partir do primeiro capítulo do Gênesis, o mundo criado emerge do caos e o tempo todo para lá tende a retornar. Somente o poder criativo de Deus, e não as leis ‘naturais’ inerentes às realidades de tempo e espaço, impede que o mundo volte a cair na desordem. Deus dá ou impõe leis às suas criaturas; tais leis não surgem ‘naturalmente’ das criaturas, por causa de sua própria essência.”6
Meier observa ainda que essa concepção de uma “natureza” (phisis) autônoma que governa o universo é uma ideia herdada do platonismo e incorporada posteriormente à teologia cristã. No entanto, observa ele, “mesmo em Filon de Alexandria, que refletia o platonismo grego, a ‘natureza’ é entendida à luz da tradição do AT, ou seja, como ‘criação’, que é feita e governada pela palavra e sabedoria de Deus. A natureza não é uma realidade autossuficiente que funciona de acordo com suas próprias leis inerentes e invioláveis, não uma realidade identificável, em última análise, com o próprio Deus”.7

Foi fundamentado na concepção de mundo mecanicista e não na Bíblia que Rudolf Bultmann e mais recentemente John Sheley Spong construíram suas teologias acerca dos milagres. Com o advento da física quântica e seu princípio da incerteza de Wemer Heisenberg essa concepção de mundo, que vê o universo apenas como uma máquina, vem sendo abandonada pela comunidade científica. As descobertas da física quântica mostram que as leis fixas do universo são válidas para o macrocosmo mas não para o microcosmo do mundo subatômico. Em palavras mais simples, o universo não pode mais ser explicado somente a partir de leis fixas e imutáveis como apregoavam os filósofos do Iluminismo.8 A mesma ciência que armou os teólogos liberais com a física mecanicista agora os desarma com a física quântica. Trocando isso em miúdos — a ciência contemporânea não pode afirmar nem tampouco negar a existência de um milagre. Isso é competência da teologia!

Uma Resposta ao Secularismo

O movimento pentecostal surge em um contexto onde os crentes mais devotos, insatisfeitos com a secularização do cristianismo institucional, buscam novamente o fervor dos primitivos cristãos. Muitos movimentos periféricos passaram a apregoar a necessidade de uma vida mais profunda. 
Dentre eles se destaca o Movimento Holiness (Santidade) que atingiu as igrejas norte-americanas em torno de 1880. Foi oriundo desse Movimento de restauração que veio Charles Fox Parham e William J. Saymour. Posteriormente Daniel Berg e Gunnar Vingren, que haviam aderido ao movimento em 1906. Eles trouxeram a mensagem pentecostal para o Brasil. Os milagres vieram juntos.
Milagre no Seringal
Atualmente o pastor José Veras Fontinele pastoreia a igreja Assembleia de Deus na cidade de Piripiri (PI). Ele é um dos poucos herdeiros ainda vivo desse pentecostalismo clássico. Seus cabelos brancos, voz rouca e pele enrugada são sinais físicos de longos anos de dedicação ao ministério pastoral. Na casa dos oitenta anos, o pastor Fontinele, como é conhecido entre os amigos, é um homem que demonstra muita lucidez. Conheci o pastor Fontinele há mais de vinte anos e desde então aprendi a admirá-lo e respeitá-lo como um doprocurou viver sem mascaramentos o evangelho de Jesus. Suas poucas palavras, porém carregadas de sabedoria, fizeram com que os seus pares sempre parassem para ouvi-lo.

Pois bem, a história desse pioneiro do pentecostalismo piauiense é marcada por uma série de fatos miraculosos, mas um deles me chamou a atenção — a cura de uma doença incurável que ele havia contraído ainda na sua mocidade. A história me foi passada por um amigo e desde então eu aguardava uma ocasião própria para ouvi-la da sua própria boca.
Certa vez nos encontrávamos em um conclave de pastores em uma das cidades piauienses do sul do estado. Ao vê-lo e cumprimentá-lo expus o meu desejo de ouvir a história que terceiros me haviam repassado. Sem demonstrar enfado ou cansaço, nem tampouco se sentir incomodado, ele narrou o que se segue.

Contou-me que ainda muito jovem e ainda não convertido ao evangelho, adoeceu e quando um médico foi consultado, o diagnóstico não poderia ser mais devastador — ele havia contraído tuberculose. Nessa época, próximo dos anos cinqüenta, observou ele, era constrangedor possuir um “tuberculoso” na família. Mesmo sendo bem jovem, mas não querendo ser um embaraço para a família, ele resolveu então secretamente sair de casa e migrar para a região Norte do país. O estado escolhido foi o Acre, onde iria tentar trabalhar no seringal.
Chegando ao seringal foi morar em uma vila onde a principal cultura era o extrativismo da borracha. Ali chegando, a doença começou a dar sinais mais fortes de sua presença, sendo que alguns sintomas, dentre eles a tosse passou a se manifestar de forma mais aguda. A comunidade ficou ciente da sua doença. Foi então que certa vez, quando ele se encontrava em um comércio local que uma senhora o interpelou: “Fontinele, porque você não faz um voto com Jesus para que ele o cure dessa doença?” E completando, disse: “Quando Ele te curar, então você o recebe como Salvador de sua vida.”

