terça-feira, 20 de outubro de 2026

CPAD : O DEUS DA ALIANÇA – | Lição 02: Recapitulando a Jornada no Deserto

 


Capítulo 2

Recapitulando a Jornada no Deserto

  INTRODUÇÃO

  Diante da análise da trajetória de Israel pelo deserto, o cristão é chamado a refletir sobre o seu próprio deserto, que pode servir como uma sala de aula onde se aprende a depender do Senhor mesmo quando tudo parece escasso.

  O deserto espiritual é desafiador; nele, às vezes, parece que Deus está distante, que as promessas não se cumprirão, que tudo está tardando, mas é nesse lugar que estamos sendo provados, lapidados e preparados pelo

Senhor para desfrutarmos das suas promessas. O apóstolo Tiago fala muito bem sobre os propósitos das provas e lutas em nossa vida (Tg 1.2-3).

  Há um propósito em toda prova divina. O Senhor não aplica provas ou promove sofrimento para ver-nos padecer. Pelo contrário. As lutas e provações são corretivas, formativas, lapidadoras, transformadoras, fortalecedoras. Devemos ter ciência de que, mesmo não o vendo em momentos conflitantes, a "coluna de nuvem e fogo" (Êx 13.21-22) está lá. O Senhor constantemente nos guia, e o seu cuidado não falha, de modo que o deserto não é o fim de uma jornada; antes, pode ser o começo.

  I-O VALOR DA LIDERANÇA COMPARTILHADA 1.A

  NECESSIDADE DE LIDERANÇA

  Moisés já estava consciente de que o momento da sua morte aproximava-se, o que fez com que se preocupasse em ratificar a autoridade daquele que daria prosseguimento à condução do povo de Deus. Então, o que vem logo como questão primordial era a sua sucessão. Josué ocupara o posto, conforme Deuteronômio 1.38; 3.1,28.

  Pela leitura do versículo 9, vemos que Moisés é ciente da sua fragilidade humana; ele sabe que é pó e que ao pó voltará (Gn 3.19). Por outro lado, ao contemplar o crescimento do povo, ele admite que não o poderia conduzir sozinho (Dt 1.9). Moisés sentiu o peso do ministério, que envolve tanto o lado emocional quanto o administrativo. Num primeiro momento, o seu sogro, Jetro, deixou bem claro que o desgaste de fazê-lo só será tremendo (Êx 18.17-18; ver Ec 4.9).

  O pastor à frente da obra jamais deve trabalhar sozinho. A sua missão primaz é treinar e dar oportunidade a outros para que se tenha pessoas capazes para levar avante o projeto divino (2 Tm 2.2). É claro que, por vezes, alguns temem pelo fato de já haver dado oportunidade a alguém e vir a sofrer traição ou ingratidão; todavia, a obra é de Deus e os que procedem assim não prosperarão em nada, pois o destino do traidor, quando não há arrependimento, é triste (S1 41.9; Pv 17.13).

  Moisés lembra à nova geração que a liderança também foi partilhada com oficiais judiciários, que possuíam autoridade para o desempenho das suas funções (Ex 18.13). O grande legislador mostra que, por causa da promessa e da fidelidade do Senhor manifesta para com os patriarcas, o povo de Deus cresceu (Gn 12.2; 15.5), e será devido a esse crescimento da população, tal como as estrelas, que haverá a necessidade de a liderana ser compartilhada. No Novo Testamento, quando houve crescimento na Igreja Primitiva, para não haver detrimento da fé e a obra não ser apenas uma agência humana - sem Palavra e oração, que era e é o essencial -, os apóstolos sentiram a necessidade de compartilhar a liderança - e assim o fizeram (At 6.1-5), e Paulo ordenou o mesmo a Tito (Tt 1.5).

  É importante ressaltar que Moisés não vê o crescimento como problema, mas como bênçao do Senhor, mas era preciso administrar toda aquela situação. Jesus estava sempre cercado de uma grande multidão e, em momento algum, procurou desfazer-se dela, pois a via sem rumo, sem direção, precisando de um pastor, sendo essa a razão por que Ele manifestava compaixão para com ela (Mt 14.14). Todo líder cheio de Deus quer sempre ver a Igreja do Senhor crescendo como rebanho, família, corpo, lavoura, e jamais se contenta com a casa vazia. Aliás, o desejo de nosso Senhor Jesus é que a sua casa esteja sempre cheia, como sinal de pessoas alcançadas pelo evangelho.

