O que é Estado teocrático:
Estado teocrático é um país ou nação que possui um
sistema de governo que se submete às normas de uma religião específica.
As regras que gerem as ações políticas, jurídicas, de conduta moral e ética,
além da força policial deste modelo de governo estão baseadas em doutrinas
religiosas.
Aos
Estados teocráticos podem ser atribuídos os conceitos dos Estados
confessionais, ou seja, que assim como a teocracia, possuem uma
religião oficial ou privilegiam um grupo religioso em comparação com outras
doutrinas que podem existir na mesma sociedade. O privilégio pode ser
econômico, político ou mesmo judicial.
Etimologicamente,
o conceito de teocracia (que
forma o Estado teocrático) surgiu do grego, em que teo significa
"deus" e cracia quer dizer
"governo", ou seja, teocracia significa "Governo de Deus"
ou "governo divino".
Na maioria dos Estados
teocráticos, os representantes estão ligados diretamente ou indiretamente ao
clero (igreja ou doutrina religiosa), sendo considerados
"porta-vozes" do deus ou deuses que "governam" e
"protegem" aquela nação.
Nas
civilizações antigas, por exemplo, os governantes de Estados teocráticos
chegavam a se declararem descendentes diretos dos deuses, como acontecia no
Antigo Egito. Os egípcios cultuavam os seus faraós como se fossem verdadeiras
divindades, isto porque acreditava-se que os governantes eram filhos do grande
deus Amon-Rá,
portanto, também tinham "sangue divino" correndo nas veias.
O faraó, como a figura de
um deus vivo, era constantemente cortejado pelos seus súditos, que desejavam a
sua felicidade pessoal, pois temiam que desagradando o faraó, estivessem
irritando o próprio Amon-Rá.
Atualmente, entre os
Estados teocráticos existentes no mundo está o Vaticano, que é representado
pela Igreja Católica; o Irã, que funciona tendo como base a República Islâmica;
e Israel, que segue as doutrinas de um Estado Judeu.
Estado teocrático e Estado laico
Ao
contrário do que acontece nos Estados laicos ou
seculares, o Estado teocrático possui uma religião oficial, sendo proibida
qualquer outra manifestação pública ou cultos que não pertençam à doutrina
seguida pelo país.
O Estado laico, por sua
vez, não proíbe e nem oficializa qualquer tipo de manifestação religiosa. Todas
as religiões são livres de praticar o seu culto. Porém, nenhuma religião deve
influenciar as decisões do governo, sendo totalmente separados os conceitos e
interesses religiosos dos interesses do governo democrático.
FONTE : https://www.significados.com.br/estado-teocratico/
INTRODUÇÃO AO ESTADO
TEOCRÁTICO DO ANTIGO TESTAMENTO
INTRODUÇÃO
Primeiramente vamos entender o significado
da palavra teocrático, em termos gerais significa “o governo de Deus”,
geralmente se refere ao governo literal de Deus a um estado governado de uma
forma agradável a Ele. A palavra não é de origem bíblica, mas a ideia de Deus
sendo o governante do seu povo é básica no pensamento do AT. Teoricamente, a
teocracia seria um estado sob o qual Deus governa diretamente sem a mediação do
homem ou de representantes. Isso nos faz pensar que Israel pode nunca ter sido
uma verdadeira teocracia, no sentido literal do termo. Embora Israel tenha
sempre se considerado como estando sob o governo de Deus, porem sabemos que
este governo sempre esteve mediado, por um representante “legal Divino”, ora
por um patriarca, ora por um juiz e finalmente por um rei ou sacerdote.
Nota: Iremos
para fins de bom entendimento da história do Antigo Testamento identificar
Israel como a nação unificada. Assim como “Samaria” e “Judá” a representação da
nação fragmentada, desde o fatídico governo de Salomão até o domínio
Romano.
