Lições Bíblicas nº 56
TEXTO BÍBLICO BÁSICO
TEXTO BÍBLICO BÁSICO
Tiago 2.14-18
14 - Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé
e não tiver as obras? Porventura, a fé pode salvá-lo?
15 - E, se o irmão ou a irmã estiverem nus e tiverem falta
de mantimento cotidiano,
16 - e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos e
fartai-vos; e lhes não derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito
virá daí?
17 - Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si
mesma.
18 - Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras;
mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas
obras.
TEXTO ÁUREO
"Quem, pois, tiver bens do mundo e, vendo o seu
irmão necessitado, lhe cerrar o seu coração, como estará nele o amor de
Deus?" 1 João 3.17
ORIENTAÇÕES PEDAGÓGICAS
Caro professor, a questão da pobreza e da fome no mundo é
extremamente desafiadora. As estatísticas que acompanham a lição auxiliam a
fixar a dimensão desse problema, mas você pode buscar mais material, disponível
em sites desse tema, como o da Organização das Nações Unidas para Agricultura e
Alimentação (FAO, na sigla em inglês).
Nesta lição, será necessário estimular o aluno a entender
qual a responsabilidade social da Igreja, despertando o desejo de se envolverem
em atitudes sociais coletivas — da própria igreja e individuais —, tornando-se
parte da solução dos problemas das pessoas carentes que frequentam a igreja, ou
fazem parte da comunidade onde a igreja está inserida.
Palavra introdutória
Com a chegada do século 21, a população nutriu esperanças
de melhorias na área social. Houve, ainda, reflexões muito interessantes sobre
o combate à pobreza e à distribuição de renda. A dura realidade, porém, era que
em vez de diminuir o terrível quadro de desigualdade social e miséria, a
humanidade prosseguia produzindo famintos e pobres como nunca.
Como Igreja, mesmo diante de uma realidade social muito
difícil no mundo em que vivemos, cabe a cada um lançar mão do arado, olhando
para frente, sabendo que existe uma responsabilidade social a ser cumprida, que
a Bíblia conclama todos a ser sal e luz (Mt 5.13,14), fazendo diferença no
contexto
em que estamos situados.
1. PANORAMA DESAFIADOR
A situação da pobreza e da fome no mundo produz um quadro
bastante desafiador. A seguir, podemos ver estatísticas preocupantes a
respeito dessas questões, ligadas entre si.
1.1. Pobreza
Passada mais de uma década e meia do novo século, a
estatística mais recente do Banco Mundial (2016) mostra que quase um bilhão de
pessoas no mundo vivem abaixo da linha de pobreza (766 milhões de
pessoas). A medição da linha de pobreza se dá por aqueles que recebem
até 1,90 dólares por dia, 57 dólares mensais, pouco mais de R$200,00. Além
disso, existem problemas em determinar isso, pois, em muitos casos, não existe
um processo adequado para quantificar a renda de certas pessoas em dólares. É
provável que o número seja maior.
Os dados revelam que cerca de 80% da população pobre do
mundo está no contexto rural. Desse total, pouco menos da metade tem até 14
anos (44%) e 39% deles não possuem escolaridade. Quase todos esses pobres moram
na África, ao sul do deserto do Saara, e no sul da Ásia; a maioria não tem
acesso à educação, o que significa que será bem difícil
deixar essa condição de pobreza. Torna-se um círculo vicioso. Boa parte deles
está isolada, abandonada nas áreas rurais. Muitos estão vivendo em locais
oprimidos pelos grandes capitalistas, desprezados pelo restante da população do
mundo.
No Brasil, a disparidade social aumentou. De acordo com o
relatório mais atual da ONU, nosso país — hoje na posição 79,
dentre 188 países — perdeu 19 posições na tabela de classificação. Essa
tabela mostra o desequilíbrio de rendimentos entre ricos e pobres, no
comparativo entre 2014 e 2015. Foi a primeira vez que houve essa queda no
indicador social do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) desde 1990.
1.2. Fome
A fome no mundo está diretamente ligada à pobreza. A fome e
a desnutrição vão acontecer em regiões do mundo onde a incidência de pobreza é
grande.
Em 2017, a Organização das Nações Unidas publicou um
relatório onde declarou que 815 milhões de
pessoas no mundo estão sofrendo com a fome; isso
representa 11% da população do planeta. Em compensação, juntas, as 500 pessoas
mais ricas do mundo acumularam, em 2017, a importância de um trilhão de
dólares. Entretanto, 10% desse total seriam suficientes para solucionar o
problema da fome e da pobreza do mundo.
Portanto, o principal problema não é a falta de
dinheiro, recursos ou alimentos, mas o egoísmo humano.
A ausência de amor ao próximo, o amor à riqueza e a avareza
permanecem arruinando a humanidade, sendo os motivos para a pobreza,
fome e diversos males sociais.
________________________
É estarrecedor saber que o
mundo produz o suficiente
para alimentar toda a sua
população de 7,6 bilhões,
mas quase um bilhão de
pessoas passa fome! A cada
quatro segundos alguém
morre de fome. Os dados
mostram uma contradição,
pois a humanidade produz
alimentos suficientes.
mundo produz o suficiente
para alimentar toda a sua
população de 7,6 bilhões,
mas quase um bilhão de
pessoas passa fome! A cada
quatro segundos alguém
morre de fome. Os dados
mostram uma contradição,
pois a humanidade produz
alimentos suficientes.
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2. RESPONSABILIDADE SOCIAL
As frequentes alterações procedentes do crescimento e da globalização
têm abalado todas as dimensões da sociedade, tornando-se necessária uma
renovação no modo de administrar os negócios e outros aspectos que atingem a
sociedade.
Nesse ponto, a responsabilidade social encontra-se
justamente ligada às alterações que acontecem e abrangem todos os tipos de
corporações.
