EM CONSTRUÇÃO
A CRUZ
Marcos 15:21-28
A rotina da crucificação não mudava.
Quando a cruz estava preparada, o réu tinha que carregá-la até o lugar da
execução. Era colocado em meio de um esquadro de quatro soldados. À frente
partia um soldado levando um cartaz no qual constava o delito do qual era
culpado o prisioneiro. Logo o cartaz era
fixado na cruz. Tomavam o caminho
mais longo para o lugar da execução. Seguiam por todas as ruas e becos
possíveis de modo que a maior quantidade de pessoas pudesse vê-los e ficarem
advertidos.
Quando chegavam ao lugar da
crucificação, a cruz era colocada deitada no chão. O detento era estendido
sobre ela, e cravavam suas mãos a ela. Os pés não eram cravados, e sim só
atados frouxamente. Entre as pernas do prisioneiro se projetava uma parte de
madeira denominado a cadeira
de montar, que sustentava seu peso
quando se levantava a cruz ou os pregos rasgavam a carne das mãos. Então se
levantava a cruz e se colocava em seu buraco, e se deixava o réu morrer. A cruz
não era alta. Tinha a forma de uma T e não tinha nenhuma peça de cabeceira,
como usualmente é representada.
Às vezes os crucificados pendiam ali
por uma semana, morrendo de fome e sede, sofrendo até perder a razão. Este deve
ter sido um dia horrendo para Simão de Cirene. Palestina era um país ocupado e qualquer
um podia ser recrutado para o serviço dos romanos em qualquer tarefa. O sinal
de recrutamento era um toque no ombro com a folha de uma lança romana. Simão
era de Cirene, na África.
Sem dúvida teria chegado dessa
longínqua comarca para a Páscoa. Provavelmente teria economizado durante a
metade de sua vida para fazer essa viagem, e estaria satisfazendo a ambição de
toda sua vida
de comer uma Páscoa em Jerusalém, e
agora lhe acontecia isso. No momento Simão deve ter-se sentido profundamente
amargurado. Deve ter odiado os romanos e a esse delinquente cuja cruz foi
obrigado a levar. Mas podemos especular legitimamente a respeito do que lhe
aconteceu. Talvez sua intenção
fosse, ao chegar ao Gólgota, lançar a
cruz no chão e afastar-se o mais depressa que pudesse do lugar. E pode ser que
não o fizesse; que algo em Jesus o fascinasse. Ele é descrito como o pai de
Alexandre e de
Rufo. Agora, esta descrição deve ter
tido o propósito de identificá-lo. Supor-se-ia que as pessoas para quem foi
escrito o Evangelho o reconheceriam por esta descrição. É muito provável que o
Evangelho de
Marcos fosse escrito primeiro para a
Igreja de Roma. Voltemos agora para a
Carta de Paulo aos Romanos e leiamos
16:13: “Saudai a Rufo, eleito no Senhor, e a sua mãe e minha.” Rufo era um
cristão tão escolhido que era eleito no Senhor. A mãe de Rufo era tão querida
para Paulo que pôde chamá-la sua
mãe. Algo deve ter acontecido a Simão
no Gólgota. Vejamos agora Atos 13:1. Ali há uma lista dos homens de Antioquia
que despacharam Paulo e Barnabé em sua memorável primeira missão aos
gentios. Um deles é Simão, que se
chamava Níger. Níger era o nome comum para um homem de pele bronzeada
procedente da África. E Cirene está na África. Bem pode ser que nos encontremos
diante do próprio Simão. Talvez sua experiência no caminho ao Gólgota inclinou
para sempre seu coração para
Jesus, fazendo dele um cristão.
Posteriormente teria sido um dirigente da Igreja de Antioquia e um dos instrumentos
da primeira missão aos gentios. Talvez a primeira missão aos gentios teve lugar
porque Simão foi obrigado a carregar a cruz de Jesus. E isto significa que
talvez nós somos cristãos porque um
dia um peregrino pascal de Cirene,
para seu profundo desgosto, foi recrutado por algum ignorado oficial romano
para levar a cruz de Cristo. Ofereceram a Jesus vinho com alguma droga, mas Ele
rechaçou.
Havia em Jerusalém um grupo de
mulheres piedosas e misericordiosas que iam a cada crucificação e davam às
vítimas vinho misturado com drogas para aliviar suas terríveis dores.