FORMAÇÃO DO ESTADO TEOCRÁTICO DO
ANTIGO TESTAMENTO
Nos tempos
do AT Israel teve basicamente duas formas de governo, o primeiro seria o de
liga tribal, nesse tempo Deus levantou governantes carismáticos (espirituais)
chamados juízes para liderar seu povo da opressão. No entanto neste período
grande parte do governo foi literalmente deixado a cargo dos anciãos de cada
tribo. No período da monarquia, o governo de Deus era desempenhado através do
papel do rei, o oficio do rei de Israel era um oficio sagrado. O rei era ungido
por Deus, ele era o representante de Deus, embora nesse período a forma de
governo tenha sido uma monarquia que durou vários séculos, ela também era
teoricamente considerada uma teocracia, o conceito do relacionamento básico
entre Israel e Deus, que é visto na aliança divina está de fato relacionando na
ideia da teocracia, Israel foi fundada com o objetivo de ser uma nação cuja a
posse era do próprio Deus, Ele mesmo disse:
"O
Senhor não se afeiçoou a vocês nem os escolheu por serem mais numerosos do que
os outros povos, pois vocês eram o menor de todos os povos. Mas foi porque o
Senhor os amou e por causa do juramento que fez aos seus antepassados. Por isso
ele os tirou com mão poderosa e os redimiu da terra da escravidão, do poder do
faraó, rei do Egito. Saibam, portanto, que o Senhor, o seu Deus, é Deus; ele é
o Deus fiel, que mantém a aliança e a bondade por mil gerações daqueles que o
amam e obedecem aos seus mandamentos. Deuteronômio 7:7-9
As histórias
dos patriarcas formam o primeiro capítulo da grande história teológica de
Israel que encontramos nos seis (6) primeiros livros da bíblia. Eles nos dão
conta de que, séculos antes de Israel tomar posse de Canaã, seus antepassados
tinham vindo da longínqua Mesopotâmia e como seminômades tinham vagueado pela
terra sustentados pelas promessas de seu Deus nesse período a forma de governo
civil, em que o próprio Deus é reconhecido como a cabeça, onde as leis do
estado são os mandamentos de Deus, e eles são expostos pela promulgação e os
representantes credenciados da divindade invisível, geralmente é exercido por
sacerdotes. Assim, em uma teocracia deveres cívicos e funções formam uma parte
da religião, o que implica a absorção do “Estado pela Igreja” ou pelo menos a supremacia
do último cargo do estado; Porém no antigo testamento e dentro do modo de vida
cultural e dentro do território de Israel essa divisão de “Divino (divindade) e
Estado não existia”, tudo era uma coisa só e predominava o governo da divindade
(teocracia), o bem estar do povo era atribuído a divindade, se a colheita ia
mal, Deus (divindade) estava aborrecido, se uma guerra era perdida, ou um
inimigo ameaçava as fronteiras da nação, de alguma forma tudo era ligado a Deus
(divindade) ou aos deuses, lembrando que depois do reinado de Salomão a cidade
de Samaria foi corrompida e se tornou politeísta desde a sua fundação, e Judá
teve muita oscilação ente governos (reinados) monoteísta e politeísta, mas no
final tudo sempre estava relacionado a uma divindade. A separação do divino e
do estado só começou a ocorrer de forma concreta após a queda de Jerusalém e a
destruição do segundo templo pelo império romano e por consequência a dispersão
do povo de Israel entre outros demais povos conquistadores. Tudo que conhecemos das origens de Israel e
de sua pré-história, antes que começasse a viver como povo sedentário na
palestina deriva da narrativa do hexateuco, que preservou para todos nós a
tradição nacional. Nenhum povo antigo tinha tradições comparáveis a estas, com
efeito a riqueza de detalhes, beleza literária e profundidade teológica, elas
não tem paralelo com as tradições desse tipo na história.
