quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Lição 13 - O Poder Tirânico da Indústria Cultural




TEXTO BÍBLICO BÁSICO
Romanos 12.1-3
1 - Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis o vosso corpo em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.
2 - E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
3 - Porque, pela graça que me é dada, digo a cada um dentre vós que não saiba mais do que convém saber, mas que saiba com temperança, conforme a medida da fé que Deus repartiu a cada um.

                                                      TEXTO ÁUREO
Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus. 1 Co 10.31

                                     ORIENTAÇÕES PEDAGÓGICAS

Prezado professor,

A indústria cultural tem se mostrado bastante contrária ao evangelho em quase todas as suas produções. Na verdade, isto é uma forma sutil de trazer oposição aos valores bíblicos, espalhando a sua mensagem anticristã.
Nesta aula, você deve aproveitar para revelar os processos realizados pela indústria da cultura; mostrar quais os desafios que existem e como o cristão deve posicionar-se para vencê-los.
Não deixe de ver com os seus alunos as questões relacionadas com as mídias sociais, compartilhando com eles como devem lidar responsavelmente com essas mídias, tendo sabedoria e discernimento em usá-las, com posturas cuidadosas de um servo de Deus.
Tenha uma ótima aula!



                                            Palavra introdutória
Após a Segunda Guerra Mundial, o mundo entrou em uma nova fase, com a expansão nos âmbitos social, político, econômico, cultural e religioso. A partir de 1950, o mundo sofreu diversas mudanças; a globalização surgiu integrando os povos em todo o planeta, criando o que o filósofo canadense Herbert McLuhan chamou de aldeia global.
O comércio, unido ao progresso tecnológico, atingiu o maior grau da história. O ambiente onde isso ocorreu foi o das mídias eletrônicas e sociais — o jornal; o rádio, especialmente; a televisão;
e, mais tarde, a internet —, que geraram uma ampla estrutura lobal de compra e venda de conhecimentos, dados, normatização de modelos culturais, coisificação de pessoas e extinção dos obstáculos étnicos e geográficos em prol de um comércio organizado e voraz.
As mídias eletrônicas e sociais têm causado grande impacto no mundo. Nesta lição, será visto como a indústria cultural tem trabalhado por meio das mídias sociais; o quanto têm sido influentes na sociedade atual; e como o cristão deve lidar com isso.


1. O QUE É INDÚSTRIA CULTURAL
1.1. Significado e origem
A expressão indústria cultural foi criada pelos filósofos alemães, Max Horkheimer e Theodor Adorno, intelectuais da Escola de Frankfurt, na Alemanha. O termo surgiu na década de 40, com o livro “Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos”.

O consumidor não é soberano, como a indústria cultural quer fazer crer, não é o seu sujeito, mas o seu objeto (Theodor Adorno).


1.2. Bens culturais iguais a bens de consumo
Os dois pensadores descobriram que várias empresas, querendo ampliar os seus negócios e rendimentos, desejavam transformar em produtos não apenas os bens de consumo — carro, telefone, televisão, casas, móveis etc. —, mas igualmente os bens culturais — música, dança, poesia, pintura, escultura, teatro, cinema etc. O propósito maior era o consumo em massa, e, logicamente, o lucro expressivo.
Para tanto, eles entenderam que devia ser criado um universo fascinante, onde aqueles com mais posses, e os de poucos recursos, pudessem ter acesso às atividades culturais.

1.3. A indústria cultural e a cultura de massa
Um aspecto muito utilizado na indústria cultural foi o que os meios de comunicação fizeram, como instrumentos de propaganda. Eles foram os motivadores da fé na liberdade individual, onde houve o estímulo pela satisfação do consumo.
Assim, não é o indivíduo que faz a opção do que quer ler, ouvir, assistir e ver, mas, sim, a indústria cultural, que age por ele, teleguiando-o. Isto é feito por meio das mídias sociais e daqueles que fazem a propaganda.
Assim, para uma peça de vestuário ser vendida e usada, encontra-se um lindo e prestigiado artista para mostrar aquela roupa.
O simples consumo de uma marca não trará a beleza, o sucesso e a juventude, prometidas pela propaganda ao consumir certo produto. Portanto, provoca-se a ilusão no consumidor, mantendo-o em um círculo vicioso de acomodação e de expectativas que não se concretizarão.
Todavia, nem tudo é negativo na indústria cultural. Para Walter Benjamin, filósofo judeu alemão, na primeira metade do século 20, o consumo exagerado dos artigos culturais se transformava em um caminho de popularização da arte, porque ele poderia levar cultura para muitas pessoas.

A expressão indústria cultural foi concebida para indicar a forma de elaborar e divulgar a cultura no período capitalista
industrial, relacionado a uma experiência de controle
ideológico generalizado, caracterizado por formas de
produção que desejavam, principalmente, o lucro de
grupos empresariais.


1.4. Felicidade humana é igual à compra de certos produtos?
Neste círculo vicioso, o ser humano acaba psicologicamente persuadido pela multidão e, assim, faz coisas só porque outras pessoas fazem e gosta de coisas só porque outras pessoas gostam.
Todavia, essa ideia de que todos fazem e todos gostam é falsa, pois é gerenciada pela indústria cultural.
Desse modo, Horkheimer e Adorno entenderam a chance de equiparar grupos e classes sociais, fazendo com que pessoas de todos os lugares, origens e idades padronizassem as suas preferências em música, arte, vestuário etc. Dessa forma, agregaram a felicidade à aquisição dos artigos de certas marcas que eram vendidas. Este é um aspecto que pode ser visto em peças publicitárias da televisão, onde são oferecidos produtos para sentir-se bem, feliz ou amado.
A finalidade mais perversa da indústria cultural é transformar o ser humano em produto — paralisado e alienado. A indústria cultural quer remover o espírito crítico da pessoa, para ela comprar mais e com mais facilidade. A indústria não leva o indivíduo a avaliar a propaganda, nem a questionar se o produto é necessário, se é bom, como ele foi feito e se o preço é compatível com a sua realidade. A indústria cultural quer somente que a pessoa consuma e seja feliz com isso.


