segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Lição 06 - Marcos, o servo termina sua obra




EM CONSTRUÇÃO

                                                                   A CRUZ


Marcos 15:21-28

A rotina da crucificação não mudava. Quando a cruz estava preparada, o réu tinha que carregá-la até o lugar da execução. Era colocado em meio de um esquadro de quatro soldados. À frente partia um soldado levando um cartaz no qual constava o delito do qual era culpado o prisioneiro. Logo o cartaz era
fixado na cruz. Tomavam o caminho mais longo para o lugar da execução. Seguiam por todas as ruas e becos possíveis de modo que a maior quantidade de pessoas pudesse vê-los e ficarem advertidos.
Quando chegavam ao lugar da crucificação, a cruz era colocada deitada no chão. O detento era estendido sobre ela, e cravavam suas mãos a ela. Os pés não eram cravados, e sim só atados frouxamente. Entre as pernas do prisioneiro se projetava uma parte de madeira denominado a cadeira
de montar, que sustentava seu peso quando se levantava a cruz ou os pregos rasgavam a carne das mãos. Então se levantava a cruz e se colocava em seu buraco, e se deixava o réu morrer. A cruz não era alta. Tinha a forma de uma T e não tinha nenhuma peça de cabeceira, como usualmente é representada.
Às vezes os crucificados pendiam ali por uma semana, morrendo de fome e sede, sofrendo até perder a razão. Este deve ter sido um dia horrendo para Simão de Cirene. Palestina era um país ocupado e qualquer um podia ser recrutado para o serviço dos romanos em qualquer tarefa. O sinal de recrutamento era um toque no ombro com a folha de uma lança romana. Simão era de Cirene, na África.
Sem dúvida teria chegado dessa longínqua comarca para a Páscoa. Provavelmente teria economizado durante a metade de sua vida para fazer essa viagem, e estaria satisfazendo a ambição de toda sua vida
de comer uma Páscoa em Jerusalém, e agora lhe acontecia isso. No momento Simão deve ter-se sentido profundamente amargurado. Deve ter odiado os romanos e a esse delinquente cuja cruz foi obrigado a levar. Mas podemos especular legitimamente a respeito do que lhe aconteceu. Talvez sua intenção
fosse, ao chegar ao Gólgota, lançar a cruz no chão e afastar-se o mais depressa que pudesse do lugar. E pode ser que não o fizesse; que algo em Jesus o fascinasse. Ele é descrito como o pai de Alexandre e de
Rufo. Agora, esta descrição deve ter tido o propósito de identificá-lo. Supor-se-ia que as pessoas para quem foi escrito o Evangelho o reconheceriam por esta descrição. É muito provável que o Evangelho de
Marcos fosse escrito primeiro para a Igreja de Roma. Voltemos agora para a
Carta de Paulo aos Romanos e leiamos 16:13: “Saudai a Rufo, eleito no Senhor, e a sua mãe e minha.” Rufo era um cristão tão escolhido que era eleito no Senhor. A mãe de Rufo era tão querida para Paulo que pôde chamá-la sua
mãe. Algo deve ter acontecido a Simão no Gólgota. Vejamos agora Atos 13:1. Ali há uma lista dos homens de Antioquia que despacharam Paulo e Barnabé em sua memorável primeira missão aos
gentios. Um deles é Simão, que se chamava Níger. Níger era o nome comum para um homem de pele bronzeada procedente da África. E Cirene está na África. Bem pode ser que nos encontremos diante do próprio Simão. Talvez sua experiência no caminho ao Gólgota inclinou para sempre seu coração para
Jesus, fazendo dele um cristão. Posteriormente teria sido um dirigente da Igreja de Antioquia e um dos instrumentos da primeira missão aos gentios. Talvez a primeira missão aos gentios teve lugar porque Simão foi obrigado a carregar a cruz de Jesus. E isto significa que talvez nós somos cristãos porque um
dia um peregrino pascal de Cirene, para seu profundo desgosto, foi recrutado por algum ignorado oficial romano para levar a cruz de Cristo. Ofereceram a Jesus vinho com alguma droga, mas Ele rechaçou.
Havia em Jerusalém um grupo de mulheres piedosas e misericordiosas que iam a cada crucificação e davam às vítimas vinho misturado com drogas para aliviar suas terríveis dores. Ofereceram vinho a Jesus,
e Ele rechaçou. Quando o Dr. Johnson estava doente em que seria sua última enfermidade, pediu a seu médico que lhe dissesse francamente se se recuperaria. O médico lhe disse que somente por um milagre poderia curar-
se. "Então", disse Johnson, "não tomarei mais remédios, nem sequer narcóticos, porque orei por que possa entregar minha alma a Deus bem acordada". Jesus estava resolvido a provar toda a amargura da morte e ir a Deus com os olhos abertos. Os soldados lançaram sortes sobre as roupas de Jesus. Vimos que o réu partia ao lugar da execução entre quatro soldados. Estes soldados tinham direito às roupas do criminoso. Agora, um judeu usava cinco objetos de vestir: a túnica interior, a túnica exterior, as sandálias, a faixa e o turbante. Uma vez apontadas as quatro coisas menos importantes, restava a grande túnica exterior. Teria sido inútil cortá-la, de modo que os soldados a lançaram aos pés da cruz. Jesus foi crucificado entre dois ladrões. Foi um símbolo de toda sua vida durante a qual, até o fim, esteve acompanhado de pecadores.