Ofereceram vinho a Jesus,
e Ele rechaçou. Quando o Dr. Johnson
estava doente em que seria sua última enfermidade, pediu a seu médico que lhe dissesse
francamente se se recuperaria. O médico lhe disse que somente por um milagre
poderia curar-
se. "Então", disse Johnson,
"não tomarei mais remédios, nem sequer narcóticos, porque orei por que possa
entregar minha alma a Deus bem acordada". Jesus estava resolvido a provar
toda a amargura da morte e ir a Deus com os olhos abertos. Os soldados lançaram
sortes sobre as roupas de Jesus. Vimos que o réu partia ao lugar da execução
entre quatro soldados. Estes soldados tinham direito às roupas do criminoso.
Agora, um judeu usava cinco objetos de vestir: a túnica interior, a túnica
exterior, as sandálias, a faixa e o turbante. Uma vez apontadas as quatro
coisas menos importantes, restava a grande túnica exterior. Teria sido inútil
cortá-la, de modo que os soldados a lançaram aos pés da cruz. Jesus foi crucificado
entre dois ladrões. Foi um símbolo de toda sua vida durante a qual, até o fim,
esteve acompanhado de pecadores.
O AMOR ILIMITADO
Marcos 15:29-32
Os dirigentes judeus lançaram uma
última provocação a Jesus. "Desce da cruz", diziam-lhe, "e
creremos em ti." "Porque Jesus não desceu da cruz cremos nele",
disse faz tempo o General Booth. A morte de Jesus era absolutamente necessária.
A grande razão de sua necessidade era esta. Jesus veio para falar com os homens
do amor de Deus. Mais ainda, Ele próprio era o amor de Deus encarnado. E se
tivesse rechaçado a cruz, se no final tivesse descido da cruz, teria
significado que o amor de Deus tinha um limite, que havia algo que o amor de
Deus não estava disposto a sofrer pelos homens, que havia uma linha além da
qual o amor de Deus não podia ir. Mas como Jesus percorreu todo o caminho e
morreu na cruz, isto significa que o amor de Deus literalmente não tem limites,
que em todo o universo não há
nada pela qual o amor de Deus não
esteja disposto a sofrer pelos homens, que não há nada, nem mesmo a morte em
uma cruz, que o amor de Deus se recuse a suportar pelos homens. Quando olhamos
à cruz, Jesus nos diz: "Assim vos ama Deus, com um amor ilimitado, um amor
que suportará por vós qualquer sofrimento que a Terra tenha para
oferecer." Se tivesse descido da cruz não poderíamos crer neste amor, mas
porque se negou a descer, cremos e nossas almas repousam no amor ilimitado de
Deus.
TRAGÉDIA E TRIUNFO
Marcos 15:33-41
Vem então a última cena, uma cena tão
terrível que o céu se obscureceu estranhamente de modo que pareceu que a
própria natureza não pudesse suportar a visão do que estava ocorrendo. Notemos
os diversos personagens da cena.
(1) Ali estava Jesus. Ele disse duas
coisas:
(a) Lançou o terrível grito: “Deus meu, Deus
meu, por que me
desamparaste?” Por trás deste grito
há um mistério que não podemos penetrar. Ensaiemos uma explicação. Jesus tinha
tomado sobre si esta nossa vida. Tinha feito nossa obra e enfrentado nossas tentações
e suportado nossas provas. Tinha sofrido tudo o que essa vida podia lhe trazer.
Tinha conhecido o fracasso dos amigos, o ódio dos adversários, a malícia dos
inimigos. Tinha conhecido a dor mais dilaceradora que a vida pode oferecer. Até
este momento tinha passado por todas as experiências da vida, menos uma: não
tinha conhecido as conseqüências do pecado. Agora, se algo o pecado faz, é
nos separar de Deus. Põe entre nós e
Deus uma barreira como uma muralha impossível de escalar. Essa era a única
experiência humana pela qual Jesus nunca tinha passado porque era sem pecado.
Pode ser
que neste momento se abatesse sobre
Ele essa experiência. Não porque Ele tivesse pecado, mas sim porque antes que
pudesse identificar-se completamente com nossa humanidade tinha que passar por
ela. Nesse momento terrível,
horrendo, Jesus se identificou real e verdadeiramente com o pecado do homem.
Aqui temos o paradoxo divino: Jesus soube o que era ser pecador. Ninguém pode
entender
uma experiência a não ser que passe
por ela. E esta experiência deve ter sido duplamente agônica para Jesus, porque
Ele não sabia o que era estar separado de Deus por essa barreira. Por isso é
que nos entende tão bem. Por isso é que não temos que ter medo de ir a Ele
quando o pecado nos separa de
Deus. Porque Ele passou por isso pode
ajudar a outros que estejam passando pelo mesmo. Não há profundidade da
experiência humana que Cristo não tenha compartilhado e sondado.
