quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Lição 1: Mateus, o Evangelho do Rei











E aconteceu que, apertando-o a multidão para ouvir a palavra de Deus, estava ele junto ao lago de Genesaré. E viu estar dois barcos junto à praia do lago; e os pescadores, havendo descido deles, estavam lavando as redes. E, entrando num dos barcos, que era o de Simão, pediu-lhe que o afastasse um pouco da terra; e, assentando-se, ensinava do barco a multidão. E, quando acabou de falar, disse a Simão: faze-te ao mar alto, e lançai as vossas redes para pescar. E, respondendo Simão, disse-lhe: Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamos; mas, porque mandas, lançarei a rede. E, fazendo assim, colheram uma grande quantidade de peixes, e rompia-se-lhes a rede. E fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco, para que os fossem ajudar. E foram e encheram ambos os barcos, de maneira tal que quase iam a pique. E, vendo isso Simão Pedro, prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo: Senhor, ausenta-te de mim, por que sou um homem pecador. Pois que o espanto se apoderara dele e de todos os que com ele estavam, por causa da pesca que haviam feito, e, de igual modo, também de Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. E disse Jesus a Simão: Não temas; de agora em diante, serás pescador de homens. E, levando os barcos para terra, deixaram tudo e o seguiram.
Lucas 5.1-11

Frustração! Algo que poderia ter sido, e não foi. Algo que poderia ter acontecido, e não aconteceu. Um sentimento de desalento invade o coração, pois algo que era tão desejado e almejado não se realizou e entrou para o campo das possibilidades perdidas.

Provavelmente, você também já se sentiu frustrado como Simão Pedro naquele momento em que ele lavava sua rede, voltando de uma pescaria que não deu certo. Nem um peixe sequer pescou. O desânimo e a falta de inspiração pareciam um martelo batendo forte em sua consciência.

Uma frase de Robert Mallet (1810-1881), um geólogo irlandês, define bem esse sentimento: “O que mais desespera não é o impossível, porém, o possível não alcançado”.
Era simplesmente mais uma pescaria. Algo que ele passou boa parte da vida fazendo e sabia como fazer bem, mas, dessa vez, Simão não teve sucesso. Voltou do mar, ancorou sua embarcação e, ainda na praia, lavava as suas redes para guardá-las. De repente, o carpinteiro de Nazaré, Jesus, chega ao porto do lago de Genesaré e vê um grupo de pescadores profissionais que havia dedicado toda a noite anterior a fazer seu trabalho, porém nem ao menos um pequeno peixe foi alcançado por suas redes pesqueiras. Do anoitecer ao amanhecer, foram horas e horas de trabalho intenso, e nada. Os peixes sumiram!

Os barcos foram ancorados no porto e os pescadores, descendo deles, começaram a lavar suas redes, as quais provavelmente seriam guardadas.
Jesus, vendo aquela cena, entrou em um dos barcos e começou a pregar Seu sermão para uma multidão que atentamente observava tudo o que Ele dizia e fazia.

Logo depois, Jesus fez um convite a esses pescadores para se tornarem Seus discípulos. Eles se tornariam pregadores da Palavra. A partir disso, foram incumbidos de uma missão extraordinária que marcou suas vidas e também a história da humanidade.
Inúmeras pessoas ao longo do tempo tomaram-nos como exemplos por terem sido os primeiros discípulos de Jesus. Homens que foram chamados pessoalmente por Ele a fim de que dessem seguimento à missão de anunciar as boas-novas de salvação. A história do Cristianismo passa por eles e chega até os nossos dias.

Esse texto bíblico escrito por Lucas é um dos mais mencionados e pregados. E, neste livro, faremos uma análise de como foi o chamado de Simão Pedro. Veremos o que a rede simbolizou na vida desse homem chamado por Deus, um dos discípulos que Jesus escolheu.

Atualmente, temos muitas traduções dos textos bíblicos, também há muitas bíblias de estudos e comentários (graças a Deus por isso!). É comum encontrarmos títulos diferentes para esse texto do quinto capítulo de Lucas. Em alguns casos, seus subtítulos vão nomear esse episódio de “A pesca milagrosa”, outros ainda o reconhecem como “O chamado aos primeiros discípulos” e a versão King James Atualizada (1611) diz: “Jesus convoca seus discípulos”. Contudo, em todos percebemos que o objetivo central do texto é o chamado, a convocação dos primeiros discípulos do Mestre.
Não sei quanto do seu tempo você tem dedicado ao estudo da Palavra de Deus, mas, caso você não seja alguém que tenha o hábito estudá-la e apenas a lê superficialmente, no momento em que ler apenas os 11 versículos que narram essa história no quinto capítulo do Evangelho de Lucas, você terá uma impressão. Acredito que para a maioria das pessoas será assim. Você vai acreditar que esse é o primeiro encontro entre Jesus e os pescadores. Parece que Cristo encontrou um grupo de homens frustrados por uma noite ruim de trabalho, movidos por algum sentimento que desconhecemos.

Jesus vai convidá-los a abandonarem tudo e a tornarem-se Seus discípulos (caso você não tenha lido os capítulos anteriores e posteriores). Se não tiver lido os outros Evangelhos, esta será a sua primeira impressão. Todavia, a análise do contexto de um texto é uma das regras básicas para a interpretação bíblica.
Apesar disso, ouvimos e lemos tantas questões equivocadas acerca da Palavra de Deus. Alguns fazem isso por ignorância, outros, por inocência ou má intenção.

Assim, acabam isolando um texto e extraindo uma aplicação errada do que realmente a Palavra de Deus quer dizer. Por conta disso, um grupo extenso de pessoas vai sendo enganado e, muitas vezes, há ensinos errados no que diz respeito à vida espiritual. Tudo depende de como interpretam a Bíblia.
Entretanto, esse não é o foco deste livro. Portanto, essas questões teológicas terão de ficar para outro momento, ou, quem sabe, para outro livro.

Neste livro, em conjunto com você, caro leitor, quero analisar o chamado dos primeiros discípulos, essa história empolgante e profética. Em especial, o chamado de Simão Pedro.
Se olharmos para outros textos bíblicos, e certamente faremos isso no decorrer deste livro, descobriremos que esse não foi o primeiro encontro de Jesus com aqueles homens. Eles já o conheciam e também eram conhecidos por Ele. Entre os pescadores frustrados, encontrava-se Simão, também conhecido como Simão Pedro, um dos homens mais importantes da Igreja primitiva. Porém, nesse capítulo, ele ainda era apenas um pescador frustrado e decepcionado com a noite improdutiva de trabalho.

Simão e Jesus se conheciam de outras ocasiões, já haviam se encontrado em outros lugares. Simão sabia quem era aquele pregador e carpinteiro nazareno. Por sua vez, Jesus conhecia bem quem era o pescador galileu chamado Simão e tinha planos extraordinários reservados para ele.

O mesmo Jesus que revolucionou a vida de Pedro tem planos sobrenaturais também para a nossa vida! Convido você a embarcar comigo neste livro, a conhecer essa história e a descobrir que momentos de aparente frustração não podem interromper o seu chamado!

