Classe: Adultos
Revista: Do professor -
CPAD
Data da aula: 18 de Junho de 2017
Trimestre: 2° de 2017
Texto Áureo
"E José, despertando do sonho,
fez como o anjo do Senhor lhe ordenara, e recebeu a sua mulher." (Mtl.24)
VERDADE PRÁTICA
José, pai de Jesus, nos deixou um
exemplo marcante de um caráter
humilde, submisso e amoroso.
Capítulo12
JOSÉ, O PAI TERRENO DE JESUS:
UM HOMEM DE CARÁTER
Neste capítulo, estudaremos um
pouco do que a Bíblia revela sobre a vida de José de Nazaré, esposo de Maria,
mãe de Jesus. Seu lado humano mostra-nos um homem humilde, trabalhador, que
exercia o ofício de carpinteiro. José era homem dotado de caráter justo,
temperante e amoroso. No lado espiritual, ele tinha experiências com Deus. Ao
saber que a noiva ficara grávida, mesmo sabendo dela que era algo sobrenatural,
José não a quis infamar e resolveu deixá-la secretamente. Ele correu grande
risco. Se a sociedade soubesse que ele era noivo de Maria e a tinha abandonado,
provavelmente tal fato seria motivo para suporem que ele teria cometido
adultério ou fornicação e fugira para não ser apanhado em flagrante e ser
apedrejado com a noiva.
Deus, porém, ao escolher a mulher em
cujo ventre Jesus iria nascer, também escolheu aquele que haveria de dar apoio
e proteção a ela e a seu filho primogênito. Dessa forma, Jesus passou a ser partícipe
do plano salvífico de Deus: “mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu
Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo
da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos” (G1 4.4,5). A encarnação de
Jesus é prova de que Deus valoriza a família. Para Ele, uma família tem que ser
formada a partir de um homem, que se une pelo matrimônio a uma mulher, que
tenham filho ou filhos, para juntos servirem a Deus. Jesus nasceu no seio de
uma família, que, além dEle, viu nascer mais quatro filhos e, pelo menos, duas
filhas (Mt 13.55). Deus concedeu a José uma missão por demais elevada. Ele tornou-se
o pai adotivo de Jesus, para cuidar de sua vida espiritual, moral e física ao
lado de Maria. Pouco se tem na Bíblia sobre a infância de Jesus, mas os rápidos
registros indicam que sua formação e educação foram bastante sólidas e com base
na
Palavra
de Deus: “E o menino crescia e se fortalecia em espírito, cheio de sabedoria; e
a graça de Deus estava sobre ele” (Lc 2.40). Maria e José eram muito zelosos
quanto à educação de Jesus. O texto mostra que seu crescimento era equilibrado
e integral. Ele crescia espiritualmente, intelectualmente e cheio da graça de
Deus.
Desde o nascimento de Jesus, José foi um
pai presente em todas as etapas de sua vida, especialmente na infância e na
adolescência. Não se sabe se José morreu antes ou depois de Jesus iniciar o
seu ministério público, mas o pouco que se sabe sobre seu papel de pai terreno
faz-nos crer que ele dedicou-se com muito amor à criação do menino, com base
nos princípios da Lei de Deus. José é um exemplo para os dias presentes, em que
muitos pais cristãos estão completamente descuidados da educação cristã de seus
filhos. Muitas crianças e adolescentes estão sendo educadas pela “babá
eletrônica”, a televisão secular e pela “mestra virtual”, que é a Internet.
Muitos pais já não seguem mais o conselho de Deus: “Instrui o menino no caminho
em que deve andar, e, até quando envelhecer, não se desviará dele” (Pv 22.6).
Ao lado de Maria, a mãe de Jesus, José
cumpriu a sua missão, pois participou da educação do menino-Deus até Ele ter consciência
de que era o Filho de Deus, enviado ao mundo para salvar o homem perdido.
Quando Jesus teve consciência de sua natureza divina e que Ele era a “semente
da mulher” prevista por Deus depois da Queda, tornou-se independente para
iniciar, desenvolver e cumprir seu ministério terreno até à consumação do plano
salvífico de Deus na cruz do calvário. José não estava junto à cruz, mas Maria testemunhou o supremo
sacrifício do “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29).
I - JOSÉ, O PAI DE
JESUS
1. Quem Era ele?
José, marido de Maria, era um homem de
caráter exemplar. Pouco se sabe sobre sua vida, e mesmo assim, o que se sabe é aquilo
que está relacionado aos fatos acerca do nascimento de Jesus, como um
personagem coadjuvante, porém de grande valor, na bela história de encarnação
do Verbo (Jo 1.1). Era um nome também muito comum em seu tempo. Ele também é
chamado de José de Nazaré, na Galiléia, pois a Bíblia registra os nomes de
outros “Josés”.1 Assim como a esposa, José era uma pessoa simples, humilde, talvez
mais conhecido que ela por causa de sua profissão. Ele exercia o ofício de
carpinteiro. Há quem creia que ele era o único carpinteiro do lugar. Não era um
homem rico, mas tinha sua profissão que, depois, haveria de ensinar a Jesus (Mc
6.3).
Ele entrou na genealogia de Jesus
contribuindo para o cumprimento das profecias, que indicavam que o Messias
faria parte da descendência de Davi (2 Sm 7.12,16). Quanto à sua idade, a Bíblia
não faz menção. Tradições cristãs dizem que José era bem mais velho que Maria.
Gardner diz que “Não há como saber a idade de José, comparando-se com a de
Maria, ou as circunstâncias específicas em que se conheceram e ficaram noivos.
A ausência de seu nome em Mt 13.35 e Jo 2.1, passagens onde se esperaria que
estivesse presente se estivesse vivo, implica que ele era bem mais velho do que
ela e já havia falecido quando Jesus iniciou o seu ministério público (ou, logo
depois, em Lc 3.23)”.1 2
2. Pai Terreno de Jesus
José não era o pai biológico de Jesus,
mas o seu pai adotivo, visto que Jesus foi gerado pela ação sobrenatural do
Espírito Santo, no ventre de Maria
(Lc 1.35). É também chamado de “pai-guardião”
de Jesus. Esse fato é de grande importância, pois ele era “da casa e família de
Davi” (Lc 2.4). Perante a lei, José era
o pai de Jesus, incluindo-o na ascendência de sua família e também na
ascendência de Maria, conforme o registro de Lucas (3.23-38). Dessa forma, ele
garantiu a confirmação de Jesus na descendência real de Davi e da tribo de
Judá. Mateus registra a árvore genealógica de Jesus a partir da descendência de
Davi, por meio de Natã, seu filho (Lc 3.31), visto que o último rei da casa de
Davi, em Judá, Jeoiaquim, sofreu terrível maldição de que nenhum descendente
dele se assentaria no trono de Davi (ver Jr 22.28-30).
3. José, um Sonhador Obediente
José de Nazaré era homem de profunda
comunhão com Deus e teve experiências notáveis na área espiritual que marcaram
toda a sua vida de um piedoso servo de Deus. Como noivo de Maria, ao saber da
gravidez dela, pensou em deixá-la secretamente para não infamá-la. Mas Deus,
que tem o controle dos fatos e das pessoas envolvidas em seus divinos
propósitos, entrou em ação e deu a José um sonho tranquilizador para que não
saísse do seu lugar: “E, projetando ele isso, eis que, em sonho, lhe apareceu
um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber a Maria, tua
mulher, porque o que nela está gerado é do Espírito Santo. E ela dará à luz um
filho, e lhe porás o nome de JESUS, porque ele salvará o seu povo dos seus
pecados” (Mt 1.20,21). Deus não deixou que ele concretizasse seu desejo de
fugir às escondidas para não sofrer as consequências da gravidez inesperada de
sua noiva.Deus tem muitas maneiras de revelar-se aos que o temem e andam
conforme a sua direção: “E disse: Ouvi agora as minhas palavras; se entre vós
houver profeta, eu, o Senhor, em visão a ele me farei conhecer ou em sonhos
falarei com ele” (Nm 12.6).
José do Egito, filho de Jacó, era um
jovem sonhador que recebia sonhos da parte de Deus (Gn 37.7-10). Ele tornou-se
famoso após interpretar sonhos de dois colegas de prisão (Gn 40.1-23) e,
depois, os sonhos preocupantes do rei do Egito
(Gn 41.1-37). Daniel era entendido em sonhos (Dn 1.17); os magos foram avisados por sonho
para não retornar a Herodes, que desejava matar Jesus (Mt 2.12). Dentre as
maneiras de revelar sua vontade, Deus usa “visão” e “sonhos”. A José, noivo de
Maria , ele revelou que sua noiva não havia fornicado, mas que iria ser mãe
pela intervenção sobrenatural do Espírito Santo (Mt 1.20,21). Tempos depois,
após a visita dos magos do Oriente a Jesus, Deus falou com José em sonhos,
orientando que ele se levantasse e fugisse com Maria e o bebê para o Egito,
pois Herodes queria matá-lo (Mt 2.13,14).
II
- O CARÁTER EXEMPLAR DE
JOSÉ
1. Era um Homem Justo
O caráter de um homem torna-se mais
visível nos momentos difíceis, em meio às adversidades. Mateus diz que, ao
saber que Maria estava grávida, mesmo tendo sido informado de que se tratava de
uma operação realizada pelo Espírito Santo, José preferiu fugir para não causar
embaraço e constrangimento à sua jovem noiva. O texto diz: “Então, José, seu marido,
como era justo e a não queria infamar, intentou deixá-la secretamente” (Mt
1.19). Sem dúvida, José viveu o momento mais perturbador de sua vida. Ele ainda
não estava casado com Maria. A gravidez dela transtornou seus pensamentos. O
casamento em Israel tinha três etapas: primeiro, os jovens assumiam o
compromisso de amarem um ao outro visando o matrimônio; a segunda fase era a do
noivado, quando já eram considerados casados de direito, mas não de fato. Essa
fase era tão séria que, se houvesse o rompimento do noivado, tinha que haver o
processo de divórcio. O terceiro passo era o do casamento propriamente dito. Foi
na fase de noivado que José, por meio de Maria, tomou conhecimento de sua
experiência com o mensageiro celestial.
