I - CONTEXTO HISTÓRICO, CULTURAL E
RELIGIOSO DE ATENAS
1. Atenas: o centro intelectual marcado pela idolatria
(At 17.16)
Na época da chegada de Paulo a Atenas (meados do século I d.C.),
a cidade já havia perdido a sua glória política e militar de outrora,
mas continuava a ser um centro cultural e intelectual importante.
Famosa pelos seus filósofos Sócrates, Platão e Aristóteles, dava tanta
ênfase às artes, à poesia e à filosofia como nenhuma outra cidade.
Atenas tinha cerca de cinco mil cidadãos. A Grécia não era uma
superpotência militar, e Atenas era politicamente insignificante.
Apesar disso, a cidade ainda servia de grandíssimo interesse cul-
tural, sendo conhecida como a capital da sabedoria grega e berço
da democracia. A cidade era um destino de passagem obrigatória
para estudantes e filósofos, que buscavam as suas academias e
escolas para estudar filosofia, retórica e outras artes liberais. A sua
importância era cultural, e não política.
Embora os romanos admirassem e absorvessem a cultura grega,
o poder político e a administração do vasto império estavam con-
centrados em Roma. Portanto, enquanto Atenas era um venerável
e ativo centro de erudição e filosofia, a sede do império e o coração
da vida política e social era Roma.
Contudo, por trás da sua sofisticação, havia uma religiosidade
profundamente idólatra e politeísta. Lucas registra a reação de
Paulo, que se comoveu ao ver a cidade "entregue à idolatria" (At
17.16). Os debates filosóficos continuavam a ser uma característica
proeminente da cidade, como evidenciado pelo relato bíblico da
visita de Paulo ao Areópago, onde o apóstolo dialogou com filósofos
epicureus e estóicos (At 17.16-34).
2. O início da evangelização de Paulo na sinagoga
(At 17.17a)
Enquanto esperava por Silas e Timóteo em Atenas, Paulo ficou
profundamente indignado com a idolatria generalizada. Chocado
com a quantidade de ídolos, o início da evangelização de Paulo em
Atenas, registrado em Atos 17.16-34, começou na sinagoga, onde
ele debatia com judeus e gentios tementes a Deus diariamente,
tentando convencer os seus ouvintes. Ali ele encontrara pelo menos
alguma compreensão, dado o terror que sentira face à idolatria
daquele povo. O público na sinagoga já tinha conhecimento prévio
dos textos sagrados e de um monoteísmo básico, o que permitia a
Paulo uma argumentação teológica mais direta - e ele também
poderia compartilhar o evangelho com os seus patrícios. Era a
prática padrão de Paulo em cidades com presença judaica, onde
ele usava as Escrituras do Antigo Testamento como ponto de
partida para demonstrar que Jesus era o Messias.
É provável que os judeus não fossem numerosos em Atenas,
mas, como era costumeiro, a comunidade judaica provia-lhe uma
base por onde começar o seu trabalho.
O método paulino de apresentar o evangelho é o mesmo em-
pregado em Tessalônica (At 17.2). O evangelho que Paulo pregava
tinha como foco inicial os judeus e, posteriormente, os gentios (Rm
1.16). O método de Paulo na sinagoga era de argumentação e
persuasão, dialogando com judeus e gentios tementes a Deus com
base nas Escrituras judaicas, buscando convencê-los a respeito do
Reino de Deus. Esse método diferia da sua abordagem posterior
no Areópago, que se adaptou à cultura e filosofia gregas.
Atos 17 relata que, na sinagoga de Atenas, Paulo argumentou
com os judeus e os gentios tementes a Deus, mas não há menção
de uma aceitação em massa ou de uma rejeição violenta por parte
dos judeus daquela cidade, como ocorreu em outras localidades.
Paulo "disputava na sinagoga entre os judeus e os gentios piedosos"
diariamente. Isso indica um debate ou discussão das Escrituras, o
que era um procedimento comum para ele.
Diferentemente de cidades como Tessalônica ou Bereia, onde
a pregação de Paulo gerou aceitação por parte de alguns, mas
também perseguição intensa por parte de outros judeus, o relato
em Atenas não descreve a formação de um grupo de crentes judeus
nem a oposição organizada deles.
