quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

LIÇÃO 3 : Mateus, o Evangelho da Igreja




Mateus, o Evangelho da Igreja

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Lições Bíblicas nº 57

TEXTO BÍBLICO BÁSICO

Mateus 16.13-19
13 - E, chegando Jesus às partes de Cesareia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?
14 - E eles disseram: Uns, João Batista; outros, Elias, e outros, Jeremias ou um dos profetas.
15 - Disse-lhes ele: E vós, quem dizeis que eu sou?
16 - E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.
17 - E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue quem to revelou, mas meu Pai, que está nos céus.
18 - Pois também eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
19 - E eu te darei as chaves do Reino dos céus, e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.

TEXTO ÁUREO
"Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céus." Mt 18.18

ORIENTAÇÕES PEDAGÓGICAS
Caro professor, no início de Seu ministério, Jesus dedicou-se a anunciar o Reino; entretanto, de modo surpreendente, introduziu um novo conceito para designar aqueles que viriam a se reunir em torno do Seu nome, reconhecendo-o como Senhor.
O conceito admirável, cuja compreensão expandiu-se em Paulo, não é outro senão este: Igreja!
Pode-se dizer, com certa propriedade, que, dentre os Evangelhos, Mateus é o mais eclesiástico, pois é o único a mencionar a palavra ekklesia. Nesta preciosa lição, a partir da narrativa de Mateus, discorreremos sobre os princípios e verdades relacionados à assembleia dos salvos.
Nos dias atuais, vive-se grande isolamento social, motivado pelo absurdo desenvolvimento tecnológico. Sendo a comunhão uma das marcas do cristianismo, peça aos alunos para cumprimentarem-se mutuamente por alguns instantes. Reforce para a classe que um dos papéis da Igreja neste mundo, cada vez mais individualista, é promover momentos de interação e comunhão entre os irmãos da fé.
Tenha uma boa e abençoada aula!

Palavra introdutória
O primeiro Evangelho é o único, dentre os quatro, em que encontramos a palavra igreja merece destaque o fato de o termo ter sido utilizado por Jesus nas três ocorrências [Mt 16.18 (uma vez); Mt 18.17 (duas vezes)]. Por esta razão, Mateus é considerado o Evangelho da Igreja.
A palavra igreja tem origem no grego [ekklesia (ek = fora) + (kaleo = chamar ou convocar)]; deste modo, o vocábulo significa, basicamente, os chamados para fora, remetendo à ideia de um grupo distinto, tirado para fora de algo.
A menos que Jesus tenha falado grego nos textos destacados anteriormente — uma possibilidade quase remota —, é provável que ekklesia seja uma tradução da palavra hebraica qahal, que significa assembleia. Independente de quaisquer elucubrações, o fato de a definição ter partido de Jesus é algo extraordinário, pois o Mestre, naquela ocasião, estava designando o grupo formado por Seus discípulos e por aqueles que viriam a crer em Seu nome.
Mesmo que seja utilizado para fazer referência à comunidade dos fiéis, o termo igreja possui diversos significados, dependendo do contexto. No Novo Testamento, em cerca de 90% dos casos, foi usado para indicar uma congregação local (At 11.22; 20.17). Entretanto, em Mateus 16.18, Jesus não estava
instituindo uma reunião ordinária com Seus discípulos, isto é, Ele não tinha em mente uma igreja estabelecida em uma localidade, mas a Igreja universal, composta por todos aqueles que receberam o Senhor, em todos os tempos e lugares, tanto judeus quanto gentios (Gl 3.26-29).
Nesta lição, veremos que a Igreja é uma estrutura espiritual, cujo centro é Cristo; e seu propósito primordial é manifestar Sua obra salvadora e transformadora na vida do ser humano.

1. A ORIGEM DA IGREJA
Mateus relata a ocasião em que Jesus interroga Seus discípulos acerca do que as pessoas (e eles próprios) pensavam a Seu respeito (Mt 16.13-15). O evangelista dá-nos ciência de que alguns do povo pensavam tratar-se de João Batista, Elias, Jeremias ou algum dos profetas (Mt 16.14). Simão Pedro, no entanto, declarou proativamente: Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo (Mt 16.16)! A profunda e inspirada confissão de Pedro enaltece a pessoa de Jesus Cristo, pois destaca Sua divindade (Filho de Deus; conf. Jo 1.14).
Após dizer que Pedro era bem-aventurado, Jesus fez, pela primeira vez, a seguinte revelação: [...] sobre esta pedra edificarei a minha igreja (Mt 16.17,18)! Com essa declaração profética fica claro que a Igreja originou-se em Cristo.
A Igreja não surgiu por uma imposição do Império Romano, nem mesmo pela influência da filosofia grega; tampouco emergiu como produto da religiosidade farisaica. A Igreja originou-se na pessoa de Jesus Cristo, transcendendo ideologias ou organizações. A Igreja não é um acidente histórico; muito ao contrário, ela está colocada no centro dos propósitos eternos do Altíssimo.

1.1. Jesus é o fundador da Igreja
Existe uma doutrina falaciosa de que a Igreja teria por fundamento Pedro, devido à declaração que Jesus fez ao apóstolo: [...] eu te digo que tu és Pedro (gr. petros = fragmento de rocha) e sobre esta pedra (gr. petra = uma grande rocha) edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão
contra ela (Mt 16.18).
Vejamos, no entanto, a fragilidade dessa inverdade.
Pedro não poderia ser a pedra de fundamento da Igreja, pois os textos bíblicos revelam a instabilidade de sua personalidade.
No versículo 23 do mesmo capítulo de Mateus (16), o apóstolo é agudamente repreendido por Jesus, por não aceitar a ideia de Seu sofrimento. Disse-lhe o Mestre, naquela ocasião: Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo.
O apóstolo Paulo criticou a conduta de Pedro, anos depois, devido ao seu comportamento entre judeus e gentios (Gl 2.11-16).
O próprio Pedro afirma que Jesus é a pedra viva, eleita e preciosa (1 Pe 2.4-8).
A igreja jamais poderia ser edificada sobre petros, um fragmento de rocha inconstante, Ela está firmada sobre a petra, a rocha irremovível e inabalável. Não podemos ter dúvidas acerca disso.

1.2. A Igreja pertence a Cristo
Além de ser a origem e o fundamento da Igreja, Jesus é, também, o Seu possuidor. Em momento algum da História, seu domínio foi passado a outrem; o Emanuel foi, é e sempre será o dono da Igreja.
[...] Edificarei a minha igreja [...]. Jesus disse “minha”, pois Ele a comprou por alto preço: Seu precioso e inocente sangue, vertido na cruz do Calvário (At 20.28; 1 Pe 1.18,19).
A Igreja é propriedade exclusiva do Senhor (Tt 2.14).

2. A AUTORIDADE DA IGREJA
Em Mateus 23.13, escribas e fariseus foram repreendidos por Jesus, pelo fato de fecharem aos homens o Reino dos céus. Por Sua soberania inconteste, entretanto, aprouve a Cristo entregar as chaves do Reino à Igreja, delegando-lhe poder: [...] tudo o que ligardes na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligardes na terra será desligado nos céus (Mt 16.19) — em Mateus 18.18, Jesus outorga a mesma autoridade aos demais discípulos. Esta realidade certifica-nos de que as chaves de autoridade não foram deixadas nas mãos de Pedro, unicamente.
Nessas duas passagens de Mateus (Mt 16.19; 18.18), Jesus destaca a autoridade da Igreja; porém, é preciso entender que essa autoridade — de ligar e desligar nos céus — precisa estar em consonância com Sua vontade eterna e soberana (conf. 1 Jo 5.14).
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Em Mateus 16.19, as chaves
simbolizam a autoridade
que Cristo concede
à Igreja de abrir as portas
do Reino dos céus aos
homens. Metaforicamente,
pode-se dizer que as
chaves são o Evangelho,
não os acréscimos humanos
à Lei divina, propostos
pelos legalistas religiosos
fariseus.
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2.1. A Igreja é o Corpo de Cristo
O texto de Mateus 18.1-22 revela-nos que a autoridade da Igreja, como Corpo de Cristo, não se restringe somente a poder afastar membros; antes, abrange a graça de restaurar os caídos, oferecendo-lhes chances de arrependimento; para isso, deve-se lançar mão de todos os meios de reparação possíveis, até que se esgotem todas as possibilidades.
Mateus registrou as instruções de Jesus relacionadas aos membros que se desconectam do Corpo (Mt 18.10-20). Nesse contexto, inclui-se a parábola da ovelha perdida (Mt 18.10-14) e destaca-se a maneira de a Igreja responder ao pecado de um irmão — se o seu irmão pecar contra você [...] (Mt 18.15-20).
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É-nos dito, com toda a
clareza, que, no corpo, se
um membro sofre, todos
sofrem com ele (1 Co 12.26
ARA); portanto, não nos
esqueçamos jamais disto:
Cristo reúne o Seu povo
(Jo 11.52; Mt 18.11-14)
em um só corpo — o Seu
próprio corpo (Ef 1.23; 1 Co
12.12,13) — para que um
membro ampare e sustente
o outro.
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2.2. A Igreja é a representante de Cristo
Mateus deixa claro o propósito da Igreja: representar Cristo na terra — e nada retrata melhor o nosso Salvador do que as obras praticadas pelos membros de Seu Corpo. Duas ordenações explícitas de Jesus à Igreja evidenciam esta realidade.
Observe.
A Ceia do Senhor (Mt 26.26-30) — Seus elementos, o pão e o vinho, simbolizam, respectivamente, o corpo e o sangue de Cristo oferecidos em resgate da humanidade (1 Co 11.24,25). Há dois propósitos centrais nesta ordenança:
Memorial: levar-nos a recordar o sacrifico vicário de Cristo Jesus;
Anunciação profética: alertar-nos quanto à iminente volta do Senhor para buscar a Sua Igreja (1 Co 11.26).
O batismo (Mt 28.18,19) Por meio do batismo, realizado em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, o novo convertido declara publicamente ter aceitado, de forma plena, pela fé, o sacrifício de Cristo na cruz. De igual modo, ele anuncia sua morte para o mundo e sua ressurreição espiritual, assumindo que andará em novidade de vida (Rm 6.4).