O pastor me informou na seqüência que aquela mulher fazia parte de uma igreja evangélica pentecostal do povoado e que os pentecostais tinham por hábito fazerem três cultos domésticos em suas residências. Foi para participar de uma dessas reuniões que ele fora convidado por aquela simpática senhora. Quando recebeu o convite, o pastor se limitou a pensar com incredulidade como poderia uns pecadores daqueles curarem alguém. Mas não tendo nada a perder, aceitou o convite.
Chegando à residência para onde fora convidado e adentrando no recinto, encontrou algumas pessoas de joelhos e orando em alta voz. As líderes mais honrados de nosso estado. Homem de caráter e reputação ilibada que sempre sua presença logo foi percebida pela dona da casa, a mesma que o havia convidado. Interrompendo a reunião, ela informou a razão da presença daquele jovem ã reunião deles. Disse também que Fontinele havia se comprometido que tão logo ficasse bom, serviria ao Senhor Jesus. Demonstrando muita ousadia, confiança e fé, aquela senhora perguntou quantos dos presentes acreditavam que Jesus iria curar o jovem! Todos responderam em uníssono que criam na sua cura.

“Quando aquela mulher orou por mim”, contou-me o veterano pastor, “vi línguas de fogo saindo de sua boca”. Foi então que ele passou a perceber a presença de um ser angélico vestido de branco aproximar-se dele. Aquele varão trazia na mão um vasilhame cheio de azeite quente. Ao tocar-lhe, o ser de branco fez com que ele ficasse reclinado a fim de que o azeite pudesse ser despejado em sua boca. Ao abrir a boca, Fontinele sentiu o azeite descendo pela sua garganta e à medida que o óleo quente entrava em seu interior ele começou a transpirar por todos os poros!

 Quando aquela senhora terminou a oração, ele se sentiu totalmente curado! Com os olhos marejando em lágrimas, o pastor Fontinele contou-me que no dia seguinte todos os sintomas da doença haviam desaparecido. Meio século já se passou desde aquela cura milagrosa e ele continua ainda curado!
Jesus e o Poder sobre as Doenças e a Morte

No Evangelho de Lucas encontramos vários relatos de curas milagrosas e de pessoas sendo ressuscitadas. Não há por parte do evangelista a preocupação de provar que milagres existem. As fontes as quais ele pesquisou e as pessoas as quais consultou detalharam o que ouviram e viram Jesus fazer. Jesus não curava e ressuscitava as pessoas de entre os mortos para provar alguma coisa. Antes ele as curava por ser o filho de Deus.

