











TRABALHANDO ATÉ O SENHOR VOLTAR
Wagner Tadeu dos Santos Gaby
Eliel dos Santos Gaby
Eliel dos Santos Gaby
Jesus nunca estabeleceu uma data para a sua volta, pois Ele pode vir a qualquer momento (Mt 24.36; Mc 13.32; At 1.7). Todavia, sempre há tempo suficiente antes que Cristo venha para que os que forem servos diligentes dupliquem o capital que lhes foi confiado. Lockyer, na análise do uso dos talentos por parte dos três servos, destaca que “quando o primeiro servo recebeu os cinco talentos; e o segundo, os seus dois; lemos que ambos saíram imediatamente e negociaram com eles, ou seja, agiram de forma imediata, sem demora, porque não sabiam quanto tempo o seu senhor ficaria ausente; por isso tão logo ele partiu, começaram a negociar”.1 Este autor destaca também que “eles negociaram, fizeram permutas, até que dobraram o que tinham. O que possuía cinco talentos conseguiu outros cinco —100%. O servo com dois talentos foi igualmente bem sucedido, pois o seu lucro também foi de 100%. Em ambos os casos o capital original foi duplicado. Se o homem com apenas um talento o tivesse negociado, o seu lucro teria sido o mesmo”.2
Snodgrass destaca que “esta parábola retrata a época da morte e da ressurreição de Jesus até o segundo advento e seria dirigida aos discípulos para incentivá-los a levar uma vida nos valores do Reino”.3 Um detalhe interessante verificado nessa parábola é a conexão que ela possui com a parábola anterior, “parábola das dez virgens”. Sobre isso Trench destaca que “enquanto as virgens são apresentadas como que esperando pelo seu Senhor, temos aqui os servos trabalhando para ele; há a vida espiritual interna do fiel sendo mencionada, e aqui a sua ação externa, [...] portanto há uma boa razão para eles aparecerem na presente ordem, ou seja, primeiro as virgens e em seguida os talentos, pois a única condição para haver uma ação externa, produtiva para o reino de Deus, é que a vida de Deus seja diligentemente conservada dentro do coração".4
Em Tiago 2.14-26 a Bíblia diz: “Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé e não tiver as obras? Porventura, a fé pode salvá-lo? E, se o irmão ou a irmã estiverem nus e tiverem falta de mantimento cotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos e fartai-vos; e lhes não derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí? Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma. Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras. Tu crês que há um só Deus? Fazes bem; também os demônios o creem e estremecem. Mas, ó homem vão, queres tu saber que a fé sem as obras é morta? Porventura Abraão, o nosso pai, não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque? Bem vês que a fé cooperou com as suas obras e que, pelas obras, a fé foi aperfeiçoada, e cumpriu-se a Escritura, que diz: E creu Abraão em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e foi chamado o amigo de Deus. Vedes, então, que o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé. E de igual modo Raabe, a meretriz, não foi também justificada pelas obras, quando recolheu os emissários e os despediu por outro caminho? Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta”.
O texto de Tiago é o clímax do apelo que ele fez por uma religião pura que se justifica na ação. A sua preocupação consiste numa atitude diante da fé que se manifesta tão somente como uma confissão verbal e isso para ele é uma fé sem obras (Tg 2.20,26), a qual ele considera morta (Tg 2.17,26), inoperante (Tg 2.20) e que não tem poder para salvar (Tg 2.14) ou para justificar (Tg 2.18). O que Tiago quer dizer na verdade, não é que as obras devem ser acrescentadas à fé, mas que a fé genuína as inclui. Nesse sentido, as obras são a evidência da fé. O profeta Isaías convocou o povo de seus dias para que desse um significado real a seus ritos religiosos, conforme Isaías 58.7-9 que diz: “Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto e recolhas em casa os pobres desterrados? E, vendo o nu, o cubras e não te escondas daquele que é da tua carne? Então, romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante da tua face, e a glória do Senhor será a tua retaguarda. Então, clamarás, e o Senhor te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui; acontecerá isso se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo e o falar vaidade”.