3. IGREJA MILITANTE, IGREJA TRIUNFANTE
Neste tópico, é importante deixar clara a diferença entre Igreja militante e Igreja triunfante.
A igreja militante é a que atua no tempo presente; ela é composta pelos salvos vivos espalhados pelas muitas denominações, sendo visível e imperfeita.
A igreja triunfante é composta pelos salvos, inclusive pelos que já morreram em Cristo — não importando a denominação, o espaço geográfico ou histórico —, sendo invisível e perfeita.
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O objetivo exclusivo da
igreja é a glória de Deus, no
estabelecimento completo
do Seu Reino, tanto no
coração dos crentes como
no mundo [Augustos H.
Strong, pastor e teólogo
batista estadunidense
(1836—1921)].
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3.1. Igreja militante
Jesus, em Mateus 16.18, referindo-se à Igreja, deixa claro que as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Com esta afirmação, o Salvador não nos apresenta uma Noiva tímida, atemorizada ou acuada; ao contrário, Ele apresenta-nos uma Igreja forte e destemida, capaz de arvorar-se vitoriosa diante de toda e qualquer circunstância — inclusive a morte.
A Igreja militante não foge à luta, assemelhando-se a um exército que está sob o comando do supremo General: Jesus.

3.2. Igreja triunfante
Parecia absurda a declaração de Jesus de que a Sua Igreja iria subsistir neste mundo (Mt 16.18), pois a nova instituição divina fora caluniada pelos religiosos judeus (Mt 28.11-15); desprezada pelos gregos (At 17.32); e perseguida pelos romanos — como fez Nero que, após incendiar Roma (64 d.C.), culpou e puniu nossos irmãos, submetendo-os as mais escabrosas penas de morte.
Sábios e poderosos tentaram destruir a Igreja de Cristo, ao longo de sua existência; no entanto, impérios ruíram e reinos caíram, enquanto a Igreja permanece firme até os dias de hoje. Precisamos, deste modo, estar em constante preparo para a vinda de nosso Senhor (Mt 24.37; 25.1-13), pois, muito em breve, toda a Igreja de Cristo estará reunida nos céus em eterno triunfo (Ap 3.12).

CONCLUSÃO
A primeira (Mt 16.18) e a última (Ap 22.16) menções à Igreja foram feitas por nosso Salvador; isto nos faz lembrar de que o Corpo de Cristo tem sido edificado, de maneira progressiva e incessante, desde a sua fundação; e assim será até o derradeiro dia.
A Igreja não deve ser vista como uma agregação de pessoas, mas, sim, como uma congregação de remidos por Cristo. Nas palavras de Thomas Adams, a igreja é a herdeira da cruz.
Deste modo, como agência de Deus no mundo, precisamos manter-nos firmes em nosso propósito: proclamar o evangelho da graça a toda criatura com ousadia; cultivar a fraternidade entre os irmãos; dar testemunho ao mundo em nome de Cristo; e anunciar os princípios do Reino de Deus — jamais devemos nos esquecer de que a Igreja está aberta a todos, mas não a tudo.
Resta-nos, pois, declarar com esperança e fé: Maranata!
Ora, vem, Senhor Jesus!

Fonte: Revista Lições da Palavra de Deus n° 57



                     A DA IGREJA MILITANTE E A IGREJA TRIUNFANTE
 Na presente dispensação, a igreja é militante, isto é, convocada para uma guerra santa, e de fato nela está emprenhada. Isto, naturalmente, não significa que ela deve gastar suas forças em lutas sangrentas de autodestruição, mas, sim, que tem o dever de levar avante uma incessante guerra contra o mundo hostil em todas as formas em que este se revele, seja na igreja ou fora dela, e contra todos os poderes espirituais das trevas. A igreja não pode passar o tempo todo em oração e meditação, embora estas práticas sejam tão necessárias e importantes, nem tampouco deve parar de agir, no pacífico gozo da sua herança espiritual. Ela tem que estar engajada com todas as suas forças nas pelejas do seu Senhor, combatendo numa guerra que é tanto ofensiva como defensiva. Se a igreja na terra é a igreja militante, no céu é a igreja triunfante. Lá a espada é permutada pelos louros da vitória, os brados de guerra se transformam em cânticos triunfais, e a cruz é substituída pela coroa. A luta é finda, a batalha está ganha, e os santos reinam com Cristo para todo o sempre. Nestes dois estágios da sua existência, a igreja reflete a humilhação e a exaltação do seu celestial Senhor. Os católicos romanos falam, não somente de uma igreja militante e triunfante, mas também de uma igrejapadecente. Esta igreja, de acordo com eles, inclui todos os crentes que já não estão na terra, mas que ainda não penetraram nos gozos do céu, e agora estão sendo purificados dos seus restantes pecados no purgatório.


(Berkhof, L – Teologia Sistemática Pg.564)

                 Capítulo X: A Igreja


Conhecendo as Doutrinas da Bíblia
Myer Pearlman


Jesus projetou, claramente, a existência duma sociedade de seus seguidores que daria aos homens seu Evangelho e ministraria à humanidade no seu Espírito, e que trabalharia pelo aumento do reino de Deus como ele o fez. Ele não modelou nenhuma organização e nenhum plano de governo para essa sociedade... Ele fez algo mais grandioso que lhe dar organização — ele lhe concedeu vida. Jesus formou essa sociedade de seus seguidores chamando-os a unirem-se a ele, comunicando-lhes, durante o tempo em que esteve no mundo, tanto quanto fosse possível, de sua própria vida, de seu Espírito e de seu propósito. Ele prometeu continuar até ao fim do mundo concedendo sua vida à sua sociedade, à sua igreja. Podemos dizer que seu dom à igreja foi ele mesmo. — Robert Hastings Nichols.

I. A natureza da Igreja

Que é a igreja? A questão pode ser solucionada considerando: 1) As palavras que descrevem essa instituição; 2) As palavras que descrevem os cristãos; 3) As ilustrações que descrevem a igreja.

1. Palavras que descrevem a igreja.

A palavra grega no Novo Testamento para igreja é "ekklesia", que significa "uma assembléia de chamados para fora". O termo aplica-se a:
1) Todo o corpo de cristãos em uma cidade (Atos 11:22; 13:1.)
2) Uma congregação, (1Cor. 14:19,35; Rom. 16:5.)
3) Todo o corpo de crentes na terra. (Efés. 5:32.)

2. Palavras que descrevem os cristãos.

(a) Irmãos. A igreja é uma fraternidade ou comunhão espiritual, no qual foram abolidas todas as divisões que separam a humanidade.
- "não há grego nem judeu": a mais profunda de todas as divisões baseadas na história religiosa é vencida;
- "não há grego nem bárbaro". a mais profunda de todas as divisões culturais é vencida;
- "não há servo ou livre". a mais profunda de todas as divisões sociais e econômicas é vencida;
- "não há macho nem fêmea". a mais profunda de todas as divisões humanas é vencida. (Vide Col. 3:11; Gál. 3:28.)

(b) Crentes. Os cristãos são chamados "crentes" porque sua doutrina característica é a fé no Senhor Jesus.

(c) Santos. São chamados "santos" (literalmente "consagrados ou piedosos") porque estão separados do mundo e dedicados a Deus.

(d) Os eleitos. Refere-se a eles como "eleitos", ou os "escolhidos", porque Deus os escolheu para um ministério importante e um destino glorioso.

(e) Discípulos. São "discípulos" (literalmente "aprendizes"), porque estão sob preparação espiritual com instrutores inspirados por Cristo.

(f) Cristãos. São "cristãos" porque sua religião gira em tomo da Pessoa de Cristo.

(g) Os do Caminho. Nos dias primitivos muitas vezes eram conhecidos como "os do Caminho" (Versão Brasileira) (Atos 9:2) porque viviam de acordo com uma maneira especial de viver.

3. Ilustrações da igreja.

(a) O corpo de Cristo. O Senhor Jesus Cristo deixou este mundo há mais de dezenove séculos; entretanto, ele ainda está no mundo. Com isso queremos dizer que sua presença se faz sentir por meio da igreja, a qual é seu corpo. Assim como ele viveu sua vida natural na terra, em um corpo humano individual, assim também ele vive sua vida mística em um corpo tomado da raça humana em geral. Na conclusão dos Evangelhos não escrevemos: "Fim", mas, "Continua", porque a vida de Cristo continua a ter expressão por meio dos seus discípulos como se evidencia no livro de Atos dos Apóstolos e pela subseqüente história da igreja. "Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós" (João 20:21). "Quem vos recebe, a mim me recebe" (Mat. 10:40). Antes de partir da terra, Cristo prometeu assumir esse novo corpo. Entretanto, usou outra ilustração: "Eu sou a videira, vós as varas" (João 15:5). A videira está incompleta sem as varas e as varas nada são à parte da vida que flui da videira. Se Cristo há de ser conhecido pelo mundo, terá que ser mediante aqueles que tomam o seu nome e participam de sua vida. Na medida em que a igreja se tem mantido em contato com Cristo, sua Cabeça, assim tem participado de sua vida e experiências. Assim como Cristo foi ungido no Jordão, assim também a igreja foi ungida no Pentecoste. Jesus andou pregando o Evangelho aos pobres, curando os quebrantados de coração, e pregando libertação aos cativos; e a verdadeira Igreja sempre tem seguido em suas pisadas. "Qual ele é, somos nós também neste mundo" (1João 4:17). 

