___/___/____ Lucas,
o Ministério do Filho do Homem
TEXTO BÍBLICO BÁSICO
Lucas 4.14-21
14 - Então, pela virtude do Espírito, voltou Jesus para a
Galileia, e a sua fama correu por todas as terras em derredor.
15 - E ensinava nas suas sinagogas e por todos era louvado.
16 - E, chegando a Nazaré, onde fora criado, entrou num dia
de sábado, segundo o seu costume, na sinagoga e levantou-se para ler.
17 - E foi-lhe dado o livro do profeta Isaías; e, quando
abriu o livro, achou o lugar em que estava escrito:
18 - O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu
para evangelizar os pobres, enviou-me a curar os quebrantados do coração,
19 - a apregoar liberdade aos cativos, a dar vista aos
cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor.
20 - E, cerrando o livro e tornando a dá-lo ao ministro,
assentou-se; e os olhos de todos na sinagoga estavam fi tos nele.
21 - Então, começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta
Escritura em vossos ouvidos.
TEXTO ÁUREO
"Respondendo, então, Jesus, disse-lhes:
Ide e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: os cegos veem, os coxos
andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e
aos pobres anuncia-se o evangelho." Lucas 7.22
ORIENTAÇÕES PEDAGÓGICAS
Caro professor, nesta lição,
destacaremos algumas características marcantes do ministério de Jesus como
Filho do Homem.
Ele é o exemplo maior a ser
seguido por todos os que se identificam como Seus discípulos.
A excelência do ministério do
Filho do Homem acha-se em Seu serviço prestado a outros; deste modo, todos os
que quiserem ser eficazes, no sentido espiritual, devem imitá-lo (Lc 9.23).
No decorrer da aula, reforce
para seus alunos a ideia de que todos os que servem a Deus são ministros em
suas respectivas capacidades — não apenas os que exercem algum cargo
eclesiástico na comunidade local. À medida que estiver ministrando a aula, faça
com que seus alunos reflitam sobre como Jesus agia em Seu ministério e como nós
temos seguido Seu exemplo nos dias atuais.
Que sua aula seja excelente!
Palavra introdutória
Ensino, milagres e oposição são características ligadas
diretamente ao ministério de Jesus no Evangelho de Lucas.
Suas ações e manifestações sobrenaturais de poder chamaram a
atenção de muitas pessoas para Si e, ao mesmo tempo, levantaram controvérsias
em outros grupos. Seus atos ministeriais lembravam os profetas
veterotestamentários (Lc 7.16); contudo, cada palavra e passo do Mestre
demonstravam que havia algo mais nele: Jesus não era apenas outro homem que
fazia predições por inspiração divina; na realidade, Ele tinha uma missão,
carregada de uma esperança profética, que evocava a chegada de um tempo
especial de atividade de Deus entre o povo (Lc 4.18,19).
Esse é o tom dado por Lucas ao anunciar o ministério
terreno de Cristo: imbuído de humildade, o Filho do Homem dedicou-se
inteiramente à Sua obra; e, mesmo em face às inúmeras oposições que sofreu,
permaneceu firme em Seu propósito.
A palavra ministério tem sua
origem no latim, minister,
onde está presente o
comparativo minor, que
significa menor. Deste
modo, ter um ministério (ou
ser um ministro) é, antes
de tudo, tornar-se menor
que outros para servi-los. A
grandeza do ministério de
Cristo está nisto: mesmo
sendo Filho de Deus, Ele veio
como o Filho do Homem, a
fim de libertar os cativos e
reconciliá-los com Deus .
1. UM MINISTÉRIO RECONHECIDO
Lucas mencionou a idade com que Jesus iniciou Seu
ministério público: quase trinta anos (Lc 3.23) — era nessa idade que, no
Antigo Testamento, os levitas davam início aos serviços ministeriais (Nm 4.47);
e era nessa idade também que, segundo a tradição, um homem atingia a
maturidade.
Desde os doze anos, o Filho do Homem estava ciente do Seu
propósito (Lc 2.42-50); entretanto, Ele aguardou o tempo certo para exercer Seu
ministério. Assim que deu início às Suas atividades ministeriais, Sua fama
divulgava-se por todos os lugares, em redor daquela comarca (Lc 4.37).
1.1. O Pai afirma
Seria insuficiente as pessoas reconhecerem Jesus como alguém
especial, sem que o reconhecimento de Deus fosse evidenciado. Por essa razão,
antes de tornar-se célebre entre o povo, o Filho do Homem foi afirmado pelo
Céu. Ao sair das águas batismais, no Jordão, o céu se abriu e ouviu-se a voz
de Deus, que dizia: Tu és meu Filho amado; em ti me tenho
comprazido (Lc 3.22). Este é o momento exato em que o
Senhor identifica publicamente o Unigênito da Criação.
O ministério de Cristo começou com o aval celestial; foi o
Deus Eterno quem validou a Sua missão. Isto nos faz lembrar de que nenhum
reconhecimento humano supera o reconhecimento divino; ao contrário, ainda que
não haja reconhecimento por parte dos homens, o reconhecimento de Deus
habilita-nos para a missão.
1.2. Os anjos reconhecem
Os anjos também reconheceram e serviram ao ministério do
Filho do Homem — das 16 citações que Lucas faz sobre anjos, em seu
Evangelho, 12 estão atreladas a Jesus. Observe.
Gabriel, que é citado em Daniel 8.16 e 9.21, foi quem anunciou
a Maria que ela traria ao mundo o Salvador.
Em Nazaré, o mensageiro de Deus declarou à jovem: o Santo,
que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus (Lc
1.35b).
Após o nascimento de Jesus, um anjo apareceu aos pastores de
Belém, acompanhado por uma multidão dos exércitos celestiais (Lc 2.13), e
anunciou-lhes: na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o
Senhor (Lc 2.11).
Jesus, ao triunfar no episódio da Tentação, foi servido por
anjos (Mc 1.13).
Enquanto estava em agonia no Getsêmani, apareceu-lhe um anjo
do céu, que o confortava (Lc 22.43).
1.3. Os demônios temem
Merece destaque a autoridade com que o Filho do Homem
enfrentava os demônios.
Ao longo do registro lucano de Atos, encontramos relatos de
feitiçaria e ilusionismo (práticas comuns no mundo antigo; conf. At 8.9-25;
13.4-12; 16.16-19); entretanto, o evangelista fez questão de destacar que Jesus
diferia de todos esses engodos, pois agia com autoridade em Seu ministério,
fazendo com que os demônios o temessem. Em Lucas, os demônios, ao perceberem
a aproximação de Jesus, manifestavam-se dizendo:
“Bem sei quem és: o Santo de Deus” (Lc 4.34); “Tu és o
Cristo, o Filho de Deus” (Lc 4.41); “Que tenho eu contigo Jesus, Filho do Deus
Altíssimo?” (Lc 8.28).
O Filho do Homem não invocava qualquer lista de divindades,
não recitava fórmulas de encantamento e não fazia uso de qualquer outra
parafernália mística. Uma simples frase de repreensão era suficiente para fazer
calar o Maligno: cala-te e sai (Lc 4.35)!
2. UM MINISTÉRIO QUE BUSCA E SALVA O PERDIDO
A partir da narrativa de Lucas, é fácil perceber que
determinadas classes de pessoas receberam atenção especial do Mestre. Observe:
mulheres — a palavra mulher aparece dezenas de vezes em Lucas, e isso é impactante para uma cultura social e religiosa em que as mulheres não recebiam o devido valor (Lc 7.12,13; 8.1-3; 43-48; 23.27,28); pobres — muitas parábolas do Evangelho de Lucas fazem contraste entre riqueza e pobreza ou salientam necessidades econômicas (Lc 7.41-43; 11.5-8; 12.13-21; 15.8-10; 16.1-13; 16.19-31; 18.1-8); crianças (Lc 8.49-56; 9.46-48).
Lucas deixa claro que o Filho do Homem agiu como defensor dos desfavorecidos.
mulheres — a palavra mulher aparece dezenas de vezes em Lucas, e isso é impactante para uma cultura social e religiosa em que as mulheres não recebiam o devido valor (Lc 7.12,13; 8.1-3; 43-48; 23.27,28); pobres — muitas parábolas do Evangelho de Lucas fazem contraste entre riqueza e pobreza ou salientam necessidades econômicas (Lc 7.41-43; 11.5-8; 12.13-21; 15.8-10; 16.1-13; 16.19-31; 18.1-8); crianças (Lc 8.49-56; 9.46-48).
Lucas deixa claro que o Filho do Homem agiu como defensor dos desfavorecidos.
As
parábolas que aparecem
em sequência no capítulo
15 do Evangelho de Lucas
são um quadro em cores do
que representa a missão do
Filho do Homem: a ovelha,
a dracma e o filho pródigo
estavam perdidos e foram
achados e restaurados.
Os ensinamentos inclusos
nessas parábolas corroboram
a declaração de Jesus: O Filho
do Homem veio buscar e
salvar o que se havia perdido
(Lc 19.10)
em sequência no capítulo
15 do Evangelho de Lucas
são um quadro em cores do
que representa a missão do
Filho do Homem: a ovelha,
a dracma e o filho pródigo
estavam perdidos e foram
achados e restaurados.
Os ensinamentos inclusos
nessas parábolas corroboram
a declaração de Jesus: O Filho
do Homem veio buscar e
salvar o que se havia perdido
(Lc 19.10)
2.1. Seu ministério transpôs barreiras
2.1.1. Geográficas
2.1.1. Geográficas
Logo no início do Seu ministério público, Jesus anunciou que
Sua missão não se restringia a uma área geográfica específica (Lc 4.43). O
Messias transpôs barreiras territoriais e fez milagres em terras gentílicas,
não medindo esforços para restaurar pessoas necessitadas. Certa ocasião,
Ele enfrentou uma tempestade no mar da Galileia, para que pudesse libertar
um jovem possesso por uma legião de demônios na terra dos gadarenos (Lc 8.22-39).
2.1.2. ReligiosasO conflito religioso existente entre judeus e samaritanos, à época, não impediu que o Filho do Homem exercesse o Seu ministério. Em determinada ocasião, Ele passou pelo meio de Samaria (Lc 17.11) e curou dez leprosos de uma só vez (Lc 17.12-14). Quando foi operar tal milagre, Jesus não fez distinção entre leprosos judeus, galileus ou samaritanos, Ele simplesmente curou todos eles. Lucas fez questão de registrar que o samaritano foi o único que voltou para agradecer.
2.1.2. ReligiosasO conflito religioso existente entre judeus e samaritanos, à época, não impediu que o Filho do Homem exercesse o Seu ministério. Em determinada ocasião, Ele passou pelo meio de Samaria (Lc 17.11) e curou dez leprosos de uma só vez (Lc 17.12-14). Quando foi operar tal milagre, Jesus não fez distinção entre leprosos judeus, galileus ou samaritanos, Ele simplesmente curou todos eles. Lucas fez questão de registrar que o samaritano foi o único que voltou para agradecer.
