Para Ouvir e
Anunciar a Palavra de Deus
A
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Parábola do Semeador é uma das parábolas de
Jesus encontradas nos três evangelhos sinóticos (Mt 13.1-9, Mc 4.3-9; Lc
8.4-8). Um propósito da parábola do Semeador foi prevenir os discípulos com
relação ao triste fato de a pregação da Palavra de Deus não produzir uma
colheita inteira em relação aos ouvintes. Esta parábola pode ser interpretada
como a parábola do coração, pois mostra como é o coração de cada pessoa. A
parábola do Semeador relata de que forma o evangelho será recebido no mundo.
Nela aprendemos três verdades: (a) A conversão e a frutificação espiritual
dependem de como a pessoa se porta diante da Palavra de Deus (Mc 4.14; Jo
15.1-10); (b) Haverá diferentes reações ante o evangelho. Da parte do mundo,
uns ouvirão, mas não entenderão (Mc 4.15; Mt 13.19). Uns crerão, mas depois se
desviarão (Mc 4.16-19). Uns perseverarão e frutificarão em diferentes
proporções (Mc 4.20); (c) Os inimigos da Palavra de Deus são: Satanás, os
cuidados deste mundo, as riquezas e os prazeres pecaminosos desta vida (Mc
4.15,19; Lc 8.14).
Interpretação da Parábola do Semeador
Jesus contou frequentemente, por parábolas,
histórias sobre os acontecimentos do dia a dia que ele usava para ilustrar
verdades espirituais. Para Ele, a Parábola do Semador é fundamental para o
entendimento das outras. É uma das mais importantes, uma das três únicas
parábolas registradas em mais de dois evangelhos (Mt 13.1-23, Mc 4.1-20 e Lucas
8.4-15). Por essa razão, é necessário comparar e contrastar as referências
paralelas à cada narrativa. Desse modo teremos um quadro completo do que o
Senhor Jesus disse sobre o Reino do Céu. Esta história fala de um agricultor que
lançou sementes em vários lugares com diferentes resultados, dependendo do tipo
do solo. O próprio Senhor Jesus interpretou essa parábola em Mateus 13.18-23,
assim: a) O semeador é Jesus (Mt 13.37); b) A semente é a Palavra de Deus; c)
Os tipos de solos exemplificam: a vida endurecida (vv. 4, 15); a vida
superficial (vv. 5-6,16-17); a vida atribulada (vv. 7,18-19); a vida receptiva
(vv. 8,20).
2
Três elementos constituem a Parábola do
Semeador, o semeador propriamente dito, a semente e o solo:
(a)
O primeiro elemento é o semeador – O Semeador é Jesus, ainda que não
especificamente mencionado, mas se compararmos com Mateus 13.37, na Parábola do
Trigo e do Joio, Jesus explica que “quem semeia a boa semente é o Filho de
Homem”. Desta forma, podemos concluir que o Semeador nesta Parábola tem
referência imediata com Jesus. Contudo, podemos entender, por extensão, que
pode ser qualquer pessoa que fielmente proclama a mensagem do Evangelho nos
nossos dias. Aplicando-a espiritualmente, todos aqueles que seguem a Cristo
devem sempre ensinar a Palavra, pois quanto mais ela for plantada nos corações
dos homens, maior será a colheita (1 Co 3.6,7). O que semeia a Palavra (v.14),
semeia em todas as qualidades de terra (Is 32.20; Mc 16.15), semeia a Palavra sem
observar o vento, nem as nuvens (Ec 11.46), semeia a Palavra sem gastar tempo
explicando-a, interpretando-a ou discutindo-a. Não desperdiça o tempo
censurando quaisquer seitas do mundo, mas sua preocupação é proclamar a Palavra
de Deus (Sl 126.6; Jr 20.9; 2 Tm 4.2).