2.1. O surgimento da responsabilidade social
No Brasil, a responsabilidade social não teve um começo
preciso, mas existem ações sociais registradas de alguns empresários, a partir
do século 19. Entretanto, podemos considerar a “Carta de princípios dos
dirigentes cristãos de em presas” como um dos pontos de partida, que foi
publicada em 1965, e utilizou a expressão “responsabilidade social das
empresas”.
2.2. O significado de responsabilidade social
Considerando um conceito geral, pode-se afirmar que
responsabilidade social significa gerar satisfação e uma gama de serviços que
transformarão a sociedade e o mundo em algo melhor. Pode-se afirmar também que
responsabilidade social é quando empresas resolvem, voluntariamente, colaborar
para uma comunidade mais equilibrada, com um clima mais limpo.
No aspecto pessoal, responsabilidade social é saber os
nossos direitos e deveres dentro de uma sociedade e tomar o cuidado para
cumpri-los da melhor maneira possível.
Para os cristãos, a responsabilidade social deve ser uma
questão de grande importância, principalmente quando comparada a passagens
bíblicas — como o texto de Tiago 2.14-18, que afirma que a fé sem obras é
inútil. Quando olhamos para a história do cristianismo, podemos perceber a
crise social na humanidade, cujas bases estão corrompidas pela desigualdade
social, gerada pelo pecado.
3. PENSANDO SOBRE A RESPONSABILIDADE SOCIAL
As Escrituras Sagradas apresentam diversas passagens que
mostram a importância da responsabilidade social. Tanto o Antigo como o
Novo Testamento fazem abundantes alusões ao referido tema. Portanto, é
necessário refletir sobre o assunto, conforme apresentado na Palavra de Deus.
__________________
No ano do jubileu, os
escravos tinham de volta
a sua liberdade (Lv 25.10).
Esse era o ano de anunciar
a liberdade a todos.
Nesse período especial,
os bens eram restituídos,
e cada pessoa voltava a
ser proprietária de suas
terras (Lv 25.13). Uma
etapa encerrava-se e uma
fase nova era iniciada na
comunidade judaica. Esse era
um grande exemplo de ação
e responsabilidade social.
No ano do jubileu, os
escravos tinham de volta
a sua liberdade (Lv 25.10).
Esse era o ano de anunciar
a liberdade a todos.
Nesse período especial,
os bens eram restituídos,
e cada pessoa voltava a
ser proprietária de suas
terras (Lv 25.13). Uma
etapa encerrava-se e uma
fase nova era iniciada na
comunidade judaica. Esse era
um grande exemplo de ação
e responsabilidade social.
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3.1. A responsabilidade social no Antigo Testamento
Percebe-se, no período do Antigo Testamento, que um
tradicional exemplo era o ano do jubileu, que deveria ser observado a cada 50
anos.
Nesse ano, aqueles que tinham dívidas eram absolvidos e havia
perdão para todos. O ano do jubileu aproximava o povo de Deus,
rememorando o abastecimento divino ao longo dos anos. Mas o
Antigo Testamento cuida ainda da questão da viúva (Dt 10.18; Sl 146.9), do
órfão (Êx 22.22; Is 1.17) e de outras pessoas carentes, em desamparo.
3.2. A responsabilidade social no Novo Testamento
Jesus mostrou interesse nas questões de
responsabilidade social. Ele abordou o tema a partir da Lei de Moisés; porém,
foi além. Ele contou uma parábola (Lc 10.25-37) em que um samaritano, considerado
estrangeiro e impuro, deu exemplo de responsabilidade social ao socorrer e
cuidar de um judeu ferido — ação que um judeu não faria em situação idêntica e
contrária. O samaritano não só cuidou, como colocou o ferido numa
estalagem, pagando adiantado para que o judeu fosse bem cuidado e tivesse tudo
o que fosse necessário ao seu tratamento.
Cristo abordou o aspecto da questão social como se fosse um
privilégio do Evangelho, quando todos achavam que, jejuando, orando e dando
esmolas, estariam se justificando.
O apóstolo Tiago, de forma prática, falou sobre a
importância de mostrarmos uma fé cristã proativa e submissa ao Senhor (Tg
1.27). Tiago está mostrando que a responsabilidade social do cristão deve dar
prioridade aos órfãos e viúvas, suprindo suas necessidades.
Paulo orientou os cristãos da Igreja em Antioquia a
realizarem boas obras em relação aos outros cristãos (At 11.29). O mesmo Paulo,
escrevendo aos cristãos da cidade de Corinto, destacou como as boas obras (ou
ação social) realizadas pelo povo da igreja glorificavam a Deus (2 Co 9.11,12).
4. IGREJA E RESPONSABILIDADE SOCIAL
A responsabilidade social da Igreja está em seu DNA.
Não foi algo planejado; simplesmente começou a acontecer.
No livro de Atos dos Apóstolos, ela teve início logo após a
morte e ressurreição de Jesus Cristo. Neste princípio, a comunidade
cristã inicial estava se estruturando e passando por adaptações. A partir do
dia de Pentecostes, eis que ela surge de maneira extremamente vigorosa.
4.1. A origem da responsabilidade social na Igreja cristã
Atos 2.44-46 é uma descrição de como a Igreja cristã estava
se comportando. A preocupação com o equilíbrio social, com a existência digna
das pessoas e da comunidade foi o ponto de partida para que a Igreja primitiva
iniciasse sua trajetória, cooperando para o bem comum. O tempo foi
passando e, à medida que a Igreja crescia, outras deficiências apareceram; em
muitos casos, ocupando o lugar das carências mais básicas, como Jesus havia
destacado em Mateus 6.31,33 — alimento, bebida e vestimenta. Assim, a Igreja
foi se distanciando do seu referencial inicial de Atos, capítulo 2.
4.2. A responsabilidade social da Igreja cristã na
história
Na história da Igreja, durante a maior parte do tempo, os
cristãos compreenderam que a assistência social era de fundamental importância
entre os propósitos da Igreja no mundo.
Na memória dos primeiros cristãos, perdurou a lembrança de
Jesus passando por este mundo e praticando o bem (At 10.38).