2.1.3. Culturais
Entende-se por cultura o conjunto de tradições transferidas
de geração a geração, oriundas dos costumes de um povo. Entre os judeus
contemporâneos de Jesus, a transmissão cultural era observada ao extremo, a
ponto de pessoas serem sentenciadas à morte em caso de rompimento de dado
costume (At 6.14; 16.21). Entretanto, tais barreiras culturais
jamais impediram Jesus de anunciar a salvação a qualquer necessitado.
Mesmo diante de conflitos entre a cultura judaica e a cultura helenista (relativa à Grécia antiga) — imposta pelo império romano —, o Salvador recebia os gregos (Jo 12.20-23), fazia refeições com publicanos (Lc 5.29,30) e dava atenção às rechaçadas mulheres (Lc 7.36-50; 8.43-48).
Mesmo diante de conflitos entre a cultura judaica e a cultura helenista (relativa à Grécia antiga) — imposta pelo império romano —, o Salvador recebia os gregos (Jo 12.20-23), fazia refeições com publicanos (Lc 5.29,30) e dava atenção às rechaçadas mulheres (Lc 7.36-50; 8.43-48).
Após a Tentação, indo para Nazaré, onde fora criado,
[Jesus] entrou, num sábado, na sinagoga, segundo o seu costume, e levantou-se
para ler (Lc 4.16 ARA) — naquela ocasião, fora-lhe dado o livro do profeta
Isaías para recitar (cap. 61; conf. Lc 4.17). Ao término da leitura, o Filho do
Homem declarou: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos (Lc 4.21);
pois Ele fora ungido pelo Espírito para anunciar o ano aceitável do Senhor (Lc
4.18,19).
A
Era da Graça, o tempo em
que vivemos, é o ano aceitável
proclamado por Jesus.
Em Sua segunda vinda, o
Filho do Homem proclamará
o dia da vingança do nosso
Deus (Is 61.2b). Note que
o tempo aceitável compreende
um ano, e o tempo da
vingança, um dia; isto nos
permite afirmar que a graça
de Deus é infinitamente
superior à vingança que Ele
empreenderá.
que vivemos, é o ano aceitável
proclamado por Jesus.
Em Sua segunda vinda, o
Filho do Homem proclamará
o dia da vingança do nosso
Deus (Is 61.2b). Note que
o tempo aceitável compreende
um ano, e o tempo da
vingança, um dia; isto nos
permite afirmar que a graça
de Deus é infinitamente
superior à vingança que Ele
empreenderá.
3.1. O ano aceitável do Senhor
A expressão ano aceitável do Senhor, em Isaías 61, é uma
alusão ao Ano do Jubileu, quando (por propósito divino), as dívidas entre o
povo eram perdoadas (Lv 25.8-55). Jesus fez uso dessa referência para anunciar
o desígnio de Seu ministério.
Diferente do Ano do Jubileu, o ano aceitável do Senhor não
representa qualquer ano no calendário civil. Trata-se, na realidade, de uma
referência à era da salvação, que teve início com o advento do Messias. Em
essência, essa é a mensagem que Jesus estava anunciando em Lucas 4.18,19.
O Ano do Jubileu israelita acontecia a cada cinquenta anos,
ou seja, a cada ciclo de sete anos sabáticos. O propósito maior dessa data era
equilibrar o sistema econômico da nação: nessa ocasião, os escravos eram
libertos e retornavam ao convívio com suas famílias; as propriedades que haviam
sido vendidas eram devolvidas aos primeiros donos; e todas as dívidas do povo
eram canceladas. A terra permanecia em repouso, enquanto os homens e animais
descansavam e se alegravam em Deus.
Jesus anunciou o ano aceitável do Senhor e, em Seu
ministério, realizou o que prometera, não em termos políticos ou econômicos,
mas no sentido espiritual. Com a Sua chegada, os pobres de espírito receberam
as boas novas de salvação; os quebrantados de coração foram curados, e os cativos,
libertos; os cegos recobraram a visão; e os oprimidos tiveram suas cargas
aliviadas.
É importante destacar que Jesus terminou a citação do texto
veterotestamentário pouco antes das palavras finais ditas por Isaías em seu
livro: e o dia da vingança do nosso Deus (Is 61.2b); isto porque o Messias
sabia que viria a este mundo duas vezes: a primeira para salvar os homens; a
segunda, para julgá-los.
CONCLUSÃO
Reconhecido por muitos, perseguido por outros tantos,
porém, ungido e aprovado por Deus-Pai: assim foi o ministério do Filho do
Homem.
Que o Espírito Santo nos ajude a compreender que a aprovação
e a capacitação necessárias para darmos continuidade à nossa missão não podem
estar embasadas em reações alheias, mas, sim, naquilo que Deus nos diz por
intermédio da Sua Palavra (Lc 10.1-12). Se direcionarmos o foco da nossa visão
para as barreiras que se opõem, provavelmente ficaremos estagnados. Sejamos,
pois, resolutos como Cristo, crendo que é Ele quem nos garante a vitória (Lc
24.45-47).
ATIVIDADE PARA FIXAÇÃO
1. O que significa o ano aceitável do Senhor, em Lucas 4.19?
R.: Trata-se de uma referência à era da salvação,
que teve início com o advento do Messias.
Fonte: Revista Lições da Palavra de Deus n° 57
Capítulo 6
Mulheres que Ajudaram Jesus
Mulheres em Evidência Não faz muito tempo fui convidado para
ministrar em uma convenção de pastores. A minha palestra versava sobre o valor
da apologética cristã no ministério pastoral. Durante os dias que ali passei
naquele conclave, pude observar um debate acirrado sobre a ordenação de mulheres
para o ministério pastoral. As posições estavam polarizadas e os enfrentamentos
se tornaram bastante calorosos! Com o não havia sido convidado para esse
propósito, não tive participação ativa naquele debate.
Não é meu propósito neste capítulo tratar da ordenação ou
não de mulheres ao ministério pastoral. Nem tampouco é meu objetivo entrar no
mérito dessa questão emitindo um juízo de valor sobre esse assunto. Isso
fugiria completamente do nosso foco aqui que é procurar entender o lugar que as
mulheres ocuparam no ministério público de Jesus. Todavia acredito que
precisamos conhecer o que a história registrou sobre esse assunto a fim de
entendermos melhor como a mulher tem sido tratada ao longo dos anos, quer
dentro da cultura judaica, cristã ou secular.
0 Catolicismo Medieval e as Mulheres!
Embora o debate em tomo da participação feminina nos
contextos social e religioso é bastante atual, todavia, como observaram os
escritores Bonnidell Cluse e Robert G. Bonnidell, ele não é novo.1 Bonnnidell
faz um excelente apanhado histórico sobre a participação feminina no movimento
evangélico através dos séculos. Aqui sintetizarei essa análise.
No contexto católico romano, por exemplo, as mulheres
possuem atribuições religiosas bastante limitadas. Isso se deve ao fato da
analogia que o catolicismo criou entre o sacerdócio levítico e o sacerdócio
católico. Sendo o sacerdócio católico uma adaptação do sacerdócio levítico,
inclusive com sua função de mediador, somente homens, como era no antigo
judaísmo, poderiam participar do culto. As mulheres estavam excluídas por uma
série de razões. Uma delas é que a Lei considerava uma mulher, no período
menstruai, cerimonialmente impura para o culto. Dessa forma o catolicismo
medieval entendia que as mulheres também estavam excluídas para as atividades
religiosas pelas mesmas razões.
Mulheres no Contexto da Reforma
No contexto evangélico ou protestante, no que se refere ao
papel das mulheres, os debates têm se restringido à participação ou não das
mesmas no ministério pastoral. Em outras palavras, a questão gira em torno da
ordenação ou não de mulheres para o exercício pastoral ou para a função de
liderança. Robert G. Clouse explica como é vista essa questão nas igrejas
protestantes. Na maioria das igrejas, observa ele, a ordenação para o
ministério se entende como a eleição de algumas pessoas que vão ocupar posições
de autoridade dentro da congregação. Isso as qualifica para pregar, administrar
os sacramentos e supervisionar os assuntos da congregação. Devido a importância
da pregação nas igrejas protestantes, o tema da ordenação está muito
relacionado com essa função.2
Com o advento da
Reforma Protestante de 1517, a visão bíblica do sacerdócio universal de todos
os crentes foi restaurada dentro do contexto evangélico. Seguindo o ensino neotestamentário,
Lutero ensinou que o cristão era seu próprio sacerdote (1 Pe 2.9). Isso abolia
a figura do sacerdote católico e também tornava desnecessária a figura de um
mediador. Apesar de alguns historiadores acharem que Lutero, graças a sua
grande influência, deveria ter olhado com mais atenção para a função de
liderança das mulheres na igreja, ele não o fez.3 Mas ele acreditava que sob
circunstâncias especiais as mulheres poderiam exercer algumas funções na
igreja, como por exemplo, a da pregação.4 Essa sua posição mais maleável para
com as mulheres exerceu influência entre luteranos e reformados, seguidores de
João Calvino.5 Esse ponto de vista do reformador alemão se fundamentava no
relato da criação. Ele acreditava que antes da queda tanto o homem quanto a
mulher desfrutavam da mesma posição diante de Deus, mas com a entrada do pecado
no mundo esse quadro mudou. O homem passou então a exercer a função de
liderança. Por outro lado, João Calvino partia do princípio de que a mulher
havia sido criada a partir do homem e como tal deveria ser subordinada a ele.
Os Anabatistas e as
Mulheres
A posição dos anabatistas sobre a participação das mulheres
na liturgia do culto era muito mais maleável do que a dos reformadores. Os
anabatistas radicalizaram mais ainda a Reforma exigindo o batismo de adultos e
a participação de leigos no ministério da igreja. Na verdade os anabatistas
eram totalmente contra toda forma de elitização clerical. Não há dúvida de que
esse posicionamento dos anabatistas fez com que as mulheres tivessem muito mais
espaço entre eles. De fato os batistas do século XVII e os Quakers, claramente
influenciados pelo movimento anabatista de onde surgiram, permitiram a
participação ativa de mulheres em suas liturgias.
As Mulheres e o Movimento Pietista Alemão
Essas e outras controvérsias surgidas por conta da Reforma
fez com que as igrejas institucionalizadas procurassem definir seus credos
doutrinários de forma muito mais precisa. A conseqüência natural dessa
ortodoxia foi a classificação desses movimentos como sendo de natureza sectária
e herética. Muitos cristãos não ficaram satisfeitos com esse enrijecimento
doutrinário da igreja institucional e procuraram um retorno ao fervor bíblico
primitivo. Passaram a enfatizar a conversão, a ansiar por uma vida mais santa e
uma vida devocional mais dinâmica. Esses crentes foram apelidados de
“pietistas”. Eles enfatizam a vida interior e não apenas os rituais exteriores.
