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Maravilhosa Graça
Romanos
9.1-5 Em Cristo digo a verdade, não minto (dando-me testemunho a minha
consciência no Espírito Santo): tenho grande tristeza e contínua dor no meu
coração. Porque eu mesmo poderia desejar ser separado de Cristo, por amor de
meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne; que são israelitas, dos
quais é a adoção de filhos, e a glória, e os concertos, e a lei, e o culto, e
as promessas; dos quais são os pais, e dos quais é Cristo, segundo a carne, o
qual é sobre todos, Deus bendito eternamente. Amém!
O Amor tudo
Sofre... “Porque eu mesmo poderia desejar ser separado de Cristo, por amor de
meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne” (9.3). A fama que o
apóstolo tinha de ser alguém que pregava contra as tradições judaicas chegou
aos lugares mais remotos. Paulo teve que esclarecer algumas das suas posições
com respeito à lei de Moisés para não transparecer que ele era contra a mesma.
Ele explicou que o problema não estava na lei, que era de origem divina, mas
naqueles que buscavam justificação por meio dela.
Outra coisa precisa ser ainda esclarecida :
Paulo não era um antissemita . Ele não renegou seu antigo povo. Aqui ele mostra
que não só amava seu povo como também sofria pela situação espiritual na qual
se encontravam seus compatriotas. Não era um mal ser judeu ; pelo contrário ,
constituía-se um grande privilégio já que foi a eles que Deus confiou seus
oráculos. O que doía no coração do apóstolo era a dureza de coração que havia
cegado seus irmãos, impedindo -os de enxergar o Messias que lhes fora prometido
.
Romanos 9.6-13 Não que
a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são
israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em
Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que
são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência.
Porque a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei, e Sara terá um
filho. E não somente esta, mas também Rebeca, quando concebeu de um, de Isaque,
nosso pai; porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal
(para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa
das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito a ela: O maior servirá o
menor. Como está escrito: Amei Jacó e aborreci Esaú.
Duas Crianças,
Dois Povos Essa seção de Romanos apresenta um dos temas mais profundos das
Escrituras: a soberania de Deus e a liberdade humana. No entanto, “é importante
perceber logo de início ” , destaca Joseph A . Fitzmeyer, “nesta parte de Romanos,
que a perspectiva de Paulo é coletiva. Ele não está expondo a responsabilidade
de indivíduos. Além disso, ele não está discutindo o problema moderno da
responsabilidade dos judeus pela morte de Jesus. Nenhuma dessas questões
deveria ser importada para a interpretação destes capítulos” .1
Com esse entendimento em mente , devemos
perceber que os versículos 6 a 13 apresentam o argumento de que a escolha de
Deus por Israel não se baseou nas obras, mas na fé. O primeiro exemplo dado é o
dos patriarcas. Nos versículos 6 a 9, temos o caso de Ismael e Isaque, ambos
filhos de Abraão. Deus, na sua soberania e graça, escolheu Isaque e seus
descendentes para a realização de seus propósitos. Prevendo que alguém pudesse
objetar que a rejeição de Ismael seria totalmente justificável por não ser ele
filho de Abraão e Sara, o apóstolo apresenta outro exemplo — Esaú e Jacó .2
Ambos eram filhos de Isaque, todavia Deus, na sua soberania, escolhera Jacó e
rejeitara a Esaú. Essa escolha, que não foi uma escolha para a salvação, foi
feita quando eles ainda eram crianças para que prevalecesse a eleição pela graça
e não pelas obras.
Eleição
Corporativa
No versículo
11 do capítulo 9 de Romanos, como foi mostrado no capítulo 7 deste livro , o
apóstolo usa pela primeira vez a palavra eleição . Essa palavra, como foi
mostrado anteriormente, é eklogé. Esse termo aparece sete vezes no Novo Testamento
grego , sendo quatro delas na seção que vai do capítulo 9 ao 11 de Romanos.3 É
, portanto , apropriado tratar do seu uso aqui. Nesse contexto, ela é definida
como sendo o propósito de Deus, em Cristo , para salvar a humanidade.4 As
outras referências são Atos 9 .15 , 1 Tessalonicenses 1.4 e 2 Pedro 2.10. Á luz
do contexto dessas passagens, que nas epístolas são usadas em referência à
igreja , fica bastante evidente que essa palavra possui um sentido corporativo
.5 Como foi demonstrado , esse sentido coletivo é claramente percebido quando
observamos que Paulo interpreta as figuras de Jacó e Esaú em Romanos 9 à luz de
Malaquias 1.2-4.
Nessa última passagem , Edom , outro nome de Esaú, é usado com
o referência a um povo, os edomitas, e não ao in divíduo Esaú. Dale Moody
destaca que “em Malaquias, Jacó e Esaú não são indivíduos, mas grupos, como
claramente indica a identificação de Esaú com Edom (M l 1.4). Jacó e Esaú há
muito tempo estavam mortos como indivíduos, de forma que isto é o que Dodd
chamou de ‘um todo corporativo ’. Da mesma forma Jacó é tomado no seu sentido
coletivo , o povo de Israel, e não a pessoa de Jacó ” .6 Argumento semelhante é
apresentado pelo expositor bíblico Haro ld L. Willmington . Willmington destaca
que esse exemplo “não se refere aos dois meninos, mas às nações que eles
fundaram , a saber Israel e Edom ! Essa citação não se encontra em Gênesis, mas
em Malaquias 1 .2-5. O profeta Obadias nos diz, claramente, por que Deus odiou
a Edom ” .7
A crença no determinismo tem levado alguns a
acreditarem que Romanos 9 afirma a soberania divina e nega o livre-arbítrio .8
Para esses intérpretes, essa passagem ensina que Deus escolhe arbitrariam ente
algumas pessoas e da mesma forma pretere outras. Como já foi demonstrado , esse
entendimento não reflete uma boa exegese do texto . O escritor Roger Olson ,
conceituado teólogo e historiador da igreja, destaca que essa interpretação
equivocada sobre o capítulo 9 de Romanos “jamais foi ouvida antes de Agostinho
, e isso no século V. Toda apatrística grega interpretava Romanos 9 de maneira
diferente” .9 Olson ainda observa com muita propriedade que “uma interpretação
alternativa perfeitamente sensata diz que a passagem de Romanos 9 não está se
referindo a indivíduos ou à salvação pessoal, mas a grupos e ao serviço. Deus é
soberano em escolher Israel e então a igreja gentia para que cumpram seus
respectivos papéis em seu plano de redenção ” .1
A meu ver,
há ainda outro efeito colateral produzido pela crença na eleição incondicional.
Ela afirma que uma vez que uma pessoa foi salva continuará salva para sempre.
Para se manter de pé, esse ensino precisa atribuir um novo sentido a
determinados ensinos das Escrituras. É o caso, por exemplo, do ensino bíblico
sobre a “apostasia” , que nessa concepção teológica passa da esfera real para a
hipotética.11 Esse é, por exemplo, o sentido atribuído à passagem de Hebreus
6.4-6. De acordo com esse entendimento , o texto não se refere a um
acontecimento real, mas apenas hipotético ou que expressa apenas uma
possibilidade. Essa é, por exemplo, a posição defendida pelo expositor bíblico
Donald Guthrie, que acredita que Hebreu s 6.4-6 trata de um “caso hipotético ”
.12 Apesar de essa exegese ser a via mais usada na interpretação desse texto,
não é a mais contextualizada. Essa posição de Guthrie é negada, por exemplo,
pelo batista de convicção calvinista Millard J. Erickson. Erickson procura um
meio termo reconhecendo que Hebreus 6.4-6 realmente admite a possibilidade da
queda na fé .13 Para o expositor William Lane, essas pessoas [H b 6.4-6] haviam
testemunhado “o fato de que a salvação era a realidade inquestionável em suas
vidas” .14 Um dos mais conceituados eruditos em Novo Testamento , I. Howard
Marshall, conclui afirmando que: “Um estudo das descrições o ferecidas aqui em
uma série de quatro particípios (aoristo grego) sugere de modo conclusivo que
um a experiência genuína está sendo descrita” .15
Romanos 9.14-33 Que
diremos, pois? Que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma! Pois diz
a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer e terei misericórdia de quem
eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que
corre, mas de Deus, que se compadece. Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto
mesmo te levantei, para em ti mostrar o meu poder e para que o meu nome seja
anunciado em toda a terra. Logo, pois, compadece-te de quem quer e endurece a
quem quer. Dir-me-ás, então: Por que se queixa ele ainda? Porquanto, quem resiste
à sua vontade? Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura, a
coisa formada dirá ao que o formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o
oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e
outro para desonra? E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a
conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados
para a perdição, para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos
vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou, os quais somos nós,
a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?
