segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Lição 1 - Uma Promessa de Salvação




                             INTRODUÇÃO
Escrever sobre salvação é extremamente gratificante por trazer à lembrança libertações e transformações experimentadas no passado; mas também é desafiador porque remete à necessidade de libertações e transformações presentes e traz à mente a gloriosa esperança da transformação completa no futuro. Além disso, a salvação é um dos temas mais empolgantes e importantes da Teologia cristã porque nos faz reviver o grande plano eterno de Deus, num gesto de extremado amor como somente Ele poderia demonstrar, em prover para a humanidade um Salvador.
A salvação funde-se intimamente com Cristo, pois somente por Ele poderia ter vindo a salvação e essa é a própria essência de Cristo: salvar e resgatar a humanidade perdida. Por isso, salvação e Cristo estão presentes nestes escritos e indefinidamente amalgamados, embora didaticamente separados. Certamente, isso reflete o fato de o nome Jesus ser grafado como salvação em hebraico, como veremos nos textos do livro. Cristo tem a ver com o significado do seu nome, e a salvação tem a ver com sua obra, sendo, por isso, quase inseparáveis.
Reconheço as limitações deste texto e desejo profundamente tornar conhecida e melhor compreendida a grande obra de salvação operada por Cristo Jesus, meu Senhor, almejando, enquanto escrevo, conseguir expressar tudo o que já compreendi e vivi sobre a salvação e também o que fui apreendendo enquanto escrevia.
Uma recente e interessante separação histórica do cristianismo sugere que esse tema seja estudado, levando em conta quatro grandes divisões da igreja: católicos, ortodoxos, protestantes e pentecostais. Isso tem implicações profundas porque sugere para o pentecostalismo uma releitura da Teologia tradicional, o que, aliás, foi um dos maiores desejos dos primeiros pais pentecostais, tanto nos Estados Unidos da América quanto no Brasil. Mais tarde, quando se percebeu que o pentecostalismo deveria também ter sua Teologia escrita — que, até então, era prioritariamente oral — é que se começou a incorporar as doutrinas e dogmas das igrejas históricas tradicionais à Teologia Pentecostal.
Assim, sem desprezar os grandes teólogos históricos do passado, procurei, em muitos momentos, traçar um caminho alternativo para o pentecostalismo, numa tentativa de não desprezar o passado, mas, ao mesmo tempo, fazer o pentecostalismo entender que precisa trabalhar com premissas próprias de interpretação da Bíblia e em propostas teológicas diferenciadas, como já faz tão bem com a vida cotidiana impregnada pela presença de Deus.
Neste texto, tento fazer o exercício da hermenêutica do Espírito,1 como o teólogo pentecostal Bernardo Campos muito bem propõe, tão amplamente praticada durante a história do Pentecostalismo inicial e que, em virtude da necessidade da sistematização de suas doutrinas, pode perder-se se não houver equilíbrio entre devoção e racionalidade. Essa postura implica uma ruptura parcial com a Teologia histórica e reformada. Tendo isso em mente, precisa-se “desenvolver algo que seja compatível com a perspectiva pentecostal, ou seja, da fé no sobrenatural, na ocorrência de milagres e, principalmente, da experiência com o Espírito Santo”.2 Mas não há como desprezar séculos de estudos teológicos profundos e também inspirados pelo Espírito Santo. O que afirmo é que se precisa fazer teologia pentecostal utilizando a razão, assim como a teologia histórica faz, mas também, e muito mais importante, com devoção, experiência e dependência da iluminação do Espírito Santo.
Procurei dar destaque a um ponto importante para a Teologia pentecostal, que é aliar o conteúdo bíblico-devocional ao conteúdo acadêmico sem dicotomizar ambas ou ainda preterir outra. Este livro é um exercício constante dessa dinâmica que apregoo como uma das principais características e necessidades da Teologia Pentecostal: a busca do equilíbrio entre fé e razão, bem como a valorização da experiência pentecostal no labor  teológico, de forma que este produza vida, o que chamo de Método Gramático Experiencial que descrevo em livro a ser lançado em breve.3
Como já afirmei anteriormente, neste livro não fiz teologia desprezando aquilo que já foi escrito no passado porque o que foi escrito é de um valor inestimável, mas, em vários momentos, procurei deixar fluir minha veia pentecostal. Escrevi tentando equilibrar profundidade e simplicidade, lembrando-me da paradoxal grandeza das Assembleias de Deus, tanto em quantidade de membros quanto em diversidade de situações em que as pessoas vivem como, por exemplo, cultas e simples, ricas e pobres.
Para estar ancorado à Teologia tradicional, a elaboração deste texto obviamente seguiu a linha da ortodoxia professada pelas Assembleias de Deus, especialmente o Método Histórico Gramatical, aceito pela maioria das igrejas pentecostais. Preocupando-se sempre em manter a inspiração, a veracidade e a predição dos textos bíblicos, como são ensinados histórica e doutrinariamente. Assim, este livro pretende honrar quem é “Senhor da história [e] aquele que pode permitir que o futuro seja contado com antecedência”.4
Dedico este livro ao meu pai, o Pastor Cristiano Pommerening, que me ensinou a ser um líder servo com seu exemplo de serviço ao próximo e ao ministério. Muito do que aqui escrevi eu ouvi primeiramente dele nas suas pregações. Obrigado, pai!
Agradeço a Deus, minha fonte de inspiração e também aquEle que traça os caminhos pelos quais ando. Agradeço a Thaís, minha esposa amada. Suas orações, companhia e compreensão são o maior presente de Deus em minha vida. Com ela, Deus agraciou-me com a Letícia e a Thaíne, minhas filhas. Agradeço ao Pastor Sérgio Melfior, meu pastor, pela confiança e apoio ao ministério que Deus me deu, bem como ao incentivo para escrever esta obra. Agradeço ao Pr. Ronaldo Rodrigues de Souza e ao Pr. Alexandre Claudino Coelho pelo convite e pela confiança. Agradeço aos professores Andréa Nogueira e Fernando Albano, que leram o manuscrito original e deram importantes contribuições. Agradeço também aos meus irmãos da Assembleia de Deus em Joinville, bem como aos amigos e colegas da CEEDUC/Refidim pelo incentivo e apoio.