No movimento pietista as mulheres voltaram a ter um papel de destaque.
0 Metodismo e as Mulheres
É com o movimento
metodista, fundado por John Wesley, que as mulheres vão receber a visibilidade
que ainda não possuíam, tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos. Wesley
acreditava que as restrições de Paulo quanto à função das mulheres na igreja
era uma norma a ser seguida. Todavia, ele cria que Deus havia chamado a todos
para a sublime missão de pregar o evangelho. Pensando assim, ele permitiu que
leigos e mulheres tivessem participação ativa no seu movimento.
Os Movimentos de Reavivamento e as Mulheres
Entre os anos de 1725 e 1770, os Estados Unidos foram
abalados pelo que se chama comumente de “O Grande Avivamento”. Tendo origem nas
igrejas reformadas holandesas, influenciando posteriormente as igrejas
congregacionais da Nova Inglaterra, esse avivamento trouxe conversões em massas
e gerou também o famoso pregador Jonathan Edwards. Nesse avivamento, as
mulheres tiveram uma participação especial. A mais famosa delas foi Sarah
Osborn que desenvolveu um ministério público de pregação. Um outro avivamento,
que se seguiu a esse, denominado de “O Segundo Grande Despertamento”, ocorreu
em meados do século XIX. Cerca de dois terços dos convertidos nesse movimento
eram mulheres que em sua grande maioria estavam na casa dos trinta anos. Esse
fato fez com que as mulheres também tivessem proeminência dentro desse
movimento.
Com o advento do pentecostalismo no início do século XX, o
papel da mulher na igreja ganhou muito mais expressão. Todavia, o mesmo
fenômeno que ocorreu dentro de outros movimentos evangélicos passados se
repetiu dentro do pentecostalismo e a posição de liderança das mulheres ficou
outra vez limitada.6
Observa-se que embora as mulheres tenham exercido diferentes
funções dentro do movimento protestante, o protestantismo se manteve sempre conservador
ao restringir a função de liderança eclesiástica ao sexo masculino.
0 Movimento Feminista
e as Mulheres
No contexto secular o movimento feminista surge com a
bandeira que promete acabar com toda e qualquer discriminação que existe contra
a mulher. De acordo com a Enciclopédia Barsa, o movimento feminista defende a
igualdade de direitos e status entre homens e mulheres, que devem ter garantida
a liberdade de decisão sobre suas próprias carreiras e padrões de vida.7 A
origem desse movimento está associado à revolução francesa de 1789. Durante
esse período de convulsão social o sistema político e social então vigente na
França e no resto do Ocidente foi abalado. Ainda de acordo com a Barsa, esse
movimento “encorajou as mulheres a denunciar a sujeição a que eram mantidas e
que se manifestava em todas as esferas da existência: jurídica, política,
econômica, educacional, etc. ”8 Com o se observa, esse movimento de contestação
francês em seu início centrava-se mais na conquista de direitos civis para as mulheres,
situação que viria a mudar radicalmente no século XX. O movimento feminista
contemporâneo acredita que a mulher vive marginalizada e oprimida pela cultura
masculina, descrita por ele como patriarcal e machista. Pensando nisso, o
movimento procura denunciar os supostos mecanismos psicológicos e psicossociais
que favorecem essa marginalização ao mesmo tempo em que oferece recursos que
possibilitem à mulher se livrar dessas amarras. Acreditam que somente assim a
mulher se torna livre em seu corpo e em seus desejos! Fundamentado nessa tese,
reivindica a interrupção voluntária da gravidez (aborto) a radical igualdade
nos salários e o acesso a postos de responsabilidade.9 Em muitos países esse
movimento tem se tornado radical entrando constantemente em confronto com as
autoridades constituídas.10
Jesus, o Judaísmo e as Mulheres
Pois bem, tendo dado essa visão panorâmica sobre como foi
tratado o sexo feminino ao longo dos séculos, é nosso objetivo agora voltar
para a Palestina do primeiro século a fim de entendermos como Jesus tratou as
mulheres.
Tem causado espanto
em muitos pesquisadores o relato dos evangelhos sobre a participação feminina
no ministério público de Jesus. Essa admiração existe em razão da atenção que
os evangelistas, especialmente Lucas, dão às mulheres.11 O relato lucano mostra
que as mulheres tiveram participação ativa no ministério de Jesus. “E
aconteceu, depois disso,.que andava de cidade em cidade e de aldeia em aldeia,
pregando e anunciando o evangelho do Reino de Deus; e os doze iam com ele, e
também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de
enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demônios; e Joana,
mulher de Cuza, procurador de Herodes, e Suzana, e muitas outras que o serviam
com suas fazendas” (Lc 8.1-3).
O escritor José A. Pagola destaca essa atenção especial que
o terceiro evangelho dispensa às mulheres. “Em seu relato aparecem personagens
femininos de uma força extraordinária: Maria mãe de Jesus, Isabel, Ana, a viúva
de Naim, a pecadora na casa de Simão, suas amigas Marta e Maria, Maria de
Magdala, uma mulher anônima que tece elogios à sua mãe... Lucas tem um
interesse especial em apresentar Jesus curando mulheres enfermas —a sogra de
Simão, a mulher que sofria de hemorragia, a anciã encurvada, Maria de Magdala,
da qual liberta “sete demônios” (8.2). Também sublinha sua compaixão e sua
ternura com a mulher pecadora (7.36-50), com a viúva de Naim (7.11-17), com as
que saem chorando ao seu encontro no caminho da cruz (23.27- 31).12 Pagola
destaca ainda que essas “mulheres são seguidoras de Jesus e acompanham os Doze:
Maria Madalena; Joana, mulher de Cuza; Susana e ‘muitas outras que o serviam
com seus bens’ (8.1-3). Quando os varões abandonaram Jesus, elas permanecem
fiéis até o fim junto à cruz (23.49). São elas as primeiras a anunciar a
ressurreição de Jesus, embora os discípulos não acreditem nelas (24.22). O
Evangelho de Lucas nos ajudará a olhar a mulher como Jesus a olhava, para
defender sua dignidade e para fazer com que elas ocupem em sua comunidade o
lugar que lhes corresponde”.13
Essa forma de enxergar a mulher, não a tratando como objeto
como fazia, por exemplo, o antigo judaísmo, era totalmente inusitada na
Palestina dos dias de Jesus. Jesus, portanto, mudou o paradigma que via as
mulheres como “coisa” e não como um ser especial formado por Deus.
Assim como Pagola, outros teólogos têm procurado também
entender o papel desempenhado pelas mulheres nas comunidades da Palestina dos
dias de Jesus. Dentre eles estão J. Jeremias, John P. Meier, Gerd Theissen e os
escritores Ekkehard e Wolfgang Stegemann. A obra desses autores procura
reconstruir a vida cotidiana das mulheres nos dias bíblicos.14 John P. Meier,
por exemplo, em sua obra Um Judeu Marginal observa que embora Lucas não use o substantivo
mathetes ou a sua forma feminina equivalente mathetria para se referir a uma
discípula, todavia o substantivo masculino em sua forma plural hoi mathetai
pode ser usado em referência tanto para homens como para mulheres.
O que pode ser afirmado, diz Meier, com razoável
probabilidade sobre a existência ou a natureza de discípulas em torno do Jesus
histórico? Para começar, havia seguidoras? E, se havia mulheres seguindo Jesus em
um sentido literal e físico, eram elas chamadas ou consideradas “discípulas”
durante a vida de Jesus? Tais questões, embora pareçam simples, são
surpreendentemente difíceis de responder. Na verdade, quando várias passagens
do Evangelho falam em geral de grupos de “discípulos” com Jesus, sem maiores
especificações sobre a composição do grupo, é lícito assinalar que o
substantivo masculino plural hoi mathetai pode ser entendido inclusivamente,
pois pelo menos alguns substantivos masculinos plurais em grego eram entendidos
assim (p. ex., o masculino plural hoi goneis para “pai [pai e mãe]”). Ao
contrário da tendência contemporânea do uso no inglês dos Estados Unidos, o
masculino plural em grego admite uma interpretação inclusiva se o contexto não
dá outra indicação. Portanto, a forma gramatical hoi mathetai poderia se
referir a discípulos masculinos e também femininos. Pode-se montar um argumento
para mostrar que Lucas em particular interpreta o plural dessa maneira, embora
ele nunca use clara e diretamente mathetai apenas para um grupo de mulheres.15
O fato de um grupo de mulheres serem citadas como seguidoras
de Jesus tem chamado a atenção dos estudiosos. Isso mostra que a missão do
Filho do Homem não se limitou aos excluídos economicamente, mas também aquelas
que haviam sido excluídas socialmente. É possível observar que essas mulheres,
embora discípulas de Jesus, não se sentiram constrangidas a renunciar os seus
bens. Com o bem observou Meier, se assim tivessem feito não poderiam servir de
forma contínua a Jesus e a seus apóstolos (Lc 8.1-3).
O contraste existente, portanto, entre o tratamento que
Jesus deu às mulheres e aquele que elas recebiam da sociedade de seus dias é de
fato enorme. Na verdade, Jesus promoveu uma verdadeira “inversão” de valores
naqueles dias. O objeto passou a ser sujeito! Os escritores Ekkehard e Wolfgang
Stegemann na obra História Social do Protocristianismo, fizeram resgate
histórico sobre a participação feminina nas culturas do mundo mediterrâneo.
Citando o escritor judeu Filo de Alexandria, contemporâneo de Jesus, eles
resumem o pensamento que se tinha sobre as mulheres no judaísmo do primeiro
século. “Praças, reuniões do conselho, tribunais, associações, ajuntamentos de
grandes massas e o relacionamento cotidiano a céu aberto, por meio da palavra e
da ação, na guerra e na paz, são apropriados apenas aos homens; o sexo
feminino, em contrapartida, deve cuidar do lar e permanecer em casa; mais
exatamente, as virgens devem (ficar) nos aposentos mais retirados e encarar as
portas de acesso como seu limite; as mulheres casadas, por sua vez, as portas
da casa. Pois há dois tipos de complexos urbanos, casas (oikíai); destes dois,
com base na divisão, os homens têm a direção dos maiores, que constitui a
administração da cidade (politeia), e as mulheres dirigem os menores, as
chamadas economias domésticas (oikonomía). A mulher, portanto, não deve se
preocupar com qualquer coisa que vá além das obrigações da economia
doméstica.”16
Por outro lado, as culturas gregas e romanas eram muito mais
flexíveis com a participação das mulheres na vida pública. Mas, de uma forma
geral, a cultura oriental era bastante rígida com a participação feminina na
coletividade. Ainda sobre a presença feminina na vida pública na Palestina nos
dias de Jesus, o escritor e historiador J. Jeremias destaca que as mulheres não
podiam sair de casa sem terem seus rostos cobertos por uma espécie de burca.