CONCLUSÃO
Em vista de
tudo isso, pode parecer simples escrever a história das origens e da formatação
teocrática de Israel, até mesmo pela própria vida dos patriarcas. Mas não é o
caso, embora a evidencia que acabamos de aduzir seja mais que suficiente para
mostrar que a narrativa bíblica, ao menos nos seus pontos essenciais se radica
na história, não devemos contudo, simplificar em demasiado as coisas. Pode
ficar a impressão, lendo a bíblia de que Israel surgiu de um simples processo
genealógico: doze filhos de Jacó com suas famílias, migraram para o Egito, lá
multiplicaram-se e tornaram numerosíssimos, depois saíram todos do Egito,
peregrinaram todos unidos num só corpo, pelo deserto, e chegaram a Palestina,
lá chegando, conquistaram-na. Mas não foi assim tão simples; a própria bíblia
nos conta com evidencias que o povo de Israel foi formado por um processo
complexo e que encontrou em sua formação diversos elementos, Israel passou ao
longo de sua existência por diversos problemas, um exemplo disso foi a sua
existência dentro do Egito por centenas de anos, uma nação viveu e prosperou
dentro de outra nação, Israel lutou para permanecer teocrática e monoteísta,
dentro de uma nação que também era governada por uma deidade, mas era
politeísta. Depois de sua saída do Egito, Israel sofreu toda sorte de
experiências, passou por guerras, pobreza, fome, invasões, golpes de estado, governo
de reis pagãos, templos criados a diversos desuses
foram
edificados, o próprio rei Salomão o mais sábio dos homens levantou altares a
deuses pagãos, a nação foi dividida e passou a ter duas capitais e dois reis, o
reino de Israel com a capital Samaria, e o de Judá com a sua capital Jerusalém,
a destruição total de suas cidades o exilio, e a dominação absoluta era uma
tragédia anunciada, e por fim o não reconhecimento e o assassinato daquele que
se proclamara seu redentor, esse foi com certeza o capítulo mais difícil de sua
história.
Trabalho
apresentado por: Alexandre Palmares Professor de Escola Bíblica Dominical ADVEC
– Penha - RJ
Teocracia
Estudos
Bíblicos
TEOCRACIA
Palavra que
vem de dois termos gregos, theós, “Deus”, e kratéo,
“governar”. Isso chega ao sentido de “governo de Deus”. Devemos fazer distinção
com outro vocábulo, democracia, cuja primeira porção, demos, significa “povo”,
e que indica o governo entregue às mãos do povo. E também devemos distinguir
teocracia de hierocracia, o governo dos sacerdotes. E, finalmente, de
monarquia, o governo de um único homem ou rei.
Embora a
ideia de teocracia apareça nas Escrituras, com bastante frequência, o próprio
vocábulo, “teocracia”, nunca figura ali. Essa palavra parece ter sido cunhada
por Josefo (vide), que se utilizou do termo a fim de referir-se ao caráter
impar do governo dos hebreus, revelado a Moisés, em contraste com o tipo de
governo de outras nações ao derredor. Escreveu Josefo: “Nosso legislador...
ordenou aquilo que, forçando a linguagem, poderia ser chamado de teocracia, ao
atribuir a autoridade e o poder a Deus” (Contra Ápion, II, 165).
Não
obstante, a ideia de teocracia é muito mais antiga do que a palavra que
corresponde a ela, conforme o próprio Josefo sugeriu em sua declaração, citada
acima. Essa ideia retrocede ao Antigo Testamento desde a época de Moisés e,
portanto, à iniciação mesma das Sagradas Escrituras (ver Êxo. 19:4-9; Deu.
33:4,5). No âmago dessa ideia fica a relação ímpar entre Deus e Israel, como seu
povo peculiar. Essa relação é constituída pela aliança que vinculou o povo de
Israel a Deus (ver Êxo. 19 e 20), e que constituiu aquele povo em ”...reino de
sacerdotes e nação santa...” (Êxo. 19:6).
Deus
reclamou o povo de Israel como sua propriedade, por havê-los remido da servidão
aos egípcios. Os grandes atos libertadores, da época da saída de Israel do
Egito, e durante os quarenta anos de vagueação pelo deserto, declararam o
Senhor como o eterno Governante de Israel (ver Êxo. 15:18). Moisés foi, tão-somente,
o homem por intermédio de quem Deus transmitiu a sua vontade ao seu povo
terreno.