Pr. Claiton Ivan Pommerening
Joinville, outono de 2017


SUMÁRIO
Introdução
Capítulo 1 – Uma Promessa de Salvação
Capítulo 2 – A Salvação na Páscoa Judaica
Capítulo 3 – A Salvação e o Nascimento do Salvador
Capítulo 4 – Salvação: o Amor e a Misericórdia de Deus
Capítulo 5 – A Obra Salvífica de Jesus Cristo
Capítulo 6 – A Abrangência Universal da Salvação
Capítulo 7 – A Salvação pela Graça
Capítulo 8 – Salvação e Livre-Arbítrio
Capítulo 9 – Fé e Arrependimento para Salvação
Capítulo 10 – O Processo da Salvação
Capítulo 11 – Adotados por Deus
Capítulo 12 – Perseverando na Fé
Capítulo 13 – Glorificados em Cristo
Capítulo 14 – Vivendo com a Mente de Cristo

Referências


CAPÍTULO 1

UMA PROMESSA DE SALVAÇÃO
Asalvação é obra de Deus e é oferecida como presente pela sua graça (Ef 2.8-9), não podendo ser alcançada por mérito ou esforço humano (Tt 2.11). Ela tornou-se necessária após a experiência destrutível que o homem experimentou ao pecar no Jardim do Éden, o que tornou deplorável o estado do homem.
Um dos maiores tesouros que a raça humana perdeu com a Queda foi a capacidade de amar plenamente a Deus, a seu semelhante e a si mesmo — essa era a essência da imagem de Deus; agora, apesar da capacidade de amar, foi incorporada a desconfiança, a ira, o rancor, o ódio e a vingança, que passaram a fazer parte dos relacionamentos, alienando (separando) o ser humano do seu semelhante, de Deus e de si mesmo. Isso é motivo de angústias e desesperos no ser humano.
O pecado tem como consequência a destruição da comunhão com Deus, provocando alienação; esta, por sinal, provoca a ira de Deus, bem como a culpa (expectativa de horror pela alienação) no homem, impedindo-o de chegar-se a Deus, estabelecendo a parede de separação (Is 59.2; Ef 2.14);
A santidade de Deus exige uma restituição à altura; o homem, entretanto, não tem condições de satisfazer essa exigência. Sendo assim, Deus evidencia sua misericórdia e amor providenciando uma solução, mas a honra de Deus exigiu o sacrifício de um homem perfeito como único meio suficiente de reconciliação. O ser humano é incapaz de satisfazer essa exigência. Assim, Cristo morreu em lugar da humanidade. Essa incapacidade humana exigiu a morte de cruz para que se compreendesse o imensurável amor de Deus.
Esse estado de pecado no homem causou-lhe a culpa pelo pecado e o medo da morte como consequência (Rm 6.23). Antropologicamente, a culpa tenta ser amenizada aplacando o clamor da alma do homem que lhe grita de forma ensurdecedora: “um preço precisa ser pago”; a exemplo dos povos mais primitivos que criam formas e rituais religiosos para amenizar essa culpa, alguns deles sacrificando animais, fazendo oferendas ou sacrificando ao seu deus algo que lhe custe caro, muitos crentes também podem estar tentando aplacar esse grito de forma errônea, ou sem estarem entendendo todos os benefícios da salvação, ou, ainda, querendo aprofundar esse tema. Daí a necessidade de estudarmos o significado da salvação em Cristo Jesus.
Para livrar-se desses medos anteriormente descritos, o homem procura criar preceitos morais e éticos5 que limitam sua esfera de ação, definindo o que é certo e o que é errado. Quando transcende esse limite, ele sente-se culpado e condenado. Quando se comporta dentro desse limite, pode sentir-se falsamente bem. Alguns círculos religiosos têm procurado satisfazer essa ansiedade traçando para si limites mais estreitos, ou seja, quanto maior seu sentimento de culpa e condenação, mais eles tentam, com isso, amenizar sua consciência. Tal situação pode produzir sujeitos neuróticos e doentes, que muitas vezes não conseguem viver a plenitude da salvação e nem se contentam enquanto os outros não se tornarem como eles. Abusados, tornam-se abusadores da liberdade dos outros e vice-versa, num constante círculo vicioso de proselitismo doentio.
O crente precisa transferir esse apelo para Cristo para livrar-se do legalismo e da culpa. Todos os falsos deuses e legalismos exigem algo do homem para aplacar a ira desse “deus”, mas o Deus verdadeiro fez o contrário: Ele deu a si mesmo em resgate da humanidade! (cf. Gl 1.4)
1. O CONCEITO BÍBLICO DE SALVAÇÃO
A palavra salvação em latim é composta por salvare (tornar seguro) e por salus (boa saúde, ajuda). Disso, é oriundo o cumprimento latino “salve” como um desejo de boa saúde. Portanto, salvação é um termo abrangente cujo significado evoca bem-estar físico, mental, social e espiritual, justamente o que a Bíblia diz ser cura, redenção, remédio, completude, inteireza, integridade e integralidade. “Salvação significa a ação ou resultado de livramento, preservação de algum perigo ou enfermidade, subentendendo segurança, saúde e prosperidade.”6 A salvação não é uma ideia ou um projeto apenas; é uma pessoa.
É o próprio Jesus, o próprio Deus quem se dá. Em sua presença todos os debates intermináveis que despertam em nós o sentimento de culpa, todas as diferenças moralistas e nossas defesas contra os julgamentos de outros, tudo isto se esvai. [...] O remorso é silenciado pela sua absolvição. Ele substitui o remorso com uma simples pergunta, aquela que fez para o apóstolo Pedro: “Tu me amas?” (Jo 21.15).7
Tanto os nomes de Deus e de Jesus no hebraico têm semelhanças com a palavra salvação, que é yeshü‘â (livramento, facilidade). Yahweh é Jeová em Êx 14.13 e combina esse nome com o anterior para designar livramento. Yehoshua significa Josué, que é derivado de Yeshua (Jesus), que significa “Yahweh é a salvação”. Portanto, há uma semelhança semântica muito interessante que designa Jesus como o Salvador. “E vimos, e testificamos que o Pai enviou seu Filho para Salvador do mundo” (1 Jo 4.14). A palavra para “paz”, em hebraico shãlôm, cujo significado é completude, saúde, bem-estar, harmonia, paz e algo que não foi violado, tem raiz comum com a palavra “salvação”.