3. A proclamação do evangelho na ágora (At 17.17b)
Paulo iniciou a sua pregação na Sinagoga e, em seguida, prin-
cipalmente na ágora, que era a praça central da cidade para o
público em geral interessado em novidades. Os atenienses eram
conhecidos pelo interesse que tinham por novas ideias e filosofias,
o que os levou a convidar Paulo para falar no Areópago, um lugar
para discussões importantes.
A palavra ágora referia-se, na Grécia Antiga, à praça pública
e significa "local de reunião" ou "assembleia", o centro da vida
pública e social de uma cidade grega antiga. Tratava-se um espaço
aberto que servia como ponto de encontro para diversas ativi-
dades dos cidadãos, como reuniões políticas, debates, atividades
comerciais e religiosas. Representava o coração da vida cívica,
social e religiosa das cidades-estado gregas. Os gregos reuniam-se
na Ágora para discutir leis, fazer negócios, votar e até assistir a
apresentações artísticas.
A ágora antiga de Atenas é o exemplo mais conhecido onde
Sócrates foi julgado e condenado. Simbolizava o espaço público
e a democracia, sendo fundamental para a constituição dos pri-
meiros estados gregos. A ágora mais famosa é a de Atenas, onde
aconteciam eleições, celebrações religiosas, atividades mercantis
e competições atléticas. Os filósofos e os homens cultos estavam
sempre prontos para ouvir algo novo. A praça principal (ágora)
era o local onde Paulo falava diariamente com qualquer pessoa
que estivesse por ali, como faziam os filósofos da época.
Paulo também leva o seu método evangelístico à ágora, onde
ele debatia com os que se apresentavam (gentios piedosos e alguns
filósofos frequentadores desse lugar).
A ágora foi crucial para a pregação de Paulo em Atenas por-
que era o centro social, político e comercial da cidade, onde as
pessoas reuniam-se e debatiam ideias, oferecendo a Paulo um
público diversificado para iniciar o seu ministério. Além disso, a
ágora era um local de grande atividade religiosa e filosófica, o que
permitiu a Paulo observar a idolatria local, usar a inscrição "Ao
Deus Desconhecido" como ponto de partida para a sua pregação
e iniciar o diálogo com os atenienses antes de ser convidado a
apresentar-se no Areópago.
A ágora permitia a Paulo encontrar e interagir com uma varic-
dade de pessoas, incluindo filósofos epicureus e estoicos, que eram
curiosos sobre novas ideias. A natureza aberta e pública da ágora
ofereceu a Paulo uma plataforma para iniciar o seu sermão sobre
um Deus que eles não conheciam, usando o altar como um ponto
de partida contextualizado para a mensagem cristã.
A experiência de Paulo na ágora serve como uma metáfora
para a forma como os cristãos devem estar engajados na cultura,
entrando em contato com as expressões culturais e religiosas do
tempo, em vez de isolarem-se.
II. OS FILÓSOFOS EPICUREUS E ESTÓICOS
(At 17.18-21)
1. Os epicureus: o prazer como finalidade da vida
(At 17.18)
Epicureus eram filósofos em Atenas que confrontaram Paulo jun-
tamente com os estóicos (v. 18). Eles seguiam os ensinos de Epicuro
(341-270 a.C.), um cidadão ateniense, embora nascido na ilha de
Samos, perto de Éfeso, fundador da escola dos epicureus.
A familiaridade de Paulo com a filosofia é evidente. Menandro,
escritor e amigo de Epicuro, é aparentemente citado por Paulo em
1 Corintios 15.33ss. Os epicureus ensinavam que o bem supremo
é o prazer ou a felicidade (gr. hefone); mas é o prazer da mente e da
vida inteira, e não o deleite dos caprichos e instintos momentâneos.
Por "prazer", Epicuro não se referia aos desejos sensuais ("como
alguns, por ignorância, preconceito ou interpretação deliberada-
mente equivocada, entendeu que "somos", mas "a ausência de
sofrimento no corpo e de inquietação na alma". Ele não defendia
festas com bebida, sexo e alimento, mas o raciocínio sóbrio. Na
realidade, Epicuro via o sexo como potencialmente prejudicial e,
em geral, desencorajava o casamento. As consequências de todas
as ações devem ser consideradas antes de deleitar-se em uma
atividade ou mesmo aprová-la.