O AMOR ILIMITADO
Marcos 15:29-32

Os dirigentes judeus lançaram uma última provocação a Jesus. "Desce da cruz", diziam-lhe, "e creremos em ti." "Porque Jesus não desceu da cruz cremos nele", disse faz tempo o General Booth. A morte de Jesus era absolutamente necessária. A grande razão de sua necessidade era esta. Jesus veio para falar com os homens do amor de Deus. Mais ainda, Ele próprio era o amor de Deus encarnado. E se tivesse rechaçado a cruz, se no final tivesse descido da cruz, teria significado que o amor de Deus tinha um limite, que havia algo que o amor de Deus não estava disposto a sofrer pelos homens, que havia uma linha além da qual o amor de Deus não podia ir. Mas como Jesus percorreu todo o caminho e morreu na cruz, isto significa que o amor de Deus literalmente não tem limites, que em todo o universo não há
nada pela qual o amor de Deus não esteja disposto a sofrer pelos homens, que não há nada, nem mesmo a morte em uma cruz, que o amor de Deus se recuse a suportar pelos homens. Quando olhamos à cruz, Jesus nos diz: "Assim vos ama Deus, com um amor ilimitado, um amor que suportará por vós qualquer sofrimento que a Terra tenha para oferecer." Se tivesse descido da cruz não poderíamos crer neste amor, mas porque se negou a descer, cremos e nossas almas repousam no amor ilimitado de Deus.

TRAGÉDIA E TRIUNFO
Marcos 15:33-41

Vem então a última cena, uma cena tão terrível que o céu se obscureceu estranhamente de modo que pareceu que a própria natureza não pudesse suportar a visão do que estava ocorrendo. Notemos os diversos personagens da cena.

(1) Ali estava Jesus. Ele disse duas coisas:

 (a) Lançou o terrível grito: “Deus meu, Deus meu, por que me
desamparaste?” Por trás deste grito há um mistério que não podemos penetrar. Ensaiemos uma explicação. Jesus tinha tomado sobre si esta nossa vida. Tinha feito nossa obra e enfrentado nossas tentações e suportado nossas provas. Tinha sofrido tudo o que essa vida podia lhe trazer. Tinha conhecido o fracasso dos amigos, o ódio dos adversários, a malícia dos inimigos. Tinha conhecido a dor mais dilaceradora que a vida pode oferecer. Até este momento tinha passado por todas as experiências da vida, menos uma: não tinha conhecido as conseqüências do pecado. Agora, se algo o pecado faz, é
nos separar de Deus. Põe entre nós e Deus uma barreira como uma muralha impossível de escalar. Essa era a única experiência humana pela qual Jesus nunca tinha passado porque era sem pecado. Pode ser
que neste momento se abatesse sobre Ele essa experiência. Não porque Ele tivesse pecado, mas sim porque antes que pudesse identificar-se completamente com nossa humanidade tinha que passar por
ela. Nesse momento terrível, horrendo, Jesus se identificou real e verdadeiramente com o pecado do homem. Aqui temos o paradoxo divino: Jesus soube o que era ser pecador. Ninguém pode entender
uma experiência a não ser que passe por ela. E esta experiência deve ter sido duplamente agônica para Jesus, porque Ele não sabia o que era estar separado de Deus por essa barreira. Por isso é que nos entende tão bem. Por isso é que não temos que ter medo de ir a Ele quando o pecado nos separa de
Deus. Porque Ele passou por isso pode ajudar a outros que estejam passando pelo mesmo. Não há profundidade da experiência humana que Cristo não tenha compartilhado e sondado.