Dessa forma não era possível nem mesmo reconhecer seu rosto. E conhecido o caso
de um sacerdote que mandou açoitar a própria mãe porque não a reconheceu por causa
da indumentária que ela vestia! Jeremias destaca que a mulher que saía de casa
sem ter a cabeça coberta, que dizer, sem o véu que ocultava o rosto, faltava de
tal modo aos bons costumes que o marido tinha o direito, até mais, tinha o
dever de despedi-la sem ser obrigado a pagar a quantia que, no caso de
divórcio, pertencia à esposa, em virtude do contrato matrimonial.17
As regras do decoro, observa ainda J. Jeremias, proibiam
encontrar-se sozinho com uma mulher, olhar para uma mulher casada, e até mesmo
cumprimentá-la. Seria vergonhoso para um aluno de escriba falar com uma mulher
na rua. Aquela que conversasse com alguém na rua ou ficasse do lado de fora de
sua casa podia ser repudiada sem receber o pagamento previsto no contrato de
casamento.18 Isso nos permite entender outros textos dos Evangelhos onde Jesus
aparece conversando com mulheres! No Evangelho de Lucas, por exemplo, vemos
Jesus dialogando com as irmãs Marta e Maria e no Evangelho de João a clássica
história da samaritana. Até mesmo os apóstolos, que acompanhavam Jesus de
perto, admiraram-se dessa ousadia do Mestre.
Mulheres que tiveram
um Encontro Pessoal com Jesus
Aprecio o esboço feito pela escritora Wanda de Assumpção
sobre as mulheres que tiveram um encontro pessoal com Jesus. Ela divide em
quatro grupos todas as mulheres que de alguma forma se encontra ram com Jesus.
No grupo das que tiveram Jesus como seu sustento e consolo, estão: Ana, a
profetisa, a viúva de Naim e a viúva pobre. No grupo das mulheres que tiveram
Jesus como a sua justificação, estão: a pecadora que ungiu os pés de Jesus e a
mulher adúltera. N o grupo das que tiveram Jesus como a cura, estão: a sogra de
Pedro, a mulher com hemorragia, a mulher curvada por enfermidade, a mulher
siro-fenícia e Maria Madalena. Por último, no grupo das mulheres que tiveram
Jesus como a água viva que sacia a sede, encontram-se: a mulher samaritana,
Marta, Maria de Betânia, a mãe de Tiago e João e Maria, a mãe de Jesus.19
De todas essas histórias, a narrativa sobre a mulher
pecadora que ungiu os pés de Jesus se mostra como uma das mais belas e
fascinantes. Ela mostra que Jesus valorizou as mulheres e devolveu-lhes a
dignidade perdida.
“E rogou-lhe um dos
fariseus que comesse com ele; e, entrando em casa do fariseu, assentou-se à
mesa. E eis que uma mulher da cidade, uma pecadora, sabendo que ele estava à
mesa em casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com unguento. E, estando
por detrás, aos seus pés, chorando, começou a regar-lhe os pés com lágrimas, e
enxugava-lhos com os cabelos da sua cabeça e beijava-lhe os pés, e ungia-lhos
com o unguento. Quando isso viu o fariseu que o tinha convidado, falava
consigo, dizendo: Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que
lhe tocou, pois é uma pecadora. E, respondendo, Jesus disse-lhe: Simão, uma
coisa tenho a dizer-te. E ele disse: Dize-a, Mestre. Um certo credor tinha dois
devedores; um devia- lhe quinhentos dinheiros, e outro, cinqüenta. E, não tendo
eles com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Dize, pois: qual deles o amará mais?
E Simão, respondendo, disse: Tenho para mim que é aquele a quem mais perdoou. E
ele lhe disse: Julgaste bem. E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês
tu esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; mas esta
regou-me os pés com lágrimas e mos enxugou com os seus cabelos. Não me deste
ósculo, mas esta, desde que entrou, não tem cessado de me beijar os pés. Não me
ungiste a cabeça com óleo, mas esta ungiu-me os pés com unguento. Por isso, te
digo que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; mas
aquele a quem pouco é perdoado pouco ama. E disse a ela: Os teus pecados te são
perdoados. E os que estavam à mesa começaram a
Algumas deduções são possíveis a partir desse texto:
1. A mulher pecadora era “cobiçada” pelos homens, mas não se
sentia amada por Deus. Essa mulher que ungiu os pés de Jesus, que não deve ser
confundida com uma outra mulher citada no capítulo 12 do evangelho de João,
trazia o estigma de ser “pecadora”. Esse adjetivo significava que ela era uma
mulher de vida “livre” ou mais popularmente uma “prostituta”. Isso a excluía da
vida religiosa e da vida em sociedade. Não há dúvida de que essa mulher, sempre
disponível para os homens, sendo cobiçada por eles, não se sentia uma mulher
amada. É somente quando ela encontra o Senhor Jesus que ela de fato vai saber o
que é se sentir realmente amada. Jesus fez com que a mulher pecadora se
sentisse perdoada por Deus.
2. A mulher pecadora levava consigo um frasco de perfume,
mas não conseguia encobrir o fedor do seu passado. O fariseu que convidou
Jesus, ao observar a cena da mulher ungindo o Senhor, pensou: “Se este fora
profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, pois é uma
pecadora”. Esse fariseu tinha o olfato refinado para sentir o cheiro do
“pecado”. Pela lei, aquela mulher de fato era uma pecadora! O fariseu e todos
os presentes ali sabiam disso. Parece que aquela mulher fedia a pecado. Foi
somente quando teve o contado com o Mestre que o seu pecado e conseqüente o seu
passado foram esquecidos diante de Deus. Agora ela não fedia mais a pecado, mas
tornara-se o bom perfume de Cristo (2 C o 2.15).
3. A mulher pecadora vendia o seu corpo, mas não conseguia
comprar a paz. O que de fato essa mulher procurava e buscava com intensidade
era encontrar a paz! Ela tinha os homens à sua volta, ganhava dinheiro com seu
corpo, mas não conseguia encontrar a paz. Jesus mostra-lhe que ser amada por Deus
e perdoada por Ele é o que importa. A paz vem quando o perdão de Deus é
derramado em seu coração.dizer entre si: Quem é este, que até perdoa pecados? E
disse à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz” (Lc 7.36-50).
4. A mulher pecadora derramou diante de Jesus tudo o que
tinha para que Deus juntasse o que havia sobrado dela. O relato lucano diz que
ela ungia o Senhor. Ela derramou tudo o que possuía de mais precioso sobre o
Senhor. O seu gesto de entrega e de arrependimento possibilitou o Senhor
restaurá-la por completo. A sua vida, que se encontrava fragmentada em retalhos
foi totalmente reconstruída. 5. A mulher pecadora aprendeu que a Lei condena,
mas a graça perdoa! A Lei puniu aquela mulher, a graça a perdoou! A Lei a
excluía, a graça a abraçou! A Lei foi dada através de Moisés, a graça e a
verdade vieram através de Jesus Cristo (Jo 1.17).
Capítulo 7 Poder sobre as Doenças e a Morte
A Secularização da Fé
“E impossível usar a luz elétrica e o telégrafo sem fio, e
beneficiar-se das modernas descobertas médicas e cirúrgicas, e ao mesmo tempo
acreditar no mundo de (...) milagres do Novo Testamento”.1 Estas palavras não
foram ditas por um ateu, mas por um dos mais conceituados teólogos liberais da
Alemanha, Rudolf Bultmann (1884-1976).
Bultmann não está sozinho na sua posição. Dezenas de outros
teólogos também compartilham de seu pensamento. Recentemente o teólogo liberal
Jonh Shely Spong escreveu: “Partindo do princípio de que não considero Deus um
“ser”, não posso também interpretar Jesus como a encarnação desse Deus
sobrenatural, nem posso assumir com credibilidade que ele possua poder divino
suficiente para fazer coisas tão miraculosas quanto acalmar as águas do mar,
expulsar demônios, andar sobre a água ou multiplicar cinco pães para alimentar
cinco mil pessoas. Se tivermos que reivindicar a natureza divina desse Jesus,
terá que ser sobre outras bases. Milagres da natureza, estou convencido, dizem
muito sobre o poder que as pessoas atribuíram a Jesus, mas não dizem nada sobre
o que ocorreu literalmente.”
“Não creio que Jesus”, continua Spong, “pudesse ressuscitar
os mortos, curar pessoas cuja paralisia já fora diagnosticada pela medicina,
restaurar a visão dos cegos de nascença ou daqueles que perderam a visão por
outra causa, nem acredito que ele tenha feito literalmente tudo isso. Também
não creio que ele fez ouvir alguém surdo e mudo de nascença. Histórias de cura
podem ser vistas de diversas formas. Considerá-las sobrenaturais ou milagrosas,
em minha opinião, é a possibilidade de menor credibilidade”.2
As obras de Bultmann e Spong procuram provar que milagres
não existem. Para entendermos o pensamento desses teólogos liberais será
preciso recuarmos no tempo, mais precisamente aos séculos XVII e XVIII. Foi
durante esse período da história que a cultura ocidental experimentou o que os
filósofos denominam de mudança de paradigma. A visão de mundo aceita até então,
era aquela dada pelo catolicismo medieval. As explicações para os fenômenos
cosmológicos não eram dadas por físicos e matemáticos, mas pelos teólogos da
Escolástica.3
As novas descobertas nos campos da física e da matemática
passaram a se contrastar com a cosmovisão católica. Em 1637, o matemático Rene
Descartes (1596-1650) lançou a sua famosa obra intitulada: Discurso do Método.
Nesse livro, Descartes propunha um novo método de investigação dos fenômenos
naturais que fosse muito além do que ele considerava como meras especulações
teológicas. Descartes elegeu a dúvida como seu método de investigação. Ele
passou a duvidar de tudo e somente aquilo que não admitisse mais dúvida, depois
de acurada investigação, deveria ser aceito como verdade absoluta.
Essa nova visão de mundo idealizada por Descartes, também
denominada de cartesianismo ou cientificismo, marcou o fim da cosmovisão
medieval e o início da Modernidade. Com as descobertas das leis físicas que
regem o Universo feitas por Isaac Newton (1642-1727), o paradigma moderno se
consolidou. No século XVIII, um movimento cultural europeu denominado de
Iluminismo tomou para si como dogma essa nova concepção de mundo. A partir
dessa nova visão de mundo, somente o que poderia ser explicado racionalmente,
isto é, o que pudesse ser objeto de pesquisa e mensurado empiricamente deveria
ser aceito como verdade absoluta. Nada que não passasse pelo crivo da razão
podia ser aceito como verdade. Dentro desse contexto as narrativas religiosas
ou bíblicas, por não se enquadrarem nesse novo modelo, não deveriam ser tidas
como verdades absolutas. Estava aberta a porta para o criticismo bíblico!