Nessas circunstâncias dramáticas, José
mostrou a grandeza de seu caráter justo. Fugindo da constrangedora situação e desaparecendo
para bem longe, José poderia recomeçar a vida anonimamente. Em termos humanos,
ele tinha razão. Não era fácil para um homem do seu tempo ser acusado de
adultério. Ele poderia provar que não fora o causador da gravidez, e Maria seria
apedrejada sem misericórdia. Mas seu caráter impediu-o de agir deforma
precipitada. Ele preferia sair de cena a prejudicar a reputação da noiva. Como
Deus tinha incluído José em seus planos, entrou em ação e tranquilizou seu
coração de forma especial, falando-lhe através de um sonho que mudou todo o pensamento
e decisão de José.
2. Um Homem Obediente
A obediência era um dos traços mais
marcantes do caráter de José. Ao ter a revelação acerca da natureza da gravidez
santa de Maria e receber a ordem de Deus para desistir de sua fuga para não
fazer Maria sofrer, José submeteu-se à vontade divina: “E José, despertando do
sonho, fez como o anjo do Senhor lhe ordenara, e recebeu a sua mulher” (Mt
1.24). Notemos que José não viu o anjo. Tão somente recebeu a revelação por
meio de um sonho. Ele poderia ter despertado e dado tempo para verificar se não
teria tido apenas um sonho resultante de muitas ocupações (Ec 5.3), mas ele
teve o discernimento espiritual de que se tratava de um sonho de origem divina.
E obedeceu prontamente e tão logo despertou de seu merecido sono. Com amor e
compreensão, abraçou Maria e contou a ela acerca da experiência que Deus lhe proporcionara
sobre a gravidez da noiva.
Certamente, podemos conjecturar: Maria
segurou sua mão, deu-lhe um abraço afetuoso e disse-lhe que era isso o que ela
esperara dele e ficou muito grata por seu gesto de amor e obediência a Deus.
Ao receber Maria como sua esposa, José contribuiu para que Jesus nascesse no
seio de uma família, a sagrada família. Ele cumpriu o papel de pai de forma
bastante zelosa. Maria cumpriu o papel da mãe extremada, amorosa e santa, ainda
que fosse, como se entende, uma adolescente. Depois da manjedoura, Jesus foi levado
para a casa de seus pais em Belém. Ali, receberam a visita dos
magos do
Oriente. “E, entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe, e,
prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, lhe ofertaram dádivas:
ouro, incenso e mirra” (Mt 2.11).
Depois da visita dos magos — que
irritaram Herodes por não terem retornado para dizer onde se encontrava o
menino j esus — o monarca romano decidiu matar todas as crianças de Belém de
dois anos para baixo, visando pôr a mão em Jesus para matá-lo. E mais uma vez,
Deus revelou-se a José através de um sonho, ordenando que o mesmo fugisse para
o Egito com a família sagrada: “E, tendo-se eles retirado, eis que o anjo do Senhor
apareceu a José em sonhos, dizendo: Levanta-te, e toma o menino e sua mãe, e
foge para o Egito, e demora-te lá até que eu te diga, porque Herodes há de
procurar o menino para o matar. E, levantando-se ele, tomou o menino e sua mãe,
de noite, e foi para o Egito” (w. 13,14). José permaneceu no Egito com Maria e
o menino Jesus até que Deus determinasse seu retorno a Israel em segurança — o
que, de fato, aconteceu depois da morte de Herodes (w. 15,21). Ele não ficou em
Belém ou Jerusalém; antes, sabendo que Arquelau, o filho de Herodes, assumira o
poder em Jerusalém, foi para a Galileia, “por divina revelação”, passando a residir
em Nazaré (w. 21-23).
3. Um Homem Temperante
Mesmo tendo mais idade que Maria, José
não era um ancião abatido pelos anos de vida. Nem mesmo era um homem de meia-idade,
pelo que se depreende do que a Bíblia revela sobre ele. Ele deveria ser um
homem dotado de energia física suficiente para, depois do nascimento virginal
de Jesus, ter coabitado com Maria e tido seis filhos biológicos, sendo quatro
filhos e, pelo menos, duas filhas com ela (cf. Mc 6.3). No período em que era noivo
(desposado) com Maria, ele não teve relações sexuais com ela. Primeiro, porque
era um grave pecado, em que os envolvidos, quando apanhados na prática
ilícita, eram apedrejados (Dt 22.24). Em
segundo lugar, porque era homem de bem e obediente a Deus, homem “justo” (Mt
1.19). “e não a conheceu até que deu à luz seu filho, o primogênito; e
pôs-lhe o nome de JESUS” (v. 25). Na Bíblia, há vários casos de homens de Deus
que não resistiram à tentação do sexo e caíram de modo escandaloso, seja no
pecado de adultério ou de fornicação, como Davi, que acabou manchando o bom
nome do povo de Deus. Se há um ponto em comum entre José do Egito e José de
Nazaré, esse ponto é o fato de ambos serem sonhadores; outro ponto em que eles
fizeram diferença foi na pureza moral. Ambos foram fortes o suficiente para
serem fiéis a Deus nessa área em que muitos não resistem nem à primeira
investida do maligno.
III - A NOBRE MISSÃO DE JOSÉ
1. Assegurar a Ascendência Real
de Jesus
Como visto no item 1.2, José, perante a
lei, era o pai de Jesus, incluindo-o na ascendência de sua família e também na
ascendência de Maria, conforme o registro de Lucas (3.23-38). Dessa forma, ele
garantiu a confirmação de Jesus na descendência real de Davi, pela tribo de Judá:
“E Davi era filho de um homem, efrateu, de Belém de Judá, cujo nome era
Jessé [...]” (1 Sm
17.12). Jesus é descrito no livro de Apocalipse como “o Leão da tribo de Judá, a
Raiz de Davi”, o único capaz de abrir o livro selado com sete selos (Ap 5.5). Mateus registra a árvore
genealógica de Jesus a partir da descendência de Davi, por meio de Natã, seu
terceiro filho (Lc 3.31; 2 Sm 5.14), visto que o penúltimo rei da casa de Davi,
em Judá, Joaquim (ou Jeconias), sofreu terrível maldição: nenhum descendente
dele se assentaria no trono de Davi por causa da pecaminosidade em seu
reinado (ver Jr 22.28-30)”. Esses fatos
negativos provocaram um rompimento da linhagem davídica, mas Jesus foi adotado
por José, que era da tribo de Judá. Quando uma criança era adotada como
primogênito passava a pertencer à tribo do pai adotivo.
2. Proteger Jesus em seus primeiros Anos
A sociedade judaica era eminentemente
patriarcal. Ela requeria que uma família tivesse o pai como líder espiritual e
humano da família, ao lado de sua esposa. Jamais se imaginaria uma mulher dizer
que tivera um filho, sem que a presença do pai fosse notória. Mesmo em se
tratando da concepção virginal de Jesus, pelo Espírito Santo, Maria não teria
condições de criá-lo humanamente sem o apoio da figura paterna. A contribuição
de José à formação espiritual, moral e social de Jesus ao lado de Maria foi
inestimável. Ele prestou um serviço de alta relevância perante Deus, como pai
adotivo e guardião de Jesus em sua infância e adolescência. Alguns fatos sobre
a vida de Jesus comprovam o amor e o zelo de José pelo menino que não era seu
filho, e sim filho de Maria pela intervenção divina.
1) No nascimento de Jesus. Ao chegar a Belém para o alistamento
determinado pelo governo, José e Maria, com o menino em seu ventre, não tiveram
lugar para se hospedar e tiveram que aceitar recolher-se, no meio da noite,
numa estrebaria. Ali, as dores do parto foram intensas e, em meio ao silêncio
noturno, Maria deu à luz a Jesus, na companhia de José:
“E subiu da
Galiléia também José, da cidade de Nazaré, à Judéia, à cidade de Davi chamada
Belém (porque era da casa e família de Davi), a fim de alistar-se com Maria,
sua mulher, que estava grávida. E aconteceu que, estando eles ali, se cumpriram
os dias em que ela havia de dar à luz. E deu à luz o seu filho primogênito, e
envolveu-o em panos, e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles
na estalagem” (Lc 2.4-7).
Maria, na sua condição social, não tinha
uma serva a seu serviço. Naquela situação,
sem dúvida, José participou dos procedimentos no parto de Jesus,
ajudando Maria em todos os detalhes, amparando o bebê na saída do útero
materno, no corte do cordão umbilical, em sua limpeza pós-parto, no envolvimento
em panos e na colocação da criança na manjedoura.
2) Nas cerimônias exigidas pela
Lei. Na
circuncisão de Jesus ao oitavo dia de nascido e também na apresentação no
templo, José estava ao lado de Maria:
“E, quando os oito dias foram cumpridos para circuncidar o menino,
foi-lhe dado o nome de Jesus, que pelo anjo lhe fora posto antes de ser
concebido. E, cumprindo-se os dias da purificação, segundo a lei de Moisés, o levaram
a Jerusalém, para o apresentarem ao Senhor” (Lc 2.21,22).
3) Na fuga para o Egito. Diante da ameaça de Herodes de matar
o menino Jesus, Deus determinou que José tomasse Maria e o menino e todos
fugissem para o Egito, até que o rei homicida tivesse morrido. Quase 500
quilômetros de viagem, em meio a estradas desertas, com risco de assaltos e
intempéries, José conduziu a esposa e seu filho para um lugar seguro e só
voltou de lá por revelação de Deus, quando Herodes havia morrido. E os
três
foram morar em Nazaré (Mt 2.13-23).3.
