segunda-feira, 4 de março de 2019

LIÇÃO 10: João, o Evangelho do Filho de Deus





___/___/____  João, o Evangelho do Filho de Deus

TEXTO BÍBLICO BÁSICO

João 1.1-5,11-14
1 - No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
2 - Ele estava no princípio com Deus.
3 - Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.
4 - Nele, estava a vida e a vida era a luz dos homens;
5 - e a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.
11 - Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.
12 - Mas a todos quantos o receberam deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus: aos que creem no seu nome,
13 - os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus.
14 - E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.

TEXTO ÁUREO
"Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.", João 3.16

ORIENTAÇÕES PEDAGÓGICAS
Caro professor, nas lições anteriores, vimos que Mateus ocupou-se em apresentar-nos Jesus como Rei; Marcos, como Servo; e Lucas, como Filho do Homem. Nesta lição, veremos que o foco de João foi outro: o discípulo amado ocupou-se em apresentar-nos o Salvador como Filho de Deus.
João difere dos sinóticos em seu conteúdo. Cerca de 90% dos registros feitos nesse Evangelho não se encontram nos demais, tais como: a preexistência de Cristo antes da encarnação (Jo 1.1-18); a transformação da água em vinho (Jo 2.1-11); a instrução a Nicodemos sobre o novo nascimento (Jo 3.1-21); a mulher de Samaria (Jo 4.1-42); a cura do paralítico de Betesda (Jo 5.1-15); o fato de Cristo ser o pão da vida (Jo 6.22-59), a água da vida (Jo 7.37-39) e o bom Pastor (Jo 10.1-19); a ressurreição de Lázaro (Jo 11.1-45); o lava-pés (Jo 13.1-15); as últimas palavras no Cenáculo (Jo 13.31–17); a Oração Sacerdotal (Jo 17.1-24); a pesca milagrosa (Jo 21.1-6) e a restauração de Pedro (Jo 21.15-19).
Explore tais particularidades e boa aula!


Palavra introdutória
A autoria do quarto livro neotestamentário é atribuída a João, filho de Zebedeu, o último sobrevivente dos apóstolos.
Acredita-se que ele o tenha escrito em sua velhice, quando estava em Éfeso (capital da Ásia Menor). Apesar de não ser possível precisar a data do registro joanino, fontes extrabíblicas indicam que, possivelmente, ele tenha sido feito no final do primeiro século (entre 70–90d.C.) — período em que os sinóticos já circulavam nas igrejas.
Mesmo apresentando uma sequência ampla de acontecimentos, semelhante à encontrada nos três primeiros livros neotestamentários, o estilo do Evangelho de João (bem como sua estrutura) difere completamente dos demais — estudiosos das Escrituras, aliás, consideram-no o mais teológico dos quatro Evangelhos.
Neste tomo, não há registro detalhado de parábolas (senão em Jo 10.1-10), e nele encontramos apenas sete milagres, dentre os quais, cinco foram relatados apenas por João [as bodas de Caná (Jo 2.1-11); a cura do filho do funcionário do rei (Jo 4.46-54); a cura do paralítico de Betesda (Jo 5.1-9); a cura do cego de nascença (Jo 9.1-7) e a ressurreição de Lázaro]; além disso, os discursos do Mestre têm por objetivo central Sua própria pessoa. Outra particularidade desse Evangelho são os encontros pessoais do Salvador — em contraste com o que se observa nos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), em João vemos Jesus dirigir-se mais a indivíduos do que a multidões.
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Ao apresentar Jesus como
Deus e como Verbo — não
somente como Filho de Deus
—, João tem por objetivo
combater as heresias do
gnosticismo emergente, as
quais ameaçavam a Igreja.
Em geral, os gnósticos
acreditavam que vários seres
angelicais eram os criadores
da Terra e que Cristo estava
entre muitos desses anjos
(RADMACHER; ALLEN; HOUSE.
Central Gospel, 2010b, p.
545).
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1. O VERBO DE DEUS
Mateus traça a genealogia do Messias a partir de Davi; Lucas, a partir de Adão; Marcos não a menciona, pois a árvore genealógica de um Servo não se evidencia na História; João, por sua vez, no prólogo de seu livro, apresenta Sua mais importante origem, a divina: No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (Jo 1.1). Com tal declaração, o apóstolo do amor assegura que Jesus, o Verbo (gr. logos = Palavra), é Quem fundamenta toda a Escritura (1 Pe 1.11).

A verdade enfatizada por João em seu Evangelho é esta:
Jesus é o Filho de Deus, Ele é Deus, e somente Ele é a Verdade que conduz o homem à vida eterna (Jo 14.6).

1.1. Antes da encarnaçãoNo princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus (Jo 1.1,2).
Esses versos:
  • mostram-nos que Jesus não teve um começo; Ele existe desde a eternidade a mente humana, limitada por grandezas de tempo e espaço, não consegue alcançar a dimensão da eternidade, mas é exatamente nesse tempo impreciso e nesse lugar indefinido que Ele habita;
  • revelam-nos a personalidade distinta e separada do Salvador Jesus não é apenas uma ideia (ou um pensamento) de Deus, Ele é uma pessoa real que habitou existencialmente a eternidade com Deus, antes de fazer-se carne e vir a este mundo;
  • ensinam-nos que Sua personalidade e divindade não tiveram um princípio Jesus não se tornou uma pessoa ao nascer em Belém da Judeia (Mt 2.1; Lc 2.1-7); tampouco foi após a Sua ressureição que Ele tornou-se Deus; Ele é Deus desde a eternidade; Ele é o Pai da eternidade (Is 9.6).
1.2. Na CriaçãoTodas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez (Jo 1.3). Jesus é (Jo 8.58) antes de a Criação existir (Jo 1.1).
A Criação, diferente do seu Criador, não é eterna. Em Gênesis 1.1, lemos que Deus criou a Terra; e, em João 1.3, a revelação se completa: vemos que foi por intermédio de Jesus que toda a Criação foi chamada à existência — porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis [...] tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele (Cl 1.16,17). Cristo não é parte da Criação, Ele é o Deus-Criador. Sem exceção alguma, a estrutura universal existente, visível e/ou invisível, foi criada por Ele — do macrocosmo ao microcosmo; dos maiores planetas às partículas subatômicas; do anjo ao arcanjo.