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TEXTO BÍBLICO BÁSICO

Mateus 2.1-10
1 - E, tendo nascido Jesus em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do Oriente a Jerusalém,
2 - e perguntaram: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos a adorá-lo.
3 - E o rei Herodes, ouvindo isso, perturbou-se, e toda a Jerusalém, com ele.
4 - E, congregados todos os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo, perguntou-lhes onde havia de nascer o Cristo.
5 - E eles lhe disseram: Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pelo profeta:
6 - E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as capitais de Judá, porque de ti sairá o Guia que há de apascentar o meu povo de Israel.
7 - Então, Herodes, chamando secretamente os magos, inquiriu exatamente deles acerca do tempo em que a estrela lhes aparecera.
8 - E, enviando-os a Belém, disse: Ide, e perguntai diligentemente pelo menino, e, quando o achardes, participai-mo, para que também eu vá e o adore.
9 - E, tendo eles ouvido o rei, partiram; e eis que a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando, se deteve sobre o lugar onde estava o menino.
10 - E, vendo eles a estrela, alegraram-se muito com grande júbilo.

TEXTO ÁUREO
"E foi Jesus apresentado ao governador, e o governador o interrogou, dizendo: És tu o Rei dos judeus? E disse-lhe Jesus: Tu o dizes." Mateus 27.11

ORIENTAÇÕES PEDAGÓGICAS
Nobre professor,
Cada evangelista expõe um aspecto diferente do Mestre: Mateus apresenta Jesus como Rei; Marcos, como Servo de Deus; Lucas, como Filho do Homem; e João, como Filho de Deus.
Nesta lição, veremos Mateus apresentar Jesus como o Rei prometido de Israel; concomitantemente, analisaremos o impacto dessa revelação.
Pelo fato de Mateus enunciar a realeza de Cristo, é interessante iniciar a aula trazendo à memória dos alunos os nomes dos grandes reis da terra que tiveram suas histórias desbotadas pelo tempo e, com isso, traçar um paralelo entre eles e Jesus, cujo nome e mensagem continuam tendo total relevância e proeminência na História — esse é um excelente recurso didático.
A leitura das referências bíblicas é um excelente modo de envolver os alunos na dinâmica da aula; por essa razão, sempre que possível, peça a um voluntário para declamá-las e interpretá-las dentro do contexto.
Tenha uma excelente aula!

Palavra introdutória
O Evangelho de Mateus ocupa um lugar de destaque na Bíblia, sendo a ponte que conecta o Antigo ao Novo Testamento.
As alusões que o evangelista faz aos textos veterotestamentários reiteram tal assertiva. Tradicionalmente, desde a Igreja primitiva, atribui-se a escrita do livro ao apóstolo Mateus, também chamado Levi, ex-coletor de impostos (Mt 9.9; Lc 5.27).
No há evidências sólidas que nos permitam indicar, com precisão, a data e o local de origem do referido texto, mas acredita-se que tenha sido escrito por volta de 50–70 d.C., na região da Antioquia.
Evidentemente, quando lemos a Bíblia para edificação da nossa fé e crescimento espiritual, as questões analíticas são sempre válidas, porém, secundárias. O alvo principal de nossa relação com as Escrituras é crer no plano redentivo, perpetrado na cruz, em favor da humanidade.
A mensagem do evangelho não começa com um “era uma vez...”; ela foi cravada nas páginas da História, tendo como tônica o poderoso nome de Jesus, o Cristo. Isto nos faz ter a certeza de que a nossa fé não está consolidada em uma fábula ou em um conto fictício, mas em um fato histórico verdadeiro.
Observamos, na conclusão do Antigo Testamento, que a nação escolhida aguardava a chegada do Messias, há tanto tempo prometido. Mateus mostra e comprova que Jesus é esse Rei.
Nesta lição, veremos como a profecia messiânica cumpriu-se na História, ressaltando o impacto que tal evento produziu nos homens daquela era e de todos os tempos.

1. LINHAGEM INCOMPARÁVEL
Um rei não é escolhido por meio de processos eleitorais; sua condição de soberano é determinada no nascimento. As genealogias são usadas para autenticar a origem das linhagens reais e comprovar a nobreza de quem está no trono e dos seus sucessores.
No primeiro versículo do primeiro capítulo de seu Evangelho, Mateus já anuncia a substância e o propósito de seus escritos: Livro da genealogia de Jesus Cristo (ARA). Ambientado em uma atmosfera messiânica, o ex-coletor de impostos afirma que Jesus é o esperado filho do rei Davi (Mt 1.1; conf. 2 Sm 7.8-13) e filho de Abraão, em quem todas as famílias da terra seriam abençoadas (Mt 1.1; conf. Gn 12.3). Mateus conecta Jesus às duas grandes alianças estabelecidas entre Deus e Israel.

1.1. Filho de Davi
Na História, Abraão antecede Davi cerca de mil anos. Partindo desta premissa, primeiro, Jesus seria filho de Abraão e, depois, filho de Davi, mas Mateus cita propositalmente o nome de Davi antes do de Abraão, na intenção — ao que tudo indica — de destacar Sua realeza.
Naquele tempo, os judeus esperavam a consolação de Israel (Lc 2.25), um rei maior e mais poderoso do que Davi, e Mateus começa seu Evangelho afirmando que Jesus é esse Rei. A grandeza gloriosa e a superioridade de Cristo residem no fato de Ele — mesmo sendo filho de Davi — ser também, inquestionavelmente, o Senhor de Davi (Mt 22.41- 46), comprovando, assim, Sua origem divina. Vale destacar que, toda vez que alguém o chamava de filho de Davi [como os cegos (Mt 9.27-31) e a mulher Cananeia (Mt 15.21-28), por exemplo], Jesus parava e realizava um milagre — esse vocativo (filho de Davi) revelava que o interpelante havia reconhecido Sua realeza.
Em Apocalipse 22.16, Jesus declara: Eu sou a Raiz e a
Geração de Davi. Segundo Warren W. Wiersbe, Jesus
é a Raiz, porque é eterno e deu a vida a Davi; e Ele é a
Geração, pelo fato de Seu nascimento humano estar
ligado à linhagem de Davi (Rm 1.1-4).

1.2. Filho de Abraão
Depois de demonstrar sua fé e obediência a Deus no monte Moriá, Abraão recebeu a promessa direta do Senhor de que todas as nações da terra seriam benditas em sua semente (Gn 22.18). Naquela ocasião específica, o Eterno revelou ao patriarca que ele seria o progenitor do povo que daria o Rei e Messias ao mundo. Abraão entendia que o nascimento de Isaque prepararia o caminho para a vinda do Messias; ele não esperava que seu filho viesse a ser, por si, a esperança da humanidade.
Deste modo, quando Mateus apresenta Jesus como Filho de Abraão (Mt 1.1), ele identifica-o com o Filho da promessa.
O bendito Salvador é Filho de Abraão por excelência; entretanto, Ele é maior do que Abraão: Em verdade, em verdade vos digo que, antes que Abraão existisse, eu sou (Jo 8.58).
Em Sua infinita graça e misericórdia, Deus, por intermédio de Cristo, abençoa todos aqueles que exercitam sua fé, assim como Abraão (Gl 3.6,7).

1.3. Improváveis ascendentes
Algumas dinastias reais omitiam de suas genealogias quem pudesse desonrar a nobreza, mas é incrível como Deus faz diferente: Ele inspira Mateus a incluir pessoas completamente improváveis na genealogia do Rei Jesus.
Se dividirmos os 17 primeiros versículos do primeiro capítulo do Evangelho de Mateus em três blocos de 14 gerações (Mt 1.1-5, 6-10, 11-17), entre elas encontraremos a citação do nome de algumas mulheres, a saber: Tamar (Mt 1.3); Raabe e Rute (Mt 1.5); Bate-Seba (Mt 1.6); e Maria (Mt 1.16). Este fato, em si, é, no mínimo, incomum, pois, de modo geral, nomes femininos não eram incluídos nas genealogias.
Mateus quer sublinhar a maneira como Deus se faz presente e operante na História, ressaltando que até os excluídos são acolhidos por Sua misericórdia. Essas mulheres ilustram a graça divina; elas foram instrumentos de Deus para dar continuidade à promessa messiânica.
O Redentor foi trazido ao mundo não por demandas biológicas da Natureza, mas por Sua graça imprevisível, que sempre esteve na base da Promessa.
Do tronco de Jessé sairá um rebento, e das suas
raízes um renovo [hb.:netzer] (Is 11.1 ARA). O
exílio judaico na Babilônia reduziu a dinastia davídica
a um toco. O profeta Isaías está dizendo, nesse verso,
que desse toco cresceria um galho (ou renovo),
que reavivaria a dinastia messiânica: o Rei Jesus,
descendente de Davi.