Como também diz em Oseias: Chamarei meu povo ao que não era meu povo; e amada,
à que não era amada. E sucederá que no lugar em que lhes foi dito: Vós não sois
meu povo, aí serão chamados filhos do Deus vivo. Também Isaías clamava acerca
de Israel: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o
remanescente é que será salvo. Porque o Senhor executará a sua palavra sobre a
terra, completando-a e abreviando-a. E como antes disse Isaías: Se o Senhor dos
Exércitos nos não deixara descendência, teríamos sido feitos como Sodoma e
seríamos semelhantes a Gomorra. Que diremos, pois? Que os gentios, que não
buscavam a justiça, alcançaram a justiça? Sim, mas a justiça que é pela fé. Mas
Israel, que buscava a lei da justiça, não chegou à lei da justiça. Por quê?
Porque não foi pela fé, mas como que pelas obras da lei. Tropeçaram na pedra de
tropeço, como está escrito: Eis que eu ponho em Sião uma pedra de tropeço e uma
rocha de escândalo; e todo aquele que crer nela não será confundido.
Coração de Pedra
Nos versículos
14 a 3 3 , Paulo cita mais exemplos que ilustram como a graça de Deus se manifesta
dentro do seu propósito soberano. Primeiramente temos o exemplo de Israel e o
Faraó do Egito. A graça amoleceu a servidão de Israel ao mesmo tempo em que
endureceu o coração de faraó. O sol que derrete o gelo é o mesmo que endurece o
concreto. A lição trazida aqui por Paulo, observam os intérpretes da Bíblia, é
que “da mesma forma com o a palavra de Deus endureceu Faraó quando ele
resistiu, ela endureceu os de Israel que não atenderam quando foram chamados
(9.7; cf. SI 95.7,8; H b 3.7,15; 4.7). A resposta à questão da justiça de D eus
é que D eu s é não ap en as justo: ele é misericordioso e justo ” .16
Dizer que
Deus “ endureceu ” a Faraó , não permitindo que o governante egípcio não tivesse
nenhuma escolha nesse processo , não reflete o argumento do texto. Esse texto
não está falando no destino eterno das pessoas, mas da manifestação da
soberania e graça de Deus na concretização de seu propósito. O comentarista
Josep h A . Fitzmeyer comentand o a expressão “ endurece a quem quer” (Rm 9 .1 8
), destaca que: “No AT, o endurecimento do coração de faraó é, às vezes,
atribuído a Deus (Ex 4 .2 1 ; 7.3; 9.12) e, outras vezes ao próprio faraó (Êx
7.14; 8 .11 ,15 ,28 ). O ‘endurecimento do coração ’ por Deus é uma forma
protológica de expressar a reação divina à obstinação humana persistente contra
Ele — uma selagem de uma situação que Ele não criou. Não é, portanto ,
resultado de alguma decisão arbitrária o um esmo planejada por parte de Deus,
mas o modo como o AT expressa o reconhecimento divino de uma situação que emana
de uma criatura que rejeita o convite de Deus” .17 Essa passagem , portanto ,
não serve como fundamento para que se afirme que Deus, no seu grande amor,
escolheu alguns para o céu enquanto preteriu a outros para o inferno .18
Norman Geisler, apologista norte-americano ,
comenta Romano s 9.17 quando responde à pergunta: Como poderia Faraó estar
livre se Deus endureceu o coração dele? Geisler responde:
Primeiro, em sua onisciência , Deus sabia de
antemão exatamente como o Faraó iria agir, e usou isso para realizar os seus
propósitos. Deus prescreveu os meios da ação livre, porém teimosa, de Faraó,
bem como o fim da libertação de Israel. Em Êxodo 3.19, Deus disse a Moisés: “
Eu sei, porém , que o rei do Egito não vos deixará ir, nem ainda por uma mão
forte” . Faraó rejeitou o pedido de Moisés e somente depois de dez pragas foi
que finalmente deixou o povo ir.
Segundo, é importante notar que Faraó
primeiramente endureceu o seu próprio coração. No início, quando Moisés
aproximou -se de Faraó com vistas à libertação dos israelitas (Ê x 5.1), Faraó
respondeu : “Quem é o Senhor, cuja voz eu ouvirei, para deixar ir Israel? Não
conheço o Senhor, nem tampouco deixarei ir Israel” (Ê x 5.2). A passagem que
Paulo cita (em Rm 9.17) é Êxodo 9.16, a qual, no contexto , refere-se à praga
das úlceras, a sexta praga. Mas Faraó endurecera o seu coração antes de Deus
afirmar o que afirmou. Somente porque Deus levantou Faraó, isso não quer dizer
que Faraó não seja responsável por suas ações.
Terceiro, Deus usa a injustiça dos homens para mostrar a sua
glória. Deus ainda considera Faraó responsável, mas no processo do
endurecimento do seu coração o Senhor usou Faraó para manifestar a sua grandeza
e glória. Deus às vezes faz uso de atos maus para obter bons resultados. A
história de José é um bom exemplo disso. José foi vendido por seus irmãos, e mais
tarde tornou-se o governante do Egito. Lá ele salvou muitas vidas durante o
tempo de fome. Quando mais tarde ele se revelou aos seus irmãos e os perdoou ,
disse-lhes: “Vós bem intentastes mal contra mim , porém Deus o tornou em bem ,
para fazer como se vê neste dia, para conservar em vida a um povo grande ” (Gn
50.20). Deus pode usar atos perversos para manifestar a sua glória (veja também
o que é exposto sobre Êxodo 4 .21 ).19
Os Dois Vasos
A metáfora dos dois vasos em Romanos 9.19-24
parece ensinar um determinismo radical. Mas fica apenas na aparência, pois o
texto está longe disso.20 A literatura evangélica registra que nos Estados
Unidos um grupo que se autointitulava batistas Presdestinarianos das Duas
Sementes advogava que esse texto com provava p o r A + B que Deus havia feito
um grupo para a salvação e outro para a condenação.21 Eles fizeram seguidores.
Algum as observações que refutam essa exegese devem ser levadas em conta:
1. No texto
de 2 T imóteo 2.20,21, Paulo usa um a analogia semelhante quando se refere a
alguns tipos de vasos. Ele até usa as mesmas palavras gregas d e Romanos 9 .21
-23 , traduzidas como honroso e desonroso.22 Na passagem de 2 Timóteo 2.20,21,
fica claro que esses vasos, que representam pessoas, podem se consagrar ao
verdadeiro culto a Deus. A metáfora, portanto , não exclui a livre-escolha.
2. O termo grego usado por “ preparado ”
citado na expressão “ preparados para a perdição ” (Rm 9 .22 ) é katertismena.
A . T. Robertson , um dos mais conceituados gramáticos de grego bíblico de
todos os tempos, observa que esse verbo “é o particípio perfeito passivo de
katari^o, o verbo que significa “equipar” (veja M t 4.21 e 2 Co 13.11), estado
de estar preparado . Paulo não diz aqui que Deus fez o que eles fizeram . Que
eles são responsáveis pode-se ver em 1 Ts 2 .1 5ss” .23 Em outras palavras,
Deus não foi a causa da condição na qual se encontravam esses vasos. O tempo perfeito
grego , que significa uma ação feita no passado com consequências no presente,
mostra que houve um a trajetória percorrida por esses “vasos” até chegar aonde
chegaram .24 Dale Moody destaca que isso indica que “no caminho da perdição,
certo estágio foi alcançado ” .25 Isso significa também que Deus foi paciente e
misericordioso com um povo rebelde e contumaz até que chegou o momento de
executar a sua justiça. James Moffat, em sua clássica tradução do Novo
Testamento , captou bem o sentido desse texto: “Que quer dizer, se Deus, embora
desejoso de exibir sua ira e mostrar o seu poder, tolerou mui pacientemente os
objetos da sua ira, maduros e prontos para serem destruídos?”26 O enfoque recai
sobre a grande misericórdia e paciência divina.
