quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

CPAD : A Santíssima Trindade — Lição 4: A Paternidade Divina

 


TEXTO ÁUREO

E vimos, e testificamos que o Pai enviou seu Filho para Salvador do mundo.

(1Jo 4.14).

VERDADE PRÁTICA

A paternidade de Deus é revelada no envio do Filho e na concessão do Espírito, confirmando nossa filiação e aperfeiçoando-nos no amor.

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE

1 João 4.13-16.

13 — Nisto conhecemos que estamos nele, e ele em nós, pois que nos deu do seu Espírito,

14 — e vimos, e testificamos que o Pai enviou seu Filho para Salvador do mundo.

15 — Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele e ele em Deus.

16 — E nós conhecemos e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor e quem está em amor está em Deus, e Deus, nele.

PLANO DE AULA

 1. INTRODUÇÃO

A paternidade de Deus é uma verdade revelada nas Escrituras que mostra o Pai como fonte eterna de toda vida. Ele enviou o Filho e concedeu o Espírito, formando conosco uma relação íntima, segura e transformadora. É o que estudaremos nesta lição.

2. APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO

A) Objetivos da Lição: I) Compreender que a paternidade de Deus é eterna e inseparável de sua natureza; II) Reconhecer que confessar a Cristo como Filho é evidência de filiação divina; III) Aplicar os princípios do amor do Pai como base para a vida cristã.

B) Motivação: A compreensão da paternidade de Deus nos leva a desfrutar de segurança espiritual, a viver com confiança diante do mundo e a experimentar um amor que lança fora todo medo.

C) Sugestão de Método: Antes de iniciar o estudo desta lição, proponha uma breve revisão das lições 1 a 3. Divida a classe em três grupos e atribua a cada grupo uma das lições anteriores para resumir. Oriente-os a destacar: o tema central, os principais versículos e a aplicação prática. Cada grupo apresenta seu resumo em até 3 minutos.

3. CONCLUSÃO DA LIÇÃO

A) Aplicação: A paternidade de Deus é uma verdade revelada nas Escrituras que mostra o Pai como fonte eterna de toda vida. Ele enviou o Filho e concedeu o Espírito, formando conosco uma relação íntima, segura e transformadora. Nesta lição, estudaremos como a Trindade manifesta a paternidade divina por meio do Filho e do Espírito.

4. SUBSÍDIO AO PROFESSOR

A) Revista Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa revista que traz diversos subsídios de apoio à Lições Bíblicas Adultos. Na edição 104, p.38, você encontrará um subsídio especial para esta lição.

B) Auxílios Especiais: Ao final do tópico, você encontrará auxílios que darão suporte na preparação de sua aula: 1) O texto “Características do Pai”, localizado depois do primeiro tópico, mostra como Deus se revela como Pai; 2) O texto “O Amor de Deus como fonte do amor humano”, ao final do terceiro tópico, mostra que é por meio do amor de Deus que somos habilitados a amar o próximo.

COMENTÁRIO

INTRODUÇÃO

Nesta lição, estudaremos como o Pai revela sua paternidade por meio da Trindade. Veremos que esta paternidade é reconhecida na confissão de Cristo e aperfeiçoada em nós pelo amor, garantindo nossa comunhão com Ele, capacitando-nos a viver com confiança, fidelidade e expressão visível da nossa filiação diante do mundo.

Palavra-Chave:

PATERNIDADE

AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO

CARACTERÍSTICAS DO PAI

 “(1) Como um Pai carinhoso, Ele se importa conosco, nos guia e nos recebe para que possamos ter uma comunhão profunda e aberta com Ele. Através da fé em Cristo, temos acesso ao Pai a qualquer hora para adorá-lo e para expressar as nossas necessidades.

(2) Como um Pai, Deus não tolera (ao contrário de alguns pais terrenos) o mal em seus filhos, e não falha quando é necessário discipliná-los corretamente. Fazer qualquer coisa menos que isto não seria bom para nós. Deus se opõe ao pecado e àquilo que o pecado pode fazer contra os seus filhos.