2. O NASCIMENTO DO REI
Jesus nasceu em Belém da Judeia, como anunciou Miqueias (5.2). Assim como Davi era de Belém, Jesus, o Filho de Davi, também seria.

2.1. O cumprimento da promessa
Para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor pelo profeta. Mateus expressa essa ideia com certa frequência (Mt 1.22; 2.5,15,17,23). O objetivo do evangelista parece claro: provar que seus escritos estavam em consonância com os vaticínios proféticos; ambos se cumpriam na pessoa e no Reino de Jesus Cristo.

2.2. A primeira perseguição
Apenas Mateus descreve a visita dos magos (sábios; conf. KJA) do Oriente que foram honrar e adorar o Rei dos judeus (Mt 2.2), oferecendo-lhe ouro (destacando Sua realeza), incenso e mirra (Mt 2.11).
O alarme de Herodes teve origem no fato de o nascimento de Jesus introduzir um rival político em suas expectativas de governo — ao menos assim pensava o soberano de Jerusalém.
Em outras palavras, significa dizer que a primeira perseguição que Jesus sofreu deu-se em razão de ser Ele um Rei.

3. O REI É ANUNCIADO
Os reis da terra tinham arautos que anunciavam sua chegada às províncias do reino; de igual modo, como predisse Malaquias (3.1), o Rei messiânico teria um arauto, um precursor, que anunciaria e autenticaria Seu advento entre os homens. Esse homem foi João, o batista. Neste ponto, vale destacar que os quatro evangelistas, embora tenham relatado de maneira distinta a vida e a obra de Jesus, incluíram algum detalhe do ministério de João Batista, antes de descreverem Seu ministério (Mt 3.1-17; Mc 1.1-8; Lc 3.1-20; Jo 1.6-9, 19-27). Isso é notável!
A expressão Reino dos céus não é a indicação literal de
um território; ao contrário, remete à ideia de um governo
dinâmico exercido por Deus sobre os Seus súditos. Foi
falando a respeito desse tema que João preparou o
caminho para Jesus adentrar o cenário histórico.

3.1. O arauto do Rei
É chegado o Reino dos céus (Mt 3.2). João Batista, como arauto, anunciava essa mensagem, enfatizando que o Rei eterno implantaria Seu reinado celestial entre os homens.
A proximidade do Reino e a presença do Rei confirmavam que a expectativa de uma intervenção salvadora de Deus — alimentada pelos judeus durante tanto tempo — estava, a partir daquele momento, disponível a todos. João Batista sempre deixou claro para os seus ouvintes que o Rei-salvador — prometido e esperado — não era ele, mas, sim, aquele que viria depois dele, cujas sandálias nem era digno de levar (Mt 3.11).

3.2. O manifesto do Rei
Entende-se por manifesto uma declaração pública de princípios e intenções, que tem por objetivo alertar sobre um problema ou fazer uma denúncia. Certamente esta é a melhor definição para a mensagem de João Batista.
Estando às margens do Jordão, o batizador declara o seguinte manifesto: a chegada do Rei Jesus, trazendo consigo o Seu Reino, cumpria uma dupla função (Mt 3.12); ao mesmo tempo que impunha duas indispensáveis condições para aqueles que desejassem ser participantes desse Reino (Mt 3.2,8). Observe.
Primeira função: recolher o trigo no celeiro (Mt 3.12)
— uma referência à salvação;
Segunda função: queimar a palha com fogo que nunca se apagará (Mt 3.12)
— uma referência à condenação;
Condições: arrependei-vos e produzi frutos dignos de arrependimento (Mt 3.2,8)
— requisitos indispensáveis para os súditos celestiais desfrutarem da salvação e tornarem-se livres da condenação.

4. O TRIUNFO DO REI

4.1. Triunfo sobre o pecado e o mundo
A missão messiânica do Rei Jesus está explícita em cada página do Evangelho de Mateus; o auge de Seu ministério não reside, exclusivamente, no fato de Ele ter vencido o pecado, mas na realidade de nós também podermos vencê-lo, por meio do pacto de sangue que Cristo firmou com a humanidade na cruz do Calvário, estabelecendo, assim, uma Nova Aliança (Mt 26.28).

4.2. Triunfo sobre o reino das trevas
Mateus começa e termina o seu Evangelho descrevendo Jesus como Rei. No relato da crucificação, o evangelista enfatiza que por sobre a cabeça do Salvador, na cruz, havia uma placa em que se podia ler (em letras gregas, romanas e hebraicas; conf. Lucas 23.38): ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS (Mt 27.37). Os algozes do bendito Senhor pensavam tratar-se apenas de outra zombaria; no mundo espiritual, todavia, esta era uma declaração insuspeita, efetiva e fundamentada. Na cruz, o Filho de Deus venceu o reino das trevas para estabelecer entre os homens o Seu Reino eterno (Cl 2.14,15).

CONCLUSÃO
A declaração de Jesus, em Mateus 28.18, mostra-nos o Seu triunfo como Rei universal: É-me dado todo o poder no céu e na terra. A expressão “no céu e na terra” denota um domínio cósmico, cujos propósitos não podem ser detidos pelo império das trevas (Fp 2.9-11).
Os homens chegaram a pensar que Cristo havia morrido, e Seu Reino, fracassado, mas Seu triunfo sobre o túmulo assegura-nos que o Rei está vivo e um dia voltará.
Jesus é a derradeira e única Esperança de Israel e da humanidade.
Ele veio como o Rei-salvador, para voltar como Rei dos reis e Senhor dos senhores. Aleluia!
  Lições Bíblicas nº 57
  REVISTA CENTRAL GOSPEL




                                      INTRODUÇÃO


O Evangelho de Mateus foi o evangelho mais lido e estudado nos primórdios do Cristianismo (STANTON, 1999. p. 136). Dentre outras razões para esse destaque nesse período, enfatiza-se o fato que, inicialmente, a autoria era atribuída a Mateus, discípulo que caminhou com Jesus e os primeiros apóstolos. Outra razão é por ser apresentado com uma estruturação marcadamente didática, distribuído em um preâmbulo, na sequência cinco blocos narrativos alternados com cinco blocos discursivos e o epílogo:

                                1. Preâmbulo:
 Introdução e genealogia de Jesus (Mt 1-2). 

                                2.Cinco blocos narrativos:
 1) Batismo e tentação de Jesus (Mt 3-4);
 2) Ministério na Galileia (Mt 8-9); 
3) Reações à proclamação e sinais de Jesus (Mt 11-12);
 4) O desenvolvimento do seguimento de Jesus (Mt 13.54-17.27); 
5) O ministério na Judeia e Jerusalém (Mt 19-23). 

                               3. Cinco blocos discursivos:
 1) Sermão da Montanha (Mt 5-7); 2) o Discurso Missionário (Mt 10); 
3) o Discurso em Parábolas (Mt 13), 
4) o Discurso sobre a Comunidade Cristã (Mt 18); 
5) os Discursos Escatológico e Apocalíptico (Mt 24-25). 