Estudiosos destacam que nos dias de
Jesus, a expressão ‘semear’ podia ser empregada metaforicamente, com o sentido
de ensinar. Os termos “ensino” e “pregação” são muito parecidos, sendo que a
diferença entre esses dois termos é muito mais uma questão de estilo do que de
conteúdo. Champlin destaca que “em Mt 4.23. Jesus ocupou-se tanto na pregação
quanto no ensino. Sua pregação é salientada em Mc 1.29 e Lc 4.44. E seu ensino
é enfatizado em Lc 4.15. No entanto, esses dois verbos podem ser usados de modo
intercambiável (Mc 1.14,15,21,38,39). A função apostólica incluía ambas as
modalidades (At 5.42; 28.31; Cl 1.28). A igreja cristã deve viver somente da
pregação e também do ensino. A pregação precisa incluir a proclamação do
inteiro conselho de Deus (At 20.20,27; 2 Tm 4.2), e a Grande Comissão inclui a
necessidade de ensinar (Ml 28.20)”.30
(b) O segundo elemento desta parábola é a
semente – Semente é, por definição, qualquer substância ou grão que se semeia
ou que se lança à terra para se fazer germinar. Princípio gerador; origem.
Coisa que com o tempo há de produzir certos efeitos. Paterson destaca que
30 CHAMPLIN,
Russell N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol. 5. São Paulo:
Hagnos, 2013. p. 368.
em construção
O capítulo 13 de Mateus registrou sete parábolas de Cristo proferidas nas cercanias de Cafarnaum,junto ao mar da Galiléia. Geralmente, Jesus subia na popa de algum barquinho; outras vezes, em terra, colocava-se em algum ponto mais alto, tendo diante de si a planície de Genesaré, e então ministrava ao povo que afluía para ouvi-lo. Forma de comunicação típica do povo do Oriente Médio, em especial na Palestina, o Mestre usava muitas figuras de linguagem para transmitir seus ensinos. Porém, o método mais utilizado foi a linguagem por parábolas.
Jesus foi especialista em usar linguagem
figurada. Por esse método de comunicação, Ele conseguia ilustrar as verdades espirituais
e morais que desejava ensinar. Para cada parábola, Cristo tinha uma lição
especial. E na Parábola do Semeador deixou-nos uma das mais extraordinárias
lições sobre os tipos distintos de corações (solos, terrenos), os quais recebem
a semeadura.
O versículo 3 diz que Jesus “falou-lhe
de muitas coisas por parábolas” . O termo parábola vem da língua grega, e
significa, As Parábolas de Jesus literalmente, “colocar coisas lado a lado,
para que se perceba as semelhanças”, ou pode ser definido como “uma comparação
ilustrativa na forma de narrativa”. Jesus, portanto, contava suas parábolas a
partir de fatos da vida cotidiana. Nesta parábola, Cristo se volta para a vida
agrícola da Palestina a fim de ilustrar a receptividade do Reino de Deus no
coração das pessoas.
O SEMEADOR
Antes de
qualquer interpretação especulativa e secundária devemos considerar o sentido
original do ensino que Jesus queria transmitir àquele povo. Visto que Ele
estava contrastando os inimigos do Reino com os verdadeiros discípulos, conforme
está retratado no capítulo 12, Mateus organiza seus registros de forma especial
e conecta com o capítulo 13, no qual Jesus ensina por parábolas (Mt 13.1-3).
O que aprendemos e interpretamos
inicialmente nesta parábola? O contexto da parábola indica o próprio Cristo
como “o semeador”. No texto está escrito que: “o semeador saiu. a semear” (v.
3). Por quê? Ao analisar as circunstâncias anteriores no capítulo 12, vemos que
Jesus havia se deparado com muita oposição e dureza de coração daqueles
ouvintes. Sua mensagem não havia sido bem aceita, especialmente pelos escribas
e fariseus que sempre buscavam algo para acusá-lo. Muitas pessoas foram até
Ele, e já era o fim da tarde quando Cristo entrou num pequeno barco e dali
passou a falar à multidão desejosa (por meio de parábolas) pelos seus ensinos.
O ponto de partida da interpretação acerca de quem era o semeador tem um
caráter particular, porque indica subjetivamente o próprio Cristo como “o semeador”.
