Reforma Protestante, uma volta às escrituras
Pr. Hernandes D. Lopes
A
Reforma religiosa do século dezesseis, foi deflagrada quando o monge
agostiniano, Martinho Lutero, fixou nas portas da igreja de Wittenberg, na
Alemanha, as noventa e cinco teses contra as indulgências e os desmandos do
papado. A Reforma não foi uma inovação na igreja, mas uma volta à doutrina dos
apóstolos. Não foi um desvio de rota, mas uma volta às Escrituras. A Reforma
colocou a igreja de volta nos trilhos da verdade. Quais foram as grandes
ênfases da Reforma?
Em
primeiro lugar, a singularidade das Escrituras. O conhecido Sola Scriptura,
acentua que as Escrituras são a nossa única regra de fé e prática e que devemos
rejeitar, peremptoriamente, qualquer doutrina que não esteja fundamentada na
Palavra de Deus. Não podemos acrescentar nada às Escrituras nem retirar delas
qualquer de seus ensinamentos. A Palavra de Deus é inspirada, inerrante,
infalível e suficiente. Sua origem não é humana, mas divina. É inerrante quanto
ao seu conteúdo, infalível quanto às suas profecias e suficiente quanto ao seu
propósito. Não precisamos nem podemos acrescentar nossas experiências nem as
tradições da igreja à Palavra de Deus. Não são nossas experiências que legitimam
as Escrituras, mas elas é que julgam as nossas experiências.
Em
segundo lugar, a singularidade da Fé. O conhecido Sola Fide, enfatiza que a
salvação é recebida por meio da fé e não através das obras. Não somos aceitos
por Deus por causa das nossas obras. Somos aceitos em Cristo, por causa de seus
méritos, e recebemos essa salvação gratuita por meio da fé. A fé não é a causa
meritória da nossa salvação, mas a causa instrumental. Não somos salvos por
causa da fé, mas através da fé. A causa meritória da salvação é o sacrifício
substitutivo de Cristo, enquanto a fé se apropria dos benefícios desse
sacrifício. A fé é a mão estendida de um mendigo para receber o presente do
Rei. Vale destacar que a fé salvadora é, também, um dom de Deus. O apóstolo
Paulo é meridianamente claro a esse respeito: “Pela graça sois salvos, mediante
a fé, e isso não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se
glorie” (Ef 2.8,9).
Em
terceiro lugar, a singularidade da graça. O conhecido Sola Gratia, destaca que
não somos salvos pelas obras que fazemos para Deus, mas pela obra que Cristo
fez por nós. Graça é um dom precioso concedido a alguém que não merece, mas
precisa. Deus nos amou quando éramos fracos, ímpios, pecadores e inimigos. Deus
nos buscou quando estávamos perdidos. Deus nos deu vida quando estávamos
mortos. Atraiu-nos para ele, quando todas as inclinações da nossa carne eram
inimizades contra ele. Seu amor foi incompreensível, pois sendo nós filhos da
ira, ele nos amou infinitamente, e enviou-nos seu Unigênito Filho para morrer
em nosso lugar, para nos adotar como filhos e nos receber em sua família,
constituindo-nos filhos do seu amor. Isso é graça! Graça bendita, maravilhosa
graça!
Em
quarto lugar, a singularidade de Cristo. O conhecido Solus Christus, evidencia
que Jesus Cristo, o Filho de Deus, é o único Mediador entre Deus e os homens.
Ele é a Porta do céu, o Caminho que nos leva ao Pai. Por sua morte na cruz,
rasgou o véu do santuário e abriu-nos um novo e vivo caminho para Deus. Jesus é
o único Salvador e não há nenhum outro nome dado entre os homens pelo qual
importa que sejamos salvos. Jesus é único Senhor do universo. Diante dele se
dobra todo joelho no céu, na terra e debaixo da terra, para que toda língua
confesse que ele é o Senhor para a glória de Deus Pai.
Em
quinto lugar, a singularidade de Deus. O conhecido Soli Deo Gloria, destaca que
tudo foi criado por Deus e existe para a glória de Deus. O fim último da nossa
própria existência é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. O homem não é o
centro do universo, Deus é. A salvação é pela graça, pela fé, para as obras,
com o único propósito de que Deus seja glorificado por toda a eternidade. Diz o
apóstolo Paulo: “Porque dele, por meio dele e para ele são todas as coisas”.A
Deus, portanto, honra, glória e louvor, agora, e pelos séculos eternos!
Cátaros, a morte em nome de Deus
Há oito séculos, a
guerra contra a heresia dos cristãos cátaros abalou o sul da França. Os ecos
das suas ideias ainda podem ser ouvidos nos dias de hoje.
O catarismo –
uma das mais importantes heresias que sacudiram o mundo cristão na Idade Média
– encontrou na decadência institucional da Igreja Católica terreno fértil para
germinar e crescer. Há 800 anos, no início do século 13, o papa Inocêncio III
lamentava a situação do seu pontificado: as igrejas estavam desertas, a crise
de vocações reduzia o número de sacerdotes, os fiéis mostravam desconfiança e
pouco interesse pelas sagradas escrituras e pelas questões da Santa Madre
Igreja. O clero estava entregue ao luxo, à corrupção política, ao tráfico de
influências e, em muitos casos, à luxúria e à devassidão.
A coisa vinha de longe, desde quando,
havia 3 ou 4 séculos, no seio da Igreja, o poder espiritual começou a se
confundir com o temporal e muitos papas e altos prelados passaram a ser
escolhidos não mais por sua vocação e virtudes, e sim por pertencerem a
famílias da nobreza detentora do poder. Poucas décadas antes, o papa Bento IX
(1032-1048) herdara o título por ser sobrinho do papa João XIX. Acusado de
estupros e assassinatos, ele foi descrito por São Pedro Damião como “um
banquete de imoralidade, um demônio do inferno sob o disfarce de um padre” que
organizava orgias patrocinadas pela igreja. Em seu último ato de corrupção como
papa, Bento IX decidiu que queria se casar e vendeu seu título para seu
padrinho por 680 quilos de ouro.
Inocêncio III, por seu lado, tentou
moralizar a Igreja. Em 30 de maio de 1203, ele escreveu ao escandaloso
arcebispo de Narbonne, no sul da França, uma carta contundente na qual afirmava
sem meias palavras que o seu estilo de vida o tornava maldito aos olhos de
Deus. O alto prelado, titular de uma das arquidioceses mais ricas e vastas da
França, tinha abandonado quase completamente o ofício de padre para viver na
esplêndida abadia de Montearagón, onde habitava com a viúva de seu irmão, com
quem tinha tido dois filhos. Tudo isso de forma escancarada, diante de todos,
sem se preocupar com o escândalo. Embora, naqueles tempos, os critérios que
definiam um escândalo eclesiástico fossem bem outros. De fato, boa parte do
alto clero na época vivia assim, à exceção de uns poucos bispos e abades que,
obstinadamente, mantinham a fé nos votos proferidos.