(3) Como um Pai celestial, ele pode castigar assim como abençoar, reter assim como dar, agir tanto com justiça como com misericórdia. A maneira como Ele responde aos seus filhos depende da fé deles, e da obediência que demonstram a Ele. No entanto, podemos ter a confiança de que toda a direção e disciplina de Deus são para o nosso bem.” (Bíblia de Estudo Pentecostal — Edição Global. Rio de Janeiro: CPAD, 2022, p.1616).

 AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO

O AMOR DE DEUS COMO FONTE DO AMOR HUMANO

 “O amor de Deus é a fonte de todo o amor humano, e se espalha como o fogo. Ao amar os seus filhos, Deus acende uma chama em seus corações. Estes, por sua vez, amam os outros, que são então aquecidos pelo amor de Deus.

É fácil dizer que amamos a Deus quando tal amor não nos custa nada mais do que nossa participação semanal nos cultos. Mas o verdadeiro teste do nosso amor a Deus é como tratamos as pessoas que estão à nossa volta — os membros de nossa família e os nossos irmãos em Cristo. Não podemos amar verdadeiramente a Deus enquanto negligenciamos o amor àqueles que foram criados à sua imagem.” (Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2004, p.1788).

SUBSÍDIOS ENSINADOR CRISTÃO

A PATERNIDADE DIVINA

Na presente lição, veremos com maiores detalhes a paternidade divina, bem como o amor divino que nos capacita a viver a nossa filiação com Deus diante do mundo. Inicialmente, a lição destaca que a paternidade de Deus não tem início no tempo. Deus é Pai desde a eternidade. Isso nos remete à compreensão de que as Pessoas do Filho e do Espírito Santo coexistem com o Pai desde a eternidade, tendo em vista que os três compartilham da mesma natureza divina (Jo 10.30). Nesse sentido, a relação entre as três Pessoas da Trindade é a referência ideal para o relacionamento do crente com Deus. Uma das marcas da filiação divina é a fé que expressamos em Jesus, o Filho Unigênito. Ele, por natureza, é o Filho gerado — e não criado — pelo Pai (Hb 1.1-5); em contrapartida, a nossa filiação ocorre a partir da confissão de fé em Jesus, que nos adentra à comunhão com Deus por meio da graça. Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus (Rm 5.1). Agora que somos filhos temos também a testificação dessa filiação por meio do Espírito Santo. Ele testifica com nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8.16).

De acordo com o Dicionário Bíblico Baker, editado pela CPAD, adoção diz respeito ao “processo voluntário de concessão de direitos, privilégios, responsabilidades e posição de filho ou herdeiro a um indivíduo ou grupo que não nasceu originalmente do adotante. Enquanto o nascimento ocorre naturalmente, a adoção ocorre apenas pelo exercício da vontade. [...] Os filhos adotivos de Deus desfrutam de todos os direitos de um filho natural, incluindo a oportunidade de chamar Deus de ‘Pai’, como Jesus fez (Mt 5.16; Lc 12.32). Paulo particularmente usa a adoção para descrever o novo relacionamento do cristão com Deus por meio do sacrifício expiatório de Jesus Cristo (Rm 8.15,16,21-23; 9.25,26)” (2023, p.23).

Agora que recebemos a nova natureza, podemos, como filhos de Deus, desfrutar de todas as abundantes bênçãos de Sua graça. Um dos grandes desafios da nossa geração é preservar sua identidade enquanto filhos de Deus. Inclusive, a marca que distingue e torna pública essa filiação é o amor de Deus derramado em nossos corações (Rm 5.5). Esse amor nos capacita a adorar a Deus em espírito e em verdade (Jo 4.24), bem como a amar o próximo e perdoar aqueles que se colocam como nossos inimigos e perseguidores (Mt 5.11,12,44-48). Se quisermos tornar notória ao mundo a nossa experiência como filhos de Deus, precisamos remover da nossa forma de pensar e agir tudo aquilo que não corresponde à natureza divina. Que a cada ato de renúncia ao pecado e submissão aos mandamentos divinos o amor de Deus possa se aperfeiçoar em nós.