O sentido original de salvação (de salvus, “curado”) pode ser interpretado como cura. A humanidade precisa ser curada do pecado. Nesse sentido, curar significa reunir Deus e o ser humano, Tanto os nomes de Deus e de Jesus no hebraico têm semelhanças com a palavra salvação, que é yeshü‘â (livramento, facilidade). Yahweh é Jeová em Êx 14.13 e combina esse nome com o anterior para designar livramento. Yehoshua significa Josué, que é derivado de Yeshua (Jesus), que significa “Yahweh é a salvação”. Portanto, há uma semelhança semântica muito interessante que designa Jesus como o Salvador. “E vimos, e testificamos que o Pai enviou seu Filho para Salvador do mundo” (1 Jo 4.14). A palavra para “paz”, em hebraico shãlôm, cujo significado é completude, saúde, bem-estar, harmonia, paz e algo que não foi violado, tem raiz comum com a palavra “salvação”.
O sentido original de salvação (de salvus, “curado”) pode ser interpretado como cura. A humanidade precisa ser curada do pecado. Nesse sentido, curar significa reunir Deus e o ser humano, que estão separados um do outro, e superar a divisão e a inimizade entre as pessoas e Deus. É exatamente por isso que Jesus disse à mulher que foi curada por tocar na vestimenta dEle: “Filha, a tua fé te salvou” (Mc 5.34).
“Salvação” tem origem também na palavra grega sóter. O vocábulo “soteriologia” é um termo teológico composto por duas palavras gregas: sōtēria que significa “salvação, cura, recuperação, redenção, remédio, bem-estar”, e do substantivo logia, cujo significado primário é “estudo, tratado ou ensino”. Em sentido literal, soteriologia é “o estudo, ensino, ou tratado acerca da salvação”. O substantivo grego soteria ocorre cerca de quarenta e cinco vezes nas Escrituras Neotestamentárias, enquanto o verbo “sōzō” (salvar, conservar do mal, socorrer), ocorre cento e seis vezes.8
Salvação é a saída do estado de pecado para o estado de graça e perdão. O cristão que aceita a Jesus como seu Salvador vive sua vida de forma abundante, ou seja, ele experimenta não apenas a certeza da vida eterna, mas também, já aqui nesta vida, a antecipação do Reino de Deus, podendo viver em paz, em saúde e em prosperidade em todas as dimensões da vida; além disso, ele experimenta também a comunhão com Deus, o perdão e a libertação dos pecados, apazigua sua alma de temores, desfruta a vida em felicidade; ele é nova criatura e esforça-se para compartilhar e implantar as realidades do Reino de Deus em sua vida e no mundo. Salvação significa que Cristo fez a expiação pelo pecador, ocupando seu lugar na cruz (passado); significa que o crente é regenerado e santificado (presente) e será glorificado integralmente (futuro).
Existem várias doutrinas bíblicas relacionadas à salvação; algumas delas serão discorridas neste livro, dentre as quais citamos:9 do pecado (Rm 3.23); da graça de Deus (Tt 2.11); da expiação (Lv 17.11); da redenção (Ef 1.7); da propiciação (Êx 32.30); da fé salvífica (Ef 2.8); do arrependimento (Mc 1.14-15); da confissão dos pecados (Rm 10.9-10); do perdão dos pecados (Cl 3.13); da regeneração (1 Pe 1.3); da adoção (Gl 4.5-6); da santificação (1 Co 6.11); da eleição divina (1 Pe 1.2); da predestinação dos salvos (Rm 8.29); do livre-arbítrio (Mc 16.16); da justificação (Rm 8.30) e da glorificação futura (Rm 8.30). Os principais aspectos da salvação,10 que serão abordados num capítulo específico, referem-se à regeneração, à justificação e à santificação.
Essas doutrinas podem ser divididas em duas partes, que são: (1) as provisões feitas por Deus, que incluem a morte, ressurreição, ascensão e exaltação de Cristo; e (2) a aplicação das provisões, que são arrependimento, fé, justificação, regeneração, adoção, eleição, santificação, confiança e segurança.11
No Antigo Testamento, a salvação está relacionada a escapar das mãos dos inimigos, à libertação da escravidão e ao estabelecimento de qualidades morais e espirituais (Is 33.22ss;). Portanto, diante de ameaças de calamidade física (Êx 15.25), de perseguição (Jz 15.18; 1 Sm 10.19; 2 Sm 22.3), de escravidão, de doenças e da morte, Deus promete salvação no sentido de libertação (Êx 14.13; 15.2,13), livramento e cura (Is 38.16; 58.8). As narrativas do Antigo Testamento têm em vista demonstrar como Deus intervém na história através do amor e, com isso, fica evidente seu imenso interesse em salvar a humanidade perdida.
A salvação no Antigo Testamento envolve o fato de que, quando há transgressão do povo de Deus e o consequente cativeiro, Deus provê libertação (Ne 9.27; Is 46.13; 52.10). Assim sendo, salvação no AT aponta para várias figuras e tipos de Cristo como o Messias Salvador. Os personagens de José do Egito, Moisés, Josué, Davi, Isaías e vários reis e profetas apontam para o caráter salvífico que Cristo efetuaria de uma vez por todas na cruz do Calvário. 
O sacrifício de Cristo teve um grande sentido salvífico. Foi um favor imerecido da parte de Deus para com os pecadores que deveriam sofrer merecidamente, mas Cristo fez essa substituição: o santo pelos pecadores, o justo pelos injustos. Os sacrifícios do Antigo Testamento tinham sua transitoriedade temporal, mas o de Cristo teve validade eterna, como escreveu o autor de Hebreus: “mas este, havendo oferecido um único sacrifício pelos pecados, está assentado para sempre à destra de Deus” (Hb 10.12).