Zelar pela Formação Espiritual de Jesus Como criança normal, saudável,
inteligente e de família
judaica,
Jesus foi criado conforme os ditames da Lei de Moisés. Certamente, seus pais
cumpriam o que fora determinado quanto à educação dos filhos, com o ensino
sistemático e diário das palavras de Deus (cf. Dt 11.18-21). Fazia parte de sua
educação conhecer e participar das festas anuais de Israel, das quais a Páscoa era
a mais impactante por seu significado histórico e espiritual. José e Maria
levavam o menino a Jerusalém para essa festividade nacional: “Ora, todos os
anos, iam seus pais a Jerusalém, à Festa da Páscoa. E, tendo ele já doze anos, subiram
a Jerusalém, segundo o costume do dia da festa” (Lc 2.41,42).
Embora os relatos sobre a vida desse
personagem bíblico sejam escassas, o que se conhece dele é suficiente para se
demonstrar que se trata de um servo de Deus, que cumpriu uma missão
importantíssima no projeto de Deus para a redenção da humanidade. Seu papel
coadjuvante não deve ser menosprezado nem diminuído. Maria foi a escolhida para
acolher a encarnação de Jesus, o Verbo que “se fez carne, e habitou entre nós”
(Jo1.14). José, porém, foi escolhido por Deus para ser parte integrante da
sagrada família, cuidando de Maria, como esposo humilde e amoroso, e de Jesus,
como pai terreno, zelando pela integridade física, emocional e espiritual de
Jesus, notadamente nos anos da infância e da adolescência. Um exemplo eloquente
de um verdadeiro pai, que se faz presente na vida do filho, e não apenas um genitor,
que, gera e descuida-se da vida do filho.
A igreja católica criou uma imagem de
José repleta de piedade e devoção e que ultrapassa a verdade esposada na Bíblia
acerca desse servo de Deus. Durante os primeiros 500 anos do cristianismo, José
nunca foi venerado ou exaltado, muito menos cultuado. “Mas, somente no século
XV d.C. é que começaram a aparecer na Europa as primeiras missas e ofícios em
honra a São José. Em 1479, Pio IV introduziu a festa a São José, em Roma. Pio
IX, em 1870, declarou que José era o patrono da Igreja Universal”.4 Assim como
foi feito com Maria, exaltada à condição de mãe de Deus, “Rainha do Céu”, mediadora
entre Jesus e os homens, José também recebeu honras e veneração que ele próprio
jamais aceitaria por causa de seu caráter santo e humilde. Devemos ficar com o
que a Palavra de Deus diz sobre os personagens da história sagrada.
CONCLUSÃO
José, o pai terreno de Jesus, foi
escolhido por Deus para uma missão muito elevada no plano da redenção. Ele foi
o homem que, na presciência de Deus, amparou Maria em sua missão de conceber
Jesus como Filho do Homem, como Deus encarnado. Não só a ela, mas também ao
próprio Jesus, em seu nascimento biológico, em sua infância, nas ameaças que
sofreu, ao cuidar de sua educação esmerada ao lado de Maria. Como profissional
da carpintaria, José ensinou o ofício a Jesus, a ponto de ele ser conhecido
como “o carpinteiro, filho de Maria [...]” (Mc 6.3). Ele foi um homem santo,
assim como todos os que se dedicaram ao chamado de Deus em suas vidas. Mas,
assim como Maria, ele nunca reivindicou para si honras e louvores, que só
pertencem a Deus.
O Caráter do cristão.
JOSÉ
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QUALIDADES E REALIZAÇÕES
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Um homem de integridade. Pai
terreno e legal de Jesus. Sensível à orientação de Deus, e disposto a fazer a vontade de Deus.
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LIÇÕES DE VIDA
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Deus honra a integridade. Ser
obediente a Deus traz mais orientações dele. Os sentimentos não são medidas
precisas da correção ou do erro de uma ação.
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ESTATÍSTICAS
VITAIS
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Locais: Nazaré, Belém. Ocupação:
Carpinteiro. Parentes: Esposa: Maria. Filhos: Jesus, Tiago, José, Judas,
Simão, e filhas.
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VERSÍCULO-CHAVE
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"Então, José, seu marido, como
era justo e não queria infamar, intentou deixá-la secretamente" (Mt
1.19).
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📌 JOSÉ - Comentário Bíblico TT W. W. Wiersbe - O Nascimento do Rei
Mateus 1 ; 2
Se um homem aparece de repente dizendo
ser rei, a primeira coisa que as pessoas querem ver são as provas. De onde vem?
Quem são seus súditos? Quais são suas credenciais? Prevendo essas perguntas
importantes, Mateus começa seu livro com um relato detalhado do nascimento de Jesus
Cristo e dos acontecimentos subseqüentes. Ele apresenta quatro fatos sobre o
Rei.
1. A linhagem do Rei (Mt 1:1-25)
Uma vez que a realeza depende da
linhagem, era importante determinar o direito de Jesus ao trono de Davi. Mateus
apresenta a linhagem humana de Jesus (Mt 1:1-17) bem como a divina (Mt
1:18-25).
A linhagem humana (w. 1-17). Os judeus
davam grande importância às genealogias, pois, sem elas, não podiam provar que
faziam parte de determinada tribo nem quem possuía direito de herança. Qualquer
um que afirmasse ser "filho de Davi" deveria ser capaz de provar tal
asserção. Costuma-se concluir que Mateus apresenta a genealogia de Jesus pelo
seu padrasto, José, enquanto Lucas fornece a linhagem de Maria (Lc 3:23ss).
Muitos leitores pulam essa lista de nomes antigos (e, em alguns casos, impronunciáveis). Mas essa "lista de nome" é essencial para o registro do Evangelho, pois mostra que Jesus Cristo faz parte da história. Mostra também que toda a história de Israel preparou o cenário para seu nascimento. Em sua providência, Deus governou e prevaleceu sobre os acontecimentos históricos, a fim de realizar seu grande propósito de trazer seu Filho ao mundo.
Essa genealogia também ilustra a
maravilhosa graça de Deus. É muito raro encontrar nomes de mulheres em
genealogias judaicas, pois os nomes e heranças eram passados para os homens. No
entanto, encontramos nessa lista referências a quatro mulheres do Antigo
Testamento: Tamar (Mt 1:3), Raabe e Rute (Mt 1:5), e Bate-Seba, "a que
fora mulher de Urias" (Mt 1:6).
Fica claro que Mateus deixa alguns nomes
de fora dessa genealogia. É provável que tenha feito isso a fim de apresentar
um sumário sistemático de três períodos na história de Israel, cada um com
catorze gerações. O valor numérico das letras em hebraico para "Davi"
é igual a catorze. Talvez Mateus tenha usado essa abordagem a fim de ajudar
seus leitores a memorizar essa lista complicada. Muitos judeus eram descendentes do rei
Davi. Seria preciso mais do que um certificado de linhagem para provar que
Jesus Cristo era "filho de Davi" e herdeiro do trono de Davi. Daí a
grande importância de sua linhagem divina.
A linhagem divina (w. 18-25). Mateus 1:16 , 18 deixam claro que o nascimento de Jesus Cristo foi diferente daquele de qualquer outro menino judeu mencionado na genealogia. Mateus ressalta que José não "gerou" Jesus Cristo. Antes, José foi "marido de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama o Cristo". Jesus nasceu de uma mãe terrena, sem a necessidade de um pai terreno. Esse fato é chamado de doutrina do nascimento virginal. Cada criança que nasce é uma criatura totalmente nova. Mas Jesus Cristo, sendo o Deus eterno (Jo 1:1, 14), existia antes de Maria, de José ou de qualquer outro de seus antepassados. Se Jesus Cristo tivesse sido concebido da mesma forma que qualquer outra criança, não poderia ser Deus. Era necessário que viesse ao mundo por meio de uma mãe terrena, mas sem ser gerado por um pai terreno. Assim, por um milagre do Espírito Santo, Jesus foi concebido no ventre de Maria, uma virgem (Lc 1:26-38).
Há quem questione se, de fato, Maria era
virgem, dizendo que "virgem", em Mateus 1:23, deve ser traduzido por
"moça". Porém, a palavra traduzida por virgem nesse versículo tem
sempre esse significado e não permite qualquer outra tradução, nem mesmo
"moça".
Tanto Maria quanto José pertenciam à casa
de Davi. As profecias do Antigo Testamento afirmavam que o Messias nasceria de
uma mulher (Gn 3:15), da descendência de Abraão (Gn 22:18), pela tribo de Judá
(Gn 49:10) e da família de Davi (2 Sm 7:12, 13). A genealogia de Mateus
acompanha a linhagem através de Salomão, enquanto Lucas acompanha sua linhagem
através de Natã, outro filho de Davi. É interessante observar que Jesus Cristo
é o único judeu vivo que pode provar seu direito ao trono de Davi! Todos os
outros registros foram destruídos quando os Romanos tomaram Jerusalém em 70
d.C.
Para o povo judeu daquela época, o noivado equivalia ao casamento - exceto pelo fato de que o homem e a mulher não coabitavam. Os noivos eram chamados de "marido e esposa", e, ao fim do período de noivado, o casamento era consumado. Se uma mulher que estava noiva ficava grávida, isso era considerado adultério (ver Dt 22:13-21). Porém, José não pediu nenhuma punição nem o divórcio quando descobriu que Maria estava grávida, pois o Senhor havia lhe revelado a verdade. Todas essas coisas cumpriram Isaías 7:14.
