domingo, 11 de novembro de 2018

Lição 7 - Perdoamos Porque Fomos Perdoados



  1. “Todos dizem que o perdão é uma ideia maravilhosa até que elas tenham algo para perdoar.”


INTERPRETANDO A PARÁBOLA
Wagner Tadeu dos Santos Gaby
Eliel dos Santos Gaby
O capítulo 18 de Mateus traz os ensinos de Jesus sobre a conduta dos seus discípulos como membros da nova comunidade trazida à existência por meio da mensagem evagélica de Cristo. O Reino de Deus possui valores essencialmente diferentes daqueles que caracterizam as instituições terrenas e as organizações desse mundo. Lembre-se de que nesse reino os humildes são os verdadeiramente grandes: “Naquela mesma hora, chegaram os discípulos ao pé de Jesus, dizendo: Quem é o maior no Reino dos céus? E Jesus, chamando uma criança, a pôs no meio deles e disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos céus. Portanto, aquele que se tornar humilde como esta criança, esse é o maior no Reino dos céus” (Mt 18.1-4).
No Reino de Deus, o inferior e mais apagado súdito leal a seu Rei possui valor infinito. A suprema ofensa na comunidade messiânica é quando os fortes e os dominadores tornam o discipulado dos irmãos fracos e sensíveis, mais difícil: “Mas qualquer que escandalizar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do mar. Ai do mundo, por causa dos escândalos. Porque é mister que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem!” (Mt 18.6,7).
De igual modo, mostrar desprezo pelos irmãos em Cristo é algo inaceitável: “Porque o Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido” (Mt 18.11). Depois temos a pergunta realizada por Pedro e a parábola propriamente dita. A parábola quer demonstrar o perdão de Deus; a necessidade de que os homens perdoem em função de Deus nos perdoar. Para finalizar, ela adverte a respeito do juízo divino sobre aqueles que se negam a perdoar. Lockyer destaca que “Cristo ensinou que quanto mais formos inocentes naquilo em que admitimos ter errado, mais poder teremos para curar tal desvio e mais seremos responsáveis em fazê-lo, assim, tanto o que comete o erro, como o que o sofre, ambos deveriam acabar com a contenda”. De igual modo, mostrar desprezo pelos irmãos em Cristo é algo inaceitável: “Porque o Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido” (Mt 18.11). Depois temos a pergunta realizada por Pedro e a parábola propriamente dita. A parábola quer demonstrar o perdão de Deus; a necessidade de que os homens perdoem em função de Deus nos perdoar. Para finalizar, ela adverte a respeito do juízo divino sobre aqueles que se negam a perdoar. Lockyer destaca que “Cristo ensinou que quanto mais formos inocentes naquilo em que admitimos ter errado, mais poder teremos para curar tal desvio e mais seremos responsáveis em fazê-lo, assim, tanto o que comete o erro, como o que o sofre, ambos deveriam acabar com a contenda”.1
Parece que Pedro estava pensando a respeito do que Jesus havia dito sobre um irmão que peca “contra ti” (Mt 18.15). A pergunta do apóstolo parece simples, mas traz um pano de fundo judaico. Pedro quer saber quantas vezes deve perdoar aquele irmão. Talvez sentiu-se generoso ao sugerir: “Até sete?”. Pode ser que o significado dos números que encontramos aqui esteja relacionado ao fato de que os discípulos de Jesus têm de ser misericordiosos na medida em que Lameque ameaçou não ter misericórdia (Gn 4.24), 490 vezes em lugar de 7. Na tradição judaica posterior, a tradição rabínica não exigia que alguém perdoasse mais do que três vezes.
A resposta do Mestre deve ter perturbado Pedro. Mas lembre-se de que Jesus está utilizando-se de uma hipérbole. Não devemos entender isso num sentido matemático preciso. “A hipérbole caracteriza-se pelo exagero de uma ideia com o objetivo de expressar intensidade, assim, constitui-se uma figura de linguagem construída através do uso intencional de uma palavra ou expressão exagerada em si mesma ou pelo uso de um termo que é exagerado em relação ao contexto”.2 O quadro abaixo apresenta alguns exemplos de hipérbole na Bíblia Sagrada
Dt    1.28  Para onde subiremos? Nossos irmãos fizeram com que se derretesse o nosso coração, dizendo: Maior e mais alto é este povo do que nós; as cidades são grandes e fortificadas até aos céus; e também vimos ali filhos dos gigantes.
 Sl 6.6 Já estou cansado do meu gemido; toda noite faço nadar a minha cama; molho o meu leito com as minhas lágrimas.Sl 119.136 Rios de águas correm dos meus olhos, porque os homens não guardam a tua lei.
 Lm 3.48 Torrentes de águas derramaram os meus olhos, por causa da destruição da filha do meu povo.
 Mt 5.29  Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti, pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que todo o teu corpo seja lançado no inferno.
 Mt 7.3 E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu olho?
 Jo 21.25 Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e, se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem. Amém!
 1Co 13.12  Porque, agora, vemos por espelho em enigma; mas, então, veremos face a face; agora, conheço em parte, mas, então, conhecerei como também sou conhecido.
Jesus ensina a perdoar quantas vezes forem necessárias, mas que isso também deve ser feito de coração. Devemos perdoar com liberalidade e com sinceridade. Os servos de um rei eram oficiais de alta posição a serviço do imperador. Alguns deles, muitas vezes, em determinadas ocasiões, podiam tomar grandes quantias de dinheiro emprestadas do tesouro imperial. Nesta parábola, a quantia mencionada por Jesus é, mais uma vez, deliberadamente dada com exagero. É uma hipérbole que visa tornar mais vívido o contraste com o segundo débito – cem dinheiros.Jesus ensina a perdoar quantas vezes forem necessárias, mas que isso também deve ser feito de coração. Devemos perdoar com liberalidade e com sinceridade. Os servos de um rei eram oficiais de alta posição a serviço do imperador. Alguns deles, muitas vezes, em determinadas ocasiões, podiam tomar grandes quantias de dinheiro emprestadas do tesouro imperial. Nesta parábola, a quantia mencionada por Jesus é, mais uma vez, deliberadamente dada com exagero. É uma hipérbole que visa tornar mais vívido o contraste com o segundo débito – cem dinheiros.
É difícil achar um equivalente no sistema monetário moderno, mas o Comentário Beacon compara um talento com cerca de “dez milhões de dólares” americanos. Trata-se de uma dívida impagável. O que Cristo quer ensinar é a completa falta de esperança de pagarmos o incomensurável débito que geramos por causa de nossos pecados, até que ele fosse perdoado gratuitamente por Deus, por intermédio da morte de Cristo na cruz do Calvário.
Agora o Senhor passa para outro personagem. Ele tem uma dívida de “cem dinheiros” para com aquele cuja dívida era impagável. Cem denários trata-se de uma moeda romana. Mais uma vez o Comentário Beacon faz uma atualização e o atualiza para “vinte dólares americanos” – “uma soma insignificante comparada àquela que o oficial da corte devia ao rei”. Contudo, aquele que teve sua dívida perdoada agora resolve ser absolutamente incompreensivo. Recusa-se a dar um prazo e ainda mandou que o seu servo fosse lançado na prisão.moeda romana. Mais uma vez o Comentário Beacon faz uma atualização e o atualiza para “vinte dólares americanos” – “uma soma insignificante comparada àquela que o oficial da corte devia ao rei”. Contudo, aquele que teve sua dívida perdoada agora resolve ser absolutamente incompreensivo. Recusa-se a dar um prazo e ainda mandou que o seu servo fosse lançado na prisão.
Os demais servos, ao sentirem-se revoltados pela atitude injusta do credor incompasivo, levam o assunto até o conhecimento do rei. O credor acaba recebendo o castigo que merece. Jesus termina com a advertência de que Deus fará o mesmo quando não perdoarmos cada um de nossos irmãos que nos ofendem.
Texto extraído da obra “As Parábolas de Jesus











