quinta-feira, 6 de agosto de 2026

CPAD : A Igreja dos Gentios — Lição 5: Cristo entre os filósofos: o Deus desconhecido se revela

 



I - CONTEXTO HISTÓRICO, CULTURAL E

RELIGIOSO DE ATENAS

1. Atenas: o centro intelectual marcado pela idolatria

(At 17.16)

Na época da chegada de Paulo a Atenas (meados do século I d.C.),

a cidade já havia perdido a sua glória política e militar de outrora,

mas continuava a ser um centro cultural e intelectual importante.

Famosa pelos seus filósofos Sócrates, Platão e Aristóteles, dava tanta

ênfase às artes, à poesia e à filosofia como nenhuma outra cidade.

  Atenas tinha cerca de cinco mil cidadãos. A Grécia não era uma

superpotência militar, e Atenas era politicamente insignificante.

Apesar disso, a cidade ainda servia de grandíssimo interesse cul-

tural, sendo conhecida como a capital da sabedoria grega e berço

da democracia. A cidade era um destino de passagem obrigatória

para estudantes e filósofos, que buscavam as suas academias e

escolas para estudar filosofia, retórica e outras artes liberais. A sua

importância era cultural, e não política.

  Embora os romanos admirassem e absorvessem a cultura grega,

o poder político e a administração do vasto império estavam con-

centrados em Roma. Portanto, enquanto Atenas era um venerável

e ativo centro de erudição e filosofia, a sede do império e o coração

da vida política e social era Roma.

  Contudo, por trás da sua sofisticação, havia uma religiosidade

profundamente idólatra e politeísta. Lucas registra a reação de

Paulo, que se comoveu ao ver a cidade "entregue à idolatria" (At

17.16). Os debates filosóficos continuavam a ser uma característica

proeminente da cidade, como evidenciado pelo relato bíblico da

visita de Paulo ao Areópago, onde o apóstolo dialogou com filósofos

epicureus e estóicos (At 17.16-34).


2. O início da evangelização de Paulo na sinagoga

(At 17.17a)

Enquanto esperava por Silas e Timóteo em Atenas, Paulo ficou

profundamente indignado com a idolatria generalizada. Chocado

com a quantidade de ídolos, o início da evangelização de Paulo em

Atenas, registrado em Atos 17.16-34, começou na sinagoga, onde

ele debatia com judeus e gentios tementes a Deus diariamente,

tentando convencer os seus ouvintes. Ali ele encontrara pelo menos

alguma compreensão, dado o terror que sentira face à idolatria

daquele povo. O público na sinagoga já tinha conhecimento prévio

dos textos sagrados e de um monoteísmo básico, o que permitia a

Paulo uma argumentação teológica mais direta - e ele também

poderia compartilhar o evangelho com os seus patrícios. Era a

prática padrão de Paulo em cidades com presença judaica, onde

ele usava as Escrituras do Antigo Testamento como ponto de

partida para demonstrar que Jesus era o Messias.

  É provável que os judeus não fossem numerosos em Atenas,

mas, como era costumeiro, a comunidade judaica provia-lhe uma

base por onde começar o seu trabalho.

  O método paulino de apresentar o evangelho é o mesmo em-

pregado em Tessalônica (At 17.2). O evangelho que Paulo pregava

tinha como foco inicial os judeus e, posteriormente, os gentios (Rm

1.16). O método de Paulo na sinagoga era de argumentação e

persuasão, dialogando com judeus e gentios tementes a Deus com

base nas Escrituras judaicas, buscando convencê-los a respeito do

Reino de Deus. Esse método diferia da sua abordagem posterior

no Areópago, que se adaptou à cultura e filosofia gregas.

  Atos 17 relata que, na sinagoga de Atenas, Paulo argumentou

com os judeus e os gentios tementes a Deus, mas não há menção

de uma aceitação em massa ou de uma rejeição violenta por parte

dos judeus daquela cidade, como ocorreu em outras localidades.

Paulo "disputava na sinagoga entre os judeus e os gentios piedosos"

diariamente. Isso indica um debate ou discussão das Escrituras, o

que era um procedimento comum para ele.

  Diferentemente de cidades como Tessalônica ou Bereia, onde

a pregação de Paulo gerou aceitação por parte de alguns, mas

também perseguição intensa por parte de outros judeus, o relato

em Atenas não descreve a formação de um grupo de crentes judeus

nem a oposição organizada deles.