Gideão,
várias gerações depois de Moisés, aceitou a coroa, porquanto acreditava que
somente Deus poderia governar sobre Israel (Juí. 8:22,23). No período que antecedeu
ao surgimento da monarquia em Israel, profetas, sacerdotes e juízes foram os
intermediários na expressão da teocracia. Vale dizer, Deus governava o seu povo
através daqueles representantes. Assim na guerra de Israel contra Sisera, a
profetisa Débora e o juiz Barauque aparecem como os agentes do livramento de
Deus (Ju 4:4-7). Os sacerdotes levitas também aparecem, com frequência como os
mensageiros da vontade divina (Juí. 20:28; I Sam. 14:41). Mas por ocasião da
teocracia institucionalizada, quando surgiu a monarquia em Israel, a teocracia
passou a se manifestar de forma muito menos direta, e o governo de Israel
passou a assemelhar-se mais ao governo das nações gentílicas. ”Disse o Senhor a
Samuel: Atende à voz do povo em tudo quanto te dizem, pois não te rejeitaram a
ti, mas a mim. para eu não reinar sobre eles... Porém, o povo não atendeu à voz
de Samuel, e disseram: Não, mas teremos um rei sobre nos. Para que sejamos
também como todas as nações; o nosso rei poderá governar-nos, sair adiante de
nós. e fazer as nossas guerras”’ (1 Sam. 8:7 19.20). Apesar disso, depois que a
monarquia se estabeleceu em Israel, principalmente de Davi em diante, o rei
passou a ser considerado símbolo do reinado teocrático. Os reis de Israel não
eram apenas reis, no sentido comum do termo, mas também eram ungidos do Senhor,
em sentido puramente teológico (Sal. 2:2; 20:6), um príncipe do Senhor (I Sam.
10:1: II Sam. 5:2). Mesmo durante o Deríodo monárquico, concebia-se que o
Senhor Deus seguia adiante do rei em 2 Sam. 5:24” O rei estaria sentado no
trono de Deus (I Crõ. 29:23; cf. 28:5). O Governante real era Deus, e a
autoridade do trono de Davi derivava-se do Senhor. A natureza teocrática da
monarquia de Israel é conformada, por exemplo. pela prerrogativa dos profetas
de destronarem os reis além do tato de que foi o profeta Samuel quem
estabeleceu o reinado em Israel, a mandado do Senho' (I Sam. 15:26; 16:1,2; cf.
I Reis 11:29-31: 14:10; 16:1,2,21:21). Nesse contexto, nota-se que não havia
critérios estereotipados para reconhecimento ou confirmação de um profeta, em
Israel. Somente a presença do indefinível Espírito de Deus revelava a diferença
entre um profeta verdadeiro e um profeta falso.
A monarquia,
em Israel, foi a organização de algo teocrático sob um governante humano. A
teocracia talvez encontre sua riais excelente expressão nas predições dos
profetas (ver Jer 1:1,2; cf. Isa. 7:7). As visões messiânicas dadas aos
profetas foram organicamente entretecidas na curva da história dos reis de
Judá, bem como na restauração final da dinastia davídica. Em sua essência e em
seu intuito, o reino é um instrumento ;e redenção, inseparavelmente vinculado
às expectações messiânicas. De fato. em seu sentido messiânico, o trono de Davi
aparece no centro da teologia bíblica, com seu reconhecimento de Deus como o
Governante final sobre a terra inteira. Dentro da revelação progressiva da
escatologia bíblica, o conceito teocrático do reino davídico suprimiu o padrão
das ideias concernentes à vinda palpável do reino de Deus. quando da era milenar.
Através da restauração do trono de Davi, Deus haverá de realizar a redenção
final de Israel. Mas, esse futuro acontecimento, que fará parte da história,
haverá de introduzí-la era da justiça e da paz eternas sob o reinado universal
do Filho maior de Davi, Jesus Cristo.
Não ha
espaço para o secularismo, dentro da teocracia de Israel. Descendo até os mais
minúsculos detalhes, todos os regulamentos políticos, legais e sociais são
essencialmente teológicos. Esses regulamentos eram a expressão suprema e direta
da vontade de Deus. Até mesmo a detenção de criminosos e a punição dos mesmos
fazem parte do interesse imediato de Deus (ver Lev 20:3.5,6,20: 24:12: Núm.
5:12.13: Jos. 6:16).
Várias
religiões — desde os tempos mais remotos — (hebreus, babilônios e egípcios),
têm tomado a posição de que seus estados eram teocracias, visto que Deus ou os
deuses mediante revelações e profetas, lhes teriam dado suas leis e
instituições. A teocracia é um estado no qual os princípios religiosos
(usualmente com apoio de um monarca e de um sacerdócio alegadamente nomeados
por Deus) são as principais leis e o poder controlador.