(b) Lançou "uma grande voz". Tanto Mateus (27:50) como Lucas (23:46) falam desta grande voz. João não a menciona, mas diz que Jesus morreu depois de dizer “Está consumado”. (João 19:30). Agora, no original isto seria uma só palavra. E essa única palavra foi a grande voz. "Terminado!" Jesus morreu com um grito de triunfo em seus lábios, cumprida sua tarefa, terminada sua obra, obtida sua vitória. Depois da terrível escuridão voltou a luz, e voltou para seu lar, a Deus, vitorioso.

(2) Ali estava o espectador que quis ver se viria Elias. Tinha uma sorte de curiosidade mórbida em face da cruz. A terrível cena não o movia ao assombro ou à reverência, nem sequer à piedade. Queria experimentar enquanto Jesus morria.

(3) Ali estava o centurião. O centurião era um duro soldado romano. Era o equivalente de um sargento maior de nossos dias. Tinha lutado em muitas campanhas e tinha visto morrer a muitos homens, mas nunca tinha visto morrer a ninguém como este homem, e estava seguro de que Jesus era o Filho de
Deus. Se Jesus só tivesse vivido e ensinado e curado poderia ter atraído a muitos, mas é a cruz a que fala diretamente ao coração dos homens.

(4) Ali estavam as mulheres à distância. Estavam confundidas, afligidas, sumidas em sua dor, mas estavam ali. Amavam-no tanto que não podiam abandoná-lo. O amor se agarra a Cristo mesmo que o intelecto não possa entender. Só o amor pode nos dar uma união com Cristo que nem mesmo as mais tremendas experiências podem romper.
Há outra coisa para notar. “O véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo”. Trata-se da cortina que encerrava o Lugar Santíssimo, no qual ninguém podia entrar. Simbolicamente isto nos diz duas coisas.

(a) O caminho de volta a Deus ficava agora aberto completamente. No Lugar Santíssimo só podia entrar o sumo sacerdote, e somente uma vez ao ano, no Dia da Expiação. Mas agora o véu estava rasgado, e o caminho para Deus ficava aberto a todos.

 (b) No Santíssimo morava a própria essência de Deus. Mas agora, com a morte de Jesus, o véu que ocultava a Deus se rompeu e os homens poderiam ver Deus face a face. Deus já não estava oculto. Os homens já não precisariam conjeturar e tatear. Poderiam olhar a Jesus e dizer: "Assim é Deus. Deus me ama dessa maneira".

JESUS ESCOLHE OS SEUS AMIGOS
Marcos 1:16-20

Assim que Jesus tomou sua decisão e determinou qual teria que ser seu método, começou a formar um grupo de colaboradores. Todo dirigente deve começar por alguma parte. Precisa rodear-se de um grupo de pessoas amigas em quem possa descarregar seu coração e em cujas mentes possa escrever sua mensagem. Assim, aqui Marcos mostra a Jesus literalmente lançando os alicerces de seu Reino e chamando a seus primeiros seguidores. Na Galiléia havia muitos pecadores. Josefo, que durante algum tempo foi governador da região, e que é o grande ou historiador judeu, diz-nos que durante sua estadia
ali, trezentos e trinta barcos de pesca sulcavam as águas do lago. O povo comum da Palestina muito raramente comia carne; em geral não podiam consumi-la mais de uma vez por semana. O peixe era seu alimento principal (Lucas 11:11; Mateus 7:10; Marcos 6:30-44; Lucas 24:42). O peixe em geral era comido salgado, porque não existiam os meios para transportá-lo fresco. O peixe fresco era um dos pratos muito especiais que se comia nas grandes cidades como Roma. Os nomes das cidades que rodeavam o lago demonstram até que ponto era importante a indústria do peixe. Betsaida significa "a casa do pescador", Tariquea, outra das populações costeiras, significa "o lugar do pescado salgado, e era ali onde se preparava o peixe para seu envio a Jerusalém e até para a mesma Roma. A indústria do pescado salgado era muito importante na Galiléia. Os pescadores usavam dois tipos de redes. Nos
evangelhos são mencionadas ou implicadas ambas. Usavam a rede denominada sagené.
Esta era uma espécie de rede de pescaria ou rede varredora. Jogavam-na ao mar pela popa do navio, e estava dotada de contrapesos colocados de tal modo que, uma vez arrojada, ficava em posição vertical debaixo da água. O navio avançava e, então, atraíam-se as quatro pontas da rede que, deste modo, formava uma espere de bolsa que se arrastava e na qual eram apanhados os peixes. A outra rede, a que estavam usando Pedro e André, chamava-se anfiblestron. Era muito menor. Era habilmente lançada à
água com a mão. Tinha a forma de uma sombrinha ou "meio mundo". Ao arrastá-la pela água encerrava os peixes. Naturalmente é de grande interesse estudar aos homens que Jesus escolheu como seus primeiros seguidores.