Todavia, essa característica particular da interpretação não impede que se dê
um sentido genérico aos cristãos como “semeadores”. Não acrescenta nem fere os
princípios hermenêuticos que regem a interpretação dessa parábola. K»
Nesta parábola Jesus teve como objetivo
principal mostrar a diferença dos corações quanto à recepção da Palavra de
Deus. Era o próprio Cristo revelando a rejeição ao seu ministério por parte dos
judeus. Na parábola seguinte, a do Joio e do Trigo (Mt 13.36-43),Jesus se
identifica (v. 37) como aquele que “semeia a boa semente”. Antes dEle, outros
haviam atuado como semeadores da Palavra, especialmente no Antigo Testamento.
Porém, foi Jesus, que a si mesmo se referiu como o “Filho do Homem”, para
distinguir-se dos demais em singularidade, quem podia e sabia como semear em
quaisquer terrenos. A expressão “Filho do Homem” revelava, de modo especial, a
humanidade de Jesus, como ser gerado no ventre de uma mulher, sendo, porém, sua
geração operada pelo Espírito Santo. Ele é o “semeador” que veio para fazer
diferença dos demais “semeadores” (Jo1.11,12).
Q Espírito Santo também é um semeador da
boa semente. ' Ele é o que inspira os semeadores ao serviço da semeadura e quem
rega a semente lançada. Cristo declarou acerca do Espíririto e o seu trabalho
na vida do pecador: “O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não
sabes donde vem, nem í para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do
Espírito” (Jo 3.8). Entendemos que essa passagem implica, metaforicamente, numa
ação do Espírito semeando a Palavra de Deus. Não significa que o Espírito faça
o nosso papel de “semeado- res”, ou seja, evangelizadores, mas é Ele quem toca
o nosso espírito e somos despertados para espalhar a semente^ Como Cristo
ascendeu ao Pai, Ele ainda ministra através do Espírito Santo seu Paracleto, e
este ministra através dos crentes, nos quais opera pelo seu Espírito jo 14.26).
Os cristãos autênticos são os semeadores
na dispensação da graça^ A missão evangelizadora dos discípulos de Cristo é
identificada em dois textos dos Evangelhos (Mt 28.19,20 e Mc 16.20). A missão
de Cristo foi a de um semeador e Ele a passou
15. As
Parábolas de Jesus aos seus discípulos, os quais semeiam em toda a terra desde
então. O que Jesus começou a ensinar, seus discípulos deram continuidade (At
1.1). Na história inicial da igreja, surgiram outros grandes semeadores, entre
os quais Paulo, que se declarava representante de Cristo como semeador, e dizia
que: “vis to que buscais, uma prova de Cristo que fala em mim, o qual não é
fraco para convosco; antes, é poderoso entre vós” (2 Co 13.3). Paulo
considerava seu ministério como uma semeadura de coisas espirituais (1 Co
9.11). Ao dar testemunho de sua conversão, o apóstolo usa a metáfora do vaso
para ilustrar sua utilidade na expansão do nome de Jesus (At 9.15). Paulo, por
tanto, tornou-se um autêntico semeador da “boa semente” do evangelho de Cristo.
Todo crente
em Jesus é um semeador da sua Palavra e, indubitavelmente, encontrará os mais
variados tipos de solos para receber a boa semente. Fomos salvos para servir e
sem e semear a boa semente e devemos servir com amor e espírito sacrificial (SI
126.6).
Na ótica de Cristo não há uma mera
preocupação com expansão e quantidade. Não era apenas a proporção da quantidade
de sementes que lançamos sobre a terra, de qualquer maneira, sem critério. Para
Jesus, não deveria haver inibição quanto ao ato de semear a boa semente, porque
o que interessava mesmo era que a semente fosse semeada, a tempo e fora de
tempo, em qualquer_solo que estivesse disponível para se lançar a semente. Não
se trata de um ato de semear aleatoriamente, mas um ato de confiança no poder
da semente para encontrar alguma terra capaz de recebê-la e romper com as dificuldades
TIe sua frutificação. Pómmtro lado, a falta de critério para a semeadura
refere-se ao trabalho cuidadoso do semeador. Tudo o que o semeador tem de fazer
é semear. Fazer que^ cresça a semente é algo que vai além de sua capacidade. E
trabalho misterioso, sem a intervenção humana.