Assim como Cristo foi denunciado como uma ameaça política e, finalmente, crucificado, assim também sua igreja, em muitos casos, tem sido crucificada (figurativamente falando) por governantes perseguidores. Mas tal qual o seu Senhor, ela ressuscitou! A vida de Cristo dentro dela a torna indestrutível. Este pensamento da identificação da igreja com Cristo certamente estava na mente de Paulo quando falou: "na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo corpo, que é a igreja" (Col. 1:24). O uso dessa ilustração faz lembrar que a igreja é um organismo e não meramente uma organização. Uma organização é um grupo de indivíduos voluntariamente associados com um propósito especial, tal como uma organização fraternal ou um sindicato. Um organismo é qualquer coisa viva, que se desenvolve pela vida inerente. Usado figuradamente, significa a soma total das partes entrelaçadas, na qual a relação mútua entre elas implica uma relação do conjunto. Desse modo, um automóvel poderia ser considerado uma "organização" de certas peças mecânicas; o corpo humano é um organismo porque é composto de muitos membros e órgãos animados por uma vida comum. O corpo humano é um, embora seja composto de milhões de células vivas. Da mesma maneira o corpo de Cristo é um, embora composto de almas nascidas de novo. Assim como o corpo humano é vivificado pela alma, da mesma maneira o corpo de Cristo é vivificado pelo Espírito Santo. "Pois todos nós fomos batizados em um Espírito formando um corpo" (1Cor. 12:13). Os fatos supra citados indicam uma característica única da religião de Cristo. Assim escreve W. H. Dunphy: Ele — e unicamente ele — dos fundadores de religião, produziu um organismo permanente, uma união permanente de mentes e almas, concentradas em torno de sua Pessoa. Os cristãos não são meramente seguidores de Cristo, senão membros de Cristo e membros uns dos outros. Buda reuniu sua sociedade de "esclarecidos", mas a relação entre eles não passa de relação externa, de mestre para com o aluno. O que os une é sua doutrina, e não a sua vida. O mesmo pode dizer-se de Zoroastro, de Sócrates, de Maomé, e dos outros gênios religiosos da raça. Mas Cristo não somente é Mestre, ele é a vida dos cristãos. O que ele fundou não foi uma sociedade que estudasse e propagasse suas idéias, mas um organismo que vive por sua vida, um corpo habitado e guiado por seu Espírito.

(b) O templo de Deus. (1Ped. 2:5,6.) Um templo é um lugar em que Deus, que habita em toda parte, se localiza a si mesmo em determinado lugar, onde seu povo o possa achar "em casa". (1Reis 8:27.) Assim como Deus morou no Tabernáculo e no templo, assim também vive, por seu Espírito, na igreja. (Efés 2:21,22; 1Cor. 3:16,17.) Neste templo espiritual os cristãos, como sacerdotes, oferecem sacrifícios espirituais, sacrifícios de oração, louvor e boas obras.

(c) A noiva de Cristo. Essa é uma ilustração usada tanto no Antigo como no Novo Testamento para descrever a união e comunhão de Deus com seu povo. (2 Cor. 11:2; Efés. 5:25-27; Apoc. 19:7; 21:2; 22:17.) Mas devemos lembrar que é somente uma ilustração, e não se deve forçar sua interpretação. O propósito dum símbolo é apenas iluminar um determinado lado da verdade e não o de prover o fundamento para uma doutrina.

II. A Fundação da Igreja

1. Considerada profeticamente.

Israel é descrito como uma igreja no sentido de ser uma nação chamada dentre as outras nações a ser um povo de servos de Deus. (Atos 7:38.) Quando o Antigo Testamento foi traduzido para o grego, a palavra "congregação" (de Israel) foi traduzida "ekklesia" ou "igreja". Israel, pois, era a congregação ou a igreja de Jeová. Depois de a igreja judaica o ter rejeitado, Cristo predisse a fundação duma nova congregação ou igreja, uma instituição divina que continuaria sua obra no terra (Mat. 16:18). Essa é a igreja de Cristo, que veio a ter existência no dia de Pentecoste.

2. Considerada Historicamente.

A igreja de Cristo veio a existir, como igreja, no dia de Pentecoste, quando foi consagrada pela unção do Espírito. Assim como o Tabernáculo foi construído e depois consagrado pela descida da glória divina (Êxo. 40:34), assim os primeiros membros da igreja foram congregados no cenáculo e consagrados como igreja pela descida do Espírito Santo. É muito provável que os cristãos primitivos vissem nesse evento o retorno da "Shekinah" (a glória manifesta no Tabernáculo e no templo) que, havia muito, partira do templo, e cuja ausência era lamentada por alguns dos rabinos. Davi juntou os materiais para a construção do templo, mas a construção foi feita por seu sucessor, Salomão. Da mesma maneira, Jesus, durante seu ministério terreno, havia juntado os materiais da sua igreja, por assim dizer, mas o edifício foi erigido por seu sucessor, o Espírito Santo. Realmente, essa obra foi feita pelo Espírito, operando mediante os apóstolos que lançaram os fundamentos e edificaram a igreja por sua pregação, ensino e organização. Portanto, a igreja é descrita como sendo "edificados sobre o fundamento dos apóstolos..." (Efés. 2:20).

III. Os membros da Igreja.

O Novo Testamento estabelece as seguintes condições para os membros da igreja:
- fé implícita no Evangelho e confiança sincera e de coração em Cristo como o único e divino Salvador (Atos 16:31);
- submeter-se ao batismo nas águas como testemunho simbólico da fé em Cristo; e
- confessar verbalmente essa fé. (Rom.10:9,10.)
No princípio, praticamente todos os membros da igreja eram verdadeiramente regenerados. "E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar" (Atos 2:47). Entrar na igreja não era uma questão de unir-se a uma organização, mas de tornar-se membro de Cristo, assim como o ramo é enxertado na árvore. No transcurso do tempo, entretanto, conforme a igreja aumentou em número e em popularidade, o batismo nas águas e a catequese tomaram o lugar da conversão. O resultado foi um influxo na igreja de grande número de pessoas que não eram cristãs de coração. E desde então, essa tem sido mais ou menos a condição da cristandade. Assim como nos tempos do Antigo Testamento havia um Israel dentro dum Israel, israelitas de verdade, bem como israelitas nominais, assim também no transcurso da história da igreja vemos uma igreja, dentro da igreja, cristãos verdadeiros no meio de cristãos apenas de nome. Portanto, devemos distinguir entre a igreja invisível, composta dos verdadeiros cristãos de todas as denominações, e a igreja visível, constituída de todos os que professam ser cristãos — a primeira, composta daqueles cujos nomes estão escritos no céu; a segunda, compreendendo aqueles cujos nomes estão registrados no rol de membros das igrejas. Nota-se a distinção em Mateus 13, onde o Senhor fala dos "mistérios do reino dos céus" — expressão essa que corresponde à designação geral "cristandade".
As parábolas nesse capítulo esboçam a história espiritual da cristandade entre o primeiro e o segundo advento de Cristo, e nelas aprendemos que haverá uma mistura de bons e maus na igreja, até a vinda do Senhor, quando a igreja será purificada e se fará separação entre o genuíno e o falso. (Mat. 13:36-43, 47-49.) O apóstolo Paulo expressa a mesma verdade quando compara a igreja a uma casa na qual há muitos vasos, uns para honra e outros para desonra. (2Tim. 2:19-21). É a igreja sinônimo do reino de Deus? Que a igreja seja uma fase do reino entende-se pelo ensino de Mat. 16: 18, 19, pelas parábolas em Mat. 13, e pela descrição de Paulo da obra cristã como sendo parte do reino de Deus (Col. 4:11). Sendo "o reino dos céus" uma expressão extensa, podemos descrever a igreja como uma parte do reino. William Evans assim escreveu: "A igreja pode ser considerada como uma parte do reino de Deus, assim como o Estado de Illinois é parte dos Estados Unidos." A igreja prega a mensagem que trata do novo nascimento do homem, pelo qual se obtém entrada no reino de Deus (João 3:3-5; 1Ped. 1:23.)

IV. A obra da Igreja.

1. Pregar a salvação.

A obra da igreja é pregar o Evangelho a toda a criatura (Mat. 28:19, 20), e explanar o plano da salvação tal qual é ensinado nas Escrituras. Cristo tornou acessível a salvação por provê-la; a igreja deve torná-la real por proclamá-la.

2. Prover meios de adoração.

Israel possuía um sistema de adoração divinamente estabelecido, pelo qual se chegava a Deus em todas as necessidades e crises da vida. Assim também a igreja deve ser uma casa de oração para todos os povos, onde Deus é cultuado em adoração, oração e testemunho.

3. Prover comunhão religiosa.

O homem é um ser social; ele anela comunhão e intercâmbio de amizade. é natural que ele se congregue com aqueles que participam dos mesmos interesses. A igreja provê uma comunhão baseada na Paternidade de Deus e no fato de ser Jesus o Senhor de todos. É uma fraternidade daqueles que participam duma experiência espiritual comum. O calor dessa comunhão era uma das características notáveis da igreja primitiva. Num mundo governado pela máquina política do Império Romano, em que o indivíduo era praticamente ignorado, os homens anelavam uma comunhão onde pudessem livrar-se do sentimento de solidão e desamparo. Em tal mundo, uma das características mais atraentes da igreja era o calor e a solidariedade da comunhão — comunhão em que todas as distinções terrenas eram eliminadas e os homens e mulheres tomavam-se irmãos e irmãs em Cristo.

4. Sustentar uma norma de conduta moral.

A igreja é "a luz do mundo", que afasta a ignorância moral; é o "sal da terra", que a preserva da corrupção moral. A igreja deve ensinar aos homens como viver bem, e a maneira de se preparar para a morte. Deve proclamar o plano de Deus para regulamentar todas as esferas da vida e sua atividade. Contra as tendências para a corrupção da sociedade, deve ela levantar a sua voz de admoestação.
Em todos os pontos de perigo deve colocar uma luz como sinal de perigo.