  3. A proclamação do evangelho na ágora (At 17.17b)

Paulo iniciou a sua pregação na Sinagoga e, em seguida, prin-

cipalmente na ágora, que era a praça central da cidade para o

público em geral interessado em novidades. Os atenienses eram

conhecidos pelo interesse que tinham por novas ideias e filosofias,

o que os levou a convidar Paulo para falar no Areópago, um lugar

para discussões importantes.

  A palavra ágora referia-se, na Grécia Antiga, à praça pública

e significa "local de reunião" ou "assembleia", o centro da vida

pública e social de uma cidade grega antiga. Tratava-se um espaço

aberto que servia como ponto de encontro para diversas ativi-

dades dos cidadãos, como reuniões políticas, debates, atividades

comerciais e religiosas. Representava o coração da vida cívica,

social e religiosa das cidades-estado gregas. Os gregos reuniam-se

na Ágora para discutir leis, fazer negócios, votar e até assistir a

apresentações artísticas.

  A ágora antiga de Atenas é o exemplo mais conhecido onde

Sócrates foi julgado e condenado. Simbolizava o espaço público

e a democracia, sendo fundamental para a constituição dos pri-

meiros estados gregos. A ágora mais famosa é a de Atenas, onde

aconteciam eleições, celebrações religiosas, atividades mercantis

e competições atléticas. Os filósofos e os homens cultos estavam

sempre prontos para ouvir algo novo. A praça principal (ágora)

era o local onde Paulo falava diariamente com qualquer pessoa

que estivesse por ali, como faziam os filósofos da época.

  Paulo também leva o seu método evangelístico à ágora, onde

ele debatia com os que se apresentavam (gentios piedosos e alguns

filósofos frequentadores desse lugar).

  A ágora foi crucial para a pregação de Paulo em Atenas por-

que era o centro social, político e comercial da cidade, onde as

pessoas reuniam-se e debatiam ideias, oferecendo a Paulo um

público diversificado para iniciar o seu ministério. Além disso, a

ágora era um local de grande atividade religiosa e filosófica, o que

permitiu a Paulo observar a idolatria local, usar a inscrição "Ao

Deus Desconhecido" como ponto de partida para a sua pregação

e iniciar o diálogo com os atenienses antes de ser convidado a

apresentar-se no Areópago.

  A ágora permitia a Paulo encontrar e interagir com uma varic-

dade de pessoas, incluindo filósofos epicureus e estoicos, que eram

curiosos sobre novas ideias. A natureza aberta e pública da ágora

ofereceu a Paulo uma plataforma para iniciar o seu sermão sobre

um Deus que eles não conheciam, usando o altar como um ponto

de partida contextualizado para a mensagem cristã.

  A experiência de Paulo na ágora serve como uma metáfora

para a forma como os cristãos devem estar engajados na cultura,

entrando em contato com as expressões culturais e religiosas do

tempo, em vez de isolarem-se.

  II. OS FILÓSOFOS EPICUREUS E ESTÓICOS

(At 17.18-21)

  1. Os epicureus: o prazer como finalidade da vida

(At 17.18)

Epicureus eram filósofos em Atenas que confrontaram Paulo jun-

tamente com os estóicos (v. 18). Eles seguiam os ensinos de Epicuro

(341-270 a.C.), um cidadão ateniense, embora nascido na ilha de

Samos, perto de Éfeso, fundador da escola dos epicureus.

  A familiaridade de Paulo com a filosofia é evidente. Menandro,

escritor e amigo de Epicuro, é aparentemente citado por Paulo em

1 Corintios 15.33ss. Os epicureus ensinavam que o bem supremo

é o prazer ou a felicidade (gr. hefone); mas é o prazer da mente e da

vida inteira, e não o deleite dos caprichos e instintos momentâneos.

  Por "prazer", Epicuro não se referia aos desejos sensuais ("como

alguns, por ignorância, preconceito ou interpretação deliberada-

mente equivocada, entendeu que "somos", mas "a ausência de

sofrimento no corpo e de inquietação na alma". Ele não defendia

festas com bebida, sexo e alimento, mas o raciocínio sóbrio. Na

realidade, Epicuro via o sexo como potencialmente prejudicial e,

em geral, desencorajava o casamento. As consequências de todas

as ações devem ser consideradas antes de deleitar-se em uma

atividade ou mesmo aprová-la.