O Senhor Jesus prometeu o reino àqueles que dessem de comer e vestir “a um destes meus pequeninos irmãos”, conforme Mateus 25.31-46. O apóstolo João por sua vez, nega que qualquer pessoa que deixe de auxiliar a um irmão em necessidade possa ter o verdadeiro amor, conforme 1 João 3.17-18: “Quem, pois, tiver bens do mundo e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar o seu coração, como estará nele o amor de Deus? Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade”. Muitas vezes nos limitamos a pronunciar simples palavras, quando na verdade Deus está mais interessados em nossa ação. As palavras proferidas através de pregações, orações, confissões de fé, de bons conselhos, de encorajamento, etc, são muito importantes e indispensáveis em nossa vida cristã. Todavia, Tiago está nos lembrando de que as nossas palavras somente provarão que tem um significado real e eficaz quando as pessoas que nos ouvem, virem as ações que praticamos, relacionadas ao que dizemos.
Paulo, em Ef 2.8-10, relaciona as boas obras com a fé: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie. Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas”. Tiago fala da justificação diante dos homens e que a fé é provada pelas obras, em Tiago 2.18: “Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras”. Como agência do Reino de Deus na Terra, a Igreja do Senhor (e isso significa cada cristão, inclusive eu e você) possui uma responsabilidade social.
O ministério de Jesus evidencia a primazia da fé em ação, da prática das boas obras, ou seja, da ação social. Um clássico exemplo da importância da ação social está no fim do sermão profético de Jesus, em Mateus 25.35-36: “... porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me”. A missão integral da igreja consiste em levar o Evangelho em sua plenitude aos homens. No conhecido Pacto de Lausanne um capítulo especial foi produzido com o objetivo de promover uma reflexão profunda sobre a responsabilidade social da igreja:
“Afirmamos que Deus é o Criador e o Juiz de todos os homens. Portanto, devemos partilhar o seu interesse pela justiça e pela conciliação em toda a sociedade humana, e pela libertação dos homens de todo tipo de opressão. Porque a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, sem distinção de raça, religião, cor, cultura, classe social, sexo ou idade possui uma dignidade intrínseca em razão da qual deve ser respeitada e servida, e não explorada. Aqui também nos arrependemos de nossa negligência e de termos algumas vezes considerado a evangelização e a atividade social mutuamente exclusivas. Embora a reconciliação com o homem não seja reconciliação com Deus, nem a ação social evangelização, nem a libertação política salvação, afirmamos que a evangelização e o envolvimento sócio-político são ambos parte do nosso dever cristão. Pois ambos são necessárias expressões de nossas doutrinas acerca de Deus e do homem, de nosso amor por nosso próximo e de nossa obediência a Jesus Cristo. A mensagem da salvação implica também uma mensagem de juízo sobre toda forma de alienação, de opressão e de discriminação, e não devemos ter medo de denunciar o mal e a injustiça onde quer que existam. Quando as pessoas recebem Cristo, nascem de novo em seu reino e devem procurar não só evidenciar mas também divulgar a retidão do reino em meio a um mundo injusto. A salvação que alegamos possuir deve estar nos transformando na totalidade de nossas responsabilidades pessoais e sociais. A fé sem obras é morta”.5
Em Atos 1.8 a Bíblia demonstra de maneira bastante clara que o Evangelho é para todos, em todos os lugares, sem discriminação: “Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra”. O Pacto de Lausanne também dedicou um capítulo específico para tratar da atividade evangelísitca: “Afirmamos que Cristo envia o seu povo redimido ao mundo assim como o Pai o enviou, e que isso requer uma penetração de igual modo profunda e sacrificial. Precisamos deixar os nossos guetos eclesiásticos e penetrar na sociedade não-cristã. Na missão de serviço sacrificial da igreja a evangelização é primordial. A evangelização mundial requer que a igreja inteira leve o evangelho integral ao mundo todo. A igreja ocupa o ponto central do propósito divino para com o mundo, e é o agente que ele promoveu para difundir o evangelho. Mas uma igreja que pregue a Cruz deve, ela própria, ser marcada pela Cruz. Ela torna-se uma pedra de tropeço para a evangelização quando trai o evangelho ou quando lhe falta uma fé viva em Deus, um amor genuíno pelas pessoas, ou uma honestidade escrupulosa em todas as coisas, inclusive em promoção e finanças. A igreja é antes a comunidade do povo de Deus do que uma instituição, e não pode ser identificada com qualquer cultura em particular, nem com qualquer sistema social ou político, nem com ideologias humanas”.6
O amor de Deus derramado em nossos corações (Rm 5.5b) deve nos constranger a ajudar as pessoas nas sua necessidades de ordem física, emocional e espiritual, através de ações concretas, conforme recomenda Gl 6.10: “Então, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé”.
