Análise Interpretativa – Métodos Interpretativos
O
|
método é entendido como um caminho a percorrer
com o
objetivo de
atingir um fim. A palavra deriva do termo “meto-
dologia”, que
significa a “arte de dirigir o espírito na investi-
gação da
verdade, ou, a orientação para o ensino de uma disciplina”.1
Assim, o método interpretativo de estudo
tem por objetivo descobrir
e demonstrar
a verdade, pois enquanto interpretação textual, é uma
arte que
visa explicar detalhadamente um texto. Isso resume o sentido
da
intepretação de texto.
A ideia essencial da interpretação aponta
para a explicação detalhada de um texto, ou seja, “o estudo de tudo que está
escrito na ‘linha’ (aquilo que o texto literalmente diz - tudo que está
explícito) e na ‘entrelinha’ (espaço entre duas linhas) ou seja, tudo que está
implícito, e que, muitas vezes, não foi dito por questões políticas, morais,
ideológicas, sociais ou religiosas”.2
Outra ideia de interpretação aponta para
a chegada ao sentido
claro do
texto através de uma análise detalhada e profunda dele. “Quer
deseje ou
não, todo leitor é, ao mesmo tempo um intérprete.”3 No contexto bíblico, a
interpretação não é uma atividade complexa, pelo contrário, “a maior parte da
Escritura é, na verdade, de fácil entendimento. Ninguém precisa ser versado nos
originais para compreender o seu propósito salvífico. Sua mensagem é
basicamente simples. Todo aquele que dela se aproxima pode ser educado na
justiça. Contudo,
existem
certas partes que não são de tão fácil compreensão, sendo de
suma
importância que o intérprete-leitor, tenha algumas qualificações”,4
sendo tais
intelectuais, educacionais e espirituais.
Em suma, o método interpretativo é a
maneira ordenada de entender um texto. Trata-se de um procedimento que obedece
alguns passos, cujo objetivo é chegar a uma conclusão.
Existe, no entanto, uma diferença entre
“interpretar” e “compreen-
der” o texto,
que consiste, respectivamente, na análise e inferência do que está escrito.
Para compreender um texto se faz necessário analisar o que está escrito
literalmente, mas para interpretá-lo faz-se necessário entender sua
subjetividade. Assim, no trabalho de compreensão do texto estão envolvidos os
aspectos explícitos do texto; já no da interpretação, os aspectos implícitos do
texto.
O quadro abaixo5 resume as diferenças
básicas entre compreensão e interpretação de um texto. Ele mostra que um texto
pode ser compreendido sem ser interpretado, mas não pode ser interpretado sem
ser compreendido.
Compreensão
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Interpretação
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O que é
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É a análise do que está escrito no texto, a
compreensão das frases e ideias presentes.
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É o que podemos concluir sobre o que está escrito no
texto. É o modo como interpretamos o conteúdo.
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Informação
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A informação está presente no texto.
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A informação está fora do texto, mas tem conexão com ele.
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Análise
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Trabalha com a objetividade, com as frases e
palavras que estão escritas no texto.
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Trabalha com a subjetividade, com o que você
entendeu sobre o texto
|
Para compreender e interpretar um texto
bíblico se faz necessário entender que a Palavra de Deus foi revelada numa
linguagem humana e, por isso, devemos considerar os princípios interpretativos
que esclarece histórico e gramaticalmente os textos de qualquer natureza. Ora,
se a Bíblia não estivesse sujeita às mesmas regras de interpretação textual
seria inviável chegar ao conhecimento adequado e saudável do texto bíblico.
O uso dos diversos métodos de
interpretação, embora essenciais em sua aplicação, devem ser entendidos como
influentes na interferência direta do significado do texto, ou seja, “as
questões levantadas pelo intérprete estão subordinadas aos métodos
interpretativos adotados e guiam-no na sua abordagem do texto”.6 De acordo com
Oliveira, o intérprete “deve primar pela consistência do método adotado com os
objetivos pretendidos, se quiser manter íntegra sua interpretação das
escrituras sagradas”.7
Existem diversos métodos de interpretação do
texto bíblico, dentre eles o método analítico, o método sintético, o método
temático e o método biográfico. A aplicação destes e outros métodos de
interpretação são úteis, uma vez que os diferentes contextos que constituem o
texto sagrado estão distantes historicamente da atualidade, requerendo do
intérprete um esforço na interpretação. De acordo com Santos, “uma
interpretação correta dos textos bíblicos resulta em uma fé sadia onde o
cristão sob a orientação e iluminação do Espírito Santo passa a ter uma melhor
compreensão da revelação do Eterno por meio de Jesus Cristo”.8 O uso de métodos
coerentes possibilita a edificação de uma interpretação segura, sobretudo,
fundamentada nas Escrituras Sagradas, impedindo assim uma interpretação
equivocada que possa resultar na construção de uma mensagem enganosa.
Ao descrever sobre a importância do uso
de métodos na interpretação das Escrituras Sagradas, Raimundo de Oliveira
destacou que “assim como o trabalho metódico do agricultor (plantio, cultivo e
colheita), ajuda a ação do sol e da chuva a produzir abundantes colheitas, o
estudo metódico das Escrituras nos ajuda a receber a revelação da verdade
através do Espírito Santo de uma maneira progressiva e bem organizada”.9 O
quadro abaixo10 resume as características do método analítico, do método sintético,
do método temático e do método biográfico.
Método
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Características
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Analítico
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Estuda o texto bíblico através da análise
minuciosa do texto, observando cada detalhe de sua composição. “Permite ao
leitor deparar-se com o porquê o escritor disse o que disse do modo como
disse”. Este método é composto pela observação; dando ênfase aquilo que não
está claro no texto; pela interpretação propriamente dita, de preferência com
identificação de palavras-chave; pela correlação, onde textos no mesmo
capítulo se relacionam; e pela aplicação, identificando princípios que devem
ser vividos.
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Sintético
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Apresenta um determinado assunto numa
perspectiva panorâmica, possibilitando uma noção geral, e não detalhado, do
texto bíblico. Diferente do método analítico, busca uma visão global de cada
livro da Bíblia, por isso, não dedica-se aos detalhes, mas sim, a mensagem
geral. Busca respostas sobre o propósito do escritor ao escrever determinado
tema, o que ele tinha em mente quando escreveu o tema e qual o caminho que
ele percorreu para alcançar seu objetivo.