(1) Devemos notar o que eram. Eram pessoas muito simples. Não provinham das escolas ou das universidades; não foram tirados dentre os eclesiásticos ou a aristocracia; não eram homens instruídos, nem possuíam riquezas. Eram pescadores. Quer dizer, eram pessoas do povo comum. Ninguém creu
como Jesus no homem comum. ... Lincoln disse: "Deus deve amar as pessoas comuns. Ele fez tanto!" Pareceria que Jesus tivesse dito: "Deem-me doze homens comuns que se entreguem a Mim e com eles mudarei o mundo." Ninguém deve pensar tanto no que é, e sim no que Jesus pode fazer dele. Tampouco deve pensar-se no que alguém opina de outros, e sim no que Jesus vê neles.
(2) Devemos notar o que estavam fazendo quando Jesus os chamou. Estavam realizando seu trabalho habitual. Quando Ele os abordou, pescavam e remendavam suas redes. Assim tinha acontecido com mais de um profeta. “Eu não sou profeta, nem discípulo de profeta, mas boieiro e colhedor de sicômoros. Mas o SENHOR me tirou de após o gado e o SENHOR me disse: Vai e profetiza ao meu povo de Israel” (Amós 7:14-15). Um homem pode receber o chamado de Deus não somente na casa de Deus, não somente quando está orando, e sim em meio de seu trabalho cotidiano. O homem que vive em um mundo que está cheio de Deus não pode escapar de Deus.

(3) Devemos notar como os chamou. O chamado de Jesus foi "Sigam-me". Não deve pensar-se que esse era o primeiro dia que aqueles pescadores viam o Jesus. Sem dúvida tinham formado parte da multidão que ouvia sua pregação. Sem dúvida teriam ficado falando longamente com Ele depois de dispersa a multidão. Sem dúvida já tinham experimentado a magia de sua presença e o magnetismo de seu olhar.
Mas Jesus não lhes disse: "Tenho um sistema teológico que eu gostaria que vocês investigassem; tenho algumas teorias que gostaria que conhecessem; desenvolvi um sistema de ética que queria discutir com vocês." Disse-lhes: "Sigam-me." Tudo começou com a reação pessoal dos pescadores diante de Jesus; tudo começou com esse puxão no coração com que nasce uma lealdade incomovível. Isso não quer dizer que não haja quem entre no cristianismo por via das ideias; significa que para a maioria de nós seguir a
Cristo é como apaixonar-se. Alguém disse que "as pessoas se maravilham por diversas razões, no entanto pode-se amá-las sem razão nenhuma." A coisa se produz simplesmente porque eles são eles e nós somos nós. "E eu", disse Jesus, "quando for levantado da terra atrairei a todos a mim mesmo" (João
12:32). Na grande maioria dos casos quem segue ao Jesus foram atraídos para Ele não por seus conceitos, mas sim pelo que Ele é.

(4) Por último, devemos notar o que Jesus lhes ofereceu. Ofereceu-lhes uma tarefa. Não os convocou ao ócio e ao descanso, e sim ao serviço. Tem-se dito que o que todo homem precisa é de "algo no que possa investir sua vida". De maneira que Jesus convocou àqueles homens não a uma comodidade sem
sobressaltos nem a uma letárgica inatividade, a não ser a uma tarefa na qual teriam que queimar-se e gastar-se, e, finalmente, morrer, pelo Jesus Cristo e por seus semelhantes. Chamou-os uma tarefa na qual só poderiam conseguir algo para si mesmos entregando-se integralmente a Ele e aos demais.