Missão Messiânica

Lucas parte do princípio de que Jesus é o Messias prometido nas Sagradas Escrituras e que Ele havia sido capacitado pelo Espírito Santo para realizar as obras de Deus (Lc 4.16-18; Is 61.1,2). Mais uma vez a teologia carismática de Lucas fica em destaque. Na cura do paralítico de Cafarnaum, Lucas destaca que “o poder do Senhor estava com ele para curar” (Lc 5.17). O poder do Senhor é um sinônimo para a unção do Espírito Santo (At 10.38). Por outro lado, na ressurreição do filho da viúva de Naim, Lucas observa que o povo exclamou: “Grande profeta se levantou entre nós; e: Deus visitou o seu povo” (Lc 7.16). Não há dúvida de que esse grande profeta é uma referência messiânica encontrada em Deuteronômio: “Suscitar-lhe-ei um profeta do meio de seus irmãos, semelhante a ti, em cuja boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar” (Dt 18.15-19).
 As curas e milagres de ressurreição de mortos efetuados por Jesus, portanto, faziam parte da sua revelação messiânica e a demonstração da compaixão e do amor de Deus. “E aconteceu, pouco depois, ir ele à cidade chamada Naim, e com ele iam muitos dos seus discípulos e uma grande multidão. E, quando chegou perto da porta da cidade, eis que levavam um defunto, filho único de sua mãe, que era viúva; e com ela ia uma grande multidão da cidade. E, vendo-a, o Senhor moveu-se de íntima compaixão por ela e disse-lhe: Não chores. E, chegando-se, tocou o esquife (e os que o levavam pararam) e disse: Jovem, eu te digo: Levanta-te. E o defunto assentou-se e começou a falar. E entregou-o à sua mãe. E de todos se apoderou o temor, e glorificavam a Deus, dizendo: Um grande profeta se levantou entre nós, e Deus visitou o seu povo” (Lc 7.11-16).
A Manifestação do Reino de Deus
Os milagres de Jesus na perspectiva lucana devem ser também entendidos como a manifestação da vinda do reino de Deus. Em Lucas, a expressão “Reino de Deus” deve ser entendida como sendo o domínio de Deus (Lc 17.20,21). Ao curar os enfermos e ressuscitar os mortos, Jesus demonstrava que o Reino de Deus havia chegado: “Também os enviou a pregar o reino de Deus e curar os enfermos” (Lc 9.2); “Falava-lhes a respeito do reino de Deus e socorria os que tinham necessidade de cura” (Lc 9.11). No Evangelho de Mateus essa mensagem acerca do reino de Deus, além da cura dos enfermos envolve também a ressurreição dos mortos (Mt 10.8).
 E uma verdade bíblica que as doenças e a morte existem por causa da entrada do pecado no mundo. Isso não significa dizer que toda e qualquer doença fosse resultante de um pecado pessoal. Os evangelhos mostram que haviam doenças que poderiam advir como conseqüência de um pecado pessoal, como no caso da cura do paralítico no tanque de Betesda (Jo 5.14, veja também 1 Co 11.27-31). Mas nem todas as enfermidades e doenças estavam necessariamente associadas a algum tipo de pecado ou punição pessoal (Jo 9.1-3). No caso do cego do capítulo nove do Evangelho de João, Jesus afirmou que nem o doente nem seus pais haviam pecado para que ele nascesse cego! Em outras palavras, a lei de causa e efeito do pecado e suas conseqüências não pode ser aplicada aqui para explicar a razão da cegueira daquele homem. O certo é que a sua cegueira existia, não como conseqüência de um pecado pessoal, mas em razão da queda! O relato da cura do paralítico de Cafarnaum é emblemático no evangelho de Lucas (Lc 5.17-26).
“E aconteceu que, em um daqueles dias, estava ensinando, e estavam ali assentados fariseus e doutores da lei que tinham vindo de todas as aldeias da Galileia, e da Judeia, e de Jerusalém. E a virtude do Senhor estava com ele para curar. E eis que uns homens transportaram numa cama um homem que estava paralítico e procuravam fazê-lo entrar e pô-lo diante dele. E, não achando por onde o pudessem levar, por causa da multidão, subiram ao telhado e, por entre as telhas, o baixaram com a cama até ao meio, diante de Jesus. E, vendo-lhes a fé, Jesus disse ao paralítico: Homem, os teus pecados te são perdoados. E os escribas e os fariseus começaram a arrazoar, dizendo: Quem é este que diz blasfêmias? Quem pode perdoar pecados, senão Deus? Jesus, porém, conhecendo os seus pensamentos, respondeu e disse-lhes: Que arrazoais em vosso coração? Qual é mais fácil? Dizer: Os teus pecados te são perdoados, ou dizer: Levanta-te e anda? Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra poder de perdoar pecados (disse ao paralítico), eu te digo: Levanta-te, toma a tua cama e vai para tua casa. E, levantando-se logo diante deles e tomando a cama em que estava deitado, foi para sua casa glorificando a Deus. E todos ficaram maravilhados, e glorificaram a Deus, e ficaram cheios de temor, dizendo: Hoje, vimos prodígios” (Lc 5.17-26).
Antes de tratar do problema físico do paralítico, Jesus primeiramente tratou da sua alma. O texto não nos permite deduzir que esse homem encontrava-se assim em razão de algum pecado pessoal. Mas por outro lado, o contexto não deixa dúvidas de que aquele pobre moribundo, além da doença física também carregava consigo a culpa. De outra forma não teria sentido as palavras que Jesus dirigiu a ele: “Os teus pecados te são perdoados” (Lc 5.23). O seu estado demonstrava que a sua necessidade imediata era de cura e não de perdão, mas o Senhor não o viu assim. Antes resolveu o problema da culpa, dando-lhe uma palavra de perdão e somente depois cuidou também de curar o seu corpo: “Levanta-te, toma a tua cama e vai para tua casa” (Lc 5.23).

A Cura e a Expiação

Esses milagres efetuados por Jesus durante o seu ministério público estavam, sem dúvida alguma, associados à sua missão vicária. Dizendo isso de uma outra forma, o testemunho dos Evangelhos é que Jesus levou sobre si as nossas doenças e enfermidades. Isso significa dizer que a cura faz parte da expiação (Mt 8.16-17). “E, chegada à tarde, trouxeram-lhe muitos endemoninhados, e ele, com a sua palavra, expulsou deles os espíritos e curou todos os que estavam enfermos, para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías, que diz: Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e levou as nossas doenças” (Mt 8.16,17).9
Ao afirmar que a cura faz parte da expiação, não significa dizer que todos serão curados. Da mesma forma, nem todos vão ser salvos embora a salvação também faça parte da expiação. A santidade do crente também foi conquistada na cruz. Ela, portanto, faz parte da expiação, embora nem todos vivam santamente. E paradoxal, mas é bíblico. A doutrina da expiação de Cristo nos dá uma base segura para crermos na salvação da nossa alma e na cura de nosso corpo. Todas as bênçãos de Deus para nós, providas por Cristo, foram possíveis através de seu sacrifício vicário.
Não há bênção fora da expiação!