ECLESIOLOGIA - As Grandes Doutrinas da Bíblia - Pr. Raimundo de Oliveira - CPAD


ECLESIOLOGIA – INTRODUÇÃO

Nas Escrituras a doutrina da Igreja (ou eclesiologia) se reveste de tanta importância quanto as demais nela tratadas. O estudo e conseqüente compreensão desta doutrina levará o cristão à conclusão de que, em valor, a Igreja se sobrepõe aos grandes organismos e organizações existentes no mundo hoje . A vocação e missão da Igreja têm alcance imensurável. Suas origens se ocultam na eternidade passada, enquanto que a sua missão no presente tem a capacidade de alterar a rotina tanto do Céu quanto do próprio Inferno. Há, pois, grande recompensa no estudo e compreensão desta doutrina.

I. DEFINIÇÃO DO TERMO "IGREJA"
Os dicionários mais comuns dão dois significados ao termo ekklesia: 1° "Ajuntamento popular", e 2° "Igreja". O primeiro significado é chamado profano, e o segundo "bíblico", "eclesiástico". Os dicionários do Novo Testamento seguem a mesma divisão subdividindo mais uma vez o significado do termo no Novo Testamento: 1° Igreja, como comunidade universal. 2° Congregação, como comunidade local ou particular, bem como comunidade doméstica (A Igreja do Novo Testamento – Aste – Pág.15). Noutras palavras, "ekklesia”, traduzida por "igreja" se deriva de ekkaleo, verbo que significa "chamar à parte"; por isto denota uma assembléia citada ou chamada à parte, um corpo escolhido e separado duma grande massa de gente. O uso do termo pode ser investigado levando-se o seguinte em consideração:

1. O Uso Clássico
O uso clássico do termo "ekklesia" designa uma assembléia de cidadãos, convocados por um arauto; uma espécie de assembléia legislativa. Cremer diz que é o termo comum para designar uma reunião dos eklectoi, reunidos para discutir os assuntos pertinentes à política de um estado livre e soberano. Portanto, ekklesia era a assembléia legal, em uma cidade grega, formada de todos os que possuíam o direito de cidadania para tratar dos assuntos públicos. Eram pessoas literalmente chamadas para fora da grande massa de povo que compunha o grosso da sociedade, - uma porção escolhida do povo, não o populacho, tampouco os estrangeiros, não aqueles que haviam perdido os direitos civis. Tanto a palavra "chamar" como a palavra "aparte" possuem significado que não deve ser desprezado quando ambas tiverem de ser estudadas no contexto da Igreja Cristã. Neste caso o termo ekklesia não denota, exceto em uso excepcional e figurado, uma assembléia mista e não-oficial.

2. Seu Uso na Septuaginta
Na versão grega do Antigo Testamento chamada Septuaginta, o termo ekklesia é a tradução usual do termo hebraico kahal, que denota a multidão inteira de qualquer povo, unido pelos vínculos de uma sociedade, e constituindo uma república ou estado. Em sua significação ordinária, o termo pode ser definido como uma assembléia ou convocação do povo de Israel. Assim disse Moisés: "Nenhum amonita ou moabita entrará na congregação ['ekklesia'] do Senhor" (Dt 23.3Ne 13.1). Assim também disse Davi: “O meu louvor virá de ti na grande congregação [‘ekklesia’]; pagarei os meus votos perante os que o temem” (Sl 22.25). Neste caso a ekklesia de Israel se compunha exclusivamente pelos israelitas feitos idôneos para cumprirem com os deveres de povo do Senhor, e para participarem do culto em seu santuário. Excluía-se, portanto os incircuncisos, os imundos e os demais povos. A mesma restrição é evidente no uso do termo ekklesia no Novo Testamento quando se refere ao antigo Israel como a “igreja do Senhor” (Act 7.38Hb 2.12).

3. O Uso Cristão
O termo "ekklesia" aparece no Novo Testamento cerca de cento e quinze vezes. Destas, três se referem à congregação hebraica do Senhor (Act 7.38Hb 2.12); três outras vezes se referem à assembléia grega (Act 19.32,39,41); e cento e dez à Igreja cristã.Como aparece no Novo Testamento, o, termo tem dupla designação: 1° Designa uma assembléia específica e local de crentes, organizados para manutenção do culto, doutrinas ordenanças e disciplina do evangelho, e unidos sob um concerto especial com Cristo e entre si; como "a igreja em Jerusalém", "as igrejas da Galácia". A palavra se encontra usada neste sentido local em noventa e dois casos. 2° Denota a totalidade do corpo dos escolhidos nos céus e na terra - todos quantos foram alcançados pelo concerto da graçade Deus que os faz membros do reino eterno de Cristo.A doutrina evangélica ensina que a Igreja pode existir independentemente de ter ou não uma forma vista pelos homens, pois ela é tanto visível (militante), como invisível (triunfante). A Igreja Invisível se compõe de todos os que estão unidos a Cristo. Não é uma organização externa, mas um organismo eterno. Os seus membros são conhecidos por Deus, ainda que não seja possível serem conhecidos, totalmente pela vista humana. Muitos deles estão no Céu, ou ainda estão por nascer. A Igreja Visível compõe-se de todos os que professam estarem unidos a Cristo; aqueles que têm os seus nomes arrolados nos livros de registro das suas respectivas congregações. Não é sem certo constrangimento que afirmamos que muitas vezes pode ocorrer da pessoa ter seu nome arrolado entre os membros da Igreja visível sem, contudo tê-lo escrito no Livro da Vida do Cordeiro.

II. A ORIGEM DA IGREJA
Para compreendermos a origem da Igreja, mister se faz estudá-Ia levando-se em consideração fatores proféticos e históricos.

1. Considerada Profeticamente
Israel é descrito na Bíblia como uma igreja no sentido de ser uma nação chamada dentre outras nações para ser um povo formado de servos de Deus. Israel, pois, era a congregação ou a igreja de Jeová no Antigo Testamento. Depois da igreja judaica o ter rejeitado, Cristo predisse a fundação duma nova congregação ou igreja, uma instituição divina que continuaria sua obra na terra (Mt 16.18). Essa é a Igreja de Cristo, que começou a existir visivelmente a partir do dia de Pentecoste, conforme o capítulo 2 do livro de Atos dos Apóstolos. Paulo fala da manifestação mística da Igreja, usando os seguintes termos: "A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo, e demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou: para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos léus, segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor" (Ef 3.8-11).Portanto, no plano de Deus, a Igreja já existia muito antes que qualquer outra coisa viesse à existência, isso com base no sangue do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo (Ap 13.8). Deus, segundo o seu soberano propósito, permitiu que as eras se fossem escoando até que achou por bem tornar a Igreja manifesta e conhecida.

2. Considerada Historicamente
A Igreja de Cristo veio à existência, como tal, no dia de Pentecoste, quando do derramamento do Espírito Santo. Assim como o Tabernáculo foi construído e depois consagrado pela descida da glória divina (Ex 40.34), de igual modo os primeiros membros da Igreja f?ram consagrados no Cenáculo e consagrados como Igreja pela descida do Espírito Santo sobre eles e dentro deles. É muito provável que os cristãos primitivos vissem nesse evento o retorno da glória manifesta no Tabernáculo e no Templo, glória essa que há muito tempo havia se afastado, e cuja ausência era lamentada pelos rabinos judaicos mais piedosos (Conhecendo as Doutrinas da Bíblia – Editora Vida - Pág. 217). Davi juntou os materiais para a construção do Templo, mas a construção foi feita por seu sucessor, Salomão. Da mesma maneira, Jesus, durante o seu ministério terreno, havia juntado os materiais com os quais haveria de dar forma à sua Igreja, por assim dizer, mas o edifício foi erigido pelo seu sucessor, o Espírito Santo. Realmente: essa obra foi feita pelo Espírito Santo, operando através dos apóstolos, que lançaram os fundamentos e edificaram a Igreja por sua pregação, ensino e organização. Por isso a Igreja é descrita como sendo adificada sobre o fundamento dos apóstolos (Ef 2.20).

III. O FUNDAMENTO DA IGREJA
A origem divina da Igreja é patenteada pela sua origem histórica, bem como pela sua expansão e confirmação. Não é possível se pensar na Igreja separadamente de Cristo, nem se pensar em Cristo separadamente da Igreja. Apesar disto a teologia vaticano - romanista atribuição apóstolo Pedro, méritos de pedra fundamental sobre a qual a Igreja de Cristo está edificada. Buscando achar fundamentos escriturísticos para tão absurdo ensino, os teólogos católicos - romanos, apelam para as seguintes palavras do Salvador: "E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai que esta nos céus. Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; e eu te darei as chaves do remo dos céus; e tudo o que ligares. na terra será ligado no céu, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus" (Mt 16.16-19). Dessa passagem, a Igreja Romana deriva o seguinte raciocínio de interpretação:
Pedro é a rocha sobre a qual a Igreja estar edificada.
- A Pedro foi dado o poder das chaves, portanto, só ele e seus sucessores (os papas) poderão abrir a porta do reino dos céus.
- Pedro tornou-se o primeiro bispo de Roma.
- toda autoridade eclesiástica foi conferida a Pedro, até nossos dias, através da linhagem de bispos e de papas, todos vigários de Cristo.

1. Cristo – a Pedro
A “pedra” constante de Mateus 16.18 nada mais é do que a confissão de Pedro: em Cristo está a verdade fundamental da Igreja! “porque ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo” (1 Co 3.11). Em vários textos da Bíblia encontramos alusões a Cristo, como sendo Ele a “Pedra”. Parar Daniel, no Antigo Testamento, Cristo é a pedra que do alto será lançada, e que destruirá a estatua do misterioso sonho de Nabucodonosor (Dn 2.34,35). A pedra aqui fala de Cristo na sua segunda vinda, destruindo o poder gentílico mundial. Para Pedro, Cristo era a pedra que os lideres espirituais de Israel rejeitaram e mataram (Act 4.11). Que Cristo é a pedra, já era prefigurado no Antigo Testamento (1 Co 10.4). Dos oitenta e quatro chamados Pais da Igreja primitiva, só dezesseis criam que o Senhor se referiu a Pedro, quando disse "essa pedra". Os demais, uns diziam que a expressão se referia a Cristo mesmo, outros à confissão que Pedro acabara de fazer, ou, ainda, a todos os apóstolos. Só a partir do IV Século começou-se a falar a respeito da possibilidade de Pedro ser a pedra fundamental da Igreja, e esta discussão estava intimamente relacionada com a pretensão exclusivista do bispo de Roma.