Texto extraído da obra “As Parábolas de Jesus: As verdades e princípios divinos para uma vida abundante.” 1. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2018”.
Parábola dos talentos e das recompensas
(Mt 25:14-30)
Não houve interrupção entre o pronunciamento da parábola anterior
e o dessa. Em continuação às suas últimas palavras aos seus, Jesus
acrescentou essa Parábola dos talentos como um complemento à das Dez
virgens. O texto original, nos versículos 13 e 14 que, na verdade, são um só
versículo, deveria ser traduzido assim: "em que o Filho do Homem virá, pois
ele é como um homem" etc. A diferença notada no texto em português foi
opção dos tradutores. Essa parábola complementar prova que ele não era
parcial nos seus ensinamentos. Quando ele enfatizava um aspecto
específico numa parábola, ele protegia os seus ouvintes de concluírem além
do que era necessário. Portanto Jesus era seletivo ao apresentar a verdade.
Na Parábola das dez virgens ele revelou a necessidade de atenção ao
caráter interno, mas aqui, na de Os Talentos, ele une essa necessidade,
impondo fortemente a prática externa.
Os construtores de Neemias combinaram a vigilância com a ação: "E
os edificadores cada um trazia a sua espada à cinta, e assim edificavam.
Mas o que tocava a trombeta, estava junto de mim" (Ne 4:18). E essa é a
combinação fornecida por essas duas parábolas. As Dez virgens nos
ensinam a necessidade de vigilância; os Talentos, o dever do trabalho. Ao
olharmos para o retorno de Cristo, devemos assim mesmo trabalhar. Paulo
teve de escrever palavras fortes àqueles que pensavam que, pelo fato de
Cristo estar às portas, deviam parar de trabalhar, causando assim grande
desordem, pois estabeleceram uma situação de dependência da caridade
dos outros para sua sobrevivência. Por enxergar o futuro, Jesus profetizou
esse perigo e por isso os exortou não apenas a vigiarem, a fim de estarem
sempre prontos para a sua volta, mas também a trabalharem
diligentemente em direção a ela.
Em sua introdução a essa parábola, Trench diz: "Enquanto as virgens
são apresentadas como que esperando pelo seu Senhor, temos aqui os
servos trabalhando para ele; há a vida espiritual interna do fiel sendo
mencionada, e aqui a sua ação externa [...] Portanto há uma boa razão para
eles aparecerem na presente ordem, ou seja, primeiro as virgens e em
seguida os talentos, pois a única condição para haver uma ação externa,
produtiva para o reino de Deus, é que a vida de Deus seja diligentemente
conservada dentro do coração".
Como essa Parábola dos talentos tem sido confundida com a das Mi-
nas que Lucas nos concede (19:12-36), pode ser bom nesse ponto do es-
tudo analisarmos as duas. São semelhantes em alguns aspectos. Por
exemplo, ambas dizem respeito a um rico que parte para um país distante
e deixa uma quantia de dinheiro, a fim de que os seus servos invistam para
ele. Em ambas há a sua promessa de que, quando voltar, ele agirá com os
seus servos em função do uso que fizessem do dinheiro que lhes fora
confiado —recompensa para o fiel, punição para o negligente. Mas parece
que aqui termina a semelhança entre elas. Essas são as diferenças
importantes entre elas, quando as caracterizamos diferentes uma da outra:
Na Parábola dos talentos, Jesus falou com os seus enquanto estava
no monte das Oliveiras; em As Minas, ele fala com a multidão em Jerico.
Nos Talentos, está em foco a diferença de responsabilidade sobre os
negócios. Diferimos uns dos outros na quantidade de dons recebidos. Em
As Minas, todos somos igualmente responsáveis. Os servos foram
diferentes uns dos outros quanto à diligência que demonstraram.
Nos Talentos, os servos receberam uma quantidade diferente de
talentos, de acordo com a sua capacidade pessoal. Dois dos servos usaram
os talentos da mesma forma e, portanto, a sua recompensa também foi
igual. Em As Minas, foi-lhes dada a mesma quantia, mas os servos usaram
o dinheiro de forma diferente e, portanto, a sua recompensa também foi
diferente.
Ambas demonstram a suprema diferença entre o fiel e o infiel, a re-
compensa da diligência e a condenação da improdutividade; contudo,
ambas consideram a responsabilidade de ambos os lados. Um supre o que
o outro omite.