A MISSÃO DA IGREJA
Marcos 16:9-20

Como vimos na Introdução, o Evangelho de Marcos realmente termina no versículo 8. Basta ler esta passagem para ver quão diferente é do resto dos Evangelhos, e não é encontrada em nenhum dos manuscritos importantes. É um resumo posterior que substitui o final que Marcos não viveu para escrever, ou que em algum momento se perdeu. O grande interesse desta passagem reside na descrição que nos dá do dever da Igreja. Evidentemente, o homem que escreveu esta seção final acreditava que a Igreja tinha certas tarefas que Jesus lhe tinha encarregado.

(1) A Igreja tem a tarefa de pregar. É dever da Igreja, e isto quer dizer de cada cristão, contar a história das boas novas de Jesus àqueles que nunca a ouviram. O dever do cristão é ser arauto de Jesus Cristo.

(2) A Igreja tem uma tarefa curadora. Vimos este fato uma e outra vez. O cristianismo tem que ver com o corpo dos homens tanto como com sua mente. Jesus quis trazer saúde ao corpo e à alma.

(3) A Igreja era uma Igreja de poder. Não precisamos tomar tudo literalmente. Não precisamos acreditar que o cristão tem que ter literalmente o poder de levantar víboras venenosas e beber líquidos venenosos sem correr perigo. Mas no fundo desta linguagem pitoresca está a convicção de que o cristão está
imbuído de um poder para enfrentar a vida e lidar com ela que outros não têm nem podem ter.

(4) A Igreja nunca seria deixada sozinha para trabalhar na realização de sua obra. Cristo sempre opera com ela e nela e por meio dela. O Senhor da Igreja está ainda nela e é ainda o Senhor de poder.
E assim termina o Evangelho com a mensagem de que a vida cristã é a vida vivida na presença e no poder daquele que foi crucificado e ressuscitou.

Bibliografia:
O NOVO TESTAMENTO Comentado por William Barclay
WILLIAM BARCLAY Título original em inglês: The Gospel of Mark

                                    
TEXTO 2
A GLÓRIA DA PROMESSA FINAL
Mateus 28:16-20

Aqui chegamos ao final do relato evangélico, e ouvimos as últimas palavras de Jesus a seus homens. E neste último encontro Jesus fez três coisas.

(1) Deu-lhes certeza sobre seu poder. Não há dúvida de que não havia nada que estivesse fora do poder de alguém que tinha morrido e que tinha conquistado a morte. Agora eram servos de um Senhor cuja autoridade sobre a Terra e o céu estava além de toda dúvida.


(2) Deu-lhes uma comissão. Enviou-os a converter a todo mundo em seus discípulos. Pode ser que a ordem de batizar seja um desenvolvimento posterior das palavras que Jesus pronunciou. Pode-se discutir esse ponto; o fato concreto é que a ordem de Jesus é ganhar a todos os homens para Ele.

(3) Prometeu-lhes uma presença. Deve ter sido assombroso para onze homens da Galiléia o serem enviados a conquistar o mundo. Inclusive enquanto O ouviam seus corações devem ter duvidado. Mas tão logo foi dada a ordem se pronunciou a promessa. Enviou-os, como a nós, a cumprir a maior tarefa do mundo, mas os acompanhava a maior presença do mundo.

Bibliografia:
O NOVO TESTAMENTO Comentado por William Barclay
WILLIAM BARCLAY Título original em inglês: The Gospel of Matthew