4. Epílogo: Morte e Ressurreição de Jesus.

Alguns autores, ao compararem o Evangelho de Mateus com o de Marcos, afirmam que ele é menos vivo e interessante do que este. Sean Freyne (1996, p. 68) afirma que “há muito tempo se reconhece que ao reescrever a narrativa de Marcos, Mateus adotou um estilo menos vivo, mais hierático e distanciado que o de Marcos”. No entanto, a limitação em termos narrativos e de retórica em comparação com o Evangelho Marcos é compensada pelo caráter didático de Mateus e a forte ênfase no ensino de Jesus, o que o torna efetivamente interessante. Isso ficará perceptível no decorrer dos capítulos deste livro. O Evangelho de Mateus, mesmo contendo textos antigos que foram escritos para determinada comunidade em situações específicas e históricas, contém ensinamentos que, a partir da realidade atual, fortalece a Igreja para o testemunho do Reino de Deus e de sua justiça. O Evangelho Mateus descreve a vida e obra de Jesus de tal forma que se torna um manual de instrução sobre o estilo de vida cristã que Deus planejou para que sua Igreja seja o sal da terra e luz do mundo até a parúsia (volta de Cristo). Para atender o objetivo deste livro, apoio às Lições Bíblicas Jovem da CPAD com mesmo tema, ele não se propõe a ser um comentário com aprofundamento exegético. Os comentários seguirão, prioritariamente, uma abordagem bíblica, teológica e pastoral. Neste mesmo objetivo, o famoso Sermão do Monte (Mt 5-7) será abordado no apêndice deste livro, uma vez que o tema já foi objeto de estudo no segundo trimestre de 2017.

O EVANGELHO DE MATEUS (Mt 1.1-17)

Este capítulo tratará das questões introdutórias de Mateus, da genealogia de Jesus que o une a duas grandes figuras do Antigo Testamento, Davi e Abraão. União que vai dar base á teologia de Mateus ao apresentar Jesus como Messias esperado pelos judeus, bem como à promessa universal feita a Abraão, tanto pai da nação judaica, como pai de todo aquele que crê como ele creu (Gn 15.6). Ao final será abordado sobre os principais temas teológicos de Mateus.

I.                    Questões Introdutórias ao Evangelho de Mateus

Antes da leitura do conteúdo do texto final dos livros bíblicos faz-se necessário conhecer algumas informações que não estão no texto, bem como uma visão panorâmica sobre a intenção do autor ou do redator final. Essa abordagem auxilia a interpretação e o entendimento da mensagem. O bom senso e disposição para aprender são indispensáveis no estudo dos textos bíblicos. Neste tópico conheceremos um pouco mais sobre: a autoria, a datação, a importância da genealogia de Jesus, o propósito e a teologia que perpassa o Evangelho de Mateus.
a
                                           .       Questões sobre a autoria e datação

Nenhum dos evangelhos informa em seu texto o nome do autor. Algumas pessoas pensam equivocadamente que os títulos dos evangelhos fazem parte do texto original e são garantias de autoria. Os primeiros leitores tinham as primeiras palavras como título do livro. Os títulos que conhecemos atualmente foram incluídos posteriormente e não faziam parte do texto original. Essa é uma das causas da dificuldade para datação exata de alguns dos textos bíblicos.
Agostinho (354-430), em sua obra “De consenso evangelistarum”, escrita por volta de 400 d.C., marcou profundamente e por longo tempo (até o século XIX) a interpretação dos evangelhos. Nessa obra, ele afirma que os evangelhos foram produzidos na ordem em que aparecem no cânon cristão, sendo o Evangelho de Marcos um resumo de Mateus. Segundo ele, Lucas escreve por último, usando os dois anteriores como fonte de pesquisa (KÜMMEL, 1982, P. 44). Com isso, defende a autoria do discípulo de Jesus, o apóstolo Mateus e, consequentemente, uma data mais próxima dos acontecimentos narrados no evangelho. No entanto, com o surgimento da analise comparativa dos três primeiros evangelhos em conjunto (Mateus, Marcos e Lucas) as opiniões dos principais estudiosos dos evangelhos começaram a mudar.

 Os estudos teológicos nas últimas décadas evoluíram com o auxílio de ciências e metodologias como a antropologia, arqueologia, sociologia, teoria literária, entre outras. Os principais estudiosos dos evangelhos das últimas décadas como Lanchmann, C.H. Weisse, C. G. Wilke, Graham N. Stanton, Donald Senior, David Aune, Ulrich Luz, entre outros, trouxeram grandes contribuições para a interpretação dos evangelhos.
Entre os estudiosos há a tendência que aponta uma fonte comum aos três primeiros evangelhos denominada de fonte “Q”. O evangelho de Marcos seria o primeiro benificiário da fonte “Q” e teria servido aos autores de Mateus e Lucas para a escrita de seus evangelhos, acrescidos de novos textos (fonte M e L), pois muito sobre o cristianismo, além de outros textos escritos, também era alimentado de conhecimento popular por meio da tradição oral.

Leonel (2013, p. 19), que tem se dedicado a trabalhos recentes de mestrado e doutorado em pesquisa sobre o Evangelho de Mateus, ao analisar sobre a teoria das fontes faz uma interessante observação: “[...] É importante esclarecer as limitações dessa abordagem, reconhecendo que as fontes Q, M e L são uma hipótese literária, visto que não existem concretamente, sendo conhecidas apenas pelas comparações entre os evangelhos sinóticos”. Carson, Moo e Morris (1997, p.43) afirmam que essa hipótese deve ser tratada “mais como uma teoria funcional do que como uma conclusão concreta”.
 Desse modo, a definição de autoria, data e lugar de escrita variam de acordo com as posições dos estudiosos. Assim, a autoria defendida pela tradição mais conservadora é atribuída a Mateus, o apóstolo, enquanto que a interpretação mais crítica defende autoria anônima e/ou por mais de um autor. O que predomina é a concordância quanto à autoria de um judeu convertido ao cristianismo. A datação varia entre 60 e 100 d. C.

As opiniões sobre o local da escrita variam entre a região situada entre a Galileia e a Antioquia, como na região situada entre norte da Galileia e sul da Síria. O local entre a região da Galileia até a Antioquia. Leonel (2013, p. 25) afirma que “recentemente, a inclinação a favor da Galileia tem ganhado força”.

A tendência conclusiva dos estudiosos é a autoria de um judeu da comunidade mateana, que provavelmente escreveu na região da Galileia (região da cidade de Séforis ou Tiberíades) entre 80 a 85 d.C. A região norte da Galileia e sul da Síria é apontada neste evangelho como o local do chamado dos discípulos e do início do ministério de Jesus. Uma região desprezada e descartada pelos principais eruditos judeus como provável região do surgimento do Messias. Portanto, o conteúdo do  Evangelho de Mateus contribui para esse posicionamento.
 Contudo, as divergências apontadas nesta apresentação das questões introdutórias de Mateus não comprometem a interpretação do texto final do evangelho.

b                   .      Relação sinótica dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas

  Da palavra grega synopsis, que significa “visão de conjunto”. A primeira vez em que os três primeiros evangelhos foram colocados em três colunas com objetivo de compará-los foi em 1776. 