  Os versículos 9-12 destacam pontos valiosíssimos para a liderança atual: o primeiro é que fica claro que ninguém sozinho poderá fazer um trabalho bem-feito; logo, é preciso compartilhar a sua execução. O segundo é quanto à limitação humana, ou seja, todos devemos reconhecer nosso limite para não tentarmos fazer as coisas além de nossas forças e sofrermos consequências (Ec 9.10). E a terceira é que trabalhar para Jesus é bênção, muito embora também apresente certo peso.

   No versículo 12, Moises faz uso de três palavras que sempre estarão presentes na vida do pastor: peso, carga e contenda. Elas expressam que o líder sempre se deparará com as demandas fisicas, emocionais e judiciais. Todo líder escolhido por Deus deve ser consciente de que o seu ministério é um dom, mas tambem um fardo; por isso, deve-se sempre contar com outros para o cumprimento dessa missão, e, para obter sucesso, a sua grande tarefa é treinar obreiros para o ministério (Ef 4.11.12).

  2. Critérios espirituais para compartilhar a liderança

  Jetro já falara sobre a necessidade de Moisés partilhar a sua liderança com outros. Podemos notar que o genro assim procedeu (Ex 18.13-27), mas, ao colocar o seu projeto em execução, seleciona muito bem quem irá acompanhá-lo à frente da obra e especifica as qualificações necessárias aos candidatos, que, ao serem tomados das tribos, sejam: sábios, inteligentes e experimentados. Em seguida, oportuniza aos israelitas a oportunidade de eles apresentarem candidatos aceitaveis, que foram posteriormente nomeados. Vejamos essas qualidades: (1) Sábio, do hebraico chakamim, é a pessoa que tem discernimento e sabedoria espiritual (1 Co 2.14); (2) o entendido ou inteligente (hb. nevonim) tem a capacidade de compreender o povo, os seus problemas e as situações; (3) já o experimentado, (hb. yeduaim) é aquele reconhecido pela integridade e liderança. A liderança da obra de Deus não pode ser conduzida por obreiro neófito, alguém infantil, tampouco alguém que apresente pouco ou nenhum testemunho (At 16.1; 1 Tm 3.6); não se pode colocar pessoas para serem experimentadas, pois o posto requer homens ja experimentados no manejo da Palavra (2 Tm 2.15).

   O povo teve participação na escolha dos líderes. Esse procedimento é imprescindível por duas razões: a primeira é porque ele conhece bem quem será escolhido, sendo que indicará homens sinceros para liderá-los; a segunda é porque esse procedimento é importante para excluir a política de consagrar-se homens isoladamente para proveito pessoal. Na escolha de novos líderes, os apóstolos procederem semelhantemente na escolha de homens para a consecução da obra, a exemplo de Estêvão (At 6.1-6).

  Os homens que viriam a ser lideres exerceriam grandes responsabilidades e estariam inseridos numa estrutura escalonada, de maneira que os níveis de responsabilidade seriam diversos: chefes de mil, de cem, de cinquenta e de dez, e, nesse particular, o Senhor queria as coisas organizadas, bem delegadas e descentralizadas, dirigidas por homens cheios do temor de Deus, sem ganância de poder nem avarentos, mas verdadeiros, sinceros e competentes (Êx 18.21).

  A escolha de homens para liderar que nao tennam temfor a Deus Causa grande estrago diante do rebanho, pois eles não temem pecar contra as ovelhas do Senhor e procedem como os filhos de Eli, que não fizeram caso do que é sagrado (1 Sm 2.12). Colocar na dianteira do ministério homens dominados pela avareza, por torpe ganância, mostra apenas que a intenção será sempre a de explorar o rebanho, sempre se voltando para as suas demandas pessoais, o seu status, e não o dos seus liderados. Essa liderança nunca será exercida de maneira voluntária, mas por força, sempre querendo exercer domínio sobre a herança de Deus (1 Pe 5.2-3). Colocar homens no comando que não sejam verdadeiros é chamar problemas, pois são hipócritas, falsos, aparentam estar servindo, mas agem como Absalão, com humildade desfaçatada apenas para chegarem ao poder. O desejo deles não é o de servir, pois não têm chamado, mas, sim, alcançar grandes postos (2 Sm 15.1-6). Para isso, não medirão esforços para chegarem onde querem.