Capítulo 7  

O Gracioso P e r d ã o de Deus Mateus 18.15-35  

Perdão implica no trabalho duplo e recíproco entre Deus e nós. Perdoamos porque fomos perdoados. Dos mestres de comunicação pedagógica, é indiscutível que, Jesus foi um exemplo singular, pois utilizava, principalmente, métodos próprios explorando sempre a linguagem alegórica e figurada. Especialmente as parábolas, que era um método po­pular de instrução e Jesus soube ensinar através desse método com encanto, profundidade e clareza em suas colocações. Contar histórias sempre atraiu as pessoas e a maneira de apresentá-las sob a forma de parábolas provocava a imaginação dos ouvintes e os levava a refletir sobre os conceitos e verdades morais e espirituais contidos nelas. Sobre os mais variados assuntos rela­cionados com princípios morais e espirituais, em especial, os assuntos que tratavam das coisas do Reino dos céus por Ele anunciado. Amor, perdão, reconciliação, justiça, respeito huma­no, alegrias e tristezas e tantos outros assuntos eram tratados por Jesus nas suas parábolas, e a Bíblia declara: “Tudo isso disse Jesus por parábolas à multidão e nada lhes falava sem parábo­las” (Mt 13.34). 
  
A parábola deste capítulo tem sido identificada por outros  títulos , tais como: “O Credor Incompassivo”,“0 Servo Incle­mente”, mas, na verdade, ela trata de um assunto da maior jimportância na experiência cotidiana das pessoas: o tratamento com a ofensa e com o perdão. São princípios de vida, que norteiam o cristão quanto ao ato de perdoar quando ofendido . Ofensa e perdão são dois elementos da nossa vida cotidiana que afetam todas as nossas emoções. Jesus estabeleceu alguns princípios de tratamento do perdão aos que nos ofendem. Nesta parábola, Jesus fala do perdão numa perspectiva totalmente humana, porque não se trata apenas do perdão de Deus para o homem, mas do perdão do ofendido para o ofensor, isto é, do   homem para o homem. Jesus trata dessa relação entre aqueles que ofendem e os que são ofendidos. 