Dessa forma, J. J. Griesbach foi o primeiro a introduzir a denominação com a sua sinopse dos evangelhos sinóticos (KÜMMEL, 1982, p. 35). Entretanto, os rumos do estudo dos evangelhos realmente começam a mudar com o artigo de Karl Lachmann “De Ordine Narrationum in Evangelis Synopticis”, escrito em 1835. Ele analisa de forma mais apurada e sinótica os três evangelhos, demonstrando por meio da organização e ordem dos acontecimentos que o Evangelho de Marcos, provavelmente tenha se utilizado de uma fonte anterior e tenha sido redigido antes de Mateus e Lucas.

Em uma análise da organização narrativa da vida de Jesus no Evangelho de João comparada com a dos livros sinóticos fica evidente a diferença entre eles. Portanto, o motivo desse evangelho não pertencer ao grupo. Carson, Moo e Morris (1997, p. 19) fornecem uma síntese comparativa dos evangelhos elucidativa quanto às diferenças entre estes:

Quanto ao conteúdo, os três primeiros evangelistas narram muitos dos mesmos acontecimentos, concentrando-se nas curas, exorcismos e ensinos por meio de parábolas realizadas por Jesus. João, embora narre algumas curas significativas, não traz qualquer relato de exorcismo nem parábolas (pelo menos das do tipo encontrado em Mateus, Marcos e Lucas). Além disso, muitos dos acontecimentos que consideramos característicos dos três primeiros evangelhos estão ausentes em João: o envio dos Doze, a transfiguração, o sermão profético, a narrativa da última ceia.

As similaridades entre os três evangelhos sinóticos conduzirão em determinados momentos a análise de Mateus. Determinados textos de Mateus serão interpretados com o auxílio de leituras de textos paralelos dos evangelhos de Marcos e Lucas, quando eles se complementarem. Apesar das semelhanças até na organização dos assuntos desenvolvidos nos evangelhos sinóticos, Mateus e Lucas possuem maior volume e, consequentemente, maior detalhamento de alguns episódios. Um dos exemplos é a narrativa da tentação de Jesus, que é mais rica em detalhes em Mateus e Lucas (Mt 4.1-11; Lc 4.1-13) em relação a Marcos (Mc 1.12,13). Assim, como acontece também com a inclusão de alguns eventos como a infância de Jesus em Mateus 1-2 e Lucas 1-2, além de sermões e discursos (Mt 5-7 ; Mt 10; 23; Lc 6.17-49), ausentes em Marcos. Desse modo, os Evangelhos de Mateus e Lucas contém um conteúdo maior, mas as semelhanças entre os três evangelhos (Mateus, Marcos e Lucas) deram-lhes o título de evangelhos sinóticos.
                                 .       Estrutura do Evangelho de Mateus

Muitos cristãos têm o hábito de ler Mateus por etapas, ou seja, fazem a leitura de um texto aqui, a leitura de outro ali, e assim vai. Às vezes, escolhem os textos por afinidade ou curiosidade. No entanto, um livro bíblico não é elaborado ao acaso, ele obedece a certa estruturação, na qual o autor ou redator final seguiu para passar sua mensagem. Portanto, quanto mais próximo da estrutura elaborada pelo autor, mais perto estaremos de sua intenção. Todavia, nem sempre essa é uma tarefa fácil. Uma estrutura bem elaborada não garante uma boa interpretação, mas estrutura mal elaborada pode comprometer a interpretação de um livro.
Porém, no Evangelho de Mateus algumas coisas saltam aos olhos, como exemplo o fato dele ter sido organizado em blocos narrativos e discursivos. Segue abaixo uma proposta de estrutura para a leitura e interpretação do Evangelho de Mateus, destacando esses blocos e suas interações:




Texto                   Descrição

Mateus 1, 2 Introdução, genealogia que demonstra a origem messiânica e divina de Jesus.

Mateus 3, 4 1º Bloco narrativo: Batismo de Jesus, superação das tentações que geram injustiças, proclamação do Reino e chamada dos discípulos.

Mateus 5-7 1º Bloco discursivo - Discursos do Sermão do Monte: Jesus explica o que é justiça e como ela produz a libertação e a felicidade do Reino dos céus.

Mateus 8, 9 2º Bloco narrativo - Ministério na Galileia: Libertação de opressão e enfermidades (doenças, paralisia, possessões, perigos, pecado, morte, cegueira, entre outras). Constatação que a seara é grande e poucos são os ceifeiros.

 Mateus 10 2º Bloco discursivo - Discurso Missionário: Chamado, capacitação e treinamento dos discípulos para continuidade da missão de libertação por meio da justiça do Reino dos céus.

Mateus 11, 12 3º Bloco narrativo: Reações à proclamação e sinais de Jesus: admiração e alegria dos discípulos e injustiçados e conflitos com os principais líderes religiosos do judaísmo.

Mateus 13.1-53 3º Bloco discursivo - Discursos das Parábolas do Reino: As parábolas explicam sobre os obstáculos para implantação do Reino da justiça e qual seria o futuro do Reino.

Mateus 13.5417.27 4º Bloco narrativo: O desenvolvimento do seguimento de Jesus com a proclamação do Reino e sinais que se expandem cada vez mais.
Mateus 18 4º Bloco discursivo - Discurso Eclesial: Menção da igreja como comunidade de proteção, perdão e misericórdia.

Mateus 19-23 5º Bloco narrativo - Ministério na Judeia e Jerusalém: O caminho para Jerusalém intensifica os conflitos com os principais do poder central da religião judaica até culminar com a decisão fatal contra Jesus

 Mateus 24-25 5º Bloco discursivo - Discurso Escatológico: Anuncio da destruição de Templo e de Jerusalém e uso da tipologia para anuncio de eventos escatológicos e apocalípticos da vinda do Filho do Homem e o fim dos tempos.

Mateus 26-28 Conclusão - a Páscoa da Libertação: A morte e ressurreição de Jesus marcam um novo tempo, a libertação por meio de seu ato de justiça. A igreja, formada pelos seus discípulos, dará continuidade à proclamação e sinais do Reino em todas as nações, mediante a presença espiritual contínua de Cristo, até seu retorno triunfal e glorioso.

A estruturação acima demonstra como Mateus faz com requinte a relação entre agrupamentos narrativos e discursivos, preservando a ênfase nos discursos de Jesus. Como exemplo a conexão entre o agrupamento narrativo (Mt 3-4; 8-9) e o agrupamento discursivo do famoso Sermão do Monte (Mt 5-7; 10). Assim, Mateus dá ênfase no ensino de Jesus. Devido ao propósito deste livro, apoio ao estudo das lições bíblicas de jovens sobre Mateus, não será seguida essa estrutura na sua totalidade e priorizado a sequência das lições, com subsídios adicionais.
d                   
                                    .      O propósito do Evangelho de Mateus
A visão panorâmica fornecida com a estrutura proposta para o Evangelho de Mateus norteia o caminho a ser seguido para um estudo sistemático e proveitoso. Todavia, no que se refere ao propósito, o autor do Evangelho de Mateus não faz declarações diretas sobre sua intenção ao escrever o evangelho. Por isso, a diversidade de definições e perspectiva pelos estudiosos do Novo Testamento. A estrutura dá uma pista acerca do lugar que autor intentava chegar, ou seja, qual era o seu propósito. No entanto, segue abaixo análise de propósito, considerando as perspectivas:
17

O Evangelho de Mateus (Mt 1.1-17)

• Teológica: A obra e vida de Jesus anunciam a chegada do Reino messiânico, cumprimento da Lei, profetas e salmos do Antigo Testamento. No entanto, somente será consumado após a sua Segunda Vinda. Figuras importantes: Filho de Deus, Emanuel, Messias, Filho de Davi, Filho do Homem.
 • Didática: Os principais líderes religiosos judaicos rejeitaram a Jesus e não reconheceram sua messianidade. Portanto, pecaram e correm perigo da condenação por manterem essa postura mesmo após a ressurreição. Justificativa para o juízo sobre o Templo e a cidade santa de Jerusalém.
• Apologética: O Reino implantado por Cristo permanece no mundo desde que os seus seguidores se submetam à sua autoridade conquistada. Além de seguir seu exemplo vencendo as tentações, superando as perseguições, ensinando e vivendo sua doutrina, discipulando as nações e sendo suas testemunhas até o fim.
 • Escatológica: O Reino escatológico e vitorioso é garantido com a vida, morte, ressurreição e exaltação de Jesus.