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Temático
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Trata de
assuntos específicos. Pode ser o estudo de um tema único, ou, um tema geral
da Bíblia. Neste método o intérprete deve buscar o máximo de referências
bíblicas relacionadas ao tema definido para o estudo, permitindo dessa forma
que a Bíblia explique-se a si mesma.
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Biográfico
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Estuda as
características dos diversos personagens da Bíblia, com o objetivo de
compreendê-los com maior profundidade e extrair lições de cada um deles.
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Os Gêneros Literários
Os gêneros literários caracterizam-se pelo
agrupamento de textos que possuem padrões textuais similares. Surgiram durante
a antiguidade clássica, e o filósofo grego Aristóteles foi o responsável em
fazer a primeira classificação de obras literárias, com o objetivo de
organizá-las na história de acordo com características comuns apresentadas por
elas, dividindo-as em gênero épico, gênero lírico e gênero dramático.
O
gênero épico caracteriza-se pela referência à narrativa feita em forma de
versos, e tem como marca a presença de um narrador que fala de feitos do
passado, em especial, de feitos heróicos de um povo. O gênero lírico
caracteriza-se pela expressão de emoções e sentimentos, geralmente composto por
uma produção textual subjetiva.
O gênero dramático caracteriza-se pela
produção de textos criados com o objetivo de serem encenados, ou seja, é
produzido a partir da ideia da existência de um grupo de pessoas dispostas a
assistir a produção, e também, pela existência de uma ou mais pessoas dispostas
a representá-lo. O quadro abaixo11 apresenta os três gêneros literários e seus
sub-gêneros:
Gênero
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Sub-Gênero
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Épico
narrativo
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Romance,
conto, epopeia ou poesia épica, fábula, crônica, ensaio.
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Lírico
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Ode, hino, elegia, idílio, écloga,
epitalâmio, sátira.
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Dramático
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Auto, comédia,
tragédia, tragicomédia, farsa.
|
De acordo
com Silva, “os gêneros textuais são textos que encontramos em nossa vida
diária, são as práticas comunicativas do nosso cotidiano”.12 A especialista
também afirma que “conhecer os gêneros textuais constitui-se objetivo
pedagógico central para a formação de leitores”.13 Assim, o conhecimento dos
gêneros literários contribui para a identificação de características
essenciais, aspectos sociais e históricos que marcaram uma sociedade ao longo
de sua história. Conhecer os gêneros literários torna-se essencial para o
conhecimento correto de uma mensagem transmitida por um texto.
A
mensgem transmitida por Deus aos homens é única e seu conteúdo está revelado
nas Sagradas Escrituras em diversos livros que a compõem através de gêneros
literários diversos. É possível identificar esses diversos gêneros na
composição textual da Bíblia Sagrada. O objetivo de eles estarem ali é
transmitir uma única mensagem por diferentes formas, para diferentes pessoas e
em diferentes épocas da história.
Os gêneros literários classificados por
Aristóteles, logo, considerados clássicos, também são encontrados na Bíblia, ou
seja, o gênero épico, o gênero lírico e o gênero dramático estão presentes na
produção do texto bíblico. O quadro abaixo apresenta alguns exemplos da
presença dos gêneros literários nas Sagradas Escrituras:
Gênero Literário
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Presença no Texto Bíblico
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Épico – Narrativo
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História de
José do Egito (Gênesis); Parábola do Administrador Infiel (Lucas).
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Lírico
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Celebração no Salmo 100
(Salmos)
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Dramático
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Cativeiro de
Judá na Babilônia (2 Reis).
|
No livro dos Hebreus, por exemplo, no
primeiro capítulo e no primeiro versículo, o texto bíblico diz: “Havendo Deus,
antigamente, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos
profetas, a nós falou-nos, nestes últimos dias, pelo Filho”. Esta passagem
indica a presença de diferentes gêneros literários, ou seja, indica a
transmissão de uma mensagem única para comunicar a revelação de Deus de
diferentes maneiras. Quando se estuda o gênero literário das Escrituras,
percebemos histórias, leis, poesias, sabedoria, profecia, evangelhos e
literatura apocalíptica. Logo, ao identificarmos um gênero literário,
compreenderemos melhor as Escrituras. Ora, é natural que não se pode ler as
cartas de Paulo como se lê as parábolas de Jesus.
O quadro abaixo14 permite a observação
dos diversos gêneros literários presentes nas Sagradas Escrituras:
Gênero
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Características
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Exemplos
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Apocalipse
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Material
dramático, altamente simbólico; imagens mentais vividas; contrastes
perfeitos; eventos em escala global; abordagem da testemunha ocular; luta
cósmica entre o bem e o mal.
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Daniel
9.20-27; Apocalipse.
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Biografia
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Visão de perto da vida de uma pessoa;
contraste com outra pessoa; eventos selecionados; desenvolvimento do
personagem, positivo ou negativo.
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Abraão,
Isaque, Jacó, José, Moisés, Saul, Davi, Eliseu e Jesus.
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Encômio
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Alto louvor a alguém ou alguma coisa:
brilhantes termos para as origens, atos. Atributos ou superioridade do
sujeito; exortação a imitar os traços positivos.
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1 Sm
2.1-10; 19; 119; Pv 8.22-36; Cantares de Salomão; Jo 1.1-18; 1 Co 13; Cl
1.15-20; Hb 1-3.
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Exposição
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Argumento
ou explicação cuidadosamente fundamentada; organizada; fluxo lógico; termos
cruciais; clímax lógico e constrangedor; objetivo: concordância e ação.
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Cartas
de Paulo; Hebreus; Tiago; 1 e 2 Pedro; 1,2 e 3 João; Judas.
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Narrativa
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Categoria ampla na qual a história é
proeminente; relatos históricos: estrutura transmitida por enredo; eventos
comunicando significado; eventos justapostos para contraste e comparação.
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Gênesis;
Evangelhos; Atos.