2. O CRISTÃO E AS MÍDIAS SOCIAIS
Considerando que, atualmente, o ambiente social tem vivido novos relacionamentos, com a utilização das mídias sociais, o cristão não pode ficar apático a essa realidade, sob pena de ficar alienado. Por isso, é preciso entender como usar essas mídias para a glória de Deus.


2.1. Mídias sociais e culturais e o perigo para a família cristã
A internet é, hoje, um universo amplo; é impossível medir a magnitude de seu alcance. Porém, há nela uma imensa quantidade de produções culturais que agridem a moral e a família.
De repente, o adulto é capaz de evitar um produto específico;
entretanto, o maior perigo ocorre com as crianças expostas ao apelo visual e sonoro, aos personagens e às mensagens que estão embutidas. Por exemplo: se as crianças forem expostas à televisão ou à internet, sem ter a supervisão de um adulto responsável, existe a possibilidade de perdê-las para os padrões satânicos do mundo que, como diz 1 João 5.19, jaz no maligno (ARA).


2.2. O vício nas mídias sociais
O vício em mídias sociais é atualmente uma realidade. Um dos estudos sobre o vício foi feito pela universidade de Chicago, que viu a rotina de 205 pessoas em redes sociais por sete dias. Os investigadores concluíram que enfrentar as tentações do Facebook e Twitter é mais complicado do que evitar o álcool e o cigarro.
Esse vício é forte e resistente como o da dependência química.
Como um viciado em drogas, que com o passar do tempo vai necessitar de doses cada vez mais fortes de uma mesma substância para conseguir alcançar o mesmo efeito tóxico do início, o viciado em Facebook, por exemplo, igualmente, precisa se expor e consultar o que os amigos escreveram, cada vez mais frequentemente, para saciar a sua curiosidade e orgulho.


2.3. As consequências do vício em mídias sociais
A dependência em redes sociais tem consequências difíceis de serem ignoradas. O dependente das redes sociais pode apresentar vários tipos de disfunções psicológicas, como mostra o resultado de diversas pesquisas. O vício, entre outras coisas, pode ocasionar estresse, insônia, dificuldades de atenção e aprendizagem.
Assim como outros vícios, pode haver crise de abstinência, com sintomas de ansiedade, acessos de raiva, suores e até mesmo depressão, quando existe afastamento das redes sociais. O viciado em mídias sociais pode ter palpitações só em pensar na possibilidade de ficar sem acesso à internet, ou sem computador ou celular.
A questão do vício em redes sociais e suas consequências já se tornou tão séria, que existem programas de dependência de internet na área de psiquiatria e psicologia, inclusive no Brasil, com profissionais se especializando para trabalhar nesse campo.


3. PÓS-MODERNIDADE, INDÚSTRIA CULTURAL E O CRISTÃO
A sociedade mundial vive a época da pós-modernidade. Esse é um período que se identifica pela dissolução de conteúdos morais e éticos. O que se crê, ou o que se aprendeu com os antepassados, não é mais tão importante. O que conta agora em um conteúdo é se ele agrada a maioria; se vende; e se produz lucros.


3.1. O significado de pós-modernidade
A pós-modernidade é um conceito que retrata o sistema sociocultural predominante, a partir do fim dos anos 1980, marcado pela falência da antiga União Soviética, pela queda do Muro de Berlim (1989) e pelo conflito das ideologias na sociedade ocidental.
A pós-modernidade representa o ambiente em que o sistema pós-moderno está estabelecido, representado pela globalização e pelo controle da sociedade capitalista.
A pós-modernidade é, sobretudo, uma reprovação da modernidade e de suas concepções. Como proposição alternativa, aponta novas propostas — a multiplicidade, a subjetividade e o multiculturalismo.


3.2. O pensamento da pós-modernidade
Alguém que muito lidou com a questão da pós-modernidade foi o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Ele denominou o tempo atual de modernidade líquida, onde coisa alguma existe para ser durável. Os gostos, a estética, os artigos que são adquiridos; enfim, tudo tem prazo de validade — e, geralmente, é curto. Aquilo que no ano passado era belo, hoje está ultrapassado e tem que ser trocado. Isso igualmente acontece nos relacionamentos interpessoais, religiosos e de trabalho. Segundo Bauman, os relacionamentos sociais na pós-modernidade são breves: assim como são rapidamente construídos, também são desfeitos com facilidade. As relações cultivadas por mídias sociais na internet são uma boa amostra do princípio da fluência dos relacionamentos atuais.