1.3. Entre nósE o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade (Jo 1.14). Destacamos três verdades nesse verso.
  • Criador tomou a forma da Sua Criação — [...] O Verbo se fez carne.Obedecendo às leis da Natureza, determinadas por Seu próprio poder (Gn 1.28; 3.16), Jesus foi gerado em uma madre (Lc 1.31), sendo gestado por nove meses para, somente então, nascer (Lc 2.6) na cidade de Belém, em uma simples manjedoura (Lc 2.7). Foi deste modo que o Filho de Deus adentrou o tempo e o espaço humanos (Hb 1.2).
  • O Eterno habitou entre nós — Não foi uma visita casual ou uma aparição fugaz. O Logos habitou este mundo por pouco mais de três décadas. Ele viveu entre os homens como um homem. A palavra habitou, em sua origem grega (eskēnōsen), significa tabernacular (no sentido de armar uma tenda). No Antigo Testamento, a presença de Deus entre os israelitas era representada por uma tenda móvel armada no meio do arraial (Êx 25.8,9; Nm 12.5; 2Sm 7.6). Na era da Lei, os homens iam ao Tabernáculo para buscar a Deus; na era da Graça, o Tabernáculo de Deus (Jesus) veio em busca do homem. Com isto fica patente o desejo de Deus em relacionar-se conosco.
  • Embora Cristo tenha dado aos Seus discípulos um lampejo de Sua glória no monte da Transfiguração (Mt 17.1,2), João mostra-nos que a glória do Filho de Deus foi manifestada aos homens por meio de Sua própria vida — Com atos de imerecida bondade, dirigidos aos pecadores (cheio de graça), o Unigênito do Pai habitou entre os homens imaculado, pleno de honestidade, retidão e justiça (cheio de verdade).

2. O VERBO DE DEUS COMO CORDEIRO
Uma das revelações neotestamentárias mais profundas acerca do Messias Salvador saiu dos lábios de João, o Batista; e João, o evangelista, a registrou: No dia seguinte, João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1.29).
Na Antiga Aliança, o sacrifício de um cordeiro representava o perdão de pecados. João Batista viu, pela fé, que Cristo era o Cordeiro de Deus que levaria embora os pecados dos homens (Jo 1.29). Ele riscaria, definitivamente, a cédula que nos era contrária [...] e a cravaria na cruz por meio do Seu sacrifício (Cl 2.14). O Verbo é, também, o nosso Cordeiro Pascal (1 Co 5.7; At 8.32; 1 Pe 1.19; Is 53.7).

2.1. O Cordeiro substituiu-nos
No Livro de Gênesis, lemos que Abraão conduziu seu filho ao monte Moriá para ser sacrificado, pela fé. Quando Isaque perguntou ao pai onde estaria o cordeiro para o sacrifício, o patriarca respondeu: Deus proverá para si o cordeiro (Gn 22.8). No alto do monte, o Anjo do Senhor não permitiu que Abraão usasse o cutelo para sacrificar o jovem; um carneiro apareceu para ser oferecido em seu lugar (Gn 22.11-13).
Aprendemos com este episódio que, assim como Deus enviou um sacrifício para substituir Isaque no monte Moriá, Cristo foi-nos enviado como Cordeiro de Deus para morrer em nosso lugar no monte Calvário. Por essa razão, o mesmo João escreveu: Nisto está o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados (1 Jo 4.10).

2.2. O Cordeiro justificou-nos
Na Antiga Aliança, os cordeiros eram sacrificados para o perdão de pecados (Lv 4.32; Nm 6.14); o sacrifício do Cordeiro Santo de Deus, no entanto, excedeu a este propósito. O sangue de Jesus foi vertido na cruz do Calvário não apenas para perdoar os pecados dos homens, mas para torná-los justos diante de Deus: E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por ele é justificado todo aquele que crê (At 13.39).
Todo aquele que crê em Seu sacrifício e o recebe como Senhor de sua vida (Jo 3.18) não será condenado: Portanto, agora, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o espírito (Rm 8.1).

3. O VERBO DE DEUS, NOSSO AMIGO
Cinco capítulos do Evangelho de João são dedicados às últimas instruções de Jesus aos Seus discípulos, antes da crucificação (Jo 13.1–17.26). Nesse discurso, encontramos a seguinte declaração do Mestre: Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando (Jo 15.14). Esse verso, especificamente, leva-nos a refletir sobre o fato de Deus ter descido dos céus para habitar entre os homens, ter-se feito Cordeiro para justificar o pecador, predispondo-se a ser amigo de todos quantos o receberem como Salvador.
_______________________
Em João 15.15,
evidentemente, está contido
o pensamento de que Cristo
não tem prazer na mera
obediência servil; afinal,
amigos de verdade são
motivados pelo prazer de
fazer o que o relacionamento
exige, com vistas à sua
manutenção. Obediência
é, antes de tudo, uma
expressão de fidelidade e
amor.
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3.1. Um amigo pessoal
Já vos não chamarei servos, [...] tenho-vos chamado amigos (Jo 15.15).
Eis a diferença entre servo e amigo:
servos fazem o que lhes é ordenado, mas com amigos pessoais compartilhamos segredos, planos, projetos e informações confidenciais.
Precisamos entender, no entanto, que o status de amigo não exime o cristão da condição de servo: continuamos sendo servos que têm o privilégio de compartilhar a intimidade com o maior Amigo.

3.2. Um amigo que nos ama
Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a sua vida pelos seus amigos (Jo 15.13). Nossas ações falam mais alto do que as nossas palavras. Jesus não apenas disse que nos amava; Ele provou o Seu amor, entregando Sua vida por nós.
Não se trata de um amor teórico, mas prático e sublime.
A palavra grega traduzida por vida, nesse texto, não é bios, mas psychēn (alma). Isto nos leva a concluir que Jesus não entregou apenas Seu corpo físico na cruz, Ele entregou todo o Seu ser. Esta, aliás, é a mais colossal expressão de amor de Deus para com os homens (Rm 5.8).

CONCLUSÃO
As verdades reveladas sobre a pessoa de Jesus Cristo neste Evangelho enchem-nos de ânimo e esperança. Ao lermos o exclusivo texto registrado por João — porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna (3.16) —, podemos visualizar o incalculável amor de Deus dispensado a nós. Nas palavras de Matthew Henry, Jesus Cristo veio para nos salvar por meio de Seu perdão, a fim de que não morramos pela sentença da Lei. Esse é o evangelho de fato, as boas novas, o melhor que já veio do céu para a terra (Bíblia de Estudo Matthew Henry. Central Gospel, 2014, p. 1625).
Deus nos abençoe.

ATIVIDADE PARA FIXAÇÃO
1. O que o texto de João 1.1 — no princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus — assegura-nos?
R.: Jesus, o Verbo (gr. logos = Palavra), é Quem fundamenta toda a Escritura (1 Pe 1.11).




1.   O Verbo (pré-existência e atividade eternas).

Conhecendo as Doutrinas da Bíblia
Myer Pearlman

A palavra do homem é aquela por meio da qual ele se expressa e por meio da qual ele se comunica com os seus semelhantes. Por sua palavra ele dá a conhecer seus pensamentos e sentimentos, e por sua palavra ele manda e executa a sua vontade. A palavra com que se expressa está impregnada de seu pensamento e de seu caráter.
Pela expressão verbal de um homem até um cego pode conhecê-lo perfeitamente. Embora se veja uma pessoa e dela se tenha informações, não se conhecerá bastante enquanto ela não falar. A palavra do homem é a expressão de seu caráter. Da mesma maneira, a "Palavra de Deus" é o veiculo mediante o qual Deus se comunica com outros seres, e é o meio pelo qual Deus expressa o seu poder, a sua inteligência e a sua vontade.