Primeiramente, observemos as linhas principais da parábola, notando
suas implicações para os membros e cidadãos do reino celestial. Wm. M.
Taylor diz que a parábola retrata com fidelidade a vida no Oriente, no
tempo de nosso Senhor: "Quando um rico resolvia ficar fora de casa por
algum tempo, ele procedia de duas maneiras quanto à administração de
seus bens, durante a sua ausência. Transformava os seus escravos de
confiança em seus representantes, ao confiar a eles o cultivo de sua terra e
o seu dinheiro, para que o usassem no comércio; ou ele fazia uso do
sistema que fora introduzido pelos fenícios, de troca e empréstimo de
dinheiro, e que vigorava plenamente naquele tempo por todo o Império
Romano. Nessa parábola, o Senhor adotou a primeira opção; e havia um
contrato formal, ou no mínimo ficava subentendido que os servos seriam
recompensados por sua fidelidade".
Não é difícil acompanharmos as linhas principais de interpretação. O
senhor rico a quem os servos se referiram como "Senhor" é "o Filho do
homem", o Senhor Jesus Cristo. A viagem a um país distante se refere à
sua partida para o céu, após a sua ascensão. Os servos, ou cativos, ou
escravos, eram em primeira instância os doze discípulos a quem Jesus
dirigiu a parábola, e também num sentido mais amplo todos os nascidos de
novo. Devemos entender que os talentos são os dons que Jesus recebeu
para os seus servos e lhes entregou. O senhor estar ausente de casa sugere
o fato de Cristo não mais estar visivelmente na terra, e a sua volta é
equivalente ao retorno prometido do Mestre. As negociações empreendidas
pelos servos durante a ausência de seu senhor revelam o uso fiel que o
povo do Senhor deveria fazer dos dons espirituais e das oportunidades de
servirem a ele. Os elogios que o senhor fez aos servos, ao retornar, são os
galardões que se pode esperar do Julgamento de Cristo, quando as nossas
obras, a seu serviço, serão recompensadas. A condenação do servo que
falhou em sua responsabilidade é uma advertência contra o não uso, ou o
uso indevido, dos dons do céu. Vamos agora observar a parábola em suas
particularidades.
1. Natureza e o número de talentos.
O que devemos entender por
talento? Hoje em dia usamos a palavra num sentido diferente, e falamos de
uma pessoa "talentosa", i.e., que tem uma habilidade notável quanto a isso
ou aquilo. Mas aqui esse termo significa algo diferente. O vocábulo original
talantos é substantivo me denota quantidade, não qualida-ie. "Talento",
como usado por Jesus, lão significa algo que temos mas que ele possui e
empresta aos seus servos. Todos os talentos na parábola pertenciam ao
senhor e foram repassados por ele aos seus servos, para serem
comercializados. Monetaria-mente um talento representaria nos dias de
hoje mais de mil dólares (uma grande soma para aqueles iias) e no caso do
servo que recebeu cinco talentos era uma quantia considerável. Na
Parábola das minas, "mina" eqüivaleria aproximadamente a três libras
esterlinas e meia (a moeda inglesa). Todos os três serros, mesmo o que
recebeu apenas um talento, tinham ampla provisão de "indos para
negociarem, com poder aquisitivo ainda mais favorável do que hoje em dia.
Qual é a importância espiritual desses talentos que Jesus disse que
eram os bens do senhor? Que magnífico estoque de mercadorias temos em
mãos para comercializarmos! A completa revelação do próprio Deus, como
registrada na Bíblia; o glorioso evangelho, de amor e graça, redentor; os
dons espirituais para a Igreja sobre os quais Paulo escreveu; a fé entregue
aos santos; o dom e o favor do Espírito Santo, tudo isso está entre os "seus
bens". É tudo inerente a ele, pertencem a ele e não são como coisas
delegadas a alguém como no nosso mundo material. Portanto, o que
usamos para negociar durante a ausência de nosso Senhor pertence a ele.
Não é mercadoria nossa. Nossos "bens" custam muito pouco e não vale
muito a pena investir neles. O que nos é oferecido para enriquecermos o
mundo é a riqueza espiritual que foi adquirida pelo preço infinito do
Calvário. Essa riqueza além de qualquer comparação é depositada em
nossas mãos para fazermos investimentos. Os "bens", então, não são um
questionamento sobre as nossas posses ou do que somos capazes, mas são
as insondáveis riquezas de sua graça, providas quantitativamente para
uma humanidade empobrecida.