TEXTO 3

HUMILHAÇÃO E EXALTAÇÃO
Filipenses 2:5-11

Lembremos sempre que quando Paulo pensava e falava de Jesus seu interesse, intenção e propósito não eram em primeiro termo intelectuais e especulativos, mas sim eram sempre práticos. Em Paulo sempre se unem teologia e ação. Para ele, todo sistema de pensamento deve
necessariamente converter-se num caminho de vida. Em muitos aspectos é um dos que têm maior alcance teológico do Novo Testamento, mas toda sua intenção está em persuadir e impulsionar os filipenses a viver uma vida livre
de desunião, desarmonia e ambição pessoal. Paulo diz, pois, que Jesus se humilhou, fez-se obediente até a morte, até o extremo de uma morte na cruz. As grandes características da vida de Jesus foram humildade, obediência e renúncia de si mesmo. Não desejou dominar o homem, mas sim apenas servi-
lo. Não desejou seu próprio caminho, mas sim o de Deus. Não desejou sua própria exaltação, mas sim a renúncia a toda glória pelo bem do homem. O Novo Testamento assegura várias vezes que só aquele
que se humilha será exaltado (Mateus 23:12: Lucas 14:11; 18:14). Se a humildade, a obediência e a renúncia de si são as características supremas da vida de Jesus Cristo, também devem ser os sinais de autenticidade do cristão, porque este deve ser como seu Senhor. Tanto a grandeza cristã como a
unidade cristã dependem da renúncia de si mesmo; destroem-se pela própria exaltação. O egoísmo, a busca e a exibição de si destroem a semelhança com Cristo e nossa comunhão uns com outros.
Mas a renúncia que Jesus Cristo fez de si foi o meio para a glória maior. Por isso se constituiu no objeto do maravilhado culto de todo o universo. Isto significa que algum dia, mais cedo ou mais tarde, toda criatura do universo — nos céus, na Terra e até nos infernos — lhe renderá culto. Mas advirtamos a
origem deste culto: o amor. Jesus ganhou os corações dos homens não se exaltando diante deles com seu poder, mas sim lhes mostrando amor, sacrificando-se e negando-se a si mesmo por eles. Isto comove
o coração humano. À vista de alguém que deixa a glória pelos homens e os ama até o extremo de morrer na cruz por eles, o coração do homem se enternece e se quebra toda resistência. Quando os homens rendem culto a Jesus não se jogam a seus pés com uma esmagadora submissão, mas com um amor maravilhado. A pessoa não diz: "Não posso resistir a um poder como este", mas sim: "Um amor tão assombroso e tão divino exige toda minha alma e todo meu ser". Não diz: "Fui reduzido e submetido", mas sim: "Estou abismado no assombro, no amor e no louvor." Não é o poder de Cristo que reduz ao homem e o submete; é o amor maravilhoso de Cristo que faz com que o homem se ajoelhe com um amor maravilhado. A adoração se baseia não no temor, mas no amor. Paulo diz ademais que, como consequência do amor sacrificial e da abnegação de Jesus, Deus lhe deu um nome que está acima de
todo nome. É comum na Bíblia dar um nome novo para marcar um estágio novo e determinado na vida do homem. Abrão se converteu em Abraão quando recebeu a promessa de Deus (Gênesis 17:5). Jacó se converteu em Israel quando Deus entrou em nova relação com ele (Gênesis 32:28). A promessa de Cristo ressuscitado tanto a Pérgamo como a Filadélfia tem por objeto um nome novo (Apocalipse 2:17; 2:2). O novo nome é o signo de uma nova situação. Qual foi então o novo nome que Cristo recebeu? Não podemos determinar com absoluta segurança o pensamento de Paulo, mas o mais provável é que foi
Senhor. O grande título pelo qual Jesus chegou a ser conhecido na Igreja primitiva foi Kyrios. Jesus se fez especificamente o Senhor Jesus.
A palavra Kyrios tem uma história luminosa.

(1) Começou significando senhor ou proprietário. Foi sempre um título de respeito.

(2) Chegou a ser o título oficial dos imperadores romanos; o imperador romano era Kyrios em grego e Dominus em latim, ou seja, Senhor e Dono.

(3) Chegou a ser o título dos deuses pagãos; cada um dos deuses tinha o título de kyrios – senhor – como prefixo do nome próprio.

(4) Kyrios era o termo grego que traduzia a Jeová na versão grega das Escrituras. Desta maneira, quando Jesus era chamado Kyrios, Senhor, significava que era o Senhor e o Dono de toda vida, o Rei dos reis e
Senhor de imperadores; o Senhor de uma maneira em que os deuses pagãos e os ídolos mudos jamais podiam sê-lo. Era nada menos que divino. O novo nome de Jesus com Aquele que todo o universo o chamará um dia é Senhor.
Bibliografia:

O NOVO TESTAMENTO Comentado por William Barclay
WILLIAM BARCLAY Título original em inglês: The Letter to the Philippians


4. Jesus, o poder romano e o poder judeu

                                               “Meus inimigos estão no poder”