Antes de terminar nosso estudo desta seção importante, devemos considerar três nomes dados ao Filho de Deus. O nome Jesus significa "Salvador" e vem do hebraico Josué ("Jeová é salvação"). Havia muitos meninos judeus chamados Josué (ou, no grego, Jesus), mas o filho de Maria chamava-se "Jesus o Cristo". O termo Cristo quer dizer "ungido" e é o equivalente grego da designação Messias. Ele é "Jesus o Messias". Jesus é o seu nome humano; Cristo (Messias) é o seu título oficial; e Emanuel descreve quem ele é - "Deus conosco". Jesus Cristo é Deus! Encontramos a designação "Emanuel" em Isaías 7:14 ; 8:8.
Assim, o Rei era um homem judeu e também o Filho de Deus. Mas será que alguém reconheceu sua realeza? Sim, os magos que vieram do Oriente e o adoraram.
A FAMÍLIA de JESUS - Enciclopédia da vida de Jesus / Louis-Claude Fillion - Ia edição: Setembro/2004 - Editora Central Gospel.
José, um homem de grande caráter
Por suas qualidades e virtudes, José
também foi digno da dupla missão que Deus lhe confiou acerca de duas pessoas
que ele havia de cuidar em nossa pobre terra: Jesus e Maria. Mas o perfil de
José é ainda mais difícil de ser traçado que o de Maria, porque os evangelistas
são muito sucintos em seus comentários a respeito dele. Assim, o discreto olhar
que nos permite lançar sobre o noivo de Maria nos dois primeiros capítulos de
Mateus nos informa acerca de um homem possuidor de uma alma de incomparável
beleza.
O evangelista, não contente em retratá-lo de uma maneira geral com o epíteto de justo (Mt 1.19), informando-nos que José era um fiel observador da lei judaica, destacou também, em quatro ocasiões sucessivas (Mt 1.24; 2.14,21,22), a prontidão e a perfeição da obediência dele a outras tantas ordens divinas, em meio às dificuldades que o tornavam destacadamente meritório.
A atitude para com sua noiva que José se propunha a ter [não infamá-la, assumindo a culpa pelo rompimento da aliança] antes que o anjo o informasse de que ela estava grávida do Messias pelo poder de Deus, revela um vivíssimo sentimento de honra pessoal, um coração cheio de ternura e de coragem para suportar aquela dolorosa prova. Ele se mostrou um homem de grande caráter.
Contudo, o que há em José de mais belo e
comovedor é, indubitavelmente, o amor que ele sentia por sua esposa e pelo
menino de quem era pai adotivo. José nunca cessou de demonstrar esse amor em
todas as ocasiões, apesar da humilde situação a que havia sido reduzido em
virtude das dificuldades pelas quais passava a nação de Israel, sendo ele um
herdeiro legal do trono de Davi. José possuía, com efeito, grandes sentimentos
e rara elevação moral.
Fora dos relatos da infância do Salvador,
José só é mencionado nos evangelhos de maneira indireta (Jo 1.45; 6.42). Em
Marcos 6.3, há uma referência a um carpinteiro, que designa Jesus. Qual teria
sido o verdadeiro ofício de José? O termo tomado tanto em Mateus como em Marcos
(Mt 13.55; Me 6.3) tem que ver com a palavra operário.
Esse substantivo, de significação muito
vaga, pode ser aplicado tanto ao operário que trabalha com ferro como àquele
que trabalha com madeira. Alguns antigos intérpretes preferiram achar que José
trabalhava com ferro. Todavia, está muito mais em harmonia com a tradição
admitir que o pai adotivo de Jesus tenha sido carpinteiro e que,
conseqüentemente, Jesus também o tenha sido.
Num texto de Justino Mártir, no diálogo
com o judeu Trifon, está escrito assim: “José achava trabalho de carpintaria
entre os ricos e as pessoas simples de Nazaré, e mesmo entre os camponeses que frequentavam o mercado”.
Seria fácil, se conhecêssemos o que entre os judeus representava o ofício de carpinteiro, imaginar quais eram as atividades ou as encomendas que José recebia: preparar vigas para sustentação dos terraços das casas, fabricar jugos, lanças, camas, arcas, amassadeiras, guarda-papéis para os escribas, comerciantes ou rabinos. Tais eram, com efeito, os diferentes trabalhos que os carpinteiros judeus costumavam executar. Estes mesmos ou semelhantes seriam os objetos confeccionados pelo carpinteiro José e por Jesus. Portanto, eles manejaram o serrote, a plaina e usaram pregos e martelo como instrumentos de trabalho.
Eis tudo o que nos dizem os documentos
antigos acerca do esposo de Maria e pai adotivo de Jesus. Será possível
formarmos uma idéia exata da vida que aquele casal levava em Nazaré quando
Jesus, ainda criança, tornou-se o gracioso adolescente e mais tarde o jovem
perfeito que atraía juntamente para si a benevolência do céu e o afeto dos
homens? Sim, até certo ponto, conforme o que conhecemos da alma deles e pelo
que nos dizem os costumes daquele tempo, que em grande parte são conservados
ainda em Nazaré.
Em primeiro lugar, temos de considerar
que José e Maria levaram uma vida humilde e na obscuridade. Muitas vezes,
tem-se exagerado a pobreza da família humana de Jesus, confundido-a com a
miséria e a indigência. Mais tarde, quando Jesus viveu sua fatigosa vida de
missionário, depois de ter deixado tudo para propagar a boa nova por toda a
Palestina, o Filho do Homem disse que não tinha nada, nem uma pedra onde
pudesse reclinar a cabeça (Mt 8.20; Lc 9.58).
Observação do Pr. Henrique - José tinha uma profissão que o mantinha dentro da classe média e não da pobre. Quando se ocupou com a ida a Belém, nascimento de JESUS, ida a Jerusalém para apresentação do menino JESUS e depois fuga para o Egito, ai sim, sem trabalhar, teve dificuldades financeiras, embora no Egito tivesse produtos ganhados no nascimento de JESUS que podia sustentar sua família).
Paulo dirá de Jesus: porque já sabeis a
graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, por amor de vós se fez
pobre, para que, pela sua pobreza, enriquecêsseis (2Co 8.9). Mas, graças ao
contínuo trabalho de José e do próprio Jesus, quando cresceu, a vida daquela
família não foi de miséria e de indigência. Além disso, temos de levar em conta
que os orientais geralmente se contentam com pouco no que diz respeito à
habitação, às vestimentas e aos alimentos. Simples e sóbrios, eles poderiam
viver facilmente com gastos reduzidíssimos.
A casa, os móveis, as vestes e os
alimentos de Maria, de José e dos demais irmãos de Jesus eram muito simples.
Sua vida era também de trabalho ativo, conforme se deduz do que acabamos de
dizer acerca do ofício exercido por José e depois por Jesus, e por meio desse
ofício eles supriam as necessidades da família. Jesus e seu pai adotivo servem
de modelo para os trabalhadores cristãos.
Além disso, já vimos que o trabalho
manual era tido, então, em grande conta na terra de Jesus, e que os mais
célebres rabinos não se esquivavam de dedicar-se a ele.
Maria também se dedicava infatigavelmente
às múltiplas ocupações domésticas, cumprindo com perfeição a significativa
divisa da mulher respeitável romana: “permaneceu em casa, e fiou a lã”.
Em sua epístola a Tito (2.5), Paulo
expressa o desejo de que as mulheres cristãs sejam mulheres trabalhadoras.
Maria possuía esta qualidade em alto grau. Em sua humilde esfera, ela retratava
a mulher forte e ideal do capítulo 31 de Provérbios.
Podemos supor também que a casa de José
tinha uma horta nos fundos, que Maria a cultivava em suas horas livres,
aumentando seus modestos recursos. A colaboração dela era, sem dúvida,
procurada na época dos grandes trabalhos agrícolas. E talvez José fosse chamado
aos lugares vizinhos para construções ou reparos próprios do seu ofício.
Certamente, naquele lar havia espaço para
a consagração, para a santidade, porque a família de Jesus estava em perpétua
união com Deus, e o próprio Senhor contemplava a vida deles e se alegrava com
sua dedicação.
Na casa em Nazaré, orava-se com
freqüência. Ali, mais ainda do que nas outras famílias de Israel, os assuntos
espirituais faziam parte dos pormenores da vida. Tudo no lar de Jesus servia
para promover a consagração a Deus.
No Sábado e nos demais dias de festa
religiosa, Jesus, seus irmãos, Maria e José assistiam aos ofícios da sinagoga,
edificando a todos com sua grave e recolhida compostura. Eles colocavam, então,
conforme o costume geral, suas melhores roupas de vivas cores, sobre as quais
Jesus e seu pai adotivo vestiam seu talit, o manto de oração, enquanto Maria se
cobria com um longo véu branco.
Os irmãos de Jesus
TENTAM PRENDÊ-LO
Em Mateus 12.47, está escrito: E
disse-lhe [a Jesus] alguém: Eis que estão ali fôra tua mãe e teus irmãos, que
quer em falar-te. Existem textos paralelos em Marcos 3.31-35 e Lucas 8.18-21.
Devemos analisar essa visita da família de Jesus com as palavras que se
encontram em Marcos 3.20,21: E foram para uma casa. E afluiu outra vez a multidão,
de tal maneira que nem sequer podiam comer pão. E, quando os seus parentes
ouviram isso, saíram para o prender, porque moer grãos diziam: Está fôra de si.
O ministério de Jesus aumentou de tal maneira que ele nem tinha tempo para
comer, e pode-se imaginar que, devido às múltiplas curas e à intensificação das
controvérsias com as autoridades religiosas, a agitação chegou, algumas vezes,
a um estado de furor.