Capítulo 8 Poder sobre a Natureza e os Demônios


“E navegaram para a terra dos gadarenos, que está defronte da Galileia. E, quando desceu para terra, saiu-lhe ao encontro, vindo da cidade, um homem que, desde muito tempo, estava possesso de demônios e não andava vestido nem habitava em qualquer casa, mas nos sepulcros. E, quando viu a Jesus, prostrou-se diante dele, exclamando e dizendo com alta voz: Que tenho eu contigo Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Peço-te que não me atormentes. Porque tinha ordenado ao espírito imundo que saísse daquele homem; pois já havia muito tempo que o arrebatava.
 E guardavam-no preso com grilhões e cadeias; mas, quebrando as prisões, era impelido pelo demônio para os desertos. E perguntou-lhe Jesus, dizendo: Qual é o teu nome? E ele disse: Legião; porque tinham entrado nele muitos demônios. E rogavam-lhe que os não mandasse para o abismo. E andava pastando ali no monte uma manada de muitos porcos; e rogaram-lhe que lhes concedesse entrar neles; e concedeulho. E, tendo saído os demônios do homem, entraram nos porcos, e a manada precipitou-se de um despenhadeiro no lago e afogou-se. E aqueles que os guardavam, vendo o que acontecera, fugiram e foram anunciá-lo na cidade e nos campos. E saíram a ver o que tinha acontecido e vieram ter com Jesus. Acharam, então, o homem de quem haviam saído os demônios, vestido e em seu juízo, assentado aos pés de Jesus; e temeram. E os que tinham visto contaram-lhes também como fora salvo aquele endemoninhado. E toda a multidão da terra dos gadarenos ao redor lhe rogou que se retirasse deles, porque estavam possuídos de grande temor. E, entrando ele no barco, voltou. E aquele homem de quem haviam saído os demônios rogou-lhe que o deixasse estar com ele; mas Jesus o despediu, dizendo: Torna para tua casa e conta quão grandes coisas te fez Deus. E ele foi apregoando por toda a cidade quão grandes coisas Jesus lhe tinha feito”(Lc 8.26-39).

Na Terra do Gadareno Em outubro de 2013 comandei uma caravana para Israel. No roteiro da viagem estava incluso um tour pela Jordânia, país que faz fronteira com Israel. Na Jordânia, conhecemos o monte Nebo, local onde Moisés contemplou a Terra Prometida antes da sua morte (Dt 34.5); passamos pelo Vau de Jaboque, local onde Jacó lutou com o anjo de Deus (Gn 32.28); conhecemos o local apontado pela arqueologia onde Jesus de fato fora batizado e também conhecemos Gerasa, também denominada de Gadara (Mt 8.28), local onde Jesus libertou o endemoninhado. Ali chegando, pude logo perceber porque os evangelistas usam de forma intercambiável os termos “Gadara” e “Gerasa” para se referirem ao local onde se deu a libertação do endemoninhado. Na verdade, Gadara e Gerasa faziam parte de um complexo de cidades conhecidas como “Decápolis”, isto é, um conjunto de dez cidades. Foi ali na região da Decápolis que fiquei espantado com as maravilhas da arquitetura romana, presente por toda parte, principalmente em Gerasa onde as ruínas da cidade continuam testemunhando todo o esplendor do que fora o Império Romano.

Ali vi o arco de Adriano, feito em homenagem a esse imperador romano.

Atravessando o Mar

Os meus olhos se enchiam com todas aquelas belezas arquitetônicas, mas a minha mente procurava fazer a reconstituição da passagem que Jesus tivera por Gerasa. “Meu Deus!” pensei eu, “o Senhor cruzou o Mar da Galileia, enfrentou uma tempestade sem precedentes simplesmente para ir atrás de um homem endemoninhado. Um moribundo, um homem considerado louco pela sociedade.” Mas era exatamente isso o que o texto mostra. De fato Lucas registra: “E aconteceu que, num daqueles dias, entrou num barco com seus discípulos e disse-lhes: Passemos para a outra banda do lago. E partiram. E, navegando eles, adormeceu; e sobreveio uma tempestade de vento no lago, e o barco enchia-se de água, estando eles em perigo. E, chegando-se a ele, o despertaram, dizendo: Mestre, Mestre, estamos perecendo. E ele, levantando-se, repreendeu o vento e a fúria da água; e cessaram, e fez-se bonança. E disse-lhes: Onde está a vossa fé? E eles, temendo, maravilharam-se, dizendo uns aos outros: Quem é este, que até aos ventos e à água manda, e lhe obedecem? E navegaram para a terra dos gadarenos, que está defronte da Galileia” (Lc 9.22-26).
Quando o Senhor se dirigia para confrontar as forças do mal em Gadara, as forças da natureza se levantaram contra ele: “E sobreveio uma tempestade de vento no lago, e o barco enchia-se de água, estando eles em perigo” (Lc 9.23). E interessante que Lucas usa o vocábulo grego epitimao (repreender) em relação às forças da natureza da mesma forma que o usa em relação à libertação dos demônios e da cura da sogra de Pedro (Lc 4.35; 4.39). Era como se a natureza, como uma força viva, se levantasse contra Jesus e seus discípulos naquele momento. A natureza, portanto, era uma força a ser detida. Isso não significa dizer que forças impessoais ganham pessoalidade nem tampouco que seres inanimados ganham vida. O fato é que a entrada do pecado no mundo trouxe desequilíbrio e desarmonia ao universo e a natureza também está inclusa (Rm 8.19-22).
 Tendo repreendido o vento e a fúria das águas, Jesus chegou a Gadara, seu destino final.