As notícias sobre os desmandos da
Igreja corriam por toda parte, enquanto, ao mesmo tempo, em vários lugares da
Europa, pipocavam movimentos heréticos. Eram quase sempre caracterizados por
interpretações esdrúxulas e divergentes dos evangelhos e capitaneados por
líderes carismáticos e milagreiros, que se mostravam abertamente contrários à
autoridade papal.
Em Montpellier, capital do Languedoc-
Roussillon, cada pedra contém história. No alto, fachada da casa de São Roque.
Ao lado, uma mikvé, a piscina de banho ritual judaico. Na outra página, a
fachada da catedral. O medalhão logo acima indica que Montpellier era etapa do
Caminho de Santiago de Compostela.
Foi nesse clima que, no sul da
França, na região do Languedoc-Roussillon, então conhecida como Occitânia, se
difundiu uma verdadeira Igreja autônoma, organizada em dioceses, que se
inspirava nos credos de uma antiga seita cristã do século 2, o gnosticismo (do
grego gnosis, que significa conhecimento). Essa versão alternativa do
cristianismo, diversa daquela de Pedro e dos evangelhos, tinha sobrevivido no
Oriente e, ao redor do século 10, se difundira também na Europa. Esses
heréticos se chamavam “cátaros”, do grego katharòs, “puros”.
Os cátaros, tal como os antigos
gnósticos, acreditavam que Jesus nunca fora um verdadeiro homem de carne e
sangue, mas sim um anjo, uma criatura espiritual vinda à Terra para ensinar aos
homens o caminho da salvação. O mundo e a carne dos homens, para eles, seriam a
criação de um anjo malvado que quis aprisionar as almas dentro de um pesado
fardo material, cheio de vícios e pecados: o corpo. Cristo, mensageiro de Deus,
não podia ter um corpo real porque era privado de pecado. Portanto, segundo os
cátaros, nunca sofrera a Paixão nem morrera.
Os cátaros se reuniam ao redor de
grupos de ascetas (chamados “perfeitos”) que, realmente, procuravam viver
segundo os ideais da pobreza evangélica, praticando a castidade absoluta e
longos jejuns para mortificar a carne. Eles se dedicavam inteiramente às
prédicas, aos ensinamentos e ao aconselhamento espiritual dos fiéis. Quando um
cátaro desejava se consagrar ao serviço de Deus, fazia votos muito rígidos que
se sintetizavam no consolamentum, o único sacramento por eles reconhecido. Os
cátaros, com efeito, não praticavam o batismo, a comunhão nem os demais
sacramentos, inclusive o matrimônio.
Já que a carne era vista como
receptáculo de todos os males, procriar era considerado errado, bem como ter
relações sexuais. O matrimônio, visto como a sede de relações sexuais estáveis,
era proibido. Diz a historiadora italiana Barbara Frale que “esse conceito
criava muitos problemas no âmbito social: mulheres e maridos abandonavam a
família para ingressar nas comunidades dos cátaros. Além disso (já que a
castidade absoluta era um empenho que pouquíssimos conseguiam manter), na vida
cotidiana as pessoas acabavam vivendo ligações provisórias e não oficiais, que
podiam se romper a qualquer momento para dar lugar a casais diversos. Mais que
o casamento, tolerava-se muito mais o concubinato e também o amor livre”.
OS CÁTAROS ACREDITAVAM QUE JESUS FORA
UM ANJO, VINDO À TERRA PARA ENSINAR AOS HOMENS O CAMINHO DA SALVAÇÃO
Outro grande problema que o catarismo
criava socialmente era a proibição absoluta de proferir juramentos: na
sociedade dos séculos 12 e 13 o sistema de poder era baseado no juramento de
fidelidade (do bispo ao papa, do nobre ao soberano, do camponês ao barão de
terras). O juramento empenhava a honra pessoal e constituía um vínculo
absoluto. Recusar-se a jurar significava ser rebelde. E, realmente, o credo dos
cátaros foi muito instrumentalizado por ambições de autonomia política. Muitos
grandes feudatários do sul da França se aproveitaram do catarismo para se
liberar da obediência ao rei Felipe II Augusto; os bispos, para se liberar da
autoridade do papa e se tornar autônomos; e o baixo clero, seguindo o exemplo
dos bispos e os líderes cátaros, para predicar abertamente nas igrejas
católicas, desde que pagassem regiamente o pároco…
Acima, galeria do Museu Fabre, o mais
importante de Montpellier. Abaixo, entrada da Faculdade de Medicina, a mais
antiga da Europa, com seu relógio de sol, no centro da cidade. Ao lado, acima,
trecho da Via Domícia, construída pelos antigos romanos. Abaixo, o claustro da
Abadia de Fontfroide.
A liberação dos vínculos feudais foi
também muito útil para o apoderamento de testamentos e dos bens do espólio
usando a desculpa do catarismo. Era também possível, por critérios análogos,
trocar a mulher velha por uma nova ao aderir a essa igreja alternativa; e
depois, cansado também desta, trocá-la por uma outra…
Por meio dessa inversão dos valores
tradicionais que regiam o equilíbrio da sociedade, um clima de anarquia foi se
instalando cada vez mais, e a Igreja oficial decidiu intervir antes que a
situação fugisse totalmente ao controle – o que praticamente já acontecera em
vários locais. Neles, bispos oportunistas que tinham passado ao catarismo
tinham mudado de doutrina, mas sem renunciar às terras, ao poder, aos cavalos,
aos castelos e a todas as outras riquezas inerentes ao seu antigo status de
bispos católicos. O novo credo lhes parecia ótimo, pois os livrava das longas
liturgias previstas pelo catolicismo, do ônus de visitar as dioceses, de
jejuar, de praticar a cura das almas e tudo o mais. E se algum bispo passava a
viver com uma mulher e a ter filhos com ela, como acontecera com o arcebispo de
Narbonne, os líderes religiosos cátaros encaravam tudo como sendo um mal menor.