Com o vimos, essa visão de mundo teve um impacto enorme
sobre as igrejas europeias, especialmente as protestantes. Através das
academias e seminários teológicos, uma onda de incredulidade varreu as igrejas
europeias e posteriormente as americanas. O cristianismo secularizado passou a
usar a razão para explicar as narrativas bíblicas e não a fé como mostram os
Evangelhos. Voltarei a tratar com mais detalhes sobre esse modelo cultural no
capítulo 13.
Milagres Existem?
Em seu livro L/m
Judeu Marginal, o teólogo John Meier faz uma excelente apologia em favor da
ocorrência de milagres nos dias atuais.4 Para Meier há três formas de se
conceituar um milagre:
1) um evento incomum,
surpreendente ou extraordinário que, em princípio, é perceptível a qualquer
observador interessado e imparcial;
2) um evento que não encontra explicação razoável nas
habilidades humanas ou em outras forças conhecidas que agem em nosso mundo de
tempo e espaço, e
3) um evento resultante de um ato especial de Deus, fazendo
o que nenhum poder humano consegue fazer.5 Meier evita o conceito de milagre
como sendo um evento que ultrapassa, transgride, viola ou contradiz “as leis da
natureza” ou a “lei natural”. Isso ele faz acertadamente para evitar cair no
mesmo erro no qual incorreram os teólogos liberais. Como filha legítima do
Iluminismo alemão, a teologia liberal também abraçou a ideia de que o Universo
era regido por leis naturais fixas e invioláveis. De acordo com essa visão de
mundo, um milagre é algo impossível de acontecer porque Deus não iria quebrar
leis que Ele próprio criou. Milagres, portanto, não existiriam.
Meier escreve:
“A noção filosófica de que o curso suave da ‘natureza’ é
regulado por leis imanentes não encontra paralelo direto na vasta maioria dos
livros do AT escritos em hebraico. A partir do primeiro capítulo do Gênesis, o
mundo criado emerge do caos e o tempo todo para lá tende a retornar. Somente o
poder criativo de Deus, e não as leis ‘naturais’ inerentes às realidades de
tempo e espaço, impede que o mundo volte a cair na desordem. Deus dá ou impõe
leis às suas criaturas; tais leis não surgem ‘naturalmente’ das criaturas, por
causa de sua própria essência.”6
Meier observa ainda que essa concepção de uma “natureza”
(phisis) autônoma que governa o universo é uma ideia herdada do platonismo e
incorporada posteriormente à teologia cristã. No entanto, observa ele, “mesmo
em Filon de Alexandria, que refletia o platonismo grego, a ‘natureza’ é
entendida à luz da tradição do AT, ou seja, como ‘criação’, que é feita e
governada pela palavra e sabedoria de Deus. A natureza não é uma realidade
autossuficiente que funciona de acordo com suas próprias leis inerentes e invioláveis,
não uma realidade identificável, em última análise, com o próprio Deus”.7
Foi fundamentado na concepção de mundo mecanicista e não na
Bíblia que Rudolf Bultmann e mais recentemente John Sheley Spong construíram
suas teologias acerca dos milagres. Com o advento da física quântica e seu
princípio da incerteza de Wemer Heisenberg essa concepção de mundo, que vê o
universo apenas como uma máquina, vem sendo abandonada pela comunidade
científica. As descobertas da física quântica mostram que as leis fixas do
universo são válidas para o macrocosmo mas não para o microcosmo do mundo
subatômico. Em palavras mais simples, o universo não pode mais ser explicado
somente a partir de leis fixas e imutáveis como apregoavam os filósofos do
Iluminismo.8 A mesma ciência que armou os teólogos liberais com a física
mecanicista agora os desarma com a física quântica. Trocando isso em miúdos — a
ciência contemporânea não pode afirmar nem tampouco negar a existência de um
milagre. Isso é competência da teologia!
Uma Resposta ao Secularismo
O movimento pentecostal surge em um contexto onde os crentes
mais devotos, insatisfeitos com a secularização do cristianismo institucional,
buscam novamente o fervor dos primitivos cristãos. Muitos movimentos
periféricos passaram a apregoar a necessidade de uma vida mais profunda.
Dentre
eles se destaca o Movimento Holiness (Santidade) que atingiu as igrejas
norte-americanas em torno de 1880. Foi oriundo desse Movimento de restauração
que veio Charles Fox Parham e William J. Saymour. Posteriormente Daniel Berg e
Gunnar Vingren, que haviam aderido ao movimento em 1906. Eles trouxeram a
mensagem pentecostal para o Brasil. Os milagres vieram juntos.
Milagre no Seringal
Atualmente o pastor José Veras Fontinele pastoreia a igreja
Assembleia de Deus na cidade de Piripiri (PI). Ele é um dos poucos herdeiros
ainda vivo desse pentecostalismo clássico. Seus cabelos brancos, voz rouca e
pele enrugada são sinais físicos de longos anos de dedicação ao ministério
pastoral. Na casa dos oitenta anos, o pastor Fontinele, como é conhecido entre
os amigos, é um homem que demonstra muita lucidez. Conheci o pastor Fontinele
há mais de vinte anos e desde então aprendi a admirá-lo e respeitá-lo como um
doprocurou viver sem mascaramentos o evangelho de Jesus. Suas poucas palavras,
porém carregadas de sabedoria, fizeram com que os seus pares sempre parassem
para ouvi-lo.
Pois bem, a história desse pioneiro do pentecostalismo piauiense
é marcada por uma série de fatos miraculosos, mas um deles me chamou a atenção
— a cura de uma doença incurável que ele havia contraído ainda na sua mocidade.
A história me foi passada por um amigo e desde então eu aguardava uma ocasião
própria para ouvi-la da sua própria boca.
Certa vez nos encontrávamos em um conclave de pastores em
uma das cidades piauienses do sul do estado. Ao vê-lo e cumprimentá-lo expus o
meu desejo de ouvir a história que terceiros me haviam repassado. Sem
demonstrar enfado ou cansaço, nem tampouco se sentir incomodado, ele narrou o
que se segue.
Contou-me que ainda muito jovem e ainda não convertido ao
evangelho, adoeceu e quando um médico foi consultado, o diagnóstico não poderia
ser mais devastador — ele havia contraído tuberculose. Nessa época, próximo dos
anos cinqüenta, observou ele, era constrangedor possuir um “tuberculoso” na
família. Mesmo sendo bem jovem, mas não querendo ser um embaraço para a
família, ele resolveu então secretamente sair de casa e migrar para a região
Norte do país. O estado escolhido foi o Acre, onde iria tentar trabalhar no
seringal.
Chegando ao seringal foi morar em uma vila onde a principal
cultura era o extrativismo da borracha. Ali chegando, a doença começou a dar
sinais mais fortes de sua presença, sendo que alguns sintomas, dentre eles a
tosse passou a se manifestar de forma mais aguda. A comunidade ficou ciente da
sua doença. Foi então que certa vez, quando ele se encontrava em um comércio
local que uma senhora o interpelou: “Fontinele, porque você não faz um voto com
Jesus para que ele o cure dessa doença?” E completando, disse: “Quando Ele te
curar, então você o recebe como Salvador de sua vida.”
O pastor me informou na seqüência que aquela mulher fazia
parte de uma igreja evangélica pentecostal do povoado e que os pentecostais
tinham por hábito fazerem três cultos domésticos em suas residências. Foi para
participar de uma dessas reuniões que ele fora convidado por aquela simpática
senhora. Quando recebeu o convite, o pastor se limitou a pensar com
incredulidade como poderia uns pecadores daqueles curarem alguém. Mas não tendo
nada a perder, aceitou o convite.
Chegando à residência para onde fora convidado e adentrando
no recinto, encontrou algumas pessoas de joelhos e orando em alta voz. As
líderes mais honrados de nosso estado. Homem de caráter e reputação ilibada que
sempre sua presença logo foi percebida pela dona da casa, a mesma que o havia
convidado. Interrompendo a reunião, ela informou a razão da presença daquele
jovem ã reunião deles. Disse também que Fontinele havia se comprometido que tão
logo ficasse bom, serviria ao Senhor Jesus. Demonstrando muita ousadia,
confiança e fé, aquela senhora perguntou quantos dos presentes acreditavam que
Jesus iria curar o jovem! Todos responderam em uníssono que criam na sua cura.
“Quando aquela mulher orou por mim”, contou-me o veterano
pastor, “vi línguas de fogo saindo de sua boca”. Foi então que ele passou a
perceber a presença de um ser angélico vestido de branco aproximar-se dele.
Aquele varão trazia na mão um vasilhame cheio de azeite quente. Ao tocar-lhe, o
ser de branco fez com que ele ficasse reclinado a fim de que o azeite pudesse
ser despejado em sua boca. Ao abrir a boca, Fontinele sentiu o azeite descendo
pela sua garganta e à medida que o óleo quente entrava em seu interior ele
começou a transpirar por todos os poros!
Quando aquela senhora
terminou a oração, ele se sentiu totalmente curado! Com os olhos marejando em
lágrimas, o pastor Fontinele contou-me que no dia seguinte todos os sintomas da
doença haviam desaparecido. Meio século já se passou desde aquela cura milagrosa
e ele continua ainda curado!
Jesus e o Poder sobre as Doenças e a Morte
No Evangelho de Lucas encontramos vários relatos de curas
milagrosas e de pessoas sendo ressuscitadas. Não há por parte do evangelista a
preocupação de provar que milagres existem. As fontes as quais ele pesquisou e
as pessoas as quais consultou detalharam o que ouviram e viram Jesus fazer.
Jesus não curava e ressuscitava as pessoas de entre os mortos para provar
alguma coisa. Antes ele as curava por ser o filho de Deus.
Missão Messiânica
Lucas parte do princípio de que Jesus é o Messias prometido
nas Sagradas Escrituras e que Ele havia sido capacitado pelo Espírito Santo
para realizar as obras de Deus (Lc 4.16-18; Is 61.1,2). Mais uma vez a teologia
carismática de Lucas fica em destaque. Na cura do paralítico de Cafarnaum,
Lucas destaca que “o poder do Senhor estava com ele para curar” (Lc 5.17). O
poder do Senhor é um sinônimo para a unção do Espírito Santo (At 10.38). Por
outro lado, na ressurreição do filho da viúva de Naim, Lucas observa que o povo
exclamou: “Grande profeta se levantou entre nós; e: Deus visitou o seu povo”
(Lc 7.16). Não há dúvida de que esse grande profeta é uma referência messiânica
encontrada em Deuteronômio: “Suscitar-lhe-ei um profeta do meio de seus irmãos,
semelhante a ti, em cuja boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo
o que eu lhe ordenar” (Dt 18.15-19).