Fazendo o Caminho de Volta

Pois bem, quando ainda me encontrava em Gadara, fiquei a meditar na passagem de Lucas 8.26-39. O final da narrativa desse grande milagre de libertação, diz: “E aquele homem de quem haviam saído os demônios rogou-lhe que o deixasse estar com ele; mas Jesus o despediu, dizendo: Torna para tua casa e conta quão grandes coisas te fez Deus. E ele foi apregoando por toda a cidade quão grandes coisas Jesus lhe tinha feito” (Lc 8.38,39).
O gadareno, agora liberto, queria acompanhar Jesus, mas a orientação do Senhor foi que ele voltasse para a sua terra e anunciasse tudo o que Deus tinha feito com ele. De fato, os Evangelhos registram que ele se tornou o primeiro evangelista na região da Decápolis (Mc 5.20).
Esse texto mostra de forma enfática o poder de Jesus sobre todos os demônios. Todavia revela também como fica o estado daqueles a quem Satanás escraviza.

Em primeiro lugar, o Diabo põe as pessoas na zona de exclusão. “E navegaram para a terra dos gadarenos, que está defronte da Galileia” (Lc 8.26). A frase “defronte da Galileia” é traduzida na Almeida Revista e Atualizada como “fronteira da Galileia”. A palavra grega antiperan, traduzida como oposto, na margem oposta, do outro lado, mantém essa ideia de região fronteiriça. As regiões fronteiriças são distantes de tudo. Em relação ao estado ou nação da qual fazem parte, se tornam uma verdadeira zona de exclusão. O gadareno vivia na fronteira, uma terra de ninguém. Não tenho dúvidas de que o Senhor foi para Gadara com o objetivo único de procurar aquele homem, libertá-lo e fazer com que ele saísse da zona de exclusão.

Em segundo lugar, o Diabo rouba a identidade do homem. O texto diz: “desde muito tempo, estava possesso de demônios” (Lc 8.27) e “como fora salvo o endemoninhado” (Lc 8.36). Em Lucas 8.27 o gadareno aparece como “tendo” (gr. echo) demônios e em Lc 8.36, como quem se encontra “possuído” (gr. daimonizomai) por demônios.1 O renomado léxico da língua grega de Walter Bauer traduz daimonizomai como “ser possuído por demônios”.2 Em outras palavras, o gadareno encontravase totalmente dominado por demônios. Ele não era mais ele, havia perdido por completo a sua identidade. Havia deixado de ser gente para se tornar uma coisa. Todos o evitavam porque ele não era aquela pessoa que haviam conhecido. Jesus o liberta e faz com que ele volte a ser gente como os demais (Lc 8.35).

Em terceiro lugar, o Diabo tira todos os valores, “e não andava vestido” (Lc 8.27). A palavra grega endidysko tem o sentido de vestir, vestir-se, cobrirse, estar vestido em. Usada com a negativa “não” mantém o sentido de “estar descoberto”. É uma forma de dizer que ele andava sem roupa. Somente alguém que perde a noção de valores éticos-morais consegue andar nu. Mas é isso que o Diabo faz — deixar as pessoas totalmente nuas e despidas de tudo aquilo que as valoriza. Quando Jesus libertou o gadareno, as pessoas o viram “vestido” novamente (Lc 8.35). A missão do Diabo é despir as pessoas, enquanto o Senhor Jesus veste-as e reveste-as com sua graça.