A morte de Jesus teve objetiva consciência, tanto do poder romano como das autoridades judias. Jesus deslegitimou ambos, em especial com o silêncio. Primeiramente no Sinédrio: “Levantando-se então o sumo sacerdote no meio deles, interrogou a Jesus dizendo: ‘Nada respondes? O que testemunham estes contra ti?’ Ele porém ficou calado e nada respondeu” (Mc 14.60-61). Depois, ante Pilatos: Logo de manhã, os sumos sacerdotes fizeram um conselho com os anciãos e os escribas e todo o Sinédrio. E, amarrando a Jesus, levaram-no e entregaram-no a Pilatos. Pilatos o interrogou: “És tu o rei dos judeus?” Respondendo ele disse: “Tu o dizes”. E os sumos sacerdotes acusavam-no de muitas coisas. Pilatos o interrogou de novo: “Nada respondes? Vê de quanto te acusam!” Jesus, porém, já nada mais respondeu, de sorte que Pilatos ficou impressionado (Mc 15.1-5). O silêncio é expressão política e teológica de relevância. Jesus falou aos pobres e calou-se diante dos poderosos. Com isso, revela-se a atitude e a missão preferencial que marcou o ministério de Jesus. O silêncio, quando não por conveniência própria, indica especial mística, um “para além de”, despojamento absoluto e confiança no Pai. O silêncio é sinal de libertação. As autoridades judias entregaram a responsabilidade pela morte de Jesus aos romanos. Tal atitude evidenciou definitivamente a intrínseca relação entre a esfera religiosa e a esfera política presente na missão de Jesus. Quem, afinal, matou Jesus? É necessário destacar que não foram os judeus que assassinaram Jesus, como por vezes aparece no senso comum. Essa visão representa um forte antissemitismo. Foram as autoridades judias, em especial os saduceus, em aliança com Pôncio Pilatos e demais autoridades do Império Romano que desenvolveram o processo que culminou na cruz .Jesus morreu por fidelidade às tradições libertadoras do êxodo e da aliança dos profetas, expressões do reino de Deus que pregou. O conflito com o centro foi inevitável, uma vez que as autoridades judias traíram as próprias tradições e bases teológicas, e as romanas possuíam perspectiva de poder oposta às propostas e práticas de Jesus25. Histórica e pastoralmente, estes relatos, não obstante a ressurreição, conferem medo, como tiveram aquelas que fugiram do túmulo, assustadas (Mc 16.6). Todavia, os consensos exegéticos indicam ser uma história inconclusa… Sinal, portanto, de que o ponto final está por vir, que fidelidade e esperança se conjugam e que a realidade presente requer vigilância e novidade permanente.

V – Uma tentativa de atualização
“O tempo não para; não para”, diz outra canção. É no movimento deste tempo que a experiência evangélica inicial chega aos dias de hoje, com interpelações e apelos dos mais diversos. O mesmo se pode dizer das respostas (ou a ausência delas) por parte dos cristãos. Pensar o Evangelho de Marcos no contexto latino-americano da atualidade é tarefa que requer posturas bastante semelhantes à da comunidade marcana, não obstante quase dois milênios no tempo. A pergunta “quem é Jesus?” igualmente se impõe, em especial pelo florescimento da diversidade religiosa e filosófica no final deste milênio. Se as análises estiverem corretas ao indicarem que a vivência da fé cristã, nas diferentes Igrejas e comunidades, distancia-se progressivamente de um núcleo teológico básico e adquirem perfis em sintonia com as transformações sociais (despersonificação, massificação e relativização da vivência comunitária), o Evangelho de Marcos ganha relevo, uma vez que indica a resposta de quem Jesus é a partir do discipulado e do seguimento a ele. Por quê?

Conflito x harmonia

A nova religiosidade emergente inclui uma articulação de elementos místicos e filosóficos de várias procedências: das expressões espiritualistas e mágicas que se configuram em torno da chamada Nova Era, da multiplicação dos grupos orientalistas, do fortalecimento institucional dos movimentos de renovação carismática e similares, e do crescimento do setor das Igrejas evangélicas, em especial o do pentecostalismo. Este amálgama, expresso em formas diferenciadas, está em conexão com a lógica da eficiência, do individualismo, da harmonia e do triunfalismo engendrados pela globalização econômica e das comunicações e pelas políticas neoliberais vigentes. Há uma excessiva confiança na técnica (humana) e pouco apreço (quando não contraposição) pela prática da solidariedade e pelas vivências de caráter mais gratuito e de despojamento. Enfatizar o caminho concreto de seguimento a Jesus, acentuando o conflito como chave de leitura, significa, por um lado, andar na “contramão” da atualidade (pois a chave da mentalidade vigente é a harmonia) e, por outro, corrigir, com a perspectiva de Paixão, sofrimento e instabilidade, a mentalidade triunfalista do êxito religioso, majoritariamente difundida no contexto atual.