3.3. A postura do cristão em relação à indústria cultural
Diante da realidade da indústria cultural, o cristão precisa ter posturas pautadas na Bíblia. Ele deve ser cauteloso com as informações que chegam — e isso implica não aceitar o que é apresentado sem uma visão crítica, sem questionar a validade e os propósitos das informações e ofertas, pois, mesmo que não pareça, são artigos de consumo. Ele deve lembrar-se do que Paulo disse e colocar suas instruções em prática: Examinai tudo. Retende o bem (1 Ts 5.21).
O cristão precisa ter em mente que a Bíblia é a sua regra de fé e prática. Ela deve ser o seu padrão em julgar o que é bom ou mau. Além disso, o servo de Deus tem o Espírito Santo para orientá-lo nesses aspectos, bem como uma mente transformada (1 Co 2.16). O cristão vive na contramão do mundo; ele não deve ajustar-se ao que o mundo quer impor; ele não deve desejar o manjar do rei (Dn 1.1-8), mas buscar e pensar nas coisas que são do alto (Cl 3.1-3).
Com relação à indústria cultural, o cristão deve orientar sua família e selecionar conteúdos que a edifiquem espiritual, intelectual, cultural e psicologicamente. A advertência de Paulo precisa ser praticada o tempo todo: tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama... nisso pensai (Fp 4.8).


CONCLUSÃO
O cristão deve seguir o conselho bíblico de Paulo, em Romanos 12.2, e não aceitar o mundo e seus valores, com as ações e influências do pós-modernismo, representados pela indústria cultural em suas múltiplas manifestações. Além disso, deve utilizar com sabedoria e testemunho as mídias sociais, transformando-se e renovando-se com o entendimento e a ação do Evangelho.

ATIVIDADE PARA FIXAÇÃO 
1. Que atitude o cristão deve tomar para não aceitar os valores do mundo?

CONCLUSÃO
O teísmo cristão é a única cosmovisão ou filosofia verdadeira.
Qualquer outra não passa de tradição de homens, conforme disse Paulo (Gl 1.8,9). Jesus também deixou claro que só Ele é o caminho, e a verdade e a vida (Jo 14.6). Nesse sentido, o verdadeiro cristianismo é excludente, porque não há neutralidade, não há qualquer alternativa. Como ensinado no livro de Gênesis, capítulo 3, todas as falsas filosofias e heresias são resultantes da queda do homem no jardim do Éden. Devido a esse tremendo acontecimento, o homem ficou alienado do Deus das Escrituras, passando a ser o responsável pela construção das inúmeras falsas concepções que têm surgido no transcurso da história da humanidade.
Toda pessoa realmente convertida ao Senhor Jesus, pelo sangue da Nova Aliança, tem a responsabilidade de ser um defensor da verdade do teísmo cristão contra todas as cosmovisões e filosofias do engano (1 Pe 3.15).

Que o Espírito Eterno, em sua incomensurável sabedoria, faça uso desta lição como um auxílio a nós nesta urgentíssima tarefa.


 Lições da Palavra de Deus nº 56 - 4º Trimestre de 2018 - 

Tema: Questões da atualidade - Instruções para a igreja em tempos de crise - Editora: Central Gospel


                    Conceito de Indústria Cultural em Adorno e Horkheimer


A indústria cultural, segundo Adorno e Horkheimer, possui padrões que se repetem com a intenção de formar uma estética ou percepção comum voltada ao consumismo.


Apesar de a Indústria Cultural ser um fator primordial na formação de consciência coletiva nas sociedades massificadas, nem de longe seus produtos são artísticos. Isso porque esses produtos não mais representam um tipo de classe (superior ou inferior, dominantes e dominados), mas são exclusivamente dependentes do mercado.
Essa visão permite compreender de que forma age a Indústria Cultural. Oferecendo produtos que promovem uma satisfação compensatória e efêmera, que agrada aos indivíduos, ela impõe-se sobre estes, submetendo-os a seu monopólio e tornando-os acríticos (já que seus produtos são adquiridos consensualmente).

Camuflando as forças de classes, a Indústria Cultural apresenta-se como único poder de dominação e difusão de uma cultura de subserviência. Ela torna-se o guia que orienta os indivíduos em um mundo caótico e que por isso desativa, desarticula, qualquer revolta contra seu sistema. Isso quer dizer que a pseudo felicidade ou satisfação promovida pela Indústria Cultural acaba por desmobilizar ou impedir qualquer mobilização crítica que, de alguma forma, fora o papel principal da arte (como no Renascimento, por exemplo). Ela transforma os indivíduos em seu objeto e não permite a formação de uma autonomia consciente.
Englobando a sociedade como um todo, com um pequeno número de evasão, é quase impossível romper com tal sistema produtivo. Aqueles que se submetem a esse modelo de indústria nada mais fazem que falar de modo diferente a mesma coisa. Porém, uma certa crítica ainda pode ser vista naqueles que fomentam um tipo de arte que produz efeitos estéticos fora da padronização oferecida pela indústria. Mesmo assim, é uma tentativa que fica à margem do sistema porque não agrada àquelas consciências acostumadas com um modelo estandardizado.

O próprio Adorno, como um dos integrantes da Escola de Frankfurt, onde foi desenvolvida a Teoria Crítica, construiu um tipo de música calculada nos moldes das músicas clássicas e eruditas, mas com uma melodia aparentemente horripilante aos ouvidos acostumados aos acordes da música clássica tradicional (leia-se burguesa). Sua pretensão é justamente desacostumar a percepção daquela noção tradicional de ordem e harmonia (já que sua música só parece desarmônica, mas na verdade é totalmente ordenada e arranjada – dodecafônica) prevalecente na cultura burguesa vigente à época.
Para Adorno e Horkheimer, Indústria Cultural distingue-se de cultura de massa. Esta é oriunda do povo, das suas regionalizações, costumes e sem a pretensão de ser comercializada, enquanto que aquela possui padrões que sempre se repetem com a finalidade de formar uma estética ou percepção comum voltada ao consumismo. E embora a arte clássica, erudita, também pudesse ser distinta da popular e da comercial, sua origem não tem uma primeira intenção de ser comercializada e nem surge espontaneamente, mas é trabalhada tecnicamente e possui uma originalidade incomum – depois pode ser estandardizada, reproduzida e comercializada segundo os interesses da Indústria Cultural.
Assim, segundo a visão desses autores, é praticamente impossível fugir desse modelo, mas deveríamos buscar fontes alternativas de arte e de produção cultural, que, ainda que sejam utilizadas pela indústria, promovessem o mínimo de conscientização possível.