3. O exegeta
Joseph A . Fitzmeyer, ao comentar a palavra “querendo ” em Romanos 9 .22 ,
destaca que “ embora alguns comentarista s (Jerônimo, Tomás de Aquino, Barrett,
Cranfield, Michel) entendam o particípio thelon de forma causal, ‘porque quis’,
parece melhor, pelo contexto (especialmente em vista da expressão ‘com muita paciência’),
entendê-lo de forma concessiva, ‘embora tenha querido’, i.e., embora sua ira
pudesse tê-lo levado a tornar conhecido o seu poder, sua bondade amorosa o
conteve. Deus deu a faraó tempo para que se arrependesse [,.i\ prontos para perdição:
o particípio perfeito expressa o estado no qual esses “vasos” se encontram —
‘prontos’ para o monte de lixo. Este versículo expressa a incompatibilidade
radical de Deus com os seres humanos rebeldes e pecaminosos. Ele contém ,
também , uma nuança da predestinação, e a formulação de Paulo é mais genérica
do que o exemplo com o qual ele iniciou; é por isso que estas palavras foram
utilizadas nas controvérsias posteriores sobre a predestinação . Entretanto ,
não se devería perder de vista sua perspectiva coletiva”? 1 (itálicos meus)
Romanos 10.1-21 Irmãos,
o bom desejo do meu coração e a oração a Deus por Israel é para sua salvação.
Porque lhes dou testemunho de que têm zelo por Deus, mas não com entendimento.
Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua
própria, não se sujeitaram à justiça de Deus. Porque o fim da lei é Cristo para
justiça de todo aquele que crê. Ora, Moisés descreve a justiça que é pela lei,
dizendo: O homem que fizer estas coisas viverá por elas. Mas a justiça que é
pela fé diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, a
trazer do alto a Cristo)? Ou: Quem descerá ao abismo (isto é, a tornar a trazer
dentre os mortos a Cristo)? Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua
boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: Se, com a
tua boca, confessares ao Senhor Jesus e, em teu coração, creres que Deus o
ressuscitou dos mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a
justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz:
Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto não há diferença entre
judeu e grego, porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que
o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como,
pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não
ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem
enviados? Como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam a paz, dos
que anunciam coisas boas! Mas nem todos obedecem ao evangelho; pois Isaías diz:
Senhor, quem creu na nossa pregação? De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir
pela palavra de Deus. Mas digo: Porventura, não ouviram? Sim, por certo, pois
por toda a terra saiu a voz deles, e as suas palavras até aos confins do mundo.
Mas digo: Porventura, Israel não o soube? Primeiramente, diz Moisés: Eu vos
meterei em ciúmes com aqueles que não são povo, com gente insensata vos
provocarei à ira. E Isaías ousadamente diz: Fui achado pelos que me não
buscavam, fui manifestado aos que por mim não perguntavam. Mas contra Israel
diz: Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo rebelde e contradizente.
O Eco da Palavra de Deus
Essa seção
que se estende por todo o capítulo 10 de Romanos tem duas divisões principais.
Na primeira delas o apóstolo desenvolve o argumento de que a rejeição de Israel
se deu por conta da busca da justificação pelas obras e não pela fé. O apóstolo
mostra a impossibilidade d a justificação pelos méritos da lei pela razão de
que o fim da lei é Cristo (v. 4 ).28 O expositor Charles Cousar destaca o fato
de o versículo 4 do capítulo 10 de Romanos estar traduzido na versão americana
NRSV como o “ fim ” ou “ término ” da lei. “Paulo havia insistido que a lei é
santa, justa e boa (Rm 7.12) e que testemunha acerca da justiça de Deus que é
recebida pela fé (3.21). Ele tinha dito que Deus atuou na morte de Jesus Cristo
para cumprir ‘o requisito da lei’ (8.4), sugerindo que a melhor tradução é ‘meta ’ ou ‘propósito ’. 0 que
Paulo está afirmando nesta leitura é que a própria lei não tem outra coisa como
fundamento senão Cristo como a base da justiça para todos os que creem (1 T m
1.4)” .29
Ao assim fazer, estavam buscando a sua própria
justiça em vez de aceitarem a que lhes foi outorgada por Deus em Cristo Jesus.
Eles tropeçaram na lei. O segundo argumento do apóstolo mostra que essa
rejeição não se deu por falta de testem unho da parte de Deus (Rm 10.8-21).
Pelo contrário, as Escrituras eram a prova documental das advertências que Deus
lhes fizera no passado. Aqui os judeus tropeçaram na palavra de Deus quando se
recusaram ou se fizeram de surdos para não ouvirem os ecos de sua voz.
Romanos 11.1-10 Digo,
pois: porventura, rejeitou Deus o seu povo? De modo nenhum! Porque também eu
sou israelita, da descendência de Abraão, da tribo de Benjamim. Deus não
rejeitou o seu povo, que antes conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura diz de
Elias, como fala a Deus contra Israel, dizendo: Senhor, mataram os teus
profetas e derribaram os teus altares; e só eu fiquei, e buscam a minha alma?
Mas que lhe diz a resposta divina? Reservei para mim sete mil varões, que não
dobraram os joelhos diante de Baal. Assim, pois, também agora neste tempo ficou
um resto, segundo a eleição da graça. Mas, se é por graça, já não é pelas
obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Pois quê? O que Israel buscava
não o alcançou; mas os eleitos o alcançaram, e os outros foram endurecidos.
Como está escrito: Deus lhes deu espírito de profundo sono; olhos para não
verem e ouvidos para não ouvirem, até ao dia de hoje. E Davi diz: Torne-se-lhes
a sua mesa em laço, e em armadilha, e em tropeço, por sua retribuição;
escureçam-se-lhes os olhos para não verem, e encurvem-se-lhes continuamente as
costas.
Deus Tem suas Reservas
Recorrendo novamente ao método de diatribe,
Paulo responde às possíveis objeções sobre a rejeição de Israel. Essa seção
introduz a figura do remanescente que deu continuidade ao propósito eletivo de
Deus. Se era um fato que Israel havia falhado como dissera Paulo, então com o
ficariam as promessas que Deus fizera no passado a seu povo ? Elas se
extinguiram ? Não havia mais nada que Deus pudesse tratar com Israel? O
apóstolo mostra que a grande maioria de Israel havia rejeitado a justiça que
vem da fé em Cristo, mas que essa rejeição não era total nem definitiva. E m meio
a esse processo de rejeição , Deus sempre contou com um remanescente fiel a
quem escolheu . Como em Romanos 9.11, aqui a eleição (gr. eklogé) se deu
inteiramente pela graça e não pelas obras (R m 11.5,7). A graça sempre tem suas
reservas. Paulo cita seu próprio exemplo e do profeta Elias como remanescente
que foram fiéis a Deus.
Romanos 11.11-24 Digo,
pois: porventura, tropeçaram, para que caíssem? De modo nenhum! Mas, pela sua
queda, veio a salvação aos gentios, para os incitar à emulação. E, se a sua
queda é a riqueza do mundo, e a sua diminuição, a riqueza dos gentios, quanto
mais a sua plenitude! Porque convosco falo, gentios, que, enquanto for apóstolo
dos gentios, glorificarei o meu ministério; para ver se de alguma maneira posso
incitar à emulação os da minha carne e salvar alguns deles. Porque, se a sua: rejeição
é a reconciliação do mundo, qual será a sua admissão, senão a vida dentre os
mortos? E, se as primícias são santas, também a massa o é; se a raiz é santa,
também os ramos o são. E se alguns dos ramos foram quebrados, e tu, sendo
zambujeiro, foste enxertado em lugar deles e feito participante da raiz e da
seiva da oliveira, não te glories contra os ramos; e, se contra eles te
gloriares, não és tu que sustentas a raiz, mas a raiz a ti. Dirás, pois: Os
ramos foram quebrados, para que eu fosse enxertado. Está bem! Pela sua
incredulidade foram quebrados, e tu estás em pé pela fé; então, não te
ensoberbeças, mas teme. Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, teme que
te não poupe a ti também. Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para
com os que caíram, severidade; mas, para contigo, a benignidade de Deus, se
permaneceres na sua benignidade; de outra maneira, também tu serás cortado. E
também eles, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; porque
poderoso é Deus para os tornar a enxertar. Porque, se tu foste cortado do
natural zambujeiro e, contra a natureza, enxertado na boa oliveira, quanto mais
esses, que são naturais, serão enxertados na sua própria oliveira!