Cristo é a Palavra ou Verbo, porque por meio dele, Deus revelou sua atividade, sua vontade e propósito, e por meio dele tem contato com o mundo. Nós nos expressamos por meio de palavras; o eterno Deus se expressa a si mesmo por meio do seu Filho, o qual "é a expressa imagem da sua pessoa" (Heb. 1:3). Cristo é a Palavra de Deus, demonstrando-o em pessoa. Ele não somente traz a mensagem de Deus — ele é a mensagem de Deus. Considere-se a necessidade de tal Revelador. Procure-se compreender a extensão do universo com seus imensuráveis milhões de corpos celestes, cobrindo distâncias que deixam estupefata a mente; imaginem-se as infinitas extensões do espaço além do universo material; a seguir, procure-se compreender a grandeza daquele que é o Autor de tudo isso. Considere-se por outro lado, a insignificância do homem. Tem-se calculado que se todas as pessoas neste mundo medissem 1,80m de altura, 45cm de largura, e 30cm de espessura, os três bilhões da raça humana caberiam em uma caixa medindo menos de um quilometro cúbico. Deus — quão poderoso e vasto! O homem — quão infinitesimal! Além disso, esse Deus é Espírito, portanto, não pode ser compreendido pelo olho material, nem pelos demais sentidos naturais. Surge a grande pergunta: Como pode o homem ter comunhão com um Deus como esse? Como pode sequer ter a mínima idéia da sua natureza e caráter? É certo que Deus se revelou pela palavra profética, por meio de sonhos e visões e por meio de manifestações temporais. Porém, o homem anelava por uma resposta mais clara à seguinte pergunta: Como é Deus? Para responder a esta pergunta, surgiu o evento mais significativo da história — "E o Verbo se fez carne" (João 1:14). O Verbo eterno de Deus tomou sobre si mesmo a natureza humana e se tornou homem, a fim de revelar o eterno Deus por meio de uma personalidade humana. "Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho" (Heb. 1:1, 2). De modo que à pergunta "como é Deus?", o cristão responde: Deus é como Cristo, porque Cristo é o Verbo — a idéia que Deus tem de si mesmo. Isto é, ele é "a expressa imagem da sua pessoa" (Heb. 1:3), "a imagem do Deus invisível" (Col. 1:5).

3. Senhor (deidade, exaltação e soberania).

Uma ligeira consulta a uma concordância bíblica revelará o fato de que "Senhor" é um dos títulos mais comuns dados a Jesus. Este título indica a sua deidade, exaltação e soberania.
(a) Deidade. O título "Senhor", ao ser usado como prefixo antes de um nome, transmitia, tanto a judeus como a gentios, o pensamento de deidade. A palavra "Senhor" no grego ("Kurios") era equivalente a "Jeová " na tradução grega do Antigo Testamento; portanto, para os judeus "o Senhor Jesus" era claramente uma imputação de deidade. Quando o imperador dos romanos se referia a si mesmo como "Senhor César", requerendo que seus súditos dissessem "César é Senhor", os gentios entendiam que o imperador estava reivindicando divindade. Os cristãos entendiam o termo da mesma maneira, e preferiam sofrer perseguição a atribuir a um homem um título que somente pertencia a Um que é verdadeiramente divino. Somente àquele a quem Deus exaltara eles renderiam adoração e lhe atribuiriam senhorio.

(b) Exaltação. Na eternidade Cristo possui o título "Filho de Deus" em virtude da sua relação com Deus. (Fil. 2:9); na história Ele ganhou o título "Senhor", por haver morrido e ressuscitado para a salvação dos homens. (Atos 2:36; 10:36; Rom. 14:9.) Ele sempre foi divino por natureza; chegou a ser Senhor por merecimento. Por exemplo: Se um jovem nascido na família de um multimilionário não está contente em herdar aquilo pelo qual outros tenham trabalhado, mas deseja possuir unicamente o que ganhou por seus próprios esforços, ele então voluntariamente renuncia a seus privilégios, toma o lugar de um trabalhador comum, e por meio do seu labor conquista para si um lugar de honra e riqueza. Igualmente, o Filho de Deus, apesar de ser por natureza igual a Deus, voluntariamente sujeitou-se a si mesmo às limitações humanas, porém sem pecado, tomando sobre si a natureza do homem, fez-se servo do homem, e finalmente morreu na cruz para redenção do mesmo homem. Como recompensa, Cristo foi exaltado ao domínio sobre todas as criaturas — uma recompensa apropriada, pois, que melhor credencial poderia alguém ter para exercer senhorio sobre os homens, visto que os amara e se entregara a si mesmo por eles? (Apoc. 1:5.) Esse direito já foi reconhecido por milhões e a cruz tomou-se um degrau pelo qual Jesus alcançou a soberania dos corações dos homens.

(c) Soberania. No Egito, Jeová se revelou a Israel como Redentor e Salvador; no Sinai, como Senhor e Rei. As duas coisas se justapõem, porque ele, que se tomou Salvador deles, tinha direito de ser o seu Soberano. É por isso que os Dez Mandamentos iniciam com a declaração: "Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão" (Êxo. 20:2). Em outras palavras, "Eu, o Senhor, que vos redimi, tenho o direito de governar sobre vós." E assim aconteceu com Cristo e seu povo. Os cristãos primitivos reconheceram instintivamente — como todos os verdadeiros discípulos — que aquele que os redimiu do pecado e da destruição, tem o direito de ser o Senhor de suas vidas. Comprados por bom preço, não pertencem a si mesmos (1 Cor. 6:20), mas, sim, a quem morreu e ressuscitou por eles. (2 Cor. 5:15.) Portanto, o título "Senhor", aplicado a Jesus pelos seus seguidores, significa: "Aquele que por sua morte ganhou o lugar de soberania no meu coração, e a quem me sinto constrangido a adorar e servir com todas as minhas forças." O paralítico que foi curado, ao ser repreendido por levar sua cama no dia de sábado, respondeu: "Aquele que me curou, ele próprio disse: Toma a tua cama, e anda" (João 5:11). Ele soube, instintivamente, com a lógica do coração, que Jesus que lhe tinha dado saúde, possuía o direito de dizer-lhe como usar essa saúde. Se Jesus é o nosso Salvador, deve ser o nosso Senhor.

