segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

CPAD A Santíssima Trindade — Lição 5: O Deus Filho

 




    Ratificamos que a Trindade nos revela um só Deus em três pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo. A concepção virginal de Jesus é fundamento essencial da cristologia e da Trindade, pois revela a encarnação do Filho gerado pelo Pai na eternidade, assumindo também a natureza humana sem pecado (Mt 1.18-23; Lc 1.34-35). Esse evento confirma que Jesus é o Filho de Deus, preserva sua santidade desde a concepção, afirma a intervenção sobrenatural de Deus na história da salvação e cumpre as profecias messiânicas (e.g., Is 7.14).

   0 episódio da transfiguração de Cristo (Mt 17.1-8) igualmente é um dos momentos marcantes da revelação da glória do Deus Filho. Nele, Jesus — a segunda Pessoa da Trindade — é exaltado diante de testemunhas oculares, com a aprovação explícita do Deus Pai. Ele não é apenas mais um líder espiritual, um profeta, um sábio ou um exemplo moral entre tantos da história. Embora tenha sido plenamente humano, Jesus transcende a humanidade, pois é Ele plenamente divino, o próprio Deus que se fez carne. Este capítulo nos conduz a contemplar sua divindade, centralidade e missão redentora.

   1 - A DIVINDADE DO FILHO

   1. A Concepção Virginal de Jesus

   A concepção virginal é um fato histórico, um ato divino e um princípio teológico que revela a encarnação única do Filho de Deus: “Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra” (Lc 1.35a). O texto afirma que Jesus seria concebido pela ação do Espírito Santo e pela sombra do poder de Deus. A expressão “cobrir com sombra” (gr. episkiázo) é metáfora tomada a par tir de uma nuvem que lança uma sombra.1 Remete ao símbolo visível da presença de Deus com seu povo, principalmente ao Tabernáculo e ao Templo (Êx 13.21; 34.5; 40.34-38; 1 Rs 8.10).

   Assim, o Espírito Santo está vinculado à sombra da “virtude” (gr. dynamis),2 ou seja, ao poder de Deus. Isso indica que a presença pode rosa de Deus repousou sobre Maria, de modo que a criança concebida seria chamada “Filho de Deus” (Lc 1.35b). Dessa maneira, observa-se a manifestação da Trindade: o Altíssimo, o Filho de Deus e o Espírito Santo. O Pai apresenta-se como “Altíssimo”, autor do plano de salvação. O Espírito Santo atua como agente gerador, sua ação confirma a encarnação sem intervenção humana. O Filho, embora nascido de mulher, mantém sua filiação divina.

   A concepção virginal ressalta a união hipostática: Jesus é plena mente Deus e plenamente homem, sem confusão de naturezas. Por sua geração única, Ele é o Filho “Unigênito” do Pai (Jo 1.14,18; 3.16,18). A expressão unigênito (gr. monogenes) é composta por dois vocábulos: monos (único, sozinho) e genos (tipo, espécie, classe). A junção desses termos significa “único em sua espécie”; “sem igual”; “singular” ou “ex clusivo”.3 Desse modo, Jesus é único do seu tipo, o Filho singular em sua espécie, não criado, mas eterno, de natureza divina e com uma relação exclusiva com o Deus Pai. 

   A concepção de Jesus inaugura uma nova criação. Paulo compara Adão com Jesus Cristo, chamando Adão de “o primeiro homem” e Jesus de “o último Adão” (1 Co 15.45). O texto se refere a Adão como sendo a origem da criação física, da humanidade caída, e da mortalidade. Cristo, porém, é a origem da nova criação, da humanidade redimida, e da vida eterna. Diferente de “segundo Adão” (que implicaria possibilidade de outro), “último Adão” (gr. eschatos) indica finalidade e perfeição.4 Enquanto o primeiro trouxe a morte, o último venceu a morte, Cristo é o doador da vida eterna. Ele não apenas reviveu, mas se tornou a fonte de vida para todos que creem (2 Co 5.17; Cl 3.10; Hb 2.14).

