terça-feira, 13 de novembro de 2018

Lição 07 - Trabalho, Dignidade e Prosperidade



Lições Bíblicas nº 56

TEXTO BÍBLICO BÁSICO

João 5.8-17 
8 - Jesus disse-lhe: Levanta-te, toma tua cama e anda. 
9 - Logo, aquele homem ficou são, e tomou a sua cama, e partiu. E aquele dia era sábado. 
10 - Então, os judeus disseram àquele que tinha sido curado: É sábado, não te é lícito levar a cama. 
11 - Ele respondeu-lhes: Aquele que me curou, ele próprio disse: Toma a tua cama e anda. 
12 - Perguntaram-lhe, pois: Quem é o homem que te disse: Toma a tua cama e anda? 
13 - E o que fora curado não sabia quem era, porque Jesus se havia retirado, em razão de naquele lugar haver grande multidão.
14 - Depois, Jesus encontrou-o no templo e disse-lhe: Eis que já estás são; não peques mais, para que te não suceda alguma coisa pior. 
15 - E aquele homem foi e anunciou aos judeus que Jesus era o que o curara. 
16 - E, por essa causa, os judeus perseguiram Jesus e procuravam matá-lo, porque fazia essas coisas no sábado.
17 - E Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também

TEXTO ÁUREO
 "E, tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens." Cl 3.23

ORIENTAÇÕES PEDAGÓGICAS
Prezado professor, o trabalho é a atividade que todos realizam, sem exceção. Ele é parte inseparável da vida humana; sua origem está no próprio Deus. Nos primeiros capítulos do livro de Gênesis, o Senhor o instituiu de maneira simultânea com a própria criação do universo. Desperte nos seus alunos o entendimento de que o trabalho é bênção de Deus e que, portanto, deve ser realizado com amor, alegria e satisfação. Além disso, esclareça aos seus alunos que o labor diário deve ser visto como um ato de louvor permanente a Deus e um modo de expressar os valores cristãos mais elevados.
Palavra introdutória
O trabalho é uma ocupação essencial ao ser humano. Por seu intermédio a pessoa levanta o sustento para si e para os seus dependentes. De igual modo, ele é indispensável para o progresso e o fortalecimento da sociedade.

1. OS CRISTÃOS E O TRABALHO NA HISTÓRIA

1.1. A Igreja primitiva e o trabalho
A Igreja primitiva levava a sério a questão do trabalho. A existência do cristão primitivo estava envolvida no contexto do trabalhador romano, império dominante na Palestina.
Em 2 Tessalonicenses 3.6-12, o apóstolo Paulo enaltece o trabalho; e, nos versos 7 e 8, ele dá uma sentença. Em 1 Coríntios 15.10 e Filipenses 2.16, o apóstolo aos gentios mostra a mensagem do evangelho em forma de trabalho, consolidando a ideia de que o trabalho é digno, abrangente e comum a todos.
 A palavra diakonia, usada no Novo Testamento para indicar o trabalho na Igreja do primeiro século, tem o conceito de servir. Por meio do trabalho, os cristãos primitivos edificavam a sociedade na qual viviam e cumpriam o propósito divino de estabelecimento da Igreja. 
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O termo trabalho tem muitos significados.
 No entanto, pode-se defini-lo como o conjunto
 de esforços humanos na busca de determinados 
fins, ou seja, são ações que se empreendem
 objetivando o alcance de um resultado. 
As recompensas ao trabalho podem ser 
de natureza financeira ou de outra ordem.
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1.2. O protestantismo da Reforma e a sua relação histórica com o trabalho
O catolicismo do período anterior à Reforma via o trabalho como algo indesejável e próprio das classes subalternas. Os Reformadores viam-no como algo digno e agradável a Deus. Martinho Lutero, além de incentivá-lo como meio de progresso, negou que houvesse trabalho santo e trabalho profano. Ele não reputava o trabalho do ministério das igrejas como mais importante do que o secular. Mais tarde, Calvino reforçou essa mesma ideia.
Para o reformador inglês William Tyndale, a diferença entre o trabalho de pregação e o de lavar louça, por exemplo, era totalmente exterior; ou seja, no que diz respeito a agradar a Deus, não existe a superioridade de um sobre o outro — tudo é trabalho. Expoentes da Reforma viam o trabalho como um ministério perante Deus. Isto significa que onde as relações de trabalho se travarem, ali estará um campo missionário.
O trabalho secular não transforma em profanas as pessoas que se tornaram santas; ao contrário, qualquer tipo de trabalho honesto é tornado santo pelos que estão em Cristo (1 Pe 1.15,16).


1.3. A Reforma Protestante e a ética do trabalho
Lutero e Calvino concordavam quanto ao compromisso do homem em realizar a sua vocação por meio do trabalho. Para eles, não se deve dar lugar à ociosidade. O trabalho era visto como uma bênção de Deus, uma vocação divina (Max Weber, A ética protestante e o espírito do capitalismo; André Biéler, O pensamento econômico e social de Calvino). Calvino declarou:
“Se seguirmos fielmente nosso chamamento divino, receberemos o consolo de saber que não há trabalho insignificante ou nojento que não seja verdadeiramente respeitado e importante ante os olhos de Deus” (João Calvino, A verdadeira vida cristã).
Que a percepção do trabalho como chamado e um canal de exaltação a Deus — um dos legados da Reforma Protestante — ocupe mentes e corações.