O PONTO DE PARTIDA PARA O PERDÃO (Mt 18.1-20) 
Uma história real “Não posso jamais perdoá-la”. Foram as palavras de um homem à sua esposa depois de dez anos de casados .Tudo havia começado na vida conjugal com muito amor, ternura e dedi­cação mútua entre o casal João e Maria. Nasceram dois filhos saudáveis e bonitos e João e Maria se esforçavam para que avida fosse menos árida que o semi-deserto do nordeste brasi­leiro onde viviam. Com esforço e denodo limparam a terra das pedras e a prepararam para ser produtiva usando os recursos possíveis para que isto acontecesse. Flavia certa paz e tranqüili­dade na vida daquela família naquele lugar. De repente, Maria começou a esfriar no relacionamento com o marido e com os filhos criando uma barreira quase que intransponível nas rela­ções com a família. Ninguém sabia o que estava acontecendo com Maria. Ela tornou-se dura com os filhos e fria com marido.Vivia irritada e não revelava nada, do que estava aconte­cendo. A coexistência fechada, de irritação e de silêncio, amar­gou a vida daquele lar. João, o marido, não conseguia entender  o que havia acontecido. Procurou algumas vezes dialogar com Maria, mas ela fugia sempre de qualquer tipo de conversa. Esse estado de amargura durou dez anos. Então, um dia João desco­briu que sua esposa o havia traído dez anos atrás e tinha difi­culdades de enfrentar a situação e conviver com sua culpa. Ela ficou doente emocional e fisicamente como resultado daquele estado de vida e de culpa do qual não conseguia libertar-se através da confissão e do pedido de perdão. Naturalmente, João ,ao descobrir o que havia acontecido, ficou cheio de ódio e queria vingar-se a qualquer custo. Por dez anos viveu num clima de receios, dúvidas e rancores, e agora, com o coração cheio de ira e rancor, o pensamento que lhe aguilhoava dia enoite era a vingança contra o homem que entrou na sua casa como amigo e que agia como se nada tivesse acontecido ao longo desses anos. A idéia de perdoar a esposa e aquele homem que fizera  mal ao seu casamento, era algo humanamente impossível. En­tretanto, João era um cristão de pouca intimidade com a igreja, mas tinha no seu coração, alguma semente do Evangelho. Ao procurar aconselhar-se com o seu pastor não pode evitar apalavra “perdão”. O pastor o levou a orar juntamente consi­go a oração que Jesus ensinou: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6.12).João reagiu logo após a oração e declarou ao pastor: “Não posso jamais perdoar minha esposa nem esse homem ” . O pastor então falou-lhe com voz mansa, mas firme: “João, as palavras de Cristo a você são estas: ‘Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdo­ará as vossas ofensas’ (Mt 6.15)” .João, mais uma vez reagiu e disse ao pastor: “Como posso perdoar o homem que arrui­nou o meu lar e que destruiu tudo o que eu mais amava?” O pastor convidou João para orar, o qual começou a chorar profusamente enquanto o pastor apresentava ao Senhor aquela situação. A oração foi ungida e de grande emoção e o Espíri­to Santo produziu no coração de João um profundo senti­mento de perdão. Ele sentiu-se liberto daqueles sentimentos amargos de revolta e de vingança que acabariam por matá-lo. Ao voltar para casa, sua esposa e os dois filhos percebe­ram que havia algo sereno em seu rosto. Ele reuniu a família na sala de estar e então falou-lhes do que Deus fizera em seu coração. Não somente perdoou a esposa, mas pediu-lhe per­dão por não ter conseguido tratar desse problema antes. A esposa, que vivera o sentimento de traição e culpa em sua consciência e estava comprometendo sua saúde emocional e física, derramou-se em lágrimas diante do marido e dos fi­lhos e pediu perdão a todos. Depois de abraçarem-se, esposa e marido, pais e filhos, João declarou à esposa: “Maria, vivi momentos de ódio e rancores com profundo desejo de vin­gança, mas Deus fez uma obra em meu coração e preferi aceitar as palavras de que deveria perdoar para ser perdoado .Eu te perdôo de todo o meu coração e te peço perdão por não ter sabido administrar esta situação ”.A lição básica da parábola A lição desta parábola é que o perdão dilui todo o obstá­culo emocional negativo quando estamos dispostos a reconhe­cer que, antes de cobrar a dívida dos que nos devem, temos  uma dívida impagável com Deus. Se aquele homem esperasse  que sua esposa, que lhe havia ofendido com seu adultério, lhe confessasse o que havia acontecido, talvez não houvesse a oportunidade de perdão. Quando o perdão partiu dele, não apenas aliviou sua carga de ódio e desejo de vingança, mas liberou sua esposa para que pudesse refletir e agir com atitude recíproca.O perdão deve partir daquele que estiver pronto para adminis­trar essa atitude, independente da atitude do ofensor. Existe um ditado que diz o seguinte:“Ultrajando seu inimigo, você se coloca abaixo dele; vingando uma injúria, você estará no mes­mo nível do minngo; perdoando, você está acima dele”.Simplicidade versus emulação Jesus chama para perto de si um menino, e no meio dos seus discípulos dá uma estupenda lição de vida acerca da rela­ção das ambições pessoais e o modo de agir para obtê-las. Os versículos de 1 a 3 indicam essa exemplificação feita por Jesus àqueles homens. O modo de ilustrar foi igualmente simples e belo, e ao mesmo tempo foi tocante e impressivo para aqueles discípulos. Havia nascido no coração deles, desejos carnais e,inconvenientes de emulação cheios de ambições de grandeza,capazes de neutralizar qualquer sentimento puro de compa­nheirismo, respeito mútuo e espírito de perdão. Um sentimento impuro os incitava a querer superar uns aos outros, e esse sen­timento de rivalidade e competição foi detectado por Jesus,que imediatamente procurou corrigir algumas atitudes entre os seus discípulos.Jesus apelou para a simplicidade de um me­nino para desfazer a emulação daqueles homens. O CONTEXTO DA PARÁBOLA O objetivo final desta parábola somente será alcançado se entendermos todo o seu contexto, porque o mesmo é a pre­paração do campo de ação para as verdades que Jesus queria ensinar sobre o perdão irrestrito. 85 
  