2. Pedro - Uma Pedra
A interpretação da Igreja Romana segundo a qual Cristo estabeleceu a sua Igreja sobre a pessoa do apóstolo Pedro é insustentável e não suporta a prova da teologia bíblica. Não consta em parte alguma das Escrituras, nem mesmo na história do cristianismo, que Pedro tenha assumido essa posição de destaque que o romanismo lhe atribui. Evidentemente, Pedro teve algumas oportunidades de ações relevantes junto aos demais apóstolos. Foi, porém, uma posição temporária ou transitória. Com excessão do que lemos em Gálatas 1.18, não encontramos nenhuma outra referência a Pedro no restante do Novo Testamento, nem sobre um possível episcopado sobre os demais apóstolos e comunidades cristãs da sua época. É bom lembrar que Pedro foi enviado como missionário aos samaritanos e gentios vizinhos a Jerusalém, sob a orientação de Tiago, quando esse e não Pedro, era o pastor e líder da Igreja em Jerusalém.Pedro foi uma pedra, mas não a pedra firme e inabalável sobre a qual foi fundada "a universal assembléia e igreja dos primogênitos que estão escritos nos céus (Hb 12.23), e sim uma pedra como são os demais salvos e remidos pelo sangue de Jesus (1 Pd 2.4).

3. Petra e Petros
O substantivo grego PETRA designa, no grego, "uma rocha grande e firme". Já o substantivo masculino PETROS é aplicado geralmente para designar blocos de pedra, móveis e isolados, bem como a pedras pequenas, tais como a pederneira, ou pedra de arremesso.
Pedro é PETROS - parte da rocha, não PETRA - rocha grande e firme.
Cristo é PETRA - rocha grande e firme.
Pedro foi uma pedra forte e firme, mas em união com Cristo e nunca desligado dele. Por exemplo: lemos no Evangelho que Pedro andou sobre o mar encapelado, mas só enquanto tinha os olhos fixos em Jesus, pois quando começou a olhar para as ondas do mar, começou a afundar. Era uma pedra que ia se afundando. Como uma Igreja sobre a qual as portas do Inferno não poderiam prevalecer, iria ser edificada sobre o homem Pedro?

IV. A IGREJA EM RELAÇÃO AO REINO DE DEUS
Parece unânime a opinião dos estudiosos das Escrituras quanto à dificuldade de conciliar o estudo da doutrina da Igreja com o estudo relacionado com o Reino de Deus. O problema geralmente começa com as questões: Deve o Reino de Deus, em algum sentido da palavra, ser identificado com a Igreja? Se não, qual a relação entre ambos? A busca de resposta a esta questão, passará, sem dúvida à análise das seguintes questões:

1. O Reino e a Igreja
Achar-se o tipo de relação porventura existente entre Reino de Deus e a Igreja dependerá do conceito que o cristão tiver do Reino. Conclui-se, pois, que, se o conceito que o cristão fizer do Reino estiver correto, ele nunca deverá ser identificado com a Igreja."O Reino é primeiramente o reinado dinâmico ou o domínio soberano de Deus e, derivadamente, a esfera na qual tal soberania é experimentada. De acordo com a fraseologia bíblica, o Reino não deve ser identificado com as pessoas que pertencem a Ele. Elas são o povo do domínio de Deus que entra no Reino, vive sob a autoridade do Reino, e é governado e orientado pelo Reino. A Igreja é a comunidade do Reino, mas nunca o próprio Reino. Os discípulos de Jesus pertencem ao Reino como o Reino lhes pertence; mas eles não são o Reino. O Reino é o domínio de seus; a Igreja é uma sociedade composta por seres humanos” (Teologia do Novo Testamento – JUERP – Pág. 106).

2. A Igreja Não é o Reino
O Novo Testamento nunca confunde Igreja com o Reino. Os primitivos pregadores do Evangelho pregaram o Reino de Deus e não a Igreja (Act 8.1219.820.2528.23,31). Portanto é impossível confundir "reino" por "igreja" na fraseologia neotestamentária. As únicas referências ao povo de Deus como Basiléia encontram-se em Apocalipse 1.6 e 5.10; mas as pessoas que recebem tal designação recebem-na, não em virtude de serem as pessoas que estão sob o domínio de Deus, mas porque são participantes do reino de Cristo. “... e eles reinarão sobre a terra" (Ap 5.10). Nestas declarações, "reino" é sinônimo de "reis", e não de pessoas sob o governo de Deus. Deste modo é confuso afirmar como fez Sommerlarth, que "a Igreja é a forma assumida pelo Reino de Deus no intervalo existente entre a ascensão e a parousia de Cristo"; ou como disse Gilmour: "A Igreja, (não como instituição, mas como comunidade amada) tem sido o Reino de Deus dentro do processo histórico".

3. O Reino Cria a Igreja
O domínio dinâmico de Deus, presente na missão terrena de Jesus, desafiou o homem no "Sentido de manifestar uma resposta positiva à sua mensagem, introduzindo-o em um novo grupo de comunhão. Deste modo, a manifestação do Reino de Deus assinalava o cumprimento da esperança messiânica do Antigo Testamento, prometida a Israel. Mas quando Israel como um todo rejeitou a oferta do Reino, aqueles que a aceitaram foram constituídos o novo povo de Deus, os filhos do Reino, o verdadeiro Israel, a igreja incipiente. Assim "a Igreja não é senão o resultado da vinda do Reino de Deus ao mundo por intermédio da missão de Jesus Cristo" (Teologia do Novo Testamento – JUERP – Pág.106). A Igreja visível e histórica, tem um duplo caráter. Ela se constitui no povo do Reino, contudo, ela não forma o povo em seu caráter ideal, uma vez que tem no seu seio pessoas que não podem ser indicadas realmente como filhos do Reino. Por isso se conclui que a entrada no Reino de Deus significa participação na Igreja; mas a entrada na Igreja não é uma expressão equivalente da entrada no Reino de Deus.

4. A Igreja dá Testemunho do Reino
A Igreja é ineficaz para edificar o Reino é fazê-lo prosperar; no entanto, tem ela o dever e a autoridade de testemunhar do Reino e para o Reino. Este testemunho diz respeito aos atos redentores de Deus por meio de Jesus Cristo, cobrindo todo o período compreendido pela Dispensação da Graça. Os doze enviados, de Mateus 10 e os setenta, de Lucas 10, tinham o mandamento expresso de testemunhar do Reino. A comissão desses primeiros discípulos de Jesus parece se revestir de grande simbolismo para a Igreja hodierna. Portanto, é tarefa da Igreja viver e demonstrar a vida e a comunhão do Reino de Deus e da Era Vindoura numa era escravizada pela perversidade e egoísmo, orgulho e animosidade. Esta demonstração da vida característica do Reino é um elemento essencial do Testemunho da Igreja em favor do Reino de Deus. A Igreja pode e tem o dever de orar: “Venha o teu reino...”

5. A Igreja é a Agência do Reino
Os primeiros discípulos de Jesus, além de proclamarem as boas-novas afetas à presença do Reino, consideravam a si mesmos agentes instrumentais do Reino. Pesava sobre seus ombros a grande comissão dada por Jesus antes de voltar para o seio do Pai. Deste modo, a partir daí, eles consideravam que o que eles faziam era como se Jesus Cristo mesmo, em pessoa, tivesse realizado. Assim tal como fez Jesus quando, visivelmente entre eles, quando eles curaram enfermos, expulsaram demônios e ressuscitaram mortos (Mt 27.10.8; Lc 10.17). Os discípulos tinham ciência de que o poder de que dispunham para realizar a obra de Deus, fora outorgado por delegação, mas não tinham a menor dúvida de que esse poder neles e através deles operante, tinha a mesma eficácia que o poder operante no ministério terreno de Jesus. Uma vez que o poder que dispunham para realizar a obra de Deus não lhes pertenciam como condição inata, não tinham porque se vangloriar. Ao manifestar a decisão de fundar a sua Igreja triunfante Mt 16.18), Jesus estava garantindo que as forças das trevas e do inferno haveriam de recuar ante a manifestação aterradora do Reino através da ação notória da Igreja vitoriosa.

6. A Igreja: a Guardadora do Reino
Os rabinos judaicos antigos tinham Israel na conta de guardador do Reino de Deus, segundo eles, inaugurado na terra nos dias de Abraão, finalmente entregue a Israel quando da outorga da Lei no Sinai. Uma vez que Israel foi feito guardião exclusivo da Lei divina, o Reino de Jesus se tornava posse exclusiva de Israel. Quando um gentio queria fazer parte desse Reino, tinha de se deixar proselitizar, ou se judaizar. Só após essa "conversão" o judaísmo é que o gentio podia se considerar súdito do Reino. Era indispensável a mediação de Israel, uma vez que só o israelita era considerado "filho do Reino".Na pessoa de Jesus Cristo, o domínio de Deus manifestou-se em um novo evento redentor, demonstrando, de um modo totalmente inesperado, os pobres do reino escatológico dentro do cenário da história humana. Como a nação de Israel rejeitou por completo esta nova forma de manifestação do Reino de Deus, a porta da graça divina se abriu para o mundo gentílico. A barreira de separação existente entre judeus e gentios fora derribada. Já não haveria "filhos exclusivos" do Reino. Súditos do Reino seriam todos aqueles que absorvessem a revelação divina trazida por Jesus Cristo. Os discípulos de Jesus, a sua ekklesia, agora se tornaram os guardadores do Reino, em lugar da nação de Israel. O Reino é tirado de Israel e dado a outro povo - a ekklesia de Jesus. Deste modo, os discípulos de Jesus não somente dão testemunho a respeito do Reino; eles não apenas se constituem em instrumento do Reino, à medida que este manifesta o seu poder nesta Era presente, eles são também os guardadores do Reino (Teologia do Novo Testamento – JUERP – Pág. 110).