 CONCLUSÃO

A paternidade de Deus é revelada de forma plena na ação conjunta da Trindade. O Pai envia o Filho, concede o Espírito e estabelece conosco uma relação sólida e paterna. Confessamos a Cristo, amamos porque fomos amados primeiro, e somos conduzidos pelo Espírito a viver em obediência e comunhão. A nossa identidade como filhos de Deus é firmada em sua iniciativa soberana e amorosa, garantindo-nos plena confiança para o dia da eternidade, e ajudando-nos a refletir o amor do Pai ao mundo.

  CPAD : A Santíssima Trindade — O Deus Único Revelado em Três Pessoas Eternas

Comentarista: Douglas Baptista

Lição 4: A Paternidade Divina


   A doutrina da paternidade de Deus revela que Ele é a fonte eterna de toda vida. Deus não é apenas um Ser transcendente e soberano; Ele também é Pai em sua essência. Essa paternidade é revelada plenamente na história da salvação, manifestada no envio do Filho e na concessão do Espírito Santo, formando conosco uma relação íntima e transformadora. No presente capítulo, estudaremos como Ele revela sua paternidade por meio da Trindade, na redenção e na nossa identidade como filhos de Deus.

   Veremos que essa paternidade é reconhecida na confissão de Cristo e aperfeiçoada em nós pelo amor, garantindo nossa comunhão com Ele, capacitando-nos a viver com fidelidade e expressão visível da nossa filiação diante do mundo. A luz das Escrituras, somos convidados a refletir sobre a obra de Deus Pai, que gera e ama seus filhos. Essa reflexão abordará três aspectos fundamentais: a revelação da paternidade, o reconhecimento de nossa filiação e a experiência do amor transformador do Pai.

   I - A REVELAÇÃO DA PATERNIDADE DO PAI

1.  Definição da Paternidade do Pai

   A paternidade é atributo da primeira Pessoa da Trindade: “um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos, e em todos” (Ef 4.6). Acerca desse versículo, Beacon destaca que “Deus é sobre todos — é soberano e supremo. Ele é por todos — seu poder impregna a igreja inteira. Ele é em todos — seu Espírito habita na adoração diante do próprio trono eterno e, em Cristo, todos somos filhos do mesmo Pai celestial”.1 O Pai é a fonte eterna e absoluta de tudo quanto existe. Ele é o soberano Criador, o princípio sem princípio, a origem da vida, da ordem e da redenção: “todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele” (1 Co 8.6). O texto ressalta não apenas a unidade monoteísta, mas a distinção funcional entre as Pessoas da Trindade. O Pai não é gera do, Ele não procede de ninguém: “Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o fez conhecer” (Jo 1.18). Essa passagem não apenas destaca a mediação do Filho na revelação do Pai, mas indica que o Pai está em eterna relação com o Filho. O Pai é quem gera o Filho: “Tu és meu Filho; eu hoje te gerei” (SI 2.7). A declaração não se refere a um nascimento temporal ou carnal, mas a uma geração eterna (Hb 1.5).

   Portanto, ratifica-se que a geração do Filho pelo Pai é eterna, necessária e espiritual, não ocorrendo no tempo, mas na eternidade.2 Quanto ao Espírito, Ele procede do Pai e do Filho Jo 15.26). Stanley Florton ob serva que “as propriedades pessoais atribuídas a cada um dos membros da Trindade são assim entendidas: o Pai é ingênito; o Filho é gerado; e o Espírito Santo procede dEles”.3Assim, a doutrina da paternidade do Pai inalterável e amorosa sustenta a nossa fé em tempos sombrios. O Pai é o Deus soberano que gera o Filho eternamente e concede o Espírito como testemunho e guia. Essa verdade oferece consolo e firmeza doutrinária para a vida cristã. Assim, podemos descansar na fidelidade do Pai das luzes, de quem procede toda boa dádiva e cuja paternidade é revelada plenamente na Trindade (Tg 1.17).