O ensino dos apóstolos situou a questão social como parte
central da vida cristã. Paulo, escrevendo aos cristãos da Galácia, afirmou que
devemos fazer o bem a todos e não nos cansar disso (Gl 6.9,10).
Durante o Império Romano, a Igreja combateu o
infanticídio, o aborto e a luta dos gladiadores, que era extremamente violenta.
A Igreja nunca foi favorável à escravidão, procurando exercer influência
contrária a ela, que, naquele tempo, era considerada algo normal.
Em épocas de grande perturbação social, a única
instituição que se encontrava devidamente capacitada para auxiliar o povo em
aflição — e que de fato ajudava — era a Igreja cristã.
No século 16, com o início da Reforma Protestante, os
reformadores conservaram a relevância na caridade cristã, pregando e escrevendo
sobre o tema, além de tomarem atitudes importantes na área social.
4.3. Igreja, ação e prática social
Infelizmente, na atualidade, diversas igrejas têm se
mostrado omissas em relação ao compromisso social. Isso tem ocorrido porque a
responsabilidade social tem sido separada do evangelismo. Na verdade, eles não
são incompatíveis; são faces da mesma moeda.
Em 1974, na cidade suíça de Lausanne, 2.700
representantes cristãos de 150 países reuniram-se para tratar especificamente
de evangelização e responsabilidade social da Igreja. O Pacto de Lausanne, como
o encontro ficou conhecido, produziu um documento chamado “A responsabilidade
social cristã”. Nesse documento, eles assumiram a culpa e conclamaram todos ao
arrependimento pela negligência da Igreja em relação aos necessitados e
desassistidos. Nessa declaração, os cristãos de Lausanne afirmaram que “a
evangelização e o envolvimento sócio-político são ambos parte do nosso dever
cristão”.
Precisa ficar claro que a salvação não vem pelas boas
obras.
A salvação é somente pela graça de Deus; no entanto, o
cristão deve entender que ele é salvo para as boas obras (Ef 2.8-10).
Quando Jesus respondeu ao mestre da Lei sobre o
mandamento mais importante, Ele declarou o primeiro mandamento; depois, Ele
alinhou o primeiro ao segundo (Mt 22.39).
O verdadeiro amor concretiza-se na ajuda aos necessitados
e em ações que priorizam o viver com dignidade. Tiago afirma:
Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si
mesma (Tg 2.17). Isso quer dizer que a fé cristã é confirmada pelas obras,
quando realizamos a ação social — pessoalmente, como indivíduos, e
coletivamente, como Igreja.
A igreja local deve ser sal e luz (Mt 5.13,14),
influenciando a região onde está plantada. Ela precisa agir e fugir dos
discursos vazios de obras e cheios de fé (Tg 2.17). Além disso, ela deve
descobrir as necessidades sociais de sua comunidade e trabalhar especificamente
nelas. Só assim poderá realizar um trabalho eficaz, sem ilusões e sem
desperdiçar seus recursos.
“Fazei o bem a todos”: Os cristãos e a responsabilidade social
Por Alderi Souza de Matos
Na maior parte da história da igreja os cristãos entenderam que o socorro aos sofredores era uma parte importante da sua vocação no mundo. Eles não acreditavam que havia qualquer conflito entre essa preocupação e outros interesses da vida cristã. Foi somente no século 20 que o envolvimento social da igreja se tornou um pomo de discórdia, rompendo o consenso que havia imperado por longo tempo. Vale a pena considerar alguns aspectos dessa questão.
O precedente bíblico
O Antigo Testamento está repleto de preceitos e narrativas referentes à temática social. As figuras do pobre, do órfão, da viúva e de outras pessoas em situação de desamparo povoam as Escrituras Hebraicas. A lei de Moisés continha dispositivos que iam além do mero atendimento de necessidades imediatas, criando condições para que houvesse menor desigualdade na sociedade de Israel. São exemplos disso a lei da rebusca (Lv 19.9,10; 23.22; Dt 24.19-21) e o ano de jubileu (Lv 25.8-34). Quando se chega à literatura profética, em especial aos “profetas éticos” do século oitavo a.C. (Isaías, Oséias, Amós e Miquéias), a justiça, a misericórdia e a generosidade no trato com os sofredores se tornam um tema dominante.
Jesus retomou e aprofundou essas preocupações. Numa época em que a religiosidade judaica havia se cristalizado em torno de três práticas formais – esmolas, oração e jejum – o Senhor corrigiu algumas distorções vigentes, ensinando que a prática da caridade deveria ser humilde, desinteressada e motivada pelo amor (Mt 5.7; 6.1-4; 7.12). Ao anunciar o evangelho do reino, Ele apontou como uma de suas características a sensibilidade diante da dor alheia e a prontidão em assistir os desafortunados. Ele mostrou isso de modo magistral por meio de alguns de seus ensinos mais apreciados, como a parábola do Bom Samaritano (Lc 10.30-37) e a inquietante história do Grande Julgamento (Mt 25.31-46).
Na mente das primeiras gerações de cristãos ficou a imagem de Jesus como alguém que passou pelo mundo fazendo o bem (At 10.38). O ensino apostólico colocou a beneficência no centro da vida cristã – a misericórdia ou benignidade é um dos dons espirituais e um fruto do Espírito (Rm 12.8; Gl 5.22); deve-se fazer o bem a todos, a começar dos irmãos (Gl 6.9-10); a solidariedade deve ir além das meras palavras, para manifestar-se em ações concretas (Tg 2.15,16; 1 Jo 3.17,18). A própria instituição do diaconato testifica sobre a importância desse aspecto da vida cristã.
A experiência da igreja
Os primeiros cristãos atribuíam grande valor à prática da misericórdia. A hospitalidade e as ofertas para fins caritativos eram generalizadas entre os fiéis. Um documento da época afirma: “O jejum é melhor que a oração, mas as esmolas melhores que ambos” (2 Clemente 16). A epístola conhecida como 1 Clemente fala de cristãos que se vendiam como escravos para poderem socorrer os necessitados (55.2). Quando surgiam epidemias, os fiéis não deixavam de dar assistência aos enfermos e de sepultar os mortos. As viúvas, os órfãos, os enfermos e as crianças recebiam especial cuidado.