  Queridos obreiros do Senhor, não devemos ter temor de compartilhar nossa liderança, porém devemos procurar saber com quem e para quem ela será compartilhada; por isso, é preciso oração e jejum na escolha desses homens (At 13.1-2), pois esses precisam estar qualificados espiritual, emocional e moralmente. Jamais devemos escolher alguém para ser líder atentando para os seus aspectos fisicos, pois tamanho e beleza não revelam nem caráter nem comunhão com Deus. No demais, o Senhor observa o lado interno de cada um de nós (1 Sm 16.7-8). Jamais se deve entregar a liderança a alguém por causa das suas habilidades ou dons naturais, por amizade, por filiação, por pressão; antes, a liderança deve ser compartilhada com os que possuem chamado e vocação, maturidade espiritual. Diante disso, o melhor é seguir as recomendações bíblicas (Pv 11.4; Mt 9.38; At 6.3; 1 Tm 3.10).

  3. O exercício justo e subordinado da liderança

  Os versículos ora em apreço revelam a importância de homens sábios, inteligentes e experimentados para estarem à frente da obra do Reino e conduzirem com ordem tudo o que se relaciona a Deus (Tt 1.5). Meninos, neófitos, homens sem maturidade alguma e sem caráter não podem liderar o rebanho do Senhor. Moises fala que os candidatos precisariam ser justos nos seus julgamentos, ou seja, sem parcialidade, e que a justiça teria que alcançar os irmãos e os estrangeiros com equidade.

  O verso 17 traz um brilho extra ao evidenciar tres grandes princípios imprescindíveis para o julgamento. O primeiro deles é: sem parcialidade, sem acepção de pessoas. Quando o homem que tem Deus na vida exerce uma posição de liderança, é consciente de que deve primar pela justiça divina, visto que ela não procura privilégios, nem oprime ninguém; antes, quer que aquilo que for justo seja feito.

Imagine colocar na liderança um homem sem o temor a Deus, sem a sua justiça? Só é bom colocar como líderes homens que têm fome e sede de justiça, pois jamais procederão tendo como base a ilegalidade (Mt 5.6).

  O segundo princípio exposto por Moisés para a liderança é colocar homens que tratem todos igualmente, que ouçam o grande e o pequeno, o rico e o pobre, pois todos merecem a justiça de Deus. O terceiro princípio é que o líder precisa apresentar coragem moral, não temendo a face de ninguem e tendo consciência de que o posto que exerce sobreveio-lhe por determinação divina e confirmação da assembleia de salvos; isso lhe concede autoridade para liderar sem temer o poder humano, seja ele de que natureza for.

  A seção é encerrada com uma lição que deve ser seguida por todos que exercem a liderança: (Dt 1.18). Moises não era um lider dificil, a quem o povo não tinha acesso; além de compartilhar a sua liderança, ele dispõe-se a servir a todos, dando-lhes suporte e orientação e acompanhando outros liderados.

 

  II -A RECUSA DE ENTRAR NA TERRA PROMETIDA 1. UMA RECORDAÇÃO RESUMIDA

  A expressão "recordação resumida" dá-se pelo fato de Moisés não procurar relatar todos os fatos nos seus pormenores, mas a recusa de entrar na Terra Prometida por parte dos israclitas pode ser visto com todos os detalhes nos capítulos 13 e 14 de Números. O que se tem nos versículos 19-21 são relatos da jornada desde Horebe (Sinai) até Cades-Barneia, uma afirmação também segura de que o Senhor já lhes havia dado a terra, e uma exortação para não se temer e nem se assustar.

   É importante entender também que o foco aqui não é apenas histórico, mas também espiritual e didático, mostrando que a incredulidade atrasa as promessas de Deus. Trata-se de exortar a nova geração a confiar e a obedecer ao Senhor, e nao ser incredula como a anterior. Todos deveriam lembrar que Deus já havia dado a terra a eles, essa recordação é, então, resumida, seletiva e teológica. Tudo isso tem grande valor para os cristãos dos dias atuais (Rm 15.4; Hb 3.18-19). Para nao repetir os erros dos seus pais, Moisés diz à nova geração o que havia dito à passada. A sua fala objetivava ensinar a nova geração a não cometer os mesmos erros e pecados da antiga.