(b) Lançou "uma grande
voz". Tanto Mateus (27:50) como Lucas (23:46) falam desta grande voz. João
não a menciona, mas diz que Jesus morreu depois de dizer “Está consumado”.
(João 19:30). Agora, no original isto seria uma só palavra. E essa única
palavra foi a grande voz. "Terminado!" Jesus morreu com um grito de triunfo
em seus lábios, cumprida sua tarefa, terminada sua obra, obtida sua vitória.
Depois da terrível escuridão voltou a luz, e voltou para seu lar, a Deus,
vitorioso.
(2) Ali estava o espectador que quis
ver se viria Elias. Tinha uma sorte de curiosidade mórbida em face da cruz. A
terrível cena não o movia ao assombro ou à reverência, nem sequer à piedade.
Queria experimentar enquanto Jesus morria.
(3) Ali estava o centurião. O
centurião era um duro soldado romano. Era o equivalente de um sargento maior de
nossos dias. Tinha lutado em muitas campanhas e tinha visto morrer a muitos
homens, mas nunca tinha visto morrer a ninguém como este homem, e estava seguro
de que Jesus era o Filho de
Deus. Se Jesus só tivesse vivido e
ensinado e curado poderia ter atraído a muitos, mas é a cruz a que fala diretamente
ao coração dos homens.
(4) Ali estavam as mulheres à
distância. Estavam confundidas, afligidas, sumidas em sua dor, mas estavam ali.
Amavam-no tanto que não podiam abandoná-lo. O amor se agarra a Cristo mesmo que
o intelecto não possa entender. Só o amor pode nos dar uma união com Cristo que
nem mesmo as mais tremendas experiências podem romper.
Há outra coisa para notar. “O véu do
templo se rasgou em dois, de alto a baixo”. Trata-se da cortina que encerrava o
Lugar Santíssimo, no qual ninguém podia entrar. Simbolicamente isto nos diz
duas coisas.
(a) O caminho de volta a Deus ficava
agora aberto completamente. No Lugar Santíssimo só podia entrar o sumo
sacerdote, e somente uma vez ao ano, no Dia da Expiação. Mas agora o véu estava
rasgado, e o caminho para Deus ficava aberto a todos.
(b) No Santíssimo morava a própria essência de
Deus. Mas agora, com a morte de Jesus, o véu que ocultava a Deus se rompeu e os
homens poderiam ver Deus face a face. Deus já não estava oculto. Os homens já
não precisariam conjeturar e tatear. Poderiam olhar a Jesus e dizer:
"Assim é Deus. Deus me ama dessa maneira".
JESUS ESCOLHE OS SEUS AMIGOS
Marcos 1:16-20
Assim que Jesus tomou sua decisão e
determinou qual teria que ser seu método, começou a formar um grupo de
colaboradores. Todo dirigente deve começar por alguma parte. Precisa rodear-se
de um grupo de pessoas amigas em quem possa descarregar seu coração e em cujas
mentes possa escrever sua mensagem. Assim, aqui Marcos mostra a Jesus
literalmente lançando os alicerces de seu Reino e chamando a seus primeiros
seguidores. Na Galiléia havia muitos pecadores. Josefo, que durante algum tempo
foi governador da região, e que é o grande ou historiador judeu, diz-nos que
durante sua estadia
ali, trezentos e trinta barcos de
pesca sulcavam as águas do lago. O povo comum da Palestina muito raramente
comia carne; em geral não podiam consumi-la mais de uma vez por semana. O peixe
era seu alimento principal (Lucas 11:11; Mateus 7:10; Marcos 6:30-44; Lucas
24:42). O peixe em geral era comido salgado, porque não existiam os meios para
transportá-lo fresco. O peixe fresco era um dos pratos muito especiais que se
comia nas grandes cidades como Roma. Os nomes das cidades que rodeavam o lago
demonstram até que ponto era importante a indústria do peixe. Betsaida
significa "a casa do pescador", Tariquea, outra das populações
costeiras, significa "o lugar do pescado salgado, e era ali onde se
preparava o peixe para seu envio a Jerusalém e até para a mesma Roma. A
indústria do pescado salgado era muito importante na Galiléia. Os pescadores
usavam dois tipos de redes. Nos
evangelhos são mencionadas ou implicadas
ambas. Usavam a rede denominada sagené.