2. O CRISTÃO AMA E SE ALEGRA EM TRABALHAR
Foi o Senhor quem instituiu o trabalho no Éden, sendo, Ele próprio, o exemplo a ser seguido (Gn 1.31). Gênesis 2.15 afirma: E tomou o SENHOR Deus o homem e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar. Isto significa dizer que, ao criar o homem, Deus o ocupou com a tarefa de cuidar do Jardim. Ele estava traçando uma diretriz para o ser humano, independente do seu contexto geográfico ou histórico.

2.1. Compreendendo o trabalho como bênção de Deus
Deus colocou o primeiro casal no Éden a fim de cultivá-lo, isto significa que a instituição do labor precede a entrada do pecado no mundo. Não há qualquer relação entre trabalho e maldição. A Queda modificou a natureza do trabalho sem alterar a sua essência.
Pelo trabalho, o homem mantém a sua família dignamente.
Ele pode servir a Deus com seus dízimos e ofertas, além de poder estender a mão aos desfavorecidos. O trabalho é uma ferramenta autêntica de Deus para abençoar o ente humano, e um meio muito eficaz de se render glórias ao Seu Nome. O cristão não trabalha apenas para conseguir dinheiro ou efetuar
as incumbências requeridas pelo patrão, mas o seu labor é, primeiro, uma exaltação a Deus (1 Co 10.31).
Aquele que coloca o seu coração e a sua segurança em Deus, antes dos seus próprios esforços, prosperará, na totalidade do termo. Não se deve transformar a dádiva divina do trabalho em desgraça, para saciar a própria ambição.

2.2. Amando o trabalho porque é a vontade de Deus
Após o Éden, o trabalho passou a ter novas características.
No entanto, apesar do cansaço, fadiga e todo desconforto decorrente dele, é preciso amá-lo como algo estabelecido pelo Criador para o bem-estar e prosperidade do homem.
Portanto, pode-se considerar que toda função profissional, mesmo as simples, estão fortemente conectadas ao viver espiritual do cristão.
Um comentarista bíblico resumiu o propósito do cristão quanto ao trabalho:
“O trabalhador deve fazê-lo como se fosse para Cristo. É errado reduzir a importância do trabalho ao
salário, nem se deve fazê-lo por ambição, nem para satisfação de nenhum amo terreno. É preciso desenvolvê-lo como algo que é feito a Cristo” (William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, La Aurora, 1973).
O trabalho a ser realizado — bem como as demais atitudes — deve ser operacionalizado na base do amor a Deus, visando, sobretudo, a Sua glória!
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O texto de 1 Coríntios 10.31
corrige a perspectiva sobre o
trabalho e alinha-o como um
modo de servir ao Senhor e
demonstrar-lhe amor.
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2.3. Trabalhando com alegria, satisfação e gratidão
No início de Gênesis, é possível perceber diferenças entre o trabalho que Adão fazia no Jardim e o que ele passou a executar depois que saiu do Éden. No Paraíso, ele e Eva trabalhavam, mas era agradável; não exigia esforço; tudo era feito com absoluto prazer.
Após a Queda, a Criação e a vida humana foram afetadas, inclusive a relação do homem com o trabalho.
Gênesis 3.17-19 declara que o homem passou a ter o seu sustento com muito esforço. O que antes era dado graciosamente pelo Senhor, agora era extraído com dificuldade e fadiga.
Essa mudança no trabalho aconteceu em consequência do pecado.
No entanto, com a Graça, o trabalho deve ser encarado como uma honraria, um partilhar de Deus com o ser humano na manutenção da Criação (Gn 2.15). O trabalho não deve ser visto como doloroso, nem realizado com reclamações. No plano de Deus, não há espaço para o murmurador e o preguiçoso. A Bíblia censura a ociosidade (Pv 21.25).


Atualmente, com tantos desempregados, ter um trabalho é uma grande bênção de Deus. Além disso, existem pessoas impossibilitadas de trabalhar, que gostariam de ter saúde para manter o sustento e suprir as necessidades da família.
Por isso, se você tem um trabalho, execute-o com alegria, satisfação e gratidão a Deus.

3. A BÍBLIA E O VALOR DO TRABALHO
Paulo, escrevendo aos Tessalonicenses, afirmou: se alguém não quiser trabalhar, não coma também (2 Ts 3.10b).
Essa declaração mostra a importância que a Bíblia dá ao trabalho — tão importante quanto o alimento, que é absolutamente necessário à sobrevivência.