   Moisés relembra à nova geração a jornada que se iniciou desde Horebe (Sinai) até Cades-Barnéia, que era a porta de entrada da Terra Prometida. Foi em Horebe que Israel recebeu a Lei e teve a revelacao de Deus e o seu poder (Ex 19). Isso mostra que partir desse lugar era sair consciente da revelação e do pacto e estar pronto para viver-se a promessa feita. Nessa recapitulação, Moisés mostra que a reviravolta que aconteceu com o povo de Deus, já estando na fronteira da Terra Prometida, foi devido aos seus pecados, que os levou a voltar a peregrinar pelo deserto ate que fossem mortos.

  Não foi uma viagem fácil. O povo teve que atravessar o grande e terrível deserto, evidenciando, assim, as dificuldades naturais, mas, ao mesmo tempo, destacando a fidelidade, a bondade e o cuidado divino em tudo (Dt 8.15). A rememoração dessa história também serviu para mostrar o fim dos tolos e desobedientes, que manifestam descontentamento com o que é de

Deus, querendo retornar ao Egito.

  Moises logo exorta todos a entrar e possuir a Terra Prometida. A ordem divina "não temas" envolvia uma chamada para que todos tivessem fé e ação. Moisés informou à nova geração que a antiga esteve bem perto da Terra Prometida, mas fora ela mesmo que colocou uma barreira que a impediu de avançar: a incredulidade.

  O caminhar da antiga geração não se deu por causa de uma ordem de Moisés. O texto é claro em dizer: "Como o Senhor nos ordenara", o que mostra que os israelitas poderiam avançar com fé rumo à promessa, pois

não se tratava de uma ideia de Moisés, mas, sim, de uma ordem de Deus.

  Eles conseguiram chegar ate a porta de entrada para Canaa, no sul da Terra Prometida, que era um ponto estratégico, uma grande oportunidade para desfrutarem da promessa de Deus, bastando apenas que respondessem com fe e obediência. "Monte dos amorreus" é uma expressão simbólica e geográfica direcionada à terra de Canaã, que era dominada por esse povo, os representantes dos cananeus como um todo (Gn 15.16). A posse da terra por parte de Israel não se daria por causa dos seus méritos, mas era uma promessa; os israelitas não a conquistariam por meio da força ou habilidade humana, mas, sim, da confiança em Deus.

  No versículo 21, é dito: "Eis que o SENHOR nos entregou". Mais uma vez, destacamos o verbo "dar", que é enfático no texto, como um ato consumado de Deus. Isso quer dizer que, da parte divina, a terra já era deles. Bastava subirem e possuírem-na pela fé. Vale dizer que Israel não deveria primeiramente lutar para ganhar, mas ter fe. O reforço das expressõess divinas "não temas" e "não te assustes" à antiga geração é porque, como onisciente, Ele sabia da duvida, do medo e da falta de coragem que os assaltavam.

  2. Fracassando pela linguagem da incredulidade

  Nessa passagem, há um detalhe que não se encontra em Números: Moisés permitiu a ida dos espias para olharem a terra porque foi um desejo dos israelitas. Em Numeros 13.1-2, é dito que o Senhor enviou. Moisés deu a eles a Palavra de Deus, por meio da qual deveriam ter fe e seguir em frente, mas, como essa Palavra não encontrava lugar nos seus corações, sempre havia dúvidas, questionamentos e, por consequência, falta de confiança.

  O que prevalecia grandiosamente na vida desses israelitas eram as suas opiniões, as suas políticas e visões próprias, o que os fazia desprezar a sabedoria divina, razão por que estavam sempre enfrentando dificuldades.

  Se confiassem em Deus, que os havia escolhido e que ia adiante deles, não haveria necessidade de enviar espias, mas as normas humanas seguem onde falta a fé. Assim, podemos dizer que o envio dos espias partiu do povo, jamais de Deus, e isso porque não confiaram plenamente nas promessas

divinas, Os espias foram à Terra Prometida, constataram tratar-se de uma grande bênção, trouxeram de lá alguns dos seus frutos e evidenciaram a fertilidade.