Já nos
tempos modernos, as cidades de Florença. na Itália, sob Savonarola (v de), e
Genebra, na Suíça, sob Calmo (vide), durante algum tempo tornaram-se,
alegadamente, teocracias. Além disso, as colônias da Nova Inglaterra na América
do Norte, sob o puritanismo.
tornaram-se
teocracias. O aparecimento de governos democráticos tem tendido a separar
Igreja e Estado, de tai modo que as teocracias são evitadas. Naturalmente, o
Irã atuai é um exemplo de teocacia; mas, como tantas outras teocracias
distorcidas, entristecemo-nos diante das perseguições e matanças praticadas em
nome de Deus.
Este
co-autor e tradutor quer dar aqui sua contribuição. No Novo Testamento não
parece haver definição quanto ao tipo de “governo eclesiástico”. Porém, com
base nas condições vigentes em Israel até Samuel (ver I Sam. 8:7), bem como
durante o governo milenar de Cristo, o que ainda jaz no futuro, o governo
eclesiástico ideal seria o teocrático. Segundo penso, esse tipo de governo
existiu na igreja, durante todo o período apostólico. Deus (na pessoa de
Cristo), dirigia sua Igreja mediante ministros por ele escolhidos (ver Efé.
4.11ssj). Pode-se dizer que a Igreja entrou em decadência espiritual quando o
ministério passou a ser tido como ofícios burocráticos, a partir do século II
D.C., não mais ocupado por indivíduos misticamente designados e preparados.
Parece-me evidente que o Espírito do Senhor restaurara esse tipo de governo
eclesiástico, antes ao segundo advento de Cristo. Doutra sorte, no dizer do
quarto capitulo de Efésios, os crentes não atingirão a maturidade que deverá
caracterizar a Igreja nos cias finais do cristianismo. Seja como for, o milênio
(vide) será a mais pura teocracia, sem os abusos do passado, e que têm feito
muitos proscreverem-na, até mesmo de suas congregações. E o estaco eterno,
cassado o milênio, dará continuidade à teocracia, para sempre. A teocracia é a
essência do reino de Deus.
1.
Teocracia
O termo
teocracia (theokratía) procede do grego theos (deus) e krateos (dominar,
governar). Literalmente significa domínio divino ou governo de Deus. O conceito
é de que uma divindade (theo) exerce o domínio (kratos) sobre um povo ou de uma
região. Julius Wellhausen (1844-1918) atribui a origem do termo a Flávio Josefo
que, em resposta aos detratores Lísimaco e Apolônio Molon, afirmou:
As diversas
nações que existem no mundo governam-se de maneiras diferentes: umas abraçam a
monarquia; outras, a aristocracia; outras, a democracia. Mas nosso divino
legislador não estabeleceu nenhuma dessas espécies de governo. Escolheu uma
república, à qual podemos dar o nome de Teocracia, pois que a fez inteiramente
dependente de Deus e ao qual nós consideramos como o único autor de todo bem,
que provê às necessidades gerais de todos os homens. Só a Ele recorremos em
nossas aflições e estamos persuadidos de que não somente todas as nossas ações
lhe são conhecidas, mas de que penetra mesmo todos os nossos pensamentos.
Sem querer
adentrar no mérito das questões discutidas por Josefo, que defendia a
legitimidade de Moisés como legislador carismático, e na interpretação que faz
Wellhausen da teocracia, que serviu de fundamento para os capítulos 24, 25 e 26
de O Anticristo, de Nietzsche, ambos reconhecem o estabelecimento da teocracia,
mas com uma gritante diferença quanto ao período. Wellhausen afirma que Josefo
se refere à teocracia como uma “comunidade sagrada de seu tempo, tal como ela
existiu até o ano 70 depois de Cristo”, e não propriamente como uma instituição
anterior à ocupação dos hebreus em Canaã.
[...] é
sabido que este escritor, quando fala da constituição mosaica, tem em vista a
comunidade sagrada de seu tempo, tal como ela existiu até o ano 70 depois de
Cristo. No antigo Israel nunca existiu uma teocracia como forma de
constituição. O reinado de Iahweh é, ali, uma representação ideal; somente a
partir do exílio seriam feitas tentativas de realizá-la, por meios externos,
como um governo do Sagrado.