Em períodos de grave conturbação social, como nos estágios finais do Império Romano, a igreja era a única instituição que estava preparada para ajudar as populações afligidas. Um desdobramento preocupante ocorreu ainda no período antigo e se aprofundou na Idade Média – o entendimento de que a pobreza e a caridade tinham um valor meritório diante de Deus. Isso acabou desvirtuando as motivações que levavam muitas pessoas a se desfazerem dos seus bens e a socorrerem os necessitados. Além disso, uma atitude fatalista em relação à pobreza involuntária impedia que os pobres superassem a condição em que viviam. Apesar dessas mazelas, a história desse longo período atesta o profundo envolvimento dos cristãos com a assistência aos seus semelhantes.
Os reformadores protestantes questionaram o aspecto meritório da beneficência medieval, mas mantiveram a antiga ênfase na caridade cristã. Eles escreveram e pregaram amplamente sobre o assunto, bem como tomaram importantes iniciativas nessa área. Isso pode ser ilustrado pelas ações de João Calvino, o reformador de Genebra. Em sua vasta produção literária, ele abordou amplamente a temática social. Mais que isso, Calvino incentivou o retorno do diaconato cristão às suas funções originais e destacou que a igreja tem o papel profético de denunciar os males sociais e exortar os governantes a promoverem o bem-comum. Ele apoiou pessoalmente duas importantes instituições caritativas de Genebra: o Hospital Geral e o Fundo Francês para estrangeiros carentes.
Um aspecto interessante da história posterior do protestantismo é que os períodos de revitalização espiritual foram marcados por intensa preocupação social. Isso se deu com o pietismo alemão, com o puritanismo inglês e com os grandes despertamentos norte-americanos. Todos esses poderosos movimentos se voltaram intensamente para questões práticas como educação, missões e beneficência. Esse consenso dos evangélicos em torno da compatibilidade entre a vida espiritual, a evangelização e o serviço cristão viria a ser questionado ao longo do século 20.
O evangelho social
O “evangelho social” foi um movimento de grande importância no protestantismo norte-americano por cerca de cinqüenta anos (1880-1930). Influenciado pelo liberalismo teológico, mas distinto do mesmo em vários aspectos, foi uma resposta à crise urbana, ocasionada pelo crescimento econômico posterior à Guerra Civil. Seu principal teórico foi Walter Rauschenbusch (1861-1918), um pastor batista e professor de seminário cujo livro O Cristianismo e a Crise Social o tornou nacionalmente famoso em 1907. Outros livros seus foram Cristianizando a Ordem Social (1912) e Uma Teologia para o Evangelho Social (1917).
O movimento pretendia dar uma resposta bíblica e cristã à situação de abandono experimentada pelos trabalhadores e imigrantes que viviam nos cortiços das grandes cidades. Insistia em conceitos como “a implantação do reino de Deus na terra” e a importância de uma “sociedade redimida”. Essas idéias foram popularizadas pelo livro Em Seus Passos que Faria Jesus? (1897), do pastor congregacional Charles Sheldon. O evangelho social tendia a dar uma ênfase excessiva à transformação da sociedade, via a missão cristã no mundo principalmente em termos de ação social e tinha um otimismo pouco realista em relação ao ser humano.
Na mesma época surgiu nos Estados Unidos um outro movimento – o fundamentalismo – caracterizado por forte aversão ao liberalismo. Por causa das ligações do evangelho social com a teologia liberal e suas ênfases diferentes do protestantismo conservador, os fundamentalistas rejeitaram não só o novo movimento, mas a própria noção de envolvimento social como algo incompatível com a vida cristã e a pregação do evangelho. A partir de então, os “evangélicos” afastaram-se da área social em que haviam atuado por tanto tempo ao lado de cristãos com outras convicções. Somente com o Congresso de Lausanne, na Suíça, em 1974, os evangélicos voltariam a interessar-se pelas questões sociais.
A teologia da libertação
Essa teologia foi um esforço de dar uma resposta cristã a uma situação análoga em outro contexto: a América Latina de meados do século 20. Num período de grandes tensões políticas, econômicas e sociais, em que populações inteiras experimentavam injustiças e exclusão social, teólogos católicos e protestantes articularam uma nova teologia centrada no conceito bíblico de Deus como libertador. Seus principais proponentes foram, do lado católico, Gustavo Gutiérrez, Juan Luis Segundo, Jon Sobrino e outros; do lado protestante, Rubem Alves e José Miguez Bonino.
A teologia da libertação acabou sendo rejeitada por um grande número de católicos e protestantes, em virtude de algumas de suas ênfases: a tendência de encarar o reino de Deus somente da perspectiva da libertação política e social, a utilização de categorias do pensamento marxista para analisar as realidades da América Latina, o apoio tácito ou explícito a movimentos da esquerda radical e o desprezo da teologia e piedade tradicionais, acusadas de serem alienantes. O liberacionismo acabou se esvaindo como movimento articulado, mas intensificou as reservas de amplos setores cristãos quanto ao envolvimento com as causas sociais. Entre os evangélicos surgiu uma alternativa à teologia da libertação, o conceito de “missão integral” representado pelos membros da Fraternidade Teológica Latino-Americana, como Samuel Escobar e René Padilla.
Conclusão
À luz do ensino bíblico, do exemplo de Cristo e das lições da história, os cristãos não podem ignorar o desafio social. Como a justiça social é uma das implicações do evangelho, evitar essa área acarreta sérias dificuldades para a consciência cristã e para o testemunho cristão. O fato de alguns movimentos terem tido problemas nessa abordagem não isenta os cristãos da sua responsabilidade. Ao contrário, num mundo afligido por tantas situações que atentam contra a vida, a dignidade e o bem-estar dos seres humanos, é mister que os cristãos redobrem os seus esforços no sentido de seguir os passos daquele que “andou pela terra fazendo o bem”.
Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil.
Na maior parte da história da igreja os cristãos entenderam que o socorro aos sofredores era uma parte importante da sua vocação no mundo. Eles não acreditavam que havia qualquer conflito entre essa preocupação e outros interesses da vida cristã. Foi somente no século 20 que o envolvimento social da igreja se tornou um pomo de discórdia, rompendo o consenso que havia imperado por longo tempo. Vale a pena considerar alguns aspectos dessa questão.
O precedente bíblico
O Antigo Testamento está repleto de preceitos e narrativas referentes à temática social. As figuras do pobre, do órfão, da viúva e de outras pessoas em situação de desamparo povoam as Escrituras Hebraicas. A lei de Moisés continha dispositivos que iam além do mero atendimento de necessidades imediatas, criando condições para que houvesse menor desigualdade na sociedade de Israel. São exemplos disso a lei da rebusca (Lv 19.9,10; 23.22; Dt 24.19-21) e o ano de jubileu (Lv 25.8-34). Quando se chega à literatura profética, em especial aos “profetas éticos” do século oitavo a.C. (Isaías, Oséias, Amós e Miquéias), a justiça, a misericórdia e a generosidade no trato com os sofredores se tornam um tema dominante.
Jesus retomou e aprofundou essas preocupações. Numa época em que a religiosidade judaica havia se cristalizado em torno de três práticas formais – esmolas, oração e jejum – o Senhor corrigiu algumas distorções vigentes, ensinando que a prática da caridade deveria ser humilde, desinteressada e motivada pelo amor (Mt 5.7; 6.1-4; 7.12). Ao anunciar o evangelho do reino, Ele apontou como uma de suas características a sensibilidade diante da dor alheia e a prontidão em assistir os desafortunados. Ele mostrou isso de modo magistral por meio de alguns de seus ensinos mais apreciados, como a parábola do Bom Samaritano (Lc 10.30-37) e a inquietante história do Grande Julgamento (Mt 25.31-46).
Na mente das primeiras gerações de cristãos ficou a imagem de Jesus como alguém que passou pelo mundo fazendo o bem (At 10.38). O ensino apostólico colocou a beneficência no centro da vida cristã – a misericórdia ou benignidade é um dos dons espirituais e um fruto do Espírito (Rm 12.8; Gl 5.22); deve-se fazer o bem a todos, a começar dos irmãos (Gl 6.9-10); a solidariedade deve ir além das meras palavras, para manifestar-se em ações concretas (Tg 2.15,16; 1 Jo 3.17,18). A própria instituição do diaconato testifica sobre a importância desse aspecto da vida cristã.
A experiência da igreja
Os primeiros cristãos atribuíam grande valor à prática da misericórdia. A hospitalidade e as ofertas para fins caritativos eram generalizadas entre os fiéis. Um documento da época afirma: “O jejum é melhor que a oração, mas as esmolas melhores que ambos” (2 Clemente 16). A epístola conhecida como 1 Clemente fala de cristãos que se vendiam como escravos para poderem socorrer os necessitados (55.2). Quando surgiam epidemias, os fiéis não deixavam de dar assistência aos enfermos e de sepultar os mortos. As viúvas, os órfãos, os enfermos e as crianças recebiam especial cuidado.
Em períodos de grave conturbação social, como nos estágios finais do Império Romano, a igreja era a única instituição que estava preparada para ajudar as populações afligidas. Um desdobramento preocupante ocorreu ainda no período antigo e se aprofundou na Idade Média – o entendimento de que a pobreza e a caridade tinham um valor meritório diante de Deus. Isso acabou desvirtuando as motivações que levavam muitas pessoas a se desfazerem dos seus bens e a socorrerem os necessitados. Além disso, uma atitude fatalista em relação à pobreza involuntária impedia que os pobres superassem a condição em que viviam. Apesar dessas mazelas, a história desse longo período atesta o profundo envolvimento dos cristãos com a assistência aos seus semelhantes.
Os reformadores protestantes questionaram o aspecto meritório da beneficência medieval, mas mantiveram a antiga ênfase na caridade cristã. Eles escreveram e pregaram amplamente sobre o assunto, bem como tomaram importantes iniciativas nessa área. Isso pode ser ilustrado pelas ações de João Calvino, o reformador de Genebra. Em sua vasta produção literária, ele abordou amplamente a temática social. Mais que isso, Calvino incentivou o retorno do diaconato cristão às suas funções originais e destacou que a igreja tem o papel profético de denunciar os males sociais e exortar os governantes a promoverem o bem-comum. Ele apoiou pessoalmente duas importantes instituições caritativas de Genebra: o Hospital Geral e o Fundo Francês para estrangeiros carentes.
Um aspecto interessante da história posterior do protestantismo é que os períodos de revitalização espiritual foram marcados por intensa preocupação social. Isso se deu com o pietismo alemão, com o puritanismo inglês e com os grandes despertamentos norte-americanos. Todos esses poderosos movimentos se voltaram intensamente para questões práticas como educação, missões e beneficência. Esse consenso dos evangélicos em torno da compatibilidade entre a vida espiritual, a evangelização e o serviço cristão viria a ser questionado ao longo do século 20.
O evangelho social
O “evangelho social” foi um movimento de grande importância no protestantismo norte-americano por cerca de cinqüenta anos (1880-1930). Influenciado pelo liberalismo teológico, mas distinto do mesmo em vários aspectos, foi uma resposta à crise urbana, ocasionada pelo crescimento econômico posterior à Guerra Civil. Seu principal teórico foi Walter Rauschenbusch (1861-1918), um pastor batista e professor de seminário cujo livro O Cristianismo e a Crise Social o tornou nacionalmente famoso em 1907. Outros livros seus foram Cristianizando a Ordem Social (1912) e Uma Teologia para o Evangelho Social (1917).