4. Filho do homem (humanidade)

(a) Quem? De acordo com o hebraico a expressão "filho de" denota relação e participação. Por exemplo: "Os filhos do reino" (Mat. 8:12) são aqueles que hão de participar de suas verdades e bênçãos. "Os filhos da ressurreição" (Luc. 20:36) são aqueles que participam da vida ressuscitada. Um "filho de paz" (Luc. 10:6) é um que possui caráter pacifico. Um "filho da perdição" (João 17:12) é um destinado a sofrer a ruína e a condenação. Portanto, "filho do homem" significa, principalmente, um que participa da natureza humana e das qualidades humanas. Dessa maneira, "filho do homem" vem a ser uma designação enfática para o homem em seus atributos característicos de debilidade e impotência. (Num. 23:19; Jo 16:21; 25:6.) Neste sentido o título é aplicado oitenta vezes a Ezequiel, como uma recordação de sua debilidade e mortalidade, e como um incentivo à humanidade no cumprimento da sua vocação profética. Aplicado a Cristo, "Filho do homem" designa-o como participante da natureza e das qualidades humanas, e como sujeito às fraquezas humanas. No entanto, ao mesmo tempo, esse título implica sua deidade, porque, se uma pessoa enfaticamente declarasse: "Sou filho de homem", a ele dir-se-ia: "Todos sabem disso." Porém, a expressão nos lábios de Jesus significa uma Pessoa celestial que se havia identificado definitivamente com a humanidade como seu representante e Salvador. Notemos também que é: o — e não um — Filho do homem. O título está relacionado com a sua vida terrena (Mar. 2:10; 2:28; Mat. 8:20; Luc. 19:10), com seus sofrimentos a favor da humanidade (Mar. 8:31), e com sua exaltação e domínio sobre a humanidade (Mat. 25:31; 26:24. Vide Dan. 7:14). Ao referir-se a si mesmo como "Filho do homem", Jesus desejava expressar a seguinte mensagem: "Eu, o Filho de Deus, sou Homem, em debilidade, em sofrimento, mesmo até à morte. Todavia, ainda estou em contato com o Céu de onde vim, e mantenho uma relação com Deus que posso perdoar pecados (Mat. 9:6), e sou superior aos regulamentos religiosos que somente tem significado temporal e nacional. (Mat. 12:8.) Esta natureza humana não cessará quando eu tiver passado por estes últimos períodos de sofrimento e morte que devo suportar para a salvação do homem e para consumar a minha obra. Porque subirei e a levarei comigo ao céu, de onde voltarei para reinar sobre aqueles cuja natureza "tornei sobre mim". A humanidade do Filho de Deus era real e não fictícia Ele nos é descrito como realmente padecendo fome, sede, cansaço, dor, e como estando sujeito em geral às debilidades da natureza, porém sem pecado.

(b) Como? Por qual ato, ou meio, o Filho de Deus veio a ser Filho do homem? Que milagre pôde trazer ao mundo "o segundo homem" que é o "Senhor do céu"? (1 Cor. 15:47.) A resposta é que o Filho de Deus veio ao mundo como Filho do homem sendo concebido no ventre de Maria pelo Espírito Santo, e não por um pai humano. E a qualidade da vida inteira de Jesus está em conformidade com a maneira do seu nascimento. Ele que veio através de um nascimento virginal, viveu uma vida virginal (inteiramente sem pecado) — sendo essa última característica um milagre tão grande como o primeiro. Ele que nasceu milagrosamente, viveu milagrosamente, ressuscitou dentre os mortos milagrosamente e deixou o mundo milagrosamente. Sobre o ato do nascimento virginal está baseada a doutrina da encarnação. (João 1:14.) A seguinte declaração dessa doutrina é da pena do erudito Martin Scott: Como todos os cristãos sabem, a encarnação significa que Deus (isto é, o Filho de Deus) se fez homem. Isso não quer dizer que Deus se tomou homem, nem que Deus cessou de ser Deus e começou a ser homem; mas que, permanecendo como Deus, ele assumiu ou tomou uma natureza nova, a saber, a humana, unindo esta à natureza divina no ser ou na pessoa — Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Na festa das bodas de Caná, a água tornou-se em vinho pela vontade de Jesus Cristo, o Senhor da Criação (João 2:1-11). Não aconteceu assim quando Deus se fez homem, pois em Caná a água deixou de ser água, quando se tornou em vinho, mas Deus continuou sendo Deus, quando se fez homem. Um exemplo que nos poderá ajudar a compreender em que sentido Deus se fez homem, mas ainda não ilustra de maneira perfeita a questão, é aquele de um rei que por sua própria vontade se fizera mendigo. Se um rei poderoso deixasse seu trono e o luxo da corte, e vestisse os trapos de um mendigo, vivesse com mendigos, compartilhasse seus sofrimentos, etc., e isto, para poder melhorar-lhes as condições de vida, diríamos que o rei se fez mendigo, porém ele continuaria se‹ido verdadeiramente rei. Seria correto dizer que o que o mendigo sofreu era o sofrimento de um rei; que, quando o mendigo expiava uma culpa, era o rei que expiava, etc. Visto que Jesus Cristo é Deus e homem, é evidente que Deus, de alguma maneira é homem também. Agora, como é que Deus é homem? Está claro que ele nem sempre foi homem, porque o homem não é eterno, mas Deus o é. Em um certo tempo definido, portanto, Deus se fez homem tomando a natureza humana. Que queremos dizer com a expressão "tomar a natureza humana"? Queremos dizer que o Filho de Deus, permanecendo Deus, tomou outra natureza, a saber, a do homem, e a uniu de tal maneira com a sua, que constituiu uma Pessoa, Jesus Cristo. A encarnação, portanto, significa que o Filho de Deus, verdadeiro Deus desde toda a eternidade, no curso do tempo se fez verdadeiro homem também, em uma Pessoa, Jesus Cristo, constituída de duas naturezas, a humana e a divina. Isso, naturalmente é um mistério. não podemos compreendê-lo, assim como tampouco podemos conceber a própria Trindade. Há mistérios em toda parte. Não podemos compreender como a erva e a água, que alimentam o gado, se transformam em carne e sangue. Uma análise química do leite não demonstra conter ele nenhum ingrediente de sangue, entretanto, o leite materno se torna em sangue e carne da criança. Nem a própria mãe sabe como no seu corpo se produz o leite que dá a seu filho. Nenhum dentre os sábios do mundo pode explicar a conexão existente entre o pensamento e a expressão desse pensamento, ou seja, as palavras. Não devemos, pois, estranhar se não podemos compreender a encarnação de Cristo. Cremos nela porque aquele que a revelou, é o próprio Deus, que não pode enganar nem ser enganado.

(c) Por que o Filho de Deus se fez Filho do homem, ou quais foram os propósitos da encarnação?