Esta era uma espécie de rede de pescaria
ou rede varredora. Jogavam-na ao mar pela popa do navio, e estava dotada de
contrapesos colocados de tal modo que, uma vez arrojada, ficava em posição
vertical debaixo da água. O navio avançava e, então, atraíam-se as quatro
pontas da rede que, deste modo, formava uma espere de bolsa que se arrastava e
na qual eram apanhados os peixes. A outra rede, a que estavam usando Pedro e
André, chamava-se anfiblestron. Era muito menor. Era habilmente lançada à
água com a mão. Tinha a forma de uma
sombrinha ou "meio mundo". Ao arrastá-la pela água encerrava os
peixes. Naturalmente é de grande interesse estudar aos homens que Jesus
escolheu como seus primeiros seguidores.
(1) Devemos notar o que eram. Eram
pessoas muito simples. Não provinham das escolas ou das universidades; não
foram tirados dentre os eclesiásticos ou a aristocracia; não eram homens
instruídos, nem possuíam riquezas. Eram pescadores. Quer dizer, eram pessoas do
povo comum. Ninguém creu
como Jesus no homem comum. ...
Lincoln disse: "Deus deve amar as pessoas comuns. Ele fez tanto!" Pareceria
que Jesus tivesse dito: "Deem-me doze homens comuns que se entreguem a Mim
e com eles mudarei o mundo." Ninguém deve pensar tanto no que é, e sim no
que Jesus pode fazer dele. Tampouco deve pensar-se no que alguém opina de
outros, e sim no que Jesus vê neles.
(2) Devemos notar o que estavam
fazendo quando Jesus os chamou. Estavam realizando seu trabalho habitual.
Quando Ele os abordou, pescavam e remendavam suas redes. Assim tinha acontecido
com mais de um profeta. “Eu não sou profeta, nem discípulo de profeta, mas
boieiro e colhedor de sicômoros. Mas o SENHOR me tirou de após o gado e o
SENHOR me disse: Vai e profetiza ao meu povo de Israel” (Amós 7:14-15). Um
homem pode receber o chamado de Deus não somente na casa de Deus, não somente
quando está orando, e sim em meio de seu trabalho cotidiano. O homem que vive
em um mundo que está cheio de Deus não pode escapar de Deus.
(3) Devemos notar como os chamou. O
chamado de Jesus foi "Sigam-me". Não deve pensar-se que esse era o
primeiro dia que aqueles pescadores viam o Jesus. Sem dúvida tinham formado
parte da multidão que ouvia sua pregação. Sem dúvida teriam ficado falando
longamente com Ele depois de dispersa a multidão. Sem dúvida já tinham
experimentado a magia de sua presença e o magnetismo de seu olhar.
Mas Jesus não lhes disse: "Tenho
um sistema teológico que eu gostaria que vocês investigassem; tenho algumas
teorias que gostaria que conhecessem; desenvolvi um sistema de ética que queria
discutir com vocês." Disse-lhes: "Sigam-me." Tudo começou com a
reação pessoal dos pescadores diante de Jesus; tudo começou com esse puxão no
coração com que nasce uma lealdade incomovível. Isso não quer dizer que não
haja quem entre no cristianismo por via das ideias; significa que para a
maioria de nós seguir a
Cristo é como apaixonar-se. Alguém
disse que "as pessoas se maravilham por diversas razões, no entanto
pode-se amá-las sem razão nenhuma." A coisa se produz simplesmente porque
eles são eles e nós somos nós. "E eu", disse Jesus, "quando for
levantado da terra atrairei a todos a mim mesmo" (João
12:32). Na grande maioria dos casos
quem segue ao Jesus foram atraídos para Ele não por seus conceitos, mas sim
pelo que Ele é.
(4) Por último, devemos notar o que
Jesus lhes ofereceu. Ofereceu-lhes uma tarefa. Não os convocou ao ócio e ao
descanso, e sim ao serviço. Tem-se dito que o que todo homem precisa é de
"algo no que possa investir sua vida". De maneira que Jesus convocou
àqueles homens não a uma comodidade sem
sobressaltos nem a uma letárgica
inatividade, a não ser a uma tarefa na qual teriam que queimar-se e gastar-se,
e, finalmente, morrer, pelo Jesus Cristo e por seus semelhantes. Chamou-os uma
tarefa na qual só poderiam conseguir algo para si mesmos entregando-se
integralmente a Ele e aos demais.