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Oratória
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Apresentação oral estilizada de um
argumento; convenções formais de retórica e oratória; citação de autoridades
conhecidas: exortação e persuasão
|
João
13–17; Atos 7; 17.2231; 22.1-21; 24.10-21; 26.123.
|
Parábola
|
Breve história oral ilustrando moral;
personagens de repertório e estereótipos; cenas e atividades comuns; reflexão
e auto avaliação.
|
2 Sm
12.1-6; Ec 9.14-16; Mt 13.1-53; Mc 4.1-34; Lc 15.1; 16.31.
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Pastoral
|
Literatura que lida com temas rurais e
rústicos, especialmente pastores; pouca ação; meditativa e calma; laço entre
pastor e ovelhas; apresentação idealizada da vida distante dos males urbanos.
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Sl 23; Is
40.11;
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Poesia
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Verso
escrito para ser declamado ou cantado; ênfase na cadência e nos sons das
palavras; imagens e símbolos vividos; emoções: pode empregar o encômio, a
pastoral e outros estilos; no AT. Muitos paralelismos.
|
Jó;
Salmos; Provérbios; Eclesiastes; Cantares.
|
Profecia
|
Apresentação
estridente e autoritária da vontade e das palavras de Deus; com frequente
intenção de correção; motivação às mudanças; prevenção contra os planos de
Deus em resposta às escolhas humanas.
|
Isaías;
Malaquias.
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Provérbio
|
Declaração
curta e substanciosa de uma verdade moral; reduz a vida a categorias branco e
preto; dirige-se frequentemente a jovens; emprega paralelismos; direção ao
que é correto e distante do mal; muitas metáforas e símiles.
|
Provérbios.
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Sabedoria
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Exposição
e ridicularização do vício e da insensatez; vários estilos literários,
especialmente narrativa. Biografia e provérbio; advertência pelo exemplo
negativo.
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Pv
24.30-34; Ez 34; Lc 18.1-8.
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Tragédia
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Relata a
queda de uma pessoa; eventos selecionados para mostrar o caminho à ruína;
aponta para falha crítica no caráter e escolhas morais; advertência pelo
exemplo negativo
|
Ló;
Sansão; Saul; At 5.1-11.
|
A Parábola
A parábola é uma
“narração alegórica que encerra uma doutrina moral”15 e tem como propósito
facilitar a compreensão de uma mensagem através do compartilhamento de uma
história, fixando assim conceitos essenciais em nossa mente, e isto é possível,
uma vez que a parábola contém sempre uma lição central. Para Champlin
‘parábola’ “indica, literalmente, comparação, e é comumente usada para indicar
uma história breve, um exemplo esclarecedor, que ilustra uma verdade
qualquer”.16 Assim, a parábola é uma história que objetiva que algo seja
claramente compreendido a partir de uma ilustração com base na situação
vivencial da vida comum. A parábola é diferente de uma fábula e de um mito.
Sobre a diferença existente entre a parábola e a fábula, Champlin destaca que
“a fábula é uma forma de história ilustrativa fictícia e que ensina através da
fantasia, mediante a apresentação de animais que falam ou de objetos animados.
A parábola nem
sempre lança mão de histórias verídicas, mas admite a probabilidade, ensinando
mediante ocorrências imaginárias, mas que jamais fogem à realidade das
coisas”.17 Em relação à diferença entre a parábola e o mito é necessário
verificar que este “narra uma história como se fosse verdadeira, mas não
adiciona nem a probabilidade e nem a verdade. A parábola não tenta contar uma
história que deve ser aceita como história real e, sim, um tipo de narrativa
que nem sempre sucedeu realmente”.18
Para Cope, a
“parábola é justaposição, isto é, colocação de uma coisa ao lado de outra com a
finalidade de comparação e ilustração; indicação de casos paralelos ou
análogos; é o caso do argumento da analogia. [...] Aristóteles distingue
parábola em geral da fábula dizendo que a primeira descreve relações humanas,
com o que as parábolas do N.T. concordam; inventa casos análogos que não são
históricos, mas sempre verossímeis, isto é, sempre prováveis e correspondendo
ao que de fato ocorre na vida real”.19
É comum
limitarmos o significado e alcance das parábolas somente no Novo Testamento,
porém, sua verificação é ampla na história antiga e também está presente no
Antigo Testamento. Apesar de Cristo ter se utilizado de parábolas para
transmitir sua mensagem de forma simples e clara, fato este marcante inclusive
no seu ministério terreno, não foi ele o criador desse recurso. As parábolas
são verificadas entre os povos orientais da antiguidade, e, na literatura
judaica eram usadas de maneira abundante na literatura dos rabinos com o
objetivo de explicar verdades e doutrinas. O modo de vida agrário era o
ambiente inspirador para o uso da parábola para atingir o objetivo de
compartilhar uma mensagem. “Os escritos rabínicos estão cheios de histórias,
alegóricas ou parabólicas quanto ao caráter, com a intenção de deixar claro
algum ponto do ensino ou ilustrar alguma passagem na Bíblia Hebraica”.20 As
parábolas estão presentes nos textos do Antigo Testamento devido ao fato de
serem os hebreus exímios contadores de histórias, ou seja, era natural a
presença das parábolas na cultura literária dos hebreus.
No que diz respeito ao uso de parábolas por
outros povos na história, Charles Salmond destaca que “a utilização desse tipo
de linguagem exercia atração especial sobre os povos orientais, para quem a
imaginação era mais rápida e também mais ativa que a faculdade lógica. A grande
família das nações conhecidas como semitas, aos quais pertencem os hebreus,
junto com os árabes, os sírios, os babilônios e outras raças notáveis já
demonstraram a especial tendência à imaginação, como também um gosto particular
por ela”.21 A palavra hebraica mashal tem o significado de provérbio, analogia
e parábola, e apesar de ser aplicada de forma variada e abrangente, a ideia
essencial de seu significado faz referência a produção textual na forma de
parábola.