3.1. A Bíblia e o trabalho
Não existe texto bíblico contrário ao trabalho. A falta dele traz muitos problemas, assim como trabalho em excesso pode trazer grandes prejuízos para o ser humano e seus relacionamentos.
No entanto, ao criar a humanidade, Deus o instituiu como parte inseparável do Seu plano. Logo, o trabalho é parte do objetivo de Deus para o ser humano, e a Bíblia apresenta
textos que o encorajam.
No Decálogo, o Senhor declarou ao povo: Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra (Êx 20.9). Neemias construiu o muro de Jerusalém em 52 dias porque o povo se inclinava a trabalhar (Nm 4.6; 6.15).
Em João 4.38, Jesus falando sobre a ceifa e os ceifeiros, mencionou duas vezes o verbo trabalhar e uma vez o termo trabalho.
Paulo forneceu orientações aos cristãos de Tessalônica para que trabalhassem (1 Ts 4.11). O apóstolo deu o exemplo, trabalhando incessantemente, conforme está escrito em 2 Tessalonicenses 3.7,8.
João mostra que Jesus trabalhou, dizendo: Convém que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar (Jo 9.4). Em João 5.17, Jesus faz mais uma declaração sobre o seu trabalho: E Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também.

3.2. A Bíblia e a atitude do cristão no trabalho
Quando um trabalho é realizado com responsabilidade e excelência, o nome do Senhor é glorificado. O contrário também é verdadeiro; e há muitos cristãos desatentos a este fato.
Em Provérbios 22.29, encontramos as seguintes palavras:
Viste um homem diligente na sua obra? Perante reis será posto; não será posto perante os de baixa sorte.
Os que desejam reconhecimento e promoção no emprego precisam estar atentos à lei da semeadura e da colheita. Ninguém que realiza suas tarefas de forma relapsa ou se conduz de maneira inconveniente prosperará na relação profissional.
O cristão precisa conduzir-se de acordo com a ética bíblica e com os ensinos em sua igreja. Não se pode oferecer nada menos do que o melhor, não só no que tange ao desempenho das tarefas, mas também nos relacionamentos e no respeito aos princípios de autoridade.
O comportamento do cristão no trabalho deve ser pautado pela diligência, humildade, dignidade e respeito, como Paulo aconselhou em 1 Tessalonicenses 4.10c-12.
A Bíblia apresenta orientações seguras sobre como o servo de Deus deve conduzir-se em seu trabalho e em seus negócios, em meio à comunidade onde vive.

3.3. Bíblia, trabalho e recompensa
Toda pessoa é vocacionada ao trabalho. No desempenho desse chamado, serve-se, primeiramente, a Deus. A família é a principal responsável por mostrar sua importância. As crianças precisam ser educadas em direção ao trabalho, uma vez que, ao se tornarem adultas, terão de assumir suas responsabilidades.
Digno é o trabalhador do seu salário (Lc 10.7 ARA).

Fonte: Revista Lições da Palavra de Deus n° 56

             

                 

ADVEC – ASSEMBLEIA DE DEUS VITÓRIA EM CRISTO | TAQUARA ESCOLA BÍBLICA DOMINICAL – CLASSE DOS PROFESSORES LPD nº 56 – Questões da Atualidade 4º Trimestre de 2018 

Lição 07 – Trabalho, Dignidade e Prosperidade (Dc. Ricardo Dantas) 

Texto Bíblico Básico: Jo 5.8-17 Texto Áureo: Cl 3.23 

INTRODUÇÃO 

O trabalho é uma parte vital para o ser humano. Por meio dele, a pessoa desenvolve suas habilidades, cresce financeiramente, sustenta sua família, seus projetos de vida, amplia seus horizontes, conquista objetivos e dá sentido à sua existência. 

Entre Gênesis e Apocalipse, são encontradas muitas passagens que descrevem o trabalhador e o trabalho, e isso demonstra o quanto o labor é valorizado pelo texto sagrado (Gn 1-2; Gn 6; Gn 41.41; 42.6; Ex 36.1; Jz 6; At 18.3). 

1 - OS CRISTÃOS E O TRABALHO NA HISTÓRIA 

Historicamente, o protestantismo o sempre valorizou o trabalho, ao contrário do catolicismo que via o trabalho algo indesejável e próprio para classes subalternas. Deus não faz diferença entre o trabalho sacerdotal, clérigo e o de lavar louças, dirigir carro, portaria, por exemplo (Rm 12. 6-7; Fp 4.8). 

2 - O CRISTÃO AMA E SE ALEGRA EM TRABALHAR 

A Bíblia apresenta Deus como o primeiro trabalhador. Ele é inventor do trabalho,  e maior exemplo para o cristão (Gn 1.31). 

Devemos compreender o trabalho como bênção de Deus, amar ao trabalho porque é a vontade de Deus e trabalhar com alegria, satisfação e gratidão. 

Não é tarefa fácil ter de acordar bem cedo, deixar a família e sair para buscar o pão de cada dia, ou o pão de dores, como diz Sl 127.2; Gn 2.15; Gn 3.17-19. 

3 - A BÍBLIA E O VALOR DO TRABALHO  

Não se encontra passagem bíblica que desestimule o trabalho, antes, a Bíblia contém muitos textos que incentivam o labor, e a atitude do cristão no trabalho. 

Jesus trabalhou arduamente (Jo 9.4). Assim como a Bíblia apoia e valoriza o trabalho, ela reprova veementemente o ócio e a preguiça. (Pv 6.6; Lc 10.7). 

CONCLUSÃO 

O trabalho tem sua recompensa. Aquele que trabalha por vários anos e contribui com parte dos seus ganhos para a previdência social tem direito à aposentadoria. É como ter a tranquilidade de ver que, ao final de tudo, os dias de labuta se transformaram em dias de descanso. Trabalhar e desfrutar do que o trabalho proporciona ao homem são dádivas divinas. 