Por João Francisco P. Cabral
Colaborador Brasil Escola


 Imagem relacionada

             A indústria cultural evangélica

                                                             *EDUARDO GUILHERME DE MOURA PAEGLE
  
  Resumo: O presente artigo tem o objetivo de discutir de que forma ocorreu a formação da indústria cultural evangélica, bem como as suas características que são consideradas as mais significativas. Para a referida análise utiliza-se a pesquisa de campo que realizou em São Paulo, na Expocristã, uma feira de produtos e serviços evangélicos.
Palavras-chaves: Indústria cultural , bens simbólicos e evangélicos.

                                                          Introdução
  
O crescimento numérico e a visibilidade alcançada pelos evangélicos brasileiros, principalmente nas duas últimas décadas, tem atraído a atenção tanto dos estudiosos da religião quanto do mercado religioso, ávido pela demanda que esse expressivo segmento tem proporcionado. Como resultado desse fenômeno religioso facilmente observável, chamamos a atenção pelas formas pelos quais esse processo ocorreu e como uma demanda religiosa propiciou a formação de uma expressiva demanda dos evangélicos para adquirir bens e serviços ligados a sua religiosidade. Assim, a formação de uma indústria cultural evangélica no Brasil é um dos fenômenos mais evidentes desse processo, conforme trabalhamos neste artigo.

A formação de uma indústria cultural evangélica brasileira
  
  Para o início deste artigo, cabe-nos compreender as características essenciais que compõe uma indústria cultural. Pierre Bourdieu listou três características que considerou fundamental para a constituição de uma indústria cultural, que são, a saber:

1) A constituição de bens simbólicos com fluxos cada vez mais intensos;
 2) A formação de um corpo burocrático com a especialização do trabalho proporcionado pelos      *  Doutorando no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).  Bolsista da Capes. produtores e empresários simbólicos;
3) A existência de inúmeros atores que competem entre si na busca pela legitimidade cultural, num modelo concorrencial (BOURDIEU, 2005:99-181). Analisemos inicialmente as características apontadas por Pierre Bourdieu referentes à Indústria cultural, considerando os evangélicos brasileiros como elementos da pesquisa. A primeira característica aponta justamente para intensificação do consumo, sejam de bens e/ou de produtos que são adquiridos e assimilados. A sociedade capitalista colocou a cultura do consumo como o seu pilar básico, aonde a aquisição de bens e serviços deve originar uma vasta acumulação de capitais, de forma mais rápida possível (FEATHERSTONE, 1995:31). Considerando que as mercadorias criam vínculos e sinais de pertencimento, claro que os evangélicos também buscam consumir bens simbólicos que exemplificam a sua pertença à comunidade de fé que congregam (FEATHERSTONE, 1995:31). O fato dos evangélicos consumirem cada vez mais bens simbólicos reflete também o seu crescimento numérico tanto percentual como em números absolutos, já que no Brasil, os evangélicos passaram de 4.833.106 (5,2%)  em 1970 para 26.452.174 (15,6%)  em 2000 (CUNHA, 2007:50). Ou seja, em apenas três décadas, os evangélicos brasileiros triplicaram percentualmente e quase multiplicaram por seis em números absolutos o seu crescimento. Isso significa dizer que neste intervalo de tempo, criou-se um expressivo contingente populacional que representou em grande medida uma primeira geração de evangélicos que convertidos a um novo segmento religioso que tendem a romper os antigos laços religiosos e buscam a constituição de um novo pertencimento evangélico, que passa também pelo consumo de bens simbólicos identificados com essa expressão religiosa. Na medida em que os evangélicos cresceram, eles também foram cada vez mais segmentados. Gedeon Alencar lembra-nos de citar os Atletas de Cristo para os esportistas evangélicos; a Adhonep, para os empresários; os Peões de Cristo, para os boiadeiros; os Médicos de Cristo; a Associação de militares evangélicos e a Associação de Funcionários Públicos evangélicos (ALENCAR, 2005:130). Poderíamos citar inúmeros outros. O importante foi que de fato, o crescimento e a segmentação, permitiu a constituição dos  novos nichos do mercado gospel brasileiro. Magali Cunha lembra-nos que para os evangélicos “o mercado, portanto, funciona como pano de fundo para algo que é considerado maior: o cultivo da fé.” (CUNHA, 2007:140). Neste sentido, as empresas que trabalham com um público evangélico precisam adotar estratégias que asseguram a reprodução dos capitais para os clientes evangélicos. Para se ter uma idéia da dimensão deste mercado, a indústria e os serviços para o público cristão movimentam mais de R$ 1 bilhão por ano no Brasil. Fizemos uma pesquisa numa feira evangélica chamada “Expocristã”, que ocorre anualmente. No ano de 2010, a “Expocristã” aconteceu entre os dias 07-12 de setembro, na Expo Center Norte, na cidade de São Paulo, sendo que nos três primeiros dias, o evento foi exclusivo para líderes e lojistas e os outros três, foram abertos para o público. Ao se referir ao evento, à pesquisadora Magali Cunha afirmara que:
Visitar a Expocristã é respirar cultura gospel.Stands com uma variedade de oferta de produtos (livros, revistas, outros impressos, CDs, vídeos, CD-ROM, roupas e objetos de uso pessoal, cosméticos, objetos rituais, produtos alimentícios, brinquedos, material escolar e de papelaria, instrumentos musicais, equipamentos eletrônicos) e serviços (seguradoras,bancos, cartões de crédito,gráficas, empresas de turismo, buffets para festa e outros), tudo leva a marca “gospel”,”cristão”,”evangélico”,”Jesus” ou alguma outra expressão religiosa no hebraico ou grego. Eventos paralelos tais como cultos, palestras sobre temas relacionados a marketing pessoal e institucional, espetáculos musicais também acontecem. (CUNHA, 2007:140).