A leitura do evangelho revela um esforço do autor em proporcionar um diálogo entre judeu-cristãos e cristãos. Os evangelhos e as epístolas do Novo Testamento confirmam que esse diálogo foi prejudicado por falta de consenso em algumas questões, que nem sempre eram prioritárias. Todavia, neste evangelho fica evidenciado que uma coisa não se poderia abrir mão, Jesus como figura messiânica que cumpriu por meio de sua vida e obra a predição do Antigo Testamento e que implantaria um Reino diferente da expectativa humana até então, um Reino verdadeiramente justo e bom.

II.                  A Genealogia de Jesus em Mateus (Mt 1.1-17)

 A genealogia de Jesus em Mateus evidencia as bases para demonstrar a natureza messiânica de Jesus, especialmente em sua descendência abraâmica e davídica. Todavia, a intenção do evangelista não se resume a isso, ele também demonstra por meio da genealogia de Jesus que sua missão é inclusivista e universalista.
a.       A genealogia de Jesus
O evangelista deixa transparecer o seu objetivo ao descrever a genealogia de Jesus, demonstrar que Ele era o Messias prometido.
Primeiro, relaciona sua relação direta com a casa real, como descendente direto do rei Davi, uma das figuras mais importantes para os judeus, ligada à expectativa messiânica. Na sequência, a sua descendência abraâmica, pois o grande patriarca é considerado o começo da história sagrada, o receptor direto da promessa divina de fazer dele uma grande e abençoada nação. Figura importante também para o cristianismo como o pai de todo aquele que crê como ele creu (Gn 15.6). Fé que é o fio condutor até a obra de Cristo (NEVES, 2015, p.55-69).

A relação do evangelista com a tradição e modo de pensar dos rabinos influencia a organização das gerações de Abraão até Jesus. Ele divide em três grupos de gerações: a) de Abraão ao estabelecimento do reino sob Davi (Mt 1.2-6); de Davi ao fim da monarquia (exílio babilônico) (Mt 1.6-11); e do período do Exílio Babilônico ao nascimento de Jesus (Mt 1.12-16). Segundo o evangelista afirma, cada grupo desses tem 14 gerações. No entanto, existem algumas discrepâncias quanto a essa numeração. Tasker (2006, p. 24) assevera que “cada grupo, como afirma com grande precisão o v. 17, contém ‘quatorze gerações’. Na verdade, porém, o terceiro grupo contém somente treze nomes; e no segundo grupo três gerações são omitidas conforme a evidencia de I Crônicas 1 - 3, que o evangelista parece usar como fonte”. Ficam então as perguntas: Qual o motivo dessa diferença de gerações? Existe um propósito específico?. Os três grupos possuem períodos e pessoas em que foram realizadas alianças com Deus: Abraão (Gn 12.1-3), Davi (2 Sm 7.4-17) e uma Nova Aliança (Hb 8.8-13). A contagem de gerações: a) de Abraão até Davi são quatorze gerações; b) de Davi até Jeconias são quatorze gerações; c) de Jeconias até Jesus são treze gerações.
Schweizer (1975, p. 23) afirma que antigamente a contagem incluía os primeiros e os últimos nomes de uma série. Dessa forma, de Abraão até Davi são quatorze gerações; de Davi (observe que Davi é contado duas vezes) até Josias, que foi o último rei de Judá ainda livre, são quatorze gerações; de 
Jeconias (primeiro reino do cativeiro) até Jesus são quatorze gerações. No entanto, perceba que Jeconias não se repete como Davi. Enquanto que Carson (2010, p. 95) justifica por meio da simbologia dos números das letras. Ele afirma que no mundo antigo as palavras tinham um montante com base na soma do valor número que era atribuído às letras. Este simbolismo é chamado de gematria. Carson utiliza o número de Davi, que em hebraico é Dawid, considerando que as vogais não são contadas, temos d = 4; w = 6. Assim, Dawid = dwd = 4 + 6 + 4 = 14. Richards (2014, p.10) defende que o argumento de Carson é a mais aceitável “Assim, a organização de Mateus pode perfeitamente refletir uma maneira familiar, na época, de sutilmente enfatizar a descendência de Jesus como sendo de Davi”. Certo é que os judeus pensavam e escreviam diferente de nosso pensamento ocidental. Ao analisar a genealogia de Jesus fica evidente que a intenção principal do autor é relacionar Jesus com a descendência davídica. Desse modo, ficaria comprovada sua origem messiânica davídica.
b
                                 .      As mulheres na genealogia de Jesus

A leitura da genealogia de Jesus nos dias atuais pode não causar nenhuma surpresa por influência de nossa cultura, que apesar de patriarcal, apresenta certo grau de inclusão de gênero. No entanto, se considerarmos a cultura da época da escrita do evangelho, surpreende a menção das mulheres, pois é um fato relevante, considerando que elas, geralmente, não eram mencionadas nas genealogias. Não somente isso, pois na leitura da genealogia de Jesus salta aos olhos a menção de três mulheres (Rute, Raabe e Tamar) com reputação questionada para a cultura da época. Não somente para a cultura daquela era, hoje, aproximadamente dois mil anos depois ainda se questionaria a inclusão na genealogia de mulheres com a reputação daquelas mulheres. Isso demonstra que apesar das evoluções nas relações humanas e na questão de gênero, o tratamento dado às mulheres ainda tem muito a melhorar, tanto nas igrejas como na sociedade em geral.
Richards (2014, p. 12) apresenta duas razões básicas para incluir uma ou duas mulheres na genealogia no oriente antigo: “(1) a mulher era muito admirada, e sua inclusão ressaltava a reputação da família. (2) O marido tinha mais de uma esposa e, neste caso, o nome da mulher é basicamente mencionado com o nome do seu filho”. Esse procedimento pode ser observado no texto bíblico quando se menciona os reis de Israel e Judá. Todavia, nenhuma dessas razões se aplica às mulheres citadas por Mateus.

O que mais surpreendente é que essas mulheres eram de uniões irregulares, segundo a tradição judaica. Rute era moabita, Raabe, prostituta  (Js 2.6), e Tamar, adúltera (Gn 38). Além dessas três mulheres, temos também Bate-Seba, que talvez por ter se tornado a esposa do rei Davi poderia ser tratada de forma diferenciada pela sociedade da época. Ela era Judia (1 Cr 3.5), provavelmente uma heteia por ter sido esposa de Urias, o heteu (2 Sm 11.3; 23.39). No entanto, passou a ser conhecida pelo seu adultério com Davi, enquanto era casada com Urias.