   Em suma, a concepção virginal significa que Jesus Cristo foi concebido no ventre de Maria por obra do Espírito Santo, sem participação de um pai humano, ou seja, Maria era virgem quando ficou grávida de Jesus. Esse ato miraculoso convida o crente, por meio da fé, à adoração ao Deus Triúno, reconhecendo a ação sobrenatural da Trindade na história; a refletir sobre a novidade de vida e a esperança escatológica (Rm 6.4); e, ainda, a imitar a submissão de Maria, que diante do inexplicável respondeu “Eis aqui a serva do Senhor” (Lc 1.38), tornando-se modelo de obediência, fé e humildade.

   2. A Deidade Absoluta do Filho

   O Senhor Jesus é desde a eternidade, o único Filho de Deus e pos sui a mesma essência e substância (gr. homooúsios) do Pai. Ele é Deus encarnado, coessencial com o Pai. Jesus respondeu aos judeus que que riam saber se Ele era o Cristo, afirmando: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10.30). No texto grego, o adjetivo “um” (hen) não é masculino (heis), que indicaria “uma pessoa”, mas neutro, indicando unidade de natureza. O plural do verbo “ser” (esmen) traduzido como “somos” indica que Jesus e o Pai são pessoas distintas, mas estão unidos em essência e propósito. Essa é uma afirmação clara da divindade de Jesus, tanto que os judeus imediatamente tentaram apedrejá-lo por blasfêmia, reconhecendo que Ele estava se fazendo igual a Deus Jo 10.33).

   Quando interpelado por Filipe, que dizia “Senhor, mostra-nos o Pai” Jo 14.8), Jesus lhe respondeu: “Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai?” Jo 14.9). Filipe pediu uma manifestação visível do Pai, e Jesus lhe disse que essa manifestação já tinha sido dada na pessoa dEle. Nessa declaração, a construção verbal é enfática: o verbo grego “ver” (horaõ) aqui indica percepção espiritual, e não apenas visual. Mostra a unidade entre o Pai e o Filho, e a plena revelação de Deus em Jesus. Ele não é apenas um reflexo de Deus, Ele é Deus visí vel. Ele possui a mesma natureza divina do Pai. Ele é Deus encarnado, não apenas portador da presença divina. Os textos bíblicos sustentam essa afirmação, que tem impacto profundo para a cristologia (Hb 1.3; Cl 1.15). Antes de nascer em Belém, o Filho já existia eternamente com o Pai: “No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1.1). Ele é a segunda pessoa da Trindade e foi enviado pelo Pai ao mundo (1 Jo 4.9). Ele se fez carne, sem deixar de ser Deus. A encarnação do Verbo de Deus não o esvaziou da divindade, mas assumiu a condição humana, possuindo duas naturezas unidas numa única pessoa Jo 1.14; Fp 2.6-11). Ratifica-se, portanto, que essa união hipostática é sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação (Calcedônia, 451 d.C.).5 Ele é verdadeiro Deus e verdadeiro homem (Rm 1.3-4; 9.5). Sendo Deus e homem, Jesus é o único mediador entre Deus e a humanidade (1 Tm 2.5).

   3. Os Atributos Divinos de Jesus

   Como Segunda Pessoa da Trindade, Jesus manifesta todos os atributos essenciais de Deus. Reconhecer esses atributos assegura a plena dirindade do Filho. Entre eles, citamos:

   Eternidade: Jesus não teve começo, pois é eterno como o Pai. No Antigo Testamento, a profecia messiânica anuncia: “Porque um menino nos nasceu [...] e o seu nome será [...] Deus Forte, Pai da Eternidade” (Is 9.6). No Novo Testamento, Jesus declara: “antes que Abraão existis se, Eu Sou” Jo 8.58); “Eu sou o Alfa e o Omega, o Princípio e o Fim” (Ap 1.8). Esses textos confirmam sua existência sem início e sem fim. 

  Imutabilidade: Cristo, sendo Deus, não muda em seu ser ou caráter. ‘Jesus Cristo é o mesmo ontem, e hoje, e eternamente” (Hb 13.8). Tiago reforça essa consistência: “[...] não há mudança, nem sombra de variação” (Tg 1.17). Jesus é imutável, Ele não muda com as circunstâncias, mas garante fidelidade e confiança (Hb 1.12).

  Onipresença: Jesus declarou sua presença universal, sem limitação espacial: “onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mt 18.20). Aqui, o verbo no presente do indicativo (“estou”) denota a presença contínua e real de Cristo entre seus discípulos. 