O movimento pretendia dar uma resposta bíblica e cristã à situação de abandono experimentada pelos trabalhadores e imigrantes que viviam nos cortiços das grandes cidades. Insistia em conceitos como “a implantação do reino de Deus na terra” e a importância de uma “sociedade redimida”. Essas idéias foram popularizadas pelo livro Em Seus Passos que Faria Jesus? (1897), do pastor congregacional Charles Sheldon. O evangelho social tendia a dar uma ênfase excessiva à transformação da sociedade, via a missão cristã no mundo principalmente em termos de ação social e tinha um otimismo pouco realista em relação ao ser humano.
Na mesma época surgiu nos Estados Unidos um outro movimento – o fundamentalismo – caracterizado por forte aversão ao liberalismo. Por causa das ligações do evangelho social com a teologia liberal e suas ênfases diferentes do protestantismo conservador, os fundamentalistas rejeitaram não só o novo movimento, mas a própria noção de envolvimento social como algo incompatível com a vida cristã e a pregação do evangelho. A partir de então, os “evangélicos” afastaram-se da área social em que haviam atuado por tanto tempo ao lado de cristãos com outras convicções. Somente com o Congresso de Lausanne, na Suíça, em 1974, os evangélicos voltariam a interessar-se pelas questões sociais.
A teologia da libertação
Essa teologia foi um esforço de dar uma resposta cristã a uma situação análoga em outro contexto: a América Latina de meados do século 20. Num período de grandes tensões políticas, econômicas e sociais, em que populações inteiras experimentavam injustiças e exclusão social, teólogos católicos e protestantes articularam uma nova teologia centrada no conceito bíblico de Deus como libertador. Seus principais proponentes foram, do lado católico, Gustavo Gutiérrez, Juan Luis Segundo, Jon Sobrino e outros; do lado protestante, Rubem Alves e José Miguez Bonino.
A teologia da libertação acabou sendo rejeitada por um grande número de católicos e protestantes, em virtude de algumas de suas ênfases: a tendência de encarar o reino de Deus somente da perspectiva da libertação política e social, a utilização de categorias do pensamento marxista para analisar as realidades da América Latina, o apoio tácito ou explícito a movimentos da esquerda radical e o desprezo da teologia e piedade tradicionais, acusadas de serem alienantes. O liberacionismo acabou se esvaindo como movimento articulado, mas intensificou as reservas de amplos setores cristãos quanto ao envolvimento com as causas sociais. Entre os evangélicos surgiu uma alternativa à teologia da libertação, o conceito de “missão integral” representado pelos membros da Fraternidade Teológica Latino-Americana, como Samuel Escobar e René Padilla.
Conclusão
À luz do ensino bíblico, do exemplo de Cristo e das lições da história, os cristãos não podem ignorar o desafio social. Como a justiça social é uma das implicações do evangelho, evitar essa área acarreta sérias dificuldades para a consciência cristã e para o testemunho cristão. O fato de alguns movimentos terem tido problemas nessa abordagem não isenta os cristãos da sua responsabilidade. Ao contrário, num mundo afligido por tantas situações que atentam contra a vida, a dignidade e o bem-estar dos seres humanos, é mister que os cristãos redobrem os seus esforços no sentido de seguir os passos daquele que “andou pela terra fazendo o bem”.
Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil.
A missão social da igreja
“Bem-aventurado é aquele que atende ao pobre; o Senhor o
livrará no dia do mal” (Sl 41.1).
O engajamento da igreja no serviço social, socorrendo os
pobres em suas diversas necessidades, diferente do que pensam muitos, não é um
desvio de sua missão, mas parte intrínseca dela. Segundo podemos inferir da
Palavra de Deus, a igreja tem a obrigação (não a opção) de minorar o sofrimento
humano, seguindo assim o exemplo de seu grande Mestre (At 10. 38, Lc 4.18; ver
Tg 1.27). Muito boa esta oportunidade em que trataremos da responsabilidade
social da igreja de Cristo.
MEIOS DE SE EXERCER A RESPONSABILIDADE SOCIAL
No livro Ação Social Cristã, o pr. Hélcio da Silva Lessa
classifica a responsabilidade social em três categorias: assistência social,
serviço social e ação social. Para melhor compreensão da aula, vamos ver
sucintamente a definição de cada uma delas.
Assistencialismo. Conhecido como
assistencialismo ou paternalismo, busca atender às necessidades emergentes das
pessoas. A pessoa atendida, objeto da ação, encontra-se numa situação de total
dependência e, mesmo havendo o suprimento de suas necessidades, as suas
carências continuam.
Serviço Social. Aqui, a pessoa carente recebe
condição para interagir e melhorar sua situação, recuperando a dignidade e
confiança. Projetos sociais tendo como alvo o ensino, a orientação, o apoio, a
profissionalização promovem a capacitação do indivíduo a fim de que este se
torne responsável pela solução de seus problemas.
Ação Social. Procura transformar as estruturas
da sociedade, buscando a criação de bases mais justas. Neste sentido, é muito
importante que seja criada uma consciência cívica no meio evangélico, que leve
cristãos aos órgãos públicos que estão diretamente relacionados com a
infra-estrutura sócio política do país (do Manual de Ação Social/ Igreja
Metodista).
A BÍBLIA E A RESPONSABILIDADE SOCIAL
No Antigo Testamento (Dt 15.10,11). Havia
na comunidade israelita do antigo Testamento um profundo senso de
responsabilidade social como resultado da obediência à Palavra de Deus que
determinava que os pobres, estrangeiros, viúvas e órfãos fossem assistidos e
socorridos em suas necessidades básicas (Dt 15.7-10; Lv 19.10; 23.22; Ex
23.11). Vejamos como Deus, que nunca deixou de se preocupar com a dignidade
humana, estabeleceu medidas econômicas e sociais para o seu povo, visando
relações justas entre eles.