1) Como já observamos, o Filho de Deus veio ao mundo para ser o Revelador de Deus. Ele afirmou que as suas obras e suas palavras eram guiadas por Deus (João 5:19, 20; 10:38); sua própria obra evangelizadora foi uma revelação do coração do Pai celestial, e aqueles que criticaram sua obra entre os pecadores demonstraram assim sua falta de harmonia com o espírito do céu. (Luc. 15:1-7.)

2) Ele tomou sobre si nossa natureza humana para glorificá-la e desta maneira adaptá-la a um destino celestial. Por conseguinte, formou um modelo, por assim dizer, pelo qual a natureza humana poderia ser feita à semelhança divina. Ele, o Filho de Deus, se fez Filho do homem, para que os filhos dos homens pudessem ser feitos filhos de Deus (João 1:2), e um dia serem semelhantes a ele (1 João 3:2); até os corpos dos homens serão "conforme o seu corpo glorioso" (Fil. 3:21). "O primeiro homem (Adão), da terra, é terreno: o segundo homem, o Senhor é do céu" (1Cor. 15:47); e assim, "como trouxemos a imagem do terreno (vide Gên. 5:3), assim traremos também a imagem do celestial" (verso 49), porque "o último Adão foi feito em espírito vivificante" (verso 45).


3) Porém, o obstáculo a impedir a perfeição da humanidade era o pecado — o qual, ao princípio, privou Adão da glória da justiça original. Para resgatar-nos da culpa do pecado e de seu poder, o Filho de Deus morreu como sacrifício expiatório.

Conhecendo as Doutrinas da Bíblia
Myer Pearlman





C A P Í T U L O IV
O EVANGELHO SEGUNDO JOÃO
(Caps. 1-6)
Tema. O Evangelho de João é um acêrvo de testemunhos
para provar que Jesus é o Cristo, o Filho do
Deus vivo. Foi escrito por João em resposta a um apêlo
da Igreja — que já possuía outros Evangelhos —
para ter as verdades mais profundas do Evangelho, e
foi escrito com a finalidade de promover a vida espiritual
da Igreja. Contém a substância da pregação de
João à Igreja, essas verdades espirituais que êle havia
recebido do Senhor. O propósito de João neste
Evangelho é apresentar Cristo a todos os cristãos como
o Verbo encarnado de Deus.
Autor. João o apóstolo. Alguns escritores dos
primeiros séculos que merecem a nossa confiança nos
informam que João escreveu o seu Evangelho no fim
do primeiro século, e que era o mesmo substancialmente
a incorporação da sua pregação das verdades mais
profundas que êle tinha aprendido por meio de comunhão
íntima com Cristo.

De todos os apóstolos, era João quem desfrutava
da maior intimidade com o Mestre. Pertencia ao círculo
íntimo que consistia dêle mesmo, Pedro e Tiago,
que tinham o direito exclusivo de estarem presentes
durante as grandes crises de seu ministério, tais
como a transfiguração e a agonia em Getsêmane. Foi
João quem se inclinou sôbre o peito de seu Mestre durante
a Ceia Pascoal; foi êle quem, quando os outros
discípulos tinham fugido, acompanhou ao seu Senhor
ao julgamento (João 18-15). De todos os apóstolos, foi êle o único que esteve ao pé da cruz para receber a
mensagem do Senhor antes de expirar. João 19:25-27.
Essa intimidade e comunhão com o Senhor, juntamente
com meio século de experiências, como pastor e evangelista,
qualificaram-no muito bem para escrever êsse
Evangelho que contém as doutrinas mais espirituais
e sublimes concernentes à pessoa de Cristo.

Para quem foi escrito. Para a Igreja em geral. O
Evangelho de João foi escrito muitos anos depois dos
outros Evangelhos. Êstes últimos, falando em têrmos
gerais, contêm uma mensagem evangélica para os homens
não espirituais; eram Evangelhos missionários.
Depois de terem sido estabelecidas igrejas por meio das
obras dos Apóstolos, veio uma petição dos cristãos em
tôdas as partes que se lhes désse uma declaração das
verdades mais profundas do Evangelho. Para satisfazer
a êsse pedido, João escreveu o seu Evangelho.
É evidente, pelos seguintes fatos, que êste Evangelho
foi, primeiramente, escrito para os cristãos.
1. As doutrinas que contém, concernentes a alguns
dos temas mais profundos do Evangelho — a pré-existência
de Cristo, Sua encarnação, Sua relação ao Pai,
a pessoa e a obra do Espírito Santo — indicam que foi
escrito para um povo espiritual.

2. O escritor presume que aquêles aos quais escreve,
estão familiarizados com os outros três Evangelhos,
porque omite a maioria dos acontecimentos bem
conhecidos da vida do nosso Senhor, exceto naturalmente,
aquêles que se relacionam com a paixão e a
ressurreição, sem os quais, nenhum Evangelho poderia
ser completo.

CONTEÚDO.
I. O Prefácio. 1:1-18.
II. A Revelação de Cristo ao Mundo, por meio das
Suas reivindicações. 1:19.
III. Rejeição das reivindicações. 7:1 a 12:50.
IV. A Manifestação de Cristo a Seus Discípulos.
Caps. 13-17.

V. A Humilhação e Glorificação de Cristo. Caps.
18-21.

I. PREFÁCIO. 1:1-18
1. A manifestação de Cristo na eternidade. 1:1-5.

2. A manifestação de Cristo no tempo. 1:6-18.
Os sinóticos começam sua história, registrando a
origem terrestre de Cristo. Mateus e Lucas registram
o Seu nascimento virginal. João toma em consideração
que os cristãos em tôdas as partes estão familiarizados
com êsses fatos e omitindo o registro da Sua origem
terrestre, descreve a Sua origem celeste. Embora João
não dê um relato direto do nascimento virginal de Cristo,
refere-se indiretamente ao mesmo no versículo 14.
Notem o nome pelo qual João se refere a Cristo o Verbo. Cristo é chamado o Verbo, porque como
nossas palavras são a expressão de nossos pensamentos
caráter, assim Cristo foi a expressão do pensamento
de Deus para nós, de Seu caráter, sim, da Sua própria
essência.
Como recebeu o mundo o seu Criador (v. 10) ? Que
versículo pode chamar-se o mais triste da Bíblia (v.
11)? O que foi dado àqueles que O receberam? A que
acontecimento se refere o versículo 14? (Comp. Fil.
2:6-8). Que disse João que os discípulos receberam?
(v. 16; comp. Col. 1:19; 2:9). Qual o contraste que se
exprime no versículo 17?

II. A MANIFESTAÇÃO DE CRISTO AO MUNDO. 1:19
a 6:71.
1. O testemunho de João Batista. 1:19-34.
2. O testemunho dos primeiros discípulos. 1:35-51.
3. O primeiro milagre e a primeira purificação do
templo. Cap. 2.
4. Entrevista com Nicodemos. 3:1-21.
5. O testemunho de João a seus discípulos. 3:22-
36.
6. O ministério de Jesus em Samaria. 4:1-43.
7. A cura do Filho do oficial do rei. 4:43-54.
8. A cura do homem paralítico, seguido por um
discurso. Cap. 5.
9. Alimentando a multidão; discurso sôbre o Pão
da Vida. Cap. 6.