Em tempos de crise, é preciso olhar para o trabalho como um ato da generosidade de Deus (Ec 5.18-20). 

Nosso trabalho faz parte do plano de Deus em estabelecer Seu Reino eterno. Nesse sentido, podemos estar certos de que nosso compromisso fidedigno com as tarefas que desempenhamos terá consequências eternas e colherá recompensa eternas. 

                     

                                  O trabalho na Bíblia: bênção ou maldição? 

Ney Maranhão|Platon Teixeira de Azevedo Neto

Este texto busca demonstrar a incorreção da assertiva doutrinária no sentido de que a Bíblia convalidaria a insistente conotação desagradável que se atribui à palavra “trabalho”, ligando-a a uma noção de pena ou fardo.

                                         INTRODUÇÃO

Noutro escrito, quando se tratou da delicada questão da saúde mental dos trabalhadores[3], ousou-se consignar, ainda que meramente en passant, algo de um antigo incômodo acadêmico: a insistente conotação desagradável que se atribui à palavra “trabalho” e sua frequente correlação com o texto bíblico.
No particular, entendemos que se há invocação doutrinária da Sagrada Escritura, então autorizado está, cientificamente, o aprofundamento de reflexões conducentes à genuína exegese bíblica.
Eis o objetivo deste breve arrazoado: partindo do contexto bíblico, lançar um pouco mais de luz à questão, de modo a demonstrar a incorreção dessa recorrente assertiva doutrinária no sentido de que a Bíblia convalidaria esse tal traço negativo a respeito da origem e do sentido do trabalho humano.

O TRAÇO INSISTENTEMENTE NEGATIVO DA PALAVRA “TRABALHO” E SUA VENTILADA LIGAÇÃO AO (CON)TEXTO BÍBLICO

Verdadeiramente, constitui “lugar comum” nas lições juslaborais a afirmativa de que o trabalho, na perspectiva bíblica, constitui um sacrifício. Que o trabalho, em si, é esforço, é dor. Nessa linha, geralmente se invoca um preceito bíblico dizendo que o trabalho envolve aquilo que alcançamos do suor do próprio rosto. Segue a passagem sempre citada: “No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela fostes formado; porque tu és pó e ao pó tornarás” (Bíblia Sagrada, Gênesis 3.19[4]).
Reside nessa visão um acentuado sentido de enfado, canseira. Percebe-se, pois, envolto na palavra “trabalho”, um insistente traço de desagradabilidade, como se lhe fosse algo verdadeiramente imanente e intrínseco.
É bem de ver que tal conotação fica mesmo reforçada quando nos deparamos com os estudos etimológicos que cercam a palavra “trabalho”. Veja-se que o termo grego pónos, que significa trabalho, porta a mesma raiz da palavra latina poena. Para muitos, porém, a origem do termo “trabalho” tem a ver com tripaliare, em alusão ao tripalium, instrumento de três pontas usado em processos de tortura. Em ambas as ideias vige, pois, um intenso sentido de dor e sofrimento.
Depois de lidar com toda essa etimologia, no tocante à palavra “trabalho”, Evaristo de Moraes Filho e Antonio Carlos Flores de Moraes acentuam essa tradição carregada de
valores, no que toca ao “trabalho”, de sorte que, “através dos tempos, veio sempre o vocábulo significando fadiga, esforço, sofrimento, cuidado, encargo, em suma, valores negativos, dos quais se afastavam os mais afortunados”[5].
Ratificando essa desagradável questão terminológica, leciona a Professora Aldacy Rachid Coutinho, verbis:
“Nas mais variadas línguas, a expressão trabalho trouxe acorrentado o significado da dor. De um lado, o português trabalho, o francês travail e o espanhol trabajo, remontam à sua origem latina no vocábulo trepalium ou tripalium, um instrumento de tortura composto de três paus ferrados ou, ainda, um aparelho que servia para prender grandes animais domésticos enquanto eram ferrados. Por denotação, do seu emprego na forma verbal – tripaliare –, passa a representar qualquer ato que represente dor e sofrimento. [...] De outro lado, a expressão italiana lavoro e a inglesa labour derivam de labor, que em latim significava dor, sofrimento, esforço, fadiga, atividade penosa. Seu correspondente grego era ponos, que deu origem à palavra pena”[6].
Recorde-se que essa noção de “fuga” do trabalho, encarando-o como uma prática destinada aos de menor valia social, imperou de modo sobranceiro na Antiguidade Clássica. Em Atenas, a política, a guerra, o esporte e a prática de pensar eram tidas como atividades dignas, ao passo que o ato de trabalhar detinha uma clara conotação negativa, daí o porquê de sua prática recair sobre os ombros de estrangeiros (metecos) e escravos.
Essa estruturação social era por demais favorável aos cidadãos atenienses: enquanto os escravos se dedicavam aos mais variados serviços, aqueles poderiam lançar-se tranquilamente à política e à filosofia, já que a riqueza produzida pelos escravos era transferida, total ou parcialmente, ao seu proprietário[7]. Não sem razão, Aristóteles, no alto da sua sabedoria, admitia a escravatura, porque conveniente aos interesses socioeconômicos da época[8].