Analisando o contexto da parábola (Mt 18.1-6) 

Para falar de perdão e como administrá-lo nas nossas re­lações pessoais acerca de ofensas, Jesus se volta para uma cri­ança e com especial ternura ensina aos seus discípulos sobrevalores morais, entre os quais o perdão. Ele ilustra a natureza inocente de uma criança e destaca a sua simplicidade para representar o verdadeiro sentido do perdão (v. 2). Jesus co­meçou fazendo elogio ao espírito simples e crédulo de uma criança para ensinar que assim deve ser o espírito perdoador de quem precisa perdoar e ser perdoado. Nesse sentido não há espaço para o espírito vingativo. Ora, quando somos sim­ples como uma criança, podemos lidar mais facilmente comas ofensas que nos fazem no dia-a-dia. A vingança é uma arma inútil que só produz dissabor e destrói não só a pessoa que é alvo da vingança, mas também aquela que a levou a efeito. David Augsburger, em seu livro Livre para Perdoar, es­creveu: “A vingança inicia uma excursão sem fim, descendo aos mais recônditos recessos do rancor, da represália e das impiedos as desforras”. Ao ilustrar sobre nossos sentimentos em relação a pode re domínio, Jesus havia percebido uma certa ansiedade dos discípulos sobre grandeza e status dentro do grupo, isto é,quem era o maior entre eles. Ao tomar um menino para ilus­trar a lição que daria àqueles homens adultos e amadureci­dos, porém agindo com atitudes incoerentes, quis mostrar-lhes o quanto é perigoso quando nos tornamos impacientese dominados por sentimentos que fogem ao padrão que Eleos estava ensinando. Então, nos tornamos capazes de ofender nossos companheiros (ou irmãos na fé), de feri-los com ati­tudes presunçosas para conseguirmos posição e grandeza en­tre os demais.86 
O contraste entre o pecar voluntariamente e ser induzido a pecar O texto contido nos versículos seguintes (w. 6-9) indica a perspicácia de Jesus em ensinar lições de vida que envolvem as relações entre as pessoas, especialmente quanto às questões de ofensa e perdão. Depois de valorizar a posição da criança no mundo dos homens, Jesus enfatizou que, no Reino de Deus, escandalizar os pequeninos constitui-se pecado grave. Ele destacou que “o fazer pecar a meu irmão” pode ser uma forma de “ofender a meu ir­mão” e isto significa, na linguagem bíblica,“escândalo”. Ora, o que é escândalo? Na língua grega, o termo aparece em Mateus 17.27, como substantivo, skandaion e como verbo,skandalizo.Na versão Almeida Revista e Corrigida, os termos são traduzidospor “escândalo” e “escandalizar”. Em outras traduções e versões esses mesmos termos aparecem como “pedra de tropeço” ou “fa­zer tropeçar”, “fazer errar” e fazer pecar”. Nas palavras de Jesus esses termos têm um sentido muito forte de rejeição, pois o resul­tado final de quem induz uma pessoa simples a pecar ou “a fazer errar” é digno de condenação.A linguagem metafórica é tão forte que Jesus utilizou a expressão “arrancar o olho”,ou “cortar a mão ou o pé” que servissem de condutores de pecados (Mt 5.29,30).Essas figuras metafóricas de extirpação de órgãos físicos, como mãos, pés e olhos, não podem ser interpretadas literalmente. O contexto dessa passagem bíblica indica que se trata da excomunhão de um membro escandalizado, mas Jesus pronun­ciou um “ai” sobre os que provocam tal situação (Mt 18.7). Os“pequeninos”,segundo o contexto do ensino deJesus, são aquelas pessoas indefesas, incapazes de reagir negativamente. Jesus decla­rou que os tais são protegidos por Deus através dos seus anjos (Mt18.10). Ora, se um cristão ofende e escandaliza um irmão em Cristo e não repara seu erro, pode sofrer o dano de sua atitude. Porém, se o ofendido demonstrar disposição para perdoar, sem dúvida estará dentro da matemática divina do perdão, isto é, toma a iniciativa e o faz, se preciso, até “setenta vezes sete”. 