João, como os demais evangelistas, menciona o
ministério de João Batista. Sendo que o Batista estava
atraindo grandes multidões pelo seu ministério e
estava ministrando um rito, que era novo para a religião
judaica, isto é, o batismo, — as autoridades judaicas
sentiram que era do seu dever investigar as declarações
dêsse novo pregador. Enviaram uma comissão
para interrogá-lo acêrca de sua identidade e autoridade.
Humildemente confessa que êle não passa da “voz
tío que clama no deserto” (1:23); que a sua missão é
igual à dos engenheiros daquêle tempo antes da visita
de um rei oriental; a saber: a preparação dos caminhos
ante êle (1:23); que seu batismo era unicamente pelo Messias (1:26, 27, 33). No dia seguinte, João, como
um verdadeiro ministro do Evangelho, dirigiu a
atenção dos seus ouvintes para Jesus, em vez de atraí-
-los para si mesmo, dizendo: “Eis o cordeiro de Deus
que tira o pecado do mundo”. Em seguida, revela um
dos seus motivos de batizar o Senhor; a saber, para
ter uma revelação da Sua divindade (v. 3).
Não há inveja em João Batista. No dia seguinte,
repete a sua mensagem e anima os seus seguidores a
seguirem a Jesus. Um daquêles que ouviu a mensagem foi André, o irmão de Pedro. O outro cujo nome não
é mencionado pode ter sido o autor do Evangelho, João.
André demonstra a realidade da sua experiência espiritual,
conduzindo seu irmão Pedro ao Messias. Jesus,
vendo nesta última pessoa aquêle que estava destinado
a tornar-se a primeira pedra viva da Sua igreja,
dá-lhe o nome profético de Cefas (1:42). Jesus chama
em seguida a Felipe, o qual com entusiasmo testifica
a Natanael que encontrou o Messias, Jesus de Nazaré.
Natanael quase não pode acreditar que o Messias havia
vindo de Nazaré, aldeia desprezada da Galiléia, mas é
logo convencido por meio do conhecimento sobrenatural
de Jesus, que, Êle realmente é o Rei de Israel.

Um casamento em Caná dá a Jesus a oportunidade
de manifestar o Seu poder. A Sua assistência, a uma
tal Cerimônia prova a Sua disposição de ter relações
com o povo e a santificar tais reuniões por Sua presença.
Neste caso a alegria do casamento estava em perigo,
e o dono da festa ameaçado dum vexame, tendo-se
esgotado o vinho. Maria, conhecendo os poderes milagrosos
de seu Filho, e desejando com seu orgulho natural
de mãe, que Êle os manifestasse, informa-0 de
que não havia mais vinho, sugerindo, por tal informação,
indiretamente, que Êle o suprisse. Jesus ternamente
lembra-lhe que, embora tendo sido sujeito a ela até o tempo do princípio do Seu ministério, as suas relações
agora são outras (2:4). Agora Êle é guiado por
Seu Pai celestial, o qual determina todos os acontecimentos
de Sua vida.

Os judeus tinham permitido que o espírito de comercialismo
violasse a santidade dos recintos do templo,
porque espalhados pelo átrio dos gentios, havia
vendedores de animais para o sacrifício e cambistas de
dinheiro. Tal profanação da casa de Seu Pai faz com
que Jesus expulsasse do templo êsses negociantes. Sendo
que somente um profeta ou o próprio Messias podia purificar o templo, os chefes pediram ao Senhor que
provasse a Sua autoridade por um sinal. Êle lhes dá
o sinal da Sua morte e ressurreição. Mais tarde, as
Suas palavras referentes a êsse sinal foram a base de
uma acusação falsa. Mat. 26:61.

Os milagres de Jesus tinham atraído muitos seguidores
(2:23), mas Jesus não confiava numa fé que
se baseiasse meramente em sinais. Um daquêles que
foi impressionado por Seus milagres era um dos principais
entre os judeus, chamado Nicodemos. Começou a
sua conversação com Jesus reconhecendo que Êle era
um Mestre enviado de Deus. Jesus ignora os elogios e,
inesperadamente, diz a Nicodemos que é necessário nascer
de novo. Parece que Nicodemos estava convencido
de que o reino de Deus proclamado por Jesus estava
prestes a ser inaugurado e, portanto, quis UNIR-SE
a êsse reino. Jesus por conseguinte, lhe explica que
a única maneira de entrar neste reino é ser NASCIDO
nêle. Nicodemos que era da opinião judaica comum,
pensava que o reino viria com grande demonstração exterior.
Jesus mostra-lhe que êle vem pela operação
misteriosa do Espírito no coração (3:8). Nicodemos
era de opinião, como os judeus em geral, que o reino seria inaugurado pela aparição gloriosa do Messias.
Jesus lhe explica que devia ser inaugurado pela morte
do Messias (3:14).

Os discípulos de João Batista, vendo que as multidões
o abandonavam para reunir-se com Jesus, queixam-
se junto ao seu mestre (3:25, 26). João responde
que isto corresponde exatamente ao plano de Deus.
Êle é unicamente o amigo do espôso, quer dizer, aquêle
que, segundo o costume judaico, pede a mão da moça
e prepara as bodas. A sua missão é a de conduzir o
espôso (o Messias) à noiva (a nação judaica) (3:29);
feito isto, a sua missão está terminada (3:30).
O capítulo 4 registra a entrevista de Jesus com uma
mulher de Samaria.
 O Dr. Torrey apresenta um contraste
interessante entre ela e Nicodemos :
Confessou imediatamente Um discípulo secreto
a Jesus
Trouxe uma cidade inteira Trouxe (?) a Cristo,
a Cristo
Uma necessidade comum — o Espírito Santo. João
3:5, 4:14: “Não há diferença”.