O pastor Jack Haiford, pastor de uma igreja pentecostal na Califórnia, Estados Unidos da América, conta que certa vez uma jovem o procurou para ser aconselhada. Quando a jovem começou a contar a sua história, o pastor Haiford disse que precisou interrompê-la. O Espírito Santo lhe revelara que a jovem não estava contando-lhe o verdadeiro motivo de o ter procurado. O pastor informou-lhe que o Senhor o havia instruído a dizer uma frase para ela, e que para ele parecia sem sentido, mas que o Senhor dissera-lhe que faria todo o sentido para ela. A jovem então quis saber que frase era. O pastor repetiu a frase que ouvira do Senhor: “Jamais permitirei que alguém veja a sua nudez”. Essas palavras tiveram um efeito bombástico naquela jovem. Ela começou a chorar convulsivamente. Depois de se refazer, confidenciou para o pastor. Antes de se converter ela era uma prostituta e quando entregou a sua vida ao Senhor tudo estava indo bem, mas havia seis meses que um pensamento obsessivo parecia querer-lhe dominar a sua mente: “Você vai andar nua novamente”. Com aquela palavra de conhecimento liberada pelo pastor Jack Haiford a jovem foi totalmente livre.3
 Em quarto lugar, o Diabo tira os referenciais, “nem habitava em qualquer casa, mas nos sepulcros” (Lc 8.27). Esse homem não possuía mais uma família. Havia perdido a sua referência social. Havia perdido os seus valores morais e também os sociais. O homem é um ser gregário e como tal necessita viver em sociedade. O Diabo sabe disso e por isso procurou jogar aquele pobre coitado em um total isolamento social. Estava vivo, mas vivia com os mortos. Era um morto vivo. Jesus o libertou e devolveu ao convívio familiar.
Em quinto lugar, o Diabo torna a vida do homem árida. “Era impelido pelo demônio para os desertos” (Lc 8.29). O deserto é o lugar dos extremos. Durante o dia a temperatura é escaldante e durante a noite elas despencam. Vi isso quando estive no deserto do Sinai. Durante o dia, a temperatura no monte Sinai é elevadíssima, sendo possível medir cinqüenta graus na sombra. Por outro lado, as madrugadas são geladas, ficando alguns graus abaixo de zero. Devido a esses fenômenos, o deserto é um lugar árido. O Diabo fez com que o deserto fosse a casa do gadareno. A sua vida era, portanto, árida. Foi somente quando Jesus o libertou que ele voltou a viver a vida abundante. As referências que mostram Jesus confrontando o poder de Satanás são abundantes nos evangelhos. No Evangelho de Lucas esse embate ocorre nos primeiros momentos do ministério público de Jesus.
 “E desceu a Cafarnaum, cidade da Galileia, e os ensinava nos sábados. E admiravam-se da sua doutrina, porque a sua palavra era com autoridade. E estava na sinagoga um homem que tinha um espírito de um demônio imundo, e este exclamou em alta voz, dizendo: Ah! Que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste a destruir-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus. E Jesus o repreendeu, dizendo: Cala-te e sai dele. E o demônio, lançando-o por terra no meio do povo, saiu dele, sem lhe fazer mal. E veio espanto sobre todos, e falavam uns e outros, dizendo: Que palavra é esta, que até aos espíritos imundos manda com autoridade e poder, e eles saem? E a sua fama divulgava-se por todos os lugares, em redor daquela comarca” (Lc 4.31-37). Com o no caso dos milagres, Lucas também não tem a preocupação de provar a existência dos demônios. Isso não era necessário, pois eles estavam por toda parte. A Biblia mostra o modus operandi do Diabo em vários textos. Ele resiste à oração (Dn 10.10-13); influencia a mente (Mt 16.21-23; At 5.3); corrompe a mente (2 C o 11.1-3); opõe-se à pregação do evangelho (At 13.8); procura destruir as vidas (Mc 9.22; Jo 10.10).

O registro dos Evangelhos é que havia muitas pessoas oprimidas e possuídas pelos demônios no antigo Israel. De fato a missão de Jesus, como o Messias prometido, incluía a libertação das pessoas dominadas pelo Diabo. “Chegando a Nazaré, onde fora criado, entrou num dia de sábado, segundo o seu costume, na sinagoga e levantou-se para ler. E foi-lhe dado o livro do profeta Isaías; e, quando abriu o livro, achou o lugar em que estava escrito: O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me a curar os quebrantados do coração, a apregoar liberdade aos cativos, a dar vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4.16-19).

Nesses confrontos uma coisa ficou logo evidente — Jesus, durante o seu ministério terreno exerceu autoridade sobre todas as castas de demônios! As pessoas viram isso e admiradas, se perguntavam que poder era aquele, pois Jesus ordenava aos demônios que eles saíssem e eles obedeciam! Até os próprios demônios estavam conscientes do poder de Jesus sobre eles: “Ah! Que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste para perder-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus!” (Lc 4.34).
Lucas mostra que Jesus não apenas possuía autoridade sobre os demônios como também delegou para seus discípulos essa autoridade. “E voltaram os setenta com alegria, dizendo: Senhor, pelo teu nome, até os demônios se nos sujeitam. E disse-lhes: Eu via Satanás, como raio, cair do céu. Eis que vos dou poder para pisar serpentes, e escorpiões, e toda a força do Inimigo, e nada vos fará dano algum” (Lc 10.17-19).

O cristão, portanto, possui autoridade sobre o reino do mal. Isso se tornou possível porque Jesus conquistou a vitória sobre Satanás na cruz do calvário: “havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz. E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo” (Cl 2.14-15). Estando em Cristo, o crente agora encontra-se em posição de domínio sobre o poder das trevas: “Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dos mortos e pondo-o à sua direita nos céus, acima de todo principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro. E sujeitou todas as coisas a seus pés e, sobre todas as coisas, o constituiu como cabeça da igreja” (Ef 1.20-22). “Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele, e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus” (Ef 2.4-6).