Todavia,
parece-me que a interpretação de Wellhausen não faz jus ao conceito temporal de
teocracia ou reino de Deus de F. Josefo. Quando este cita as formas de governo
(monarquia, aristocracia e democracia), peculiares à época, contrasta-as com a
Teocracia à época mosaica, pelo fato de a nação de Israel depender
exclusivamente de Deus – “único autor de todo bem, que provê às necessidades
gerais de todos os homens”; excluindo com isso o reconhecimento das divindades
gregas.
Mesmo os
gregos, afirma o autor, tiveram Minos e outros legisladores que afirmaram terem
recebidos suas leis de seus deuses, quer acreditassem, ou apenas desejassem
inculcá-las ao povo. Contudo, deveria ser julgado qual dessas leis, incluindo a
mosaica, era a mais santa e qual legislador teve um conhecimento mais particular
de Deus. O historiador afirma que Minos recebera as ditas leis de Apolo após
consultar um oráculo em Delfos, e outros legisladores gregos atribuíram suas
leis às divindades, e reconheciam seus deuses como monarcas, mas que misturavam
diversas fábulas ao relato, admitindo outros divos, que não entendiam as
petições dos consulentes e não lhes provia às necessidades.
Todavia,
Moisés declarava a existência de apenas um Deus, perfeitamente bom, Incriado,
Imortal, Eterno, Imutável, sempre pronto a escutar seus consulentes e cuja
essência é desconhecida embora se saiba de seu notório poder. Neste
ponto, o autor declara que já falou “dEle como de um monarca, o que exclui a
pluralidade de deuses e de uma maneira conveniente, à sua suprema majestade,
chamado a um princípio sem princípio e elevado acima de todas as coisas”. De
acordo com o apologista, os filósofos Pitágoras, Anaxágoras e Platão, “tiveram
essa crença em Deus, mas não ousaram professá-la abertamente”, pelo fato de o
povo grego ser muito supersticioso. A partir desse ponto, Josefo apresenta a
coerência de Moisés como legislador contrastando-o com os legisladores gregos:
ele não apenas deu leis úteis ao povo, como também as viveu e as ensinou.
O que
diferencia a Teocracia vivida pelos hebreus no tempo mosaico e no tempo do
autor, das formas de governo das outras nações, é que, enquanto as nações
ignoram as suas leis, algumas supostamente promulgadas por algum divo, o povo
hebreu tem a unidade da nação procedente de apenas um Deus único, “soberano
monarca do universo”, cujas leis governam a nação e mantém a unidade do povo
tanto nas questões consuetudinárias quanto do culto e da adoração. Conclui
afirmando que não existe forma de governo mais perfeita que a Teocracia. Em
nenhum momento Josefo supõe que o seu conceito de Teocracia é do período
exílico, mas o insere no contexto mosaico.
2.
Teocracia é uma suposta organização sagrada
Wellhausen,
contrariamente, afirma que a Teocracia é uma suposta “organização sagrada” cujo
vestígio não é encontrado no tempo dos juízes e dos reis e que o governo
teocrático era uma “camisa de força pedagógica para conter a indômita teimosia
dos hebreus e para protegê-los das más influências externas”. Segundo ele, a
Teocracia é uma ideologia coercitiva inventada pelo gênio judaico no exílio
babilônico para coibir a frouxidão moral da nação e para sustentar a
dispendiosa manutenção do culto e dos clérigos. Nessa fase, os líderes
simulavam falar como profeta e agir como juízes e reis em vez de agirem no
“espírito de Iahweh”, como afirmam as Escrituras. Para sustentação desta
posição, Wellhausen nega a autoria mosaica do Pentateuco e atribui o escrito a
um grupo de sacerdotes que viveram no exílio babilônico e compilaram o chamado
Código Sacerdotal (Priestercodex) – uma das quatro fontes para a formação da
Escritura e que compõe a Hipótese Documentária, ou Hipótese
Graf-Kuenen-Wellhausen.
2.1.
Hipótese Documentária (HD) e hegelianismo
Com a teoria
da Hipótese Documentária (HD), como ficou conhecido os vários documentos (JEDS)
usados para compilar as Escrituras, Wellhausen sintetizou várias teorias
filosóficas de seu tempo, entre elas, o naturalismo e o racionalismo alemão.