Paulo, em suas epístolas, é quem mais esclarece os conceitos de salvação, mostrando que não há salvação por intermédio da Lei, nem por esforços humanos, mas unicamente pela graça de Deus (Gl 2.16). Cabe ao homem confiar pela fé na retidão de Cristo que o redimiu por sua morte e que o justificou por sua ressurreição (Rm 4.25). Através de Cristo, Deus justifica o pecador sem que este mereça, perdoa o seu pecado, reconcilia-o consigo (Rm 5.11), adota-o em sua família (Gl 4.5), dando-lhe o selo do seu Espírito, fazendo dele uma nova criatura. O Espírito Santo capacita o crente a viver em santidade, mortificando a força do pecado, tornando-o semelhante a Cristo (Rm 8.29), esperando sua salvação completa e gloriosa (Fp 3.21).
2. A IMPORTÂNCIA DA DOUTRINA DA SALVAÇÃO
A importância da doutrina da salvação dá-se porque Jesus é o único mediador entre Deus e os homens (1 Tm 2.5). Ele é o único Salvador, e sua obra salvadora abrange todas as dimensões humanas: física, emocional, mental, religiosa, social, econômica, histórica e escatológica. Portanto, algo tão abrangente é de suma importância para ser conhecido por todos os crentes. Ela significa que o crente experimenta uma nova vida em Cristo, onde a salvação é a porta de entrada no Reino de Deus e da vivência das realidades deste Reino, aqui e agora, e que receberá a plenitude dEle na vida eterna. As realidades presentes na salvação no aqui e agora dizem respeito à indelicada posição que o homem ocupa diante de Deus por causa do pecado, que é desafiá-lo em arrogância e “desejo de ser igual a Deus. [Em] asserção de independência humana contra Deus”. 12 O homem encontra-se alienado, fracassado, escravo, rebelde, enfermo e condenado à morte; mas, através da salvação, essa condição é resolvida, dando-lhe condições satisfatórias de viver em harmonia consigo, com Deus e com o próximo. Por melhores que sejam, nem a religiosidade e nem mesmo condições sociais e econômicas favoráveis podem mostrar-se eficazes no combate à angústia do pecado, à culpa e à condenação ao Inferno. Somente a obra salvadora de Cristo, aceita em atitude de fé e confiança, pode trazer alívio a essa terrível condição humana. A salvação de Cristo proporcionou-nos a salvação do Inferno — a chamada morte eterna — e a salvação em relação àquilo que conduz ao Inferno, que é o pecado.
Embora haja na vida do cristão um momento de conversão, de ruptura com uma velha vida e nascimento para uma nova vida em Cristo, é necessário esta ser acompanhada de um sempre maior conhecimento de seus benefícios (1 Tm 2.4). Nesse sentido, deve-se tomar o capacete da salvação e a couraça da justiça (Ef 6.14,17); e preencher a mente e o coração com as verdades e mudanças processadas através da salvação para estarmos livres das investidas de Satanás, que coloca dúvidas, e para compreendermos conceitos e práticas fundamentais da doutrina cristã da salvação e apropriarmo- nos sempre mais dos benefícios espirituais e materiais desta tão grande salvação. A salvação abrange todas as dimensões da vida; para isso, basta apenas aceitar a Cristo (Rm 10.10) — muitas vezes, seu processo é lento e requer compreensões maiores — é o que chamamos de aperfeiçoamento dos santos. Como a salvação pode ser negligenciada (Hb 2.3), devemos esforçar-nos para conhecer e apropriarmo-nos de todos os seus benefícios, dentre os quais citamos: livramento da condenação do Inferno, libertação do poder do pecado e do poder das trevas (Cl 1.13) para experimentar a redenção em Cristo (1 Pe 1.18,19), para cuidar da criação (Rm 8.22), para andar segundo o Espírito (Rm 8.1), para nascer de novo (Jo 3.5) e participar da ressurreição (Cl 3.1).         
 A realidade da salvação convoca-nos para um agir no mundo, como uma antecipação do Reino de Deus, promovendo a paz, o amor e a justiça numa sociedade caótica e carente de Deus, cujos valores estão cada vez mais deturpados pelos pecados da ganância, do egoísmo, do individualismo, do capitalismo selvagem e de toda variedade de situações que o pecado cria e impõe sobre o homem. Dessa forma, o evangelho torna-se a única solução possível, cabendo àqueles que foram alcançados por ele propagarem essa tão grande verdade a respeito da bondade e do interesse de Deus em proporcionar vida plena a todo ser humano.
Embora a salvação tenha implicações para a eternidade e religue o ser humano a Deus, ela manifesta-se também no tempo presente, na reconciliação do relacionamento do ser humano com o outro, “no pão sobre a mesa, no bem-estar do corpo, numa mente sadia” e num relacionamento saudável consigo e com a criação. “Esta vida humana reconciliada com Deus anda em justiça, amor e na prática do bem (At 27.20,31,34; Rm 1.16; Ef 1.1-14)”. 13
A compreensão da doutrina da salvação nos primórdios era entendida como fuga do mundo, depreciando-se a criação e desconfiando de todas as coisas da vida nesta terra. Hoje, os pentecostais já pensam de outra maneira, sentindo sua responsabilidade que engloba a vida em sua plenitude. O sopro do Espírito, através da educação teológica, tem aberto os olhos para a estética, as artes e as questões públicas e políticas; portanto, uma salvação que tem implicações práticas de construir uma vida melhor. 14 Entretanto, os extremos devem ser salientados, pois uma preocupação com a vida apenas aqui nesta terra tem indícios de Teologia da Prosperidade, o que novamente é uma afronta à obra de Cristo na cruz que, além de preparar-nos uma vida plena aqui na terra, prepara-nos especialmente para a vida além.