  Eles eram juízes descrentes, mas viram a verdade. É bem provável que jamais examinaram com cuidado a terra santa, mas podiam constatar que cra uma boa terra, mas escolheram duvidar mesmo com com provas visíveis.

  Em Numeros 13.31-33, vemos que veio desses espias a percepção negativa: "Não podemos subir [ ... ] são mais fortes do que nós". Foi essalinguagem negativa que agiu como fermento corruptor e contaminou o povo. Como cristaos, devemos ter todo cuidado com linguagem marcada pela incredulidade, pois ela pode contaminar a fé, paralisar a marcha do povo do Senhor e promover duvidas, medo e derrota. Nunca promove a promessa, mas apenas o negativo, o impossível, impedindo que se tome posse das bênçãos do Senhor. Sigamos o conselho de Paulo (C1 4.6).

  3. Pecados marcantes na vida de Israel

  Os israelitas não vão querer subir para tomar posse da Terra Prometida, pois, mesmo vendo a prosperidade da terra e sabendo da promessa divina, não fizeram caso disso, mas olharam apenas para as dificuldades e acharam impossível tomar posse. Logo, então, tornaram-se rebeldes, e a rebeldia aqui cra tanto moral quanto espiritual, e não apenas civil. Os israclitas recusaram-se a obedecer, mesmo tendo recebido as devidas instruções (Nm 20.10; SI 78.8).

  O outro pecado cometido foi o da murmuração, que é o ato de reclamar em tom de queixa sussurrada, maledicência velada. No Antigo Testamento, diz respeito à murmuração desleal e envolve desconfiança, difamação do caráter de Deus e acusações ocultas (Nm 14.27; SI 106.25).

  Nesse espírito negativista, os israclitas começaram a dizer que era impossível atacar essa cidade, que ninguém podia superá-la, que lá havia gigantes e que nenhum tipo de cerco funcionaria, pois a cidade era bem guardada e fortificada até os céus. Para isso, eles faziam uso de uma hipérbole para os seus próprios argumentos negativos - tudo na intenção de desencorajar o povo.

  Diante de todo esse quadro, Moisés diz para a nova geração que ainda tentou incentivá-la na intenção de acalmar o tumulto e encorajá-la, porém sem sucesso (Dt 1.29). Ele fez de tudo, inclusive os lembrou de que o Senhor estava com os israelitas e que daria a vitória a eles, lutando no seu lugar. O grande legislador fez uso do relato milagroso de como Deus agiu em favor deles quando estavam no Egito, quando peregrinaram pelo deserto, sempre manifestando a sua bondade pela coluna de nuvem e de fogo. O Senhor carregou-os nos seus braços como aio e suportou todos os seus costumes (At 13.18). Não faltava nada para que esse povo confiasse em Deus.

  Moisés relembra os pecados da antiga geração, sendo que alguns herdaram dos seus pais certos costumes e envolveram-se em alguns tumultos. Moisés acusou a geração antiga de dois pecados: rebeldia e desobediência contra a Lei de Deus, pois estavam agindo contra a autoridade do Senhor, afirmando que Ele aborrecia-os.

   A descrença desse povo era grande e, por isso, ele rejeitou a ordem de Deus deliberadamente. O povo agia assim porque o seu coração já estava contaminado. Restou a Moisés acusá-los, deixando claro que eles não creram no Senhor, de maneira que se sabe que a incredulidade e a raiz de todo pecado.

  Devemos ter todo o cuidado e vigiarmos para não cairmos no pecado da rebeldia, murmuração, ingratidão e incredulidade, pois são eles que nos impedem de desfrutarmos das bênçaos do Senhor. No demais, jamais devemos duvidar do amor e da bondade de Deus para não cometermos o pecado de ingratidão, tornarmo-nos cegos e passarmos a viver na incredulidade e desobediência; daí o alerta bíblico (SI 106.24-25; 1 Co 10.10-11; Hb 3.12).