V. OS MEMBROS DA IGREJA
Uma igreja é uma congregação de crentes em Jesus Cristo batizados depois duma profissão de fé, e voluntariamente ligados sob a aliança especial para a manutenção do culto, verdades, ordenanças, e disciplina do evangelho Portanto, face à questão quanto, a saber, quem são e quais as características dos membros da Igreja de Cristo, diría-mos:

1. A Igreja é Composta Somente por Aqueles que Demonstram fé em Cristo.
As unidades da Igreja são almas regeneradas e que vivem em união com Cristo. Deste modo a Igreja é uma assembléia de tais almas, atraídas umas às outras por afinidades espirituais da nova vida que cada uma recebeu e pelo vínculo comum que as une a Deus. Disse Jesus que “aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (Jo 3.3). É assim que o novo nascimento espiritual se constitui condição indispensável e fundamental para a união do homem com a Igreja cristã. Por mais difícil que pareça ser o estabelecimento duma igreja formada só de pessoas inteiramente regeneradas, a verdade é que a igreja local que mais trabalha no sentido de levar os seus membros a demonstrarem uma genuína conversão, mais tem se aproximado do ideal duma vida de fé e de pureza.

2. Uma Igreja se Compõe Somente Daqueles que Foram Batizados Depois duma Profissão de Fé
As considerações seguintes fazem do batismo em água, não uma opção mas uma ordenança para ser cumprida pelo crente:
-A comissão apostólica dada por Jesus nos manda não apenas fazer discípulos, mas também batizar (Mt 28.19). A ordem de fazer discípulos e depois batizar, se preserve definitivamente como decreto da autoridade divina.
-Nas Escrituras, o batismo é o primeiro ato público do crente. Esse ato tem duplo significado: a) fala do rompimento do crente com a vida de outrora; e b) fala do seu membramento no corpo de Cristo, que é a Igreja. O batismo em água, desde o princípio, tem sido considerado como prática uniforme de admissão do neoconvertido à igreja.
As Epístolas do Novo Testamento se dirigem às igrejas, como corpos compostos exclusivamente de pessoas batizadas em águas (Rm 6.1-141 Pd 3.21).

VI. A ORGANIZAÇÃO DA IGREJA
Existem três formas distintas de igrejas, que se diferenciam entre si pelos princípios fundamentais de sua organização, são elas: Episcopal, Presbiteriana e Congregacional.

1. O Sistema Episcopal
O sistema episcopal de organização da igreja consiste numa rija hierarquia, concentrando o poder eclesiástico no sacerdócio formado de três ordens de bispos, sacerdotes e diáconos. Essas três ordens formam uma espécie de governo sacerdotal. Esta forma é adotada pela Igreja Católica Romana, a Igreja da Inglaterra, a Igreja Protestante Episcopal dos Estados Unidos, e a Igreja Metodista Episcopal. Nesta última os bispos se diferenciam dos presbíteros não como uma ordem distinta, mas somente por razões de funções. Em todas estas igrejas o poder principal está nas mãos do clero, que se constitui um corpo que se perpetua a si mesmo, distinto da congregação local, e virtualmente independente dela.

2. O Sistema Presbiteriano
Nas igrejas que adotam este sistema de organização, a recepção e disciplina de membros são confiadas a um conselho, composto de pastores, e anciãos eleitos pela congregação; mas todos. Os atos eclesiásticos estão sujeitos a revisão por um conselho superior, composto de pastores e anciãos de muitas outras congregações. A igreja, segundo a concepção presbiteriana, é formada de muitas e distintas congregações, reunidas por seus representantes - pastores e anciãos - em um corpo, no qual reside todo o poder eclesiástico. Por isto há uma cadeia de comando na seguinte ordem: o conselho, cujos membros são eleitos pela congregação individual; o presbitério, composto de delegados dos distintos conselhos; o sínodo, corpo local composto de delegados de vários presbitérios; e a assembléia geral, composta de delegados de todos os presbitérios, e que constitui a última corte de apelação. Todos os oficiais eleitos pela congregação local e todos os atos executados por ela podem ser anulados por esta mais alta autoridade eclesiástica.

3. O Sistema Congregacional
No sistema Congregacional de igreja, todo o poder eclesiástico é exercido por cada igreja local, reunida em uma congregação, e as decisões tomadas pela igreja local individual não estão sujeitas a revogação por nenhum outro corpo eclesiástico. A esta classe pertence, com ligeiras diferenças e pormenores de organização, os Independentes da Inglaterra, as igrejas congregacionais da América e as igrejas batistas de todo o mundo (Su Forma de Gobierno y Sus Ordenanzas – Editora Mundo Hispano – Pág.110). Quando comparadas estes três sistemas de igreja, não há dúvida que o sistema Congregacional é o que melhor se identifica com o modelo de organização da Igreja primitiva. De acordo com o Novo Testamento, era a igreja como congregação local (e não o seu ministério ordinário), que tinha autoridade de receber, disciplinar e excluir a seus membros (1 Co 5.1-52 Co 2.4,5Rm 16.172 Ts 3.6). Ela detinha com exclusividade o direito de eleger os seus próprios oficiais (Act 1.15-266.1-614.231 Co 16.3). De acordo com a História da Igreja, foram as congregações locais que escolheram espontaneamente, proeminentes bispos, como Atanásio (328 d.C.), Ambrósio (374 d.C.) e Crisóstomo (398 d.C.). A igreja local, ainda, detém o poder de decidir assuntos não decididos pelas Escrituras.

VII. O MINISTÉRIO DA IGREJA

O Lions Club existe em função dos "leões", o Rotary Club, em função dos rotarianos, a Maçonaria, em função dos maçons. A Igreja é o único organismo existente no mundo, cuja preocupação essencial não é o bem-estar de seus próprios membros. A razão de ser, existir e agir da Igreja na terra é ministrar em nome de Cristo ao mundo. Em síntese, se constitui missão prioritária da Igreja no mundo:

1. Ser Aqui um Lugar de Habitação de Deus
"Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra de esquina; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo do Senhor, no qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” (Ef 2.20-22). “Não sabeis vós que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós” (1 Co 3.16).

2. Testemunhar da Verdade
Para que se eu tardar, fiques cientes de como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade (1 Tm 3.15).

3. Tornar Conhecida a Multiforme Sabedoria de Deus
"Para que pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida agora dos principados e potestades nos lugares celestiais" (Ef 3.10).

4. Dar Eterna Glória a Deus
"Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos, ou pensamos, conforme o seu poder que em nós opera, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações para todo o sempre. Amém" (Ef 3.20,21).

5. Edificar a Seus Membros
"E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com vista ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e ao pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo" (Ef 4.11-13).

6. Disciplinar Seus Membros
"Se teu irmão pecar, vai argüi-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano'’ (Mt 18.15-17).

7. Evangelizar o Mundo
“Jesus, aproximando-se, falou-Ihes, dizendo: Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos" (Mt 28.18-20).

8. Sustentar Uma Norma Digna de Conduta
"Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que há de salgar? para nada mais presta senão para se Iançar fora, e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus" (Mt 5.13-16).

9. Cultivar a Comunhão Entre Seus Membros
"Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros". "Mas, se andardes na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo seu Filho nos purifica de todo o pecado" (Jo 13.34,351 Jo 1.7).

VIII. A ADMINISTRAÇÃO DA IGREJA
O Novo Testamento não provê um código detalhado de regulamentos e preceitos para o governo da Igreja, e a própria ldéia de tal código pode parecer repugnante para a liberdade da Dispensação do Evangelho. No entanto Cristo deixou atrás de si um corpo de líderes (os apóstolos), por ele mesmo escolhido, ao qual ofereceu alguns princípios gerais para o exercício de sua função reguladora.

1. Os Doze Apóstolos
Os doze apóstolos foram escolhidos, a fim de que estivessem com Jesus Cristo (Marc 3.14), e essa associação pessoal qualificou-os para agirem como suas testemunhas (Act 1.8). Por isso, desde o princípio foram capacitados a expelirem demônios e a curarem enfermos (Mt 10.1), poder esse que foi renovado e aumentado, atingindo a sua plenitude com o derramamento do Espírito Santo sobre suas vidas (Lc 24.49Act 1.8). Na sua primeira missão foram enviados a pregar (Marc 3.14), e na Grande Comissão foram instruídos a ensinar todas as nações. Assim receberam de Cristo a autoridade para evangelizar o mundo. Porém, foi-lhes igualmente prometida uma função mais específica como juízes e governantes do povo de Deus (Mt 19.28Lc 22.29,30), com o poder de ligarem e desligarem (Mt 18.18), e de perdoarem e reterem pecados (Jo 20.23). Tal linguagem deu origem à concepção das chaves tradicionalmente definidas, como: chave da doutrina, para ensinar qual conduta é proibida e qual é permitida (esse é o sentido técnico de ligar e desligar na fraseologia legal judaica), e chave da disciplina, para excomungar os indignos e reconciliar os contritos, declarando o perdão de Deus mediante a remissão de pecados exclusivamente em Cristo. Pedro recebeu esses poderes em primeiro lugar (Mt 16.18,19), como também recebeu a comissão pastoral de alimentar o rebanho de Cristo (Jo 21.15), mas fê-Io de modo representativo, e não como uma capacidade pessoal; pois quando tal comissão é repetida por Jesus em Mateus 18.18, a autoridade de exercer o ministério da reconciliação é investida sobre todo o corpo de discípulos, como um todo, como também é a congregação fiel, e não qualquer indivíduo particular, que age em nome de Cristo para abrir o Reino aos crentes e fechá-lo aos incrédulos. Semelhantemente, essa função autoritativa é exerci da primariamente pelos pregadores da Palavra, e o processo seletivo, de conversão, é visto em operação desde a primeira pregação de Pedro, e daí em diante (Act 2.37-47). Quando Pedro confessou a Cristo, sua fé se tornou típica do alicerce rochoso sobre o qual a Igreja está edificada; mas, em realidade, o alicerce da Jerusalém Celeste contém os nomes de todos os apóstolos (Ap 21.14) e não o de Pedro, apenas, pois estes agiam conjuntamente nos primeiros dias da Igreja, e a idéia de que Pedro tenha exercido qualquer primado entre eles é refutada, parcialmente pela posição de liderança ocupada por Tiago no Concílio de Jerusalém (Act 15.13,19) e parcialmente pelo fato de que Paulo resistiu a Pedro face a face (Gl 2.11). Era uma capacidade conjunta que os apóstolos proviam liderança para a Igreja primitiva; e essa liderança era eficaz tanto na misericórdia (Act 2.42) como no juízo (Act 5.1-11). Exerciam autoridade geral sobre cada congregação, enviando dois dentre os seus, a fim de supervisionarem novos desenvolvimentos em Samaria (Act 8.14), e resolvendo com os anciãos qual a orientação comum para a administração dos gentios (Act 15), enquanto que "a preocupação com todas as igrejas" (2 Co 11.28), sentida por Paulo, é ilustrada tanto pelo número de suas viagens missionárias, como pelo grande volume de sua correspondência.