O SENTIDO BÍBLICO DO TRABALHO:
LABOR (GÊNESIS 2) VERSUS LABUTA (GÊNESIS 3)

Mas é chegada a hora de desfazer esse equívoco, atinente à crença de que o relato bíblico, contido em Gênesis, atrai algum sentimento aviltante no que respeita ao trabalho. Mesmo para aqueles que não tenham a Bíblia como um livro espiritual, mas apenas como um livro histórico, pensamos que seja importante essa explicação.
É interessante saber, então, que quando a Bíblia fala em “suor do rosto”, no tocante ao trabalho, faz isso em Gênesis, capítulo 3. Ocorre que já em Gênesis, capítulo 2, antes do homem “errar”, antes de recair no que se chama “queda”[9], quando ainda envolvido, segundo a teologia, em um ambiente de perfeição, marcado por um contato diário e prazeroso com Deus, pois bem, já nesse Capítulo 2 vemos Deus ofertar trabalho para Adão.
Deveras, atribuiu-lhe, naquela ocasião, segundo as Escrituras, as tarefas de lavrar e guardar o Jardim do Éden. Segue o texto bíblico: “Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar” (Bíblia Sagrada,
Gênesis 2.15[10]). Além disso, Deus deu ao homem a honra de conferir nome a todos os animais criados, como se vê da seguinte passagem bíblica: “Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais do campo e todas as aves dos céus, trouxe-os ao homem, para ver como este lhes chamaria; e o nome que o homem desse a todos os seres viventes, esse seria o nome deles. Deu nome o homem a todos os animais domésticos, às aves dos céus e a todos os animais selváticos...” (Bíblia Sagrada, Gênesis 2.19-20[11]).
Entretanto, com a queda, e só a partir daí, uma triste “sentença” foi prolatada. Para bem melhor contextualizar a questão, confira-se o trecho bíblico:
“E chamou o SENHOR Deus ao homem e lhe perguntou: Onde estás?
Ele respondeu: Ouvi a tua voz no jardim, e, porque estava nu, tive medo e me escondi.
Perguntou-lhe Deus: Quem te fez saber que estavas nu? Comeste da árvore de que te ordenei que não comesses?
Então, disse o homem: A mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi.
Disse o SENHOR Deus à mulher: Que é isso que fizeste?
Respondeu a mulher: A serpente me enganou, e eu comi.
Então, o SENHOR disse à serpente: Visto que isso fizeste, maldita és entre todos os animais domésticos e o és entre todos os animais selváticos; rastejarás sobre o teu ventre e comerás pó todos os dias da tua vida.
Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.
E à mulher disse: Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará.
E a Adão disse: Visto que atendeste à voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te ordenei não comesses, maldita é a terra por tua causa; em fatiga obterás dela o sustento durante os dias de tua vida.
Ela produzirá também cardos e abrolhos, e tu comerás a erva do campo.
No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste tomado; porque tu és pó e ao pó tornarás” (Bíblia Sagrada, Gênesis 3.9-19[12]).
Note-se que os efeitos nefastos do pecado, teologicamente falando, foram múltiplos, atingindo diferentes alvos. A serpente, representando o mal, foi sentenciada a um estado de rebaixamento, humilhação e degradação espirituais, simbolizada pela ênfase no rastejo e no se alimentar do pó. A mulher foi sentenciada a ter de enfrentar uma das sensações mais terríveis que um ser humano pode enfrentar: as dores do parto.
Já o homemrecebeu a juízo de trabalho árduo até a sua morte, num solo cheio de espinhos[13]. Perceba-se que também a própria natureza sofreu os deletérios efeitos da queda do homem, já que até o solo foi amaldiçoado, vez que suscitaria de si não apenas frondosas e frutíferas árvores, mas igualmente “espinhos e cardos”, dificultando a vida e o labor do homem[14]. Segundo William Menzies e Stanley Horton:
“A própria natureza sofreu devido à queda. Até o solo foi amaldiçoado (Gn 3.14-24). Não somente o mal moral se transformou em uma nuvem escura sobre o mundo. A queda ocasionou também o mal natural, pelo mesmo caminho. As pestilências, doenças e secas que têm amaldiçoado a humanidade – fazendo com que sua labuta seja realmente o comer pelo “suor de seu rosto” – resultam da rebeldia inicial do homem contra Deus, no jardim do Éden”[15].
Nesse particular, William Macdonald ensina que o homem foi sentenciado a “obter alimento de uma terra amaldiçoada com cardos e abrolhos. Isso significa que ele teria de trabalhar o resto da vida em fadigas e com o suor do rosto até retornar ao pó”[16]. Já Warren Wiersbe assim interpreta o texto bíblico em estudo, verbis:
“Eva teria dores de parto, mas Adão sofreria diariamente ao trabalhar no campo. Ao esforçar-se para obter seu alimento, Adão se depararia com obstáculos e teria de labutar e de suar para conseguir a colheita; isso serviria para lembrá-lo de que sua desobediência havia afetado a criação (Rm 8.18-23). Além disso, enquanto lavrasse o solo, se lembraria de que um dia morreria e voltaria para o solo de onde havia vindo. Adão, o jardineiro, tornou-se Adão, o labutador”[17].