O que essas mulheres tinham comum é que, segundo a tradição da aliança no Antigo Testamento, elas eram consideradas moralmente corrompidas e, portanto, sem nenhuma possibilidade de fazerem parte da linha sucessória do Messias prometido como libertador do “povo santo de Israel”. Como poderia um rabino ou um judeu devoto aceitar essas uniões irregulares na ascendência legal do Messias. Se essa inclusão era um exemplo e ensino para os judeus, não parece ser muito diferente para nossos dias. Sinal que o preconceito ainda continua enraizado nas culturas.
O que teria levado Mateus incluir essas mulheres na genealogia de Jesus, diferente do costume da época? Esse retrato vai fazer parte da vida e ministério de Jesus. Ele trata as mulheres de forma diferente de toda a tradição de seu tempo. Essa ação libertadora já está presente na sua própria genealogia.
c.      
                                   Uma genealogia que inclui os excluídos

O título pode parecer estranho, mas é proposital. Como visto na seção anterior, mulheres consideradas moralmente corrompidas são incluídas na genealogia de Jesus, o Messias que havia de vir. Isso contrariava toda a expectativa judaica, mas assim foi registrado pelo evangelista. Teria Mateus uma intenção nessa inclusão ou foi algo desproposital? Por mais que o contexto do Evangelho de Mateus seja judaico, parece ter propósito essa inclusão, assim como vários personagens excluídos da sociedade judaica, que são colocadas em papeis principais nos discursos de Jesus. O ministério de Jesus seria inclusivo, tendo como prioridade o amor às pessoas, independente de origem, classe social, cor, entre outras formas de diferenciação.

O evangelista destaca que o Messias viria para “salvar seu povo de seus pecados” (Mt 1.21), ao mesmo tempo em que descreve o encontro de Jesus como pessoas estrangeiras que são alcançadas pela sua graça e misericórdia. Assim, demonstra que sua missão não era exclusiva para os judeus, mas universal. A universalidade da missão de Jesus é explicada de forma exaustiva pelo apóstolo Paulo, principalmente na Epístola aos Romanos (NEVES, 2015, p. 24-46).

No exemplo das mulheres citadas na genealogia de Jesus fica explícita a inclusão de pecadores, pessoas que não tinham uns procedimentos adequados de acordo com os bons costumes e considerados como uma ofensa à boa moral. Entre elas também estavam estrangeiras, que para o povo judeu eram consideradas indignas da graça de Deus, como o exemplo de Rute e Raabe. Por isso, a inclusão de excluídos na genealogia de Jesus demonstra que dentro do plano divino de redenção da humanidade há possibilidades de resgate de todas as pessoas. Um evangelho universal e inclusivo.
A dificuldade que os judeus tinham para aceitar essa inclusão fora do padrão estabelecido pela sociedade também continua presente na igreja evangélica atual. Por mais que se tenha trabalhado essa questão na cultura de nosso país e em boa parte do mundo, ainda existe muito preconceito. O fato de ser cristão não elimina essa prática, pois no meio cristão e evangélico ainda se faz muita distinção e a prática do tratamento preconceituoso é uma verdade. O ser humano tem uma tendência para padronizar o que Deus deve fazer em relação à salvação das pessoas. No entanto, essa decisão não é humana e Deus não segue o padrão humano, mas o seu próprio e santo padrão. Que essa lição contribua para uma mudança de comportamento em nossas igrejas.

III.                A Teologia de Mateus

O Evangelho de Mateus contém alguns focos que são principais como a apresentação de Jesus como Cristo e sua proclamação de chegada do Reino dos Céus, o interesse pela Igreja e o uso especial do Antigo Testamento.
a.       Jesus como Messias e a proclamação da chegada do Reino dos céus
Como visto na seção anterior, a identificação de Jesus como Messias é ponto crucial para Mateus. A apresentação de Jesus como o Messias está estritamente relacionada com a proclamação próxima do Reino dos céus. Esses temas ficam mais evidentes no início e no fim do Evangelho. No início Jesus é descrito como o Filho régio de Deus, o Deus encarnado que se fez presente com sua criação (Emanuel). No final do evangelho a Ele é dado por Deus toda autoridade no céu e na terra e Jesus promete sua presença espiritual permanentemente (Emanuel).
 O título “Filho de Deus” é citado sempre em momentos cruciais do Evangelho: no batismo (Mt 3.17); na confissão de Pedro, que representa a confissão de fé da Igreja (Mt 16.16); na transfiguração (Mt 17.5) e no julgamento (Mt 26.63) e na cruz (Mt 27.40, 43, 54). Outra expressão importante relacionada à messianidade de Jesus é “Filho de Davi”, que ocorre 10 vezes em Mateus. Viviano (2011, p. 134) afirma que com esse título “Jesus é visto como um novo Salomão, com conotações de curador e sábio. Jesus fala como a sabedoria encarnada em Mateus 11, 25-30 e em Mateus 23, 37-39”. O título “Filho do Homem” também é relevante. Ele tem conotação apocalíptica (Dn 7.13, 14) e perpassa todo o evangelho, tendo seu ápice em Mateus 28.18-20.
 Os cincos grandes discursos de Mateus (Mt 5-7; 10; 13; 18; 2325) são unificados pelo tema do Reino dos céus, o grande objeto de esperança (Mt 3.2; 4.17; 6.10). Na realidade, todo o evangelho é unificado por esse tema. No Reino dos céus proclamado por Jesus a forma de governo é diferente dos impérios que dominaram os povos na antiguidade como nos dias atuais. Nele está a promessa definitiva de salvação para toda a humanidade redimida por meio do Messias verdadeiro, no âmbito terreno e celestial, no tempo e na eternidade. Esse Reino implica em justiça, paz e alegria que somente Deus pode dar (Mt 6.33; 5.9; 13, 44).

O conteúdo moral do tema do Reino dos céus conduz naturalmente para temas predominantes do Antigo Testamento, resgatados por Mateus: a justiça e a Lei. No Evangelho de Mateus a justiça corresponde à obediência humana em relação à vontade de Deus (Mt 3.15; 5.6, 10, 20; 6.1, 33; 21.32). Jesus reforça a importância duradoura da Lei de Moisés (Mt 5.17-20), no entanto, a interpretação farisaica e humana é rejeitada, embora alguns preceitos cerimoniais sejam mantidos ou incentivados (Mt 12.1-8; 23.23). Jesus resgata alguns preceitos éticos como os Dez Mandamentos e os grandes mandamentos do amor a Deus e ao próximo, entre outros (Mt 5.31, 32; 19.1-10).
Assim a identidade messiânica de Jesus, o conceito de Reino dos céus e temas recorrentes (a justiça e a Lei) são os principais focos teológicos do Evangelho de Mateus.
b.     
                    O Evangelho de Mateus e a Igreja
Mateus é o único dos quatros evangelhos que menciona o termo igreja (Mt 16.18; 18.17). De tal modo, que o interesse pela igreja é uma característica especial de Mateus. A comunidade cristã é incentivada a manter a fé em Cristo e seguir algumas diretrizes fundamentais e líderes autorizados. Os grandes discursos do evangelho contêm as diretrizes principais. Dentre as diretrizes centrais estão a autorização para tomada de decisões (Mt 18), a reconquista da ovelha perdida, a preocupação com os menos favorecidos, a ênfase ao perdão e a humildade. Entre os líderes autorizados, Mateus destaca a figura do apóstolo Pedro (Mt 9.8; 10.2, 40). A humildade é tida como uma característica primordial e obrigatória aos líderes (Mt 18.19). Ela é importantíssima a todas as lideranças de todos os tempos. Jesus é o exemplo supremo de liderança servidora e humilde. Ele, sendo Deus, não tratou com superioridade os demais seres humanos. Esse conceito é de extrema relevância para os dias atuais, pois em muitas oportunidades tem sido visto o culto à personalidade, o autoritarismo e a prepotência por alguns líderes. Que Deus tenha misericórdia deles e da igreja, que se humilhem diante de Deus, a exemplo de Cristo. Somente assim, o Reino se cumprirá no meio da comunidade cristã.