A SEMENTE
Os
Evangelhos Sinóticos tratam, às vezes, das mesmas narra tivas históricas ,porém
com a visão do autor do Evangelho. Mateus, Marcos e Lucas narraram a mesma
parábola e destacaram nuanças percebidas particularmente por cada um dos
autores. Mateus descreve a “semente” como “a palavra do reino” (Mt 13.19);
Lucas a descreve como “a palavra de Deus” (Lc 8.11); Marcos, simplesmente, como
“a palavra” (Mc 4.15). Na ótica de Mateus, “a palavra do reino” referia-se à
natureza e exigências do Reino messiânico desejado e esperado pelos judeus, mas
incompreendido e, de certo modo, rejeitado por eles. Jesus mesmo interpretou
sua parábola e destacou alguns solos nos quais as sementes lançadas não
germinaram. Ele interpretou esses “terrenos” (solos) como aqueles que não
“compreendem ” a sua mensagem ou como aqueles que a rejeitam (Mt 13.13).
Jesus também quis mostrar aos seus
discípulos que a semeadura da “boa semente” não podia ficar restrita_a um solo específico,
ou seja, a um grupo étnico, no caso, os judeus. mas teria uma dimensão global,
como está escrito: “Portanto ,ide, ensinai todas as nações, batizando-as em
nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28.19).A lição básica dessa
parábola é que é preciso semear toda a semente. Toda a semente refere-se, es essencialmente,
à plenitude da mensagem do evangelho da graça de Deus que é Jesus Cristo (At
20.24,25). O evangelho é a semente viva, poderosa, que ultrapassa qualquer
elemento físico porque “é poder de Deus para salvação de todo aquele que crê”
(Rm 1.16). A_Bíblia diz que esta “ semente” é “ Viva “ e “incorruptível” (1 Pe
22-25); tem poder e produz fé (Rm 1.16; 10.17); é celestial e divina (Is
55.10,11); imutável e eterna (Is 40.8); pode ser enxertada e salvar_(Tg
1.18,21).
Outro aspecto importante que se percebe é
que no campo das similitudes tanto o semeador quanto a semente significam
17. As
Parábolas de Jesus o mesmo elemento, que é “a palavra de Deus”. Ora, a Bíblia é
a Palavra de Deus tanto quanto Cristo é a Palavra divina. Se a Bíblia é a
Palavra viva de Deus, portanto, está cheia de Cristo, que é o Verbo de Deus
enviado para salvar o mundo (Jo 1.1). Jesus é o logos de Deus, “o Verbo divino
que estava com Deus... se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória”
(Jo 1.14).Ele mesmo é a semente. A Palavra escrita dá testemunho de que veio
como a Palavra viva (Jo 5.39). Os que recebem “a semente” (a Palavra, Cristo),
recebem a vida, porque têm vida em seu nome (Jo 20.30,31). Portanto, a semente
que semeamos na terra dos corações humanos não só é a “semente de Cristo”, como
também é o próprio Cristo. A semente do Reino dos céus é Ele mesmo, o Rei._
A TERRENO PARA O PLANTIO (M t
13.4-8)
Jesus apresentou sua parábola com muita
criatividade, pois destacou quatro tipos distintos de terrenos nos quais a
semente podia ser semeada. Figurativamente, o terreno onde cai a se mente é o
coração das pessoas e a receptividade à semente se apresenta de maneiras
diversas. O que aprendemos nesta parábola é que o coração humano é como um
terreno que pode receber uma semente e produzir fruto, como também poderá
desenvolver dureza e rejeição a qualquer tipo de semente. No plano espiritual,
o terreno do coração das pessoas é também espiritual, todavia pode desenvolver
disposições favoráveis ou contrárias à recepção das coisas espirituais. Por
causa da natureza pecaminosa e rebelde adquirida pelo homem, a disposição do
seu coração tornou-se rebelde e endurecida. O que Jesus nos mostra na Parábola
do Semeador é que a semente é lançada em quatro tipos de terrenos, mas nem
todos serão receptivos à "boa semente”.