A MISSÃO DA IGREJA
Marcos 16:9-20
Como vimos na Introdução, o Evangelho
de Marcos realmente termina no versículo 8. Basta ler esta passagem para ver
quão diferente é do resto dos Evangelhos, e não é encontrada em nenhum dos manuscritos
importantes. É um resumo posterior que substitui o final que Marcos não viveu
para escrever, ou que em algum momento se perdeu. O grande interesse desta
passagem reside na descrição que nos dá do dever da Igreja. Evidentemente, o
homem que escreveu esta seção final acreditava que a Igreja tinha certas
tarefas que Jesus lhe tinha encarregado.
(1) A Igreja tem a tarefa de pregar.
É dever da Igreja, e isto quer dizer de cada cristão, contar a história das
boas novas de Jesus àqueles que nunca a ouviram. O dever do cristão é ser
arauto de Jesus Cristo.
(2) A Igreja tem uma tarefa curadora.
Vimos este fato uma e outra vez. O cristianismo tem que ver com o corpo dos
homens tanto como com sua mente. Jesus quis trazer saúde ao corpo e à alma.
(3) A Igreja era uma Igreja de poder.
Não precisamos tomar tudo literalmente. Não precisamos acreditar que o cristão
tem que ter literalmente o poder de levantar víboras venenosas e beber líquidos
venenosos sem correr perigo. Mas no fundo desta linguagem pitoresca está a
convicção de que o cristão está
imbuído de um poder para enfrentar a
vida e lidar com ela que outros não têm nem podem ter.
(4) A Igreja nunca seria deixada
sozinha para trabalhar na realização de sua obra. Cristo sempre opera com ela e
nela e por meio dela. O Senhor da Igreja está ainda nela e é ainda o Senhor de
poder.
E assim termina o Evangelho com a
mensagem de que a vida cristã é a vida vivida na presença e no poder daquele
que foi crucificado e ressuscitou.
Bibliografia:
O NOVO TESTAMENTO Comentado por
William Barclay
WILLIAM BARCLAY Título original em
inglês: The Gospel of Mark
TEXTO 2
A GLÓRIA DA PROMESSA FINAL
Mateus 28:16-20
Aqui chegamos ao final do relato
evangélico, e ouvimos as últimas palavras de Jesus a seus homens. E neste
último encontro Jesus fez três coisas.
(1) Deu-lhes certeza sobre seu poder.
Não há dúvida de que não havia nada que estivesse fora do poder de alguém que
tinha morrido e que tinha conquistado a morte. Agora eram servos de um Senhor
cuja autoridade sobre a Terra e o céu estava além de toda dúvida.
(2) Deu-lhes uma comissão. Enviou-os
a converter a todo mundo em seus discípulos. Pode ser que a ordem de batizar
seja um desenvolvimento posterior das palavras que Jesus pronunciou. Pode-se discutir
esse ponto; o fato concreto é que a ordem de Jesus é ganhar a todos os homens
para Ele.
(3) Prometeu-lhes uma presença. Deve
ter sido assombroso para onze homens da Galiléia o serem enviados a conquistar
o mundo. Inclusive enquanto O ouviam seus corações devem ter duvidado. Mas tão
logo foi dada a ordem se pronunciou a promessa. Enviou-os, como a nós, a
cumprir a maior tarefa do mundo, mas os acompanhava a maior presença do mundo.
Bibliografia:
O NOVO TESTAMENTO Comentado por
William Barclay
WILLIAM BARCLAY Título original em
inglês: The Gospel of Matthew
TEXTO 3
HUMILHAÇÃO E EXALTAÇÃO
Filipenses 2:5-11
Lembremos sempre que quando Paulo
pensava e falava de Jesus seu interesse, intenção e propósito não eram em
primeiro termo intelectuais e especulativos, mas sim eram sempre práticos. Em
Paulo sempre se unem teologia e ação. Para ele, todo sistema de pensamento deve
necessariamente converter-se num
caminho de vida. Em muitos aspectos é um dos que têm maior alcance teológico do
Novo Testamento, mas toda sua intenção está em persuadir e impulsionar os
filipenses a viver uma vida livre
de desunião, desarmonia e ambição
pessoal. Paulo diz, pois, que Jesus se humilhou, fez-se obediente até a morte,
até o extremo de uma morte na cruz. As grandes características da vida de Jesus
foram humildade, obediência e renúncia de si mesmo. Não desejou dominar o
homem, mas sim apenas servi-
lo. Não desejou seu próprio caminho,
mas sim o de Deus. Não desejou sua própria exaltação, mas sim a renúncia a toda
glória pelo bem do homem. O Novo Testamento assegura várias vezes que só aquele
que se humilha será exaltado (Mateus
23:12: Lucas 14:11; 18:14). Se a humildade, a obediência e a renúncia de si são
as características supremas da vida de Jesus Cristo, também devem ser os sinais
de autenticidade do cristão, porque este deve ser como seu Senhor. Tanto a grandeza
cristã como a
unidade cristã dependem da renúncia
de si mesmo; destroem-se pela própria exaltação. O egoísmo, a busca e a
exibição de si destroem a semelhança com Cristo e nossa comunhão uns com
outros.