Parábolas no Antigo
Testamento
Na busca pela
identificação de parábolas no Antigo Testamento é necessário verificar se o
conceito de parábola veterotestamentária é semelhante ao aplicado ao Novo
Testamento com a finalidade de diferenciá-lo de outras figuras de linguagem que
possuam alguma similaridade. Com base nesta ideia, Manson22 admite a existência
de apenas nove ocorrências de parábolas no Antigo Testamento. A primeira
verificação ocorre no texto de 2 Samuel 12.1-14 que diz: “ E o SENHOR enviou
Natã a Davi; e, entrando ele a Davi, disse-lhe: Havia numa cidade dois homens,
um rico e outro pobre. O rico tinha muitíssimas ovelhas e vacas; mas o pobre
não tinha coisa nenhuma, senão uma pequena cordeira que comprara e criara; e
ela havia crescido com ele e com seus filhos igualmente; do seu bocado comia, e
do seu copo bebia, e dormia em seu regaço, e a tinha como filha. E, vindo um
viajante ao homem rico, deixou este de tomar das suas ovelhas e das suas vacas
para guisar para o viajante que viera a ele; e tomou a cordeira do homem pobre
e a preparou para o homem que viera a ele. Então, o furor de Davi se acendeu em
grande maneira contra aquele homem, e disse a Natã: Vive o SENHOR, que digno de
morte é o homem que fez isso. E pela cordeira tornará a dar o quadruplicado, porque
fez tal coisa e porque não se compadeceu.
Então, disse Natã
a Davi: Tu és este homem. Assim diz o SENHOR, Deus de Israel: Eu te ungi rei
sobre Israel e eu te livrei das mãos de Saul; e te dei a casa de teu senhor e
as mulheres de teu senhor em teu seio e também te dei a casa de Israel e de
Judá; e, se isto é pouco, mais te acrescentaria tais e tais coisas. Por que,
pois, desprezaste a palavra do SENHOR, fazendo o mal diante de seus olhos? A
Urias, o heteu, feriste à espada, e a sua mulher tomaste por tua mulher; e a
ele mataste com a espada dos filhos de Amom. Agora, pois, não se apartará a
espada jamais da tua casa, porquanto me desprezaste e tomaste a mulher de
Urias, o heteu, para que te seja por mulher. Assim diz o SENHOR: Eis que
suscitarei da tua mesma casa o mal sobre ti, e tomarei tuas mulheres perante os
teus olhos, e as darei a teu próximo, o qual se deitará com tuas mulheres
perante este sol. Porque tu o fizeste em oculto, mas eu farei este negócio
perante todo o Israel e perante o sol. Então, disse Davi a Natã: Pequei contra
o SENHOR. E disse Natã a Davi: Também o SENHOR traspassou o teu pecado; não
morrerás. Todavia, porquanto com este feito deste lugar sobremaneira a que os
inimigos do SENHOR blasfemem, também o filho que te nasceu certamente morrerá”.
A segunda
verificação ocorre em 2 Samuel 14.1-11 que diz: “Conhecendo, pois, Joabe, filho
de Zeruia, que o coração do rei era inclinado para Absalão, enviou Joabe a
Tecoa, e tomou de lá uma mulher sábia, e disse-lhe: Ora, finge que estás de
luto; veste vestes de luto, e não te unjas com óleo, e sejas como uma mulher
que há já muitos dias está de luto por algum morto. E entra ao rei e fala-lhe
conforme esta palavra. E Joabe lhe pôs as palavras na boca. E a mulher tecoíta
falou ao rei, e, deitando-se com o rosto em terra, se prostrou, e disse:
Salva-me, ó rei. E disse-lhe o rei: Que tens? E disse ela: Na verdade que sou
uma mulher viúva, e morreu meu marido. Tinha, pois, a tua serva dois filhos, e
ambos estes brigaram no campo, e não houve quem os apartasse; assim, um feriu
ao outro e o matou. E eis que toda a linhagem se levantou contra a tua serva, e
disseram: Dá-nos aquele que feriu a seu irmão para que o matemos, por causa da
vida de seu irmão, a quem matou, e para que destruamos também ao herdeiro.
Assim, apagarão a brasa que me ficou, de sorte que não deixam a meu marido
nome, nem resto sobre a terra.
E disse o rei à
mulher: Vai para tua casa, e eu mandarei ordem acerca de ti. E disse a mulher
tecoíta ao rei: A injustiça, ó rei, meu senhor, venha sobre mim e sobre a casa
de meu pai; e o rei e o seu trono fiquem inculpáveis. E disse o rei: Quem falar
contra ti, traze-mo a mim; e nunca mais te tocará. E disse ela: Ora, lembre-se
o rei do SENHOR, teu Deus, para que os vingadores do sangue se não multipliquem
a deitar-nos a perder e não destruam meu filho. Então, disse ele: Vive o
SENHOR, que não há de cair no chão nem um dos cabelos de teu filho”.
A terceira
verificação ocorre em 1 Reis 20.35-40 que diz: “Então, um dos homens dos filhos
dos profetas disse ao seu companheiro, pela palavra do SENHOR: Ora, fere-me. E
o homem recusou feri-lo. E ele lhe disse: Porque não obedeceste à voz do
SENHOR, eis que, em te apartando de mim, um leão te ferirá. E, como dele se
apartou, um leão o encontrou e o feriu. Depois, encontrou outro homem e
disse-lhe: Ora, fere-me. E feriu-o aquele homem, ferindo-o e vulnerando-o.
Então, foi o profeta, e pôs-se perante o rei no caminho, e disfarçou-se com
cinza sobre os seus olhos. E sucedeu que, passando o rei, clamou ele ao rei e
disse: Teu servo saiu ao meio da peleja, e eis que, desviando-se um homem, me
trouxe outro homem e disse: Guarda-me este homem; se vier a faltar, será a tua
vida em lugar da vida dele ou pagarás um talento de prata. Sucedeu, pois, que,
estando o teu servo ocupado de uma e de outra parte, entretanto, desapareceu.
Então, o rei de Israel lhe disse: Esta é a tua sentença; tu mesmo a
pronunciaste”.