Fé x religião

Outra interpelação do Evangelho de Marcos é de natureza intraeclesial. Jesus confrontou as autoridades religiosas pela centralização do poder, pela cristalização das doutrinas, pela dogmatização e absolutização das idéias teológicas (a Lei) e pela supremacia da dimensão institucional em detrimento da vida humana. O campo das Igrejas (para situar apenas a dimensão eclesial e não a religiosa como um todo) está repleto de manifestações do seguimento e de compreensão do Evangelho, nos moldes pastorais indicados em Marcos. São milhares de comunidades – evangélicas e católicas – em todo o continente, onde partilha, solidariedade e comunhão marcam a vida eclesial – por sua vez, não isenta de conflitos. Todavia, de forma crescente, há forte dispersão desta vivência. A explicação de caráter interno à vida das Igrejas (outras formas de análises são possíveis e complementares) encontra-se, sobretudo, nos enrijecimentos institucionais das estruturas eclesiásticas, tanto católica como protestantes. Os primeiros têm alcançado até mesmo debates mais populares, nas comunidades e na mídia. Até a irreverência de grupos de rock sabem que o papa, além de pop, “não poupa ninguém” (Engenheiros do Havaí). No campo protestante, os processos repressivos (autoritários ou totalitários) são volumosos e têm sido objeto de estudos e de reação popular. Ambos geram movimentos críticos e de renovação institucional. O Evangelho de Marcos propõe um novo saber e uma nova prática que emerge da comunidade. De fato, ele indica uma nova comunidade, na qual as relações são constituídas de fraternidade e de serviço. Esse é um dos grandes desafios para as igrejas ante a realidade institucional em que estão mergulhadas nesta virada de milênio.

Reino de Deus x dominação

Uma terceira contribuição do Evangelho de Marcos situa-se no confronto entre reino de Deus e poder político-econômico. Não obstante os avanços tecnológicos, o clima de barbárie fruto das políticas implementadas pela maioria dos poderes constituídos no continente é constrangedor para a ótica cristã. Ressalta-se a situação do uso e da distribuição da terra, a desvalorização da força de trabalho em função da automação, a violência e a degradação da vida nas grandes cidades e a formação de uma massa considerável da população excluída do sistema econômico e passível de ser eliminada pela morte. A prática do Evangelho, ao contrário, é a da solidariedade e da justiça. Os relatos de Marcos confirmam, com as ações de Jesus, esta perspectiva. Ainda que existam formas exacerbadamente ideologizadas de enfatizar o martírio e a inserção política dos cristãos na América Latina – e vários setores têm feito esta autocrítica –, o fato é que perspectivas pastorais de caráter mais fortemente eclesial (como afetividade, devocionalidade, organização interna) não podem ocultar a necessidade de confronto com toda e qualquer política iníqua, que não produza justiça e dignidade humana. O Evangelho de Marcos revela, em sua época, as consequências da radicalidade de Jesus ante as injustiças sociais. Este é, portanto, um parâmetro substancial para a prática dos cristãos.
Sentido x caos Por fim, está a grande contribuição do Evangelho de Marcos em oferecer sentido e esperança em meio aos conflitos e às possibilidades de sofrimento e ausência de êxito. Na atualidade, todos os grupos que direta ou indiretamente tinham como referência as experiências e as utopias socialistas chegaram, pelos menos, a duas constatações: a primeira trata da ausência de um projeto global alternativo ao neoliberalismo; e a segunda refere-se ao conjunto de perplexidades em diferentes campos do conhecimento – o que inclui a teologia e a pastoral – que, usualmente, passou a ser denominado “crise dos paradigmas”. Na voz da canção inicialmente referida: “meu coração é mais um coração partido. Minhas ilusões estão todas perdidas”. Daí o kairós, o tempo oportuno para novas referências e novas esperanças. O Evangelho de Marcos mostra esta possibilidade, indica o caminho (“o seguimento de Jesus no prosseguimento de sua causa”) e cria nos discípulos, de ontem e de hoje, a ânsia de sentido. De fato, “eu quero uma pra viver”, como expressa a mesma canção.

                                                                “Meus inimigos estão no poder”
                                                                 Claudio de Oliveira Ribeiro

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