A INICIATIVA PARA O PERDÃO 
Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão. Mas, se não te ouvir,leva ainda contigo um ou dois, para que, pela boca de duas outrês testemunhas, toda palavra seja confirmada. E, se não as escutar, dize-o ã igreja; e, se também não escutar a igreja, con-sidera-o como um gentio e publicano (Mt 18.15-17).D e quem deve haver a iniciativa do perdão? A iniciativa deve partir do ofendido. Segundo a orientação do próprio Mestre, há uma inversão de posições. Normalmen­te, segundo os padrões tradicionais da experiência humana, a iniciativa sempre deveria partir do ofensor e nunca do ofendi­do. Jesus inverte os papéis e estabelece um novo padrão, uma nova maneira de agir em relação a culpa e perdão. Ele estabe­lece que a iniciativa deve partir do ofendido, não do ofensor. A filosofia de Jesus difere totalmente dos sistemas mundanos. Abusca da reconciliação deve partir do ofendido para que haja paz entre as partes. O modo cristão é buscar sempre uma opor­tunidade de demonstrar um coração pronto para perdoar e reconciliar-se. Quando alguém ofende o seu irmão demonstra imaturidade espiritual, por isso o ofendido deverá agir com atitude reconciliadora e perdoadora.Jesus confronta seu ensino com a lei da Torá Jesus foi categórico e explícito quando disse: “Se teu irmãopecar contra ti”.Ele estava falando, na realidade, que o ofendi­do não deveria esperar que o ofensor viesse até ele para pedir perdão, mas que a iniciativa deveria partir do ofendido. Segun­do estudos mais apurados em alguns manuscritos, não se en­contra a expressão “contra ti”, do versículo 15. Devido à exis­tência de falhas materiais dos manuscritos originais por deteri­oração provocada pelo tempo é possível que não se encontre esta expressão nos originais. Entretanto, esse fato não modificao sentido do ensino de Jesus sobre o perdão. Ele queria que os seus discípulos e todos aqueles que ouviam, especialmente aque­la parábola, entendessem que o pecado deveria ser confronta­do com os ensinos que a lei judaica lhes dava. Jesus fez questão de declarar que não veio a este mundo para renegar a lei mosaica,mas para cumpri-la. Inteligentemente, Jesus explorou o co­nhecimento de uma lei que os seus ouvintes sabiam de cor.Tanto Ele quanto os escribas e fariseus sabiam que a lei da Torá ensinava que o próximo deveria ser corrigido quando achado em pecado, pois ignorar o pecado significava compactuar como mesmo (Lv 19.17). 
A correção era feita reservadamente para preservar a dignidade de ambas as partes — o irmão acusado poderia não ser culpado e o acusador poderia estar enganado.Por isso a Torá exigia que duas ou três testemunhas sustentas­sem a acusação se o ofensor se recusasse a atender o cotejoinicial (Dt 19.15; cf. M t 18.16).'Três passos para o perdão Três passos deveriam ser dados para que o problema fosse resolvidoPjTmeiro. o ofendido deveria ir até o ofensor e pro­curar resolver entre ambos em particular. Segundo, se o ofensor não estivesse disposto a solucionar o problema, então o ofendi­do procuraria testemunhar o fato levando consigo duas ou três testemunhas para o diálogo entre ambos. E, se por todos os modos, o ofensor se recusasse a resolver o problema entre am­bos, deveria levar o caso perante a igreja, para que esta julgasse o caso. E, se por fim o ofensor não quisesse mesmo resolver o problema, o ofendido estaria livre da alma desse ofensor, uma vez que o mesmo não reagisse favoravelmente ao perdão. Nes­ta escritura,Jesus indicou, também, a necessidade da disciplina eclesiástica quando o ofensor não se predispõe a reconhecer a ofensaAs vezes, a ofensa tinha um grau de gravidade enorme que poderia até mesmo levar ã expulsão (exclusão) da igreja.O que Jesus deixa claro é que devemos buscar todas as formas possíveis de solução. Porém, se o ofensor persistir em seu ca­minho de rancor e impenitência, só resta-lhe a excomunhão(1 Co 5.1-5; 2Ts 3.6-15; 2 Jo 10). 

AS IMPLICações do PERDÃO 
Destacamos anteriormente os aspectos da rejeição de uma pessoa à autoridade de uma igreja, e isto não pode ser relacio­nado com o papel da igreja romana que coloca a autoridade da igreja no patamar da autoridade divina. Isto não se refere a uma hierarquia religiosa ou eclesiástica, até porque a Igreja de Cristo ainda seria edificada quando Ele falou sobre o seu papel no mundo. Havia naquele tempo em cada sinagoga judaica uma junta de anciãos que tratava dos negócios religiosos da sinagoga (congregação, igreja), conforme se constata em Lucas7.3-5. A igreja local foi a sucessora da sinagoga e, por esta se modelava, inicialmente, os serviços internos e os aspectos disciplinares aos seus participantes. Jesus, inteligentemente, utili­zou a experiência da sinagoga, de uma forma indireta, para ilustrar com seus ensinos. Assim com o na sinagoga os freqüentadores estavam acostumados a certos princípios disciplinares, também, a futura igreja que estava sendo fundada, cer­tos princípios seriam preservados, tais como o de levar um irmão recalcitrante perante a comunidade para falar-lhe e de­cidir sobre sua rejeição aos conselhos. 