  Os filósofos epicureus buscavam o prazer moderado e a ausência

de sofrimento como bem supremo. Eram materialistas e negavam

a providência divina, os milagres, a profecia e a imortalidade. Não

acreditavam em nenhum deus, exceto de nome. Eles negavam que

os deuses exercessem qualquer governo sobre o mundo ou os seus

habitantes. Para os epicureus, a divindade, por sua natureza, era

transcendente e indiferente ao sofrimento humano.

  Para os Epicureus, mente e alma consistiam de partículas minúsculas

de algo como ar, dispersas pelo corpo e afetando-o. Portanto, a alma,

o ser material, pereceu na morte; nem bem-aventurança, nem aflição

aguardam os seres humanos após a morte. No fim do século I, Josefo

declarou que as predições de Deus a Daniel refutavam as declarações

epicureias que "exclui a Providência da vida humana e recusa-se a

acreditar que Deus governa os assuntos da vida humana".

  Epicuro repudiava a astrologia e ensinava que a religião era uma

superstição; dizia que, para ser feliz, era necessário ser liberto do

medo dos deuses. Também ensinava que "o prazer é o companhei-

ro inseparável da virtude". Os seus seguidores, porém, mudaram

essa doutrina, chegando, por fim, a ensinar que o prazer é o fim

principal da vida. Sustentavam que o mais importante consistia

em satisfazer os apetites e que o prazer era a única finalidade da

vida. Em última análise, o ensino deles era: "Comamos e bebamos

que amanhã morreremos".

  Se a morte fosse o fim de tudo, então apreciar cada momento

seria o mais importante. Os cristãos, porém, sabem que existe vida

além-túmulo e que nossa vida na terra é só uma preparação para a

vida eterna. O que você faz hoje é importante para a eternidade.

Levando-se em conta a eternidade, pecar é uma atitude tola.

   2. Os estóicos: razão, destino e impessoalidade divina

(At 17.18)

  Estes eram filósofos em Atenas que confrontaram Paulo juntamente

com os epicureus (vv. 18-21). Os filósofos estoicos, seguidores de

Zeno (333 a.C-263 a.C.), fundador do estoicismo, valorizavam

a razão, a virtude e o autocontrole. Acreditavam em deuses, mas

criam que todas as questões humanas eram regidas pelo destino,

que nenhum bem supremo era virtude e que o homem devia liber-

tar-se das paixões e não devia ser guiado pela alegria ou tristeza,

pelo prazer ou sofrimento. Eram os fatalistas e panteístas daquela

época. Essencialmente, tratava-se de um panteísmo racional embora

apresentasse raras aproximações do monoteísmo.

  Deus não era um ser pessoal no estoicismo, mas uma força

espiritual ou energia mental imanente aos homens e às coisas. Ele

recebeu muitos nomes, como: Logos ou Razão, Natureza, Provi-

dência, Espírito divino e outros. A sua substância era o mundo

todo e também o Céu. O bem supremo era obedecer à razão ou

à virtude, suprimir as emoções e conduzir-se conforme o que a

natureza ordenasse. No fim, haveria uma reabsorção no mundo

da alma, mas nenhuma imortalidade individual.

  Ambas as escolas negavam a ressurreição do corpo; a primeira

negava a imortalidade da alma (v. 18). Os poetas citados por Paulo

(At 17.18ss), eram os estóicos Aratus (Phaenomena) e Cleanthes

(Hino a Zeus). A filosofia estóica foi adotada por muitos romanos

como Sêneca, tutor de Nero, e o imperador Marco Aurélio.

  O pensamento estoico foi propagado e afetou a cultura popular

no século I. O imperador Cláudio empregou o filósofo estóico

Sêneca para educar membros da família. No fim do século I, os

líderes de Roma também viam favoravelmente o estoico Musônio

Rufo. O estoicismo era a seita mais popular no período, em especial

entre os envolvidos nos assunto público .

  Outros grandes estoicos foram Crisipo de Solos, Epiteto, Lúcio

Aneu Cornuto e Caio Musônio Rufo. Essa filosofia, muito influente

no período helenista, foi admitida por Sócrates, Aristóteles e pelas

escolas cínicas. Os estóicos, em contraste com os epicureus, asso-

ciavam o prazer ao vício, embora a alegria de espírito fosse boa.