As curas e milagres
de ressurreição de mortos efetuados por Jesus, portanto, faziam parte da sua
revelação messiânica e a demonstração da compaixão e do amor de Deus. “E
aconteceu, pouco depois, ir ele à cidade chamada Naim, e com ele iam muitos dos
seus discípulos e uma grande multidão. E, quando chegou perto da porta da
cidade, eis que levavam um defunto, filho único de sua mãe, que era viúva; e
com ela ia uma grande multidão da cidade. E, vendo-a, o Senhor moveu-se de
íntima compaixão por ela e disse-lhe: Não chores. E, chegando-se, tocou o
esquife (e os que o levavam pararam) e disse: Jovem, eu te digo: Levanta-te. E
o defunto assentou-se e começou a falar. E entregou-o à sua mãe. E de todos se
apoderou o temor, e glorificavam a Deus, dizendo: Um grande profeta se levantou
entre nós, e Deus visitou o seu povo” (Lc 7.11-16).
A Manifestação do Reino de Deus
Os milagres de Jesus na perspectiva lucana devem ser também
entendidos como a manifestação da vinda do reino de Deus. Em Lucas, a expressão
“Reino de Deus” deve ser entendida como sendo o domínio de Deus (Lc 17.20,21).
Ao curar os enfermos e ressuscitar os mortos, Jesus demonstrava que o Reino de
Deus havia chegado: “Também os enviou a pregar o reino de Deus e curar os
enfermos” (Lc 9.2); “Falava-lhes a respeito do reino de Deus e socorria os que
tinham necessidade de cura” (Lc 9.11). No Evangelho de Mateus essa mensagem
acerca do reino de Deus, além da cura dos enfermos envolve também a
ressurreição dos mortos (Mt 10.8).
E uma verdade bíblica
que as doenças e a morte existem por causa da entrada do pecado no mundo. Isso
não significa dizer que toda e qualquer doença fosse resultante de um pecado
pessoal. Os evangelhos mostram que haviam doenças que poderiam advir como
conseqüência de um pecado pessoal, como no caso da cura do paralítico no tanque
de Betesda (Jo 5.14, veja também 1 Co 11.27-31). Mas nem todas as enfermidades
e doenças estavam necessariamente associadas a algum tipo de pecado ou punição
pessoal (Jo 9.1-3). No caso do cego do capítulo nove do Evangelho de João,
Jesus afirmou que nem o doente nem seus pais haviam pecado para que ele
nascesse cego! Em outras palavras, a lei de causa e efeito do pecado e suas
conseqüências não pode ser aplicada aqui para explicar a razão da cegueira
daquele homem. O certo é que a sua cegueira existia, não como conseqüência de
um pecado pessoal, mas em razão da queda! O relato da cura do paralítico de
Cafarnaum é emblemático no evangelho de Lucas (Lc 5.17-26).
“E aconteceu que, em um daqueles dias, estava ensinando, e
estavam ali assentados fariseus e doutores da lei que tinham vindo de todas as
aldeias da Galileia, e da Judeia, e de Jerusalém. E a virtude do Senhor estava
com ele para curar. E eis que uns homens transportaram numa cama um homem que
estava paralítico e procuravam fazê-lo entrar e pô-lo diante dele. E, não
achando por onde o pudessem levar, por causa da multidão, subiram ao telhado e,
por entre as telhas, o baixaram com a cama até ao meio, diante de Jesus. E,
vendo-lhes a fé, Jesus disse ao paralítico: Homem, os teus pecados te são
perdoados. E os escribas e os fariseus começaram a arrazoar, dizendo: Quem é
este que diz blasfêmias? Quem pode perdoar pecados, senão Deus? Jesus, porém,
conhecendo os seus pensamentos, respondeu e disse-lhes: Que arrazoais em vosso
coração? Qual é mais fácil? Dizer: Os teus pecados te são perdoados, ou dizer:
Levanta-te e anda? Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra
poder de perdoar pecados (disse ao paralítico), eu te digo: Levanta-te, toma a
tua cama e vai para tua casa. E, levantando-se logo diante deles e tomando a
cama em que estava deitado, foi para sua casa glorificando a Deus. E todos
ficaram maravilhados, e glorificaram a Deus, e ficaram cheios de temor,
dizendo: Hoje, vimos prodígios” (Lc 5.17-26).
Antes de tratar do problema físico do paralítico, Jesus
primeiramente tratou da sua alma. O texto não nos permite deduzir que esse homem
encontrava-se assim em razão de algum pecado pessoal. Mas por outro lado, o
contexto não deixa dúvidas de que aquele pobre moribundo, além da doença física
também carregava consigo a culpa. De outra forma não teria sentido as palavras
que Jesus dirigiu a ele: “Os teus pecados te são perdoados” (Lc 5.23). O seu
estado demonstrava que a sua necessidade imediata era de cura e não de perdão,
mas o Senhor não o viu assim. Antes resolveu o problema da culpa, dando-lhe uma
palavra de perdão e somente depois cuidou também de curar o seu corpo:
“Levanta-te, toma a tua cama e vai para tua casa” (Lc 5.23).
A Cura e a Expiação
Esses milagres efetuados por Jesus durante o seu ministério
público estavam, sem dúvida alguma, associados à sua missão vicária. Dizendo isso
de uma outra forma, o testemunho dos Evangelhos é que Jesus levou sobre si as
nossas doenças e enfermidades. Isso significa dizer que a cura faz parte da
expiação (Mt 8.16-17). “E, chegada à tarde, trouxeram-lhe muitos
endemoninhados, e ele, com a sua palavra, expulsou deles os espíritos e curou
todos os que estavam enfermos, para que se cumprisse o que fora dito pelo
profeta Isaías, que diz: Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e levou as
nossas doenças” (Mt 8.16,17).9
Ao afirmar que a cura faz parte da expiação, não significa
dizer que todos serão curados. Da mesma forma, nem todos vão ser salvos embora
a salvação também faça parte da expiação. A santidade do crente também foi
conquistada na cruz. Ela, portanto, faz parte da expiação, embora nem todos
vivam santamente. E paradoxal, mas é bíblico. A doutrina da expiação de Cristo
nos dá uma base segura para crermos na salvação da nossa alma e na cura de
nosso corpo. Todas as bênçãos de Deus para nós, providas por Cristo, foram
possíveis através de seu sacrifício vicário.
Não há bênção fora da expiação!
Capítulo 8 Poder sobre a Natureza e os Demônios
“E navegaram para a terra dos gadarenos, que está defronte
da Galileia. E, quando desceu para terra, saiu-lhe ao encontro, vindo da
cidade, um homem que, desde muito tempo, estava possesso de demônios e não
andava vestido nem habitava em qualquer casa, mas nos sepulcros. E, quando viu
a Jesus, prostrou-se diante dele, exclamando e dizendo com alta voz: Que tenho
eu contigo Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Peço-te que não me atormentes.
Porque tinha ordenado ao espírito imundo que saísse daquele homem; pois já
havia muito tempo que o arrebatava.
E guardavam-no preso
com grilhões e cadeias; mas, quebrando as prisões, era impelido pelo demônio
para os desertos. E perguntou-lhe Jesus, dizendo: Qual é o teu nome? E ele
disse: Legião; porque tinham entrado nele muitos demônios. E rogavam-lhe que os
não mandasse para o abismo. E andava pastando ali no monte uma manada de muitos
porcos; e rogaram-lhe que lhes concedesse entrar neles; e concedeulho. E, tendo
saído os demônios do homem, entraram nos porcos, e a manada precipitou-se de um
despenhadeiro no lago e afogou-se. E aqueles que os guardavam, vendo o que
acontecera, fugiram e foram anunciá-lo na cidade e nos campos. E saíram a ver o
que tinha acontecido e vieram ter com Jesus. Acharam, então, o homem de quem
haviam saído os demônios, vestido e em seu juízo, assentado aos pés de Jesus; e
temeram. E os que tinham visto contaram-lhes também como fora salvo aquele
endemoninhado. E toda a multidão da terra dos gadarenos ao redor lhe rogou que
se retirasse deles, porque estavam possuídos de grande temor. E, entrando ele
no barco, voltou. E aquele homem de quem haviam saído os demônios rogou-lhe que
o deixasse estar com ele; mas Jesus o despediu, dizendo: Torna para tua casa e
conta quão grandes coisas te fez Deus. E ele foi apregoando por toda a cidade
quão grandes coisas Jesus lhe tinha feito”(Lc 8.26-39).
Na Terra do Gadareno Em outubro de 2013 comandei uma caravana
para Israel. No roteiro da viagem estava incluso um tour pela Jordânia, país
que faz fronteira com Israel. Na Jordânia, conhecemos o monte Nebo, local onde
Moisés contemplou a Terra Prometida antes da sua morte (Dt 34.5); passamos pelo
Vau de Jaboque, local onde Jacó lutou com o anjo de Deus (Gn 32.28); conhecemos
o local apontado pela arqueologia onde Jesus de fato fora batizado e também
conhecemos Gerasa, também denominada de Gadara (Mt 8.28), local onde Jesus
libertou o endemoninhado. Ali chegando, pude logo perceber porque os
evangelistas usam de forma intercambiável os termos “Gadara” e “Gerasa” para se
referirem ao local onde se deu a libertação do endemoninhado. Na verdade,
Gadara e Gerasa faziam parte de um complexo de cidades conhecidas como
“Decápolis”, isto é, um conjunto de dez cidades. Foi ali na região da Decápolis
que fiquei espantado com as maravilhas da arquitetura romana, presente por toda
parte, principalmente em Gerasa onde as ruínas da cidade continuam
testemunhando todo o esplendor do que fora o Império Romano.
Ali vi o arco de Adriano, feito em homenagem a esse
imperador romano.
Atravessando o Mar
Os meus olhos se enchiam com todas aquelas belezas
arquitetônicas, mas a minha mente procurava fazer a reconstituição da passagem
que Jesus tivera por Gerasa. “Meu Deus!” pensei eu, “o Senhor cruzou o Mar da
Galileia, enfrentou uma tempestade sem precedentes simplesmente para ir atrás
de um homem endemoninhado. Um moribundo, um homem considerado louco pela
sociedade.” Mas era exatamente isso o que o texto mostra. De fato Lucas
registra: “E aconteceu que, num daqueles dias, entrou num barco com seus
discípulos e disse-lhes: Passemos para a outra banda do lago. E partiram. E,
navegando eles, adormeceu; e sobreveio uma tempestade de vento no lago, e o
barco enchia-se de água, estando eles em perigo. E, chegando-se a ele, o
despertaram, dizendo: Mestre, Mestre, estamos perecendo. E ele, levantando-se,
repreendeu o vento e a fúria da água; e cessaram, e fez-se bonança. E
disse-lhes: Onde está a vossa fé? E eles, temendo, maravilharam-se, dizendo uns
aos outros: Quem é este, que até aos ventos e à água manda, e lhe obedecem? E
navegaram para a terra dos gadarenos, que está defronte da Galileia” (Lc
9.22-26).