OS CÁTAROS NÃO PRATICAVAM O BATISMO,
A COMUNHÃO NEM OS DEMAIS SACRAMENTOS, INCLUSIVE O MATRIMÔNIO
Ao mesmo tempo, sinais de patologias
obscuras – ligadas como sempre ao fanatismo extremista – começaram a surgir no
seio de algumas comunidades cátaras. O fato de negarem a humanidade de Cristo e
considerarem o corpo como um mal absoluto levou alguns fiéis a favorecer os
suicídios. Acontecia com frequência que os doentes se deixassem morrer de fome;
outras vezes, embora isso não fosse regra geral, enfermos que recusavam a se
suicidar eram mortos pelos outros que acreditavam estar salvando-os da
perdição. Podia acontecer também que algumas crianças de famílias católicas,
consideradas mais aptas a se tornar santos cátaros, fossem raptadas e levadas
para ser educadas longe dos seus pais. A caridade para com os pobres e doentes,
dever número um dos cristãos, não era praticada pelos cátaros. Igualmente, uma
mulher grávida provocava um certo desgosto e desprezo: ela era, obviamente,
culpada por ter fornicado e ter, por isso, gerado um novo ser prisioneiro do
mal incurável da carne.
Tornou-se cada vez mais difícil para
a Igreja Católica tolerar a existência dos cátaros. A taça finalmente
transbordou em 1209, quando um enviado do papa foi assassinado. “Vamos
exterminar esses súcubos de Satanás”, exclamou, furioso, Inocêncio III. Ele
organizou uma verdadeira cruzada – a primeira a atuar em território europeu – e
desencadeou uma vasta operação militar, que adquiriu importante dimensão
política. A título de recompensa, os cavaleiros cruzados podiam se apoderar das
terras e dos bens dos adeptos do catarismo. Foi dessa forma, graças aos
sucessivos massacres das comunidades cátaras, que o reino da França anexou a
grande região da Occitânia, até então independente.
Durante 20 anos, a cruzada começada
na cidade de Béziers (20 mil mortos no famoso “massacre de Béziers”!) tratou o
sul da França a ferro e fogo. Simon de Montfort, barão da província de Île-de-France,
era o comandante. No entanto, apesar do avanço das conquistas, o catarismo
ainda resistiu. Em 1226 foi lançada uma segunda cruzada, sob o comando do rei
Luís VIII. A Inquisição, por seu lado, arregaçou as mangas e se instalou na
cidade de Tolouse e em diversos outros pontos da região.
Na página ao lado, no alto, o castelo
de Peyrepertuse. Abaixo, o autor desta reportagem no castelo de Quéribus. Ambos
foram fortalezas de refúgio dos cátaros. Acima, gravura medieval mostrando o
assalto à fortaleza de Montségur, em 1244, no qual milhares de cátaros foram
mortos pelos cruzados.
Começaram os tempos dos
interrogatórios sob tortura e das fogueiras ardentes. Sede da igreja cátara,
Montségur capitulou em 1244. Mas diversas pequenas comunidades ainda sobreviveram,
refugiadas sobretudo em castelos de acesso muito difícil, como os de Quéribus,
Peyrepertuse, Puivert e Puylaurens, construídos no topo de montanhas dos
Pirineus. Só em 1325 o último líder cátaro conhecido, Guillaume Balibaste, foi
queimado vivo na localidade de Villerouge- Termenes. Mais de um século fora
necessário para o extermínio da religião cátara.
Extermínio? Na realidade, a
espiritualidade dos cátaros (dos verdadeiros cátaros, aqueles ascetas movidos
apenas por exigências religiosas) possuía um aspecto fascinante: a ideia de
viver o cristianismo praticando um estilo de vida simples, austero e baseado
nos preceitos do Evangelho. São Domingos de Gusmão e São Francisco de Assis
souberam identificar esse aspecto luminoso, importantíssimo para a Igreja do
seu tempo, e escolheram inaugurar um novo tipo de vida monástica baseado em
ideais de austeridade, simplicidade e pobreza. A obra desses santos demonstra
claramente que sementes essenciais da ideologia cátara haviam sido plantadas no
seio da Igreja Católica e davam frutos.
Frutos de uma árvore que, vira e
mexe, floresce e novamente frutifica. Ou não são esses os mesmos valores que
nutriram, há poucas décadas, a filosofia dos hippies contemporâneos?
Castelos
cátaros
Nas cidades da região do Languedoc-
Roussillon, no sul da França, cada pedra parece estar ligada a algum importante
acontecimento da história. As principais, Montpellier, Albi, Narbonne,
Carcassone e Béziers, foram todas centros vitais do movimento herético medieval
conhecido como catarismo. Até hoje meta de peregrinações religiosas e
culturais, essas cidades oferecem roteiros para quem deseja visitar seus
castelos, catedrais, fortalezas e museus dentro do espírito que caracterizava a
tradição cátara.
Os guias turísticos locais costumam ser
muito bem preparados e tornam-se verdadeiros professores de história quando
solicitados a falar dos cátaros. Toda a região possui excelente infraestrutura
para o turismo, seja nos transportes, seja na hotelaria ou na gastronomia.
Movimentos Pré-Reformistas
A Reforma
Protestante foi um movimento de caráter religioso que marcou a passagem do
mundo medieval para o moderno. Entre um dos fatores de grande relevância que
assinalaram esse período de transformações podemos destacar o novo contexto
econômico do período. No ambiente das cidades, os comerciantes burgueses eram
malvistos pela Igreja. Segundo os clérigos, a prática da usura (empréstimo de
dinheiro a juro) feria o sagrado controle que Deus tinha sobre o tempo.
Além dos comerciantes, a própria crise econômica feudal também instigou a população a questionar os dogmas impostos pela Igreja. Os clérigos estavam muito mais próximos das questões materiais envolvendo o poder político e a posse de terras, do que preocupados com as mazelas sofridas pela população camponesa. Um dos mais claros reflexos dessa situação pôde ser notado com o relaxamento dos costumes que incitava padres, bispos e cardeais a não cumprirem seus votos religiosos.
Além dos comerciantes, a própria crise econômica feudal também instigou a população a questionar os dogmas impostos pela Igreja. Os clérigos estavam muito mais próximos das questões materiais envolvendo o poder político e a posse de terras, do que preocupados com as mazelas sofridas pela população camponesa. Um dos mais claros reflexos dessa situação pôde ser notado com o relaxamento dos costumes que incitava padres, bispos e cardeais a não cumprirem seus votos religiosos.
Já no século XII apareceram os primeiros movimentos que questionavam as crenças e práticas do catolicismo. Entre outras manifestações, podemos destacar o papel exercido pelos cátaros, originários da região sul da França. Naquela região as distinções culturais históricas propiciaram a ascendência de uma fé cristã à parte dos ditames da Igreja Católica. Realizando uma leitura própria do texto, os cátaros tinham valores morais bastante rígidos que se contrastava com o comportamento dos líderes clericais.