A família de Jesus, como é evidente,
compreendeu algo da situação e, ouvindo ainda mais acerca dos acontecimentos,
supôs que Jesus fôra mentalmente afetado. E, agindo assim, pensaram que
estariam praticando um ato de misericórdia, prendendo o Rabi e levando-o para
casa.
E certo que não foram até ali a fim de
atrair a atenção do povo, dizendo: “Somos parentes deste grande e famoso
homem”. Pelo contrário, queriam livrá-lo de sua própria “insanidade”, bem como
das ameaças das autoridades. A intenção dos parentes de Jesus, apesar de
errada, era pelo menos honesta. Esse episódio da vida de Jesus ilustra quão
pouco a sua própria família o compreendia, e também quão pouco compreendia a
sua missão.
Marcos mencionou o nome de quatro irmãos
de Jesus (Me 6.3), bem como um número desconhecido de irmãs. Muitos discutem a
questão dos irmãos do Mestre. Alguns, pretendendo preservar a doutrina da
perpétua virgindade de Maria, inventada pelos homens, apresentam as seguintes
explicações: 1. Esses irmãos de Jesus eram os seus primos, e não irmãos no
sentido literal, como podem indicar as palavras gregas e hebraicas para irmãos.
Alguns sugerem que os tais irmãos eram filhos de Alfeu e de Maria, uma tia de
Jesus;
2. Seriam filhos de José mediante um
casamento anterior; ou
3. Seriam filhos de José mediante um
casamento posterior. José teria contraído essas núpcias a fim de criar os
filhos de um irmão seu, já falecido.
Todas essas idéias tiveram início bem
cedo na história eclesiástica, e até hoje perduram.
OS IRMÃOS E AS IRMÃS DE JESUS ERAM FILHOS
DE JOSÉ E MARIA
Os quatro argumentos enumerados abaixo
confirmam que os irmãos e as irmãs de Jesus eram filhos de José e Maria, em seu
sentido literal (Mt 13.55,56; Me 6.2,3).
Primeiro argumento
O texto em João 7.5 invalida a idéia de
que a expressão seus irmãos refira- se aos doze apóstolos. Em Atos 1.14, vemos
que os doze também são mencionados em separado. Portanto, os irmãos de Jesus
não podiam, realmente, ser primos de Jesus e estar entre os doze apóstolos.
Os nomes Tiago, Judas e Simão eram muito
comuns, e é provável que alguns dos primos de Jesus até tivessem os mesmo nomes
dos irmãos do Mestre. As Escrituras também indicam que os irmãos de Jesus não
tiveram fé nele, a não ser após a sua ressurreição (Jo 7.5).
Segundo argumento
Das quinze vezes que os irmãos de Jesus
são mencionados (dez nos evangelhos, uma em Atos, e algumas vezes nas cartas de
Paulo), quase sempre estão em companhia de Maria, mãe cle Jesus. E estranho que
os primos de Jesus andassem sempre em companhia de uma tia, em vez de andarem
em companhia de sua própria mãe.
Terceiro argumento
Em nenhuma porção das Escrituras é
indicado que eles fossem primos de Jesus ou filhos somente de José, e não de
Maria, Tais suposições são especulações humanas para estabelecer e firmar uma
teologia humana.
Quarto argumento
A não ser por motivo de preconceito
teológico, não há razão para não acolhermos esse fato em seu sentido mais
natural, isto é, que os irmãos de Jesus eram filhos de José e de Maria, em
sentido literal. A elevação de Maria à estatura de deusa é uma tradição
romanista, contrária ao próprio tratamento de Jesus à sua mãe (Mt 12.47-50), no
qual ele a reconhece como simples mulher, e não como uma pessoa divina, com
poder sobrenatural ou com qualquer influência sobre ele.
Finalmente, devemos notar que a doutrina
da perpétua virgindade de Maria não é apoiada nas Escrituras. A preservação
dessa doutrina forma a base dos argumentos que explicam erroneamente os irmãos
de Jesus como se não o fossem literalmente; e também não goza de base alguma
nas Escrituras. Parece razoável que uma doutrina dessa natureza, caso tivesse
tanta importância como tantos afirmam, pelo menos fosse apoiada por uma pequena
afirmação bíblica nesse sentido.
Enfim, a vida dos membros da família de Jesus era de doce e santa missão, de recíproco e infatigável afeto. Não podemos esquecer do amor paternal e maternal recebido pelo Salvador e do filial carinho com que Jesus lhes correspondia.
Acrescentemos, por último, que Jesus
mantinha com seus parentes e irmãos, com seus vizinhos e com todos um
relacionamento de afetuosa cordialidade e de amor que não media sacrifícios. Um
dia, porém, a dor penetrou naquele lar, único no mundo, quando entre os braços
de Jesus e de Maria expirou docemente José, o esposo de Maria e o pai adotivo
de Jesus.
Ele teria morrido antes que o Salvador
inaugurasse seu ministério público. Isto se conclui razoavelmente pelo fato de
José não ter sido mencionado por João entre os parentes do Salvador, quando
este se referiu ao primeiro milagre do Mestre (Jo 2.12), nem em outras
passagens relativas à época posterior (Mt 13.55-56; Me 6.3). Então, mais do que
nunca, Jesus envolveu sua mãe de respeito e de ternura; e a partir daí, mais do
que nunca, Maria demonstrou seu amor maternal por seu filho. Juntos, eles
choraram e se consolaram com os demais irmãos de Jesus pela morte de José.
UM FILHO DE ISRAEL - A Vida Diária Nos
Tempos de Jesus
"Um filho se nos deu" — Marcado
com o selo de Deus — O nome — A educação do jovem — Maioridade "
UM FILHO SE NOS DEU
O nascimento de um filho na família judia
era o mais feliz de todos os acontecimentos, dando aos pais a maior alegria. A
notícia se espalhava pela vila ou quarteirão e os vizinhos eram avisados de
que, segundo o costume antigo, havería uma festa para a qual seriam convidados
todos os parentes, amigos e pessoas que vivessem nas proximidades a fim de se
rejubilarem juntos. 0 mais humilde dos casais se apropriava da grandiosa
declaração de Isaías, repleta de implicações messiânicas: "Porque, um
menino nos nasceu, um filho se nos deu”.
1 Os judeus sempre consideraram os filhos
como uma bênção, como a maior forma de riqueza. Nas palavras do salmista:
"Herança do Senhor são os filhos; o fruto do ventre seu galardão".
Outro salmo comparava o pai de uma família numerosa ao homem cuja mesa está
cercada de oliveiras novas.
2 Um trocadilho popular transformou a
palavra banim, filhos, em bonim, construtores. A esterilidade era então
vergonhosa, segundo declarou Isabel, a mãe de João Batista;
3 e os rabinos avançaram ainda mais,
dizendo que "o homem sem filhos devia ser considerado como morto".
4 Quanto á esterilidade voluntária, era
tida como um pecado tão grave que o profeta Isaías foi pedir contas ao rei
Ezequias por causa disso, dizendo-lhe que a morte era o justo castigo de tal
crime.O desejo de ter filhos era tão grande nos primeiros tempos que a mulher
legítima concordava em que o marido os tivesse com uma de suas criadas, como
fez Abraão, e Jacó depois dele.8 Não se sabe, entretanto, se esta prática da
poligamia vigorava ainda nos dias de Cristo.7
A criança nascia então assim e geralmente
sem grande dificuldade. As mulheres de Israel se orgulhavam de dar â luz rápida
e facilmente — não como as egípcias, segundo diziam elas.9 Isso não evitava que
sofressem, como ocorria, de acordo com o pronunciamento de Deus. Elas eram ajudadas
por parteiras, de quem se faz menção desde a época dos patriarcas,8 e que
usavam assentos especiais para o parto. Mas as mulheres judias podiam
ajeitar-se perfeitamente sem as parteiras. Maria fez isso no estábulo de
Belém.10 O.desejo de assistir ao nascimento de crianças era tão grande que os
rabinos abriam uma exceção na lei sagrada do descanso sabático: era lícito
ajudar a mulher em trabalho de parto, levar uma parteira até ela, amarrar o
cordão umbilical e até, como afirma o tratado Shabbath, cortar o mesmo."
Se houvesse perigo
para a mãe, os métodos anticoncepcionais
não só eram permitidos como recomendados.12 O pai não podia participar do
nascimento de maneira alguma; mas aguardar até que alguém fosse dar-lhe a
noticia. Esta é pelo menos a conclusão tirada de um versículo do livro de
Jeremias.13
No momento em que era avisado, o pai
entrava e colocava a criança sobre os joelhos: este era o reconhecimento
oficial da sua legitimidade. Se um dos ancestrais da criança estivesse
presente, ele recebia às vezes este privilégio, como vemos no caso do patriarca
José, cujos bisnetos “tomou sobre seus joelhos"14 A criança era lavada,
esfregada com sal para endurecer a pele e enrolada;15 depois disso podia ser
mostrada aos outros. Os cumprimentos erám especialmente calorosos no caso de um
filho do sexo masculino; se fosse menina o entusiasmo arrefecia, chegando ao
ponto de parecerem simples expressões de simpatia. As filhas não aumentavam a
fortuna da família, desde que ao se casarem passavam a pertencer a outras
famílias. "As filhas não passam de um tesouro ilusório," observa o
Talmude; e depois acrescenta, "além disso, precisam ser continuamente
vigiadas".18
Mas, — e isto deve ser enfatizado, pois
favorece em muito israel — o medonho costume pagão de abandonar bebês, comum no
Egito, na Grécia e em Roma, se não era desconhecido aos judeus17 era pelo menos
absolutamente proibido. 0 pai egípcio podia escrever à esposa prestes a ter um
filho: "Se for menino, pode criá-io; se for menina, mate-a".18 Nessa
mesma época, porém. Filo estava escrevendo contra esta prática abominável numa
passagem especialmente admirável.19 É possível que em Israel não houvesse
grande alegria ao nascer uma menina, mas ela era mantida pelos pais em qualquer
circunstância.