Quando o Senhor se dirigia para confrontar as forças do mal
em Gadara, as forças da natureza se levantaram contra ele: “E sobreveio uma
tempestade de vento no lago, e o barco enchia-se de água, estando eles em
perigo” (Lc 9.23). E interessante que Lucas usa o vocábulo grego epitimao
(repreender) em relação às forças da natureza da mesma forma que o usa em
relação à libertação dos demônios e da cura da sogra de Pedro (Lc 4.35; 4.39).
Era como se a natureza, como uma força viva, se levantasse contra Jesus e seus
discípulos naquele momento. A natureza, portanto, era uma força a ser detida.
Isso não significa dizer que forças impessoais ganham pessoalidade nem tampouco
que seres inanimados ganham vida. O fato é que a entrada do pecado no mundo
trouxe desequilíbrio e desarmonia ao universo e a natureza também está inclusa
(Rm 8.19-22).
Tendo repreendido o
vento e a fúria das águas, Jesus chegou a Gadara, seu destino final.
Fazendo o Caminho de Volta
Pois bem, quando ainda me encontrava em Gadara, fiquei a
meditar na passagem de Lucas 8.26-39. O final da narrativa desse grande milagre
de libertação, diz: “E aquele homem de quem haviam saído os demônios rogou-lhe
que o deixasse estar com ele; mas Jesus o despediu, dizendo: Torna para tua
casa e conta quão grandes coisas te fez Deus. E ele foi apregoando por toda a
cidade quão grandes coisas Jesus lhe tinha feito” (Lc 8.38,39).
O gadareno, agora liberto, queria acompanhar Jesus, mas a
orientação do Senhor foi que ele voltasse para a sua terra e anunciasse tudo o
que Deus tinha feito com ele. De fato, os Evangelhos registram que ele se
tornou o primeiro evangelista na região da Decápolis (Mc 5.20).
Esse texto mostra de forma enfática o poder de Jesus sobre
todos os demônios. Todavia revela também como fica o estado daqueles a quem
Satanás escraviza.
Em primeiro lugar, o Diabo põe as pessoas na zona de
exclusão. “E navegaram para a terra dos gadarenos, que está defronte da
Galileia” (Lc 8.26). A frase “defronte da Galileia” é traduzida na Almeida
Revista e Atualizada como “fronteira da Galileia”. A palavra grega antiperan,
traduzida como oposto, na margem oposta, do outro lado, mantém essa ideia de
região fronteiriça. As regiões fronteiriças são distantes de tudo. Em relação
ao estado ou nação da qual fazem parte, se tornam uma verdadeira zona de
exclusão. O gadareno vivia na fronteira, uma terra de ninguém. Não tenho
dúvidas de que o Senhor foi para Gadara com o objetivo único de procurar aquele
homem, libertá-lo e fazer com que ele saísse da zona de exclusão.
Em segundo lugar, o Diabo rouba a identidade do homem. O
texto diz: “desde muito tempo, estava possesso de demônios” (Lc 8.27) e “como
fora salvo o endemoninhado” (Lc 8.36). Em Lucas 8.27 o gadareno aparece como
“tendo” (gr. echo) demônios e em Lc 8.36, como quem se encontra “possuído” (gr.
daimonizomai) por demônios.1 O renomado léxico da língua grega de Walter Bauer
traduz daimonizomai como “ser possuído por demônios”.2 Em outras palavras, o
gadareno encontravase totalmente dominado por demônios. Ele não era mais ele,
havia perdido por completo a sua identidade. Havia deixado de ser gente para se
tornar uma coisa. Todos o evitavam porque ele não era aquela pessoa que haviam
conhecido. Jesus o liberta e faz com que ele volte a ser gente como os demais
(Lc 8.35).
Em terceiro lugar, o Diabo tira todos os valores, “e não
andava vestido” (Lc 8.27). A palavra grega endidysko tem o sentido de vestir,
vestir-se, cobrirse, estar vestido em. Usada com a negativa “não” mantém o
sentido de “estar descoberto”. É uma forma de dizer que ele andava sem roupa.
Somente alguém que perde a noção de valores éticos-morais consegue andar nu.
Mas é isso que o Diabo faz — deixar as pessoas totalmente nuas e despidas de
tudo aquilo que as valoriza. Quando Jesus libertou o gadareno, as pessoas o
viram “vestido” novamente (Lc 8.35). A missão do Diabo é despir as pessoas,
enquanto o Senhor Jesus veste-as e reveste-as com sua graça.
O pastor Jack Haiford, pastor de uma igreja pentecostal na
Califórnia, Estados Unidos da América, conta que certa vez uma jovem o procurou
para ser aconselhada. Quando a jovem começou a contar a sua história, o pastor
Haiford disse que precisou interrompê-la. O Espírito Santo lhe revelara que a
jovem não estava contando-lhe o verdadeiro motivo de o ter procurado. O pastor
informou-lhe que o Senhor o havia instruído a dizer uma frase para ela, e que
para ele parecia sem sentido, mas que o Senhor dissera-lhe que faria todo o
sentido para ela. A jovem então quis saber que frase era. O pastor repetiu a
frase que ouvira do Senhor: “Jamais permitirei que alguém veja a sua nudez”.
Essas palavras tiveram um efeito bombástico naquela jovem. Ela começou a chorar
convulsivamente. Depois de se refazer, confidenciou para o pastor. Antes de se
converter ela era uma prostituta e quando entregou a sua vida ao Senhor tudo estava
indo bem, mas havia seis meses que um pensamento obsessivo parecia querer-lhe
dominar a sua mente: “Você vai andar nua novamente”. Com aquela palavra de
conhecimento liberada pelo pastor Jack Haiford a jovem foi totalmente livre.3
Em quarto lugar, o Diabo
tira os referenciais, “nem habitava em qualquer casa, mas nos sepulcros” (Lc
8.27). Esse homem não possuía mais uma família. Havia perdido a sua referência
social. Havia perdido os seus valores morais e também os sociais. O homem é um
ser gregário e como tal necessita viver em sociedade. O Diabo sabe disso e por
isso procurou jogar aquele pobre coitado em um total isolamento social. Estava
vivo, mas vivia com os mortos. Era um morto vivo. Jesus o libertou e devolveu
ao convívio familiar.
Em quinto lugar, o Diabo torna a vida do homem árida. “Era
impelido pelo demônio para os desertos” (Lc 8.29). O deserto é o lugar dos
extremos. Durante o dia a temperatura é escaldante e durante a noite elas
despencam. Vi isso quando estive no deserto do Sinai. Durante o dia, a
temperatura no monte Sinai é elevadíssima, sendo possível medir cinqüenta graus
na sombra. Por outro lado, as madrugadas são geladas, ficando alguns graus
abaixo de zero. Devido a esses fenômenos, o deserto é um lugar árido. O Diabo
fez com que o deserto fosse a casa do gadareno. A sua vida era, portanto,
árida. Foi somente quando Jesus o libertou que ele voltou a viver a vida
abundante. As referências que mostram Jesus confrontando o poder de Satanás são
abundantes nos evangelhos. No Evangelho de Lucas esse embate ocorre nos
primeiros momentos do ministério público de Jesus.
“E desceu a
Cafarnaum, cidade da Galileia, e os ensinava nos sábados. E admiravam-se da sua
doutrina, porque a sua palavra era com autoridade. E estava na sinagoga um
homem que tinha um espírito de um demônio imundo, e este exclamou em alta voz,
dizendo: Ah! Que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste a destruir-nos? Bem
sei quem és: o Santo de Deus. E Jesus o repreendeu, dizendo: Cala-te e sai
dele. E o demônio, lançando-o por terra no meio do povo, saiu dele, sem lhe
fazer mal. E veio espanto sobre todos, e falavam uns e outros, dizendo: Que
palavra é esta, que até aos espíritos imundos manda com autoridade e poder, e
eles saem? E a sua fama divulgava-se por todos os lugares, em redor daquela
comarca” (Lc 4.31-37). Com o no caso dos milagres, Lucas também não tem a
preocupação de provar a existência dos demônios. Isso não era necessário, pois
eles estavam por toda parte. A Biblia mostra o modus operandi do Diabo em
vários textos. Ele resiste à oração (Dn 10.10-13); influencia a mente (Mt
16.21-23; At 5.3); corrompe a mente (2 C o 11.1-3); opõe-se à pregação do
evangelho (At 13.8); procura destruir as vidas (Mc 9.22; Jo 10.10).
O registro dos Evangelhos é que havia muitas pessoas
oprimidas e possuídas pelos demônios no antigo Israel. De fato a missão de
Jesus, como o Messias prometido, incluía a libertação das pessoas dominadas
pelo Diabo. “Chegando a Nazaré, onde fora criado, entrou num dia de sábado,
segundo o seu costume, na sinagoga e levantou-se para ler. E foi-lhe dado o
livro do profeta Isaías; e, quando abriu o livro, achou o lugar em que estava
escrito: O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar
os pobres, enviou-me a curar os quebrantados do coração, a apregoar liberdade
aos cativos, a dar vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar
o ano aceitável do Senhor” (Lc 4.16-19).
Nesses confrontos uma coisa ficou logo evidente — Jesus,
durante o seu ministério terreno exerceu autoridade sobre todas as castas de
demônios! As pessoas viram isso e admiradas, se perguntavam que poder era
aquele, pois Jesus ordenava aos demônios que eles saíssem e eles obedeciam! Até
os próprios demônios estavam conscientes do poder de Jesus sobre eles: “Ah! Que
temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste para perder-nos? Bem sei quem és: o
Santo de Deus!” (Lc 4.34).
Lucas mostra que Jesus não apenas possuía autoridade sobre
os demônios como também delegou para seus discípulos essa autoridade. “E
voltaram os setenta com alegria, dizendo: Senhor, pelo teu nome, até os
demônios se nos sujeitam. E disse-lhes: Eu via Satanás, como raio, cair do céu.
Eis que vos dou poder para pisar serpentes, e escorpiões, e toda a força do
Inimigo, e nada vos fará dano algum” (Lc 10.17-19).