  Onisciência: Jesus conhece todas as coisas, inclusive nossos pensamentos Jo 21.17). No contexto da cura do paralítico em Cafarnaum, Jesus, conhecendo os pensamentos de desaprovação dos escribas, disse: “Por que pensais mal em vosso coração?” (Mt 9.4). Significa que Ele sabe o que está no coração e na mente das pessoas (cf. Jo 2.25). 

  Onipotência: nada é impossível para Ele (Ap 1.8). Como Deus Todo-poderoso, Jesus opera milagres e declara sua autoridade: “E me dado todo o poder .no céu e na terra” (Mt 28.18). Tudo é possível para aquEle que sustenta a criação (Hb 1.3). 

   Em suma, Jesus Cristo manifesta em si mesmo todos os atributos que são incomunicáveis, isto é, que pertencem exclusivamente a Deus. A aplicação desses atributos à pessoa de Cristo lhe confere a identidade de Deus verdadeiro, promovendo uma cristologia ortodoxa e sólida. A Trindade é confirmada, pois o mesmo conjunto de atributos pertence ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Crer em Jesus como Deus é vital para a fé cristã. Negar qualquer um desses atributos é negar a própria essência do evangelho Jo 20.31).

   II - A CENTRALIDADE DO DEUS FILHO

   1. A Glória Sobrenatural de Jesus 

  A narrativa da transfiguração de Jesus (Mt 17.1-2; Mc 9.2-3; Lc 9.28-29) é um dos eventos mais significativos na revelação da identidade e da glória do Filho de Deus. Pedro, Tiago e João, testemunhas oculares desse acontecimento, são conduzidos por Jesus até um “alto monte”. O Comentário Bíblico Pentecostal aponta que esse local é tracionalmente identificado como sendo o monte Tabor, porém o mais provável é um local ao sul de Cesareia de Filipe, talvez um dos picos do Hermom.6 Não obstante, o “alto monte” simboliza um espaço de revelação divina e rememora Moisés recebendo a Lei (cf., Êx 19-20); nos Evangelhos, lembra as revelações e teofanias que ocorreram em montanhas (cf. Mt 5.1; 15.29).7 

   Nesse local, Jesus “transfigurou-se diante deles; e o seu rosto res plandeceu como o sol, e as suas vestes se tornaram brancas como a luz” (Mt 17.2). O verbo “transfigurar” é tradução do grego metemorphotkê,,8 do qual se originou o vocábulo metamorfose (transformação). Indica uma mudança profunda essencial e visível. Diferente de uma mera mudança externa, trata-se da revelação momentânea da glória inerente à natureza divina de Cristo. Não houve aquisição de uma glória alheia, mas a manifestação da glória que Ele sempre possuiu como o Verbo eterno (Jo 1.1,14). Trata-se de uma teofania cristológica, uma epifania da glória divina no Deus Filho encarnado.

   Significa que, na ocasião, Jesus revelou temporariamente a glória da sua natureza divina, com aparência resplandecente. Um prólogo escatológico, um vislumbre do Cristo pós-ressurreto e glorificado (Ap 1.6). A transfiguração, portanto, é uma revelação antecipada da glória escatológica e um testemunho da identidade messiânica e divina de Jesus. Teologicamente, esse evento é também uma confirmação da união hipostática: homem e divino, duas naturezas em uma só pessoa Jo 1.14; Cl 2.9). A glória manifestada não anula sua humanidade, mas revela a plenitude da divindade que habita corporalmente nEle. Uma confirmação da união hipostática: aqui, a divindade de Jesus foi revelada. Uma manifestação visível da glória de Deus no Filho encarnado (Fp 2.6-9).

   Do ponto de vista doutrinário, a transfiguração reforça a cristologia elevada do Novo Testamento. Ela é um testemunho trinitário, pois o Pai fala do céu (Mt 17.5), o Filho é glorificado e o Espírito está implícito na nuvem de glória (Êx 40.34; Lc 9.34). A glória de Jesus é a própria glória de Deus revelada ao mundo (Jo 17.5; Hb 1.3). Assim, a transfiguração não é apenas uma experiência para os três discípulos; é um ponto de inflexão teológico na revelação do Messias. Ela chama a Igreja a contemplar a glória do Deus Filho, a centralidade de Cristo na redenção e a esperança escatológica de sermos transformados à sua imagem (2 Co 3.18; 1 Jo 3.2).