3. A SALVAÇÃO PROMETIDA NO ÉDEN
O pecado é a ruptura da comunhão do homem com Deus e a ruptura da comunhão dos homens entre si; é o fechamento do homem sobre si mesmo como multiforme atitude de ruptura com os demais e também com a natureza, a flora e a fauna, promovendo destruição e morte. Essa é a realidade do homem desde que ele pecou no Jardim do Éden. Como consequência natural do pecado, Deus disse que a terra perderia parte de sua capacidade produtiva; por conseguinte, todos os animais e plantas também sofreriam as consequências. Deus ainda disse que tanto o homem quanto a mulher teriam esforços excessivos e dores para organizarem suas vidas fora do Éden e que seus próprios corpos experimentariam as consequências do pecado até mesmo nas situações econômicas e sociais e, por fim, a terrível sentença de morte. Portanto, o pecado foi a pior tragédia para o homem como jamais se presenciou na história.
Num sentido ético, as consequências do pecado foram que: 15 (1) ocorreu a depravação ou corrupção da natureza humana. No pentecostalismo, tal depravação não impede que o homem responda positivamente ao gesto gracioso de Salvação que Deus oferece; (2) originou-se a culpa como obrigação de reparar pelo pecado cometido diante da santidade divina; (3) uma pena teria que ser paga, ocasionando sofrimento e perdas para reparar o dano; outra consequência do pecado foi que, ao se sentirem culpados, o homem e a mulher (4) afastaram-se de Deus, alienaram-se dEle — o que é um estado natural do homem pecador —, mas a salvação em Cristo proporciona o reencontro com Deus religando a comunhão com o Criador, que é necessária e vital para o ser humano.
A partir do momento que pecou, a raça humana passou a expressar e vivenciar a maldade; até então, viviam nus um diante do outro, ou seja, não havia limites para conhecerem um ao outro, e eles podiam relacionar-se com confiança plena; a partir do pecado, eles tiveram que encobrir a maldade do coração para conseguirem relacionar-se. A obra de Cristo permite-nos conviver em verdade e sinceridade, pois a maldade do coração é substituída pela capacidade de relacionar-se em amor, bondade e cuidados como uma consequência prática da salvação.
A resposta que Adão e Eva deram a Deus ao serem questionados por Ele após pecarem aponta para o fato de que o homem é incapaz de resolver o problema do pecado e de sua salvação. Ambos transferiram suas culpas para outros, e foi justamente essa a solução que Deus já havia providenciado: a substituição. Naquele instante, Deus transferiu a culpa para um animal inocente, cuja pele foi usada para cobrir a nudez, o qual simbolizava Cristo, que seria o sacrifício perfeito para salvar a raça humana e cobrir a nudez do pecado. Deus anunciou no Éden o que é chamado de protoevangelho, ou seja, a primeira vez na história humana em que é proclamado que Deus daria um jeito definitivo para a queda do homem. Deus não abandonou o homem, pois sabia que este não sobreviveria nesse estado, que lhe rouba toda a alegria e vitalidade. O intento de Satanás não ultrapassa a tentativa de ferir o calcanhar do homem, mas Cristo, através de sua salvação outorgada na cruz, esmaga-lhe a cabeça, significando uma solução definitiva para o estado do homem (Gn 3.15). A peçonha do pecado, que Satanás tenta passar ao ser humano quando fere seu calcanhar, é aniquilada pela morte redentora de Cristo. Portanto, Deus promete a salvação ao ser humano apesar de sua condição de rebelado, de pecador e de inimigo de Deus por causa do pecado. Ainda mais: Deus pode realizar o que promete, pois Ele é fiel.
O Senhor prometeu salvação ao homem desde que este pecou no Jardim do Éden. A partir desse momento, Deus moveu-se na história humana a ponto de, em todas as suas intervenções, manifestar sua intenção de salvar, curar e preservar a raça humana. Existe a história geral da humanidade como micro-história, protagonizada pelos homens, e também a história da salvação como macro-história, protagonizada pelo próprio Deus. A história humana é emoldurada pela história de Deus e tem a ver com as intervenções que Ele faz de acontecimentos ligados entre si pelo nexo soteriológico/revelacional. Assim sendo, Deus revela-se à humanidade através da história da salvação, a macro-história, cujos eventos são essenciais para que a mensagem do evangelho seja entendida.
Jesus inseriu-se na história da salvação como seu executor, proclamador e mediador, criando a redenção com sua morte. Os apóstolos declararam fé no novo evento divino e interpretaram-no de forma soteriológica. É feita uma nova revelação da história da salvação a Paulo, o qual se sente chamado a expô-la aos pagãos. Tal revelação é a exposição do desígnio divino de redenção (Gl 1.12ss). O apóstolo João dá uma claríssima base histórico-soteriológica em que Jesus ocupa posição central ao longo da trajetória da história da salvação. A Igreja, por sua vez, acolhe o Antigo Testamento no Novo Testamento significando que a fé cristã é fé numa ação divina para a salvação ao longo da história. 16 Assim, o fio vermelho (linha central) de toda a Bíblia é Cristo, de onde decorre toda a história humana. A morte de Cristo na cruz e sua ressurreição são o ápice da história da salvação que Deus vivencia com a raça humana. Nessa morte, todo o amor, misericórdia e bondade de Deus manifestaram-se como um gesto salvífico sem comparações na história.
As intervenções de Deus na história têm como alvo central a revelação de si mesmo ao homem através de seu Filho. Assim, a própria Bíblia, a consciência e natureza e, finalmente, Cristo, são a revelação de Deus na história. As intervenções de Deus na história da humanidade são sempre cheias de amor, bondade e justiça, inclusive as intervenções particulares (histórias individuais de cada um). As suas intervenções vão muito além da fé pessoal naquilo que Ele é capaz de fazer, ou seja, elas extravasam o limite de fé. Se nossa fé pessoal fosse limitada, Deus deixaria de ser Deus, pois seu agir vai muito além de nossa capacidade de crer, e não haveria história da salvação para contar.