Quando o primogênito de uma família era
homem, a alegria chegava ao auge. O hebreu tinha uma palavra especial, bekor,
para o primogênito, e foi este termo que Lucas traduziu e aplicou ao filho de
Maria.20 Ele não quis dizer necessariamente que esse "primogênito" seria
seguido de outros, como Lucian e outros lembraram mas apenas que como "a
força e as primícias do pai",22 ele seria o futuro cabeça de sua família,
com todos os deveres implícitos e privilégios concedidos a essa posição;23
'sendo também seu o direito de primogenitura, isto é, pelo menos uma parte em
dobro da herança.24 Ao nascerem gêmeos, tomava-se a precaução de registrar qual
deles vinha em primeiro lugar, talvez amarrando um fio vermelho na mão da
criança, como no caso dos filhos de Tamar e Judá.28 Isto é entretanto um erro,
pois a obstetrícia moderna provou que o mais velho, o primeiro a ser concebido,
é o segundo a emergir.
Filho ou filha, mais velho ou não, o bebê
era sempre amamentado pela mãe: este era um dever, e os rabinos não deixavam
que as mulheres de Israel se esquecessem dele.28 Apenas raramente as mulheres
dos ricos davam-se ao luxo de contratarem amas. A criança mamava longo tempo,
durante dois ou até mesmo três anos se possível, a fim de poupar-lhe as doenças
do clima, sendo a disenteria a principal dentre elas. Quando a criança era
finalmente desmamada havia uma celebração e um sacrifício, em memória daqueles
realizados por Abraão quando Sara desmamou Isaque.27 A essa altura, porém, a
criança já se tornara há muito um membro da comunidade religiosa, solenemente
marcada com o selo de Deus.
MARCADO COM O SELO DE DEUS
A Lei declarava com absoluta determinação
que todo membro do sexo masculino devia ser circuncidado.28 Nos dias de Cristo
isso tinha de ser feito oito dias após o nascimento. A obrigação era de tal
forma absoluta que a circuncisão (corte do prepúcio) devia ser realizada mesmo
que o dia caísse num sábado.28 Os rabinos estabeleceram cuidadosamente o que
podia ser feito, transgredindo os mandamentos da Lei — "0 corte, a
extração da pele, o curativo da ferida, e a colocação sobre ela de uma pasta de
óleo, vinho e cominho".30 Judeu algum podia portanto fugir da obrigação. 0
Livro dos Jubileus, uma obra apócrifa do segundo século A.C., chega ao ponto de
declarar solenemente que os próprios anjos foram circuncidados.31
Como surgiu este dever? Os judeus não
hesitavam em replicar que tivera origem em Deus, quando ordenou a Abraão que
fizesse isso, tanto ele como seus descendentes. "Esta é a minha aliança,
que guardareis entre mim e vós, e a tua descendência: todo macho entre vós será
circuncidado. Circuncidareis a carne do vosso prepúcio; será isso por sinal de
aliança entre mim e vós"32 Não tem grande importância que a análise de
textos possa ter suscitado a questão do rito ter ou não sido adotado por Moisés
a exemplo dos midianitas ou talvez por Josué na Colina dos Prepúcios quando
entrou com seu povo na Terra Prometida.34 O que é certo é que este costume era
antiquíssimo, como provado pelo fato de serem sempre usadas facas de pedras
para a operação.38 Na época de Cristo a circuncisão era tida tanto como uma
marca da aliança como um ato de purificação ritual. Homens como Herodes
poderiam afirmar tratar-se simplesmente de um ato de limpeza; mas eles eram
heréticos. É possível que em certa época fosse um rito a que os adolescentes se
submetiam na puberdade, semelhante ao que existe hoje entre certos povos
africanos; mas desde que aplicado ao recém-nascido, simbolizava sua admissão na
tribo e sua filiação à comunidade dos fiéis. Uma cerimônia puramente religiosa
foi também estabelecida para as meninas, a fim de marcar sua entrada no povo de
Deus.
A operação era tida como insignificante;
todavia, o tratado Shabbath observa que pode ser penosa, particularmente no
terceiro dia. No princípio era o pai de família que a realizava, como o próprio
Abraão fizera;38 a mãe não praticava esse ato a não ser nos casos muito graves,
como por exemplo nos dias extremamente perigosos em que viveu a mãe dos
maca-beus.37 No tempo de Cristo cada cidade tinha o seu mohel, um especialista
nessa operação delicada. Precisava ser muito bem feita, pois se o prepúcio não
fosse removido adequadamente, o homem não seria admitido para "comer o
Teruma", isto é, as primícias oferecidas pelos fiéis aos sacerdotes.38
Os judeus se apegavam a este rito mais do
que a tudo no mundo, mais ainda do que às suas vidas, como foi visto no tempo
dos macabeus, quando as mães judias preferiram morrer do que deixar de
circuncidar os filhos,39 pois viam na circuncisão o sinal de que pertenciam
verdadeiramente ao povo de Deus. Não ser circuncidado, dizia o Livro dos
Jubileus, era "não pertencer aos filhos da aliança, mas aos filhos da
destruição". Chamar um homem de incircun-ciso era o mais doloroso dos
insultos. Não sabiam os judeus que outras nações haviam praticado o mesmo rito,
os egípcios, por exemplo, e até mesmo seus vizinhos e inimigos os midianitas,
edomitas, cananeus e fenícios? (Entre os fenícios, porém, ele tendia à
extinção.) É certo que sabiam: mas fora a sua circuncisão que os diferenciara
dos gregos e que continuava ainda a diferenciá-los dos romanos. Nos dias dos
reis ímpios, foram poucos os que "dissimularam os sinais da circuncisão, a
fim de freqüentarem os ginásios pagãos sem sentir vergonha".40 Foi por
esta razão que os verdadeiros fiéis se apegaram tanto ao rito — a que Jesus
teve Certamente de submeter-se. Todavia, a Lei e os Profetas declararam que o
simples fato nada representava a não ser que fosse seguido de uma intenção
espiritual, e que a verdadeira circuncisão era a do coração:41 esta foi uma
grande lição que nosso Senhor iria repetir muitas vezes, e de várias formas.
A circuncisão não era a única cerimônia religiosa que acompanhava um nascimento em Israel. Havia outra ligada à mulher que dava à luz o filho. Toda mulher era impura perante a Lei depois do parto, á semelhança do homem que tocava um corpo morto. Tratava-se claramente da permanência de um tabu muito anterior a Moisés, mas a lei deste o confirmou. O período de impureza dobrava no nascimento da menina em relação ao do menino: oitenta e não quarenta dias. Durante esse período "nenhuma coisa santa tocará, nem entrará no santuário ... E, cumpridos os dias da sua purificação, por filho ou filha, trará ao sacerdote um cordeiro de um ano por holocausto, e um pombinho ou uma rola por oferta pelo pecado â porta da tenda da congregação ... Mas, se as suas posses não lhe permitirem trazer um cordeiro, tomará então duas rolas, ou dois pombinhos, um para o holocausto e o outro para a oferta pelo pecado: assim o sacerdote fará expiação pela mulher, e será limpa".*2 A tradição cristã manteve a memória deste rito na cerimônia de ação de graças após o parto.
Quando a criança era o primogênito, os
pais precisavam cumprir um dever especial. Isto fazia parte da lei geral, pois
em Israel todos os primogênitos de todos os seres vivos, assim como os
primeiros frutos, pertenciam a Javé.43 0 Todo-poderoso, ao falara Moisés, lhe
ordenara que todos os primogênitos, seja de homens ou animais, fossem dedicados
a Ele. Em seu evangelho, Lucas usa mesmo o termo grego hagion que significa
santo; tornando-se a criança uma coisa santa, oferecida a Deus e separada do
mundo comum, terreno. De onde veio esse costume? Ao ler os mandamentos em
Deuteronômio tem-se a impressão de que ele surgiu de uma reação contra as "abominações"
dos povos vizinhos que queimavam seus filhos em honra aos (dolos.44 O próprio
Javé sustara a mão de Abraão quando ele estava prestes a sacrificar seu filho
Isaque em sua honra. Em lugar de sacrificar o recém-nascido, eles então o dedicavam
de modo inteiramente espiritual e depois o resgatavam. Isto é, davam um animal
para ser sacrificado em substituição, ou uma soma em dinheiro: foi isto que
Javé exigiu deles,46 em memória da misericórdia que mostrara a seu povo naquela
noite em que o seu anjo destruíra todos os primogênitos do Egito mas poupara os
de Israel, satisfazendo-se com um cordeiro em seu lugar.46 Nos dias de Cristo
este dever tinha de ser cumprido dentro de um mês: uma oferta queimada de dois
pombinhos ou duas rolas, o que era bem pouco; mas os pais ofertavam também
cinco ciclos de prata, uma soma bastante alta para os mais pobres. Nenhuma
família judia ousava porém fugir a este encargo piedoso, e Lucas nos mostra o
mais dedicado, o mais santo de todos os filhos "resgatado” por seus pais
na cena comovente da apresentação do Templo, onde as vozes inspiradas do idoso
Simeão e da profetiza Ana deram a José e Maria uma idéia dos mistérios de
glória e sofrimento a ele reservados.46
0 NOME
Era também durante as primeiras semanas e
provavelmente no dia de sua circuncisão que a criança recebia um nome. A
escolha do mesmo tinha a máxima importância, pois os judeus, como todos os
habitantes do mundo antigo, atribuíam uma influência numinosa aos nomes. Na
lenda egípcia de ísis, vemos a deusa milagrosa recusando-se a curar Ra da
mordida de uma serpente até que ele lhe dissesse o seu nome, no qual reside o
segredo do seu poder. Da mesma forma, na história de Moisés, Deus lhe confere o
maior símbolo da sua confiança revelando-lhe o seu nome inefável.49
Acreditava-se que o nome fazia parte integral do indivíduo, que tinha
influência sobre o seu caráter e até sobre o seu destino. Se apegavam de tal
forma a isto que um rabino chegou a dizer: "A condenação do céu pode ser
modificada por uma mudança de nome".60 Reminiscências dessas crenças
certamente chegaram até nós: existem muitas pessoas hoje convencidas de que um
nome cristão possui influência; e houve novelistas como Balzac que escolheram o
nome de seus personagens de acordo com a natureza dé cada um.