  2. A Paternidade Eterna do Pai

  Deus é Pai por toda a eternidade. Sua paternidade não teve início no tempo, mas é inerente ao seu ser. Deus Pai não se tornou Pai em um ponto da história, mas sempre foi Pai. Essa verdade rejeita qual quer concepção temporal ou subordinacionista4 da relação trinitária, afirmando que a relação entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo é eterna, essencial e ontológica.5 Como afirma Agostinho, “o Pai é o princípio da divindade, melhor dizendo, da deidade”.6 7

   Na oração sacerdotal Jesus disse: “E, agora, glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse” (Jo 17.5). Arrington anota que “este pedido alude à preexistência de Jesus [...] implica que a pessoa de Jesus (as naturezas divina e humana) e a obra expiatória eram uma conclusão passada na mente de Deus antes da criação”.' O texto ensina que o relacionamento entre o Pai e o Filho é anterior à criação, revelando que a identidade de Deus como Pai é eterna. Antes que o mundo existisse, já havia uma comunhão gloriosa entre o Pai e o Filho.

   Essa verdade é ratificada no texto bíblico, que diz: “Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser” (Hb 1.3, ARA). O Comentário Bíblico Beacon explica que o Cristo como o esplendor da glória do Pai “revela de forma perfeita a majestade de Deus. Ele é a expressa imagem da sua pessoa ou, como a NVI traduz: a expressão exata do seu ser”.8 Implica dizer que o Filho possui a mesma essência do Pai. Logo, a Paternidade do Pai é anterior e independente da cria ção e da encarnação. O Pai sempre foi Pai, o Filho sempre foi Filho e o Espírito sempre foi Espírito (Ef 1.3-4; Hb 1.2-3; 9.14).

   3. O Pai Gerou o Filho A geração do Filho não implica criação; Ele sempre existiu com o Pai, com a mesma essência: “Porque, como o Pai tem a vida em si mesmo, assim deu também ao Filho ter vida em si mesmo” (Jo 5.26). Henry, leciona que “E como Deus, que dá vida a todas as coisas, é o dono de sua própria existência, da mesma forma Cristo, que dá vida, ressuscitou a si mesmo para a vida através do seu próprio poder” (Jo 10.18).9 Isso significa que o Deus Pai é autoexistente. O Filho gerado pelo Pai também é autoexistente.

   Implica dizer que o Filho não foi criado, mas eternamente gerado: "O Senhor me disse: Tu és meu Filho; eu hoje te gerei” (SI 2.7). A expressão “hoje te gerei” não se refere a um tempo cronológico, a um ato temporal ou criacional, mas a uma realidade eterna. Paulo aplica esse versículo a Cristo, referindo-se à sua filiação eterna e ontológica do Ser divino, e sua manifestação como Filho ressuscitado e entronizado (At 13.33).

  Assim, o Filho e o Pai possuem vida em si mesmo, isto é, compar tilham da mesma natureza divina Jo 10.30). Como declarou o Concilio de Niceia (325 d.C.), o Filho de Deus é “gerado, não feito, de uma só substância (homooúsios) com o Pai”.10 Significa que o Filho é igual ao Pai, igualmente eterno e igualmente Deus. A geração eterna é a forma como o Filho se distingue do Pai sem deixar de ser Deus. Trata-se de uma re lação ontológica e não implica tempo, origem ou inferioridade Jo 1.1).

  O arianismo, defendido no século IV) afirmava que o Filho foi cria do no tempo e, portanto, inferior ao Pai. O Credo Niceno rejeitou essa ideia e declarou: “Mas aqueles que dizem; ‘houve um tempo quando Ele não era’; e ‘Ele não era antes de ter nascido’ [...] ‘Ele é de outra substância’ ou ‘essência’, ou ‘O Filho de Deus é criado’ [...] eles são condenados pela igreja cristã e apostólica”.11