Segundo Oscar Culmann (1902­–1999), toda a história da salvação está virtualmente contida num único evento: no fato de que todo o passado da história da salvação tende para essa intervenção; dela brota todo o presente e representa todo o futuro da redenção, ou seja, para a morte de Cristo na cruz, inaugurando o “já agora” da redenção, quando estamos na fase intermediária da salvação definitiva chamada de “ainda não” escatológico. A morte de Cristo na cruz foi a batalha decisiva da história da salvação, mas a vitória final será dada no fim da história. Dessa forma, vive-se, na atualidade, na tensão ( spannung ) aflitiva e hostil empenhada pela força das trevas e do mundo entre o “já agora” e o “ainda não”. 17 A morte de Cristo, embora sendo o centro da história, não é o seu fim; porém, profeticamente, tem caráter final, conclusivo, sendo o início da vitória final. Em Cristo, a salvação de Deus revela sua integralidade e torna-se visível. 18
 Deus faz a macro-história acontecer quando cria todas as coisas e intervém quando for preciso. A título de exemplificação, ele interviu: quando do sacrifício temporário para o pecado original; para proteger Caim; no Dilúvio, para refrear o mal; na Torre de Babel, para evitar o caos; no chamado de Abraão e nascimento de Isaque; na ascensão de José, para preservar seu povo da fome; na liberação do Egito com milagres evitando a opressão de seu povo; no provimento das necessidades de Israel na travessia do deserto; na conquista da Terra Prometida; na escolha de Davi e de sua linhagem como rei; no envio de profetas que avisaram seu povo da destruição e do cativeiro; na ida para o cativeiro, para eliminar a idolatria de seu povo; na ascensão de Ester a um trono pagão para proteger seu povo; na libertação do cativeiro babilônico; tudo isso visando à sua maior intervenção na história humana: o envio de seu Filho ao mundo. O Senhor interveio, ainda, na descida do Espírito Santo em Pentecostes; na disseminação do evangelho aos gentios através de Paulo; na capacitação da igreja para a revelação de Jesus Cristo na terra; no chamamento particular de cada um para a salvação; na escolha e chamado para o ministério de cada um. Ele, da mesma forma, intervirá na volta de Jesus para arrebatar seu povo e também quando se fizerem novas todas as coisas e, enfim, morarmos para sempre com Ele na nova Jerusalém.
Existem três instâncias humanas que a promessa de salvação opera. Temos a passada e instantânea, que se refere tanto ao sacrifício efetuado temporalmente na cruz no tempo passado e a imposição do alcance dessa morte no pecador agora redimido que confiou em Cristo para o perdão e que, assim, torna-se filho de Deus e co-herdeiro com Cristo (Cl 1.22). A segunda instância é a presente e progressiva, cuja ação santificadora do Espírito demonstra em atitudes, palavras e ações (Fruto do Espírito) o que aconteceu internamente no passado (Fp 3.12-13; 2 Pe 3.18). A terceira instância é a futurista e escatológica, que é a finalização definitiva da salvação em que nem o pecado nem a morte terão qualquer domínio sobre o crente e quando estaremos para sempre com o Senhor.
Deus tem poder ilimitado e demonstra sua intervenção na história, apesar de os acontecimentos e catástrofes apontarem, muitas vezes, para o caos. Além disso, o protagonismo humano na história, na maioria das vezes, é destrutivo, tendo em vista sua situação de pecado; todavia, a história da salvação de Deus em Cristo terá um final feliz e tem força sobre os acontecimentos presentes, pois foi efetuado com um alto preço na cruz do Calvário. Cabe aos alcançados por essa salvação utilizar sua capacidade profética de interpretar o tempo presente e denunciar onde os seres humanos violam a história da salvação divina. Os alcançados trabalham em favor do evangelho para que a salvação alcance os confins da terra, os corações mais endurecidos e as situações de miséria humana como, por exemplo, fome, guerras, opressão e destruição, a fim de que os benefícios dessa salvação sejam acessíveis a todos os que sofrem pelas condições precárias da vida humana e também pelas perdas que o pecado causou a toda a humanidade. Ele é antes do início, foi crucificado (passado), reina agora invisível e voltará no fim dos séculos para estabelecer seu reinado eterno.

A Obra da Salvação 
📒📗A Obra da Salvação

                          

                             A doutrina da salvação


Salvação é palavra de profundo significado e de infinito alcance. Muitos têm uma concepção muito pobre da inefável salvação consumada por Jesus, o que às vezes reflete uma vida espiritual descuidada e negligente, onde falta aquele amor ardente e total por Jesus, e a busca constante de sua comunhão.
Em Efésios 6, quando o apóstolo discorre sobre a armadura de combate do soldado cristão, fala do capacete da salvacão (v17). O capacete cobria totalmente a cabeça, protegendo-a. Isso fala da plenitude do conhecimento e da experiência da salvação.
Salvação não significa apenas livramento da condenação do Inferno. Ela abarca todos os atos e processos redentores e transformadores da parte de Deus para com o homem e o mundo através de Jesus, o Redentor, nesta vida e na outra.
Salvação é o resultado da redenção efetuada por Jesus. Redenção foi o meio que Deus proveu para livrar o homem de seus pecados. Salvação é o usufruto desse livramento. No sentido comum e limitado, Salvação significa a obra que Deus realiza instantaneamente no pecador que a Ele se entrega, perdoando-o e regenerando-o. Porém, a Salvação tem sentido e alcance muito mais vasto. Assim considerada, significa o pleno livramento da presença do pecado e suas conseqüências, o que somente ocorrerá na glória celestial. Nesse sentido, a Salvação alcança também outras esferas além da humana (Cl 1.20).
A Salvação foi planejada por Deus Pai (Ap 13.8 e 1Pd 1.18-20). Deus Filho consumou-a (Jo 19.30 e Hb 5.9). O Espírito Santo aplica-a ao pecador (Jo 3.5; Tt 3.5 e Rm 8.2). Tudo por graça (Ef 2.8).
Milhares de filhos de Deus são hoje salvos por Jesus, mas ainda não examinaram detalhadamente a sublimidade desta Salvação em seus dois sentidos: objetivo e subjetivo. A Salvação que Jesus efetuou no Calvário é tão rica, profunda e grandiosa que somente na outra vida é que começaremos a entender de fato o seu infinito alcance. Quando as eras futuras começarem o seu curso na glória celestial, começaremos a compreender as riquezas infinitas desta Salvação em Jesus Cristo (Ef 2.7; 3.8).