A quarta
verificação ocorre em Isaías 5.1-7 que diz: “Agora, cantarei ao meu amado o
cântico do meu querido a respeito da sua vinha. O meu amado tem uma vinha em um
outeiro fértil. E a cercou, e a limpou das pedras, e a plantou de excelentes
vides; e edificou no meio dela uma torre e também construiu nela um lagar; e
esperava que desse uvas boas, mas deu uvas bravas. Agora, pois, ó moradores de
Jerusalém e homens de Judá, julgai, vos peço, entre mim e a minha vinha. Que
mais se podia fazer à minha vinha, que eu lhe não tenha feito? E como,
esperando eu que desse uvas boas, veio a produzir uvas bravas? Agora, pois, vos farei saber o que eu hei de
fazer à minha vinha: tirarei a sua sebe, para que sirva de pasto; derribarei a
sua parede, para que seja pisada; e a tornarei em deserto; não será podada, nem
cavada; mas crescerão nela sarças e espinheiros; e às nuvens darei ordem que
não derramem chuva sobre ela. Porque a vinha do SENHOR dos Exércitos é a casa
de Israel, e os homens de Judá são a planta das suas delícias; e esperou que
exercessem juízo, e eis aqui opressão; justiça, e eis aqui clamor”.
A quinta
verificação ocorre em Ezequiel 17.3-10 que diz: “E dize: Assim diz o Senhor
Jeová: Uma grande águia, de grandes asas, de farta plumagem, cheia de penas de
várias cores, veio ao Líbano e levou o mais alto ramo de um cedro. E arrancou a
ponta mais alta dos seus ramos e a trouxe a uma terra de mercancia; na cidade
de mercadores a pôs. Tomou da semente da terra e a lançou num campo de semente;
tomando-a, a pôs junto às grandes águas, com grande prudência. E brotou e
tornou-se numa videira mui larga, de pouca altura, virando-se para ela os seus
ramos, porque as suas raízes estavam debaixo dela; e tornou-se numa videira, e
produzia sarmentos, e lançava renovos.
Houve mais uma grande águia, de grandes asas,
e cheia de penas; e eis que essa videira lançou para ela as suas raízes e
estendeu para ela os seus ramos, desde as auréolas do seu plantio, para que a
regasse. Numa boa terra, à borda de muitas águas, estava ela plantada, para
produzir ramos e para dar fruto, para que fosse videira excelente. Dize: Assim
diz o Senhor Jeová: Ela prosperará? Não lhe arrancará ele as suas raízes e não
cortará o seu fruto, para que se seque? Emtodas as folhas de seus renovos se
secará; e, não com braço grande, nem com muita gente, será arrancada pelas suas
raízes. Mas, estando plantada, prosperará? Porventura, tocando-lhe vento
oriental, de todo não se secará? Desde as auréolas do seu plantio se secará”.
A sexta
verificação ocorre em Ezequiel 19.2-9 que diz: “[...] e dize: Quem foi tua mãe?
Umaleoa entre leões deitada criou os seus filhotes no meio dos leõezinhos. E
fez crescer um dos seus filhotinhos, o qual veio a ser leãozinho e aprendeu a
apanhar a presa; e devorou os homens. E, ouvindo falar dele as nações, foi
apanhado na sua cova, e o trouxeram com ganchos à terra do Egito. Vendo, pois,
ela que havia esperado e que a sua esperança era perdida, tomou outro dos seus
filhotes e fez dele um leãozinho. E este, andando continuamente no meio dos
leões, veio a ser um leãozinho, e aprendeu a apanhar a presa, e devorou homens.
E conheceu os seus palácios e destruiu as suas cidades; e assolou-se a terra e
a sua plenitude, ao ouvir o seu rugido. Então, se ajuntaram contra ele as
pessoas das províncias em roda, estenderam sobre ele a rede, e foi apanhado na sua
cova. E meteram-no em cárcere com ganchos e o levaram ao rei da Babilônia;
fizeram-no entrar nos lugares fortes, para que se não ouvisse mais a sua voz
nos montes de Israel”.
A sétima
verificação ocorre em Ezequiel 19.10-14 que diz: “Tua mãe era como uma videira
na tua quietação, plantada à borda das águas; ela frutificou e encheu-se de
ramos, por causa das muitas águas. E tinha varas fortes para cetros de
dominadores e elevou-se a sua estatura entre os espessos ramos, e foi vista na
sua altura com a multidão dos seus ramos. Mas foi arrancada com furor, foi
abatida até à terra, e o vento oriental secou o seu fruto; quebraram-se e
secaram-se as suas fortes varas, e o fogo as consumiu. E, agora, está plantada
no deserto, numa terra seca e sedenta. E de uma vara dos seus ramos saiu fogo
que consumiu o seu fruto, de maneira que não há nela nenhuma vara forte, cetro
para dominar. Esta é a lamentação e servirá de lamentação”.
A oitava
verificação ocorre em Ezequiel 21.1-5 que diz: “E veio a mim a palavra do
SENHOR, dizendo: Filho do homem, dirige o rosto contra Jerusalém, e derrama as
tuas palavras contra os santuários, e profetiza contra a terra de Israel. E
dize à terra de Israel: Assim diz o SENHOR: Eis que sou contra ti, e tirarei a
minha espada da bainha, e exterminarei do meio de ti o justo e o ímpio. Por
isso que hei de exterminar do meio de ti o justo e o ímpio, a minha espada
sairá da bainha contra toda carne, desde o Sul até ao Norte. E saberá toda
carne que eu, o SENHOR, tirei a minha espada da bainha; nunca mais voltará a
ela”.
A nona
verificação ocorre em Ezequiel 24.3-5 que diz: “E usa de uma comparação para
com a casa rebelde e dize-lhe: Assim diz o Senhor Jeová: Põe a panela ao lume,
e põe-na, e deita-lhe água dentro, e ajunta nela bons pedaços de carne, todos
os bons pedaços, as pernas e as espáduas, e enche-a de ossos escolhidos. Pega
no melhor do rebanho e queima também os ossos debaixo dela; fá-la ferver bem, e
cozam-se dentro dela os seus ossos”.