Também é digna de nota a reflexão esposada por R. W. Mackey, como segue:
“Abundância e cooperação existiam em um ambiente de equilíbrio. As condições físicas da terra estavam em equilíbrio: escuridão e luz, terra e água, plantas e animais, seres humanos e animais, homem e mulher. Esse jardim, criado com maestria pelo maravilhoso Pai, era um modelo de ordem e, neste sentido, apto para uma existência infinita (Gn 3.22). No entanto, tudo isso mudou. As condições econômicas começaram com os eventos relatados em Gênesis 3. (...) Uma consequência do pecado foi o advento da escassez. (...) A abundância se tornou escassez devido à introdução de “espinhos e abrolhos”. As boas coisas se tornaram difíceis de cultivar, enquanto coisas potencialmente produtivas, mesmo quando deixadas sem cuidados especiais, se deterioram. A iniciativa humana para a existência se tornou uma luta contra as circunstâncias iniciada pelo pecado. A escassez se aliou ao suor. Seria possível extrair o fruto da terra, mas impregnado de esforço e ansiedade constante. (...) Adão teria agora que competir arduamente em meio às condições arruinadas da terra – espinhos e abrolhos”[18].
O que concluímos disso? Que o trabalho, biblicamente falando, em sua origem, é uma expressão de prazer, um elemento que integra a realidade humana como elevado fator de felicidade. Deus ensina ao homem que o trabalho deve fazer parte da sua vida, como fator de concreção de realização pessoal. Ensina, enfim, que trabalhar integra de forma expressiva um quadro mais amplo, tendente a produzir felicidade ao viver humano.
Já o capítulo 3 de Gênesis aponta para um outro quadro. Ali, o homem, teologicamente, já caiu, afastou-se da perfeição, de modo que soa mesmo imperioso que, ao cuidar desse assunto, sempre tracemos essa distinção entre o trabalho como prazer,
encontrado em Gênesis 2, e o trabalho como sacrifício, encontrado em Gênesis 3, distinção essa comumente olvidada em nossos manuais. Quando “caiu”, incidiu sobre o homem o duro encargo de viver do trabalho, da labuta, do seu esforço, enfim, do suor de seu próprio rosto...[19] Já não haveria o prazer de antigamente, quando da ambiência espiritualmente perfeita de Gênesis 2. Em síntese bem apertada, é isso[20].
Logo, tal como afirma William Macdonald, devemos mesmo observar que “o trabalho não é uma maldição (...). A maldição está mais ligada à tristeza, à frustração, ao suor e ao cansaço que acompanham o trabalho”[21]. Não é outro o ensino de Charles Colson e Nancy Pearcey, para quem “o trabalho, que originariamente era criativo e satisfatório, se tornaria uma questão de fatigante labuta e trabalho pesado”[22]. Trazemos à colação, ainda, o que ensina André Biéler:
“Para ser um homem autêntico, realizado, em plena posse de sua humanidade, deve o ser humano trabalhar (...). De princípio, o trabalho era alegre, desprovido de toda fadiga que o marca hoje. (...) A corrupção da humanidade, porém, privou-a da graça que acompanhava o trabalho. (...) de espontâneo e agradável que era, tornou-se o trabalho para o homem uma obrigação, a que se deve submeter por obediência. (...) pondera Calvino que a maldição não abole completamente a bênção que se associava primitivamente ao trabalho; perduram nele ´sinais´ que dão ao homem o gosto do labor” (grifamos)[23]. 
Cumpre deixar bem claro, todavia, que o fato de, teologicamente, hoje, o homem ter sido lançado ao trabalho árduo para poder sobreviver em nada quer significar que o trabalho, em si, mesmo depois da queda, expressa algo negativo.
Muito pelo contrário, o trabalho continua sendo uma bênção para a vida do homem. Mesmo a tradição judaica, nada obstante o juízo divino que se seguiu à queda, continua vendo o trabalho como um sinal de grandeza humana, de sorte que todo judeu precisa ter uma profissão[24].
É preciso estar atento, portanto: o trabalho, no fundo, à luz da teologia bíblica, nunca foi uma maldição, seja antes, seja depois da queda. Mesmo defronte da tragicidade do pecado humano e do amplo juízo divino que dela decorreu, o trabalho continua ligado ao homem como fator de dignificação individual, coletiva e até espiritual.
Mais ainda: o trabalho, em verdade, revela-se, na Bíblia, como elemento indispensável no plano de Deus para a humanidade. Com efeito, destaca Samuel Escobar, verbis:
“A doutrina bíblica da criação apresenta Deus como uma divindade ativamente trabalhadora, que fez os seres humanos como trabalhadores à sua imagem. Esse ensinamento percorre todo o Antigo Testamento e culmina em Jesus, que era um homem trabalhador antes de se tornar um pregador itinerante. Paulo, o maior dos missionários do Novo Testamento depois de Jesus, combinou seu trabalho apostólico com a confecção de tendas”[25].