  4. O Pai nos Concede o Espírito

   Acerca da procedência do Espírito, Jesus declarou: “Mas, quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito da verdade, que procede do Pai, testificará de mim” (Jo 15.26). Aqui o Espírito é “mencionado como uma Pessoa distinta, não uma qualidade ou propriedade”.12 O texto estabelece duas verdades: O Es pírito procede do Pai (gr. ekporeuetai, verbo usado para indicar origem); e Ele é enviado pelo Filho (pempsd, do verbo pempõ, que indica missão).13 Cristo também explicou: “[...] se eu não for, o Consolador não virá avós; mas, se eu for, enviar-vo-lo-ei” (Jo 16.7). Essa declaração está expressa de maneira negativa: “se eu não for; o Consolador não virá”. E de maneira positiva: “Se eu for, enviar-vo-lo-ei”.

   Cristo parte aos céus com o propósito de enviar o Espírito Santo. Assim, a vinda do Paracleto depende da partida de jesus.140 Credo Constantinopolitano (381 d.C.) professa crer “no Espírito Santo, o Senhor e Vivificador, o que procede do Pai e do Filho”.15

  Agostinho, também reitera “pelo testemunho das santas Escrituras, que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho”.16 Saber que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho é muito mais do que um detalhe teológico; é uma fonte poderosa de segurança para nossa vida cristã. O Espírito Santo é o próprio Deus (At 5.3-4), enviado para estar conosco para sempre Jo 14.16-17). Ele nos aproxima do Pai (Ef 2.18), testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8.16) e nos guia em toda a verdade Jo 16.13).

  II - RECONHECENDO A PATERNIDADE DO PAI

  1. Confessar a Cristo como Filho

   A confissão de que Jesus Cristo é o Filho de Deus não é apenas uma fórmula litúrgica ou declaração devocional. Trata-se de um ato espiritual com profunda implicação salvífica e trinitária: “Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele e ele em Deus” (1 Jo 4.15). Em vista disso, reconhecer a filiação divina de Cristo é mais do que uma afirmação privada. E uma declaração pública de fé e sinaliza que Deus habita no coração do crente (Rm 10.9-10). Essa confissão é uma ação do Espírito, não nasce da carne, nem da persuasão humana. Paulo assegura que “ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo” (1 Co 12.3).

  Essa confissão de fé em Jesus é, portanto, fruto da iluminação operada pelo Espírito Santo, e não apenas de convencimento intelectual ou tradição religiosa. Pearlman leciona que “que ninguém pode expressar a sincera convicção sobre a divindade de Jesus sem a iluminação do Espírito Santo”.17

   Por conseguinte, a confissão de Cristo como Filho de Deus é condição para a salvação, essencial ao novo nascimento e à reconciliação com o Pai. Reconhecer a filiação divina de Jesus é a única forma legítima de acesso ao Pai Jo 14.6). A filiação eterna de Jesus revela a paternidade divina. Somente em Cristo o Pai é plenamente revelado. Ver o Filho é ver o Pai, pois Ele é a expressão exata do seu Ser (FTb 1.3). O próprio Jesus disse: “Quem me vê a mim vê o Pai; [...] estou no Pai, e o Pai, em mim” Jo 14.9-11).

   Assim, reconhecer Jesus como Filho é reconhecer o Pai como Fonte da salvação. Não há comunhão com Deus fora da mediação do Filho (1 Tm 2.5). Essa dimensão pública da fé indica lealdade e per- tencimento ao Reino de Deus. Negar essa confissão é negar o próprio Pai: “Qualquer que nega o Filho também não tem o Pai; e aquele que confessa o Filho tem também o Pai” (1 Jo 2.23). Que cada crente possa, com o coração cheio de fé e gratidão, proclamar com ousadia: “Senhor meu, e Deus meu!” Jo 20.28). A partir dessa verdade, confessar a Cris to é viver em comunhão com o Pai. A presença de Deus se manifesta continuamente na vida do crente que confessa o Filho, pois “Deus está nele e ele em Deus” (1 Jo 4.15). Essa confissão não se limita à fala, mas é acompanhada de uma vida coerente, marcada por obediência, santidade e amor. O cristão é chamado a testemunhar publicamente sua fé, não apenas nos cultos, mas no dia a dia (Mt 10.32). O Espírito lhe foi dado para confessar que Jesus é o Filho de Deus (At 1.8).