O cristão, portanto,
possui autoridade sobre o reino do mal. Isso se tornou possível porque Jesus
conquistou a vitória sobre Satanás na cruz do calvário: “havendo riscado a
cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era
contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz. E, despojando os
principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo”
(Cl 2.14-15). Estando em Cristo, o crente agora encontra-se em posição de
domínio sobre o poder das trevas: “Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o
dos mortos e pondo-o à sua direita nos céus, acima de todo principado, e poder,
e potestade, e domínio, e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas
também no vindouro. E sujeitou todas as coisas a seus pés e, sobre todas as
coisas, o constituiu como cabeça da igreja” (Ef 1.20-22). “Mas Deus, que é
riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós
ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça
sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele, e nos fez assentar nos
lugares celestiais, em Cristo Jesus” (Ef 2.4-6).
A Peneira do Diabo
Se o cristão tem autoridade sobre o Diabo, como de fato tem,
então porque Satanás leva vantagens sobre muitos deles? Primeiramente porque
lhe dão lugar (Ef 4.27); não são totalmente convertidos (Lc 22.31) e também
possuem uma mente mundana (1 Co 10.21). Algo parecido com o que vivenciou Simão
Pedro: “Disse também o Senhor: Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos
cirandar como trigo. Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e
tu, quando te converteres, confirma teus irmãos. E ele lhe disse: Senhor, estou
pronto a ir contigo até à prisão e à morte. Mas ele disse: Digo-te, Pedro, que
não cantará hoje o galo antes que três vezes negues que me conheces” (Lc
22.31-34). Pelo menos seis coisas podemos deduzir do comportamento de Pedro
revelados nesse texto.
1. Pedro demonstrou presunção — “estou pronto para morrer”.
Isso não passava de presunção, pois quando foi confrontado por ser discípulo de
Jesus, ele negou temendo a morte.
2. Pedro possuía
“brechas” — “Satanás vos reclamou”. O Diabo viu áreas no comportamento de Pedro
que revelavam que ele não parecia ser aquela pessoa que demonstrava. Ele queria
tirar isso a limpo. Não há dúvidas de que havia área na vida de Simão que o
Diabo conhecia como sendo vulneráveis.
3. Pedro possuía vida devocional pobre — “Roguei por ti” — O
Senhor orou por Pedro. O que o texto parece mostrar é que Pedro não vivia uma
vida devocional profunda. Quando Jesus orava no Getsêmani, ele logo adormeceu
na oração.
4. Pedro também não demonstrou ser totalmente convertido —
“Quando te converteres”. O Senhor não iria dizer essas palavras se Pedro fosse
um homem convertido por completo. Eu não sei precisar o que era essa falta de
conversão, mas que ele não era ainda convertido por completo, não era.
5. Pedro demonstrou
egoísmo — “fortalece aos teus irmãos”. Pedro sempre aparece como sendo o
primeiro em tudo. Era hora do Senhor lembrar que ele precisava pensar em seus
companheiros.
Crentes Possessos?
Lucas nada diz sobre a possessão de demônios em cristãos nem
em seu evangelho nem tampouco em Atos. Todavia alguns escritores vão além e
defendem a possibilidade de um crente ficar possuído pelo Diabo. Eu não
compartilho dessa ideia. Estou convencido de que nenhum ensino tem demonstrado
ser tão nocivo à Igreja de Jesus Cristo, quanto esse que afirma que o cristão
pode ser possuído por demônios. Nos anos 90, esse ensino se tornou como uma
praga e era só no que se falava nos meios evangélicos. Em um manual de
libertação de autoria do neozelandês Bill Subritzky encontramos a pergunta:
“pode um cristão ter demônios? O mesmo autor responde sem rodeios: “a resposta
é enfaticamente sim!”4O problema com esta afirmação está no fato da mesma não ser
baseada na Bíblia Sagrada, mas na experiência do autor. Tentando fundamentar a
sua resposta, ele diz: “Estou ciente do muito que se tem ensinado a respeito de
os cristãos não poderem ter demônios. Contudo, através de minha experiência no
ministério há quatorze anos, constatei que tal opinião é totalmente incorreta.”
5
Partindo desse princípio a posteriori (fundamentado em sua
experiência), Subritzky faz uma exegese falaciosa sobre a “possessão demoníaca”
no cristão: “Em primeiro lugar”, escreve ele, “precisamos compreender que
alguém pode ter um demônio sem estar possuído por ele. Aversão King James
(Bíblia em Inglês) traduz incorretamente a palavra ‘endemoninhado’ como
‘possuído’. Isso dá as pessoas a impressão de que se um espírito as ataca, ou
se apenas possuem um espírito estão consequentemente possuídas por demônios.
Não há nada na tradução grega que revele a palavra ‘possuído’. Estudiosos
insistem no fato de que esta palavra tem amedrontado muitas pessoas, por
pensarem que, se possuem um demônio estão ‘possuídas’”.6
Com o já escrevi em outro lugar, essa crença que dá amplos
poderes aos demônios sobre os cristãos é falsa pelo menos por cinco razões:
1. E a “posteriori”, isto é, baseia-se na experiência e não
na Bíblia.
2. E fruto de uma teologia errada sobre a segurança do
crente.
3. E fundamentado numa concepção equivocada sobre a
tricotomia humana.
4. E falho em definir o que seja um “cristão” segundo o
modelo do Novo Testamento.
5. È fundamentado na
má compreensão da terminologia usada no Novo Testamento para a possessão
demoníaca.7
Não podemos negar o valor que a experiência tem para nós,
cristãos. A vida cristã é experimental. Todavia uma experiência cristã alicerça
seus princípios na Palavra de Deus — a Bíblia Sagrada. Uma experiência
divorciada das Escrituras não tem valor para a fé genuinamente evangélica.
Aqueles que defendem a possessão demoníaca em cristãos não conseguem enquadrar
essa experiência no modelo dado no Novo Testamento. A interpretação dada à
palavra grega daimonizomai, com o sentido de “ter” demônios sem contudo estar
possuído por ele, é falha e não conta com o apoio do Novo Testamento grego.8
Por outro lado, quando aceitamos a Cristo como nosso
Salvador, mudamos de cidadania, de propriedade e consequentemente de reino e
senhor (Cl 1.13). Quando pertencemos ao reino de Deus não existe, portanto, a
ideia de copropriedade ou ocupação conjunta. Não podemos ser habitados ao mesmo
tempo pelo Espírito Santo e por demônios. Neste aspecto, o cristão em comunhão
com Deus está guardado e não há porque temer as forças do mal (Rm 8.38,39; Lc
10.18,19; Ef 6.10-18).
Lucas - O'Evangelho de Jesus , o Homem Perfeito

Ano aceitável do Senhor
O mundo vive hoje uma crise econômica, social e financeira
muito grande. Como nós, cristãos, podemos viver junto a tudo isso? Certamente
que não estamos isentos dos problemas que atingem o mundo atual, mas cremos que
nós podemos mudar a maneira de ver esses problemas, mudando nossa expectativa,
nossa esperança e os nossos valores de vida. E confiar nas pessoas, então? Como
está fácil nos decepcionarmos com alguém.
Existe uma promessa na Bíblia, em Is 61:1-3, de que Deus
prepararia uma pessoa muito especial em quem poderíamos confiar plenamente. Bem
mais tarde, nasceu Jesus, até então conhecido como um homem comum. Em Lc
4:16-21, Jesus faz sua primeira proclamação pública. Entra em uma sinagoga, num
dia de Sábado, como era de seu costume e pede o livro para ler. Ao abrir, Jesus lê justamente aquela promessa
do profeta Isaías, fazendo assim sua apresentação ao povo como o Filho de Deus.
Interessante notar que as pessoas tinham dúvidas, pois
fitavam os olhos em Jesus com muita alegria e, ao mesmo tempo, questionando
quem era realmente aquele homem, pois o conheciam como o filho de José, o
carpinteiro. Jesus estava cumprindo a profecia e proclamando o ano aceitável do
Senhor. O ano aceitável equivale ao ano do favor de Deus, é uma referência ao
Messias e ao seu ministério que haveria de inaugurar um novo período das
relações entre Deus e os homens. Esse novo período é um tempo em que Deus quer
agir, quer fazer, quer manifestar a sua graça diante dos homens. Essa promessa não ficou parada no
tempo. É o que vemos com o apóstolo Paulo, que tem muito a ver com o que
vivemos hoje. Ele sofreu muitos problemas, foi incompreendido, faltou-lhe
amigos, faltou-lhe suporte financeiro, sofreu calúnias e nem assim desanimou em
servir a Deus até o fim. Em II Co 11:23-27, certamente não encontramos um
“curriculum vitae” que recomende a pastorear. Poderíamos até ouvir: este homem
é um “pé frio”. Entra no navio, o navio afunda, entra na estrada, é assaltada.
Aonde ele vai, a tragédia acontece.
Trace um paralelo e tente encaixar a sua realidade à do
apóstolo Paulo. Como é que você se sente hoje? Se você foi abandonado, traído,
deixado, desprezado, seja no emprego ou na família, se está solitário, doido,
vazio. Não importa quem você é ou que “curriculum vitae” está apresentando, a
idade que tem ou sua condição social. Importa
que você está vivo e que é para você este tempo da graça de
Deus. Importa que a graça de Deus não quer transformar você em super-homem. Ela
é graça de Deus porque nos fortalece na fraqueza, supre o que nós não temos,
sinal de que falta algo em nós. O homem
que vive da graça de Deus continua gente, continua homem e continua carente.
Essa graça é vivida por nós pela decretação do ano aceitável do Senhor. E Paulo
entendeu bem esse papel de servir a Deus. Ele ia, falava de Jesus, quer fosse
ouvido ou não, mas fitou os olhos em Jesus e começou a viver o ano aceitável do
Senhor.
Conforme II Tm 4:9-22, apesar de não ter sido poupado da dor, ela era
fortalecido em suas fraquezas e carências. Isto é graça, é a força que não
temos e o acréscimo do que falta em nós. “O Senhor me levará a salvo para o
reino”. Precisamos ter a certeza da
salvação em Jesus. Ele não nos livra da morte, mas nos livra através dela.
“Todo mundo foi embora, somente Lucas está comigo”. Deus sempre coloca perto de
nós, pessoas que amamos e que nos confortam. Há sempre um “Lucas” perto de
você. Às vezes, esse “Lucas” é sua esposa, seu marido, um amigo, seus filhos.
Há sempre alguém na escuta de tudo e mais ainda, torcendo por você.
Se você se sente triste, sozinho, não se odeie por isso, mas
levante a cabeça, olhe para o Senhor, fite os olhos em Jesus, receba o ano
aceitável do Senhor. Assuma essa graça nas coisas naturais e creia que quando
estamos solitários, a graça de Deus vem através dos amigos, “Lucas”, e não
através de um quarto escuro. Não temos resposta aos problemas. O seu “Lucas”
talvez não terá a melhor solução, mas ele será um instrumento da parte de Deus
para trazer o consolo, a paz, a justiça, o louvor a Deus e a esperança de todas
as provisões de Deus para nossa vida.





Nenhum comentário:
Postar um comentário