Mas a renúncia que Jesus Cristo fez
de si foi o meio para a glória maior. Por isso se constituiu no objeto do
maravilhado culto de todo o universo. Isto significa que algum dia, mais cedo
ou mais tarde, toda criatura do universo — nos céus, na Terra e até nos
infernos — lhe renderá culto. Mas advirtamos a
origem deste culto: o amor. Jesus
ganhou os corações dos homens não se exaltando diante deles com seu poder, mas
sim lhes mostrando amor, sacrificando-se e negando-se a si mesmo por eles. Isto
comove
o coração humano. À vista de alguém
que deixa a glória pelos homens e os ama até o extremo de morrer na cruz por
eles, o coração do homem se enternece e se quebra toda resistência. Quando os
homens rendem culto a Jesus não se jogam a seus pés com uma esmagadora
submissão, mas com um amor maravilhado. A pessoa não diz: "Não posso
resistir a um poder como este", mas sim: "Um amor tão assombroso e
tão divino exige toda minha alma e todo meu ser". Não diz: "Fui
reduzido e submetido", mas sim: "Estou abismado no assombro, no amor
e no louvor." Não é o poder de Cristo que reduz ao homem e o submete; é o
amor maravilhoso de Cristo que faz com que o homem se ajoelhe com um amor
maravilhado. A adoração se baseia não no temor, mas no amor. Paulo diz ademais
que, como consequência do amor sacrificial e da abnegação de Jesus, Deus lhe
deu um nome que está acima de
todo nome. É comum na Bíblia dar um
nome novo para marcar um estágio novo e determinado na vida do homem. Abrão se
converteu em Abraão quando recebeu a promessa de Deus (Gênesis 17:5). Jacó se converteu
em Israel quando Deus entrou em nova relação com ele (Gênesis 32:28). A
promessa de Cristo ressuscitado tanto a Pérgamo como a Filadélfia tem por
objeto um nome novo (Apocalipse 2:17; 2:2). O novo nome é o signo de uma nova
situação. Qual foi então o novo nome que Cristo recebeu? Não podemos determinar
com absoluta segurança o pensamento de Paulo, mas o mais provável é que foi
Senhor. O grande título pelo qual
Jesus chegou a ser conhecido na Igreja primitiva foi Kyrios. Jesus se fez especificamente
o Senhor Jesus.
A palavra Kyrios tem uma história
luminosa.
(1) Começou significando senhor ou
proprietário. Foi sempre um título de respeito.
(2) Chegou a ser o título oficial dos
imperadores romanos; o imperador romano era Kyrios em grego e Dominus em latim,
ou seja, Senhor e Dono.
(3) Chegou a ser o título dos deuses
pagãos; cada um dos deuses tinha o título de kyrios – senhor – como prefixo do
nome próprio.
(4) Kyrios era o termo grego que
traduzia a Jeová na versão grega das Escrituras. Desta maneira, quando Jesus
era chamado Kyrios, Senhor, significava que era o Senhor e o Dono de toda vida,
o Rei dos reis e
Senhor de imperadores; o Senhor de
uma maneira em que os deuses pagãos e os ídolos mudos jamais podiam sê-lo. Era
nada menos que divino. O novo nome de Jesus com Aquele que todo o universo o chamará
um dia é Senhor.