  2. A Perfeição do Amor do Pai

  O amor faz parte da natureza do Pai: “E nós conhecemos e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor e quem está em amor está em Deus, e Deus, nele” (1 Jo 4.16). O amor é um atributo divino eterno. E a essência do Pai revelada em sua ação redentora. Deus não apenas ama, “Deus é amor”. Esse amor é entendido como vivência relacionai, poder transformador e motivação essencial do plano da sal vação. Como afirma Horton “por definição, o amor é necessariamente compartilhado com outro, e o amor de Deus é um amor que fez que com Ele doasse a si mesmo”.18 Nesse aspecto, a maior demonstração do amor do Pai foi a en trega de seu Filho unigênito Jo 3.16).

   Esse amor é sacrificial e redentor. Não é uma abstração sentimental, mas um ato histórico que culmina na cruz. Como destaca Pearlman, “o Espírito manteve diante dele [Cristo] as exigências inflexíveis de Deus e o inflamou de amor para com o homem e zelo para com Deus, para prosseguir, apesar dos impedimentos, da dor e das dificuldades, para efetuar a redenção do mundo”.19 Essa entrega é o coração do evangelho, alimentando a ex periência do novo nascimento e o batismo com o Espírito Santo, como resposta ao amor derramado (Rm 5.5). O amor de Deus não espera ser merecido. Ele se manifesta de forma soberana, oferecendo salvação ao pecador.

  O amor do Pai também se revela na adoção de filhos: “Vede quão grande amor nos tem concedido o Pai: que fôssemos chamados filhos de Deus” (1 Jo 3.1). O salvo é acolhido não como servo, mas como filho legítimo com todos os direitos espirituais. Essa adoção é mais que jurídica, ela é relacionai e afetiva. Como explica o pastor Antonio Gilberto, “fomos predestinados por Deus para adoção de filhos, antes da fundação do mundo; portanto, antes da existência do homem. Isso exclui qualquer mérito humano e somente revela a graça infinita de Deus”.20

   O amor do Pai é inquebrável; nenhum poder ou circunstância pode separar o crente desse amor (Rm 8.38-39). Mesmo em meio às lutas, o salvo é guardado na certeza do amor que não falha. O amor do Pai não é apenas geral, mas é individual, pessoal e íntimo, voltado para cada fi lho que crê (Jo 16.27). Essa realidade se expressa em comunhão constan te com Deus em oração, jejum, adoração e experiências espirituais. O amor do Pai é a fonte da nova vida; a salvação brota da abundância do seu amor (Ef 2.4-5). A redenção é fruto desse amor que busca, alcança, regenera, sela e sustenta até o fim.

  3. As Bênçãos da Filiação Divina

   As Escrituras afirmam que o amor de Deus, lança fora todo o te mor, especialmente o medo do juízo: “Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no Dia do Juízo tenhamos confiança” (1 Jo 4.17).

  Essa declaração não apenas revela a natureza do amor de Deus, mas destaca sua função libertadora da condição do crente escravo para filho adota do. O medo punitivo que antes o dominava é substituído pela confiança filial, gerada pela presença do Espírito, que testifica a adoção: “Porque não recebestes o espírito de escravidão, para, outra vez, estardes em te mor, mas recebestes o espírito de adoção” (Rm 8.15). Ratifica-se que o texto bíblico esclarece que o Espírito Santo introduz o crente em uma relação de adoção, não de servidão. Essa confiança estabelece a segurança da condição do salvo como filho de Deus. O crente não é mais um escravo ameaçado pelo castigo eterno, mas um filho livre e amado por Deus. Assim, o crente regenerado, embora consciente da realidade do juízo final (Hb 9.27), não vive sob terror, pois o amor aperfeiçoado pelo Espírito lança fora esse medo. Isso não significa que o crente não possa perder a salvação. Essa confiança, não anula a vigilância. O risco da apostasia é real (Ez 18.24; 1 Co 10.12).