O capítulo 5 registra o princípio dos conflitos de
Jesus com os judeus concernente aos Seus direitos divinos.
Censuram-nO por ter curado um homem no dia
de sábado. Êle defende-se afirmando que Deus, Seu
Pai, está associado a Êle na obra de curar no sábado
(5:17). Por essa razão, e porque Êle não fêz nada independente
do Pai (v. 19) foi perfeitamente autorizado
a curar no sábado a humanidade doente. Em seguida
Jesus reclama alguns direitos surpreendentes. Afirma
ser Êle quem ressuscita os mortos (vers. 21-29);
que tem honra igual à do Pai (v. 23); que é Juiz de todos
os homens (vers. 22, 27). Como testemunhas de
Seus direitos Êle aponta a João Batista (v. 33), a Suas
obras (v. 36), ao Pai (v. 37), às Escrituras (v. 39), e a
Moisés (v. 46).
A alimentação da multidão registrada no capítulo
ti marca o ponto máximo da popularidade de Cristo.
O povo está tão convencido de ser Êle o profeta, pelo
qual esperavam por tanto tempo, que procuram fazê-
-lO rei. Mas Jesus recusa essa honra porque não veiu
para reinar, mas sim para morrer (vers. 26-65). Jesus
dá o golpe mortal na Sua popularidade, porque, ao pas-
Uma mulher Um homem
Um judeu
Um mestre de Israel
Veio de noite
Uma samaritana
Uma prostituta
Veio ao meio dia
so que êles crêem que a sua salvação se efetuará por
um Messias glorioso, Êle ensina que seria efetuada pela
morte do Messias. Antes de tudo, Êle censura-os por
buscarem o alimento natural em vez do espiritual (vers.
26, 27). Ao lhe perguntarem que deviam fazer para
obterem êste alimento verdadeiro, Êle respondeu que
deviam crer n’Êle (vers. 28, 29). O povo logo Lhe pede
um sinal para poder crer n’Êle (v. 30), e mencionam
o fato de Moisés ter-lhes dado o maná do céu (v. 31).
Nosso Senhor responde que o maná era simplesmente
um símbolo d’Êle mesmo, o verdadeiro Maná (vers. 32,
33, 35) e que como Israel rejeitou o maná terrestre,
assim rejeitou também o celestial (v. 36). Mas embora
a nação, em geral, O tenha rejeitado, há um remanescente
fiel que virá a Êle (v. 37), e êsse remanescente
Êle não lançará fora, porque é a vontade do Pai
dar-lhe vida eterna (vers. 38-40). Os judeus murmuram
ao ver que o Filho de um carpinteiro declara ter
vindo do céu (vers. 42). Jesus lhes diz que uma revelação
divina é necessária para convencê-los da Sua
divindade (vers. 44, 45). Logo em seguida declara-lhes
como podem obter a vida eterna — comendo a Sua carne
e bebendo o Seu sangue, isto é, crendo n’Êle comõ
a expiação dos seus pecados. Os judeus não compreendem
essa linguagem figurada; tomam-na literalmente
(vers. 52, 60). Jesus então lhes diz que as Suas palavras
não devem ser tomadas literalmente, mas de modo espiritual (v. 63). Notem o resultado dêsse discurso
— um exame nos discípulos de Jesus (vers. 60-71).

III. REJEIÇÃO DAS REIVINDICAÇÕES DE CRISTO
(Caps. 7:1 a 12:50)
1. Jesus na Festa dos Tabernáculos (cap. 7).
2. A mulher adúltera. 8:1-11.
3. Discursos sôbre a Luz do Mundo e a liberdade
espiritual. 8:12-59.
4. A cura de um cego de nascença (cap. 9).
5. O discurso do Bom Pastor. 10:1-21.
6. Jesus na Festa da Dedicação. 10:22-42.
7. A ressurreição de Lázaro. 11:1-46.
8. A rejeição final de Cristo pela nação. 11:47 a
12:50.

Os irmãos de Jesus pedem-Lhe que assista à Festa
dos Tabernáculos e manifeste as Suas obras ante o povo,
porque êles raciocinam que se dè fato Êle é o Messias,
deve fazer uma proclamação pública de Seus direitos
em vez de permanecer numa aldeia insignificante
da Galiléia (7:1-5). Até então êles não criam que Êle
era de fato o que pretendia ser, mas o tempo veiu em que
creram. Atos 1:14. Jesus responde que a hora em que
Êle tem que ir a Jerusalém, não chegou ainda. Mais
tarde Êle foi à festa, em oculto, (7:10), para poder evitar
as caravanas de peregrinos galileus que O reconheceriam
e talvez fariam uma demonstração pública.
Quando Jesus começa a ensinar no templo, o povo
admira-se de Suas pregações, porque êles sabem que não
tinha freqüentado as suas escolas de teologia (7:15).
Jesus explica que o Seu ensino vem diretamente de
Deus (v. 16) e se alguém está realmente disposto a fazer
a vontade de Deus, verificará o Seu ensino como verdadeiro.
Depois defende a Sua sinceridade, demonstrando
que não busca a Sua própria glória (v. 18).
Olhando no coração dêles, vê o seu ódio para com Êle
e acusa-os de violarem a Lei de Moisés (v. 19). Em seguida
defende o ato da cura de um homem no dia de
sábado (vers. 21-24; comp. Cap. 5). Ao ouvirem Jesus
falar tão ousadamente, alguns do povo pensam que possivelmente
os chefes O aceitem como o Cristo (v. 26).

Outros não podem crer que seja o Messias porque conhecem
o lugar da Sua residência e Seus pais (v. 27).
Jesus reconhece que sabem estas coisas, mas replica que
ignoram o fato de que foi enviado por Deus (v. 28).
Alguns, recordando os milagres de Jesus, inclinam-se
a crer que é o Messias (v. 31). Os fariseus, ao ouvirem
isto, mandam oficiais que O prendem (v. 32). Agora
Jesus lhes diz que o seu desêjo de livrar-se d’Êle logo
será cumprido (v. 33); mas que virá o tempo em que
buscarão um libertador e não encontrarão nenhum (v.
34). Durante a Festa dos Tabernáculos era costume
dos sacerdotes irem ao tanque de Siloé e tirar água
num cântaro de ouro, cantando ao mesmo tempo Isaías
12. A água então era derramada sôbre o altar. Isso
era considerado como uma comemoração da água dada
no deserto, e era simbólico do derramamento futuro
do Espírito sôbre Israel. Provavelmente, foi nêsse ponto que Jesus Se proclamou
como a Fonte das águas vivas, a Rocha ferida
da qual o mundo inteiro pode beber (vers. 37-39). Ao
ouvirem isto, muitos reconheceram que Êle era o Messias
(v. 40), mas outros objetaram que Êle não o podia
ser por ter vindo da Galiléia. Os oficiais do tempol,
impressionados e intimidados por Suas palavras majestosas,
não O prenderam (v. 46). Os fariseus censuram-
-nos dizendo que nenhum dos principais acreditou n’Êle,
mas somente o povo ignorante (vers. 47-50). Neste ponto
Nicodemos defende o Senhor, e logo os fariseus afirmam
colèricamente que segundo as Escrituras nenhum
profeta viria da Galiléia (7:52). Isto não era certo, porque
tanto Jonas como Elias eram daquela região.