O ano sabático (Lv 25.1-17). A cada sete anos, o
solo deveria ser liberado para descanso e renovação da terra, os escravos
seriam libertados, os endividados, perdoados e os trabalhadores tinham direito
a descanso. Outrossim: os pobres tinham o direito de colher por si mesmo do
fruto da terra (23.10,11).
A lei do jubileu (Lv 25.8-34). Entre outras
coisas, determinava que, a cada cinqüenta anos, (1) os escravos seriam
libertados; (2) todas as dívidas seriam perdoadas; (3) as terras seriam
devolvidas aos seus antigos donos. Essas medidas evitavam a concentração de
riquezas (diga-se de terra), promoviam a redistribuição dos meios de produção e
evitavam situações extremas de dívidas, pobrezas, desapropriação e miséria.
Dízimos e colheitas (Dt 14.22-29; Lv 19.9,10). Os
dízimos de toda a produção agrícola se destinavam, entre outras coisas, para o
sustento dos órfãos, viúvas e estrangeiros. Em relação a colheita, a palavra de
Deus determinava: “E quando segardes a sega da vossa terra, não acabarás de
segar os cantos do teu campo, nem colherás as espigas caídas da tua sega; para
o pobre e para o estrangeiro as deixarás...” (Lv 23. 22). Tais procedimentos
protegiam os estrangeiros e evitavam a pobreza extrema no meio do povo. Rute,
nora de Noemi, foi beneficiada por esta lei (Rt 2.2,3).
No Novo Testamento (Mt 26.11; Gl 2.10). Na
palestina do Novo Testamento, a situação sócio-econômica da maioria das pessoas
era deplorável. É tanto que os necessitados acorriam, aos borbotões, à presença
do homem de Nazaré, a fim de serem ajudados, muitos apenas para matar a fome
(Jo 6.26). Eles eram pobres, enfermos, deficientes físicos, viúvas, crianças,
idosos, desamparados, desabrigados e maltratados (Lc 14.13,14).
O exemplo de Jesus. Jesus foi, sem dúvida, o
maior exemplo de preocupação e auxílio aos necessitados. Seus ensinos e obras o
demonstraram. Uma de suas ricas parábolas é a do bom samaritano, o bondoso
homem que arriscou sua vida para cuidar de um necessitado desconhecido, com quem
nem o sacerdote nem o levita se importaram (Lc 10.25-37). Essa parábola ainda
hoje exerce grande influência nas civilizações. Em outra parábola – sobre as
ovelhas e os bodes – Jesus se identifica tanto com os pobres a ponto de dizer:
“O que vocês fizeram a um destes pequeninos irmãos [os pobres necessitados], a
mim o fizeram” (Mt 25.40). Ele Não podia ver os miseráveis sem se compadecer
(Mt 9.36; 14.14; 20.34; Mc 10.45). Uma vez, chegou a convidar um homem rico a
vender tudo que tinha e dar aos pobres (Mt 19.21).
Jesus encarnou o amor e preocupação de Deus com os pobres
tão nitidamente manifesta no Antigo Testamento. A sua compaixão com os
miseráveis responde a uma pergunta que é constante no coração de quem sofre:
“Deus se importa?” Jesus responde que sim.
“Jesus se preocupou com o homem enquanto unidade
física-psiquica-espiritual. Ele curou, ensinou, salvou, consolou. Cuidou do ser
humano por inteiro, rejeitando totalmente a visão grega que valoriza a dimensão
espiritual em detrimento da material. A prática de Jesus segue uma seqüência
marcada pelo ver, sentir e agir. Nesse sentido, é interessante notar que nos
vários encontros de Jesus com as pessoas, indivíduos ou grupos, a ação de Jesus
foi marcada por uma completa coerência com seus ensinos. Por isso Pedro apresenta
Jesus como ‘aquele que andou fazendo o bem”’ (Manual de Ação Social / Igreja
Metodista Livre / www.metodistalivre.org.br).
O exemplo da igreja primitiva. Ainda que vamos tratar
mais detalhadamente sobre a igreja primitiva no próximo tópico, vale acrescentar
aqui que aquela igreja seguiu em tudo o exemplo de Jesus no seu cuidado para
com os necessitados. Segundo a narrativa de Lucas, uma ação usual entre os
primeiros cristãos era a partilha de bens para atender os mais necessitados (At
2.44,45; 4.34,35). Alguns irmãos, voluntariamente, vendiam suas propriedades
para suprir as necessidades dos mais carentes. Por isso, “todos os que criam
estavam juntos e tinham tudo em comum... não havia entre eles necessitado
algum” (At 2.44; 4.34).
O incentivo apostólico. Os apóstolos, nas cartas
que escreveram às várias congregações, também incentivaram o compromisso social
cristão. Paulo trata da liberdade da contribuição (I Co 9.7) e elogia os
macedônios por darem na medida de suas posses e ainda acima delas (II C 8.3).
Tiago fala da assistência aos necessitados como característica inerente à
religião pura (Tg 1.27) e condena abertamente os ricos que oprimem os pobres
(Tg 5.1-6). João fala do socorro aos necessitados como a materialização da
caridade de Deus em nós (1 Jo 3.17,18).
A IGREJA PRIMITIVA E A RESPONSABILIDADE SOCIAL
Como não poderia ser diferente, a igreja primitiva seguiu o
exemplo de Jesus, seu Mestre. A grande sensibilidade de Jesus para com as
necessidades humanas, vemo-la agora nas ações daquela primeira comunidade
cristã, traduzida no cuidado de uns para com os outros. Após o grande
despertamento promovido pela descida do Espírito Santo (At 2), os discípulos do
Senhor anunciaram veementemente o Evangelho, o que resultou num crescimento
frenético do número de fiéis, os quais se organizaram numa comunidade fiel,
calcada na doutrina, na comunhão, fraternidade e oração (At 2.42; 4.31; 5.42).
Aqueles discípulos souberam conjugar a prática da evangelização com a prática
do serviço social, esta última, parte integrante daquela.