  Portanto, a segurança do crente não é licença para pecar, mas incentivo para permanecer no amor e na obediência Jo 15.9-10). Paulo ensina que o selo do Espírito aponta para propriedade e segurança. O selo testemunha a filiação do crente e extingue o medo da condenação. Ele é a garantia de que a herança prometida será recebida (Ef 1.13,14). Assim, o verdadeiro amor, aperfeiçoado pelo Espírito, remove o medo punitivo, pois “no amor, não há temor; antes, o perfeito amor lança fora o temor” (ljo 4.18).

  III - A EXPERIÊNCIA DO AMOR DO PAI

   1. O Amor É Aperfeiçoado no Crente

   O aperfeiçoamento do amor na vida do crente é obra do Espírito Santo. Guardar a Palavra é o meio pelo qual o amor divino é amadu recido: “Aquele, entretanto, que guarda a sua palavra, nele, verdadei ramente, tem sido aperfeiçoado o amor de Deus” (1 Jo 2.5, ARA).

  A obediência às Escrituras revela um amor genuíno e em maturação. Jesus afirma que o amor verdadeiro é demonstrado por obediência prática aos seus mandamentos: o crente que ama é amado pelo Pai e pelo Filho, cresce em obediência e guarda a Palavra Jo 14.21). A obediência, portanto, é a evidência externa de um amor interno e verdadeiro por Deus. Não há amor genuíno a Deus sem compromisso concreto com sua vontade revelada (1 Jo 2.3-4). A cada ato de obediência, o amor de Deus é fortalecido na vida do crente: “Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito” (Lc 16.10, ARA). Esse versículo aponta que a obediência revela o caráter de um cristão; além disso, mostra a condição moral e espiritual do homem interior, bem como é um indicador do grau de confiabilidade de alguém.21

   João declara que “os seus mandamentos não são penosos” (1 Jo 5.3, ARA). Significa que o Espírito transforma o coração do salvo, de modo que a obediência se torna algo natural, e não um fardo (G1 5.16- 25). Em vista disso, o crescimento espiritual ocorre na medida que o crente amadurece. E a partir dos pequenos atos que acontece a grande consolidação do amor. Assim, reitera-se que o amor divino é amadurecido e solidificado pela presença ativa e contínua do Espírito Santo na vida do crente (Rm 5.5). Assim sendo, o cristão deve viver de maneira tal que a prática aprofunde a realidade do amor de Deus: “E sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos” (Tg 1.22). Esse versículo trata da fé diante das provações, das tentações e do ouvir da Palavra. Descreve a importância da obediência ativa e não apenas da escuta passiva da mensagem cristã. Refere-se a uma fé não aparente, mas autêntica.

  Moody enfatiza que “o Cristianismo é uma religião de ação. Por mais importante que seja o ouvir, não se deve parar por aí. O fazer deve seguir-se ao ouvir. Ser apenas ouvinte é uma forma de engano próprio”.22 Portanto, refletir Deus no mundo por meio da obediência da Palavra é ser aperfeiçoado no amor (Mt 22.37-40). Amar o mundo é incompatível com amar a Deus. Rejeitar o sistema mundano é evidência de amor aperfeiçoado e crescente compromisso com o Pai (1 Jo 2.15-17).