O terreno “ ao pé do caminho” (w
. 4,19)
Naquela época, Jesus procurou conduzir a
mente dos seus ouvintes aos caminhos feitos por entre os campos, como podemos
exemplificar com o texto de Mateus 12.1, que diz: “Naquele tempo, passou Jesus
pelas searas, em um sábado; e os seus discípulos, tendo fome, começaram a
colher espigas e a comer”. Em suas viagens, Jesus passava por muitos lugares,
nas montanhas, nos desertos, às margens do mar da Galiléia, junto aos rios e.
especialmente, nos caminhos poeirentos entre as plantações, de trigo, cevada,
aveia e outros grãos. O povo israelita aproveitava todo o espaço de terra
cultivável, porque era pouco para cultivá-lo. Da experiência vivida por aquelas
terras, Ele sabia tirar proveito para ensinar verdades profundas com ilustrações
da vida cotidiana. Por isso. Cristo tirava lições da vida pesqueira, da
agricultura e. até da pecuária.
Nesta parábola, em especial, suas
andanças pelas terras agricultáveis lhe deram, unia, visão dos vários tipos de
terras que podem receber sementes e frutificarem ou não. Na sua percepção, Ele
notou, um tipo de terreno que não era acessível à se mente: era a terra “ao pé
do caminho”. As sementes lançadas objetivamente ou as que caíam naquela terra
batida “por acaso” não penetravam a terra,, então os pássaros as comiam, porque
estavam expostas sobre aquela terra dura ao pé do caminho.
Que classe de ouvintes é comparada a esse
tipo de terreno? Segundo o próprio Cristo definiu no versículo 19, é aquela
classe de pessoas que ouve a Palavra de Deus e não a entende, nem se esforça
para entendê-la. E a classe de ouvintes-terra-dura. Na realidade, nos parece
que são pessoas displicentes com as coisas de Deus e acham que não precisam se
preocupar com isso. O terreno “ao pé do caminho” é batido e pisado pelos
transeuntes da vida. E, portanto, terreno duro, impenetrável e inacessível. São
muitas as influências exteriores que alcançam o coração humano e influenciam
sua vida.
As “aves” que vêm e comem as sementes
expostas naquela terra dura representam o quê? Jesus mesmo dá a resposta,
quando diz: “Ouvindo alguém a palavra do Reino e não a entendendo, vem o
maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração; este é o que foi semeado
ao pé do caminho” (Mt 13.19). O Mestre interpreta essas aves como sendo “o
maligno”. E quem é o tal? Em toda a Bíblia a palavra “maligno” refere-se ao Diabo
e aos demônios sob seu domínio, Segundo o dicionário Aurélio, “maligno” deriva
do latim e significa “ser propenso para o mal, ser maléfico, mau, nocivo,
pernicioso, danoso”. Esses elementos identificam a pessoa do Diabo. Em Marcos
4.15, o próprio jesus denuncia Satanás como o ladrão da semente da Palavra de
Deus para que o pecador não a receba Ç[o 10.1,10). As aves do céu que arrebatam
a semente lançada no coração precisam ser enxotadas.
As “aves do céu” podem representar os
agentes espirituais da maldade que são acionados para impedirem o progresso do
“reino de Deus na terra” (Ef 6.10-13). Esses demônios atuam de várias maneiras,
com as mais dite- rentes características para enganar e seduzir os incautos.
Essas “aves” podem representar homens ou mulheres usados por Satanás para
pisarem a terra do coração das pessoas, influenciando suas mentes com
artifícios intelectuais e ateístas, ou com idolatria, para lhes fechar e
endurecer o coração.