Para Manson, “à
luz do uso que da parábola faz o Antigo Testamento, é possível dizer o seguinte
acerca do seu emprego nos evangelhos: parábola é uma criação literária do
gênero narrativo designada a retratar um certo tipo de caráter como advertência
ou exemplo, ou a ilustrar um princípio da maneira de Deus dirigir o mundo e os
homens”.23 De acordo com Lockyer outras passagens do Antigo Testamento
evidenciam a existência de parábolas. O quadro abaixo24 resume esta
classificação de Lockyer:
Parábolas no Novo
Testamento
No Novo Testamento, Jesus utilizou as parábolas como recurso
na transmissão de sua mensagem com o objetivo de compartilhar uma verdade
espiritual de modo que fosse compreendida de maneira simples, e para isso, usou
exemplos do cotidiano de quem o ouvia. O objetivo de Jesus era transmitir uma
mensagem que não deixasse dúvida da parte de quem recebia. Schottroff destaca
que Jesus narra parábolas para ensinar e para ser entendido, e, que estas
parábolas “são designadas de discurso compreensível que não quer apenas
provocar a compreensão intelectual, mas também a compreensão que decorre de
ouvir a voz de Deus”.25 Schottroff destaca também que “o convite para comparar
a narrativa parabólica com o reino de Deus visa a uma reflexão sobre o conteúdo
do agir de Deus, da vontade de Deus, sobre o agir no passado, presente e
futuro”.26
Ao se dirigir aos seus discípulos e aos
fariseus, seus inimigos, Jesus adotou o método de ensino por parábolas com a
finalidade de convencer aqueles e condenar estes. Em Mateus 13.10, os
discípulos fizeram a seguinte pergunta para Jesus: “Por que lhes falas por
parábolas?”. Essa pergunta foi respondida nos cinco versículos seguintes
(vv.11-17). Jesus usava esse método em razão da diversidade de caráter, de
nível espiritual e de percepção moral de seus ouvintes: “Por isso, lhes falo
por parábolas” (Mt 13.13). Em Marcos 4.10-12, ao ser inquirido sobre o uso de
parábolas, Jesus respondeu que as usava nos seus ensinamentos por duas razões
distintas: para ilustrar a verdade para aqueles que estavam dispostos a
recebe-la e para obscurecer a verdade daqueles que a odiavam.
Contexto Social no
Tempo de Jesus
A Galileia era a mais setentrional das províncias ocidentais
da Palestina. Compreendia todo o território ao Norte de Samaria até ao Monte
Líbano, estendendo-se de Leste a Oeste, entre o Mar da Galileia, o Mar
Mediterrâneo e a Fenícia. A Galileia situava-se nas grandes rotas comerciais
que cruzavam o Oriente Próximo, e muitos estrangeiros atravessavam a região.
Esta era muito mais próspera que a Judeia e abrigava uma grande população. Os
galileus eram menosprezados pelos líderes religiosos de Jerusalém, pois muitos
deles não eram de descendência judaica, pois seus antepassados foram
violentamente convertidos por Alexandre Janeu.
O mar da Galileia
(Mt 4.18), também conhecido como mar de Tiberíades ou lago de Genesaré (Lc 5.1)
é um extenso lago de água, localizado ao norte da Palestina, e tem comprimento
máximo de cerca de 19 quilômetros e largura máxima de cerca de 13 km, cuja
profundidade média é de 45m, sendo que sua área total abrange 166,7 km². É
formado pelo alargamento do rio Jordão, em certo trecho de seu curso. Fica a
213 metros abaixo do nível do mar Mediterrâneo. Nos tempos do Novo Testamento,
ficavam nas suas costas as cidades de Tiberíades — fundada por Herodes Antipas
ao tempo da infância de Jesus —, Cafarnaum, Betsaida e Genesaré, entre outras.
Hoje, Tiberíades é a localidade principal nas margens do lago. A nordeste deste
lago ficam as colinas de Golã.
Escavações
arqueológicas tem revelado que havia ao todo doze cidades em volta do lago. A
conservação de peixes pela salgadura e sua exportação para todos os lugres do
Império Romano era a principal indústria. Esse Mar, que ficava cerca de 96km ao
norte de Jerusalém, ajudava a determinar o tipo de vida que se levava em toda a
região ao derredor. As ocupações dos habitantes incluíam a agricultura, a
fruticultura, a pecuária, o tingimento de tecidos, o curtume, a pesca e a fabricação
de embarcações. Foi em Caná, na Galileia, que Jesus realizou seu primeiro
milagre, transformando água em vinho, numa festa de casamento (Jo 2.1-11).
Nessa província, Jesus reforçou seu ensino com parábolas memoráveis, ilustrando
o amor de Deus pelos pecadores, a necessidade de confiança na misericórdia de
Deus, o amor que devemos ter uns com os outros, a maneira como a Palavra de
Deus vem e o Reino de Deus cresce, a responsabilidade de o discípulo
desenvolver seus dons e o julgamento daqueles que rejeitam o Evangelho.
Jerusalém no Tempo de
Jesus —
Religiosidade do Templo e Relação com as Pessoas
Jerusalém é uma das
mais antigas cidades do mundo. É a mais sagrada cidade da Palestina e tem
existido como cidade e como capital, além de lugar sagrado, há mais de três mil
anos. Jerusalém contava com uma superpopulação, sendo que a maioria das pessoas
estava desesperada em decorrência da opressão do Império Romano, da miséria, da
opressão aos pequenos produtores, dos pequenos agricultores praticamente falidos,
tendo que pagar elevados impostos a Roma. Nessa época, grande parte da
população dependia de esmolas do Templo. Enquanto o povo comum estava vivendo
em situação de extrema pobreza, padecendo por terríveis privações, a
aristocracia, os grandes produtores, os grandes comerciantes e as famílias mais
abastadas estavam satisfeitas com o sistema vigente controlado pelo governo de
Roma. Diante desse contexto, o povo judeu aguardava com ansiedade o Messias que
viria em glória, conforme vaticinado pelo profeta Zacarias (Zc 14.4).
Todavia, na segunda fase de seu ministério na
Judeia, Jesus subiu a Jerusalém, no meio da Festa dos Tabernáculos, e começou a
ensinar o povo publicamente no pátio do Templo (Jo 7.14-53). A opinião popular
divergia a seu respeito e os líderes religiosos indignados interrogavam: “Como
sabe este letras, não as tendo aprendido”? (Jo 7.15). Essa atitude de Jesus,
ensinando e assumindo a posição de rabino, sem ter sido instruído nas escolas
dos escribas e fariseus em Jerusalém, consistia num grave insulto para eles.