No século posterior, vendo a grande presença do movimento religioso, o papa Inocêncio III ordenou a realização de uma cruzada que – entre 1209 e 1229 – aniquilou o movimento cátaro. Além disso, as acusações de feitiçaria eram bastante corriqueiras entre indivíduos considerados suspeitos ou infiéis. Já na Idade Média, a Igreja criou o Tribunal da Santa Inquisição que percorria diversas regiões da Europa, reprimindo aqueles que ameaçassem seu poderio religioso e ideológico.
Outros intelectuais, nos séculos XIV e XV, também indicavam como os valores absolutos da Igreja já não tinham a mesma força mediante as transformações históricas experimentadas. O inglês John Wycliffe (1330 – 1384) redigiu alguns ensaios onde denunciava as ações corruptas da Igreja e defendia a salvação espiritual por meio da fé. Em certa medida, as teorias lançadas por esse pensador viriam a influenciar as obras de Martinho Lutero, no século XVI.
Jan Huss (1370 – 1415) foi um padre que se preocupou em traduzir o texto bíblico em outras línguas e denunciou o comportamento dos clérigos católicos. A pregação por ele empreendida, ao longo da Boêmia, motivou a violenta reação das autoridades do Sacro-Império Germânico que ordenaram sua morte pela fogueira. A morte de Huss deu origem a um movimento popular conhecido como hussismo. A grande maioria de seus integrantes eram camponeses pobres insatisfeitos com sua condição de vida.
O movimento renascentista também deu passos importantes no questionamento do papel exercido pela Igreja Católica. A teoria empirista de Francis Bacon; o heliocentrismo defendido por Nicolau Copérnico; e a física newtoniana descentralizou o monopólio intelectual da Igreja. O conhecimento gerado por esses e outros indivíduos lançava a idéia de que o homem não necessitava da chancela de uma instituição que o concedesse o direito de conhecer a Deus ou o mundo.
Dessa maneira, se formou todo um histórico de tentativas e fatos que antecederam a consolidação do movimento reformista. Mesmo sofrendo diferentes ofensivas ao longo do tempo, a Igreja ainda conservou um conjunto de práticas que complicavam a estabilidade do poder clerical. A venda de indulgências, a negociação de cargos eclesiásticos e a vida amoral ainda foram questões que incentivaram o aparecimento das novas religiões protestantes.
Fatores Causais da Reforma
Diversos fatores levaram ao movimento da Reforma Protestante.
Vejamos os principais:
Fatores religiosos
Entre os motivos religiosos que determinaram um descontentamento em relação à Igreja católica, podemos citar:
- Corrupção do clero religioso: para ganhar dinheiro, o alto clero de Roma iludia a boa-fé das pessoas através do comércio de relíquias sagradas. Milhares de pessoas eram enganadas comprando espinhos que coroaram a fronte de Cristo, panos embebidos pelo sangue do rosto do Salvador, objetos pessoais dos santos etc. Além desse Comércio fraudulento, a Igreja passou a vender, também, indulgencias, isto é, o perdão dos pecados. Mediante um bom pagamento, destinado a financiar obras da Igreja, os fiéis poderiam comprar a salvação e a entrada para o céu.
- Ignorância do clero: a maior parte dos sacerdotes desconhecia a própria doutrina católica e demonstrava absoluta falta de preparo para funções religiosas. A ignorância e o mau comportamento do clero representavam sério problema, pois a Igreja dizia que os sacerdotes eram os intermediários entre os homens e Deus. Ora, se esses intermediários se mostravam ignorantes e incompetentes, era preciso buscar novos caminhos para o encontro com Deus.
- Aumento dos estudos religiosos: com a utilização da imprensa, aumentou o número de exemplares da Bíblia que podiam chegar às mãos dos estudiosos e da população. A divulgação dos textos sagrados e de outras obras religiosas contribuiu para o surgimento de diferentes interpretações da doutrina cristã. Apareceu, por exemplo, tinia corrente religiosa que, buscando apoio na obra de Agostinho, afirmava que a salvação do homem era alcançada pela fé. Essas ideias contrariavam a posição da Igreja, baseada em Tomás de Aquino, que dizia o seguinte: são a fé e as boas obras que conduzem à salvação.
Fatores socioeconômicos
A Igreja católica, durante o período medieval, condenava o lucro (a usura). Essa “moral econômica” entrava em choque com a atividade da burguesia. Grande número de comerciantes não se sentia à vontade para extrair o lucro máximo. Viviam ameaçados com o inferno.
Os interessados nos lucros do comércio sentiram a necessidade de urna nova ética religiosa, mais adequada à época de expansão comercial e de transição do feudalismo para o capitalismo. Como veremos mais adiante, a ética protestante mostrou-se bem mais identificada com o espirito dos tempos modernos.
Fatores políticos
Com o fortalecimento das monarquias nacionais, os reis passaram a encarar a Igreja, que tinha sede no Vaticano e utilizava o latim, como entidade estrangeira que interferia em seus países. A Igreja, por seu lado, insistia em se apresentar como instituição universal que unia o mundo cristão.
Essa noção de universalidade, entretanto, perdia força, pois crescia o sentimento nacionalista. Cada Estado, com sua língua, seu povo e suas tradições, estava mais interessado em afirmar suas diferenças em relação a outros Estados do que suas semelhanças. A Reforma Protestante correspondeu a esses interesses nacionalistas. Exemplo: a doutrina cristã dos reformadores foi divulgada na língua nacional de cada país e não em latim, o idioma oficial da Igreja.
Fatores religiosos
Entre os motivos religiosos que determinaram um descontentamento em relação à Igreja católica, podemos citar:
- Corrupção do clero religioso: para ganhar dinheiro, o alto clero de Roma iludia a boa-fé das pessoas através do comércio de relíquias sagradas. Milhares de pessoas eram enganadas comprando espinhos que coroaram a fronte de Cristo, panos embebidos pelo sangue do rosto do Salvador, objetos pessoais dos santos etc. Além desse Comércio fraudulento, a Igreja passou a vender, também, indulgencias, isto é, o perdão dos pecados. Mediante um bom pagamento, destinado a financiar obras da Igreja, os fiéis poderiam comprar a salvação e a entrada para o céu.