 Das principais escolas filosóficas gregas, apenas o estoicismo

preocupava-se com ajustar os deuses ao seu esquema; embora a sua

percepção dos deuses não fosse convencional, a piedade popular

iria considerá-la muito mais aceitável do que os seus competido-

res. Eles falavam do Logos que designava e governava o cosmos

(ver At 17.26). Eles também enfatizavam o destino. Os estoicos,

apesar de serem originalmente monistas e, por isso, panteístas (ver

At 17.28), no início do império falavam de "Deus" de um modo

mais pessoal, usando também durante muito tempo a linguagem

de amizade com Deus. O elemento panteísta, no entanto, nunca

esteve completamente ausente; por isso, o verdadeiro Júpiter não

só era o guardião do Universo, como também a alma e espírito

do mundo.

  A apologética estoica para a existência e a natureza da divindade

lembra o argumento de Paulo em Atos 17. Os estoicos podiam

argumentar que os deuses existem e, a seguir, definir o caráter deles

e, depois, as necessidades da humanidade. Esse esboço básico do

argumento era bastante conhecido para servir como um modelo

para o esboço do discurso de Paulo no Areópago, naturalmente

recomendando mais uma vez o discurso mais para os estoicos do

que para os epicureus.

  Paulo, distante de pregar deuses estranhos (At 17.18), chama

os seus ouvintes a abandonar os falsos deuses, voltando-se para

o único Deus verdadeiro, que não está longe de cada um deles

(At 17.27). Eles levaram Paulo a um tipo de audiência oficial; ele

adverte-os do julgamento iminente contra a idolatria (At 17.30,31).

Essa coragem dificilmente seria característica do estrangeiro normal

em busca de hospitalidade nem de alguém sendo avaliado numa

audiência (At 7.51-53), mas era uma forma retórica boa em alguns

cenários (ver At 4.13).

  3. Paulo levado ao Areópago: o Evangelho diante da cul-

tura (At 18-21)

Areópago é a forma grega para "Colina de Marte", visto que, se-

gundo os gregos, foi ali que o deus Netuno chamou o deus Marte

a juízo. Estava situado em um alto rochoso de Atenas em frente

da Acrópole. O nome Areópago foi também dado ao tribunal

supremo de Atenas. Inicialmente, é o nome de um lugar, mas era

também o termo para designar o conselho de sábios e literatos.

Os seus trinta e um membros, como juízes, sentavam-se ao ar livre

em bancos de pedra, escavados na rocha. Foi a esse lugar que o

apóstolo Paulo foi levado e onde pregou aos atenienses (At 17.22).

  A direita do apóstolo, enquanto este pregava, estava a Acrópole

com o Paternon, templo dedicado à Minerva. Em todo o canto,

ao redor do pregador, havia altares, templos, imagens e estátuas.

Na colina do Areópago, conservam-se ainda hoje algumas ruínas

interessantes.

  O Areópago, embora fosse uma corte de julgamento, era tradi-

cionalmente a corte aristocrática de Atenas, distinta da massa

do povo. O Areópago exercia grande influência; na Atenas

clássica, julgava, às vezes, casos capitais, incluindo de homi-

cídio. Em uma tendência positiva, também podia honrar um

estrangeiro, mas, infelizmente, não existe resposta para Paulo

em Atos 17.32-34.

  A declaração que Paulo prega esses "deuses estranhos" e o

fato de ser levado ao Areópago evoca uma versão da acusação

contra o filósofo Sócrates, que também fora examinado no

Areópago antes. Embora até mesmo os ouvintes de primcira

viagem não esperassem que Paulo fosse martirizado ali como

Sócrates (embora a lei romana não permitisse essa prática),

a alusão traz suspense, em vista da rejeição pública de Paulo

nas narrativas precedentes sobre a Macedônia (At 16.22,23;

17.5-8,13).

  Apesar de o Conselho do Areópago (At 17.19) reunir-se ori-

ginalmente na colina com esse nome, a maioria dos estudiosos

reconhece que Lucas refere-se ao Conselho, não à localização.

As duas palavras de Lucas em Atos 17.19,22 podem sugerir as

alusões ao julgamento de Sócrates, à natureza apologética do

discurso e à menção a um "areopagista" (At 17.34).