O ouvinte representado pelo terreno ao pé
do caminho é, na verdade, o de coração fechado. E uma classe de pessoas que
recebem a semente com o ouvido, mas não permitem descer ao coração. A semente
fica exposta na flor da terra, na camada exterior, e não entra para o interior.
Lamentavelmente, temos esse tipo de crentes no seio da igreja que, a despeito
de participa- '• rem de atividades sociais e religiosas, são pessoas sem percepção
espiritual. Nada do que acontece no terreno espiritual as sensibiliza porque
são desprovidas de uma experiência interior profunda. A semente não pode
penetrar nem germinar, e então '|fica exposta para que “as aves do céu”, que representam
os agentes do mal, a arrebatem. A Palavra não surte efeito.
O terreno cheio de
“pedregais” (w . 5,6,20,21)
Esse é o
tipo de ouvinte que recebe inicialmente bem a Palavra de Deus, mas tem pouca
duração, porque onde há pedregulhos c solo é movediço e não permite criar
raízes. Na realidade, esse tipo é aquele que facilmente se emociona com o que
ouve, porém os obstáculos da vida impedem que a Palavra germine no seu coração.
E o tipo de pessoa que chora quando ouve a Palavra, faz confissões de
necessidade, mas não consegue se desvencilhar das pedras de sua vida pessoal. A
semente é recebi da, contudo não cria raízes. Essas pessoas recebem a semente
na camada de cima da terra, isto é, na camada emocional do coração, todavia não
deixam penetrar a terra. São pessoas entusiastas que se comovem com facilidade
e gostam de ouvir a mensagem do evangelho. No entanto, são pessoas
superficiais, cuja fé e tem- e frágil, incapazes de superar dificuldades.
As pedras neste terreno podem representar
problemas de ordem moral. vícios, maus hábitos de caráter e pecados recorrentes.
Nota-se uma diferença na forma de receber a semente nos dois primeiros tipos de
terrenos (ou solos). O terreno “ao pé do caminho” é o endurecido, fechado,
compacto, que não dá espaço para mais nada. São as pessoas que não entendem a
Palavra. Porém, o segundo tipo de terreno é cheio de pedras. Esse terreno é o
coração daqueles que, imediatamente, entendem a Palavra, mas de modo
superficial. São pessoas que têm dificuldades em administrar seus sentimentos e
emoções, por isso, são volúveis e medrosas. Estão sempre resvalando em alguma
dificuldade que não sabem resolver. Muitos cristãos vivem na superficialidade
espiritual, pois imaginam que por se emociona- rem num culto com uma mensagem ou
um cântico não precisam de mais nada, por isso não se esforçam para tirar as
pedras. De suas vidas. Eles recebem a semente naquele momento (v. 20) e ela até
chega a brotar de imediato (v. 4), mas não desenvolve suas raízes. E típico do
“cristão-pedregulho”. que _está sempre buscando novidades e não se firma na fé.
A hipocrisia acaba sendo uma característica desse tipo de crente, sempre
propenso a grandes emoções, manifestando-as com frequência nos cultos da igreja.
Ao calor de um culto de adoração de louvor, ele manifesta fervor e faz
demonstrações de profissão de fé, mas passando aquele momento, volta a ser o
mesmo cristão inseguro de sempre, facilmente “levado por ventos de doutrina e
vãs filosofias”. Ainda que deseje frutificar, ele não consegue, porque não
possui raízes profundas em si mesmo. São pessoas de convicções duvidosas,
inseguras e frágeis. Não suportam tribulações e provas, e com facilidade
tropeçam e caem.