A AUTORIDADE DA IGREJA LOCAL
 Diz o texto, em seguida: e, se também não escutar a igreja” (Mt 18.17). As interpretações quanto a esse texto são diversas porque dependem da forma de governo adotada porcada igreja. A forma congregacional entende que o recalci­trante deve ser levado publicamente perante a comunidade. Porém, a forma presbiterial entende que o assunto deve ser tratado pelo prebistério, porque este representa a igreja. Aforma teocrática é aquela que entende a autoridade pastoral como capaz de representar os interesses da igreja, por causada sua autoridade espiritual outorgada por Deus. Não cabe neste estudo discutir as formas de autoridade eclesiástica.Porém, é indiscutível o fato de que no versículo 18, Jesus confere ao apostolado peso e autoridade de proibir e permi­tir, assim como ligar e desligar quem estiver sob a sua autori­dade espiritual na igreja. Competia aos líderes espirituais da igreja estabelecer termos de comunhão e regras disciplinares para a igreja local. Não se trata de conferir autoridade exclu­siva a uma pessoa, como no caso de Pedro, mas a autoridade era extensiva aos demais apóstolos. Subentende-se que esta autoridade é conferida ao longo da história da Igreja aos lí­deres de qualquer igreja local.A igreja romana defende a idéia de que Pedro foi único que recebeu esse tipo de autoridade e, daí por diante, somente o seu sucessor exerceria esta auto­ridade. Entretanto, ainda no primeiro século da era cristã, Pedro foi censurado por ter exercido autoridade independente dos demais apóstolos (G1 2.11-15). O tratamento da igreja com os recalcitrantes A declaração “considera-o como um gentio e publicano” (v.17) deve ser avaliada, não como uma forma de discriminação, mas segundo o fato de que gentios e publicanos eram classes de pesso­as sem qualquer compromisso com o Deus de Israel. Os gentios eram todos os estrangeiros que não faziam parte das promessas de Israel, mas queriam ser tratados como irmãos de fé, mas Israel rejeitava tal possibilidade. Quando Jesus citou, por uma perspecti­va negativa, gentios e publicanos, não tinha em mente qualquer tipo de discriminação racial ou social. O contexto deve ser anali­sado para se ter em mente o que Jesus quis dizer aos seus discípu­los. Percebe-se, então, que Jesus referia-se a essas duas classes de pessoas como estranhas à vida religiosa, em especial a dos judeus.Aliás,Jesus sempre foi amável com aqueles que os judeus conside­ravam “pecadores”, tais quais os gentios e publicanos. Por serem estrangeiros que não estavam comprometidos com os ditames e regras judaicas, os gentios eram reputados por pecadores. Os publicanos, por sua vez, podiam ser gentios, mas a maioria deles era constituída por judeus que não tinham qualquer compromis­so com os interesses judaicos, tanto em termos políticos como religiosos. Por isso, os publicanos que eram judeus eram conside­rados traidores pelos demais judeus, uma vez que eram cobradores de impostos da parte do Império Romano no governo da Pales­tina. Portanto, uma pessoa que endurece o coração para o perdãoe que se rebela contra qualquer possibilidade de reconciliação é considerada uma pessoa recalcitrante, para a qual resta-lhe toda a responsabilidade e penalidade.Prevenir antes de julgar O profeta Ezequiel, no capítulo 3, versículos 18 e 19, falou ao povo de Israel e deu uma conotação de responsabilidade pessoal: “Quando eu disser ao ímpio: Certamente morrerás; não o avisando tu, não falando para avisar o ímpio acerca do seu caminho ímpio, para salvar a sua vida, aquele ímpio morre­rá na sua maldade, mas o seu sangue da tua mão o requererei.Mas, se avisares o ímpio, e ele não se converter da sua impiedadee do seu caminho ímpio, ele morrerá na sua maldade, mas tu livraste a tua alma”. Antes de qualquer juízo precipitado, todo líder cristão deve esforçar-se ao máximo para salvar aquela vida de uma condenação da qual não poderá voltar atrás posterior­mente. A igreja não é uma casa de execução sumária; porém,deve preservar seus valores disciplinares procurando salvar vidas,até porque o juízo final sobre qualquer pessoa não nos pertence.Assim como há deveres para o membro comum da igreja, tam­bém há deveres para os que lideram a igreja do Deus vivo. Nos versículos 18 a 20,Jesus estabelece o princípio de au­toridade espiritual da liderança da igreja referente à questão disciplinar que envolve o ofensor e o ofendido. No versículo 18 Jesus deixou explícito que o líder espiritual da igreja — no caso, o pastor — tem autoridade para “ligar e desligar” no céu e na terra a pessoa em dívida espiritual para com Deus e coma igreja. Naturalmente, o abuso dessa autoridade, ou o seu emprego de forma equivocada, pode gerar conseqüências ne­gativas.Tem havido ao longo da história da Igreja muitas injus­tiças contra pessoas que cometeram falhas morais e espirituais 

 No mundo moderno existem milhares e milhares de obras de ajuda pessoal que desenvolvem conceitos sobre os assuntos mais diversos de ordem moral e psicológica. Jesus fez muito mais que emitir meros conceitos morais; Ele os evidenciou ensinando e praticando no dia-a-dia de sua vida terrena. Po­rém, na Parábola do Credor Incompassivo, ou seja, do perdão irrestrito, como prefiro referi-la neste estudo,Jesus utiliza toda a sua argúcia para ilustrar como se deve, de fato, perdoar a quem nos ofende. Um a pergunta que provocou uma resposta conceituai No versículo 21 temos uma pergunta feita com uma men­talidade legalista que provocou uma resposta conceituai ca­paz de romper com estigmas moralistas sem nenhuma coisa nova que pudesse resolver o problema de culpa e perdão. Diz o texto: “Então, Pedro, aproximando-se dele, disse: Senhor,até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete?” (Mt 18.21) Foi o intrépido Pedro quem fez a pergunta que levou Jesus a dar uma resposta que muda­ria o conceito de perdão. Jesus havia falado de ofensa e per­dão e isto provocou curiosidade entre os discípulos. A per­gunta de Pedro procurava determinar a quantidade de vezes que se deveria perdoar um ofensor. A idéia que Pedro tinha sobre a atitude de perdão referia-se a uma prática entre os judeus de que a quantidade legal para se perdoar alguém seria de três e sete vezes. Era tradicional o ensino dos rabinos “deque se podia perdoar o ofensor até três e não ir até quatro vezes” (Am 1.3;Jó 33.29,30).A m atem ática do perdão Essa matemática apresentada por Jesus, como resposta à pergunta de Pedro, viria a revolucionar os sistemas de valores morais e espirituais existentes: “Não te digo que até sete, mas até setenta vezes sete” (Mt 18.22). A tradição estabelecia três ou sete vezes a quantidade para o perdão. Jesus quebrou a matemática legalista dos judeus e, numa linguagem hiperbólica,falou em setenta vezes sete, para indicar um número ilimita­do para a capacidade de perdoar o ofensor. Por exemplo, a Bíblia fala do antediluviano Lameque, o qual teve sua conde­nação ampliada, não apenas sete vezes como Caim, mas se­tenta vezes sete (Gn 4.23,24). Jesus, com seu método revolu­cionário, transforma o conceito negativo em positivo, de se­tenta vezes sete de condenação, para setenta vezes sete o ato de perdoar.