  O cerne da mensagem de Paulo tanto na sinagoga quanto na

praça era o evangelho de Jesus e a ressurreição. Alguns filósofos

nada viram no ensino de Paulo e desligaram-se, considerando-o

um "tagarela" ou pregador de deuses estrangeiros, dando-lhe

a alcunha de "este paroleiro". Essa palavra tem o sentido de

"varejista de segunda mão". Outros achavam que o seu ensino

merecia uma investigação mais profunda, e, com esse objetivo,

Paulo é levado ao Areópago pelos filósofos epicureus e estoicos

por causa do seu "ensino estranho" (vv. 18-20). O interesse dos

filósofos pelo ensino de Paulo talvez não passasse de curiosida-

de acadêmica, mas poderia haver ali um pequeno indício de

ameaça, visto que, em Atenas, a introdução de deuses estranhos,

embora fosse prática comum, constituía ofensa capital se, por

essa razão, as deidades locais fossem rejeitadas e a religião

estatal perturbada.

  III. O DISCURSO DE PAULO NO AREÓPAGO

(At 17.22-34)

No Arcópago, Paulo proferiu um dos seus mais notáveis discursos,

demonstrando grande sensibilidade e estratégia: a sua abordagem

mudou significativamente daquela utilizada na Sinagoga, em que

ele utilizou um método de argumentação bíblica com um público

familiarizado com o judaísmo. Já no Areópago, ele adotou uma

abordagem apologética adaptando-se ao contexto cultural e filo-

sófico grego para introduzir o evangelho a filósofos pagãos.

  O discurso de Paulo no Areópago de Atenas é um dos momentos

mais marcantes do diálogo entre o cristianismo primitivo e a cultura

helênica. Contudo, ao invés de iniciar o seu discurso com ataques,

ele emprega uma abordagem inteligente e respeitosa, estabelecendo

uma conexão com os ouvintes antes de apresentar o evangelho.

  1. Observação cultural como ponto de contato com o

evangelho (At 17.22,23)

Na introdução do discurso, Paulo elogia os atenienses por conta

da religiosidade deles (At 17.22,23) Essa ponte cultural revela a

sua sensibilidade missional: em vez de confrontar diretamente a

idolatria, ele utiliza-se de um símbolo da própria religiosidade

ateniense para introduzir a revelação do Deus verdadeiro (1 Ts

1.9). O apóstolo propõe apresentar-lhes justamente aquele que eles

adoravam sem conhecer (v. 23), assumindo o papel de anunciador

desse Deus desconhecido, agora revelado em Cristo.

  2. O Deus Criador, Sustentador e Senhor da história

(At 17.24-29)

 A segunda parte do discurso é uma exposição teológica sobre Deus

como criador e sustentador do Universo (v. 24). Aqui, ele rompe

com a concepção pagã de divindades localizadas e dependentes

dos serviços humanos. Deus não é servido por mãos humanas

como se precisasse de alguma coisa (v. 25), pois é Ele quem dá vida,

respiração e tudo o mais. A universalidade do Criador é enfatizada

(v. 26a), contrapondo a visão elitista grega de superioridade étnica.

Além de Criador, Deus também é o sustentador e o governador

soberano da história humana (v. 26b). Esse governo divino tem um

propósito (v. 27a) e, embora pareça estar longe, "não está longe de

cada um de nós" (v. 27c,28a).

Paulo, então, cita poetas gregos [Epimênides, um poeta e filó-

sofo cretense do século VI a.C., e Cleanto, um filósofo estoico do

século III a.C.] (v. 28). Ele demonstra familiaridade com a cultura

grega, revelando que nela existem lampejos da verdade passíveis

de redenção em Cristo.

  A conclusão da seção apela à coerência: se somos geração de

Deus, não devemos imaginar a divindade semelhante a ouro,

prata ou pedra (v. 29). Paulo desconstrói respeitosamente a ido-

latria e propõe o conhecimento de um Deus pessoal, espiritual e

transcendente.

  3. O chamado ao arrependimento e o anúncio do Juízo

(At 17. 30,31)

Paulo, por fim, chega à terceira e mais direta parte do discurso, com

um chamado claro ao arrependimento. Ele afirma: "Mas Deus, não

tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos

os homens, em todo lugar, que se arrependam" (v. 30). Essa decla-

ração é revolucionária: o convite ao arrependimento é universal e

imediato. O motivo é apresentado a seguir: Deus estabeleceu um

dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um

homem que Ele mesmo designou - Jesus Cristo - oferecendo

como garantia disso a sua ressurreição dentre os mortos (v. 31).