   2. O Testemunho da Lei e dos Profetas

   Estando no monte, “eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com Ele” (Mt 17.3). Moisés aparece como representante da Lei (Torá), sendo o legislador por excelência (Êx 20; Dt 5). Sua presença é uma confirmação visível de que a Lei mosaica apontava para o Cristo. Jesus mesmo declara que não veio para revogar a Lei ou os Profetas; mas para cumprir (M 5.17). Esse cumprimento se dá em dois níveis: Tipológico (Moisés é um tipo de Cristo como mediador. Dt 18.15; Hb 3.1-6); e Legal Jesus é o único que cumpriu perfeitamente a Lei. G1 4.4-5; Rm 8.3-4). Moisés representa também a mediação da Antiga Aliança, selada com sangue (Êx 24.8), mas temporária e inferior à Nova Aliança, cuja mediação e sangue são de Cristo (Hb 8.6; Hb 9.13-14).

   Elias representa os Profetas, como porta-voz por excelência da aliança e defensor do monoteísmo contra a apostasia de Israel (1 Rs 18). E também considerado o símbolo escatológico da restauração que precede o Messias: “Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do Senhor” (Ml 4.5, ARA).9 João Batista cumpre essa profecia espiritualmente (Mt 11.14), mas a aparição literal de Elias na transfiguração aponta para a continuidade profética e o testemunho de que o tempo messiânico chegou. Assim, a presença de Elias confirma que todos os Profetas anunciavam a vinda, os sofrimentos e a glória de Cristo (Is 9.6; 53; Zc 12.10; Lc 24.26-27).

  Dessa forma, a aparição de Moisés e Elias não é uma consulta aos mortos (Dt 18.10-12; Mc 12.27; Lc 16.26), mas uma ação extraordinária de Deus para autenticar Jesus como o cumprimento da Lei e dos Profetas e a revelação final e plena de Deus (Jo 1.14; Hb 1.1-2; 12.24; Cl 1.15-20). Esses dois personagens testemunham que Jesus é o tema central e o cumprimento definitivo das Escrituras (Lc 24.27,44). Em contraste com a antiga mediação da Lei e dos Profetas, Deus declara que Jesus é o seu Filho amado, a quem os discípulos devem ouvir (Mt 17.5). A presença deles é uma prova visível da superioridade de Jesus (Hb 1.1-2). Ele é o Verbo encarnado, o Mediador da Nova Aliança, o cumprimento de toda a Escritura.

   3. A Aprovação Divina do Pai

   A transfiguração atinge seu clímax com a voz audível do próprio Pai: “[...] eis que uma nuvem luminosa os cobriu. E da nuvem saiu uma voz” (Mt 17.5a). A “nuvem luminosa” é um elemento teofânico, o símbolo recorrente da presença de Deus na revelação bíblica.10 Por exemplo, o Senhor ia adiante de Israel numa nuvem (Êx 13.21), a nuvem e a glória do Senhor cobriu o Tabernáculo (Êx 40.34-35); no Templo, a nuvem representa a glória de Deus (1 Rs 8.10-11). No contexto da transfiguração, essa nuvem envolve Jesus, Moisés e Elias diante dos discípulos, indicando que o próprio Deus está presente e prestes a falar. A nuvem não é apenas um sinal simbólico, mas o ambiente da revelação que autentica a glória e a autoridade do Filho.

   A voz vinda da nuvem ecoa as palavras já proferidas no batismo de Jesus: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17; 17.5b). Essa repetição é significativa.

   A expressão “Este é o meu Filho amado” confirma filiação divina indicando singularidade e exclusividade. Essa mensagem reflete duas passagens do Antigo Testa mento: “Tu és meu Filho; eu hoje te gerei” (SI 2.7), e “o meu Eleito, em quem se compraz a minha alma” (Is 42.1). Assim, o Pai ratifica que Jesus é o seu Filho eterno, não apenas em missão redentora, mas em natureza divina. Essa filiação não é apenas funcional (como Messias), mas ontológica: o Filho é da mesma substância do Pai, consubstanciai (gr. homoousios), conforme ensina o Concilio de Niceia em 325 d.C. A expressão “em quem me compraz»" (gr. eudokêsa) revela que o Filho é aquEle em quem o Pai se deleita e ao mesmo tempo evoca uma profecia messiânica (Is 42.1). A citação remete à figura do Servo Sofredor, unindo a glória da transfiguração ao caminho da cruz. Jesus é o Filho em quem o Pai tem prazer eterno, por sua obediência, humildade, e fidelidade ao plano redentor (Fp 2.6-11). A voz do Pai expressa aprovação e autoridade sobre o Filho, confirma a missão e a identidade de Cristo Jo 12.28). Essa manifestação audível do Pai atesta publicamente que Jesus é o enviado legítimo. E uma afirmação da centralidade de Cristo Jo 14.6). Sustenta a doutrina da Trindade, em que o Filho é Deus, gerado pelo Pai e consubstanciai com Ele Jo 14.9-10).