Bibliografia:
O NOVO TESTAMENTO Comentado por
William Barclay
WILLIAM BARCLAY Título original em
inglês: The Letter to the Philippians
4. Jesus, o poder romano e o poder judeu
“Meus inimigos estão no poder”
A morte de Jesus teve objetiva
consciência, tanto do poder romano como das autoridades judias. Jesus
deslegitimou ambos, em especial com o silêncio. Primeiramente no Sinédrio:
“Levantando-se então o sumo sacerdote no meio deles, interrogou a Jesus
dizendo: ‘Nada respondes? O que testemunham estes contra ti?’ Ele porém ficou
calado e nada respondeu” (Mc 14.60-61). Depois, ante Pilatos: Logo de manhã, os
sumos sacerdotes fizeram um conselho com os anciãos e os escribas e todo o
Sinédrio. E, amarrando a Jesus, levaram-no e entregaram-no a Pilatos. Pilatos o
interrogou: “És tu o rei dos judeus?” Respondendo ele disse: “Tu o dizes”. E os
sumos sacerdotes acusavam-no de muitas coisas. Pilatos o interrogou de novo: “Nada
respondes? Vê de quanto te acusam!” Jesus, porém, já nada mais respondeu, de
sorte que Pilatos ficou impressionado (Mc 15.1-5). O silêncio é expressão
política e teológica de relevância. Jesus falou aos pobres e calou-se diante
dos poderosos. Com isso, revela-se a atitude e a missão preferencial que marcou
o ministério de Jesus. O silêncio, quando não por conveniência própria, indica
especial mística, um “para além de”, despojamento absoluto e confiança no Pai.
O silêncio é sinal de libertação. As autoridades judias entregaram a
responsabilidade pela morte de Jesus aos romanos. Tal atitude evidenciou
definitivamente a intrínseca relação entre a esfera religiosa e a esfera
política presente na missão de Jesus. Quem, afinal, matou Jesus? É necessário
destacar que não foram os judeus que assassinaram Jesus, como por vezes aparece
no senso comum. Essa visão representa um forte antissemitismo. Foram as
autoridades judias, em especial os saduceus, em aliança com Pôncio Pilatos e
demais autoridades do Império Romano que desenvolveram o processo que culminou
na cruz .Jesus morreu por fidelidade às tradições libertadoras do êxodo e da
aliança dos profetas, expressões do reino de Deus que pregou. O conflito com o
centro foi inevitável, uma vez que as autoridades judias traíram as próprias
tradições e bases teológicas, e as romanas possuíam perspectiva de poder oposta
às propostas e práticas de Jesus25. Histórica e pastoralmente, estes relatos,
não obstante a ressurreição, conferem medo, como tiveram aquelas que fugiram do
túmulo, assustadas (Mc 16.6). Todavia, os consensos exegéticos indicam ser uma
história inconclusa… Sinal, portanto, de que o ponto final está por vir, que
fidelidade e esperança se conjugam e que a realidade presente requer vigilância
e novidade permanente.
V – Uma tentativa de atualização
“O tempo não para; não para”, diz
outra canção. É no movimento deste tempo que a experiência evangélica inicial
chega aos dias de hoje, com interpelações e apelos dos mais diversos. O mesmo
se pode dizer das respostas (ou a ausência delas) por parte dos cristãos.
Pensar o Evangelho de Marcos no contexto latino-americano da atualidade é
tarefa que requer posturas bastante semelhantes à da comunidade marcana, não
obstante quase dois milênios no tempo. A pergunta “quem é Jesus?” igualmente se
impõe, em especial pelo florescimento da diversidade religiosa e filosófica no
final deste milênio. Se as análises estiverem corretas ao indicarem que a
vivência da fé cristã, nas diferentes Igrejas e comunidades, distancia-se progressivamente
de um núcleo teológico básico e adquirem perfis em sintonia com as
transformações sociais (despersonificação, massificação e relativização da
vivência comunitária), o Evangelho de Marcos ganha relevo, uma vez que indica a
resposta de quem Jesus é a partir do discipulado e do seguimento a ele. Por
quê?
Conflito x harmonia
A nova religiosidade emergente inclui
uma articulação de elementos místicos e filosóficos de várias procedências: das
expressões espiritualistas e mágicas que se configuram em torno da chamada Nova
Era, da multiplicação dos grupos orientalistas, do fortalecimento institucional
dos movimentos de renovação carismática e similares, e do crescimento do setor
das Igrejas evangélicas, em especial o do pentecostalismo. Este amálgama, expresso
em formas diferenciadas, está em conexão com a lógica da eficiência, do
individualismo, da harmonia e do triunfalismo engendrados pela globalização econômica
e das comunicações e pelas políticas neoliberais vigentes. Há uma excessiva
confiança na técnica (humana) e pouco apreço (quando não contraposição) pela
prática da solidariedade e pelas vivências de caráter mais gratuito e de
despojamento. Enfatizar o caminho concreto de seguimento a Jesus, acentuando o
conflito como chave de leitura, significa, por um lado, andar na “contramão” da
atualidade (pois a chave da mentalidade vigente é a harmonia) e, por outro,
corrigir, com a perspectiva de Paixão, sofrimento e instabilidade, a
mentalidade triunfalista do êxito religioso, majoritariamente difundida no
contexto atual.