Entretanto, Jesus não era um analfabeto, pois Ele sabia ler e escrever (Lc
4.16-20; Jo 8.6). A resposta de Jesus foi bastante clara, dizendo que “a
certeza da crença em Deus não depende da mentalidade da pessoa, mas de um
coração reto e de um espírito obediente”: “A minha doutrina não é minha, mas
daquele que me enviou” (Jo 7.16).
O Contexto Literário
no Tempo de Jesus: os Evangelhos
Os quatro primeiros
livros do Cânon do Novo Testamento são chamados de Evangelhos porque são os
registros escritos das primeiras pregações das boas novas a respeito de Cristo.
Eles constituem um tipo distinto de literatura. Não são biografias completas,
pois não tentam narrar todos os fatos da carreira de Jesus; nem são apenas
histórias; nem são sermões, embora incluam pregações e discursos; também não
são apenas relatos de notícias. Os três primeiros Evangelhos – Mateus, Marcos e
Lucas – são chamados sinóticos, termo que vem do grego synoptikos, que
significa “ver junto”, “ver da mesma perspectiva”, “vistos de um ponto de vista
comum”. Isso se justifica pelo fato que eles viam o ministério de Jesus sob
perspectivas semelhantes entre si. Por exemplo, mais de 600 dos 661 versículos
de Marcos podem ser encontrados em Mateus. Aproximadamente 380 versículos de Lucas
são semelhantes aos encontrados em Marcos.
Os Sinóticos
apresentam a vida, os ensinamentos e a significação de Jesus sob o mesmo ponto
de vista, em contraste com o Evangelho de João, o qual se limita quase
inteiramente ao que Jesus disse e fez na área de Jerusalém. Cada Evangelho foi
escrito por pessoas diferentes, em épocas distintas, em lugares que variaram e
em situações peculiares. Todos, porém, foram provavelmente escritos entre os
anos 60 a 95 d.C. Mateus escreveu seu Evangelho para os judeus e é conhecido
como o Evangelho do Rei; Marcos escreveu aos romanos e é conhecido como o
Evangelho do grande Servo de Deus; Lucas escreveu aos gregos, conhecido como
Evangelho do Filho do Homem; João, conhecido como o Evangelho do Filho de Deus,
foi escrito para a Igreja.
Como Ler e
Interpretar uma Parábola
A leitura da parábola deve ser
lida e entendida como uma narrativa sintética das experiências cotidianas
Uma das questões mais importantes ao ler uma parábola é
procurar entender os elementos culturais operados em cada uma delas, pois são
histórias contadas a partir de outra cultura e tempo. Torna-se impossível
entender as parábolas sem vinculá-las ao seu contexto social, pois elas se
referem a experiências de pessoas que viveram na época de Jesus. Para tanto,
torna-se necessário identificar a conexão com as estruturas daquela sociedade.
Quase um terço dos ensinamentos de Jesus foram realizados através de parábolas.
Ele contou parábolas sobre a natureza: o trigo e o joio (Mt 13.24-30), trabalho
e salário: o senhor e o servo (Lc 17.7-10), e até sobre casamentos e festas: as
dez virgens (Mt 25.1-13).
Jesus não falava
de forma genérica acerca da busca de Deus pelo perdido, mas sempre através de
histórias de experiências cotidianas, tais como: a história sobre uma mulher
que perdera uma de suas dez moedas de prata, e que não descansou até
encontrá-la (Lc 15.8-10). Ao confrontar os fariseus, escolheu pensar neles como
“sepulcros caiados” (Mt 23.27), referindo-se aos seus ensinamentos como
motivações espirituais comparadas aos cemitérios gregos, onde as tumbas de
calcário, chamadas de sarcófago, eram belas por fora, mas dentro eram repletas
de ossos secos.
A leitura da parábola deve
procurar as declarações explícitas e implícitas do agir de Deus no contexto
literário
Exemplo de declaração
explícita do agir de Deus: “Assim diz o Senhor” (420 vezes na Bíblia NVI).
Explícito significa desprovido de dúvidas ou ambiguidades; que está
perfeitamente enunciado; claro; preciso.
Exemplo de
declaração implícita desse agir: “O Espírito do Senhor falou por mim, e a sua
palavra está na minha boca” (2 Sm 23.2). O que Davi está afirmando é que sua
inspiração para compor Salmos vinha do Espírito de Deus. Implícito significa
que está envolvido ou contido, mas não expresso claramente; subentendido;
tácito.
Para fazer uma comparação da narrativa
parabólica com o Reino de Deus é indispensável que haja uma reflexão sobre o
conteúdo do agir de Deus, da vontade de Deus no passado, no presente e no
futuro. Quanto ao presente e ao futuro são entendidos escatologicamente.
Portanto, faz sentido desvendar a parábola com as seguintes perguntas, conforme
sugere Luise Schottroff: “Onde está o evangelho, a mensagem libertadora? Onde
se pode reconhecer o Deus da Torá e a Torá ao lado, por trás ou ainda na própria
parábola? O que a parábola diz a respeito da promessa ou promissão de Deus?
Essas três perguntas (Evangelho, Torá, Escatologia) são auxílios que se
oferecem para a compreensão das aplicações das parábolas”.
A leitura da parábola
deve identificar a aplicação prática da mesma
As parábolas de Jesus contêm lições profundas e de aplicação
prática no campo da ética e da vida espiritual das pessoas. A maneira predileta
de Jesus ensinar era pelo uso de parábolas. Ele sabia que as pessoas gostavam
de ouvir uma boa estória! Jesus usava parábolas para dizer tudo isso ao povo.
Ele não dizia nada a eles sem ser por meio de parábolas. Isto aconteceu para se
cumprir o que o profeta tinha dito: “Usarei parábolas quando falar com esse
povo e explicarei coisas desconhecidas desde a criação do mundo” (Mt 13.34-35
(NTLH). Jesus ministrava suas mensagens com facilidade em todos os níveis
sociais. Ele tinha conhecimento das mais diversas áreas da sociedade e sabia
quais eram as suas necessidades. Conhecia como funcionava a lógica dos fariseus
e dos escribas.