 PERDÃO E JUSTIÇA (M t 18.23-35)

Depois da resposta que Pedro recebeu, Jesus aproveitou o ensejo da curiosidade dos discípulos para lhes ensinar um novo conceito de perdão através de uma sábia parábola.O ajuste de contas O versículo 23 declara que um certo rei resolveu acertar as contas com os seus servos. Um deles devia “dez mil talentos”(v. 24) e, naturalmente, o rei chamou-o para o ajuste de contas.A lição inicial que o Mestre queria dar aos seus discípulos era de que haveria um dia, em que, todos prestaríamos contas ao Senhor. A Bíblia declara que esse ajuste de contas será inevitá­vel. Nossas dívidas espirituais para com Deus são imensas, pois cada pecado que cometemos constitui-se uma dívida que con­traímos com Deus. Não se trata de uma dívida comum, mas uma dívida com o Rei, o nosso Senhor. Em 2 Coríntios 5.19,Paulo usa a expressão “...não lhes imputando os seus pecados”,que significa “não lhes tomando em conta os seus pecados”.Temos hoje um fiscal cobrador dessa conta que é a nossa cons­ciência (coração), mas temos alguém que pagou a nossa contacom o seu próprio sangue,Jesus Cristo (1 Jo 3.20; 1.7). 95 
A imensa dívida contraída (w . 23,24) Aquele servo do rei devia “dez mil talentos”, indicando que sua dívida era muito maior do que ele poderia pagar. O perdão do rei foi total para aquela dívida, e aquele servo não ficou devendo absolutamente nada. Todos nós precisamos re­conhecer que somos devedores de Deus e Ele nos perdoou, por causa do seu grande amor. Quem ama a Deus ama ao seu próximo. Assim como Deus nos perdoou toda a dívida que tínhamos para com Ele, também devemos perdoar os nossos devedores (Mt 6.15).A dívida era impagável (Mt 18.25) Diz o texto que o servo,“não tendo com que pagar”,ape­lou à compaixão do seu senhor. Do ponto de vista bíblico, todo pecado é uma dívida insolvente, isto é, somos incapazes de pagá-la. Se Deus cobrasse segundo a perfeita justiça seria­mos condenados como devedores insolventes .A justiça requer satisfação. Quando se mede ajustiça com o mérito do pecado,não resta nenhum esforço próprio para satisfazer ajustiça divi­na. Segundo o princípio bíblico,\"... o salário do pecado é a m orte” (Rm 6.23). Isto significa que o pagamento que recebe­mos por nossos pecados é a morte. Sem o perdão divino, a morte eterna será inevitável, mas Cristo veio a este mundo e pagou a nossa dívida (1 Pe 2.24).A justiça complacente (Mt 18.26,27) Aquele servo não tinha como pagar sua dívida. Então, de­sesperado, apelou ao coração bondoso do rei para dar-lhe tem­po para pagá-la. O rei ficou compadecido daquele homem e perdoou-lhe toda a dívida. A despeito daquele servo não me­recer perdão, pois o seu coração era irresponsável e insensato,duro para com os outros, o rei ainda assim compadeceu-se dele. A atitude aquele rei demonstra o que Deus fez por nós. Somos imerecedores da compaixão divina, mas sua justiça temem sua essência a misericórdia, por isso Ele foi capaz de perdo­ar todos os nossos pecados. O pagamento exigido pela justiça teria de ser pago e Jesus assumiu a nossa dívida. Ele nos per­doou! (1 Jo 1.7-9). A crueldade e severidade de um servo inclemente Os versículos 28 a 30 diz que aquele servo, ao sair da casado seu senhor anistiado quanto à sua divida, não teve a mesma atitude com um conservo seu que lhe devia uma importância bem menor. Toda aquela demonstração de benevolência do seu senhor não lhe serviu de exemplo na hora de tratar com alguém que lhe devia. Esse servo agiu com extrema crueldade e aspereza. Seu rigor revelou seu coração egoísta dominado por uma desmedida avareza. Tão logo, aquele servo perdoado saiu da presença de seu senhor, foi atrás de um conservo que lhe devia e passou a cobrar-lhe sem misericórdia. Sua atitude foi de uma crueza maldosa para com o homem que lhe devia e contrastava com a bondade e a compaixão do seu senhor. Ele queria misericórdia, mas não era capaz de usar de misericórdia para com o próximo. A diferença de ambas as dívidas era enor­me, pois, enquanto o servo devia dez “mil talentos”, o seu con­servo lhe devia tão-somente “cem dinheiros”. Ele esqueceu-se  completamente da bondade de seu senhor e não mediu conse­qüências ao cobrar do seu conservo sem nenhum resquício de misericórdia. O texto declara que esse servo usou de violência,pegando-o com ambas mãos pelo pescoço e apertava-o focava-o sem pena. Diz literalmente o texto que aquele servo,“...lançando