O terreno cheio de “espinhos” (w . 7,22)
Diz o texto literalmente: “E outra caiu entre
espinhos, e os espinhos cresceram e sufocaram-na”. Na língua grega, a palavra
“espinho” é akantha, que se refere a “planta espinhosa”, típica das terras do
Oriente Médio. Por exemplo, a coroa de espinhos que os romanos fizeram para
Jesus era, de fato, uma “coroa de [akanthon”(Mt 27.29). Esse tipo de planta
espinhosa se espalha e se dimensiona sobre a terra de tal forma, que outras
plantas não subsistem naquele terreno. Geralmente, esse tipo de solo é constituído
de rochedos elevados cobertos de pouca terra. Sobre ele é fácil encontrar essa
planta de akanthon (de espinhos) e lançar sementes frutíferas. Às vezes, uma
ponta de terra que entra pelo mar e é cercada de águas por todos os lados.
Naquela ponta de terra rochosa crescia muita planta de espinhos. O autor da
Carta aos Hebreus escreveu o seguinte: “Porque a terra que embebe a chuva que
muitas vezes cai sobre ela e produz erva proveitosa para aqueles por quem é
lavra da recebe a bênção de Deus; mas a que produz espinhos e abrolhos é
reprovada e perto está da maldição; o seu fim é ser queimada” (Hb 6.7,8).
Entende-se, portanto, que esse tipo de terreno torna inútil o trabalho do
semeador. E interessante notar que a semente lançada ali encontrou
possibilidade de germinar, mas logo foi sufocada pelos espinhos.
A
semelhança dos problemas típicos do terreno pedregoso, esse terceiro também é
cheio de obstáculos e estorvos. Jesus quis de fato dar um destaque especial a
esse terreno porque esses espinhos sufocaram a semente (v. 22).
Que tipos de espinhos podem sufocar a
“boa semente”? O texto de Mateus 13.22 apresenta dois tipos de espinhos e Lucas
8.14, três. Mateus indica “os cuidados deste mundo” e “a sedução das riquezas”,
e Lucas considera três: “cuidados, riquezas e deleites da vida”. Todos esses
espinhos estão, na verdade, na mesma dimensão.
Na primeira expressão — “cuidados deste mundo” — , Mateus
coloca em destaque duas palavras: “cuidados” e “mundo”. A primeira_ delas fala
de preocupações secundárias que acabam dominando a mente e o coração das
pessoas, sem deixar espaço para a prioridade maior que é o “reino de Deus”.
Essas preocupações sufocam a floração e a frutificação da Palavra de Deus, que
é a fonte de toda a vida e de toda fecundidade. Muitos cristãos não frutificam
na vida cristã porque vivem sufocados pelas preocupações da vida. Não têm tempo
para as coisas de Deus. A segunda palavra significa um sistema espiritual
invisível que oferece às criaturas toda sorte de coisas que roubam o espaço da
relação e comunhão com Deus. 25
A segunda expressão — “a sedução das riquezas” — refere-se
à possessão de riquezas que têm sufocado a vida espiritual de muitos irmãos que
não têm tempo, para a oração, meditação e comunhão com Deus. A participação nas
atividades da igreja torna-se nula porque “a sedução das riquezas” toma o
primeiro lugar em suas vidas. Paulo exortou sobre o perigo que correm os “que
querem ficar ricos” (1 Tm 6.9).
A terceira expressão — “os deleites da vida” — encontra-
se em Lucas, como já mencionado anteriormente. Sem dúvida, os deleites
propiciados pela prosperidade material induzem as pessoas à arrogância e à
presunção. A busca desmedida por prosperidade material facilita o caminho das
tentações e, inevitavelmente, o lugar da Palavra de Deus é sufocado no coração dessas
pessoas. Nos tempos modernos, quando a equivoca da teologia da prosperidade é
pregada e ensinada como descoberta de se ficar rico, a verdadeira teologia é
abandonada. A prosperidade material deveria ser um modo de servir melhor a Deus
e não para produzir sentimentos presunçosos no coração daqueles que se imaginam
mais abençoados que os outros.
O terreno da “boa terra” (w .