Por meio de suas
parábolas Jesus levou aos seus ouvintes a mensagem de salvação, conclamava a se
arrependerem e a crerem. Aos crentes, desafiava-os a porem a fé em prática,
exortando seus seguidores à vigilância. Quando seus discípulos tinham
dificuldade para entender as parábolas, Jesus as interpretava.
Além das três perguntas acima sobre como
desvendar uma parábola (Evangelho, Torá e Escatologia), uma boa maneira de
identificar a aplicação prática de uma Parábola é fazer as perguntas seguintes:
Para quem a parábola foi contada? Porque a parábola foi contada? Qual é a moral
da parábola? Existe algum ponto culminante na parábola? Alguma interpretação é
dada na passagem para a parábola?
A salvação da
alma é parte integrante das parábolas, pois não há como entrar no Reino de Deus
sem ter nascido de novo (Jo 3.3-8). Você já renasceu? Já se arrependeu dos
pecados e confiado em Jesus Cristo como seu sacrifício pelos seus pecados? Você
conhece o Rei do Reino? Seu coração já se prostra diante deste Rei? Ou vive em
rebeldia contra Ele ainda? Os verdadeiros súditos reconhecem a soberania do Rei
e submetem-se a ela.
As Parábolas de Jesus
De acordo com Snodgrass “não existe muito acordo acerca do
número de parábolas no Novo Testamento, com estimativas variando de trinta e
sete até sessenta e cinco”.27 Este autor destaca que a “determinação desse
número depende da definição que se dê ao termo ‘parábola’, levando em conta
julgamentos relativos a formas específicas e se parábolas semelhantes como a
dos Talentos e das Minas são consideradas uma só parábola ou duas”.28 Snodgrass
também destaca que no evangelho segundo João não existem parábolas, uma vez que
nenhuma das figuras apresentadas por ele “se equipara às similaridades, às
narrativas duplamente indiretas, às parábolas jurídicas ou às parábolas
interrogativas encontradas nos Evangelhos Sinóticos”.29
O quadro abaixo
sintetiza as parábolas de Jesus
Quando estudamos as parábolas de Jesus, como discípulos
verdadeiros, em busca de sabedoria e entendimento das verdades espirituais
profundas, nos deparamos com as sábias lições que Ele nos deixou para sermos bem-sucedidos
em nossa vida aqui no mundo. Como disse Jesus aos seus primeiros discípulos:
“Felizes são os olhos que veem o que vocês veem. Pois eu lhes digo que muitos
profetas e reis desejaram ver o que vocês estão vendo, mas não viram; e ouvir o
que vocês estão ouvindo, mas não ouviram” (Lc 10.23-24 – NTLH).
Wagner Tadeu dos Santos Gaby e Eliel dos Santos Gaby
1 BUENO, Silveira. Minidicionário da Língua
Portuguesa. São Paulo: FTD,
1996. p. 429. 2 SENIOR, Augusto. O que é
interpretação textual. Disponível em <https:// www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=97421>
Acesso em 17 de Jan. de 2018. 3 FEE, Gordon D. STUART, Douglas. Entendes o que
lês? Um guia para entender a Bíblia com o auxílio da exegese e da hermenêutica.
São Paulo: Vida Nova,1984. p. 139.1
6
OLIVEIRA, Moisés C. Como os métodos afetam a interpretação do
texto. Disponível em <https://artigos.gospelprime.com.br/como-os-metodos-afetam-a-interpretacao-do-texto/>
Acesso em 17 de Jan. de 2018. 7 Ibidem.
8 SANTOS, Marcos A. A importância do
estudo da hermenêutica para a igreja de hoje. Disponível em
<http://www.teologiaevida.com.br/2012/09/a-importancia-do-estudo-da-hermeneutica.html>
Acesso em 19 de Jan. de 2018.
9
OLIVEIRA, Raimundo F. Princípios de Hermenêutica: Estudo e Compreensão
da Bíblia. 4. ed. Campinas: EETAD, 2001. p. 65. 10 Adaptado de OLIVEIRA,
Raimundo F. Princípios de Hermenêutica: Estudo e Compreensão da Bíblia. 4. ed.
Campinas: EETAD, 2001. p. 63-76.
11 Adaptado do texto “Gêneros literários:
tipos e características” do portal Norma Culta – Língua portuguesa em bom
português” disponível em <https://www. normaculta.com.br/generos-literarios/>
Acesso em 19 de Dez. de 2017.
14 HENDRICKS, Howard G.; HENDRICKS, William
D. Vivendo na Palavra – A arte e a ciência da leitura da Bíblia. São Paulo:
Editora Batista Regular, 2010.
15 BUENO, Silveira. Minidicionário da
Língua Portuguesa. São Paulo: FTD, 1996. p. 482. 16 CHAMPLIN, Russell N.
Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2013.
p. 57.
17 CHAMPLIN, Russell N. Enciclopédia de
Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2013. p. 57. 18
Ibidem. 19 COPE apud MANSON, T. W. O Ensino de Jesus. São Paulo: ASTE, 1965. p.
74. 20 TENNEY, Merrill C. Enciclopédia da Bíblia – Cultura Cristã. Vol. 4. São
Paulo: Cultura Cristã, 2008. p. 774.
21 SALMOND, Charles apud LOCKYER, Herbert.
Todas as parábolas da Bíblia - Uma análise detalhada de todas as parábolas das
Escrituras. São Paulo: Editora Vida, 2006. p. 8. 22 MANSON, T. W. O Ensino de
Jesus. São Paulo: ASTE, 1965. p. 79.
23 MANSON, T. W. O Ensino de Jesus. São
Paulo: ASTE, 1965. p. 81. 24 Quadro adaptado do texto da obra de LOCKYER,
Herbert. Todas as parábolas da Bíblia - Uma análise detalhada de todas as
parábolas das Escrituras. São Paulo: Editora Vida, 2006.
25 SCHOTTROFF, Luise. As parábolas de
Jesus: uma nova hermenêutica. Trad. Nélio Scneider. São Leopoldo: Sinodal,
2007. p. 130. 26 Ibidem. p. 129.
27 SNODGRASS, Klyne. Compreendendo todas as
parábolas de Jesus. 1. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2010. p. 53-54. 28 Ibidem. 29
Ibidem. p. 54.











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