  III -A SENTENÇA DIVINA PELA DESOBEDIÊNCIA 1.A

GRAVIDADE DA REBELDIA E O VALOR DA FIDELIDADE

   Nesta seção, Moisés repete a sentença que veio à geração antiga de Israel, evidenciando a causa de ela não ter entrado na Terra Prometida: desobediência, falta de fé e incredulidade. Por causa disso, todos foram condenados a morrer no deserto, exceto Josué e Calebe. Aquela geração peregrinaria pelo deserto por longo tempo até que fosse destruída.

  Por causa da incredulidade desse povo, rebeldia e falta de fé na promessa, Deus indignou-se contra eles. Essa indignação divina acontece por causa do pecado de incredulidade e murmuração, e, desse modo, Ele iria deflagrar a sua justa santidade contra o pecado. Isso iria acontecer com certeza porque Deus fez um juramento irrevogável, deixando claro que a sentença de morte no deserto era certa.

  Essa geração é chamada de maligna ou má, mas não se trata apenas de uma descrição superficialmente ética, e sim de uma corrupção moral, profunda e continuada, o que remete ao texto de Gênesis 6.5, que diz que a maldade do homem proliferara-se sobre a terra (SI 78.8; Mt 12.39).

  A indignação da parte de Deus acontece para mostrar que Ele leva a sério a questão do pecado. É mais sério ainda porque o povo recebera a revelação divina e tivera experiências gloriosas com Ele, mas não fez caso, e, assim, o diagnóstico de Deus para ele era: uma geração maligna. Isso descreve o estado coletivo de um povo que rejeitou a Deus persistentemente (Hb 3.10- 11).

   O texto mostra que ate Moises caiu no desagrado do Senhor por causa de uma palavra impensada que pronunciou por causa do povo (Nm 20.12; Dt 1.37). O procedimento pecaminoso desse povo fez com que a morte entrasse na vida dos israelitas, e tudo isso foi por causa da falta de fé. Assim, como todos receberam a sentença de não entrarem na terra, Moisés foi incluído. Porém, mesmo em meio a tudo isso, nota-se a misericórdia divina. O grande lider falhara na sua comissao, mas agora Josue iria prosseguir com o trabalho e continuar com o projeto divino, de modo que ele incentiva Josué, por saber que não seria nada fácil.

  A nova geração recebeu de Moisés todos os detalhes que fizeram a antiga geração fracassar, mas, agora, os israelitas poderiam proceder melhor, seguir em frente e lembrar que a misericordia prevalece sobre o juízo. Que fique claro: o Senhor sempre honra todos os que procedem com fe, mas pune os que escolhem trilhar o caminho da incredulidade. Isso ocorre porque a incredulidade não é vista como um tipo de fraqueza, mas, sim, como um ato de rebeldia, pois, diante da revelação divina e dos seus grandes milagres, as pessoas continuam pecando e, assim, atraem para si o juízo divino. O certo é andarmos com integridade e fe, como Josué e Calebe, para adentrarmos a Terra Prometida (Nm 14.24; Rm 11.22; Hb 3.17-19).

   2. A formação da nova geração pela fidelidade

  A geração antiga de israclitas estava sempre pecando contra Deus e agora o acusa de querer destruir os seus filhos (Dt 1.27), que cram jovens que já tinham alguma consciência, mas ainda estavam em fase de aprendizado ou transição. Assim, em Deuteronômio, esses "filhos" referem-se à geração mais nova, que ainda nao havia atingido maturidade moral ou responsabilidade pela rebeldia do povo.

   A expressão "não conhecem hoje o bem e o mal" quer dizer que não tinham maturidade moral, discernimento ou responsabilidade ética, num estado de inocência frente à exigência da Lei (Is 7.16). Compreende-se, então, nesses versículos, que Deus estava deixando claro que tanto as crianças quanto os jovens não se envolveram conscientemente com o pecado da geração antiga e, por isso, teriam direito a prosseguir para mais adiante e a herdar a Terra Prometida. Para isso acontecer, teria que ser ensinada, moldada e lapidada no deserto, de modo a andar em fidelidade e obediência. Isso tudo mostra a relevância da transmissão de fé de uma geração para outra (Dt 6.6-7).