A Oliveira e seu Enxerto
O expositor bíblico Lawrence Richards destaca
que “a rejeição judaica da justiça pela fé em Deus abriu espaço para um número
muito grande de gentios a serem enxertados na árvore enraizada na antiga
aliança de Deus com Abraão. Esta não deveria ser objeto de orgulho gentio, mas
de advertência. Nunca abandone o princípio de salvação pela graça através da
fé” .30 A exortação de Paulo nessa porção das Escrituras é clara — os judeus,
ilustrado s p elo exemplo da oliveira verdadeira, em razão de quererem cumprir
a justiça divina através das obras, foram rejeitados. A oliveira não foi
arrancada, apenas teve seus galhos quebrados e no lugar destes enxertados os
gentios. Nenhum gentio podia se gloriar desse fato porque, assim com o os ramos
naturais foram quebrados, o enxerto da mesma forma poderia ser arrancado. Era,
portanto, motivo de temor e não de exaltação.
Romanos 11.25-36 Porque
não quero, irmãos, que ignoreis este segredo (para que não presumais de vós
mesmos): que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que haja a
plenitude dos gentios haja entrado. E, assim, todo o Israel será salvo, como
está escrito: De Sião virá o Libertador, e desviará de Jacó as impiedades. E
este será o meu concerto com eles, quando eu tirar os seus pecados. Assim que,
quanto ao evangelho, são inimigos por causa de vós; mas, quanto à eleição,
amados por causa dos pais. Porque os dons e a vocação de Deus são sem
arrependimento. Porque assim como vós também, antigamente, fostes desobedientes
a Deus, mas, agora, alcançastes misericórdia pela desobediência deles, assim
também estes, agora, foram desobedientes, para também alcançarem misericórdia
pela misericórdia a vós demonstrada. Porque Deus encerrou a todos debaixo da
desobediência, para com todos usar de misericórdia. O profundidade das
riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os
seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Porque quem compreendeu o
intento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele,
para que lhe seja recompensado? Porque dele, e por ele, e para ele são todas as
coisas; glória, pois, e ele eternamente. Amém!
A Graça Restauradora
Qualquer
exegese que não contempla uma restauração em massa que acontecerá com Israel no
futuro contradiz a argumentação de Paulo em Romanos 11.25-36. O escritor O. P
almer Robertson gastou 200 páginas de
seu livro argumentando que “todo o Israel” citado por Paulo não significa “o
todo Israel” . Explico. Palmer foi minucioso na sua exegese a fim de provar que
o projeto de Deus não é como Israel nação, mas com o Israel cristão. Em outras
palavras, o projeto de Deus não é com o Israel étnico, mas somente com o Israel
eleito. No seu entendimento , o “ todo Israel” que Paulo citou não se refere à
nação judaica, mas a “todos os judeus eleito s em Cristo ” . A referência
seria, portanto , aos judeus messiânicos que receberam a Cristo como Salvador.
A exegese de Palmer entra em rota de colisão com outros intérpretes de renome,
como por exemplo, Leon Morris. A meu ver, o argumento de Palmer se torna frágil
quando o faz depender quase que inteiramente da tradução da conjunção grega kai
e do pronome outos em Romanos 11.26. Segundo ele, a tradução correta dessa
expressão é “dessa forma”, e não “e então ” como traz a maioria das versões da
Bíblia. Fundamentado n essa convicção , ele completa: “ a conclusão a que se
pode legitimamente chegar é a de que “todo Israel” refere-se a todos os judeu s
eleitos. Todos do verdadeiro Israel de Deus, o eleito do Pai, serão salvos” .31
A teoria d e
O. Palmer Roberts n é bem construída , mas não se enquadra naquilo que Paulo
procurou mostrar entre os capítulos 9 e 11 de Romanos. A palavra “todos” é
entendida pela grande maioria dos intérpretes como sendo uma referência clara
ao Israel étnico. E desse Israel étnico que Paulo vem falando como sendo amados
por causa dos patriarcas e não apenas a “todos” os israelitas eleitos (R m
11.28). A exegese de Palmer ignora a expectativa escatológica claramente mostrada
pelo apóstolo nesse capítulo . No entendimento do apóstolo , o Messias, que
fora rejeitado , voltará novamente como Libertador, e quando ele voltar “apartará
de Jacó as impiedade/ ’ (Rm 11.26). Esse versículo só tem sentido dentro de um
contexto escatológico futuro. Esse fato é claramente demonstrado por Paulo
quando ele afirma que a vinda do Messias Libertador acontecerá somente após haver se cumprido a plenitude dos
gentios. “Até que haja entrado a plenitude dos gentios” (R m 11.25). Isso
evidentemente ainda não aconteceu. Ao contrário da tese de Palmer, em que “todo
Israel” se limita apenas aos judeus messiânicos, o “todo Israel” de Paulo é um
a referência ao Israel étnico que se voltará em massa quando o Messias voltar.32
A graça que
alcançou os gentios, a graça que alcançou os judeus messiânicos, é a mesma
graça que reservou um futuro glorioso para Israel. “Orai pela paz de Jerusalém
! Prosperarão aqueles que te amam ” (SI 122.6).
102 |
Maravilhosa G raça
A soberania de Deus na salvação
Romanos 9-11 É um dos textos mais
complexos de toda a Bíblia. Charles Erdman é da opinião que estes três
capítulos são possivelmente os mais difíceis de interpretar de tudo quanto
Paulo jamais escreveu.772 Tom Wright diz que Romanos é um livro que contém oito
capítulos de “evangelho” no começo, quatro de “aplicação” no final e, no meio,
três capítulos de puro enigma. Ele chegou a considerar Romanos um livro tão cheio
de problemas quanto um ouriço de espinhos/73 Alguns eruditos pensam que Paulo
está apenas fazendo um parêntese e retornará ao fio da meada no capítulo 12,
com a aplicação da doutrina ensinada até o capítulo 8.774
Outros
estudiosos, entretanto, defendem que esse é o ponto culminante da carta, em que
Paulo detalhará a soberania.
Geoffrey
Wilson afirma categoricamente que a capitulação neste ponto [soberania de Deus]
marcaria o abandono da fé no Deus vivo.776 Stendahl alega que Romanos 9—11
constitui o cerne e o clímax da epístola e a única função dos capítulos
restantes seria a de introdução e conclusão.777 Para Calvino, esta porção das
Escrituras é uma defesa da verdadeira identidade do Cristo e da credibilidade
das promessas de Deus.
John Stott
diz que, em Romanos 9—11, Paulo aborda a posição singular do povo judeu no
propósito de Deus. Aquilo que Paulo já havia aludido em uma série de passagens
anteriores (1.16; 2.9; 2.17; 3.1; 3.29; 4.1; 5.20; 6.14; 7.1; 8.2), agora ele
passa a elaborar.779 David Stern afirma que os capítulos 9-11 de Romanos contêm
a discussão mais importante e completa do Novo Testamento sobre o povo
judeu.780 Cada capítulo aborda um aspecto diferente da relação de Deus com
Israel, o passado, o presente e o futuro:
1) o
fracasso de Israel —o propósito da eleição de Deus (9.1-33);
2) a culpa
de Israel - o desapontamento de Deus com a desobediência do seu povo (10.1-21);
3) o futuro
de Israel — o desígnio eterno de Deus (11.1-32); 4) doxologia — a sabedoria e a
generosidade de Deus (11.33-36).781
Para William
Hendriksen, tanto no passado como no presente muitos eruditos defendem como
propósito de Romanos 9-11 mostrar que na reta final da história humana todos os
judeus sobre a terra serão salvos. Essa salvação alcançaria a nação toda, numa
abrangente recuperação escatológica dos judeus incrédulos.782
Charles
Erdman diz que Romanos 9—11 deve ser lido como uma unidade. Os três capítulos
tratam tanto da soberania de Deus como da responsabilidade humana, formando uma
trilogia: o capítulo 9 olha para o passado e mostra a soberana eleição divina;
o capítulo 10 vê o presente e aborda a responsabilidade humana; já o capítulo 11
vislumbra o futuro e trata da bênção universal. O primeiro focaliza a
“eleição”, o segundo a “rejeição”, o terceiro a “restauração”; a trilogia abre
as cortinas com um brado de angústia de Paulo, mas se encerra com uma doxologia
de louvor a Deus, cujos juízos são insondáveis, cujos caminhos
Analisaremos agora o capítulo 9.