   III - A MISSÃO REDENTORA DO DEUS FILHO

   1. O Filho como Revelação Suprema

   A Transfiguração é marcada, também, por uma ordem direta do Pai acerca do Filho: “a ele ouvi" (Mt 17.5c, ARA). Essa frase no imperativo (gr. akouete autou) direciona a atenção exclusiva a Cristo como o supremo revelador da vontade de Deus. Sugere uma ação contínua, ouvir e seguir constantemente a palavra de Cristo. A declaração reflete a profecia de Moisés: “O Senhor, teu Deus, te despertará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, como eu; a ele ouvireis” (Dt 18.15). O Pai, ao dizer “a Ele ouvi”, faz eco direto dessa profecia, confirmando que Jesus é o Profeta definitivo, cujo ensino é a autoridade final (Mt 7.28-29; Jo 6.14; At 3.20-23; Hb 3.3-6). Assim, a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade foram por meio de Cristo Jo 1.17).

   Portanto, a instrução divina, “a Ele ouvi”, coloca o Filho em posição de supremacia sobre as revelações anteriores (Lc 16.16; Jo 1.17- 18). Cristo substitui os antigos mediadores, Moisés e Elias não tinham nada de novo para transmitir.11 Ele é o intérprete da vontade divina, superior aos profetas e legisladores. Cristo é o Logos eterno (Jo 1.1), o único mediador entre Deus e os homens (1 Tm 2.5), o Senhor da revelação e da história (Cl 1.15-20). Desse modo, não é Moisés (a Ui) e nem Elias (os Profetas) que devem ser ouvidos, mas o Cristo (Hb 1.1- 2). Sinaliza a transição entre a Antiga e a Nova Aliança, centrada na pessoa do Filho (Cl 2.17; Hb 10.1). Logo, negar a Cristo, ignorá-lo ou relativizar sua voz é rejeitar a autoridade de Deus (1 Jo 5.12).

   Ouvir a Cristo vai além de estudar seus ensinos; é render-se a Ele como Senhor. Em meio a tantas vozes que tentam moldar a mente cristã, religiosas, ideológicas e filosóficas, o crente salvo é chamado a dar ornados, acima de tudo, à voz do Filho. A palavra de Cristo é o padrão absoluto da verdade, da ética e da moral cristã (Mt 5-7). A Igreja deve centrar sua pregação, liturgia, discipulado e missão em Cristo como revelação final de Deus. A fé, o serviço, a adoração e a missão da Igreja devem estar enraizados na certeza de que Cristo é a revelação perfeita de Deus. NEle, e somente nEle, a alma encontra direção segura e verdadeira paz. 

  2. A Exclusividade de Cristo na Redenção 

  Após a visão do Cristo transfigurado e a ordem recebida (“Levantai-vos e não tenhais medo”, Mt 17.7), os discípulos, erguendo os olhos, “ninguém riram, senão a Jesus” (Mt 17.8). A frase traz o advérbio grego monon, traduzido por “somente” e que significa “único e/ ou sozinho”, denotando ênfase absoluta à exclusividade de Jesus. Essa expressão não é apenas narrativa, mas é teológica. Ela encerra uma verdade fundamental e resume a cristologia do evangelho: Cristo é absolutamente único e exclusivo na obra da redenção. A presença de Moisés e Elias cessou; restou apenas Cristo. Ele é o cumprimento da Lei e dos Profetas (Mt 5.17).