  Enquanto a geração antiga e maligna acusou Deus de querer destruir os seus filhos, a resposta divina contraria tal colocação com a graça em ação, quando Ele assegura: "[ ... ] ali entrarao, e a eles a darei, e eles a possuirão" (Dt 1.39), mas a antiga teria agora que voltar para o deserto - e não seria um retorno para conquista, mas, sim, de punição.

   Falar de uma nova geraçao e relevante, porque ela sempre aponta para renovo, nova esperança; mas, para que a nova geração de filhos não proceda pecaminosamente e perca-se na falta de fé nas promessas divinas, é preciso que cla seja instruída e ensinada a discernir entre o bem e o mal para que jamais venha a trilhar os passos errados dos seus pais. Assim, há que se ter uma formação espiritual consistente, seguir o exemplo de líderes fieis a Deuse estar num ambiente familiar que expresse obediência e reverência para com o Senhor (Pv 22.6; SI 78.6-8; Ef 6.4).

  3. As consequências da desobediência persistente

  Agora, retornando ao deserto, a geração antiga tenta, de modo infrutífero, reverter a sentença divina, só que é tarde demais. Com iniciativa própria, quer fazer o que se omitiu a fazer com Deus: subir contra os cananeus.

   Todos prontamente pegaram as suas armas de guerra e lançaram-se ao projeto. É sempre bom termos cuidado e vivermos na dispensação da graça do Senhor, pois, quando a porta da graça fechar e o dia terminar, não haverá chance para os que ficarem do lado de fora, pois a porta não se abrirá. Foi o que aconteceu com a velha geração de israelitas.

  O que parecia um ato de fe era novamente uma rebeliao, pois Moisés  aconselhara aos israclitas não irem, mas eles não obedeceram. Ao invés disso, subiram a montanha presunçosamente e agiram com desprezo às ameaças e com desdém às promessas de Deus, em espírito de rebelião; logo, foram perseguidos e derrotados por terem provocado Deus e aprenderam que poderiam ter sucesso em tudo se tivessem procurado andar em obediência e amor.

   Os versículos 41-46 mostram que a confissão feita agora pelos israelitas na intenção de corrigirem os seus pecados e erros não era verdadeira, mas superficial. Eles tentam pela sua própria vontade, sem obediência verdadeira, mas já era tarde demais. O arrependimento não era verdadeiro. Deus não estava mais com eles para o triunfo. Eles foram feridos pelos amorreus. Essa derrota era devido às consequências dos seus próprios pecados: presunção e desobediência. O seu choro e as suas lágrimas não mais foram percebidas por Deus, pois o tempo em que deveriam ter sido fiéis e obedientes havia passado.

  Israel andava na incredulidade. Os seus pecados repetidos eram de um coração endurecido, sem qualquer sensibilidade para Deus e a sua maravilhosa voz. Dessarte, sem a direção divina, andavam agora num tipo de presunção espiritual, tentando fazer o que era certo, mas na hora errada, razão por que foram à ruína.

  Devemos ter todo o cuidado para sempre andarmos em obediência, verdade, santidade e fidelidade para com Deus e seguirmos a sua Palavra, pois ha momentos em que Ele fecha a porta. Ainda que busquemos com lágrimas, como fez Esaú, não receberemos, posto que o arrependimento que Ele deseja de nós é marcado pela verdade, humildade, obediência e prontidão. Devemos buscar ao Senhor enquanto se pode achar, porque depois poderá ser tarde demais (Is 55.6; Pv 1.28-29; Hb 12.17).

  CONCLUSÃO

  Todo cristão salvo em Cristo, ao ler essa história de Israel já à beira da Terra Prometida, deve observar que não se trata de uma narrativa simplesmente histórica, mas ela deve ser vista como um espelho espiritual para todas as gerações, pois é certo que o Senhor é sempre fiel e cumpre o que promete (Nm 23.23). Para desfrutar das suas promessas, porém, é preciso fé, obediência e constante confiança. A geração antiga fracassou porque murmurou, duvidou, foi presunçosa, desobediente; a nova teria a oportunidade de ser formada na fe e não repetir os mesmos erros. Há, portanto, duas gerações: uma rebelde, que murmura e fracassa, e outra que obedece e, por isso, adentrara a Terra Prometida. De qual delas você quer fazer parte? (Hb 3.15).

   Livro de Apoio - O Deus da aliança Livro

 


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