Os filósofos epicureus buscavam o prazer moderado e a ausência
de sofrimento como bem supremo. Eram materialistas e negavam
a providência divina, os milagres, a profecia e a imortalidade. Não
acreditavam em nenhum deus, exceto de nome. Eles negavam que
os deuses exercessem qualquer governo sobre o mundo ou os seus
habitantes. Para os epicureus, a divindade, por sua natureza, era
transcendente e indiferente ao sofrimento humano.
Para os Epicureus, mente e alma consistiam de partículas minúsculas
de algo como ar, dispersas pelo corpo e afetando-o. Portanto, a alma,
o ser material, pereceu na morte; nem bem-aventurança, nem aflição
aguardam os seres humanos após a morte. No fim do século I, Josefo
declarou que as predições de Deus a Daniel refutavam as declarações
epicureias que "exclui a Providência da vida humana e recusa-se a
acreditar que Deus governa os assuntos da vida humana".
Epicuro repudiava a astrologia e ensinava que a religião era uma
superstição; dizia que, para ser feliz, era necessário ser liberto do
medo dos deuses. Também ensinava que "o prazer é o companhei-
ro inseparável da virtude". Os seus seguidores, porém, mudaram
essa doutrina, chegando, por fim, a ensinar que o prazer é o fim
principal da vida. Sustentavam que o mais importante consistia
em satisfazer os apetites e que o prazer era a única finalidade da
vida. Em última análise, o ensino deles era: "Comamos e bebamos
que amanhã morreremos".
Se a morte fosse o fim de tudo, então apreciar cada momento
seria o mais importante. Os cristãos, porém, sabem que existe vida
além-túmulo e que nossa vida na terra é só uma preparação para a
vida eterna. O que você faz hoje é importante para a eternidade.
Levando-se em conta a eternidade, pecar é uma atitude tola.
2. Os estóicos: razão, destino e impessoalidade divina
(At 17.18)
Estes eram filósofos em Atenas que confrontaram Paulo juntamente
com os epicureus (vv. 18-21). Os filósofos estoicos, seguidores de
Zeno (333 a.C-263 a.C.), fundador do estoicismo, valorizavam
a razão, a virtude e o autocontrole. Acreditavam em deuses, mas
criam que todas as questões humanas eram regidas pelo destino,
que nenhum bem supremo era virtude e que o homem devia liber-
tar-se das paixões e não devia ser guiado pela alegria ou tristeza,
pelo prazer ou sofrimento. Eram os fatalistas e panteístas daquela
época. Essencialmente, tratava-se de um panteísmo racional embora
apresentasse raras aproximações do monoteísmo.
Deus não era um ser pessoal no estoicismo, mas uma força
espiritual ou energia mental imanente aos homens e às coisas. Ele
recebeu muitos nomes, como: Logos ou Razão, Natureza, Provi-
dência, Espírito divino e outros. A sua substância era o mundo
todo e também o Céu. O bem supremo era obedecer à razão ou
à virtude, suprimir as emoções e conduzir-se conforme o que a
natureza ordenasse. No fim, haveria uma reabsorção no mundo
da alma, mas nenhuma imortalidade individual.
Ambas as escolas negavam a ressurreição do corpo; a primeira
negava a imortalidade da alma (v. 18). Os poetas citados por Paulo
(At 17.18ss), eram os estóicos Aratus (Phaenomena) e Cleanthes
(Hino a Zeus). A filosofia estóica foi adotada por muitos romanos
como Sêneca, tutor de Nero, e o imperador Marco Aurélio.
O pensamento estoico foi propagado e afetou a cultura popular
no século I. O imperador Cláudio empregou o filósofo estóico
Sêneca para educar membros da família. No fim do século I, os
líderes de Roma também viam favoravelmente o estoico Musônio
Rufo. O estoicismo era a seita mais popular no período, em especial
entre os envolvidos nos assunto público .
Outros grandes estoicos foram Crisipo de Solos, Epiteto, Lúcio
Aneu Cornuto e Caio Musônio Rufo. Essa filosofia, muito influente
no período helenista, foi admitida por Sócrates, Aristóteles e pelas
escolas cínicas. Os estóicos, em contraste com os epicureus, asso-
ciavam o prazer ao vício, embora a alegria de espírito fosse boa.