A referida feira, sem dúvida, tronou-se um importante atrativo e elemento estratégico para alavancar e intensificar os fluxos comerciais, tendo como público-alvo, os evangélicos. Nas palavras de Eduardo Berzin, organizador da feira, “a EXPOCRISTÃ é a celebração da fé. Ela une pastores, distribuidores, lojistas e público final num único espaço. Promove ferramentas para pastores e líderes.Treina,aprimora e movimenta todo um segmento.” (BERZIN, 2010:4).  A própria organização do Guia oficial da Expocristã estava segmentados em vários itens, incluindo as áreas de serviço (utilidade pública do evento que incluíam guarda-volumes, seção de achados e perdidos,informações de transporte para chegar ao evento, identificação de crianças  e atendimento médico no evento), teologia (livros da área),Bíblias, devocionais, biografias, tecnologia(serviços como por exemplo, de informatização da igreja na Internet), arte e cultura (escolas de artes e produtoras de filmes), turismo (locais de acampamentos e excursões), música e sonorização (gravadoras),agenda e pocket show e a lista dos expositores. Nessa altura, já deve estar claro que a intensificação dos fluxos comerciais, no caso analisado dos evangélicos, se relaciona com a formação dos produtores de bens simbólicos.  O capital religioso opera entre a demanda religiosa (os interesses dos leigos) e a oferta (BOURDIEU, 2005:57).  O fato dos evangélicos brasileiros terem crescido e se segmentado exigem uma oferta que supra essas necessidades. No sentido econômico, os diferentes produtos ofertados, na Expocristã, por exemplo, visam atender a demanda religiosa existente.  Neste sentido, os produtores simbólicos não seriam “apenas” os pastores, os bispos e as lideranças hierarquicamente constituídas, mas podem ser também um autor de um livro, o lojista, o dono de uma gravadora e/ou editora, mesmo um cantor (a) gospel. Existe toda uma especialização de trabalho para atender uma demanda específica. O fiel/consumidor pode fechar um pacote turístico para a Terra Santa com um agente de turismo, pode comprar um Cd do seu cantor preferido, assistir a um DVD do testemunho de um pregador ou mesmo consumir um boné que contenha versículos bíblicos, atingindo diferentes demanda criadas pelos consumidores e pela segmentação destes. O consumo a um produto e/ou serviço específico pode ser visto como sinal de pertencimento e de identificação com uma determinada fé. Ocorre também uma disputa comercial entre diferentes empresas nos diversos setores para atender essa demanda. Na Expocristã, percebemos a existências de stands com gravadoras que não eram necessariamente evangélicas, como a Sony e a Som Livre, ao lado de gravadoras evangélicas, como a Patmos Music, Novo Tempo, Mk Publicitá, Graça Music e Comunhão Music, entre outras, dentro de um mercado concorrencial, caracterizando a terceira característica apontado por Pierre Bourdieu, no início do artigo. Isso aponta para algumas tendências. A concepção de que para grandes gravadoras não ligadas aos evangélicos, como a Sony e a Som Livre, que existe um grande mercado evangélico a ser explorado e que vale à pena, investir, adaptar e pesquisar esse mercado para atender uma demanda com perfil evangélico, além de indicar uma tendência da busca dos cantores gospel de maior vendagem para  fazer parte do seu casting, fechando contratos milionários com cantores(as) e bandas gospel e retirando das grandes gravadoras evangélicas os seus principais carros-chefes. Robson de Paula, num artigo aonde analisa as trajetórias de cantores gospel, em relação à distribuição dos CDs, distingue de um lado, as produções independentes/ pequenas gravadoras da produção das grandes gravadoras. As produções independentes e pequenas gravadoras apresentam como características principais: a distribuição dos CDs em redes informais; a participação do cantor em pequenas festividades; alcance a um público restrito  e o uso da igreja para divulgação dos álbuns. Por sua vez, as grandes gravadoras possuem uma  distribuição sistemática dos álbuns; o uso contínuo da mídia; a participação freqüente nos grandes shows e o uso da igreja para a divulgação dos álbuns (PAULA, 2007:77). A existência somente nas últimas décadas de grandes gravadoras evangélicas e agora mais recentemente, a cooptação dos cantores de maior vendagem para gravadoras não-evangélicas, mas que enxergam nos cantores gospel, a possibilidade de maiores lucros são exemplos claro dentro da indústria fonográfica da formação de uma indústria cultural evangélica, que inclusive, transborda o campo religioso, como a inserção da Sony e da Som Livre neste mercado de bens simbólicos evangélicos deixa claro. Renato Ortiz ao se referir a Escola de Frankfurt (Adorno e Horkheimer) compreende que a indústria cultural apresentou quatro características básicas, que são:

1) a transformação do produto cultural em mercadoria;
2) a estandardização da mercadoria a ser consumida;
3) relaciona a distribuição e a reprodução mecânica do produto e
 4) carrega uma ideologia de conformismo da ordem do status quo (ORTIZ, 1980:54). Em relação à primeira característica citada por Renato Ortiz, a mercantilização do sagrado, com a transformação de CDs, DVDs, roupas e livros sob o rótulo gospel é uma clara alusão de que um produto cultural que atende a um demanda especificamente religiosa, como no caso, dos evangélico possui uma cultura que pode ser facilmente comercializada. No segundo ponto, os padrões e os gostos tendem a serem padronizados fazendo com que, por exemplo, cantores de maior vendagem no setor gospel, sejam vistos “canais”  ou porta-vozes entre Deus e o público (PAULA, 2007:62). O terceiro aspecto citado por Renato Ortiz permite-nos relacionar que um maior público consumidor, uma maior profissionalização dos cantores gospel, incluindo os de maiores vendas, contam consigo com uma grande estrutura de distribuição dos CDs, DVDs e dos shows, através das estratégias de marketing e publicidade, fazendo à ponte entre o produtor de um bem simbólico até chegar ao consumidor final. O último ponto, leva-nos a pensar que o próprio ato de consumir dentro da sociedade neoliberal que presenciamos está marcada por uma acomodação inclusive dos elementos religiosos na sociedade de consumo contemporânea, embora sem dúvida, também existam resistências no campo religioso. Enxerga-se a sacralização do consumo dentro da cultura gospel, que mantém a essência, mas muda a aparência, sendo, na expressão bíblica, “o vinho novo em odres velhos.” (CUNHA, 2007:204-206). A própria história religiosa do Brasil marcado com início do período republicano da dissociação do Estado com o catolicismo enquanto religião oficial no caminho para a laicidade propiciou um caminho que, diga-se de passagem, está cada vez mais marcado pela concorrências das agências religiosas. No dizer do sociólogo Peter Berger, isso representa: A característica-chave de todas as situações pluralistas, quaisquer que sejam os detalhes de seu pano de fundo histórico, é que os ex-monopólios religiosos não podem mais contar com a submissão das populações. A submissão é voluntária e, assim, por definição, não é segura. Resulta daí que a tradição religiosa, que antigamente podia ser imposta pela autoridade, agora tem que ser colocada no mercado. Ela tem que ser “vendida” para uma clientela que não está mais obrigada “a comprar”. A situação pluralista é, acima de tudo, uma situação de mercado. Nela, as instituições religiosas tornam-se agências de mercado e as tradições religiosas tornam-se comodidades de consumo. E, de qualquer forma, grande parte da atividade religiosa nessa lógica vem a ser dominada pela lógica da economia de mercado (BERGER, 1985:149).

Na realidade não existe “apenas” uma concorrência entre as diversas organizações religiosas, mas também de outros produtos e serviços, considerados de cunho religioso que são oferecidos. Por exemplo, durante a Expocristã, recebemos um cartão de uma empresa que oferecia consultoria para as igrejas, oferecendo serviços na área da Internet para que as igrejas possuíssem um site e que ele fosse constantemente atualizado, mediante a um pagamento. A referida empresa concorria com outras empresas do setor, mas adentravam o mercado religioso com os serviços prestados, no caso, assessoria para a Internet, que poderia ser uma ferramenta útil para dar visibilidade à igreja, atrair mais fiéis com a divulgação das programações semanais, do endereço e daquilo que crêem. Através dos dados coletados, percebemos que os stands na Expocristã buscavam divulgar o seu produto ou serviço variavam entre clínicas de recuperação, agências missionárias, editoras, divulgação de cantor (a) / banda, organizadores de eventos gospel, sites da internet, constituindo uma multiplicidade e uma gigantesca concorrência entre diferentes ramos do universo e dos interesses do público evangélico. Entre o público os objetivos da referida feira era múltiplos desde encontrar amigos, evangelização, objetivos financeiros, compreensão do mundo evangélico, entretenimento, consumir produtos gospel e assistir os shows dos cantores e bandas gospel. Neste sentido, a “Expocristã” estava organizada para ser um ponto de encontro entre as tribos evangélicas, um local que buscava agradar diferentes nichos de mercado dentro de uma cultura gospel. Neste sentido, parece-nos que a intensificação da mercantilização dos bens simbólicos religiosos tem atuado com apoio da mídia e do marketing para alcançar cada vez mais consumidores ávidos em consumir produtos e serviços que respondam as demandas da sua fé. Nas palavras de Karla Regina:

O pluralismo religioso e a variedade de concorrentes no mercado criaram um ambiente propício, e ao mesmo tempo, necessário para o aparecimento das técnicas de marketing, visando conquistar e manter os fiéis, ampliando a diversificação de produtos e serviços religiosos com o firme propósito de atender a demanda do mercado religioso (PATRIOTA, 2007:94).   Na análise da referida autora, a mídia constrói discursos, sobrepondo e moldando valores que se apresentam descartáveis, alterando as noções do indivíduo em relação às identidades de classe, gênero, sexualidade, raça, etnia e nacionalidade, fragmentando as identidades do sujeito num mundo pós-moderno, caracterizado pelo individualismo narcisista, consumismo materialista e bem-estar. Assim, mesmo a mídia religiosa consegue uma metamorfose para se adaptar e articular-se ás novas exigências mercadológicas num cenário pós-moderno (PATRIOTA, 2007:95-96). O desencaixe identitário do individuo ocorre e precisa ser respondido, sendo que essa resposta passa pelo aspecto religioso. George Barna, presidente do grupo Barna de pesquisa, que estuda tendências das igrejas e presta serviços de consultoria na área de marketing nos Estados Unidos, entende que cabe as próprias igrejas terem um plano de marketing com estratégias bem definidas. Para o pesquisador estadunidense a igreja também é um negócio, só que diferente das empresas não-religiosas, o seu negócio é o ministério que envolve conversões e crescimento espiritual dos fiéis. Para ele, a estagnação das igrejas evangélicas estadunidenses desde a década de 1980 decorre de que 90% delas não adotaram um marketing eficaz (BARNA, 1994:26-27). Um marketing eficaz deveria contar na visão deste estudioso com sete passos, que são:
1) Designar um líder ou membro da igreja como o seu coordenador ou gerente de marketing;
2) Fazer com que a liderança da igreja “assuma” o plano; 3) Identificar as condições necessárias para a execução do plano; 4) Identificar os recursos específicos a serem empregados na execução; 5) Treinar líderes em princípios básicos de marketing, para aproveitar o máximo sua contribuição e talento; 6) Levar as pessoas a assumirem o compromisso de cumprir as tarefas que lhe forem designadas; 7) Executar todo o plano (BARNA, 1994:114-115).