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nosso objetivo, com esta breve exposição, foi a de clarificar a questão do trabalho na Bíblia, quando percebemos que, primeiramente, é preciso distinguir trabalho, enquanto valor, e labuta, enquanto esforço.
O trabalho é tão antigo quanto o próprio homem. Sempre o acompanhou, seja quando se deleitava no Jardim de Éden, seja quando dele foi expulso.
Antes, o trabalho, realizado sem oposições naturais ou espirituais, por si só dignificava o homem, enchia-lhe de alegria, de sentido existencial e preenchimento espiritual. Sem resistências, os resultados do mister laborativo eram naturais e proveitosos.
O que se tem de novo é que, com a queda, agregou-se ao labor humano o elemento do suor, ou seja, o desgaste, a perda[26].
Não que o trabalho, em si, tenha se convolado em dor, em sofrimento, mas sim que o seu desenrolar, necessariamente, há de ser operacionalizado com uma ou outra espécie de resistência ou prejuízo, de ordem natural, existencial ou mesmo espiritual[27] – na linguagem bíblica, em meio a “espinhos e cardos”.
Deus nunca nos mandou parar de trabalhar. Pelo contrário, o trabalho atrai e continuará atraindo bênçãos ao homem. Moisés estava trabalhando quando Deus o chamou (Bíblia Sagrada, Êxodo 3.1), o mesmo ocorrendo, por exemplo, com Davi (Bíblia Sagrada, 1 Samuel 16.11), Gideão (Bíblia Sagrada, Juízes 6.11), Pedro (Bíblia Sagrada, Marcos 1.16) e muitos outros personagens bíblicos. Paulo ensinou: “Contudo, vos exortamos, irmãos, a progredirdes cada vez mais e a diligenciardes por viver tranquilamente, cuidar do que é vosso e trabalhar com as próprias mãos, como vos ordenamos” (Bíblia Sagrada, 1 Tessalonicenses 4.11[28]), exortando, com mais vigor, que “se alguém não quer trabalhar, também não coma” (Bíblia Sagrada, 2 Tessalonicenses 3.10[29]).
O próprio Jesus disse: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (Bíblia Sagrada, João 5.17[30]).
A verdade, contudo, é que essa natural dificuldade emprestada ao mister laboral ganhou, máxime no âmbito do regime capitalista, um espectro mais forte. Além das dificuldades suscitadas pela própria natureza, eis que o homem, também e principalmente, tem ajudado sobremaneira na fixação dessa percepção do trabalho enquanto algo inferior, pequeno, a ser desvalorizado.
Isso advém, em grande parte, da irrefreável ânsia humana em acumular riquezas materiais. Não sem razão o coração do homem tem falhado em captar toda a grandeza e sublimidade do trabalho... O anseio pelo contínuo e voraz acúmulo de bens terrenos tem revelado uma faceta cruel e dramática de toda essa discussão: a exploração do homem pelo próprio homem. Noutras palavras: o amor pelas coisas e o uso das pessoas – quando deveria se dar justamente o contrário[31].
Infelizmente, quanto mais o tempo passa, mais difícil tem se tornado o refrear desse sórdido amor ao dinheiro que o homem, perdido na loucura de suas propensões carnais, ousou por completo se entregar.
Nada obstante, ressaltamos, aqui, que o problema não está no trabalho, mas no modo como passamos a enfrentá-lo e enxergá-lo. O problema, igualmente, não está no dinheiro, mas na forma como nos relacionamos com o dinheiro.
É essa a perspectiva que deve nos influenciar quando da leitura do famoso versículo bíblico que declara que “é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus” (Bíblia Sagrada, Mateus 19.24). A leitura completa de todo o texto bíblico (Bíblia Sagrada, Mateus 19.16-30) demonstra a atitude de um jovem rico que, instado por Jesus a se desprender de seus muitos bens para segui-Lo, optou por manter-se apegado à sua riqueza terrena.
A lição espiritual ali ofertada gira em torno do fato de que o verdadeiro problema daquele jovem rico não estava em seus bens, mas em seu coração, em seu amor, seu exagerado apego, sua inapelável inclinação aos bens materiais que possuía. Não sem razão, noutra porção bíblica, Paulo esclarece que não o dinheiro, em si mesmo, mas sim “o amor ao dinheiro é raiz de todos os males” (Bíblia Sagrada, 1 Timóteo 6.10[32]) (grifamos).
O ponto nevrálgico, portanto, não está nas coisas, no ambiente do homem, na sua exterioridade. O cerne da questão está no próprio homem – em sua essência, em seu próprio coração.
De qualquer forma, a realização pessoal continua sendo inteiramente possível. Deus não nos privou desse gozo e continua nos proporcionando essa esperançosa possibilidade.
Que esse caminho, malgrado ferrenhamente juncado de espinhos e abrolhos, não esmoreça nossa fé.
O benefício social e a satisfação espiritual no e pelo trabalho continuam sendo importantes alvos em meio a essa longa e tormentosa jornada humana.
Porque, acima de tudo, na Bíblia, trabalho – reafirmamos – é bênção e não maldição.
Autores

Ney Maranhão
Professor Adjunto do Curso de Direito da Universidade Federal do Pará (Graduação e Pós-graduação).



                          O que a Bíblia diz acerca de seu trabalho? 