Fé x religião
Outra interpelação do Evangelho de
Marcos é de natureza intraeclesial. Jesus confrontou as autoridades religiosas
pela centralização do poder, pela cristalização das doutrinas, pela
dogmatização e absolutização das idéias teológicas (a Lei) e pela supremacia da
dimensão institucional em detrimento da vida humana. O campo das Igrejas (para
situar apenas a dimensão eclesial e não a religiosa como um todo) está repleto
de manifestações do seguimento e de compreensão do Evangelho, nos moldes
pastorais indicados em Marcos. São milhares de comunidades – evangélicas e
católicas – em todo o continente, onde partilha, solidariedade e comunhão
marcam a vida eclesial – por sua vez, não isenta de conflitos. Todavia, de
forma crescente, há forte dispersão desta vivência. A explicação de caráter
interno à vida das Igrejas (outras formas de análises são possíveis e
complementares) encontra-se, sobretudo, nos enrijecimentos institucionais das
estruturas eclesiásticas, tanto católica como protestantes. Os primeiros têm
alcançado até mesmo debates mais populares, nas comunidades e na mídia. Até a
irreverência de grupos de rock sabem que o papa, além de pop, “não poupa
ninguém” (Engenheiros do Havaí). No campo protestante, os processos repressivos
(autoritários ou totalitários) são volumosos e têm sido objeto de estudos e de
reação popular. Ambos geram movimentos críticos e de renovação institucional. O
Evangelho de Marcos propõe um novo saber e uma nova prática que emerge da
comunidade. De fato, ele indica uma nova comunidade, na qual as relações são
constituídas de fraternidade e de serviço. Esse é um dos grandes desafios para
as igrejas ante a realidade institucional em que estão mergulhadas nesta virada
de milênio.
Reino de Deus x dominação
Uma terceira contribuição do
Evangelho de Marcos situa-se no confronto entre reino de Deus e poder
político-econômico. Não obstante os avanços tecnológicos, o clima de barbárie
fruto das políticas implementadas pela maioria dos poderes constituídos no
continente é constrangedor para a ótica cristã. Ressalta-se a situação do uso e
da distribuição da terra, a desvalorização da força de trabalho em função da
automação, a violência e a degradação da vida nas grandes cidades e a formação
de uma massa considerável da população excluída do sistema econômico e passível
de ser eliminada pela morte. A prática do Evangelho, ao contrário, é a da
solidariedade e da justiça. Os relatos de Marcos confirmam, com as ações de
Jesus, esta perspectiva. Ainda que existam formas exacerbadamente ideologizadas
de enfatizar o martírio e a inserção política dos cristãos na América Latina –
e vários setores têm feito esta autocrítica –, o fato é que perspectivas
pastorais de caráter mais fortemente eclesial (como afetividade,
devocionalidade, organização interna) não podem ocultar a necessidade de confronto
com toda e qualquer política iníqua, que não produza justiça e dignidade
humana. O Evangelho de Marcos revela, em sua época, as consequências da
radicalidade de Jesus ante as injustiças sociais. Este é, portanto, um
parâmetro substancial para a prática dos cristãos.
Sentido x caos Por fim, está a grande
contribuição do Evangelho de Marcos em oferecer sentido e esperança em meio aos
conflitos e às possibilidades de sofrimento e ausência de êxito. Na atualidade,
todos os grupos que direta ou indiretamente tinham como referência as
experiências e as utopias socialistas chegaram, pelos menos, a duas
constatações: a primeira trata da ausência de um projeto global alternativo ao
neoliberalismo; e a segunda refere-se ao conjunto de perplexidades em diferentes
campos do conhecimento – o que inclui a teologia e a pastoral – que,
usualmente, passou a ser denominado “crise dos paradigmas”. Na voz da canção
inicialmente referida: “meu coração é mais um coração partido. Minhas ilusões
estão todas perdidas”. Daí o kairós, o tempo oportuno para novas referências e
novas esperanças. O Evangelho de Marcos mostra esta possibilidade, indica o
caminho (“o seguimento de Jesus no prosseguimento de sua causa”) e cria nos
discípulos, de ontem e de hoje, a ânsia de sentido. De fato, “eu quero uma pra
viver”, como expressa a mesma canção.
“Meus inimigos estão no poder”
Claudio de Oliveira RibeiroFONTE :



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