A Peneira do Diabo

Se o cristão tem autoridade sobre o Diabo, como de fato tem, então porque Satanás leva vantagens sobre muitos deles? Primeiramente porque lhe dão lugar (Ef 4.27); não são totalmente convertidos (Lc 22.31) e também possuem uma mente mundana (1 Co 10.21). Algo parecido com o que vivenciou Simão Pedro: “Disse também o Senhor: Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo. Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos. E ele lhe disse: Senhor, estou pronto a ir contigo até à prisão e à morte. Mas ele disse: Digo-te, Pedro, que não cantará hoje o galo antes que três vezes negues que me conheces” (Lc 22.31-34). Pelo menos seis coisas podemos deduzir do comportamento de Pedro revelados nesse texto.
1. Pedro demonstrou presunção — “estou pronto para morrer”. Isso não passava de presunção, pois quando foi confrontado por ser discípulo de Jesus, ele negou temendo a morte.
 2. Pedro possuía “brechas” — “Satanás vos reclamou”. O Diabo viu áreas no comportamento de Pedro que revelavam que ele não parecia ser aquela pessoa que demonstrava. Ele queria tirar isso a limpo. Não há dúvidas de que havia área na vida de Simão que o Diabo conhecia como sendo vulneráveis.
3. Pedro possuía vida devocional pobre — “Roguei por ti” — O Senhor orou por Pedro. O que o texto parece mostrar é que Pedro não vivia uma vida devocional profunda. Quando Jesus orava no Getsêmani, ele logo adormeceu na oração.
4. Pedro também não demonstrou ser totalmente convertido — “Quando te converteres”. O Senhor não iria dizer essas palavras se Pedro fosse um homem convertido por completo. Eu não sei precisar o que era essa falta de conversão, mas que ele não era ainda convertido por completo, não era.
 5. Pedro demonstrou egoísmo — “fortalece aos teus irmãos”. Pedro sempre aparece como sendo o primeiro em tudo. Era hora do Senhor lembrar que ele precisava pensar em seus companheiros.

  Crentes Possessos?

Lucas nada diz sobre a possessão de demônios em cristãos nem em seu evangelho nem tampouco em Atos. Todavia alguns escritores vão além e defendem a possibilidade de um crente ficar possuído pelo Diabo. Eu não compartilho dessa ideia. Estou convencido de que nenhum ensino tem demonstrado ser tão nocivo à Igreja de Jesus Cristo, quanto esse que afirma que o cristão pode ser possuído por demônios. Nos anos 90, esse ensino se tornou como uma praga e era só no que se falava nos meios evangélicos. Em um manual de libertação de autoria do neozelandês Bill Subritzky encontramos a pergunta: “pode um cristão ter demônios? O mesmo autor responde sem rodeios: “a resposta é enfaticamente sim!”4O problema com esta afirmação está no fato da mesma não ser baseada na Bíblia Sagrada, mas na experiência do autor. Tentando fundamentar a sua resposta, ele diz: “Estou ciente do muito que se tem ensinado a respeito de os cristãos não poderem ter demônios. Contudo, através de minha experiência no ministério há quatorze anos, constatei que tal opinião é totalmente incorreta.” 5
Partindo desse princípio a posteriori (fundamentado em sua experiência), Subritzky faz uma exegese falaciosa sobre a “possessão demoníaca” no cristão: “Em primeiro lugar”, escreve ele, “precisamos compreender que alguém pode ter um demônio sem estar possuído por ele. Aversão King James (Bíblia em Inglês) traduz incorretamente a palavra ‘endemoninhado’ como ‘possuído’. Isso dá as pessoas a impressão de que se um espírito as ataca, ou se apenas possuem um espírito estão consequentemente possuídas por demônios. Não há nada na tradução grega que revele a palavra ‘possuído’. Estudiosos insistem no fato de que esta palavra tem amedrontado muitas pessoas, por pensarem que, se possuem um demônio estão ‘possuídas’”.6
Com o já escrevi em outro lugar, essa crença que dá amplos poderes aos demônios sobre os cristãos é falsa pelo menos por cinco razões:
1. E a “posteriori”, isto é, baseia-se na experiência e não na Bíblia.
2. E fruto de uma teologia errada sobre a segurança do crente.
3. E fundamentado numa concepção equivocada sobre a tricotomia humana.
4. E falho em definir o que seja um “cristão” segundo o modelo do Novo Testamento.
 5. È fundamentado na má compreensão da terminologia usada no Novo Testamento para a possessão demoníaca.7
Não podemos negar o valor que a experiência tem para nós, cristãos. A vida cristã é experimental. Todavia uma experiência cristã alicerça seus princípios na Palavra de Deus — a Bíblia Sagrada. Uma experiência divorciada das Escrituras não tem valor para a fé genuinamente evangélica. Aqueles que defendem a possessão demoníaca em cristãos não conseguem enquadrar essa experiência no modelo dado no Novo Testamento. A interpretação dada à palavra grega daimonizomai, com o sentido de “ter” demônios sem contudo estar possuído por ele, é falha e não conta com o apoio do Novo Testamento grego.8
Por outro lado, quando aceitamos a Cristo como nosso Salvador, mudamos de cidadania, de propriedade e consequentemente de reino e senhor (Cl 1.13). Quando pertencemos ao reino de Deus não existe, portanto, a ideia de copropriedade ou ocupação conjunta. Não podemos ser habitados ao mesmo tempo pelo Espírito Santo e por demônios. Neste aspecto, o cristão em comunhão com Deus está guardado e não há porque temer as forças do mal (Rm 8.38,39; Lc 10.18,19; Ef 6.10-18).