2. Após a Ascensão de Cristo
O primeiro passo dado pelos apóstolos logo após a ascensão de Jesus Cristo foi preencher a vaga deixada por Judas, e isso fizeram mediante um apelo direto a Deus (Act 1.24-26). Outros foram posteriormente contados entre os apóstolos (Rm 16.71 Co 9.5,6Gl 1.19),mas as qualificações de ser testemunha ocular da ressurreição (Act 1.22), e de ter sido de algum modo comissionado por Cristo, não eram de natureza a poderem ser perpetuadas indefinidamente. Quando a pressão do trabalho aumentou, fizeram escolher sete assistentes, ou diáconos (Act 6.1-6), eleitos pela congregação e ordenados pelos apóstolos, a fim de que administrassem a caridade entre os membros carentes da Igreja. Os oficiais eclesiásticos com denominação distintiva são pela primeira vez encontrados nos anciãos de Jerusalém, os quais receberam dons (Act 11.30) e participaram do Concílio aí realizado (Act 15.6). Esse ofício foi provavelmente copiado do presbítero das sinagogas judaicas; pois a própria Igreja é chamada de "sinagoga" em Tiago 2.2, e os anciãos judaicos, aparentemente ordenados por imposição de mãos, eram os responsáveis pela manutenção da disciplina, com o poder de ligar e desligar os que desobedecessem à Lei. O presbítero cristão, todavia, sendo um ministro evangélico, âdquiriu deveres adicionais para pastorear (Tg 5.141 Pd 5.1-3) e para pregar (1 Tm 5.17). Foram ordenados anciãos para todas as igrejas da Ásia Menor por Paulo e Barnabé (Act 14.23), enquanto que Tito foi exortado a fazer o mesmo em relação à igreja em Creta (Tt 1.5); e embora os distúrbios em Corinto possam sugerir que uma democracia mais completa prevalecia naquela congregação (1 Co 14.26), o padrão geral de governo eclesiástico na época apostólica parece ter sido uma junta de anciãos ou pastores, possivelmente aumentada por profetas e mestres, que governavam cada uma das congregações locais, tendo os diáconos como ajudantes da administração, e contando com a superintendência geral da Igreja inteira provida pelos apóstolos e evangelistas. Nada existe neste sistema neotestamentário que corresponda exatamente ao moderno episcopado diocesano. Os bispos, quando são mencionados (Fp 1.1), formavam uma junta de oficiais da congregação local, a posição ocupada por Timóteo e Tito era a de ajudantes pessoais de Paulo em sua obra missionárias. O que é mais provável é que quando um ancião adquiria presidência permanente da junta, passava então a ser especialmente designado pelo título de bispo; porém, mesmo quando o bispo monárquico aparece nas cartas de Inácio, continuava sendo apenas o pastor de uma única congregação. Na terminologia semelhante a uma hierarquia, encontramos descrições vagas como "o que preside", "os que vos presidem no Senhor" (Rm 18.8; 1 Ts 5.12), ou então "vossos guias” (Hb 13.7,17,24). OS anjos das igrejas citadas em Apocalipse 2 e 3, têm sido algumas vezes considerados como bispos verdadeiros; porem, mais provavelmente são personificações de suas respectivas comunidades. Aqueles que ocupam posições de responsabilidade têm o direito de serem honrados (1 Ts 5.12,13), de serem sustentados (1 Co 9.15), e de estarem a salvo de acusações frívolas (1 Tm 5.19) .

3. Princípios Gerais
Cinco princípios gerais podem ser deduzidos do ensinamento neotestamentário como um todo: Toda a autoridade se deriva de Cristo (Mt 20.26-28); A humildade de Cristo provê o padrão para o serviço cristão; O governo d.a Igreja deve ser exercido conjuntamente e não hierarquicamente: Ensinar e dirigir são funções intimamente associadas. Ajudantes administrativos são necessários para cooperarem com os pregadores da Palavra (Act 6.2,3; - O Novo Dicionário da Bíblia – Edições Vida Nova – Págs. 679-681). Quanto à administração e governo da Igreja; convém, pois, saber:
- Cristo é a Cabeça da Igreja. Sabemos que Deus “pôs todas as coisas embaixo dos seus pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo; como também Cristo é a cabeça da igreja; sendo ele próprio o salvador do corpo" (Ef 1.225.23). Da mesma forma que a cabeça prove, sustenta e dirige o corpo, assim também Cristo faz a cada um dos membros de seu corpo espiritual a Igreja. O Senhor é capaz de dirigir os menores detalhes da nossa vida, e quem desconhece ou se nega a reconhecer a direção do Senhor em sua vida diária jamais conhecerá as doçuras da vida verdadeiramente cristã.
- Quando o Cristo subiu ao Céu, concedeu certos dons à sua Igreja. São dons em forma de homens por Ele chamados. Esses diferentes dons estão relacionados em Efésios 4.11. Esses mesmos dons operaram em Cristo, pois através do Novo Testamento vemo-Io como apóstolo (Hb 3.1), profeta (Act 3.22,23), evangelista (Lc 4.18), pastor (Jo 1.10) e mestre (Jo 13.13,14).Agora, exaltado à destra do Pai, Jesus concede à Igreja esses dons. Ministeriais que nele operaram, para que a Igreja seja edificada. Nada há mais indefeso que um rebanho de ovelhas sem pastor, e a Igreja é comparada a um rebanho de ovelhas.
- As palavras "pastor", "bispo" e "presbítero" têm o mesmo significado quanto ao cargo. A palavra "pastor" é a tradução de um vocábulo grego que significa "supervisor". Pastor, no original, e alguém que conduz e alimenta as ovelhas (1 Pd 1.25). Ao ministro da casa de Deus não basta ser intelectual capacitado para o exercício do ministério cristão. É imprescindível que ele seja revestido do poder do Espírito Santo: Nem mesmo o Senhor Jesus Cristo iniciou o seu ministério terreno senão após receber a plenitude do Espírito Santo sobre a sua vida. Portanto, se o ministro deseja que o seu ministério seja uma continuação do ministério do Salvador, deve se deixar possuir do mesmo poder que Ele (Jo 14.12,13).
É imperioso que todos os ministros sejam revestidos do poder do alto (Jo 14.16,17).
- Há uma pesada responsabilidade sobre os ombros do ministério evangélico.O ministro de Deus é tal qual um atalaia sobre as muralhas de Sião. Ele vê o perigo e avisa os pecadores do iminente juízo divino. Caso ele não aja assim, será responsabilizado pela perda das almas sob seus cuidados. A mais terrível declaração com respeito aos pastores sem fé, vitimadas pelo pecado da desobediência, avareza, embriaguez e glutonaria, foi proferida pelo Senhor através do profeta Isaías (Is 56.9-12). O que foi dito aos pastores de Israel, deverá servir de solene aviso aos ministros da casa de Deus hoje em dia.

Caráter da Graça
A Igreja do Novo Testamento - TEOLOGIA SISTEMÁTICA STANLEY M. HORTON - Michael L. Dusing