  2. O Amor E a Marca dos Filhos de Deus

   O amor é a identidade dos salvos. O mundo conhece a Deus por meio da manifestação do amor de seus filhos: “Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é, em nós, aperfeiçoado” (1 Jo 4.12, ARA). Nesse texto, o amor é evidência da presença de Deus. Deus é Espírito Jo 4.24). Deus é invisível, mas seu amor é tornado visível à humanidade quando os cristãos vivem em amor mútuo. Jesus ensinou que os cristãos deveriam amar uns aos outros, e fazendo assim seriam conhecidos como seus discí pulos Jo 13.35). Esse mandamento do amor não era “novo” porque algo parecido já fora dito antes (Dt 6.5; Lv 19.18). Sua novidade está relacionada com o novo padrão de amar o próximo. Jesus ordenou que os cristãos amassem uns aos outros “como eu vos amei” Jo 13.34). O padrão de amor foi redefinido. O amor de Cristo se torna a nova medida. Carson, leciona que “não somente o padrão é Cristo e seu amor; mais que isso, ele é um mandamento designado para refletir o relacionamento de amor que existe entre o Pai e o Filho Jo 8.29; 10.18; 12.49,50; 14.31; 15.10)”.23 Quem ama de fato revela que conhece a Deus. Logo, o amor torna real a presença de Deus àqueles que ainda não o conhecem. João apresenta um contraste moral e espiritual que divide a raça humana em dois grupos: “Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo: qualquer que não pratica a justiça e não ama a seu irmão não é de Deus” (1 Jo 3.10). Biblicamente, o exercício do amor é o critério visível de quem realmente conhece a Deus. O amor entre irmãos é prova pública de filiação divina. O amor é a essência da regeneração de um pecador (1 Jo 4.7-8).

   A unidade e o amor entre os discípulos cooperam como sinal para os incrédulos: “para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu, em ti; que também eles sejam um em nós” Jo 17.21). E acrescenta: “para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim e que tens ama do a eles como me tens amado a mim” Jo 17.23). Essa oração de Jesus pela unidade dos discípulos serve como testemunho eficaz de que Ele foi emiado por Deus por amar os pecadores. A comunhão entre os irmãos prepara o coração do mundo para receber o evangelho.

   Mercê disso tudo, os cristãos como filhos regenerados são chamados a refletir, por meio de suas atitudes, palavras e ações, o amor santo e redentor de Deus diante do mundo. A conduta visível do crente deve tornar realidade o Deus invisível. O amor de Deus se manifesta no mundo por meio do comportamento de seus filhos (1 Jo 4.12). Viver em amor, portanto, não é apenas um imperativo ético, mas uma evidência clara de que fomos transformados por Deus (1 Jo 3.14). Além disso, o amor fraterno é uma testemunha silenciosa e poderosa ao mundo (Mt 5.16).

  3. Fomos Amados Primeiro

  A essência da vida cristã está fundamentada no amor de Deus: “Nós o amamos porque Ele nos amou primeiro” (1 Jo 4.19). Significa que a vida cristã tem como alicerce o fato de que Deus amou os pecadores independentemente de qualquer obra humana. Revela que a salvação, a fé e a capacidade de amar são respostas à iniciativa incondicional do amor divino (1 Jo 4.10). Não é uma recompensa meritória, mas um sacrifício motivado por amor.

   Pecadores são amados por Deus antes de qualquer movimento pessoal em direção a Ele (Ef 2.4-5). O ser humano foi amado no pior estado possível — em pecado: “Deus prova o seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). Refere-se à substituição vicária: Cristo morreu em lugar de pecadores, assumindo o juízo que era devido aos transgressores (Is 53.5; 2 Co 5.21).

   A morte de Cristo é tanto sacrifício redentor como prova do amor de Deus. Não obstante, somente pelo Espírito o crente consegue amar a Deus, ao próximo e ao Inimigo (Rm 5.5). Antes da redenção, houve uma cruz sangrenta preparada por amor Jo 15.13). Desse modo, espera-se que a postura cristã seja uma resposta agradecida a esse amor imerecido (2 Co 5.14-15).    

   CONCLUSÃO

   A paternidade de Deus é revelada de forma plena na ação conjunta da Trindade. O Pai envia o Filho, concede o Espírito e estabelece conosco uma relação de amor inquebrantável. Confessamos a Cristo, amamos porque fomos amados primeiro e somos conduzidos pelo Espírito a viver em obediência e comunhão. A nossa identidade como filhos de Deus é firmada em sua iniciativa soberana e amorosa, garantindo-nos plena confiança para o dia da eternidade, e ajudando-nos a refletir o amor do Pai ao mundo.

     A Paternidade Divina | 53


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