Lucas - O'Evangelho de Jesus , o Homem Perfeito

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                                          Ano aceitável do Senhor


O mundo vive hoje uma crise econômica, social e financeira muito grande. Como nós, cristãos, podemos viver junto a tudo isso? Certamente que não estamos isentos dos problemas que atingem o mundo atual, mas cremos que nós podemos mudar a maneira de ver esses problemas, mudando nossa expectativa, nossa esperança e os nossos valores de vida. E confiar nas pessoas, então? Como está fácil nos decepcionarmos com alguém.
Existe uma promessa na Bíblia, em Is 61:1-3, de que Deus prepararia uma pessoa muito especial em quem poderíamos confiar plenamente. Bem mais tarde, nasceu Jesus, até então conhecido como um homem comum. Em Lc 4:16-21, Jesus faz sua primeira proclamação pública. Entra em uma sinagoga, num dia de Sábado, como era de seu costume e pede o livro para ler.  Ao abrir, Jesus lê justamente aquela promessa do profeta Isaías, fazendo assim sua apresentação ao povo como o Filho de Deus.

Interessante notar que as pessoas tinham dúvidas, pois fitavam os olhos em Jesus com muita alegria e, ao mesmo tempo, questionando quem era realmente aquele homem, pois o conheciam como o filho de José, o carpinteiro. Jesus estava cumprindo a profecia e proclamando o ano aceitável do Senhor. O ano aceitável equivale ao ano do favor de Deus, é uma referência ao Messias e ao seu ministério que haveria de inaugurar um novo período das relações entre Deus e os homens. Esse novo período é um tempo em que Deus quer agir, quer fazer, quer manifestar a sua graça diante dos homens.            Essa promessa não ficou parada no tempo. É o que vemos com o apóstolo Paulo, que tem muito a ver com o que vivemos hoje. Ele sofreu muitos problemas, foi incompreendido, faltou-lhe amigos, faltou-lhe suporte financeiro, sofreu calúnias e nem assim desanimou em servir a Deus até o fim. Em II Co 11:23-27, certamente não encontramos um “curriculum vitae” que recomende a pastorear. Poderíamos até ouvir: este homem é um “pé frio”. Entra no navio, o navio afunda, entra na estrada, é assaltada. Aonde ele vai, a tragédia acontece.
Trace um paralelo e tente encaixar a sua realidade à do apóstolo Paulo. Como é que você se sente hoje? Se você foi abandonado, traído, deixado, desprezado, seja no emprego ou na família, se está solitário, doido, vazio. Não importa quem você é ou que “curriculum vitae” está apresentando, a idade que tem ou sua condição social. Importa
que você está vivo e que é para você este tempo da graça de Deus. Importa que a graça de Deus não quer transformar você em super-homem. Ela é graça de Deus porque nos fortalece na fraqueza, supre o que nós não temos, sinal de que falta algo em nós.  O homem que vive da graça de Deus continua gente, continua homem e continua carente. Essa graça é vivida por nós pela decretação do ano aceitável do Senhor. E Paulo entendeu bem esse papel de servir a Deus. Ele ia, falava de Jesus, quer fosse ouvido ou não, mas fitou os olhos em Jesus e começou a viver o ano aceitável do Senhor. 

Conforme II Tm 4:9-22, apesar de não ter sido poupado da dor, ela era fortalecido em suas fraquezas e carências. Isto é graça, é a força que não temos e o acréscimo do que falta em nós. “O Senhor me levará a salvo para o reino”.  Precisamos ter a certeza da salvação em Jesus. Ele não nos livra da morte, mas nos livra através dela. “Todo mundo foi embora, somente Lucas está comigo”. Deus sempre coloca perto de nós, pessoas que amamos e que nos confortam. Há sempre um “Lucas” perto de você. Às vezes, esse “Lucas” é sua esposa, seu marido, um amigo, seus filhos. Há sempre alguém na escuta de tudo e mais ainda, torcendo por você.
Se você se sente triste, sozinho, não se odeie por isso, mas levante a cabeça, olhe para o Senhor, fite os olhos em Jesus, receba o ano aceitável do Senhor. Assuma essa graça nas coisas naturais e creia que quando estamos solitários, a graça de Deus vem através dos amigos, “Lucas”, e não através de um quarto escuro. Não temos resposta aos problemas. O seu “Lucas” talvez não terá a melhor solução, mas ele será um instrumento da parte de Deus para trazer o consolo, a paz, a justiça, o louvor a Deus e a esperança de todas as provisões de Deus para nossa vida.
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