O texto a seguir é um trecho do livro “O Evangelho no Trabalho”, de Greg Gilbert e Sebastian Traeger, futuro lançamento da Editora Fiel:
Desde o princípio, a intenção de Deus era que os seres humanos trabalhassem. O trabalho não é uma consequência do pecado — embora nós experimentemos dias terríveis que nos tentam a pensar que ele é! A partir do momento que Deus criou Adão e Eva, ele lhes deu trabalho para fazer. Ele fez um jardim e lhes disse: “Trabalhem e tomem conta disso” (Gênesis 2.15). O trabalho que Adão e Eva deveriam fazer era perfeitamente prazeroso, um trabalho perfeitamente gratificante. Não havia qualquer fadiga entediante, nenhuma competição impiedosa, nenhum senso de futilidade. Eles faziam tudo como um serviço para o próprio Senhor, em um relacionamento perfeito com ele. O trabalho deles era só uma questão de colher as superabundantes bênçãos de Deus para eles!

O pecado de Adão e Eva, obviamente, mudou isso. Quando eles desobedeceram ao mandamento de Deus e se rebelaram contra ele, o trabalho deixou de ser simplesmente uma colheita da abundância de Deus. O pecado de Adão e a maldição de Deus contra o pecado afetou até o próprio solo. O trabalho se tornou doloroso e necessário para a própria sobrevivência de Adão e Eva. O lugar onde antes a terra produzia vigorosamente seus frutos — quase como se estivesse segurando-os com mãos zelosas e implorando para que Adão e Eva os colhessem — agora se tornara mesquinho. A terra reteve suas riquezas, e os humanos foram forçados a trabalhar de forma dura e penosa para obtê-las. A vida no oriente do Éden era completamente diferente da vida dentro dele.
Compreender essa parte da história bíblica e o lugar do trabalho nela é, na verdade, crucial para nós como cristãos, pois ela ajuda a explicar porque o nosso trabalho sempre será, em um grau ou em outro, marcado pela frustração. O trabalho é difícil porque nós e o mundo ao nosso redor temos sido afetados pelo nosso afastamento de Deus. Por causa disso, não deveríamos nos surpreender com o fato de o trabalho ser às vezes difícil e doloroso. O trabalho tem a tendência de nos desgastar e esgotar. Ele pode ser uma fonte de grande frustração em nossa vida. Por outro lado, não deveríamos nos surpreender com o fato de que quando realmente apreciamos o nosso trabalho, há um perigo sempre presente de que o nosso trabalho nos consuma completamente — a ponto de nosso coração ser definido pelos interesses do trabalho e sermos reduzidos a meros trabalhadores.

O trabalho é necessário, o trabalho é difícil e até mesmo perigoso. Apesar de tudo isso, ainda assim está claro que Deus se preocupa profundamente com o que pensamos acerca de nosso trabalho e com a forma como nos relacionamos com ele. O que fazemos e o modo como o fazemos não estão fora do interesse de Deus. Quando Jesus morreu na cruz e ressuscitou dentre os mortos para redimir um povo para si mesmo, ele também se comprometeu a conformá-lo exatamente a ele, cada vez mais, pelo poder do Espírito Santo. A Bíblia nos diz que ele faz isso por meio de todas as circunstâncias de nossa vida — incluindo o nosso trabalho. O nosso trabalho é um dos principais meios que Deus pretende usar para nos tornar mais semelhantes a Jesus. Ele usa o nosso trabalho para nos santificar, desenvolver nosso caráter cristão e nos ensinar a amá-lo mais e a servi-lo melhor, até que nos unamos a ele no dia final, no descanso de nossos trabalhos.

Na verdade, o Novo Testamento considera bem importante a forma como devemos pensar a respeito do nosso trabalho. As seguintes passagens das Escrituras são cruciais, se quisermos ter uma compreensão bíblica sobre o nosso trabalho e o propósito dele no plano de Deus na redenção.
Em Efésios 6.5, 7, o apóstolo Paulo nos diz para realizar o trabalho “na sinceridade do vosso coração, como a Cristo… servindo de boa vontade, como ao Senhor e não como a homens”. Em Colossenses 3.22-24, ele nos diz que devemos fazê-lo “em singeleza de coração, temendo ao Senhor”. “Tudo quanto fizerdes” — Paulo continua escrevendo — “fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens… A Cristo, o Senhor, é que estais servindo”.

Que declarações maravilhosas são essas! Olhe mais de perto para o que a Bíblia diz acerca de seu trabalho: Tudo quanto você fizer, você deve fazê-lo “como ao Senhor e não como a homens”. Você deve trabalhar “de todo o coração, como para o Senhor e não para homens”. Você percebe a incrível importância dessas expressões? O trabalho não é apenas uma forma de passar o tempo e ganhar dinheiro. O seu trabalho é na verdade um serviço que você presta ao próprio Senhor!
Você pensa dessa maneira em relação ao seu emprego? Você percebe que não importa qual seja a sua profissão; não importa o que quer que seja que você faça nela; não importa quem seja o seu chefe ou o chefe do seu chefe; o que você faz em sua profissão é feito, na verdade, como um serviço para o Rei Jesus! Ele é quem o colocou lá neste momento de sua vida, e é para ele que você trabalha basicamente.

Extraído de: https://voltemosaoevangelho.com



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