Das principais escolas filosóficas gregas, apenas o estoicismo
preocupava-se com ajustar os deuses ao seu esquema; embora a sua
percepção dos deuses não fosse convencional, a piedade popular
iria considerá-la muito mais aceitável do que os seus competido-
res. Eles falavam do Logos que designava e governava o cosmos
(ver At 17.26). Eles também enfatizavam o destino. Os estoicos,
apesar de serem originalmente monistas e, por isso, panteístas (ver
At 17.28), no início do império falavam de "Deus" de um modo
mais pessoal, usando também durante muito tempo a linguagem
de amizade com Deus. O elemento panteísta, no entanto, nunca
esteve completamente ausente; por isso, o verdadeiro Júpiter não
só era o guardião do Universo, como também a alma e espírito
do mundo.
A apologética estoica para a existência e a natureza da divindade
lembra o argumento de Paulo em Atos 17. Os estoicos podiam
argumentar que os deuses existem e, a seguir, definir o caráter deles
e, depois, as necessidades da humanidade. Esse esboço básico do
argumento era bastante conhecido para servir como um modelo
para o esboço do discurso de Paulo no Areópago, naturalmente
recomendando mais uma vez o discurso mais para os estoicos do
que para os epicureus.
Paulo, distante de pregar deuses estranhos (At 17.18), chama
os seus ouvintes a abandonar os falsos deuses, voltando-se para
o único Deus verdadeiro, que não está longe de cada um deles
(At 17.27). Eles levaram Paulo a um tipo de audiência oficial; ele
adverte-os do julgamento iminente contra a idolatria (At 17.30,31).
Essa coragem dificilmente seria característica do estrangeiro normal
em busca de hospitalidade nem de alguém sendo avaliado numa
audiência (At 7.51-53), mas era uma forma retórica boa em alguns
cenários (ver At 4.13).
3. Paulo levado ao Areópago: o Evangelho diante da cul-
tura (At 18-21)
Areópago é a forma grega para "Colina de Marte", visto que, se-
gundo os gregos, foi ali que o deus Netuno chamou o deus Marte
a juízo. Estava situado em um alto rochoso de Atenas em frente
da Acrópole. O nome Areópago foi também dado ao tribunal
supremo de Atenas. Inicialmente, é o nome de um lugar, mas era
também o termo para designar o conselho de sábios e literatos.
Os seus trinta e um membros, como juízes, sentavam-se ao ar livre
em bancos de pedra, escavados na rocha. Foi a esse lugar que o
apóstolo Paulo foi levado e onde pregou aos atenienses (At 17.22).
A direita do apóstolo, enquanto este pregava, estava a Acrópole
com o Paternon, templo dedicado à Minerva. Em todo o canto,
ao redor do pregador, havia altares, templos, imagens e estátuas.
Na colina do Areópago, conservam-se ainda hoje algumas ruínas
interessantes.
O Areópago, embora fosse uma corte de julgamento, era tradi-
cionalmente a corte aristocrática de Atenas, distinta da massa
do povo. O Areópago exercia grande influência; na Atenas
clássica, julgava, às vezes, casos capitais, incluindo de homi-
cídio. Em uma tendência positiva, também podia honrar um
estrangeiro, mas, infelizmente, não existe resposta para Paulo
em Atos 17.32-34.
A declaração que Paulo prega esses "deuses estranhos" e o
fato de ser levado ao Areópago evoca uma versão da acusação
contra o filósofo Sócrates, que também fora examinado no
Areópago antes. Embora até mesmo os ouvintes de primcira
viagem não esperassem que Paulo fosse martirizado ali como
Sócrates (embora a lei romana não permitisse essa prática),
a alusão traz suspense, em vista da rejeição pública de Paulo
nas narrativas precedentes sobre a Macedônia (At 16.22,23;
17.5-8,13).
Apesar de o Conselho do Areópago (At 17.19) reunir-se ori-
ginalmente na colina com esse nome, a maioria dos estudiosos
reconhece que Lucas refere-se ao Conselho, não à localização.
As duas palavras de Lucas em Atos 17.19,22 podem sugerir as
alusões ao julgamento de Sócrates, à natureza apologética do
discurso e à menção a um "areopagista" (At 17.34).