Cinco verdades devem ser aqui destacadas.
A tristeza de Paulo (9: 1-5)
Paulo passa
da exultação do final do capítulo 8 para a profunda tristeza do começo do
capítulo 9. William Greathouse diz que o grito de alegria de Paulo se tornou um
soluço de compaixão. 84 Na vida do cristão, algumas vezes, coexistem a alegria
e a tristeza; a exultação e a dor.
Muitos
judeus olhavam para Paulo como um consumado inimigo. Sentiam-se traídos com sua
conversão à fé cristã e o conseqüente abandono das fileiras do judaísmo. Por
esta causa, os judeus compatriotas foram seus perseguidores mais implacáveis.
Eles não acreditavam que Paulo os amasse. Então, o apóstolo reforça seu
argumento:
“Digo a
verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a minha
própria consciência” (9.1). Paulo afirma seu amor pelos israelitas, evocando o
testemunho de Cristo e do Espírito Santo. Sua confissão de amor por seus
compatrícios não é uma retórica vazia nem uma verborragia hipócrita,
dissimulada e fingida, mas uma realidade insofismável. Seu coração está
rasgado, seus olhos estão molhados e sua alma está gemendo.
William
Hendriksen diz que a tristeza de Paulo é grande em sua intensidade, profunda em
sua natureza e incessante
Qual é a razão da tristeza de Paulo?
Em primeiro
lugar, a incredulidade dos judeus (9.1-3). Os judeus, irmãos e compatriotas de
Paulo segundo a carne, ainda estavam aferrados à sua tradição religiosa, sem
Cristo e sem salvação. Isso provoca no apóstolo grande tristeza e incessante
dor. Paulo é um teólogo que escreve sobre a soberania de Deus não como frio
acadêmico, mas como homem de coração quebrado e com os olhos molhados de
lágrimas. Embora faça uma análise meticulosa do propósito soberano de Deus na
salvação, revela profundo amor por seu povo e grande pesar por vê-lo ainda
endurecido ao evangelho da graça.
Como
apóstolo dos gentios, Paulo anseia ardentemente ver a salvação dos judeus, seus
compatriotas segundo a carne. A tristeza profunda e a dor contínua do veterano
apóstolo o levam a fazer uma ousada confissão. Ele desejou ser apartado de
Cristo para que seus irmãos fossem reconciliados com Cristo. Desejou ser
maldito para que seus compatriotas fossem benditos. Desejou ir ao inferno para
que os seus irmãos fossem ao céu. Warren Wiersbe diz que Paulo se mostrou
disposto a ficar fora do céu por amor aos salvos e a ir ao inferno por amor aos
perdidos (9.3).786 A palavra grega anathema significa “separado de Cristo e destinado
à destruição, ou seja, abandonado à perdição”.787 Paulo estava pronto a ir às
últimas conseqüências para ver seus compatrícios salvos.
O sentimento
de Paulo nos lembra de Judá que, como substituto de seu irmão Benjamim, disse:
“Agora, pois, fique teu servo em lugar do moço por servo de meu senhor” (Gn
44.33). Recorda-nos as palavras emocionantes de Moisés ao interceder pelo povo:
“Agora, pois, perdoa-lhe o pecado; ou, se não, risca-me, peço-te, do livro que
escreveste” (Êx 32.32). Voltamos nossa memória para o agonizante clamor de
Davi: “Meu filho Absalão, meu filho, meu filho Absalão! Quem me dera que eu
morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho!” (2Sm 18.33). Porém, acima de
tudo, ele fixa nossa atenção naquele que realmente se fez o substituto de seu
povo (3.24,25;8,32)
Citando
Lutero, John Stott declara: “Parece inacreditável que um homem se disponha a
ser amaldiçoado a fim de que os malditos possam se salvar”.789 E óbvio que essa
é uma impossibilidade absoluta, já que o mesmo Paulo acabara de ensinar que nada
nem ninguém pode separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus
(8.38,39). No entanto, se isso fosse possível, estaria disposto a sacrificar-se
para ver sacrificar-se para ver seus irmãos salvos.
Em segundo
lugar, os privilégios dos judeus (9.4,5). A tristeza de Paulo se agravava não
apenas pelo fato de seus irmãos permanecerem incrédulos, mas também por
permanecerem incrédulos a despeito de tantos e benditos privilégios. Que
insignes privilégios eram esses?
a. A
descendência (9.4). Eles eram descentes de Jacó. O título “israelitas” chama à
atenção sua descendência de Jacó, cujo nome foi mudado para “Israel”, em
comemoração à sua fé vitoriosa, que não permitiu que Deus o deixasse
b. A adoção
(9.4). A adoção se refere à sua eleição teocrática, pela qual eles foram
separados das nações pagãs para se tornarem os primogênitos de Deus (Êx 4.22),
sua possessão particular (Êx 19.5), seu filho (Os 11.1), seu
c. A glória
(9.4). A “glória” era o sinal visível da presença de Deus com eles. William
Hendriksen diz que a glória é a manifestação visível do Deus invisível.790 John
Murray esclarece que essa glória deve ser reputada como referência àquela que
se manifestou e permaneceu no monte Sinai (Êx 24.16,17), a glória que cobriu e
encheu o Tabernáculo (Êx 40.34-38), a glória que aparecia sobre o
propiciatório, no Santo dos Santos (Lv 16.2), a glória do Senhor que encheu o
templo (lRs 8.10,11). Essa glória era o sinal da presença de Deus entre os
israelitas, garantindo-lhes que Deus habitava e viera ter comunhão com eles (Ex
29.42-
d. As
alianças (9.4). As “alianças” estão no plural porque o pacto de Deus foi
progressivamente revelado. Mesmo que haja somente um pacto da graça, em
essência idêntico em ambas as dispensações, ele foi revelado plenamente no
decurso do tempo.792 John Murray tem razão quando diz que devemos considerar o
plural como denotação das alianças abraâmica, mosaica e davídica.793
e. A
legislação (9.4). Deus favoreceu de modo especial Israel, pela dádiva da lei.
Deus deu preceitos e instruções a seu povo para guiá-lo no caminho da
santidade.
f. O culto
(9.4). O culto aqui fala da adoração do verdadeiro Deus de modo verdadeiro.
William Hendriksen diz corretamente que Romanos 9.4 se refere a muito mais que
o culto no templo, ou ainda o culto público em geral. Provavelmente Paulo
estava pensando no culto ou serviço verdadeiro do único Deus e na maneira pela
qual tal homenagem é prestada.
g. As
promessas (9.4). Essas “promessas” são aquelas relativas ao Messias, e foi pela
fé nessas promessas que os santos da antiga dispensação obtiveram a vida
eterna.
h. Os
patriarcas (9.5). Os “patriarcas” se referem a Abraão, Isaque e Jacó, os pais
da fé de quem eles descendiam e podiam orgulhar-se (Ex 3.6; Lc 20.37).
i. A
descendência de Cristo, segundo a carne (9.5). A maior glória de Israel
consiste no fato de Cristo, que é “sobre todos, Deus bendito eternamente.