Vejamos a Salvação em si, do ponto de vista objetivo, considerando Deus como doador e o homem como o recipiendário. Nesse sentido, ela tem três aspectos, todos simultâneos: justificação, regeneração e santificação. Uma pessoa verdadeiramente justificada é também regenerada e santificada.
Justificação é um termo judicial. Fala de quebra da Lei (1Jo 3.4). Ele é o ato de transformação ou mudança de estado do pecador, perante Deus, operada por Ele mesmo. A justificação tem caráter exterior. Deus é o juiz, Cristo é o advogado e o homem, o réu. A transgressão da Lei de Deus é o pecado cometido.
O resultado da justificação na vida do novo crente é a mudança de posição perante Deus. De condenado que era, o homem passa a justificado. Na justificação, o homem entra em boas relações com Deus quanto às suas leis, pois Ele é justo (Rm 5.1; 8.1-4). A justificação é um ato divino fora do indivíduo, enquanto a regeneração ocorre no interior da criatura.
É muito maravilhoso o modo como Deus providenciou e efetua a nossa justificação. A justiça de Cristo é creditada à nossa conta espiritual (Rm 3.24-28). Romanos trata desse assunto de modo completo e majestoso.
Para a nossa justificação: a) Deus, em sua graça, colocou seu Filho em meu lugar, e, na cruz, transferiu minhas culpas e crimes para Ele; b) Jesus morreu voluntariamente por mim; c) Eu preciso aceitar, por fé, este único método divino de justificação do ímpio (Rm 4.5), confessando a Jesus como meu Salvador (Rm 10.9).
Assim, sem ultrajar sua perfeita justiça, Deus justifica o ímpio (aparentemente um absurdo), substituindo o culpado pelo inocente (Cristo), transferindo minhas culpas para Ele. Deste modo, Deus proveu a justificação para mim e para ti, mediante substituição e transferência, tudo por Cristo. Legalmente, não deveria haver misericórdia para com o culpado. Deveria ele ser punido. Porém, em virtude do sacrifício de Cristo, Deus, o Justo Juiz, faz justiça, perdoando o penitente que a Ele vem com fé. Assim, essa justificação por Jesus só é efetivada na vida do pecador que o aceitar como seu Salvador. Somente aceitando Jesus o pecador entra no plano divino para sua Salvação.
Vê-se, assim, que, no sentido bíblico, justificar é mais do que perdoar. O perdão remove a condenação do pecado, e a justi¬ficação nos declara justos. Um juiz terreno ou chefe de Estado pode perdoar um criminoso, mas não pode colocá-lo nunca em posição igual à daquele que nunca transgrediu a lei. Mas o nosso Deus pode e faz isso. Deus tanto perdoa o pecador, como justifica-o. Isto é, trata-o como se nunca tivesse pecado! Aleluia ao Trino Deus! E tal fato ocorre no momento em que o pecador arrependido aceita Jesus como seu Salvador pessoal. Aqui no mun¬do, um criminoso nunca mais receberá a consideração de justo por parte de seus semelhantes, mas Deus declara justo o pecador que Ele justificar. Sim! “Justificado!” – é o veredito divino. Quem pode agora nos condenar se é Deus quem nos justifica? (Rm 8.33-34). Aleluia!
Como é possível um Deus justo justificar um ímpio? (Rm 4.5). Já tentamos explicar: substituindo o culpado pelo inocente, o pecador pelo justo, e transferindo a culpa de um para o outro. Foi o que aconteceu no Calvário. Não foram os soldados romanos que levaram Jesus ao Calvário e ocasionaram sua morte, mas os meus e os teus pecados. Sua vida não foi tomada. Ele a deu como sacrifício para nos redimir.
É evidente que justificar é mais do que perdoar. Pela justificação o crente é declarado justo. A origem da justificação é a graça de Deus (Rm 3.24 e Tt 3.7). A base da justificação é o sangue de Jesus (Rm 5.9). O meio da justificação é a fé que vem por Jesus (Rm 3.28; 5.1).
Regeneração é um termo relacionado à família. Tem a ver com a nossa inclusão na família divina. É o ato interior operado na alma, pelo Espírito Santo. É a nova vida em Cristo, o novo nascimento. Sendo regenerado pelo Espírito Santo, o crente é filho de Deus. O lado externo da regeneração é a conversão, isto é, aquilo que o mundo vê ou percebe. Conversão é a mudança externa da pessoa, seu procedimento resultante da regeneração, a qual é a mudança interna na alma. A regeneração é a causa, a conversão é o efeito. Há um sentido em que a conversão não é total (Mt 18.3; Lc 22.32 e Tg 5.19).
O que ocasiona a regeneração não é a justificação, mas a comunicação da vida de Cristo. A justificação é imputada; a regeneração é comunicada. Justificação tem a ver com o pecado; regeneração, com a natureza. Justificação é algo feito a nosso favor; regeneração é algo operado em nós.
O resultado da regeneração é a mudança de condição – de servo do pecado e do Diabo para filho de Deus (Jo 1.12,13; 3.3 e Tt 3.5). Pela regeneração o crente é declarado filho de Deus.
Santificação é um ato divino que também ocorre dentro do homem, refletindo logo em seu exterior. Daí a diferença entre santidade – um estado – e justiça – santidade prática, de vida (Lc 1.75). Na operação divina da conversão, a santidade de Cristo passa a ser a nossa santidade (Cl 2.10; 1Co 2.30; Hb 10.10,14 e Rm 8.2). Seus méritos são creditados à nossa conta. Estamos tratando da santificação posicional em Cristo, não da santificação progressiva, no viver diário do crente, como mostrada em 2 Coríntios 7.1 e Apocalipse 22.1.
O resultado da santificação, operada na conversão, é a mudança de vida.                
A salvação considerada sob estes três aspectos simultâneos é perfeita. É a salvação no sentido objetivo. Estamos em Cristo (2Co 5.17 e Jo 15.4). Nunca seremos mais salvos do que somos agora. Cristo não fará mais nada para salvar-nos além do que já fez. Ele já fez tudo o que era preciso e possível. Aí está o perigo do pecador rejeitar a Cristo, pois não haverá outro plano divino de Salvação. O atual é eterno (2Tm 1.9 e Ef 3.11). Nem mais outro sacrifício expiatório terá lugar, pois o de Jesus foi perfeito e completo (Hb 9.26; 10.10,12).