O direito de escolher o nome do filho
pertencia portanto ao pai, o chefe da família, h)á muitos casos de pais dando
nome aos filhos nas Sagradas Escrituras:61 no relato do nascimento milagroso de
João Batista no evangelho vemos Zacarias insistindo neste direito, embora
estivesse mudo.62 Entretanto, existem também muitos casos de mães dando nome
aos filhos na Bíblia; e a primeira foi Eva, a mãe da humanidade.63 Pode ser
então praticamente concluído que a escolha era no geral feita mediante acordo
entre os pais.
O nome escolhido correspondia ao nosso
primeiro nome: os judeus não tinham sobrenome — este não existia, embora tal
coisa não signifique que o sentimento familiar não era altamente desenvolvido
entre eles, pois era. O filho recebia necessariamente o nome do pai, como
acontece entre os árabes hoje. O menino era chamado "filho de
fulano", ben em hebraico e bar em aramaico: por exemplo, João ben
Zacarias, Jônatas ben Hanan, ou Yeshua ben José. O filho mais velho recebia com
freqüência o nome do avô a fim de continuar a tradição onomásti-ca da família e
também para distinguí-lo do pai.54
Alguns desses nomes, ou antes prenomes,
eram apelidos, lembrando as circunstâncias em que a criança nascera ou fora
gerada. Certos deles eram sem dúvida piedosos: o Batista, por exemplo, foi
chamado Yochanan (Joâo) por ter sido "desejado por Deus". Havia
também outros nomes menos agradáveis deste tipo. Conta-se o caso de uma mãe
que, irritada por não dar à luz senão filhas, chamou a quarta de Zaoulé e a
oitava de Tamam, que podem ser traduzidos como "aborrecimento” e
"basta". Outros nomes eram escolhidos para dar boa sorte à criança, e
alguns rabinos recomendavam até que fossem consultadas as estrelas, cuja
prática era rejeitada por outros. Os nomes de animais eram bastante comuns:
Raquel, ovelha; Débora, abelha; Yona, pomba; e Akbor, camundongo. Também havia
árvores: Tamar, palmeira; Elon, carvalho; Zeitan, oliveira. Um grande número de
nomes era tirado da Bíblia: patriarcas, profetas, santos e heróis.
Encontravam-se portanto muitos Jacós e Josés, Elias e Daniéis, Sauls e Davis,
sendo inúmeros meninos chamados de Simão e Judas, os gloriosos macabeus. Outros
ainda eram teóforos, isto é, evocavam o nome de Deus, ou antes, um de seus
nomes. Assim sendo, Jesus, Yeshua, significava "Yah (i.e., Javé) é
salvação". Os nomes terminados em -el lembrava o nome bíblico antiquíssimo
para o Deus Único, El, Elohim. Mas com freqüência tais nomes tinham perdido seu
significado histórico ou sagrado com o uso, e não se pensava mais no sentido
deles. Alguns tinham sido até deturpados, como o de Miriam, muito comum, o qual
dificilmente fazia lembrar da irmã de Moisés, e cujo significado original
"amada de Javé" fora esquecido. Sob a influência do termo aramaico
mary ele era sem dúvida pronunciado Mariam, cuja forma grega e latina era
Maria, significando "a senhora". É curioso notar que no italiano este
nome se transforma em Madona, no francês em Notre Dame e no português Nossa
Senhora.56
Todos esses nomes judeus possuíam
competidores estrangeiros, em quantidades cada vez maiores. Talvez fossem
aramaicos, como Marta, Tabita ou Bar-Tolomai (Bartolomeu); ou talvez gregos ou
latinos. Entre estes dois, o grego era o mais provável, desde que o koiné, a
linguagem popular, era a língua universal do império. A partir da época em que
os selêucidas governaram o país, sempre havia judeus dispostos a helenizar seus
nomes, como aquele Jesus, irmão do sumo sacerdote Onias III, por exemplo, a
quem o semi-louco Antíoco IV colocou no lugar do irmão, e que se fez chamar de
Jason Antiochener.66 Nos dias de Cristo o hábito se arraigara tanto que metade
dos personagens do Novo Testamento tem nome grego. Entre os apóstolos por
exemplo, Filipe e André são nomes helénicos puros; Tadeu e Mateus são
deturpações gregas de nomes hebraicos (Matthayah, o dom de Javé, tornou-se
Matthaios, assim como Yeshua tornou-se Jesus e Miriam Maria); Tiago, Joâo e até
Simão parecem ser formas helenizadas de antigos nomes bíblicos; só Judas é
inteiramente judeu. A adoção de nomes gregos era muito comum entre as pessoas
da classe alta, e isso acabava por extinguir completamente o nome original. No
caso da dinastia herodiana, por exemplo, a família beduína de onde surgiram
ficou inteiramente perdida para a história, mascarada pelo nome grego que significa
filhos de heróis. 0 antigo cemitério judeu de Bete-Searim recém-descoberto
contém 175 inscrições gregas em comparação com apenas 32 hebraicas ou
aramaicas, o que mostra a extensão da helenização.67
Este hábito foi naturalmente ainda mais
adotado nas comunidades judias da Diáspora, onde todos os nomes em Yah ou El se
tornaram Teodoro, Teófilo, Dositeus ou Doroti. Uma família no Egito, cujos
arquivos foram encontrados em Edfou, era composta de um pai chamado Antonio
Rufo e cinco filhos, Nicon, Teodotos Niger, Teodoros Niger, Diofanes e
Ptulis.68 É portanto possível que esses nomes pagãos fossem usados para o trato
com o mundo exterior, e que entre si os judeus continuassem a empregar seus
velhos nomes religiosos: o título real de Herodes Agripa I era meio grego e
meio romano, mas como sumo sacerdote ele se chamava Matatias, em memória do
herói que dera os primeiros golpes na guerra de libertação, matando um oficial
grego e um judeu apóstata.
A EDUCAÇÃO DOS JOVENS
A criança, circuncidada, tendo recebido
um nome e marcada com o selo de Deus, permanecia nos primeiros anos
completamente sob os cuidados da mâe. Os pais judeus não pareciam absolutamente
inclinados a fazer o papel de ama. Além do mais, as judias eram excelentes
mães, conscienciosas e devotas, a Bíblia está cheia de exemplos nesse sentido.
As filhas ficavam com as mães até o dia do casamento. Elas ajudavam nos
cuidados da casa, carregavam água, teciam e, na zona rural, participavam do
trabalho externo — respigavam após os ceifeiros ou cuidavam das ovelhas durante
o dia. O pai se encarregava dos filhos e os iniciava na sua profissão o mais
cedo possível, para que logo pudessem trabalhar com ele, primeiro na função de
aprendizes e a seguir como oficiais. Vemos assim na parábola dos dois filhos
contada no evangelho, o proprietário de uma vinha mandando seus filhos trabalhar
nela,69 e na do pródigo, um dos filhos do homem abastado a serviço dele.60
Jesus teria certamente aprendido o ofício de carpinteiro com José.
A educação ficava também a cargo do pai e
ao que se pode depreender das tradições rabínicas, os métodos de ensino judeu
eram excelentes. Os desagradáveis resultados da preferência do patriarca Jacó
por José, deram lugar ao conselho prudente: "0 homem jamais deve fazer
diferença entre seus filhos". "Ninguém deve ameaçar uma criança"
afirmou outro sábio, "mas castigá-la ou silenciar". E outro ainda:
"Jamais diga a uma criança que vai dar-lhe algo e faltar â promessa, isso
seria ensiná-la a mentir."61 Deve ser porém admitido que os métodos deles
não eram excessivamente brandos. "0 que retém a vara aborrece a seu
filho," dizem os Provérbios, apoiando nossa frase popular: "Guarde a
vara e estrague a criança". Outro versículo diz: "Não retires da
criança a disciplina, pois se a fustigares com a vara, não morrerá. Tu a
fustigarás com a vara e livrará a sua alma do inferno." Também, "A
estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da disciplina a
afastará dela".62 E, como podemos ver, Eclesiastes aprova esses princípios
sadios.63
Os verdadeiros israelitas davam maior
importância â educação moral do que a tudo mais. Existe um provérbio nas
Sagradas Escrituras que diz, "Ensina a criança no caminho que deve andar,
e ainda quando for velho não se desviará dele".64 Na medida em que a lei
moral se fundiu na religiosa, o primeiro dever do pai era ensinar os
mandamentos a seus filhos. Foi esta em todo caso a ordem direta dada por Javé,
através de Moisés, a todos os homens de Israel, ordem essa repetida de manhã e
à noite na oração: "Ensinarás a teus filhos os meus mandamentos".66
Os pais também contavam aos filhos as maravilhas realizadas por Javé a favor de
seu povo, pois a prática da religião e a história da raça eram ambas parte da
Lei. Eles explicavam o significado das grandes festas e lhes mostravam como cada
um dos costumes observados possuía um sentido santo. Isto era também exigido
deles pela Lei. Quando instituiu a Festa dos Pães Asmos, Javé disse:
"Naquele mesmo dia contarás a teu filho, dizendo: É isto pelo que o Senhor
me fez, quando saí do Egito. E será como sinal na tua mão, e por memorial entre
teus olhos."66
Isto significa que o ensino na escola era
desprezado? Longe disso. Os rabinos afirmavam repetidamente que ele era a base
de tudo e absolutamente indispensável. "Se você tiver conhecimento,"
dizia conhecido provérbio, "você tem tudo. Mas se lhe faltar conhecimento,
nada tem". Certos doutores da Lei afirmavam: "É melhor que um
santuário seja destruído do que uma escola".67 E um deles, provavelmente
um professor, chegou a ponto de explicar o mandamento divino: "Não toqueis
nos meus ungidos, nem maltrateis os meus profetas"99 como uma referência
aos alunos e seus professores.