Mateus recomenda a fé em Cristo e humildade para evitar a queda, a qual todas as pessoas estão sujeitas (Mt 26.69-75). Ele alerta sobre os falsos profetas (Mt 7.15) e a existência tanto de santos como de pecadores na igreja. Afirma que em alguns casos somente na separação final é que a diferença ficará evidente (Mt 13.36-43; 22.11-14; 25). O estilo de vida apostólico e missionário é o paradigma para a igreja (Mt 9.36—11.1). Ela é chamada para cumprir a missão de Cristo em todo mundo (Mt 28.18-20). A Grande Comissão não foi exclusiva aos discípulos, mas à sua igreja, formada por judeu-cristãos e gentios convertidos por meio da fé na obra perfeita e única de Jesus.
c
                                   .       O uso do Antigo Testamento em Mateus
 Mateus deixa claro que a vida e obra de Jesus estavam planejadas no Antigo Testamento. As escrituras judaicas são uma fonte bem explorada pelo evangelista. Ele utiliza, pelo menos, uma série de 10 citações do Antigo Testamento para demonstrar que tudo que aconteceu na vida e ministério de Jesus estava previsto, principalmente pelos profetas, por meio da expressão “isso aconteceu para cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta” (Mt 1.23; 2.15,18, 23; 4.15, 16; 8.17; 12.18-21; 13.35; 21.5; 27.9, 10).

Interessante que pouco de fala a respeito da infância de Jesus, mas nesse período ocorre quase a metade das chamadas “citações de cumprimento”, enquanto as outras estão relacionadas ao ministério público de Jesus, em especial da entrada em Jerusalém até sua paixão e morte. O cuidado de Mateus em demonstrar o cumprimento das profecias na vida e obra de Jesus destaca o seu objetivo de evidenciar que Jesus não veio para destruir ou anular a Lei, mas para cumpri-la. Mateus afi rma que Cristo veio para cumprir a lei e os profetas (Mt 5.17). A morte de Jesus na cruz, a qual amaldiçoada pelos judeus, portanto, praticamente incompreensível pelos judeus, mesmo aqueles convertidos ao cristianismo, foi o principal cumprimento da Lei. Desse modo, uma vez que o sacrifício de Cristo foi perfeito e único, cumprindo as exigências da Lei, torna desnecessária a prática de sacrifícios prescritos na Lei para justifi cação.
Algumas pesquisas recentes procuram demonstrar um esquema histórico-salvífi co no evangelho como forma de aproximar o Antigo Testamento com a mensagem do evangelho e a implantação do cristianismo. Um deles é o esquema tripartido que separa a história em três períodos:

1. Período de Israel (de Abraão a João Batista);
 2. Tempo de vida do próprio Jesus;
3. Tempo da igreja (da ressurreição de Jesus até o fim do mundo).

Alguns preferem unir os itens 2 e 3 como único, mantendo assim somente duas partes: 1) período de Israel; 2) período de Jesus e a igreja. Certamente, Mateus tinha em mente unir os primeiros membros das comunidades cristãs, que diferente do que muitos pensam não eram tão unidos assim. Entre as principais causas estão as diferenças teológicas entre os judeu-cristãos e os gentios convertidos ao cristianismo. Os escritos dos apostolo Paulo deixa bem claro essa divisão dentro da igreja. A utilização de textos do Antigo Testamento para explicar os acontecimentos da vida de Jesus e sua obra foi uma importante estratégia de Mateus para demonstrar que o plano histórico-salvífico de Deus é único, tanto para judeus como para gentios.

O seu Reino não Terá Fim
NATALINO DA NEVES



Lições importantes da genealogia de Jesus


A Bíblia nos apresenta a genealogia de Jesus em duas perspectivas. Mateus apresenta Jesus como descendente de Abraão, e Lucas retrocede sua linhagem até Adão. Mateus apresenta Jesus como o Rei dos judeus, e Lucas, como o Homem perfeito. Marcos e João não tratam da genealogia de Jesus Cristo, por causa do propósito para o qual escreveram. Marcos, escrevendo para os romanos, apresenta Jesus como servo e destaca Suas obras mais do que Suas palavras. João, escrevendo um Evangelho universal, tem como escopo apresentar Jesus como o Filho de Deus e, como tal, Ele não tem genealogia.
Tanto no registro de Mateus como no de Lucas, vemos na genealogia de Jesus Cristo pessoas más, que se insurgiram contra Deus.
Destacaremos, aqui, alguns pontos:
Em primeiro lugar, vemos na genealogia de Jesus Cristo mulheres em cuja vida há marcas reprováveis.Tamar coabitou com o seu próprio sogro, Judá, e gerou dele dois filhos gêmeos, Perez e Zera; Raabe era prostituta em Jericó; Rute era moabita, e Bate-Seba, mãe de Salomão, adulterou com Davi. Mui provavelmente nenhum personagem gostaria de destacar em sua biografia mulheres com esse passado. Mas por que elas estão inseridas na genealogia de Jesus Cristo? Para reforçar a verdade de que o Filho de Deus se identificou com os pecadores, a quem veio salvar.
Em segundo lugar, vemos na genealogia de Jesus homens em cuja vida há marcas de mentira. Os patriarcas mencionados aqui, Abraão, Isaque e Jacó, tiveram momentos de fraqueza na área da mentira. Eles não só se omitiram, mas esconderam a verdade e inverteram os fatos com medo de sofrerem com as consequências de seus atos. Foram fracos e repreensíveis. Isso prova que Deus nos escolhe não pelos nossos méritos, mas apesar dos nossos deméritos.
Em terceiro lugar, vemos na genealogia de Jesus homens em cuja vida há marcas de violência. Na lista da genealogia de Jesus há homens como Davi, cujas mãos estavam cheias de sangue. Roboão governou Judá com truculência. O rei Acaz queimou seus filhos, perseguiu seu próprio povo e cerrou ao meio o profeta Isaías. Manassés foi muito violento. Ele encheu Jerusalém de sangue. Foi um monstro. Um tormento para seu próprio povo. Oh, jamais escolheríamos homens dessa estirpe para integrar nossa família. Oh, a genealogia de Jesus Cristo aponta-nos para a infinita misericórdia de Deus! Ele ama com amor eterno os mais indignos.
Em quarto lugar, vemos na genealogia de Jesus homens em cuja vida há marcas de idolatria. Salomão, por causa de suas muitas mulheres, sucumbiu à idolatria. Roboão fez um bezerro de ouro e construiu novos templos em Israel para desviar o povo de Deus. Acaz fechou a casa de Deus e encheu Jerusalém de ídolos abomináveis. Manassés foi astrólogo, idólatra e feiticeiro. Levantou altares pagãos e prostrou-se diante de todo o exército dos céus. Oh, na esteira da genealogia de Jesus Cristo temos pessoas que nos deixam perplexos por causa de sua afrontosa rebeldia a Deus. Isso prova, de forma incontestável, que Deus ama os objetos de sua ira e enviou Jesus para identificar-se com os pecadores e salvá-los de seus pecados.
Mas, antes de ficarmos mais chocados com essa assombrosa lista, olhemos para nós mesmos. Somos indignos. Somos pecadores. Somos culpados. Nosso coração é desesperadamente corrupto. Por que Deus nos escolheu? Por que ele nos amou? Por que ele não poupou o Seu próprio Filho, antes por todos nós O entregou, para morrer em nosso lugar? A resposta é: por causa de Sua graça, que é maior do que o nosso pecar!

 Hernandes Dias Lopes



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