Conseguimos exemplificar assim que as igrejas enquanto organizações religiosas podem desenvolver elementos da moderna burocracia capitalista e mercadológica para maximizar o seu sucesso e minimizar os prejuízos, ainda que não necessariamente seja o lucro como nos empreendimentos não-religiosos. Pode-se criar também uma burocracia aos moldes weberianos para responder as demandas religiosas criadas. Faltou dizer que grande parte do marketing e da inserção na mídia religiosa é oriunda no Brasil, do capital político proporcionado pelo chamado “voto evangélico”, dentro da lógica “que irmão vota em irmão” e que como os canais de TV e rádio são concessões públicas, o capital político pode se transformar em capital eclesiástico seja para aumentar e dar publicidade para um cantor gospel, divulgar a localização de uma igreja, promover livros de uma editora ou autor evangélico, divulgar um espetáculo religioso ou uma campanha de fé. Desenvolvemos até aqui elementos que propiciam a valorização da mídia e do marketing, enquanto elementos estruturantes de uma dita indústria cultural evangélica. Contudo, existem vozes de resistência dentro do campo evangélico a esse modelo. Ricardo Gondim, pastor da Assembléia de Deus do bairro do Bom Retiro, na capital paulista, criticava a escravização mercadológica do Evangelho, pois para ele:
Esse modelo induz as pessoas a adorarem a Deus por aquilo que Ele dá e não por quem Ele é. Não se anunciam o senhorio de Cristo, apenas os benefícios da fé. Os crentes acabam tratando a Bíblia como um amuleto e, supersticiosos, continuam presos ao medo. Vive um religião de consumo (GONDIM, 2006:48).

Outra citação afirmara que:
Vários autores de diversos campos do saber têm proposto o tema de reencantamento como um ponto importante na superação do atual modelo de civilização e da sociedade nos quais vivemos. (...) Em outras palavras, encontrar valores nas coisas, nas atividades e nas pessoas que transcendem o valor econômico e revelam um sentido de vida que seja muito mais humano e profundo que simplesmente acumular riquezas e ostentar bens de consumo (TRANSFERRETI  et  al, 2007:47).

Existe uma resistência a mercantilização dos bens religiosos, na medida, que esses pensamentos refletem a busca de uma transcendência por ela mesma, sem um significado econômico por trás disso. Um teólogo critica a teologia da prosperidade por compreender o sucesso financeiro ligado a presença de Deus, dividindo ricos e excluídos dessa concepção, criando um mundo de vencedores que desfrutam das benesses da riqueza e um mundo de perdedores, que são os excluídos socialmente (ROSSI, 2008:15-16). Outro teólogo coloca o nome do sugestivo livro “Cristãos ricos em tempos de fome” (SIDER, 1984).  Existe inclusive um movimento de blogueiros evangélicos que tem participado da Marcha para Jesus e criticado o seu aspecto mercadológico, com o slogan “Voltemos ao evangelho puro e simples. O show tem que parar” (ALEXANDRE, 2010:92).

Considerações finais

Buscamos traçar as considerações finais, apontando os principais pontos deste breve artigo, que são:
1) Entendemos a constituição de uma indústria cultural evangélica brasileira, bastante perceptível nas últimas décadas, que foram motivadas pelo crescimento numérico dos evangélicos no país, pelas estruturas midiáticas e de marketing, que desenvolvem estratégias cada vez mais profissionais para mercantilização dos bens simbólicos religiosos;
2) A formação dos conglomerados empresarias, notadamente nas indústrias fonográficas e editoriais, e nos serviços, que buscam atender diferentes nichos de mercado dos evangélicos, gerando uma concorrência no mercado religioso, além da própria concorrência entre as diferentes denominações eclesiásticas para obterem mais fiéis com uma maior eficácia simbólica. Alguns dos conglomerados empresariais (como, a empresas fonográficas da Sony e Som Livre presentes na Expocristã) não são religiosas, mas enxergam no filão gospel, uma ótima possibilidade de lucros;
3) A formação de identidades religiosas formadas a partir dos hábitos de consumo que identificam sinais de pertencimento religioso à determinada denominação e/ou estilo de vida;
4) A diversificação de produtos e serviços religiosos para todos os grupos evangélicos sejam contemplados, considerando que a ampliação numérica gera também uma maior segmentação e gostos musicais, teológicos, estéticos que precisam serem supridos pelas demandas religiosas;
5) Conformismo à sociedade de consumo por grande parte dos evangélicos brasileiros;
6) Resistências de setores à mercantilização dos bens religiosos através das críticas a teologia da prosperidade e busca do significado da transcendência por ela mesmo, sem passar pelos sentidos econômicos;
7) Uso do capital político evangélico para ampliar o capital eclesiástico, como através das estruturas montadas por alguns grupos evangélicos para eleições de representantes políticos para conseguir concessões de rádios e TVs com objetivo de criarem impérios midiáticos.