mão dele, sufocava-o” (v. 28). N o mundo da impiedade não há misericórdia. Esse espíri­to mundano tem de ser repelido do meio cristão, mas às vezes constatamos atitudes semelhantes de irmãos contra irmãos no seio da igreja. O senhor daquele servo, ao saber de sua cruelda­de com o outro, ficou indignado e mandou chamá-lo para que fosse conscientizado de que, não sabendo ser justo com o seu conservo, não lhe restava outra atitude, senão cumprir o rigor da lei (Mt 18.32,33), condenando-o a pagar por sua crueldade .O senhor daquele servo revogou o perdão da dívi­da (Mt 18.34) O que significa “revogar”? Significa tornar sem efeito uma primeira decisão tomada. Aquele senhor tornou nulo, isto é, invalidou o perdão concedido àquele servo ingrato e incle­mente. Isto nos ensina que as dívidas que contraímos com Deus por nossos pecados são tratadas na sua totalidade. Ou teremos o perdão completo ou se paga a pena na sua totalidade. Quan­do aceitamos a Cristo, toda a dívida é perdoada mediante o pagamento satisfeito pela obra expiatória que Cristo ofereceu ao Pai no Calvário. Veja o que o autor da Epístola aos Hebreus escreveu sobre essa questão: “Mas este, havendo oferecido um único sacrifício pelos pecados, está assentado para sempre à destra de Deus, daqui em diante esperando até que os seus 
inimigos sejam postos por escabelo de seus pés. Porque, comum 
a só oblação, aperfeiçoou para sempre os que são santifica­dos” (Hb 10.12-14). Ora, o que significa “oblação”? Esta pala­vra, no sentido mais simples, significa “oferta” que se faz a Deus.Entende-se, portanto, que Jesus ofereceu a oferta perfeita, totale única da sua própria vida na cruz do Calvário e isto resultou no “perdão completo” de Cristo. Por isso, as atitudes daqueles  que foram perdoados são pautadas pela obra do Espírito Santo no sentido de santificação, isto é, separação total do pecado. Entretanto, o que nos chama a atenção nesta parábola é ofato daquele senhor, ao descobrir o ato de injustiça pratica do contra o seu conservo que lhe devia, revogou o perdão conce­dido àquele servo. Esta atitude do rei desfaz aquela idéia deque “uma vez salvo, salvo para sempre”, pois a salvação requer de todos nós a preservação daquilo que recebemos. Aquele servo não soube preservar a bênção do perdão porque não soube perdoar ao seu conservo. A obra salvífica implica sua ação em três tempos distintos. No tempo passado, em relação ao perdão salvador que recebemos. E a salvação da pena do pecado. No tempo presente, implica a preservação do perdão recebido e o modo como o vivenciamos em relação ao nosso próximo. E a salvação da presença do pecado, ou seja, da reali­dade do pecado que nos rodeia tão de perto. E, por fim, no tempo futuro refere-se à salvação do corpo do pecado. Ora,para sermos salvos no futuro precisamos corresponder aos prin­cípios de justiça, pelos quais fomos salvos. Porém, é no versículo 35 que temos a resposta .Jesus faz a aplicação da parábola O texto diz, literalmente: “Assim vos fará também meu Pai celestial, se do coração não perdoardes, cada um a seu irmão, assuas ofensas” (Mt 18.35). Ao perdoar alguém que nos ofende devemos fazê-lo de coração, pois o perdão é um dos elementos vitais para a sobrevivência, indispensável para termos uma vida saudável, física, moral e espiritualmente. Aprendemos nesta parábola que o “...juízo final será sem misericórdia sobre aquele que não fez misericórdia; e a misericórdia triunfa sobre o juízo”(Tg 2.13). A lição que aprendemos nesta parábola corresponde ao contexto doutrinário de toda a Bíblia sobre perdão,justiça e juízo. Existe um conceito universalista que declara que Deus é amor e ao final de todas as coisas, Ele perdoará a todos sem distinção. Porém tal conceito não tem respaldo bíblico. A Bí­blia nos mostra que a justiça jamais deixa de ser cumprida. Apena do pecado é sempre inevitável. Se eu não posso perdoar aquele que peca contra mim, como poderei esperar o perdão de Deus? Contudo, se sou perdoado e aprendo a perdoar aquele que me ofende, satisfaço a justiça de Deus. 

CONCLUSÃO  
Que é,pois, o perdão? O perdão implica na capacidade de anular a dívida contraída de nosso irmão contra nós mesmos e que jamais será lembrada. E o que Deus fez por nós (Hb 8.12). 

Conforme nota explicativa do Comentário Pentecostal. 

CPAD: R io de Janeiro, 2003, p. 107.100 

  
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