- Ignorância do clero: a maior parte dos sacerdotes desconhecia a própria doutrina católica e demonstrava absoluta falta de preparo para funções religiosas. A ignorância e o mau comportamento do clero representavam sério problema, pois a Igreja dizia que os sacerdotes eram os intermediários entre os homens e Deus. Ora, se esses intermediários se mostravam ignorantes e incompetentes, era preciso buscar novos caminhos para o encontro com Deus.
- Aumento dos estudos religiosos: com a utilização da imprensa, aumentou o número de exemplares da Bíblia que podiam chegar às mãos dos estudiosos e da população. A divulgação dos textos sagrados e de outras obras religiosas contribuiu para o surgimento de diferentes interpretações da doutrina cristã. Apareceu, por exemplo, tinia corrente religiosa que, buscando apoio na obra de Agostinho, afirmava que a salvação do homem era alcançada pela fé. Essas ideias contrariavam a posição da Igreja, baseada em Tomás de Aquino, que dizia o seguinte: são a fé e as boas obras que conduzem à salvação.
Fatores socioeconômicos
A Igreja católica, durante o período medieval, condenava o lucro (a usura). Essa “moral econômica” entrava em choque com a atividade da burguesia. Grande número de comerciantes não se sentia à vontade para extrair o lucro máximo. Viviam ameaçados com o inferno.
Os interessados nos lucros do comércio sentiram a necessidade de urna nova ética religiosa, mais adequada à época de expansão comercial e de transição do feudalismo para o capitalismo. Como veremos mais adiante, a ética protestante mostrou-se bem mais identificada com o espirito dos tempos modernos.
Fatores políticos
Com o fortalecimento das monarquias nacionais, os reis passaram a encarar a Igreja, que tinha sede no Vaticano e utilizava o latim, como entidade estrangeira que interferia em seus países. A Igreja, por seu lado, insistia em se apresentar como instituição universal que unia o mundo cristão.
Essa noção de universalidade, entretanto, perdia força, pois crescia o sentimento nacionalista. Cada Estado, com sua língua, seu povo e suas tradições, estava mais interessado em afirmar suas diferenças em relação a outros Estados do que suas semelhanças. A Reforma Protestante correspondeu a esses interesses nacionalistas. Exemplo: a doutrina cristã dos reformadores foi divulgada na língua nacional de cada país e não em latim, o idioma oficial da Igreja.
A
Reforma Protestante
1 de outubro é comemorado como o aniversário da Reforma Protestante.
Nesse dia, no ano de 1517, o monge alemão e professor universitário Martinho
Lutero fixou suas 95 proposições (teses) nas portas da Catedral da cidade de Winttemberg.
Aquele ato, bem como o conteúdo daquele documento, originou o movimento
conhecido como a Reforma Religiosa do Século 16. Esse movimento é considerado
como o mais importante ato de Deus em prol da revitalização de sua Igreja desde
o período apostólico.
A participação de Lutero foi decisiva para o início e primeiros avanços
da Reforma Protestante, mas o movimento continuou a desenvolver-se mesmo depois
de sua morte. Na galeria dos reformadores encontramos homens como João Calvino,
Ulrico Zuínglio, Martin Buccer e tantos outros que abraçaram a causa da
Reforma. Todavia, para se compreender corretamente a importância daquele
movimento e sua relevância para hoje é necessário considerar a sua necessidade
e verdadeira natureza.
A necessidade da Reforma
A Reforma Protestante se fez especialmente necessária devido à corrupção
do cristianismo ao longo dos séculos. Aquele era um contexto distanciado da
Palavra de Deus. A esse respeito o teólogo Alister McGrath descreve o
cristianismo ensinado e praticado naquele período como uma forma de
“cristopaganismo”. Segundo ele, a religião cristã daquela época era
caracterizada por cinco aspectos:
1. Uma
verdadeira confusão doutrinária. As pessoas não
estavam certas do que criam e nem porque criam. Aquela foi uma época de grandes
incertezas, misticismo e intensa confusão;
2. Uma
liderança ignorante. O clero era alvo de chacotas devido à sua notável
ignorância. Não havia verdadeiro ensino das Escrituras e as superstições
dominavam;
3. Superficialidade
religiosa. O compromisso e a apropriação pessoal do evangelho eram raridades.
Aqueles que se mostravam zelosos nessa área eram julgados hereges, inclusive
alguns sendo queimados na fogueira (ex. João Huss);
4. Acentuada
separação entre o clero e o laicato. Os leigos eram
desprezados, não sendo vistos como membros da Igreja, além de serem explorados
e maltratados pela Igreja. Somente o clero e os ricos eram valorizados;
5. A
superstição religiosa. A ignorância religiosa resultava em ansiedade e,
consequentemente, as pessoas se “agarravam” a qualquer apelo supersticioso.
Como resultado, a igreja daquela época realmente se parecia mais com uma
instituição pagã do que com o cristianismo bíblico.[1]
Nesse contexto, a venda das indulgências (a venda da promessa de perdão)
foi apenas um meio pelo qual o erro doutrinário da igreja se tornou claro para
Martinho Lutero. Em sua tese de número 27, ele denunciou aquela prática ao
afirmar: “Pregam futilidades humanas quantos alegam que no momento em que a
moeda soa ao cair na caixa a alma se vai do purgatório”.
A natureza da Reforma
O cerne da Reforma Protestante era de natureza teológica, pois a grande
questão debatida naquela época dizia respeito ao perdão dos pecados. A pergunta
que clamava por resposta era: como os pecados são perdoados e como alguém pode
ser salvo? O catolicismo romano defendia que cada pessoa deve salvar a si
mesma. Por outro lado, os reformadores defendiam que a salvação é pela fé
somente (Rm 1.17). Eles enfatizaram a verdade bíblica que “o homem é
justificado pela fé, independentemente das obras da lei” (Rm 3.28).
Com o passar do tempo os reformadores resumiram o seu ensino em cinco
tópicos, cada um deles ressaltando o Evangelho da graça de Deus:
1. A salvação
é somente pela graça (Sola gratia). Nada que o homem
realiza pode resultar em méritos para a sua salvação. Todas as pessoas estão
culpadas e condenadas por seus próprios atos, pois “todos nós somos como o
imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós
murchamos como a folha, e as nossas iniquidades, como um vento, nos arrebatam”
(Is 64.6);
2. O
sacrifício de Jesus Cristo foi perfeito e suficiente para a redenção do pecador
(Solus Christus). A ressurreição de Cristo foi uma prova de que o
Pai aceitou o seu sacrifício por quem ele morreu, pois a Bíblia afirma: “Cristo
não entrou em santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo
céu, para comparecer, agora, por nós, diante de Deus” (Hb 9.24). Por causa de
sua morte, nenhuma dívida permanece para ser paga pelos seus discípulos;
3. Somente
pela fé o cristão pode desfrutar das bênçãos da salvação concedidas por Cristo
(Sola fide). O justo vive pela fé e continua crendo nas
promessas feitas por Deus e registradas em sua Palavra. A condição para a
salvação continua sendo: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e a tua casa”
(Atos 16.31);
4. O propósito
da existência humana é viver em comunhão com Deus e para a sua glória (Soli
deo gloria). Sem a comunhão com Deus a existência humana se
torna desesperadora, vazia e desprovida de significado. Deus criou o ser humano
à sua imagem e para a sua glória, e o coração humano só encontra descanso
quando descansado em Deus.