Os escribas e fariseus trazem à presença de Jesus
uma mulher apanhada em adultério e perguntam-Lhe
se não deveria ser castigada com a pena imposta pela
Lei de Moisés. Era uma tentativa para pôr o Senhor
num dilema. Se Êle ordenasse que a mulher fôsse liberta,
isso seria uma contradição da Sua declaração de
que não tinha vindo para destruir, mas sim para cumprir
a Lei de Moisés. Mat. 5:17. Se dissese que a mulher
deveria ser apedrejada de acôrdo com a Lei, pode ria ser considerado uma contradição de Sua declaração
que não tinha vindo para julgar, mas, sim, para salvar
os pecadores. Nosso Senhor resolve a questão transferindo
o caso para a côrte da consciência. Nessa côrte,
seus inquiridores descobrem que “todos pecaram e estão
destituídos da glória de Deus”.

Jesus proclama-Se em seguida a Luz do mundo —
um direito verdadeiramente divino (8:12). Os fariseus
objetam de que o Seu próprio testemunho não prova a
verdade de Suas pretensões (v. 13). Jesus responde que
Êle pode dar testemunho de Si mesmo, porque tem um
conhecimento perfeito da Sua origem e natureza divinas
(v. 14). Refere-se em seguida ao testemunho de Seu
Pai (v. 18), isto é, aos milagres pelos quais Deus confirmou
a palavra de Seu Filho. Jesus então acusa os
fariseus de ignorância acêrca do Pai (v. 19). Apesar de
o rejeitarem, dia virá quando buscarão um Messias (v.
21) e não O encontrarão. Diz-lhes que, depois de Sua
crucificação e ressurreição, quando o Espírito será derramado
e obras poderosas realizadas em Seu nome, então
êles terão provas em abundância da Sua divindade
(v. 28).
Essas declarações fizeram com que muitos do povo
cressem n’Êle (8:30), mas Jesus, vendo a fraqueza da
sua fé, exorta-os a continuarem em Sua instrução, instrução
que os libertará completamente do pecado (vers.
31, 32). Alguns dos discípulos escandalizam-se com isso,
porque como judeus consideravam-se homens livres,
(v. 33). Jesus explica que a servidão à qual se referiu,
é a servidão do pecado (vers. 34-37). Êle lhes mostra
que não são semente de Abraão, porque não executam
as obras de Abraão, isto é, obras da fé (vers. 37-40).
Prova a falsidade da pretensão de serem filhos de Deus
(v. 42). Diz-lhes que a sua repugnância à verdade e o
ódio em seus corações mostram que são filhos do diabo
(v. 44). Desafia-os a ou convencê-lO do pecado ou então
crerem em Seus direitos (v. 46). Em conseqüência da Sua promessa de isenção da morte espiritual para aquêles que crêem n’Êle, é acusado de exaltar-Se snbre
Abraão (v. 53). Jesus responde que Abraão previu a
Sua vinda (v. 56). Esta declaração surpreende os Judeus
que não podem compreender como Êle e Abraão
se podem conhecer (v. 57). Jesus afirma então a Sua
pre-existência (v. 58). Os judeus entendem que isto é
uma pretensão de igualar-se à Divindade e procuram
apedrejá-lO como um blasfemador (v. 59).

A cura de um cego por Jesus num sábado ocasiona
novamente o ódio dos chefes. Depois de uma tentativa
de provarem que Jesus é um pecador, são confundidos
pelos argumentos de um pobre homem sem instrução,
que foi curado (cap. 9).

Provàvelmente, para mostrar o contraste entre os
falsos pastores que expulsaram o homem da sinagoga
e os pastores verdadeiros, Jesus pronuncia o discurso
registrado em 10:1-21 (Leia Ezequiel cap. 34). Nos vers.
1, 2 refere-se aos verdadeiros pastores que entram no
redil por meio d’Êle mesmo, que é a porta, referindo-se
àqueles que têm uma vocação divina. Nos versículos
8, 9, 12, Jesus refere-se evidentemente aos messias e
profetas falsos, que enganaram o povo e causaram a
sua destruição.

Na Festa da Dedicação, os judeus perguntam a Jesus
se Êle é o Cristo (8:23, 24). Jesus responde que as
Suas obras e palavras provam que Êle é o Cristo (v. 25).
mas que êles não tinham crido, porque não pertenciam
ao Seu rebanho; não obedeceram à voz do Pastor Divino
(vers. 26, 27). Jesus descreve em seguida a segurança das
Suas ovelhas, e termina com uma declaração de ser
Êle um com Deus (v. 30). Os judeus procuram apedrejá-
lo por dizer que era igual a Deus. Jesus justifica o
Seu direito de chamar-se Filho de Deus por meio de
uma citação do Velho Testamento. Êle afirma que naquêles
dias os príncipes e juizes às vêzes eram chama dos deuses (vers. 34, 35; Sal. 82:6). Assim, pois, se
juizes injustos, representantes temporários de Deus, foram
chamados deuses, por que Êle, o Juiz justo e eterno,
não podia ser chamado Filho de Deus? (v. 36). Êle
diz que êles não precisam crer n’Êle se as Suas obras
não forem divinas (vs. 37. 38).

A sensação causada pela ressurreição de Lázaro
(cap. 11) reune os sacerdotes e fariseus num concilio
com o propósito de determinar a morte de Jesus (11:47).
Caiafás deseja libertar-se de Jesus por razões políticas.
Argumenta que, se fôr permitido a Jesus continuar o
Seu ministério, a Sua popularidade causará um tumulto
popular que despertará as suspeitas dos romanos e resultará
na perda do poder e ofício dos regentes e em calamidade
para a nação. Assim sendo, êle argumenta:
é melhor que um só homem sofra, em lugar de uma nação
inteira (vers. 49, 50). Isto é o que êle quer dizer
por suas palavras, no versículo 50, mas Deus lhe conferiu
o significado de profécia da morte expiatória do
Messias (vers. 51, 52).

O capítulo 12, registra dois acontecimentos mencionados
pelos outros Evangelistas: a unção de Jesus e
a entrada triunfal. Durante a Festa da Páscoa, uma
petição de alguns gentios que desejam vê-LO (12:20),
evoca uma profecia da Sua morte, que traria a salvação
ao mundo gentílico (v. 24). Depois Êle marca o caminho
que os Seus discípulos deviam seguir — o da abnegação
e até da morte (vers. 25, 26). Embora a idéia de uma
morte vergonhosa Lhe seja extremamente repulsiva,
Ele não recua (v. 27). Anuncia que a Sua morte será
o juízo do mundo (v. 31), a derrota de Satanás (v. 31),
e o meio de atrair a humanidade enfêrma do pecado
(v. 32). O capítulo 12:37-41 registra o resultado geral
do ministério de Cristo a Israel — rejeição da luz, seguida
por cegueira espiritual da sua parte. Os últimos
versículos dêste capítulo contêm o último apêlo
de Jesus à nação.

MYER PEARLMAN
ATRA V ES DA BIBLIA

L I V R O P O R L I V R O



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