Doutrina dos apóstolos. “E perseveravam na
doutrina dos apóstolos”. Compreende-se por “doutrina dos apóstolos” o conjunto
de ensinamentos que Jesus passou para os doze apóstolos nos seus três anos de
ministério. O Espírito santo estaria encarregado de fazê-los lembrar de tudo o
que ouviram (Jo 14.26). Nos seus últimos dias de ministério terreno, a ênfase
de Cristo recai sobre dois assuntos imprescindíveis à vida da igreja:
evangelização e amor ao próximo (Mc 16.15-19; Mt 28.18,19; Lc 24.47,48; Jo
13.12-15; 34,35; 15.12,17). Foi nessa doutrina que a igreja perseverou, o que é
a causa do seu extraordinário êxito.
Comunhão. Lucas nos conta que os primeiros
discípulo de Cristo “perseveravam na comunhão...e era um o coração e a alma da
multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua
própria, mas todas as coisas lhes eram comuns” (At 2.42, 44-46; 4.32-35).
Comunhão significa partilhar juntos do mesmo propósito. Como bem expressou o
comentarista da lição em apreço, “ [comunhão] é relacionamento íntimo e
fraternal entre os irmãos”. Essa foi uma marca da igreja primitiva, que se
traduzia na forte sensibilidade dos crentes pelas necessidades uns dos outros.
Solidariedade. “E perseveravam no partir do pão”.
*Em Atos 2.42, pode referir-se tanto às refeições comuns quanto à ceia do
Senhor. Era costume, entre os judeus, representar a comunhão entre as pessoas,
segurando com as mãos o pão e partido-o em pedaços, em vez de corta-lo (Lc
22.19; 1 Co 11.24). Era um ato de fraternidade e solidariedade entre irmãos.
Essa prática sugere a necessidade de a igreja partilhar, por meio do serviço
social, o pão material com os necessitados.
Oração. “E perseveravam na oração”. Os crentes
primitivos estavam juntos também em oração. Eles estavam em um mesmo espírito,
fé e amor, por isso havia uma assídua participação nas reuniões de oração. A
oração em conjunto também é uma maneira de desfrutar da comunhão. Os crente
podem orar pelos problemas da comunidade à sua volta e pelas necessidades uns
dos outros. Essa era uma prática constante na igreja primitiva.
* Lições Bíblicas CPAD/ A igreja e sua missão/ 1º
trimestre: 2007.
IGREJA E SENSO DE RESPONSABILIDADE SOCIAL.
Para a igreja primitiva, atender às necessidades dos mais
pobres não era uma opção, era uma necessidade. O amor de Deus, derramado no
coração dos crentes, os constrangia. No entender do apóstolo João, “Conhecemos
a caridade nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida
pelos irmãos. Quem, pois, tiver bens do mundo e, vendo o seu irmão necessitado,
lhe cerrar o seu coração, como estará nele a caridade de Deus?” (1 Jo 3.16,17).
Logo, a o senso de responsabilidade social daquela igreja não era o resultado
de plebiscito que optou por assim fazer, mas era o resultado de valores
espirituais e morais profundamente arraigados naquela comunidade cristã.
A igreja era caridosa (At 2.45). A caridade é o amor em
ação. É o fruto do Espírito (Gl 4.22). A igreja era - e ainda deveria ser - a
materialização do amor de Deus. Lucas nos conta que aqueles primeiros crentes
“vendiam suas propriedades e fazendas e repartiam com todos, segundo cada um
tinha necessidade”. Era muito mais que palavras. Era ação. O apóstolo João,
mais tarde, lembraria aqueles dias na sua carta universal, ao dizer: “Meus
filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade”.
Alguém disse certa vez que as pessoas podem até duvidar daquilo que você diz,
mas nunca daquilo que você faz. A igreja daqueles dias era uma igreja que
fazia, por isso caía na graça de todo o povo (At 2.47).
Consciência das necessidades materiais dos cristãos (At
11.27-30). Lucas relata a profecia de Ágabo acerca da grande fome que viria
sobre todo o mundo, o que, de fato, ocorreu no governo de Cláudio César entre
45 e 54 d.C. Esse fato também é relatado pelo historiador judeu Flávio Josefo.
Agora, a igreja de Jerusalém padecia de grande necessidade. A igreja de
Antioquia não perde tempo. Está consciente de suas das necessidades de seus
irmãos e de suas responsabilidades. Por mãos de Paulo e Barnabé, os discípulos
antioquenses mandaram, cada um conforme o que pudesse, socorro aos irmãos em
Jerusalém. Em outras passagens bíblicas, vemos Paulo levantando ofertas na
Acaia e na Galácia para suprir as necessidades daqueles irmãos (Rm 15.26; 1 Co
16.1-3).
A igreja primitiva cumpria sua missão social. * A igreja não
apenas pregava o Evangelho, mas também atendia àqueles que necessitavam de
socorro físico e material. Os seguintes princípios devem nortear o serviço
social da igreja:
Mutualidade – isto é, ser generoso, recíproco, solidário.
Responsabilidade – trata-se de privilégio e não obrigação (2
Co 8.4; 9.7).
Proporcionalidade – contribuição de acordo com as
possibilidades individuais (2 Co 9.6,7).
* Lições Bíblicas CPAD/ A igreja e sua missão/ 1º
trimestre: 2007.
A preocupação com o bem-estar da pessoa humana é uma constante na Palavra de Deus, desde os dias do Antigo Testamento (Lv 23.22; Dt 15.11; Sl 41.1). No Novo Testamento, se evidencia de forma gritante nas ações de Jesus, o qual andou fazendo o bem e libertando todos os oprimidos (Lc 4.18; At 10.38). Finda a sua missão terrena, o Filho de Deus transferiu à sua igreja, como parte de sua missão, o cuidado com os pobres ao dizer “Assim como o Pai me enviou, eu vos envio a vós”. Uma igreja que apenas se importa com a salvação da alma, não atentando para as outras necessidades básicas dos pecadores, sem dúvida é uma igreja que não tem consciência de sua real missão.


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