5. Somente a
Bíblia possui autoridade final sobre os cristãos (Sola Scriptura). O
fundamento da Reforma Protestante foi o seu compromisso com a autoridade da
Palavra de Deus. Enquanto os religiosos da época defendiam a autoridade da
hierarquia da igreja, do papa e dos sacerdotes, os reformadores defendeream a
centralidade das Escrituras na vida cristã.
Esses tópicos doutrinários enfatizados pelos reformadores se tornaram
conhecidos como “os solas” da Reforma. Eles representam a síntese
daquilo que os reformadores reivindicavam.
O significado da Reforma para os dias atuais
As verdades defendidas pelos reformadores possuem aplicação direta para
a igreja em todas as eras. O evangelho não muda de uma época para outra; ele
nunca fica desatualizado e nunca haverá uma mensagem que destituirá o evangelho
de sua importância. A Reforma foi mais do que um mero evento histórico, ela
possui uma mensagem relevante para os dias atuais.
Em primeiro lugar, a Reforma ensina que a vitalidade da fé cristã está
intimamente conectada com a redescoberta da riqueza do evangelho.
Os reformadores foram tomados pela alegria da mensagem do evangelho e sua
aplicação à vida diária, pois o evangelho deve afetar toda a vida do cristão e
não apenas a devoção religiosa.
Também, a Reforma testifica sobre importância do estudo diário
da Palavra de Deus. A Bíblia para os reformadores deixou de ser apenas um
“livro de referência religiosa” e passou a ser interpretada pelo que ela
realmente é: a Palavra escrita de Deus a dirigir e orientar o cristão nesse
mundo. A negligência do estudo diário da Palavra resulta em confusão e
retardamento no processo de santificação.
Além do mais, ao estudar sobre a Reforma o cristão contemporâneo pode
aprender sobre a necessidade do trabalho cristão para o seu
desenvolvimento espiritual. Isso é especialmente observado na maneira como
os reformadores empregaram a “força leiga” na pregação do evangelho. Eles não
confinaram essa atividade apenas ao clero, mas cada cristão se tornou um
missionário das boas novas do reino de Deus. A Reforma é um testemunho claro da
importância da participação de cada cristão em prol do avanço do Reino.
Por último, a Reforma ensinou que Deus está sempre interessado e
comprometido com a igreja. Ele sempre intervém em benefício da
revitalização do seu povo e nunca abandona aqueles que nele confiam. Essas lições
continuam sendo preciosas para nossas vidas nos dias atuais.
Os Valdenses
A história dos Valdenses é fascinante e
inspiradora. É um exemplo de devoção às Escrituras e de perseverança que serve
de inspiração para os cristãos de todas as eras.
Por suas origens distantes, no século
XII, os Valdenses são comumente chamados de “a mais antiga entre
as Igrejas Evangélicas”. Tudo começa quando Pedro Valdo (c. 1140 – c.
1220), um próspero comerciante da cidade de Lyon (França), resolve abandonar
seus negócios e doar todos os seus bens aos pobres – inspirado na passagem
neotestamentária que narra o diálogo entre Jesus e o jovem rico (Mateus
19:16-30).
O Israel dos Alpes
Durante toda a Idade Média, numerosos grupos de
irmãos se separaram da Cristandade oficial para procurar uma forma de
cristianismo mais puro e apegado à simplicidade evangélica. Já vimos o alto
preço que deveriam pagar muitos deles por causa da sua fidelidade à Palavra de
Deus. O caminho da fé foi regado com o sangue do seu martírio.
Na Europa ocidental, cátaros e albigenses
cresciam, especialmente na França e Espanha. E nos vales alpinos do norte da
Itália e no sul da Suíça, prosperaram por vários séculos um grupo de irmãos de
características singularmente especiais a quem a história designou com o nome
de Valdenses.
Suas origens
Embora estreitamente aparentados com os
albigenses, a sua origem parece remontar-se a uma época anterior. A antigüidade
dos Valdenses é testemunhada por várias fontes, tanto internas como externas ao
movimento, e também por algumas características muito particulares de sua fé e
práticas. O inquisidor Rainero, que morreu em 1259, escreveu: "Entre todas
estas seitas... a dos leonistas (leia-se Valdenses).. foi a que por mais tempo
tem existido, porque alguns dizem que tem perdurado desde os tempos de Silvestre
(Papa em 314-335 DC), outros, do tempo dos apóstolos". Marco Aurelio
Rorenco, pároco de São Roque em Turin, em seu reconto e história dos mesmos,
escreveu que os Valdenses são tão antigos que não se pode precisar o tempo de
origem. Além disso, os próprios Valdenses se consideravam muito antigos e
originavam a sua fé dos tempos apostólicos.
Outra evidencia a favor da sua antigüidade é a
sua relativa falta de antagonismo para a cristandade oficial, diferente de
outros grupos (incluindo albigenses) que se separaram dela como uma reação
contra os seus enganos. Os Valdenses se caracterizavam por uma atitude mais
tolerante, pois estavam dispostos a reconhecer que havia muitos homens que
caminharam e ainda caminhavam com Deus ali. Por isso, mais adiante e quando
entraram em negociações com os Reformadores, mostraram-se dispostos a
reconhecer o que tinha de bom dentro da igreja organizada, o qual estes últimos
rejeitaram completamente.
O reformador suíço Guillermo Farell se lamentava,
por exemplo, da falta de rigor e concordância com as doutrinas protestantes
mais duras e anticatólicas, entre os Valdenses com quem entrou em contato. Em
uma de suas cartas se queixa desta "característica" que ele atribuía
ao declínio espiritual do movimento, sem perceber a longa história espiritual
que existia atrás dela.