Pela santificação em Cristo, o crente é declarado santo. Por ela, o crente entra em boas relações com Deus quanto à sua na¬tureza, pois Ele é santo (1Pe 1.16 e 2Tm 2.21).
Estas três bênçãos – justificação, regeneração e santificação – são simultâneas, no sentido objetivo. As três constituem a plena Salvação em Cristo (2Co 5.17).
A Salvação na experiência humana
Quando falamos de salvação na experiência humana, estamos falando de salvação no sentido subjetivo. O homem como recipiendário e Deus como o doador. É salvação vista na experiência humana. Considerada a salvação sob este aspecto, ela tem três tempos: no passado, justificação; no presente, santificação; no futuro, glorificação.
a) No passado – justificação: É a salvação da condenação do pecado. O crente foi salvo da condenação do pecado. A Bíblia descreve este fato como ato passado (Rm 5.1 e 1Co 6.11). Justificação é o que Deus fez por nós. O crente foi justificado uma só vez. Daí em diante o que ocorrerá é a purificação (1Jo 1.9 e Jo 13.10)
·         b) No presente – santificação:É a salvacão do domínio e influência do pecado. Santificação bíblica significa basicamente separação para uso e posse de Deus. Uma boa definição é a de Paulo em Atos 27.23: “…do Senhor, de quem sou e a quem sirvo”. Santificação não é apenas a pessoa pertencer a Deus, mas também servi-lo. Se o leitor é um santo de Deus, certamente está servindo a Deus. Há muita santificação por aí que pode ser tudo, menos bíblica.
A santificação posicional, deve tornar-se experimental no viver diário do crente. A santificação é primeiramente interna, isto é, pureza interior, purificação do pecado, refletindo isso em nosso exterior, traduzido em separação do pecado e dedicação a Deus. É um termo ligado ao culto a Deus e consagração ao seu serviço, conforme se vê no livro de Levítico, através de pessoas e coisas, sacerdotes, templo, objetos etc. Quem pensa ser santo deve ser separado do mal e dedicado a Deus para seu uso (2Tm 2.21). A santificação, como aca¬bamos de ver, tem um lado posicional e outro prático: um santo viver.
A justiça é comparada a um vestido (Jó 29.14 e Is 59.17). Mas o corpo, que recebe esse vestido, como deve estar? É razoável um vestido limpo em corpo sujo?
A santificação é o que Deus faz em nós. Nesse sentido, a salvação é progressiva. Uma criança nova é perfeita, mas não é adulta. Uma frutinha é também perfeita ao formar-se, mas não é madura (Ef 4.13). Tendo sido justificado, o crente progride e prossegue para a perfeição, de que em seguida nos ocuparemos. Portanto, ao estudarmos a santificação precisamos vê-la quanto à posição do crente em Jesus Cristo, e quanto ao estado do crente em si mesmo.
·         c)No futuro – glorificação:Será a salvação da presença do pecado em nossa vida. A glorificação é a inteira conformação com Jesus Cristo (Rm 8.23 e 1Jo 3.2). É a perfeição do crente. Na glorificação, a salvação envolverá o corpo físico, então glorificado. Estaremos ressuscitados. Estaremos no Céu (Rm 13.11; 2Co 5.2,4; Fp 2.12 e Hb 9.2). Será redenção do corpo (Rm 8.23).
A glorificação será o que Deus fará conosco.
A salvação é uma obra inteiramente independente de nossas obras, esforços e méritos. Contudo, o homem tem certas condições a cumprir. Essas condições são a fé, o arrependimento e a confissão.
Fé é a confiança em Deus. Ela se ocupa com Deus, assim como o arrependimento ocupa-se com o pecado e o remorso. A fé divisa a misericórdia divina, quando toma-se a mão para receber a salvação (Ef 2.8).
O arrependimento honra a Lei de Deus. Mas, tanto a fé como o arrependimento vêm graciosamente de Deus, para que o homem não tenha de que gloriar-se (At 5.31; Rm 2.4; 12.3; 10.17; At 11.18; Fp 2.13; 2Tm 2.25; Ez 36.27 e Jr 31.3). Bem disse o profeta Isaías que Jeová é a nossa salvação (Is 12.2).
A fé e o arrependimento devem acompanhar o crente em toda sua vida. O primeiro é indispensável ao recebimento das bênçãos; o segundo fá-lo zeloso para pureza. O crente que sabe arrepender-se e humilhar-se aos pés do Senhor é um grande vencedor. Quanto à fé, notemos uma coisa: ela somente opera através do amor (Gl 5.6; Ef 6.23; 2Tm 1.13 e 1Tm 5.8). Há por aí os que se dizem cheios de fé, porém sem qualquer dose de amor divino. É uma anomalia, uma decepção, uma negação da verdade (1Co 13.2).
No tocante à salvação, confissão significa confessar publicamente a Cristo como Salvador. Após crer com o coração (Rm 10.10a), é preciso confessar ou declarar que agora é crente (Rm 10.9-10). Crer Nele sem confessá-lo é flagrante covardia; confessá-lo sem nEle crer é hipocrisia.
Expliquemos: a salvação é uma dádiva ou presente de Deus para nós (Ef 2.8; Tt 3.3 e Rm 6.23). Suponhamos que alguém te ofereça um grande e rico presente, porém suas mãos estão ocupadas com uma porção de objetos inúteis e sem valor, e não queres largar essas coisas para receber esse presente, recusando-o assim. O mesmo acontece em relação a Deus e à Sua salvação. Mas, suponhamos que tu largues tudo e aceites o presente. Nada mereces pelo fato de estenderdes a mão para receber o presente, mas, ao fazer assim, satisfazes a condição para receber essa dádiva. O mesmo se dá em relação à salvação.
Autor: Antônio Gilberto da CPAD NWES












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