Amém”, ter consentido em ser seu compatriota “segundo a carne”. Paulo afirma
ambas as naturezas de Cristo: a divina e a humana. Os eruditos ao longo dos séculos
têm discutido se essa doxologia se refere a Deus Pai ou a Deus Filho. Concordo
com a ideia de Geoffrey Wilson de que esta é uma doxologia a Deus [Pai] anulada
pelo contexto. O que torna a tristeza de Paulo tão forte é o fato de que
Israel, mesmo tão favorecido por Deus, tenha fracassado em reconhecer Cristo
como seu Salvador. Assim, se Paulo inserisse uma doxologia a Deus [Pai] neste
ponto, ela estaria fora de lugar e a incongruência seria evidente. Entretanto,
é altamente apropriado Paulo mostrar que o Cristo que os judeus rejeitaram e
crucificaram é aquele que é “sobre todos, Deus bendito eternamente”.795
A eleição divina, a Palavra que não
pode falhar (9.6-13)
Em face da
incredulidade de muitos judeus, alguns começaram a duvidar da credibilidade da
Palavra e da veracidade das promessas. Alguns escritores acreditam que Paulo
escreveu a carta aos Romanos com o propósito de mostrar a solução ao dilema dos
judeus: ou as promessas de Deus eram falsas, ou os judeus não podiam perder-se
porque eram judeus. Ou o evangelho de Paulo era falso, ou as promessas de Deus
não eram verdade.796 Paulo responde aessas objeções citando a soberana eleição
divina. Destacamos aqui dois pontos:
Em primeiro lugar, a eleição não é genética, mas
espiritual(9.6-9). Nem todos os descendentes físicos de Abraão são filhos
espirituais de Abraão. Os verdadeiros filhos de Abraão não são os que têm o
sangue de Abraão correndo nas veias, mas os que têm a fé de Abraão em seu
coração. O puritano John Flavel é ainda mais claro: “Se a fé de Abraão não
estiver em seus corações, de nada lhes adiantará ter o sangue de Abraão em suas
veias”.797 Geoffrey Wilson está certo quando diz que a descendência natural de
Abraão não é garantia de um parentesco espiritual com Abraão.798 Adolf Pohl
esclarece esse ponto: “O nascimento judaico não é por natureza uma ligação com
Deus. Nenhum poder salvífico lhe é inerente. Deus não se deixa enquadrar como
um deus nacionalista”.799
John Stott
diz que sempre houve dois tipos de “Israel”: de um lado, os que o eram por
descenderem fisicamente de Israel (Jacó) e, de outro lado, os que constituíam
sua descendência espiritual; e a promessa de Deus destinava-se aos últimos, os
que a receberam.800 John Murray afirma que existe um “Israel” dentro do Israel
étnico. Assim, não sao judeus todos os que são judeus, nem são circuncisos
todos os que são da circuncisão (2.28,29). O Israel distinguido do Israel de
descendência natural é o verdadeiro Israel,801 Na linguagem de Paulo, este é o
Israel segundo o Espírito (G1 4.29). Desta maneira, os verdadeiros filhos de
Abraão são aqueles que “também andam nas pisadas da fé que teve Abraão” (4.12).
A promessa da aliança estabelecida por Deus não foi promulgada para incluir
todo o Israel étnico,
Em segundo lugar, a eleição divina não é
meritória,mas incondicional (9.10-13). Paulo exemplifica isso com dois exemplos
da escolha divina dentro do Israel étnico: Isaque e Jacó. Tanto a escolha de
Isaque em vez de Ismael quanto a de Jacó em vez de Esaú ilustram a mesma
verdade fundamental do propósito de Deus conforme a eleição. Desta forma, a
promessa de Deus não falhou, apenas se cumpriu no Israel espiritual dentro do
Israel físico.802 Este ponto é elucidado por E E Bruce:
Abraão foi pai de um bom número de
filhos, mas somente por meio de um deles, Isaque, o filho da promessa, é que a
linha da promessa de Deus devia ser traçada. Isaque, por sua vez, teve dois
filhos, mas somente por um deles, Jacó, é que a semente santa foi transmitida.
E a escolha que Deus fez de Jacó e a omissão do seu irmão Esaú não dependeram
nem um pouco da conduta ou do caráter dos irmãos gêmeos: Deus o declarara
previamente - antes do nascimento deles.803
Geoffrey
Wilson tem razão quando diz que não existia nenhuma tal disparidade entre Esaú
e Jacó, quer de nascimento, quer de obras; ambos tinham a mesma mãe; Rebeca os
concebeu no mesmo momento, e de ninguém além de nosso pai Isaque; e assim mesmo
um deles é escolhido, e o outro recusado.804 Jacó não foi amado por causa de
suas virtudes, nem Esaú foi rejeitado por causa de seus deméritos. A escolha
divina foi feita antes que pudesse haver qualquer manifestação de seus
caracteres.
Tanto Esaú
como Jacó mereciam repúdio, por causa do pecado de Adão, de modo que, na
realidade, é mais fácil explicar a rejeição de Deus por Esaú que seu amor por
Jacó (Ml 1.2). Quando todos merecem a morte, é um milagre de pura graça se
alguns recebem vida. Certamente Jacó não merecia essa misericórdia mais que Esaú.
No entanto, Deus soberanamente escolheu Jacó, enquanto também soberanamente
deixou de lado Esaú. Cranfield tem razão quando diz que tanto “amar” como
“aborrecer” devem ser entendidos como designando eleição e rejeição,
respectivamente. Deus escolheu Jacó e seus descendentes para serem seu povo
peculiar e deixou Esaú e Edom fora desse relacionamento.805
A eleição de
Israel aqui tratada pelo apóstolo não é apenas nacional, coletiva e teocrática,
como pensava Leenhardt, mas pessoal.806 Presto apoio ao que diz John Murray:
“Nem todos os que são da nação eleita de Israel são eleitos. Há uma distinção
entre Israel e o verdadeiro Israel, entre os filhos e os filhos verdadeiros,
entre os descendentes e os verdadeiros descendentes. Precisamos distinguir
entre os eleitos de Israel e a nação eleita de Israel”.807
A misericórdia divina, uma decisão de
sua livre e soberana escolha (9.14-18)
Alguns
opositores insinuavam que o ensino de Paulo acerca da soberania de Deus na
salvação tornava Deus injusto por conceder a uns a sua misericórdia e ignorar
outros, aplicando a eles sua santa ira. Paulo responde a esses
Em primeiro lugar, a misericórdia divina nao é
merecimento humano (9.14-16). Paulo defende a justiça de Deus proclamando sua
misericórdia, mostrando que aqueles que acusam Deus de cometer injustiça estão
rotundamente equivocados, uma vez que, quando se trata de salvar pecadores,
Deus não se baseia em justiça, mas em misericórdia.Deus não deve misericórdia a
nenhum homem. As palavras divinas ditas a Moisés revelam misericórdia (9.15),
enquanto as dirigidas a Faraó apontam para o seu poder julgador (9.17). Deus é
glorificado tanto em sua misericórdia como escolha (9.14-18).
Como todos
não merecem nada além de ira, ninguém pode reivindicar a misericórdia como
direito. Assim, Deus não é injusto quando deixa que alguns recebam a justa
recompensa por seus atos. Pois, embora ele deva punir o pecado, não está sob
nenhuma obrigação de exercer misericórdia. Não há base justa para se reclamar
de Deus. “Não me é lícito fazer o que quero do que é meu?”
A eleição de
Deus não provém da vontade ou do esforço de Jacó, nem de homem algum, isto é,
não vem de seus bons desejos ou ações, suas boas inclinações e obras, nem da
previsão destas coisas; vem puramente da misericórdia e
Em segundo lugar, dar ao homem o que seus pecados merecem
nao é arbitrariedade divina (9.17). A escolha de alguns para a vida eterna
inevitavelmente implica a rejeição de outros, e isto se confirma pelo exemplo
de Faraó (Ex 9.16).810 As mesmas Escrituras que anunciam misericórdia a Moisés
(9.15) anunciam o poder de juízo a Faraó (9.17). Com respeito à salvação, Deus
deu a Moisés o que ele não merecia e, quanto ao juízo, Deus deu a Faraó o que
ele merecia. Nisso não há injustiça da parte de Deus, pois ele ignora alguns
enquanto concede sua graça a outros. Ele tem o direito de fazer isso porque não
deve sua graça a nenhum homem. John Stott está coberto de razão quando diz que,
se há algo de surpreendente nisso tudo, não é que uns sejam salvos e outros
não, mas que pelo menos alguém se salve; afinal de contas, perante Deus, nenhum
de nós merece coisa alguma a não ser o juízo. Quer recebamos o que merecíamos
(ou seja, juízo), quer recebamos o que não merecíamos (isto é, misericórdia),
em nenhum dos casos Deus estará sendo injusto. Se, portanto, alguém se perder,
a culpa é sua; mas se alguém for salvo, o crédito é de Deus.