Além das metáforas que descrevem a natureza da Igreja, as Escrituras sugerem outros conceitos pelos quais os teólogos lhe descrevem o caráter. Uma forma comum é retratar a Igreja sob duas perspectivas: local e universal. Há muitas referências, no Novo Testamento, à Igreja universal, como a proclamação de Jesus, em Mateus 16.18: "Edificarei a minha igreja"; ou a declaração de Paulo, em Efésios 5.25: "Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela". A Igreja universal abrange todos os crentes verdadeiros, independente das diferenças geográficas, culturais ou denominacionais. São os que corresponderam a Cristo com fé e obediência e são agora "membros de Cristo" e, consequentemente, "membros uns dos outros" (ver Rm 12.5).
A expressão "Igreja universal" é empregada em alguns círculos com algumas variantes: "igreja ecumênica" e "igreja católica". Embora os termos "ecumênico" e "católico" signifiquem simplesmente "universal", o emprego histórico ocasionou diferenças substanciais. Se falamos hoje em igreja "ecumênica", por exemplo, normalmente nos referimos a uma organização composta de várias denominações que se reúnem em torno das crenças ou práticas (ou ambas) qúe sustentam em comum. O termo "católico" se tem essencialmente tornado sinônimo da Igreja Católica Romana. Embora certamente haja crentes genuínos dentro das fileiras dessas organizações, seria engano confundir associações terrestres com o corpo universal dos crentes.
Idealmente, a igreja local deve ser uma pequena réplica da Igreja universal. Isto é, deve ser composta de pessoas pertencentes a todas as situações históricas, culturas raciais ou étnicas e níveis sócio-econômicos, que nasceram de novo e compartilham a dedicação de suas vidas ao senhorio de Jesus Cristo. Infelizmente, semelhantes ideais espirituais são raramente alcançados entre seres humanos, que são um pouco menos que glorificados. Assim como nos tempos do Novo Testamento, é possível haver nas assembleias cristãs locais ovelhas insinceras ou até mesmo falsas entre o rebanho. E assim, a despeito das melhores intenções, a igreja local muitas vezes fica aquém do caráter e natureza da Igreja universal verdadeira.
Semelhantemente, a Igreja é também chamada "visível" e "invisível". Esta distinção aparecia já na literatura cristã, nos tempos de Agostinho, e achava-se frequentemente nos escritos dos reformadores, como Lutero e Calvino.21 Alguns oponentes de Lutero acusaram-no de estar sugerindo, na prática, haver duas igrejas diferentes. Isto, em parte, porque Lutero falava de uma ekklêsiola dentro da ekklêsia visível. A intenção de Lutero, no entanto, não era distinguir duas igrejas, mas apontar dois aspectos da Igreja única de Jesus Cristo. A expressão luterana simplesmente indica que a Igreja é invisível por ser de natureza essencialmente espiritual: os crentes estão invisivelmente unidos com Cristo pelo Espírito Santo, as bênçãos da salvação não se podem discernir pelo olho natural, etc. A Igreja invisível, no entanto, assume forma visível na organização externa, terrestre. A Igreja é apresentada de várias maneiras através do testemunho e conduta prática cristã e do ministério tangível dos crentes, coletiva e individualmente. A Igreja visível, assim como a igreja local, deve ser uma versão menor da Igreja invisível (ou universal); porém, conforme já observado, nem sempre acontece assim. A pessoa pode professar fé em Cristo sem realmente conhecê-lo como Salvador e, embora se associe com a Igreja como instituição externa, pode não pertencer realmente à Igreja invisível. 22
A tendência, no decurso da história da Igreja, tem sido oscilar entre um extremo e outro. Por exemplo: algumas tradições, como a Católica Romana, a Ortodoxa Oriental e a Anglicana, enfatizam a prioridade da Igreja institucional ou visível. Outras, como a dos quacres e dos Irmãos de Plymouth, ressaltando uma fé mais interna e subjetiva, têm desprezado e até mesmo criticado qualquer tipo de organização e estrutura formal, e buscam a verdadeira Igreja invisível. Conforme observa Millard Erickson, as Escrituras certamente consideram prioridade a condição espiritual do indivíduo e sua posição na Igreja invisível, mas não a ponto de desconsiderar ou menosprezar a importância da organização da Igreja visível. Sugere que, embora haja distinções entre a Igreja visível e a invisível, é importante adotarmos uma abordagem abrangente, de maneira que procuremos deixar as duas serem tão idênticas quanto possível. "Assim como nenhum crente verdadeiro deve estar fora da comunhão, devemos também diligenciar a fim de garantirmos que somente crentes verdadeiros estejam dentro da comunhão". 23
"Seria impossível entender a natureza e o caráter verdadeiros da Igreja (local ou universal, visível ou invisível) sem reconhecer que ela, desde o seu início, tem recebido poder e orientação do Espírito Santo. Pode-se perceber esse fato pelo que Lucas deixou registrado em Atos dos Apóstolos: o início e desenvolvimento da Igreja, as três primeiras décadas da sua existência. As epístolas posteriores do Novo Testamento e a continuação da história da Igreja dão ainda mais ênfase ao papel vital do Espírito Santo na sua trajetória. Imediatamente antes da ascensão, Jesus declarou aos seus discípulos: "Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra" (At 1.8). Com referência ao ministério do Espírito, que viria dentro em breve a revesti-los de poder, Jesus antecipara aos seus seguidores que estes fariam coisas ainda maiores que as que o viam fazer (Jo 14.12). A promessa foi confirmada a partir do derramamento incomparável do Espírito Santo, no dia de Pentecostes.
O leitor de Atos dos Apóstolos fica maravilhado, não somente diante da grande aceitação inicial dos primeiros dons, profecia e exortação, exteriorizados pelo apóstolo Pedro - cheio do Espírito Santo - quando cerca de três mil pessoas foram salvas, mas também diante da continuada aceitação por aqueles que foram alcançados pelo ministério de uma Igreja revestida do poder do Espírito Santo e por Ele equipada (ver At 2.47; 4.4,29-33; 5.12-16 etc). No tocante à mensagem de Pedro no dia de Pentecostes, certo estudioso evangélico (não-pentecostal) declara: "Realmente não podemos explicar os resultados do sermão de Pedro simplesmente pela perícia com que foi preparado e pregado. A razão do seu sucesso acha-se no poder do Espírito Santo". Semelhantemente, o mesmo estudioso declara que a continuada eficácia dos crentes primitivos descrita em Atos dos Apóstolos não pode ser explicada em termos de capacidade e esforço próprios: "Não eram pessoas incomuns. Os resultados eram uma consequência do ministério do Espírito Santo". 24
O Espírito Santo continuava a fortalecer e orientar a Igreja após a era neotestamentária. Contrariamente à opinião popular em alguns arraiais não-pentecostais, os dons e manifestações do Espírito Santo nãc/cessaram no fim da era apostólica, mas continuaram nos séculos que se seguiam ao período do Novo Testamento.25Conforme observado numa seção anterior, há poucas dúvidas de que, à medida que a Igreja se expandia, alcançava existência jurídica e aceitação e se tornava cada vez mais formal e institucionalizada, seu senso de dependência imediata da orientação e capacitação do Espírito começou a desvanecer. Vários movimentos reavivalistas, no entanto, proporcionam evidências históricas de que a posição de destaque do Espírito não foi totalmente esquecida ou desconsiderada.
A Igreja moderna, especialmente os membros alistados entre as centenas de milhões de crentes pentecostais existentes no mundo inteiro, jamais devem perder de vista a importância bíblica e teológica de continuar prestando atenção e obediência à soberana atuação do Espírito de Deus. Suas ações são manifestas, não somente em demonstrações incomuns de poder miraculoso como também de maneira normativa, cuja orientação e assistência é às vezes quase imperceptível (cf. 1 Rs 19.11,12). A Igreja hodierna precisa manter-se receptiva e submissa à direção e suave orientação do Espírito Santo. Somente assim o cristianismo contemporâneo poderá proclamar afinidade com a Igreja do Novo Testamento.
Outra maneira de entender o caráter da Igreja do Novo Testamento é examinando o seu relacionamento com o Reino de Deus (gr. basileia tou theou). O Reino era um dos principais ensinos de Jesus durante seu ministério terrestre. E, na realidade, embora os evangelhos registrem apenas três menções específicas à igreja (ekklêsia, todas declarações de Jesus, registradas em Mt 16 e 18), estão repletos de ênfases ao Reino.
O termo basileia ("reino") é usualmente definido como o governo de Deus, a esfera universal do seu domínio. Seguindo esse modo de entender, alguns fazem distinção entre Reino e Igreja. Consideram que o Reino inclui todas as criaturas celestiais não caídas (os anjos) e os redimidos entre a raça humana (antes e depois dos tempos de Cristo).26 Por contraste, a Igreja consiste mais especificamente de seres humanos regenerados mediante a obra expiadora de Cristo.
Os que defendem tal distinção acreditam também que o Reino de Deus transcende o tempo e tem a mesma duração que o Universo, ao passo que a Igreja tem um ponto inicial específico e também terá um ponto culminante específico, na segunda vinda de Cristo. Partindo-se dessa perspectiva, portanto, o Reino consiste nos redimidos de todos os tempos (os santos do Antigo e do Novo Testamento), enquanto a Igreja consiste naqueles que foram redimidos a partir da obra completa de Cristo (sua crucificação e ressurreição). De conformidade com esse raciocínio, a pessoa pode ser membro do Reino de Deus sem pertencer à Igreja (por exemplo, os patriarcas Moisés e Davi), mas quem é membro da Igreja pertence simultaneamente ao Reino. A medida que mais indivíduos se convertem a Cristo e se tornam membros da Igreja, somam-se também ao Reino, que assim cresce.
Outros interpretam de modo diferente a distinção entre Reino e Igreja. George E. Ladd entendia que o Reino era o reinado de Deus, e a Igreja, por contraste, a esfera do domínio divino - as pessoas sujeitas ao governo de Deus. De modo semelhante ao que distinguem entre Reino e Igreja, Ladd achava que não se deveria equiparar os dois. Pelo contrário, o Reino cria a Igreja, e a Igreja dá testemunho do Reino. Além disso, a Igreja é instrumento e depositária do Reino, como também a forma que o Reino ou reinado de Deus assume na Terra: uma manifestação concreta do governo soberano de Deus entre a raça humana. 27
Outros distinguem Reino de Deus e Igreja por acreditarem ser aquele primariamente um conceito escatológico, ao passo que esta possui uma identidade mais temporal e presente. Louis Berkhof considera que a ideia bíblica primária do Reino é o governo de Deus "reconhecido nos corações dos pecadores mediante a poderosa influência regeneradora do Espírito Santo". Esse governo já é exercido na Terra, em princípio ("a realização presente dele é espiritual e invisível"), mas não o será de modo completo antes da segunda vinda visível de Cristo. Em outras palavras, Berkhof defende um aspecto de "já/ainda não" operando no relacionamento entre o Reino e a Igreja. Por exemplo: Jesus enfatizava a realidade presente e o caráter universal do Reino, concretizados de modo inédito mediante seu próprio ministério. Além disso, Ele oferecia uma esperança futura: o Reino que viria em glória. Nesse aspecto, Berkhof não fica longe das posições teológicas declaradas supra, que descrevem o Reino em termos mais amplos que a Igreja. O Reino (palavras dele) "visa nada menos que o total controle de todas as manifestações da vida. Representa o domínio de Deus em todas as esferas da atividade humana". 28


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