No que se refere à distribuição dos talentos: a um, o senhor deu "cin-
co"; a outro, "dois"; e ao terceiro "um", isso nos ensina que os dons de Deus
surtem muito mais efeito através de algumas pessoas do que de outras. A
verdade de Deus como um todo tem o mesmo valor, e cada servo de Cristo
possui a revelação completa; porém permanece o fato de que servos
diferentes recebem do Senhor diferentes medidas de entendimento es-
piritual. Não recebemos dele mais do que podemos compreender e usar. O
critério de qualificação no uso dos talentos é "a cada um segundo a sua
capacidade". G. H. Lang diz que "Deus não tenta colocar um lago dentro de
um balde. O homem que tem uma capacidade maior de conhecimento tem
um privilégio maior quanto a servir, uma responsabilidade mais pesada em
ser fiel, e com recompensa mais valiosa se for vencedor".
Os servos de Deus diferem entre si em capacidade; e é por isso que o
Espírito reparte seus dons a cada um como lhe apraz (ICo 12:11). Talento e
habilidade não significam a mesma coisa. O senhor na parábola sabia a
capacidade de negociação dos servos escolhidos e distribuiu os seus
talentos segundo esse critério. Os talentos são os dons espirituais do
Mestre; a habilidade são as nossas aptidões naturais e nossa personalidade. Uma pessoa pode ter grandes habilidades naturais e no entanto
nenhum dom espiritual. Contudo a habilidade natural, que é também um
dos dons de Deus, é necessária para que se possa receber os dons
sobrenaturais. Não há a intenção aqui de considerar o terceiro servo,
dentro dessas considerações, só porque ele recebeu apenas um talento. Ele
não tinha condições de administrar mais do que isso. Dentre os grandes
dons, para o benefício e uso da Igreja, Paulo menciona "socorros",
simplesmente "socorros"; mas esse de forma alguma é inferior aos demais.
Cada servo do Senhor recebe tudo o que precisa, e pode usar, a fim de
desempenhar o seu trabalho para ele (Em 12:4-9; ICo 12:4-30).
A distribuição dos talentos, de forma desigual, nos ensina muitas
verdades importantes. Poucos indivíduos têm o privilégio de empregar cinco
talentos a serviço do Mestre. Eles são notórios como pregadores,
comentaristas, evangelistas, mis-sionários. Por causa de seu profundo
conhecimento das verdades espirituais e poder para torná-las conhecidas,
eles têm grandes responsabilidades, e mais se espera deles do que de
outros que receberam menos dons do Senhor. Um número maior de
indivíduos tem dois talentos. Eles estão numa posição discreta de não
muita evidência. Eles não são perspicazes. Suas capacidades são limitadas.
Mas o servo com aquele um talento é a descrição da vasta maioria de nós.
Estamos assim classificados no serviço do Senhor. Contudo, aqueles dentre
nós que menos têm, estão obrigados a servir ao Senhor com o que possui, e
se o servirem fielmente com o pouco que ele concedeu, serão honrados e
recompensados.
A soberania do Senhor pode ser vista na distribuição de seus dons.
Apoio não era tão dotado quanto Paulo, mas ambos eram igualmente
responsáveis em usarem ao máximo o que tinham. Jamais devemos la-
mentar a pequenez dos dons dados a nós, "pois se há prontidão de von-
tade, será aceita segundo o que qualquer tem, e não segundo o que não
tem". Se a nós não nos coube o primeiro lugar, devemos nos gloriar no
segundo ou mesmo no terceiro. A verdadeira arte de viver é aceitarmos as
limitações que nos foram atribuídas por Deus e não lutarmos contra elas
ou murmurarmos sobre elas. Não deve haver ressentimento ou inveja por
parte do servo com apenas dois talentos a respeito do que tem cinco; assim
também o servo com um talento não deve ter inveja do seu conservo que
tem dois. No serviço para Deus é melhor estar em último lugar com
fidelidade do que no primeiro com deslealdade. Lembre-se que se espera
mais do servo que tem cinco talentos do que do que tem dois ou do que
possui três. O salmista escalou as alturas da filosofia cristã quando disse
que muito em breve seria um porteiro na casa do Senhor.