Na verdade, embora seja impossível precisar o seu
início, é provável que fossem em seu núcleo essencial um remanescente que se
separou da cristandade oficial rejeitando a união da igreja e o estado, depois
da ascensão de Constantino em 311 DC (por ex: os novacianos). Alguns deles
puderam ter emigrado para os remotos e isolados vales alpinos, onde conservaram
intactas por muitos séculos a sua fé e pureza evangélicas, alheios a todas as
controvérsias e lutas posteriores. Embora mais adiante tivesse estreita
comunhão com outros grupos de irmãos perseguidos.
De fato, os numerosos irmãos perseguidos,
conhecidos pelos diferentes nomes que lhes eram dados por seus perseguidores,
chegaram, com o tempo, a constituir um testemunho unido e de vasto alcance,
fora da cristandade organizada. Graças aos escritos que os Valdenses
conseguiram perdurar apesar da perseguição. E hoje podemos saber que aqueles
grupos de irmãos, unidos por estreitos laços de comunhão, não eram absolutamente
hereges gnósticos ou maniqueus, tal como pretendiam os que os perseguia e
matavam, mas sim verdadeiros crentes ortodoxos em sua fé e bíblicos em suas
práticas. Assim o Papa Gregório IX declarava: "Nós excomungamos e
anatematizamos a todos os hereges, cátaros, patarinos, Homens Pobres de Lion
(Valdenses), arnaldistas... e outros, qualquer que seja o nome pelo qual são
conhecidos, já que têm de fato diferentes rostos, mas estão unidos por suas
caldas e se reúnem no mesmo ponto, levados por sua vaidade".
Também o inquisidor Davi de Augsburgo reconhecia
o fato de que em princípio as seitas, que resistiam juntas na presença dos seus
inimigos, "eram uma só seita".
Pedro de Valdo
Um dos homens mais conhecidos e destacados entre
eles foi Pedro de Valdo, um bem-sucedido comerciante e banqueiro de Lion que,
depois de uma atenta leitura da Bíblia foi impactado profundamente pelas
palavras do Senhor em Mateus 19:21, "Se quer ser perfeito, vai, vende tudo
o que tem e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e depois vêm e
segue-me". Em conseqüência, em 1173 deu uma boa quantidade da sua fortuna
a sua esposa, repartiu o resto aos pobres e se entregou a uma vida itinerante
de pregação. Outros companheiros se uniram a ele e viajaram juntos pregando do
mesmo modo. Foram chamados 'Os Homens Pobres de Lion'. Em 1179 pediram ao Papa
Alexandre III uma licença especial para continuar com os seus trabalhos, mas
esta foi negada. Mais adiante foram inclusive excomungados.
Pedro de Valdo entrou em íntima relação com os
Valdenses dos vales alpinos, e, possivelmente por essa razão, muitos
historiadores o consideraram erroneamente o seu fundador, depois de observar a
aparente coincidência entre o seu sobrenome 'Valdo' e o nome 'Valdenses'. Mas
este suposto vem senão do costume de querer ver um fundador ou líder na origem
de todo movimento espiritual. De fato, o nome 'Valdenses' parece derivar-se
melhor do francês 'Vallois' (pessoas dos vales), que aparece em muitos
manuscritos anteriores a Pedro de Valdo.
No entanto, De Valdo chegou a ser considerado
como um dos seus apóstolos pelos mesmos Valdenses, a quem ajudou a sair do
relativo isolamento em que se encontravam para lhes dar um notável impulso
missionário. Realizou numerosas viagens e espalhou a fé em muitos países.
Assim, diversas congregações de irmãos floresceram por toda a Europa ocidental,
e se converteram em refúgio de outros irmãos perseguidos, tais como albigenses
e cátaros.
Pedro de Valdo morreu provavelmente na Boêmia no
ano de 1217, onde trabalhou ardentemente para semear a semente do Evangelho,
que floresceria mais tarde entre os Irmãos Unidos e João Huss.
Fé e práticas
Os Valdenses reconheciam na Escritura a única
autoridade final e definitiva para sua fé e práticas. Criam na justificação
pela fé e rejeitavam as obras meritórias como fonte de salvação. Em 1212 um
grupo de 500 Valdenses de várias nacionalidades foram detidos em Estrasburgo e
queimados na fogueira pela Inquisição. Então, um dos seus pastores declarou
pouco antes de morrer: "Nós somos pecadores, mas não é a nossa fé a que
nos faz tais; tampouco somos culpados da blasfêmia pela qual somos acusados sem
razão; mas esperamos o perdão dos nossos pecados, e isto sem a ajuda do homem,
e tampouco através dos méritos ou de nossas obras".
Além da Escritura não sustentavam nenhum credo ou
confissão de fé particular. Apesar disso, conseguiram conservar quase intactas
a sua fé e as suas práticas ao longo de vários séculos; o qual prova de
passagem que o melhor remédio contra a heresia e o engano é a espiritualidade apoiada
em uma profunda fidelidade e apego à Escritura.
Tinham, em particular, a mais alta avaliação
pelas palavras e obras do Senhor Jesus Cristo nos Evangelhos. A sua meta
principal era seguir a Cristo, guardando as suas palavras e imitando o seu
exemplo. Não davam muita importância ao conhecimento meramente teológico e
mental da verdade, pois insistiam que isto só podia ser entendido por meio da
luz que o Espírito Santo concede ao coração daqueles que obedecem as palavras
de Deus. Da mesma maneira, colocavam em um lugar central da sua vida os ensinos
do Sermão do Monte, e as consideravam como uma regra de vida para todos os
filhos de Deus.
Além disso, rejeitaram as disputas doutrinarias
como infrutíferas, e aceitavam os ensinos dos homens de Deus de toda época e
lugar, caso conformassem à Escritura. O seu maior interesse estava em uma
espiritualidade real e prática.
O inquisidor Passau disse a respeito deles:
"As pessoas podem conhecê-los por seus costumes e suas conversações.
Ordenados e moderados evitam o orgulho nas vestes, que não são de tecidos
baratos nem luxuosos. Não se metem em negócios, a fim de não verem-se expostos
a mentir, a jurar nem enganar. Como obreiros vivem do trabalho das suas mãos.
Os seus próprios mestres são tecelões ou sapateiros. Não acumulam riquezas e se
contentam com o necessário. São castos, sobre tudo os lioneses, e moderados em
suas comidas. Não freqüentam os botequins nem os bailes, porque não amam essa
classe de frivolidades. Procuram não zangar-se. Sempre trabalham e, no entanto,
acham tempo para estudar e ensinar. São conhecidos também por suas conversações
que são ao mesmo tempo sábias e discretas; fogem da maledicência e se abstêm de
conversas vãs e zombadoras, assim como da mentira. Não juram e nem sequer dizem
'é verdade', ou 'certamente', porque para eles isso equivale a jurar".