Para a primeira teoria, contribuíram Hermann Samuel Reimarus (1694-1768) e
Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831). O primeiro defendia a religião
natural e rejeitava a religião revelada. Afirmava que apenas a religião natural
é verdadeira e que a religião bíblica é simplesmente falsa, pelo fato de negar
a primeira. O segundo concebia a religião em quatro etapas distintas: religião
natural (ou animismo), caracterizado pela adoração a natureza; religião
antropomórfica, cuja ênfase estava na representação da divindade em forma
humana; religião cristã (ou cristianismo) e, por último, a reformulação das
crenças do cristianismo em conceitos da filosofia especulativa.
Quando o
discípulo de Hegel, Johann Karl Wilhelm Vatke (1806-1882), lançou em 1835 a sua
Teologia Bíblica (Biblische Theologie) com base na filosofia de seu mestre, deu
a Wellhausen, em 1895, a bigorna para que ele desferisse seu mais forte golpe
contra a autoria mosaica do Pentateuco, através da Hipótese Documentária. Esses
estudiosos negavam os milagres, a inspiração e revelação das Escrituras e a
compreensão de que Israel era o povo eleito por Deus para a fundação de um
Estado Teocrático. Tais filósofos, juntamente com J. D. Michaelis (1717-1791) e
J. D. Semler (1725-1792), responsáveis pela aplicação dos métodos do
racionalismo alemão às Escrituras, lançaram a base do movimento que apregoava a
morte da Teologia do Antigo Testamento. Embora cressem na existência de Deus,
esses scholar eram anti-sobrenaturalistas e aceitavam o determinismo e deísmo,
que afirmam que Deus não intervêm na história do homem. Portanto, rejeitavam
qualquer evidência que indicasse a presença de fatores sobrenaturais na
história do povo eleito e da igreja neotestamentária.
Assim,
Wellhausen aplicava ao estudo da Bíblia a teoria naturalista da evolução
religiosa de Israel (animismo, henoteísmo e monoteísmo) e o racionalismo alemão
para distinguir e datar os supostos documentos que constituiriam as Escrituras.
Se lhe parecia que determinado documento possuía uma teologia mais abstrata do
que outro, chegava à conclusão de que havia sido redigido em data posterior, já
que a religião se tornava cada vez mais complexa.
Usando esses
métodos, estabeleceu datas segundo as etapas do desenvolvimento religioso que
identificava nas Escrituras. Gênesis, por exemplo, foi relegado, em sua maior
parte, a uma coleção de mitos cananeus adaptados pelos hebreus. Wellhausen
denominou os supostos documentos como: Javista (J): que prefere o nome Yahweh e
teria sido redigido possivelmente no reinado de Salomão. É o documento mais
antigo.
O Eloísta (E) que designa Deus com o nome comum de ‘Ēlōhîm e teria sido escrito depois do primeiro documento, por volta do século VIII (a.C.).
O Código Deuteronômico (D) que compreenderia todo o livro de Deuteronômio e teria sido escrito no reinado de Josias pelos sacerdotes, que usaram disto para promover um despertamento religioso (2Rs 22.8).
E o Código Sacerdotal (S), que coloca especial interesse na organização do Tabernáculo, do culto e dos sacrifícios e forneceu o plano geral do Pentateuco. Esse escritor teria sido o último compilador a trabalhar na formação do Antigo Testamento, tendo dado os retoques finais (cerca de 621 a. C.).
“S” caracteriza-se por ter usado o nome ‘Ēlōhîm para indicar Deus e pelo seu estilo grave.
O Eloísta (E) que designa Deus com o nome comum de ‘Ēlōhîm e teria sido escrito depois do primeiro documento, por volta do século VIII (a.C.).
O Código Deuteronômico (D) que compreenderia todo o livro de Deuteronômio e teria sido escrito no reinado de Josias pelos sacerdotes, que usaram disto para promover um despertamento religioso (2Rs 22.8).
E o Código Sacerdotal (S), que coloca especial interesse na organização do Tabernáculo, do culto e dos sacrifícios e forneceu o plano geral do Pentateuco. Esse escritor teria sido o último compilador a trabalhar na formação do Antigo Testamento, tendo dado os retoques finais (cerca de 621 a. C.).
“S” caracteriza-se por ter usado o nome ‘Ēlōhîm para indicar Deus e pelo seu estilo grave.




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