Se tivermos apenas um talento, devemos usá-lo para ganhar mais um.
Nossa limitação deve produzir em nós um incentivo a mais pela ação e
persistência espirituais e morais. Em nossa longa caminhada o que Deus
elogia e recompensa não é a capacidade intelectual, se somos brilhantes ou
populares, mas a fidelidade e devoção a ele, sem reconhecimentos ou
aplausos humanos. Se não podemos ser um Moisés, sejamos semelhantes
a Arão ou a um levita inferior e leal. Se não podemos ser um Paulo,
estejamos entre os santos desconhecidos que contribuíam com o que
tinham para ajudá-lo. José contentava-se em estar no segundo carro atrás
de Faraó. Se o primeiro lugar não lhe pertence aqui, e você for fiel a Cristo,
por certo terá o primeiro lugar ao seu lado quando ele voltar para
recompensar os que são dele.
2. Uso e abuso dos talentos.
Quando o primeiro servo recebeu os
cinco talentos; e o segundo, os seus dois; lemos que ambos saíram
"imediatamente" e negociaram com eles. Como é forte esse termo
"imediatamente"! Não houve demora. Eles não sabiam quanto tempo o seu
senhor ficaria ausente; por isso tão logo ele partiu, começaram a negociar.
"Tudo o que te vier à mão para fazer, fazei-o conforme as tuas forças". Eles
negociaram, fizeram permutas, até que dobraram o que tinham. O que pos-
suía cinco talentos conseguiu outros cinco —100%. O servo com dois ta-
lentos foi igualmente bem sucedido, pois o seu lucro também foi de 100%.
Em ambos os casos o capital original foi duplicado. Se o homem com
apenas um talento o tivesse negociado, o seu lucro teria sido o mesmo.
Temos a graça e o poder para duplicarmos o nosso capital espiritual?
Ao receber a graça, temos crescido na graça? Nosso desejo de orar tem sido
intensificado? A nossa esperança está mais firme e real? As aspirações do
passado amadureceram? A nossa influência espiritual e os resultados do
nosso trabalho têm se multiplicado? O verdadeiro motivo para servirmos e
sermos frutíferos na obra é a nossa afeição pelo Mestre. Obras piedosas
nada podem realizar se a nossa dedicação a ele não for completa. O
primeiro servo recebeu mais do que o segundo, mas ambos foram
igualmente diligentes e fiéis na proporção do que lhes foi confiado. Somos
espiritualmente prósperos ao negociarmos os bens do Mestre?
Aproveitamos ao máximo os talentos espirituais que nos foram confiados e,
em vez de estocá-los, negociamos com eles para alegria e honra daquele
que é o doador de todo dom perfeito?
A tragédia nessa narrativa é que o homem com apenas um talento
não o negociou nem o multiplicou. Em vez disso, cavou um buraco na ter-
ra, embrulhou-o num lenço e escondeu o talento de seu senhor. Note que
não era o seu dinheiro, mas o de seu senhor. Talvez ele temesse perder o
talento e então enterrou-o como medida de segurança. E muito patético
quando os homens têm medo de perder o que não vão usar. Algumas pes-
soas têm medo de perder os seus dons espirituais e se recusam a utilizá-
los. Nunca perdemos o que usamos. Enquanto esses dois conservos agiam,
negociavam os seus talentos, o terceiro permanecia inativo. E não apenas
isso, mas ele também foi desobediente por não seguir as instruções de seu
senhor. Sua desobediência não foi ativa, mas passiva. Ele não agrediu
efetivamente o talento de seu senhor; simplesmente deixou de transformá-
lo em lucro. Em vez de animar-se a aumentar o que tinha recebido, saiu e o
enterrou. As virgens insensatas sofreram porque foram negligentes em
estar prontas; e, da mesma forma, esse servo sofreu porque nada fez com o
seu talento. Esse servo representa muitos cristãos formais de hoje, os quais
têm todos os privilégios externos do evangelho, mas nunca pensam em
usar e aumentar as suas oportunidades de compartilhar esses privilégios
com outras pessoas. Enterram cada talento que possuem. De nada adianta
a misericórdia de Deus. E pequeno o seu desejo de crescimento nas coisas
espirituais, o desejo pela Palavra de Deus e pelo testemunho que salva as
almas. Escondem a sua luz, qualquer que seja, debaixo de um barril.