8,23)
A quarta classe destacada por Jesus é o
que chamaria de ouvintes-boa-terra porque são aqueles que ouvem e compreendem a
Palavra de Deus e dão frutos. A “boa terra” recebe a semente porque é macia,
profunda, sem pedras e limpa. E a terra fértil e fofa que recebe a semente e é
propícia à sua germinação e desenvolvimento. Pelo menos três características, são
manifestadas nesse tipo.de terreno. Primeiro, as pessoas ouvem e entendem a
Palavra. Geralmente, tais pessoas são sensíveis às coisas espirituais. São
desejosas de conhecer e aprender porque suas raízes são profundas. Segundo as
pessoas tornam-se frutíferas. Essa atividade frutífera é demonstrada por uma
dinâmica
interior da
semente plantada e pela qualidade da terra. Jesus destaca essa dinâmica quando
diz:“... e deu fruto: um, a cem, outro, a sessenta, e outro, a trinta” (Mt
13.8). Quando a Palavra (a semente) penetra fundo a pena do coração, ela produz
bons frutos, que é o resultado das convicções firmes no poder da Palavra (Jo
15.8'). Em terceiro lugar, as pessoas tornam-se frutíferas independentemente da
quantidade ou proporção. Não importa quem produz mais ou menos. O que importa é
que produzamos o suficiente para alcançar muitas pessoas (SI 1.3). Porém, há um
detalhe que indica que certos grãos rendem mais que outros. Isto não significa
qualquer privilégio propiciado ou discriminativo. N o mundo em que vi- vemos,
algumas pessoas produzem mais que as outras, e no Reino de Deus é a mesma
coisa. O importante é que todos produzam, independentemente da quantidade. A
proporção é equivalente à capacidade individual de cada “grão” (semente)
produzir ou não.
Os estudiosos têm procurado entender o
texto de Mateus 13.8, que destaca as proporções de produtividade das sementes
semeadas. O famoso teólogo Fausset interpreta esse texto da seguinte forma:
“trinta por um” designa o nível menor de frutificação; “sessenta por um”, o
nível intermediário de frutificação; “cem por um”, o mais elevado nível. Um
outro teólogo comentou esse texto da seguinte maneira: “Assim como os níveis
dos ouvintes sem fruto eram três, também é tríplice a abundância de frutos.
Aqueles que tinham, foi-lhes dado”.1A semente plantada em nossos corações
germinará e frutificará mediante a nossa disposição para produzir. Todavia, a
lição maior desta parábola não é simplesmente frutificar, o que está relacionado
com a disposição para querer aprender e entender a Palavra de Deus. E o
entendimento intelectual e espiritual da Palavra que produzirá algum fruto.
Essa parábola tem a ver com a nossa capacidade de ouvir, entender e obedecer
.Nossa receptividade à Palavra “descortinará a verdade na justa proporção do
entendimento dos homens”. Só entenderemos as verdades profundas do Reino de
Deus mediante nossa receptividade. Jesus falou em “mistérios do reino”, indicando
que nem todos conheceriam esses mistérios, mas aqueles para os quais fossem
revelados. A uns o entendimento é menor e mais lento; a outros, é mais amplo e
claro, tal como a palavra declara: “trinta por um, sessenta por um e cem por
um”. Na igreja, os crentes são distintos membros do Corpo de Cristo (1 Co
12.12,27) e, naturalmente, cada membro deve cumprir o seu papel dentro do
Corpo. Por isso, podemos entender que cada pessoa produzirá “a boa semente” na
medida da sua capa cidade de frutificar. Não há espaço para ciúmes ou invejas,
desde que cada um produza à proporção de seu, entendimento dos “mistérios da
Palavra de Deus”.
CONCLUSÃO
Aprendemos com esta parábola do semeador
que existem três tipos de solos que representam obstáculos para germinar,
crescer e desenvolver. Em termos de desenvolvimento cristão, no primeiro solo o
cristão não se desenvolve; no segundo, a semente é frustrada quanto à
germinação; no terceiro, encontra um pouco de terra, mas é sufocada pelos
espinhos; e no quarto, ela encontra terra capaz de germiná-la e fazê-la crescer
e frutificar.
Parábolas
de jesus
Elienai Cabral






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