Em terceiro lugar, Deus endurece os endurecidos e dá a
eles o que merecem (9.18). Deus endurece os endurecidos. Jamais haverá o caso
de um indivíduo desejoso de ir a Cristo mesmo sendo rejeitado. Os réprobos são
aqueles que deliberadamente rejeitam a graça. Por isso, a doutrina de rejeição
é a contrapartida da doutrina da eleição, pois a eleição de alguns implica
inevitavelmente a rejeição de outros (Mt 11.25,26; lPe 2.8; Jd 4). As duas
doutrinas permanecem em pé ou caem juntas.812 Louis Berkhof define com clareza
a doutrina da rejeição: “A reprovação pode definir-se como aquele decreto
eterno de Deus, por meio do qual ele determina passar por alto a alguns homens
com a operação de sua graça especial e castigá-los por seus pecados para
manifestar assim sua justiça”.813 A causa eficiente da salvação é a graça, mas
a causa eficiente
William
Hendriksen está certo quando diz: “Ainda que o pecado seja de fato a causa
meritória da reprovação, a fé não é a causa meritória da eleição”.814 O
espantoso não é o fato de Deus condenar o pecador por sua justiça, mas de Deus
salvá-lo por sua graça. As Confissões Reformadas (Confissão Belga, Catecismo de
Heidelberg, Confissão Helvética e Confissão de Westminster e Catecismos Breve e
Maior) são unânimes em ensinar tanto a eleição pela graça como a reprovação dos
impenitentes.815 Concordo com William Hendriksen quando ele diz que os nossos
credos procedem da posição infralapsariana, segundo a qual as pessoas
destinadas à glória foram escolhidas do estado de pecado e destruição no qual
estavam submersas; e as destinadas à perdição foram, por decreto divino,
deixadasnesse estado.816 Assim, o homem entra no céu inteiramente pela graça e
vai para o inferno inteiramente por causa do seu pecado.
Leon Morris
complementa: “Nem aqui, nem em nenhum lugar, se vê que Deus endurece alguém que
já nao tenha endurecido a si mesmo”.Sl7 Está meridianamente claro nas
Escrituras que Faraó endureceu seu coração contra Deus e reiteradas vezes
recusou arrepender-se (Ex 7.13,14,22; 8.15,19,32; 9.7,17,27,34; 10.3,16; 11.9;
13.15; 14.5). Consequentemente, o gesto de Deus ao endurecê-lo foi um ato de
juízo, abandonando-o a própria obstinação (Êx 4.21; 7.3; 9.12; 10.1,20,27;
11.10; 14.4,8,17), da mesma forma que a ira de Deus contra os ímpios se
expressa em “entregá-los” à própria depravação(1.24,26,28).818 Nessa mesma
linha de pensamento, Leenhardt diz que o endurecimento é uma reação de Deus à
dureza do coração humano. Deus confirma e sela uma situação que não foi ele
quem criou; o endurecimento é um juízo de Deus sobre o pecado, e não uma
decisão arbitrária de Deus em relação a um indivíduo com vistas a excluí-lo da
salvação e da condenação.814
A queixa humana, uma atitude
insolente contra Deus ( 9: 19-29)
Paulo trata agora de cinco verdades
importantes:
Em primeiro lugar, Deus tem o direito de fazer o que
lhe apraz com suas criaturas (9.19-21). Deus é o criador, e nós somos
criaturas. Deus é santo, e nós somos pecadores. Deus é soberano, e nós somos
limitados. Deus é o oleiro, e nós somos o barro. Queixar-se de Deus é o cúmulo
da petulância, o máximo da arrogância. Assim como o barro não pode querer
colocar-se no lugar do oleiro nem questioná-lo,também nao podemos colocar-nos
no lugar de Deus nem pôr em xeque seu direito absoluto e inalienável de dispor das
suas criaturas como lhe apraz.
John Stott
argumenta que Deus tem pleno direito de lidar com a humanidade caída conforme
queira, seja de acordo com sua ira ou sua misericórdia. Deus não é apenas o
criador, é também o governador moral do universo. Em lugar algum sugere-se que
Deus teria o direito de “criar seres pecadores a fim de puni-los”, mas que ele
tem o direito de “lidar com os pecadores conforme ele queira”, perdoando-os
Existe uma
justa e natural diferença entre a vontade preceptiva de Deus e sua vontade
determinadora. Era da vontade preceptiva de Deus que os judeus não
crucificassem o Senhor Jesus Cristo. Eles agiram dessa forma, contrariamente ao
mandamento divino, e eram portanto culpados; apesar disso, era da vontade
determinadora de Deus que o Salvador fosse crucificado, pois os judeus e os
soldados romanos fizeram apenas o que “sua mão e seu conselho de antemão
determinaram que fosse feito” (At 2.23). Embora a traição de Judas contra
Cristo estivesse preordenada desde a eternidade como o meio de efetuar a
redenção, foi Judas, e não Deus, quem traiu a Cristo. As causas históricas
secundárias não são eliminadas pela causalidade divina, mas antes se tornam
certas. A vontade preceptiva de Deus é a regra de conduta para nós, ou seja,
sua vontade revelada nas Escrituras, enquanto a vontade determinadora é o plano
de operações para si mesmo, ou seja, sua vontade secreta.821
Em segundo lugar, Deus tem o controle da vida do
homem,e nao o homem da vida de Deus (9.20,21). Paulo usa a figura do oleiro e
do barro para ilustrar a autoridade de Deus sobre suas criaturas (Is 29.15,16;
64.8,9; Jr 18.1-6). William Hendriksen escreve:
Se até mesmo um oleiro tem direito,
da mesma massa de barro, de fazer um vaso para honra e outro para desonra,
então com certeza Deus, nosso Criador, tem direito, da mesma massa de seres
humanos que por sua própria culpa precipitou-se no poço de miséria, eleger alguns
para a vida eterna e permitir que os demais permaneçam no abismo da
degradação.!í”
A autoridade
de Deus sobre a criatura é maior que a do oleiro sobre o barro. O oleiro nao
faz seu barro; mas tanto o barro quanto o oleiro foram feitos por Deus.823
Vivemos numa geração homocêntrica e antropolátrica, que busca sofregamente
substituir o criador pela criatura. O homem besuntado de tola soberba quer
destronar a Deus e ascender a seu trono. Aquele que não passa de pó e cinza
quer arvorar-se contra o Criador e colocá-lo no banco dos réus para julgá-lo. E
Deus, contudo, quem está no controle de todas as coisas, e não o homem. Não é o
homem quem manipula a Deus; é Deus quem molda o homem como o oleiro faz com o
barro.
Em terceiro lugar, Deus é glorificado tanto na
salvação dos eleitos quanto na condenação dos réprobos (9.22,23). Os vasos de
ira sao os impenitentes, aqueles que se endureceram e foram endurecidos,
aqueles que rejeitaram e foram rejeitados, aqueles a quem Deus suportou com
paciência e em quem manifestou o poder do seu juízo.