O cerne da mensagem de Paulo tanto na sinagoga quanto na
praça era o evangelho de Jesus e a ressurreição. Alguns filósofos
nada viram no ensino de Paulo e desligaram-se, considerando-o
um "tagarela" ou pregador de deuses estrangeiros, dando-lhe
a alcunha de "este paroleiro". Essa palavra tem o sentido de
"varejista de segunda mão". Outros achavam que o seu ensino
merecia uma investigação mais profunda, e, com esse objetivo,
Paulo é levado ao Areópago pelos filósofos epicureus e estoicos
por causa do seu "ensino estranho" (vv. 18-20). O interesse dos
filósofos pelo ensino de Paulo talvez não passasse de curiosida-
de acadêmica, mas poderia haver ali um pequeno indício de
ameaça, visto que, em Atenas, a introdução de deuses estranhos,
embora fosse prática comum, constituía ofensa capital se, por
essa razão, as deidades locais fossem rejeitadas e a religião
estatal perturbada.
III. O DISCURSO DE PAULO NO AREÓPAGO
(At 17.22-34)
No Arcópago, Paulo proferiu um dos seus mais notáveis discursos,
demonstrando grande sensibilidade e estratégia: a sua abordagem
mudou significativamente daquela utilizada na Sinagoga, em que
ele utilizou um método de argumentação bíblica com um público
familiarizado com o judaísmo. Já no Areópago, ele adotou uma
abordagem apologética adaptando-se ao contexto cultural e filo-
sófico grego para introduzir o evangelho a filósofos pagãos.
O discurso de Paulo no Areópago de Atenas é um dos momentos
mais marcantes do diálogo entre o cristianismo primitivo e a cultura
helênica. Contudo, ao invés de iniciar o seu discurso com ataques,
ele emprega uma abordagem inteligente e respeitosa, estabelecendo
uma conexão com os ouvintes antes de apresentar o evangelho.
1. Observação cultural como ponto de contato com o
evangelho (At 17.22,23)
Na introdução do discurso, Paulo elogia os atenienses por conta
da religiosidade deles (At 17.22,23) Essa ponte cultural revela a
sua sensibilidade missional: em vez de confrontar diretamente a
idolatria, ele utiliza-se de um símbolo da própria religiosidade
ateniense para introduzir a revelação do Deus verdadeiro (1 Ts
1.9). O apóstolo propõe apresentar-lhes justamente aquele que eles
adoravam sem conhecer (v. 23), assumindo o papel de anunciador
desse Deus desconhecido, agora revelado em Cristo.
2. O Deus Criador, Sustentador e Senhor da história
(At 17.24-29)
A segunda parte do discurso é uma exposição teológica sobre Deus
como criador e sustentador do Universo (v. 24). Aqui, ele rompe
com a concepção pagã de divindades localizadas e dependentes
dos serviços humanos. Deus não é servido por mãos humanas
como se precisasse de alguma coisa (v. 25), pois é Ele quem dá vida,
respiração e tudo o mais. A universalidade do Criador é enfatizada
(v. 26a), contrapondo a visão elitista grega de superioridade étnica.
Além de Criador, Deus também é o sustentador e o governador
soberano da história humana (v. 26b). Esse governo divino tem um
propósito (v. 27a) e, embora pareça estar longe, "não está longe de
cada um de nós" (v. 27c,28a).
Paulo, então, cita poetas gregos [Epimênides, um poeta e filó-
sofo cretense do século VI a.C., e Cleanto, um filósofo estoico do
século III a.C.] (v. 28). Ele demonstra familiaridade com a cultura
grega, revelando que nela existem lampejos da verdade passíveis
de redenção em Cristo.
A conclusão da seção apela à coerência: se somos geração de
Deus, não devemos imaginar a divindade semelhante a ouro,
prata ou pedra (v. 29). Paulo desconstrói respeitosamente a ido-
latria e propõe o conhecimento de um Deus pessoal, espiritual e
transcendente.
3. O chamado ao arrependimento e o anúncio do Juízo
(At 17. 30,31)
Paulo, por fim, chega à terceira e mais direta parte do discurso, com
um chamado claro ao arrependimento. Ele afirma: "Mas Deus, não
tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos
os homens, em todo lugar, que se arrependam" (v. 30). Essa decla-
ração é revolucionária: o convite ao arrependimento é universal e
imediato. O motivo é apresentado a seguir: Deus estabeleceu um
dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um
homem que Ele mesmo designou - Jesus Cristo - oferecendo
como garantia disso a sua ressurreição dentre os mortos (v. 31).