   Jesus não apenas sucede a Moisés e Elias — Ele cumpre tudo o que ambos anunciaram. Toda a história da redenção, desde o Gênesis até Malaquias, converge para Ele. O próprio Cristo esclareceu aos discípulos no caminho de Emaús: “começando por Moisés e por todos os profetas, explicou-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras” (Lc 24.27). Por isso, Cristo não é meramente um Profeta; Ele é o Deus revelado (Jo 14.9) e o único Mediador da humanidade (At 4.12; 1 Tm 2.5). A presença gloriosa de Moisés e Elias era derivada e temporária. A glória de Cristo é própria da Trindade e é eterna. Ele é a revelação plena de Deus, o resplendor da sua glória e a expressão exata do seu Ser (Hb 1.3). 

  Desse modo, a obra redentora de Cristo dispensa complementos. Nenhuma cerimônia levítica, nenhum símbolo do passado pode somar-se ao seu sacrifício.12 Seu sacrifício é plenamente suficiente para reconciliar o pecador com Deus (Cl 1.20-22). Diante de sua majestade, toda figura da Antiga aliança se desfaz — somente Jesus permanece. Ele é tudo em todos (Cl 3.11). Portanto, a exclusividade de Cristo pode ser assim resumida: (i) Unicidade da mediação. Cristo é o único caminho para Deus Jo 14.6); (ii) Suficiência da expiação. Seu sangue é suficiente para redimir plenamente (1 Jo 1.7); (iii) Revelação definitiva. NEle Deus falou de forma final e conclusiva (Hb 1.1-2). Negar a exclusividade de Cristo é comprometer a própria base do evangelho. A fé cristã não é pluralista, mas é centrada na singularidade absoluta do Filho de Deus.

   3. O Aprendizado pela Experiência

   A transfiguração como revelação da glória do Cristo ressurreto foi também um evento pedagógico para os discípulos. A experiência os fortaleceu para o futuro sofrimento de Jesus. O evento sobrenatural serviu como experiência formativa, por meio da qual os discípulos aprenderam — não por palavras, mas por visão — sobre a identidade real de Cristo e sobre o destino que o aguardava. O monte da transfiguração os fez entender que a glória precede a cruz, e que a visão da majestade divina fortalece a fé para o sofrimento. Mais tarde, Pedro reconheceu o episódio como evidência incontestável dessa verdade: “[...] fomos testemunhas oculares da sua majestade [...] quando da suprema glória lhe foi dirigida a voz que disse: “Este é o meu filho amado” (2 Pe 1.16-17, NVI).

   Essa experiência se tornou uma fundação doutrinária para afirmar a veracidade do evangelho e a autoridade apostólica. A respeito disso, o apóstolo afirmava não ensinar “fábulas engenhosamente inventadas” (2 Pe 1.16a, NVI). Eles presenciaram uma prova sensível e ocular do triunfo escatológico do Filho. A visão antecipava a ressurreição de Jesus e o Reino vindouro — um vislumbre do Cristo exaltado antes da humilhação da cruz (Hb 2.9). Assim, a Transfiguração é um prólogo do Reino de Deus. Jesus havia dito: “alguns dos que aqui se acham não experimentarão a morte antes de verem o Filho do homem vindo em seu Reino” (Mt 16.28, NVI). Essa experiência foi o cumprimento imediato dessa declaração, um prenúncio da glória futura (Mt 24.30).

   O evento aponta para a entronização definitiva de Jesus, quando todo joelho se dobrará — uma realidade antecipada na Transfiguração (Fp 2.9-11). O Filho é o Rei eterno cujo trono permanece para sempre. Sua majestade é inegociável, seu domínio é soberano e sua vitória é certa (Hb 1.8-12). Diante dessa glória, somos chamados a contemplar e adorar a Cristo com fé e esperança (Hb 12.2). A confiança se fortalece quando o crente olha “firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus” (Hb 12.2, NAA). Assim como os discípulos foram preparados para enfrentar a cruz vendo a glória de Cristo, os crentes também são capacitados a suportar o presente século mantendo os olhos fixos no Cristo exaltado. 

  CONCLUSÃO

   A doutrina do Deus Filho nos conduz à centralidade de Cristo na fé cristã. Sua divindade, glória e missão redentora revelam o coração do Pai e o agir do Espírito. Ele é o Verbo eterno feito carne, o único que pode reconciliar o homem com Deus. Por isso, devemos reconhecê-lo como Senhor absoluto, prostrar-nos em adoração, ouvi-lo e segui-lo em obediência, reverência e gratidão

     O Deus Filho | 55

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