Os vasos de
misericórida são aqueles a quem Deus escolheu por sua graça para sobre eles
derramar sua misericórdia e dar-lhes a riqueza da sua glória. John Murray é
absolutamente oportuno ao alertar para o fato de que na ira divina não existe
malícia, perversidade, vingança, rancor ou amargura profanos. O tipo de ira
assim caracterizada é condenada nas Escrituras, e seria uma blasfêmia
atribuí-la
Warren
Wiersbe destaca que o termo “preparados” em Romanos 9.22 não dá a entender que
Deus tornou Faraó um “vaso de ira”. Esse verbo é o que os gramáticos gregos
chamam de voz média e indica uma ação reflexiva. Assim, a frase deve ser
traduzida por “prepararam a si mesmos para a perdição”. Deus prepara os homens
para a glória (9.23), mas os pecadores se preparam para o julgamento.82S John
Murray defende que é o próprio Deus quem prepara os vasos de ira para a
perdição, porém a perdição imposta aos vasos de ira é algo para o que sua
anterior condição os torna adequados. Há uma correspondência exata entre o que
eles foram na vida presente e a perdição à qual estão destinados. Assim, os
vasos de ira capacitam a si mesmos para a perdição; são os agentes do mérito
que resulta em perdição. No entanto, somente Deus prepara para a glória.826
Em quarto lugar, Deus por sua graça nos dá o que não
merecemos (9.24-26). A graça não é concedida por critério étnico, cultural ou
religioso, pois Deus chama seus eleitos não só dentre os judeus, mas também
dentre os gentios (9.24). Mesmo vivendo sem Deus no mundo, ele nos tornou seu
povo. Mesmo sendo inimigos de Deus, ele nos fez amados (9.25). Mesmo vivendo
sem esperança e sem Deus no mundo, mortos nos nossos delitos e pecados, Deus
nos transformou em seus filhos, membros de sua bendita família (9.26). Concordo
com Cranfield quando ele diz que a presença dos gentios na igreja é o sinal e o
penhor de que a esfera de rejeição de Ismael, Esaú, Faraó e dos próprios judeus
incrédulos não está finalmente excluída da misericórdia de Deus.827
Em quinto lugar, Deus escolhe por sua graça para
asalvação um remanescente fiel (9.27-29). A eleição da graça é para o
remanescente. A salvação não é endereçada a todos os filhos de sangue de Abraão,
mas aos filhos da promessa; não aos que são israelitas por nascimento, mas aos
que são crentes pelo novo nascimento. Stott escreve: “Apenas um remanescente
seria salvo, o Israel dentro de Israel (9.6). Semelhantemente, conforme o
versículo 29, em meio à total destruição de Sodoma e Gomorra, somente alguns
seriam poupados - ou melhor, apenas Ló e suas duas e suas duas filhas”.828
Solano
Portela, ilustre escritor evangélico presbiteriano, faz uma importante síntese
acerca da doutrina da eleição, que passo aqui a mencionar. Essa gloriosa
doutrina foi ensinada por Jesus (Jo 5.21; 6.65; 10.27; 15.16), explanada por
Paulo (Rm 9.1-16; Ef 1.4,5-11), registrada por João, Lucas e outros (Jo
1.12,13; At 13.48), aceita pelos patriarcas da igreja, por exemplo Policarpo,
Irineu e Eusébio. Foi, porém, contestada pelos ramos heréticos da igreja, dos
quais o maior expoente nos primeiros séculos foi Pelágio, defensor do
livre-arbítrio irrestrito, em oposição a Agostinho, que defendia e enaltecia a
soberania de Deus em todas as esferas, principalmente na salvação de almas. Foi
esquecida pela igreja católica, na medida em que sua formação se deu entrelaçada
ao Estado, após a regência do imperador Constantino. Este esquecimento foi
paralelo ao de outras doutrinas cardeais da Bíblia, sufocadas e suplantadas
pelas tradições e conveniências da igreja, concretizando-se no humanismo
pragmático de Tomás de Aquino. Reapareceu em todos os movimentos pré-Reforma
que desabrocharam na Idade Média, sendo uma constante, paralelamente às outras
doutrinas chaves da Bíblia, entreos valdenses (seguidores de Waldo), os
hussitas (seguidores de João Huss) os lolardos (seguidores de Wycliff). Lutero
a reviveu na Reforma do século 16, que, despertando para as doutrinas
fundamentais que haviam sido mumificadas pela igreja católica, a defende e a
proclama, principalmente em seu livro De servo arbitrio (A prisão do arbítrio),
escrito em resposta a Erasmo de Roterdã. Constante em todos os movimentos
pós-Reforma, por exemplo nos escritos e tratados de Melanchton, Zuínglio e João
Knox, teve seus ensinamentos sistematizados por Calvino, que reapresenta e
organiza a posição de Paulo e de Agostinho em seu tratado Institutas da
religião cristã e em outros livros e comentários bíblicos, fundamentando a
posição da igreja protestante contra os arminianos. Nessa ocasião, sofre
ataques apenas de Jacobus Armínius e seus seguidores, que assumiram a posição
de Pelágio, levando ao posicionamento contrário, oficial, conhecido como os
Cânones de Dort (Dordrecht) - o qual resume a doutrina reformada sobre a
soberania de Deus na salvação, refletindo igualmente a interpretação bíblica
dessas doutrinas contidas no Catecismo de Heidelberg e na Confissão de Fé
Belga. Constituiu-se no posicionamento oficial de quase todas as denominações
que se afirmaram após a Reforma.s29
A justificação pela fé, o único meio
de salvação (9.30-33)
John Stott
vê nesse último parágrafo de Romanos 9 três verdades importantes sobre a
justificação: começa com uma descrição, continua com uma explicação e termina com
uma confirmação.830
Em primeiro lugar, uma descrição (9.30,31). Paulo
afirma que os judeus buscaram a justificação pelos méritos das obras, mediante
a observância da lei, e não alcançaram essa justiça, ao passo que os gentios
que não a buscavam, encontram-na, ou seja, a justiça que decorre da fé.
Em segundo lugar, uma explicação (9.32,33a). Depois de
descrever como os gentios encontraram a justificação pela fé e os judeus não
alcançaram a justificação pelas obras, Paulo oferece uma explicação importante.
A justiça que os judeus buscavam não decorria da fé, mas das obras. Assim, eles
tropeçaram em Cristo e desprezaram seu sacrifício. Cristo tornou-se para eles
pedra de tropeço e rocha de escândalo. Citando Charles Hodge, Geoffrey Wilson
faz um solene alerta: “Que nenhum homem pense que o erro doutrinário é apenas
um pequeno mal. Nenhum caminho que conduz para a perdição já se encontrou mais
cheio de gente do que o da falsa doutrina. O erro é um escudo para a
consciência;
Em terceiro lugar, uma confirmação (9.33b). Paulo
conclui sua argumentação confirmando a essência da doutrina da justificação:
“... aquele que nela [rocha de escândalo] crê não será confundido” (9.33b). Os
judeus buscaram a justificação pelas obras e foram confundidos, mas os que se
voltam das obras para Cristo não serão confundidos. Os judeus, que buscavam a
justiça nunca a alcançaram; os gentios, que não a buscavam, dela se apossaram.
O Cristo
crucificado era “escândalo” para os judeus (lCo 1.23). Eles tropeçaram na pedra
de tropeço (9.33). O verbo grego prosekopsan, “tropeçou”, não significa
“tropeçar por descuido”, mas “ficar aborrecido com”. Para os judeus, a cruz do
Messias era um “escândalo” que os irritava e os levava à indignação.832 A
grande questão é: Por que as pessoas tropeçam na cruz? Porque ela corrói os
alicerces da nossa justiça própria. Pois se a justiça vem pela lei, Cristo
morreu em vão (G1 2.21). Só há duas atitudes em relação a Jesus: ele é pedra de
esquina ou pedra de tropeço; é o rochedo da nossa salvação ou a rocha de
escândalo. Israel fracassou em reconhecer Cristo como seu Salvador. Enquanto
confiasse nas obras, Israel não poderia abraçar a Cristo. Tinha de ser um ou
outro. Não havia como ser ambos.833
John Stott
tem razão quando diz que só existem duas possibilidades: uma é colocar nossa
confiança em Cristo, fazer dele o alicerce de nossa vida e construir sobre esse
fundamento. A outra é esfolar as canelas na pedra, tropeçar e cair.834 Um
encontro com Jesus, o grande divisor da humanidade, não pode ser evitado.
Aqueles que não encontrarem em Cristo sua rocha de refúgio se arruinarão ao
tropeçar na pedra de tropeço (Jo 16.9).835
Por : Hernandes
D. Lopes


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