3. Retorno e recompensa dos talentos.
A frase "muito tempo depois
veio o senhor daqueles servos" não significa que Jesus teve a intenção de
ensinar que a sua segunda vinda não deveria ser esperada por séculos.
Jesus nunca estabeleceu uma data para a sua volta, pois ele pode vir a
qualquer hora. Uma coisa sabemos: sempre há tempo suficiente antes que
Cristo venha para que os que forem "servos diligentes dupliquem o capital
que lhes foi confiado". Quando os servos compareceram à presença de seu
senhor, houve um impressionante balancete. O primeiro e o segundo
servos relataram orgulhosamente o seu sucesso nos negócios e devolveram
ao seu mestre o dobro do que lhe pertencia. Ambos foram recompensados
exatamente da mesma forma. Ambos foram louvados: "Bem está!" Ambos
receberam a promessa: "Sobre o muito te colocarei". Ambos foram glo-
rificados: "Entra no gozo do teu senhor". "O gozo do Senhor" é uma alegria
completa: o gozo que ele sente pelo serviço fiel a ele prestado, o gozo que
temos em sermos aprovados por ele, o gozo em vermos outras pessoas no
céu, por causa de nossa fidelidade. Esses dois servos eram diferentes
quanto aos talentos recebidos, mas idênticos quanto à obediência,
diligência e fidelidade ao seu senhor; portanto receberam uma recompensa
idêntica. O que vai conquistar a aprovação do Mestre, quando ele voltar
para recompensar os seus, não será a fama mas a fidelidade.
Que condenação solene caiu sobre o servo que enterrou o seu talento!
Da mesma maneira que os fiéis são recompensados de acordo com o valor
intrínseco de suas obras assim também há condenação pelo não uso
daquilo que Cristo nos confia. Quando acontecer o Julgamento de Cristo,
muitos serão elogiados; outros, porém, serão condenados. Para os que o
tiverem honrado, há uma coroa (2Tm 4:8); um trono (Ap 3:21); um reino (Mt
25:34). Será que teremos uma recompensa plena, ou estaremos entre
aqueles sobre quem se diz: "Salvo, todavia como pelo fogo"? Uma alma
salva, mas uma vida perdida e uma recompensa perdida em conseqüência
da omissão.
Como o verdadeiro caráter desse terceiro servo vem à tona, através de
sua resposta e da condenação que o seu senhor lhe dirige pela sua falha?
Em primeiro lugar, ele tinha uma falsa idéia de seu mestre, e usou esse
seu equívoco como uma desculpa por ter falhado naquilo que lhe havia sido
confiado. Ele se enganou sobre o seu mestre ao pensar que ele era um
homem duro, que ceifava onde não semeara, e agora cita esse pensamento
equivocado diante de seu senhor. Por que ele tinha receio de encarar o seu
mestre, enquanto os outros dois servos estavam prontos e cheios de júbilo
por verem-no retornar? Essa sua postura de defesa foi uma ofensa. Ele
adicionou injustiça à sua indolência. O senhor disse que ele tinha provado
ser um servo mau e negligente (note que ele ainda era um servo); mau,
porque pensava que o seu senhor fosse duro e injusto; negligente, porque
deixara de usar o talento.
O servo foi silenciado e condenado, e o senhor ordenou que o seu ta-
lento fosse tomado e dado ao que possuía dez. Assim ele perdeu o que
tinha guardado tão cuidadosamente. Parece que a lição aqui é use ou
perca. O que ganha continua aumentando o seu ganho —o que não ganha
continua perdendo o que armazena. Saul perdeu a sua coroa para Davi.
"Ao que não tiver, até o que tem lhe será tirado"; "A qualquer que tiver, será
dado, e terá em abundância". Como negociante que não produz o devido
lucro, o servo foi atirado nas trevas. A Bíblia não revela tudo o que está
implicado na expressão "trevas do lado de fora", mas parece denotar "trevas
do lado de fora de alguma região da luz". Campbell Morgan fala desse
termo como "as trevas que estão do lado de fora do reino da responsabilida-
de". Esse servo não enterrou o seu talento porque só tinha um, mas porque
era mau e negligente. Nós, que dizemos ser servos do Senhor, sejamos
achados servindo a ele no limite máximo de nossa habilidade e capacidade,
para que quando ele voltar possamos receber a sua recompensa!
Autor: Herbet Lockyer
Extraído do Livro Todas as Parábolas da Bíblia

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