Quanto à ordem da igreja, não tinham nenhuma
classe de organização centralizada, nem hierarquia superior. As suas
assembléias eram dirigidas por anciões ou presbíteros a quem chamava 'Barbas'.
Celebravam juntos a Ceia do Senhor, sem excluir a nenhum crente dela.
Também reconheciam a existência de um ministério
apostólico extra local e itinerante. Os apóstolos Valdenses viajavam
continuamente entre as igrejas para ensinar, encorajar e ganhar novos
convertidos. Não possuíam bens econômicos nem famílias, já que as suas vidas
estavam em contínuo perigo e aflição. As suas necessidades eram supridas pelos
irmãos, quem os tinha na maior estima e reconhecimento. Viajavam de dois em
dois, sempre um mais velho com um mais jovem como aprendiz. Muitos tinham conhecimentos
de medicina para ajudar os necessitados. Também havia entre eles homens
altamente educados e eruditos. Freqüentemente as pessoas os chamavam 'Amigos de
Deus' devido a sua profunda espiritualidade e simplicidade. Pedro de Valdo,
como vimos, foi um deles.
Perseguições e martírios
Apesar do seu relativo e tranqüilo isolamento, as
constantes atividades missionárias dos seus apóstolos atraíram finalmente para
si a atenção e o ódio da cristandade organizada. Os numerosos santos
perseguidos em outras partes encontravam refúgio em suas assembléias, que se
tinham espalhado por vários países da Europa. Este fato muito em breve atraiu
sobre eles o olhar implacável dos inquisidores.
Em 1192, alarmado pelo crescente número dos
Valdenses na Espanha, o Rei Alfonso de Aragón emitiu um decreto contra eles nos
seguintes termos: "Ordenamos a todo valdense que, já que estão
excomungados da santa igreja, inimigos declarados deste reino, têm que
abandoná-los, e igualmente a outros estados dos nossos domínios. Em virtude
desta ordem, qualquer que a partir de hoje receber em sua casa os mencionados
Valdenses, assistir os seus perniciosos discursos, dar-lhes mantimentos,
atrairá por isso a indignação do Deus todo-poderoso e a nossa; os seus bens
serão confiscados sem apelação, e será castigado como culpado do crime de
lesa-majestade... Além disso, qualquer nobre ou plebeu que encontre dentro dos
nossos estados a um destes miseráveis, saiba que se os ultrajar, maltratá-los e
os perseguir, não fará com isto nada que não nos seja agradável". Muitos
irmãos sofreram o martírio durante a perseguição que desencadeou a partir do
decreto real.
Mais adiante, em 1380, um emissário da igreja
oficial foi enviado para ocupar-se com eles nos vales de Piamonte. Durante os
próximos 30 anos, 230 irmãos foram queimados na fogueira e seus bens repartidos
entre os seus perseguidores. A perseguição se agravou em 1400 e, então, muitas
mulheres e crianças procuraram refúgio nas altas montanhas. Ali a maior parte
deles morreu de fome e frio. Em 1486 se emitiu uma carta pontifícia em oposição
a eles e os vales foram invadidos por um exército de 8000 soldados de
Archidiácono de Cremona, cujo objetivo era extirpar os hereges. Mas esta vez os
pacíficos camponeses Valdenses tomaram as armas para defender-se, por isso o
sangrento e desigual conflito se estendeu por quase 100 anos. A resistência dos
irmãos foi então tão heróica, que receberam o nome de Israel dos Alpes'.
Quando começou a Reforma, os exércitos da igreja
organizada aproveitaram para tomar vingança contra os Valdenses, e arrasaram
literalmente várias das suas aldeias e povos. Em Provenza, no sul da França,
floresciam 30 aldeias Valdenses que tinham começado a fazer contato com os
líderes da Reforma. Inteirados, os seus inimigos convenceram mediante ardis e
mentiras o rei da França, Francisco I. Pressionado pelo Cardeal Tournon,
ordenou que todos os Valdenses fossem exterminados (19 de janeiro de 1545). Foi
enviado um exército contra eles, que, depois de sete semanas de matanças,
terminou com a vida de cerca de 3 a 4 mil homens e mulheres. A brutalidade e o
horror se estenderam pela região. 22 aldeias ficaram totalmente destruídas. Os
poucos sobreviventes foram enviados para servir de remadores nas galeras por
toda a vida e apenas um reduzido número conseguiu escapar para a Suíça.
Considerações finais
Apesar de tudo, os Valdenses, diferente dos
outros grupos perseguidos, sobreviveram. Nos dias da Reforma muitos passaram a
formar parte das filas protestantes, enquanto que outros se uniram a assim
chamada Reforma Radical dos Anabatistas. Junto com eles sobreviveram
importantes escritos que nos ajudam a entender a fé daqueles irmãos cujos
testemunhos foram calados pelo martírio, tais como os cátaros e albigenses, com
quem os Valdenses se encontravam estreitamente unidos. E por eles aprendemos
que um remanescente fiel lutou, sofreu e morreu por Cristo durante vários
séculos de escuridão e apostasia, quando parecia que a fé bíblica tinha
desaparecido da terra. E agora um quadro inteiramente diferente surge diante
dos nossos olhos. Não se tratavam de hereges, mas sim de verdadeiros irmãos e
irmãs em Cristo.
Aqui e lá, em todas as partes da Europa onde
homens e mulheres fiéis buscavam o Senhor, a luz da sua palavra resplandecia e
um testemunho se levantava no meio da escuridão. Mas o inimigo que enfrentavam
era formidável, ardiloso e cruel. As suas armas preferidas eram a difamação e o
martírio. Diante delas, todos os seus esforços pareciam destinados ao fracasso
e a aniquilação. As fogueiras se multiplicavam e os horrores pareciam não ter
fim. No entanto, a sua fé sobreviveu e prevaleceu através de toda aquela imensa
maré de malignidade que ameaçou inundá-los por completo.
E a luz alçou no final daquela época de trevas
ainda invicta e resplandecente. Desta maneira, junto a albigenses e cátaros e
outros cujo testemunho foi silenciado e apagado da história, os Valdenses
mantiveram erguido a chama e a fizeram chegar até os nossos dias, para falar
por todos os irmãos cujo invencível testemunho de fé e amor por Cristo creram
ter feito calar para sempre; e nos dizer que em todos eles brilhou de maneira
clara e singular a luz invencível de Cristo e o seu Evangelho eterno, no meio
da adversidade mais implacável. Por isso, o seu legado espiritual resulta imperecível.



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