A ressurreição de Cristo garante que todos os homens ressuscita-
rão e serão julgados (1 Co 15.1-23). Ele designou a Cristo como
juiz. Para os filósofos epicureus e estoicos, a ressurreição e o juízo
eram o delírio de um louco. Somente aqueles cujo coração estava
aberto creram.
A mençao da ressurreicao e o ponto de ruptura. Alguns zom-
bam (At 17.32), e outros mostram interesse em ouvir mais tarde,
e apenas poucos creem, entre eles Dionísio, o areopagita, e uma
mulher chamada Dâmaris (v. 34).
A menção a Dionísio na Bíblia, especificamente em Atos 17.34,
relata que ele era um membro do Areópago que se converteu ao
cristianismo após ouvir a pregação do apóstolo Paulo, sendo um
dos primeiros atenienses a acreditar em Cristo. A designação dele
como o primeiro bispo de Atenas provém de tradições da Igreja
Primitiva, registradas por historiadores eclesiásticos posteriores.
Dionísio sofreu o fim de um mártir cristão ao ser queimado. A sua
história foi preservada pelo historiador cristão primitivo Eusébio
de Cesareia na obra História Eclesiástica, do século IV.
Na teologia evangélica, a ênfase principal recai sobre o relato
bíblico da sua conversão em Atos dos Apóstolos, que demonstra a
propagação do evangelho para as elites intelectuais gregas. Embora
a maioria das denominações evangélicas não atribua o mesmo peso
à tradição extrabíblica do que a Igreja Católica ou a Ortodoxa,
o fato de ele ter sido um líder proeminente na Igreja Primitiva de
Atenas é geralmente aceito com base nessas referências históricas.
Dâmaris é uma mulher mencionada no Novo Testamento que
vivia em Atenas por volta de 55. De acordo com os Atos dos Após-
tolos (17.34), Dâmaris abraçou o cristianismo depois do discurso
de Paulo no Areópago, tornando-se uma das poucas atenienses a
acreditar na mensagem do apóstolo.
É provavel que ela tenha tido um alto status social, que lhe
permitiu estar no Areópago, um local que só as mulheres de maior
prestígio conseguiam ter acesso à época. E pode ser também esse
o motivo de o seu nome ter sido preservado. É provável ainda que
cla tenha sido estrangeira, pois as atenienses dificilmente estariam
presentes no Areópago.
O resultado do discurso não é um grande número de conversões,
mas demonstra a fidelidade de Paulo à sua missão: comunicar o
evangelho de forma contextualizada, respeitosa e fiel à verdade.
CONCLUSÃO
O discurso de Paulo permanece um modelo para o engajamento
cristão com culturas contemporâneas: começa onde o ouvinte está,
reconhece o que há de verdadeiro na cultura e, por fim, conduz à
revelação plena de Deus em Jesus Cristo. Ele também nos ensina
que o evangelho é suficientemente robusto para dialogar com
qualquer filosofia, mas também é suficientemente confrontador
para chamar todos, inclusive os mais cultos, ao arrependimento
e à fé no Cristo ressurreto. Em 2 Coríntios 4.4, o apóstolo Paulo
afirmou que "o deus deste mundo cegou o entendimento dos
descrentes, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da
glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus".
O texto descreve como os não crentes não conseguem enxer-
gar a mensagem do evangelho por causa do "deus deste mundo"
(frequentemente interpretado como Satanás), que cega as suas
mentes. A passagem segue o raciocínio de que o ministério de
Cristo é a fonte de luz e que os cristãos são servos de Cristo para
o beneficio de outros.
Em seguida, no versículo 6 desse mesmo capítulo, Paulo escre-
ve: "Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz,
é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do
conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo".
Jesus Cristo é a verdadeira luz que liberta o homem das trevas
e da ignorância espiritual. Ele certamente nos trouxe revelação e
o conhecimento de um Deus pessoal, que se interessa individual-
mente por cada um de nós.
Cristo entre os Filósofos: o Deus desconhecido se Revela
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