Havia, pois, escolas na Palestina nos
dias de Jesus, embora fossem uma invenção comparativamente recente, datando de
apenas cerca de 100 anos antes dessa época. 0 rabino Simon ben Shetach, irmão
da rainha Salomé Alexandra e presidente do Sinédrio , abriu a primeira beth
hasefer, casa do livro,99 em Jerusalém. Seu exemplo foi seguido por outros e,
pouco a pouco, todo um sistema de instrução pública veio a existir. Cerca de
trinta anos depois da morte de Cristo, no ano 64 mais ou menos, o sumo
sacerdote Joshua ben Gamala promulgou o que pode ser considerado como a
primeira legislação educacional: nada faltava nela — os pais eram obrigados a
enviar seus filhos, havia castigos para os preguiçosos e os que faltavam muito,
e uma espécie de curso secundário para os alunos mais inteligentes.70 Jesus não
teve o benefício de tal sistema em sua infância; mas é provável que o rabino
Gamala estivesse dando apenas os toques finais em algo que já existia bem antes
dele.
A escola primária ficava ligada à
sinagoga, como acontecia no oeste medieval, com a igreja paroquial. As
crianças, tanto ricas como pobres, começavam a freqüentá-la na idade de cinco
anos. O mestre não era outro senão o hazzan, o guardião dos livros sagrados e o
ministro da sinagoga. Mais tarde, ficou estabelecido que no caso do número de
alunos ultrapassar vinte e cinco, um professor especial seria nomeado. Os professores
eram muito considerados; de fato, a voz corrente dizia que um mestre-escola era
"o mensageiro do Todo-poderoso". Ao que parece, havia até mesmo
inspetores encarregados de supervisionar a educação.
A tarefa principal dos alunos, enquanto
ficavam sentados no chão à volta do mestre, era repetir de memória, e todos
juntos, as sentenças ditas por ele em voz alta.71 A mnemónica, parte necessária
da expressão e transmissão do pensamento,72 como veremos, era freqüente-mente
usada no ensino — paralelismo, repetição, aliteração — e as crianças a
empregavam mesmo em suas brincadeiras, como podemos ver naqueles meninos em
Lucas que "gritam uns para os outros: Nós vos tocamos flauta, e não
dançastes: entoamos lamentações e não chorastes",73 que são obviamente
versos mnemónicos.
O que elas aprendiam na escola? Em
primeiro lugar a Torá; ou, para ser mais exato, praticamente nada além da Torá,
a Lei sagrada de Deus. Dizia-se que "a criança deve ser engordada com a
Torá como um boi é cevado no estábulo".74 As máximas da Lei, aprendidas na
infância "entram através do sangue e saem pelos lábios". Ela era
ensinada para tudo, até para aprender o alfabeto: para tornar o aprendizado
mais agradável, palavras eram formadas com cada letra por sua vez, como no
nosso ABC, e arranjadas de modo que a criança podia transformá-las numa pequena
lenda. Linguagem, gramática, história e geografia, ou pelo menos os rudimentos
dessas matérias, eram todas estudadas na Bíblia. "É na Bíblia," diz
Josefo, "que se encontra o mais elevado conhecimento, e a fonte da
felicidade".78 Ele próprio se gaba de tê-la conhecido inteiramente aos
quatorze anos; e o apóstolo Paulo lembra seu discípulo Timóteo que aprendeu as
sagradas letras desde a infância.76
Este uso exclusivo das Escrituras no
ensino foi aparentemente a causa que levou muitos rabinos a negarem às meninas
o direito de aprender. As mulheres não tinham posição oficial na religião, por
que então ensinar-lhes a Lei? "Seria melhor ver a Torá queimada,"
afirmou um doutor algo exaltado, "do que ouvir suas palavras dos lábios
das mulheres."77 O mesmo doutor, que era sem dúvida um misógino, declarou
que "ensinar uma menina seria o mesmo que colocá-la no caminho da
devassidão moral". Talvez possa ser vista aqui uma referência às maneiras
do mundo pagão, em que a educação das mulheres fazia com que entrassem em
contato com os homens, em grande detrimento da boa ordem. Todavia, nem todos os
rabinos defendiam esta opinião, e o mesmo tratado do Talmude que impede a
entrada de meninas na escola, contém esta máxima sábia: 'Todo homem deve
ensinar a Torá à sua filha". Se pudermos julgar pelo exemplo da pequena
Maria, mãe de Jesus, é lícito supor que muitas meninazinhas judias conheciam
tão bem as Sagradas Escrituras quanto seus irmãos; pois quando ela declamou espontaneamente
as linhas esplêndidas que conhecemos como o "Magnificat" tantos ecos
bíblicos lhe ocorreram que é possível distingüir mais de trinta deles.78
Os estudos solenes não impediam porém que
as crianças de Israel brincassem. Zacarias nos mostra as ruas de Jerusalém
cheias de crianças brincando,79 aquelas eternas brincadeiras das crianças ao ar
livre. O evangelho refere-se a crianças copiando os adultos e brincando nas
festas e enterros. Vemos também que nos dias de Jó as meninas brincavam com
animaizi-nhos, até mesmo com "leviatãs", isto é, pequenos crocodilos.
Elas também brincavam com bonecas. As escavações trouxeram à luz pequenas
criaturas de barro, particularmente pássaros como aqueles que, segundo o
Evangelho da Infância apócrifo,82 o menino Jesus dotou de percepção; chocalhos,
bolas e dados decorados: sem dúvida neste caso a Lei e sua proibição de fazer
imagens de qualquer coisa viva podia ser desconsiderada. Em vários locais,
especialmente em Megido, linhas riscadas na pavimentação trazem à mente o jogo
de amarelinha.
0 que pode ser chamado de educação
primária tinha um prolongamento para aqueles que desejassem especializar-se nos
estudos religiosos, um nível bastante superior. A fim de beneficar-se deles era
preciso ir a Jerusalém e entrar numa das beth ha-midrash, uma daquelas escolas
onde ensinavam os mais famosos doutores da Lei. Foi assim que o jovem Saulo de
Tarso veio a sentar-se aos pés de Gamaliel. Não havia porém qualquer idéia de
adquirir conhecimentos que não fossem religiosos nessas instituições, até mesmo
o conceito de uma cultura profana era impossível em Israel. Esses grupos, em
que a casuística era a disciplina principal, existiam com a finalidade de
produzir futuros doutores da Lei. Á grande massa das crianças judias não chegava
até esse ponto.
MAIORIDADE
0 tratado talmúdico Pirke Aboth,
"ditados dos pais”, cujas partes essenciais são com certeza anteriores à
era cristã, estabelecia os seguintes estágios de desenvolvimento da criança:
"Aos cinco anos deve começar os estudos sagrados; aos dez deve dedicar-se
ao aprendizado da tradição; aos treze deve conhecer toda a Lei de Javé e
praticar suas exigências; e aos quinze anos tem início o aperfeiçoamento de
seus conhecimentos" Assim sendo, sem contar aqueles que desejavam aperfeiçoar
seu conhecimento religioso, os meninos judeus deixavam a escola aos treze anos,
alcançando também a maioridade. 0 fato disso acontecer tão cedo pode ser
explicado pela incontestável precocidade de sua raça. Aos treze anos o jovem
israelita tinha certamente abandonado a infância, mesmo que não fosse capaz de
discutir, como o menino Jesus, com os doutores da Lei reunidos nos átrios do
Templo. A partir dessa época exigia-se dele, como dos adultos, que recitasse
três vezes por dia a famosa oração Shema Israel, em que todo crente deve
proclamar sua fé no Deus Único. Ele passaria a jejuar regularmente, nos dias
estabelecidos, especialmente na grande cerimônia do Dia da Expiação. Realizaria
as peregrinações tradicionais, e sempre que fosse ao Templo ser-lhe-ia permitido
entrar no "pátio dos homens", passando assim a fazer parte integrante
da nação de Israel.
Por esta razão o Bar Mitzvah, em que o
menino ao entrar na maioridade era declarado "filho da Lei", se
realizava mediante uma cerimônia religiosa durante a qual ele devia ler uma
passagem da Lei em público e com grande alegria. Tratava-se de uma data muito
importante na vida do judeu. Mesmo hoje em Israel, entre as famílias menos
religiosas, ele continua a reter um caráter semi-religioso. O menino é levado
do kibbutz para um ponto da fronteira onde substitui um dos guardas da Terra
Santa, ou doa sangue para ser usado em transfusões. Da forma em que era
celebrado há dois mil anos atrás, o israelita, ao entrar na maioridade, deveria
compreender que pertencia a uma comunidade.
Ele também tinha um dever, o qual era
exigido dele pela comunidade: mas, não seria realmente mais que um dever?
"O jovem é como o potro que rincha,” diz novamente o Talmude, "anda
de íá para cá, arruma-se com cuidado, tudo porque está procurando esposa”. O
rabino realista que fez esta afirmação, acrescenta: "Mas, uma vez casado,
se assemelha a um jumento, carregado de fardos”.


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