  A ressurreição de Cristo garante que todos os homens ressuscita-

rão e serão julgados (1 Co 15.1-23). Ele designou a Cristo como

juiz. Para os filósofos epicureus e estoicos, a ressurreição e o juízo

eram o delírio de um louco. Somente aqueles cujo coração estava

aberto creram.

  A mençao da ressurreicao e o ponto de ruptura. Alguns zom-

bam (At 17.32), e outros mostram interesse em ouvir mais tarde,

e apenas poucos creem, entre eles Dionísio, o areopagita, e uma

mulher chamada Dâmaris (v. 34).

  A menção a Dionísio na Bíblia, especificamente em Atos 17.34,

relata que ele era um membro do Areópago que se converteu ao

cristianismo após ouvir a pregação do apóstolo Paulo, sendo um

dos primeiros atenienses a acreditar em Cristo. A designação dele

como o primeiro bispo de Atenas provém de tradições da Igreja

Primitiva, registradas por historiadores eclesiásticos posteriores.

Dionísio sofreu o fim de um mártir cristão ao ser queimado. A sua

história foi preservada pelo historiador cristão primitivo Eusébio

de Cesareia na obra História Eclesiástica, do século IV.

Na teologia evangélica, a ênfase principal recai sobre o relato

bíblico da sua conversão em Atos dos Apóstolos, que demonstra a

propagação do evangelho para as elites intelectuais gregas. Embora

a maioria das denominações evangélicas não atribua o mesmo peso

à tradição extrabíblica do que a Igreja Católica ou a Ortodoxa,

o fato de ele ter sido um líder proeminente na Igreja Primitiva de

Atenas é geralmente aceito com base nessas referências históricas.

  Dâmaris é uma mulher mencionada no Novo Testamento que

vivia em Atenas por volta de 55. De acordo com os Atos dos Após-

tolos (17.34), Dâmaris abraçou o cristianismo depois do discurso

de Paulo no Areópago, tornando-se uma das poucas atenienses a

acreditar na mensagem do apóstolo.

  É provavel que ela tenha tido um alto status social, que lhe

permitiu estar no Areópago, um local que só as mulheres de maior

prestígio conseguiam ter acesso à época. E pode ser também esse

o motivo de o seu nome ter sido preservado. É provável ainda que

cla tenha sido estrangeira, pois as atenienses dificilmente estariam

presentes no Areópago.

  O resultado do discurso não é um grande número de conversões,

mas demonstra a fidelidade de Paulo à sua missão: comunicar o

evangelho de forma contextualizada, respeitosa e fiel à verdade.

  CONCLUSÃO

O discurso de Paulo permanece um modelo para o engajamento

cristão com culturas contemporâneas: começa onde o ouvinte está,

reconhece o que há de verdadeiro na cultura e, por fim, conduz à

revelação plena de Deus em Jesus Cristo. Ele também nos ensina

que o evangelho é suficientemente robusto para dialogar com

qualquer filosofia, mas também é suficientemente confrontador

para chamar todos, inclusive os mais cultos, ao arrependimento

e à fé no Cristo ressurreto. Em 2 Coríntios 4.4, o apóstolo Paulo

afirmou que "o deus deste mundo cegou o entendimento dos

descrentes, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da

glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus".

  O texto descreve como os não crentes não conseguem enxer-

gar a mensagem do evangelho por causa do "deus deste mundo"

(frequentemente interpretado como Satanás), que cega as suas

mentes. A passagem segue o raciocínio de que o ministério de

Cristo é a fonte de luz e que os cristãos são servos de Cristo para

o beneficio de outros.

  Em seguida, no versículo 6 desse mesmo capítulo, Paulo escre-

ve: "Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz,

é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do

conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo".

  Jesus Cristo é a verdadeira luz que liberta o homem das trevas

e da ignorância espiritual. Ele certamente nos trouxe revelação e

o conhecimento de um Deus pessoal, que se interessa individual-

mente por cada um de nós.

    Cristo entre os Filósofos: o Deus desconhecido se Revela

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