                                       

              A igreja na roda viva da indústria cultural


De benéfico veículo de humanização à tirano da informação, a Indústria Cultural revela sua real estratégia para igreja brasileira no século XXI: a total dominação. Se para Kant a razão se manifestava em dados imediatos de forma secreta, hoje ela dobra-se aos esquematismos de uma produção em massa que aliena e irracionaliza.
Quando o cinema e o rádio perderam a noção de serem empacotados como arte e se auto definiram como indústria, o prenúncio do porvir estava dado. Hoje tudo, ou quase tudo, antes de ser o que era, é de fato, naturalmente, um produto no sentido mais capitalista possível. Sendo assim, nessa nova dinâmica, um belo quadro, por exemplo, não tem o significado artístico de outrora em seus requisitos técnicos, específicos, de cosmovisão, de linguagem expressiva, etc., basta-lhe torná-lo uma simples mercadoria e então copiá-lo em série e vendê-lo popularmente como um utensílio qualquer.
Vivemos agora numa era onde a técnica adquire poder sobre a sociedade, e a sua racionalidade tecnológica representa a racionalidade da dominação que reprime o poder de escolha e autonomia do indivíduo. O bombardeio vem de todos os lados: num comercial de TV, num jingle de rádio, num outdoor da cidade, nas roupas, nas revistas, na internet, e nas pessoas já adequadas ao sistema. Roda Vida (canção de Chico Buarque) há décadas atrás já sintetizava a sensação que experimento atualmente ante a violenta ação da Indústria Cultural. Mas o que realmente me inquieta ao falar desse assunto é perceber que a grande maioria dos cristãos brasileiros, grande parte da igreja institucional, artistas, pastores, a muito estão sendo sugados pelas engrenagens dessa voraz dinâmica mercadológica; e o pior, o evangelho passou a ser campo de práticas e joguetes dessa indústria. Seu ofício maior é domesticar o cristão como um consumidor cultural da contemporaneidade.
Templos repletos de adoradores que nos seus cotidianos, fisgados pelos manjares popularizados, correm atrás do novo modelo de carro mais desejado, da nova TV de 2 cm de espessura, do mais novo celular com tecnologia de luxo, do modelo de roupa usada na novela do sucesso, enfim, de tudo que representar o prazer de status e de atualização do mundo. Desta forma a tal indústria apoiada na técnica faz uso da tecnologia para legitimar seus produtos culturais. Portanto o que mais interessa não é o conteúdo e sua relevância, mas sua sofisticação de entretenimento. Ou seja, a técnica sobrepuja o conjunto da obra. E não é isso que mais vemos hoje em pregações Técnicas, efeitos, domínio de público, construções de discursos à base de
macetes de neurolinguística. Muita sofisticação, pouco conteúdo. A racionalidade técnica é a própria racionalidade da dominação.
(Theodor Adorno)

Os esquemas são as fórmulas de garantia da boa aceitação do produto. Portanto o que surge no mercado com cara de novidade, perpassa por um processo de maquiagem que torna o supérfluo atraente, porém sem que muitos notem que é uma ideia e produto refugo. O cinema, as novelas (praxe dos crentes modernos, após a Bíblia e os cultos) são bons exemplos dos esquematismos. Neste, prova-se então o quanto é raro o personagem vilão de um filme não ser aniquilado no final da história, já o protagonista, mesmo suportando a inúmeras investidas e agonizando suas forças, quase que nunca promove um final triste. Assim também ocorre em novelas. Mudamse nomes, personagens, cenários, épocas, mas as cronologias de fatos sucedem a própria prévia do telespectador de um final feliz. São artes que vestem diversão, passatempo e falsa importância para a vida comum.
Na música comercial, cujo gospel atual se encaixa perfeitamente, os esquemas também são bem vindos. É uma ferramenta que gira em torno do próprio eixo. Nada se cria, como bem disse João Alexandre, o novo reaparece em meras repetições. Como músico, compartilho a minha simples visão ante a massificação de canções que vestem as ideias da indústria cultural atual:
Melodias óbvias e nada improváveis. Nota-se que a fórmula é a mesma para tantas canções (faça o teste, por exemplo, com canções do Diante do Trono: melodias de cor melancólica, com progressões de acordes invertidos, super-uso de terças e finais de frase com SUS, ou seja, suspenso). Se a canção for lenta, precisa te impelir ao emotivo, se for rápida precisa te impulsionar a tirar o pé do chão.
Refrão fácil de pegar. Aquele que vai de Sol, Ré, Mi menor e Dó, isto é, o velho esquema que funciona o que não deixa de ser um padrão legal, mas tudo de mais é muito né? Assim o ouvinte vai ouvir e consumir um novo que não tem nada de novidade, muito pelo contrário, é apenas mais uma estandardização do familiar no inconsciente da massa.
Letra recheada de conceitos e noções soltas, vagando no ar, mas não problematizada, além de quase sempre trazer poesias demasiadas pobres. Se enche os espaços de verdades, rima paixão com coração, louvor com amor, diz que Deus é tudo, fala sobre sonhos, promessas, milagres, e pronto, o esquema tá novamente reproduzido e com certeza fará sucesso. Isto, claro, se deveu a domesticação do público por parte da
indústria, que por sinal, não vê com bons olhos suscitar dúvidas, imaginação ou questionamentos. Nada pode ameaçar a prosperidade da fórmula e por em cheque a garantia do ciclo do $uce$$o.
Cara de popular com intenções nada democráticas. Nessa lógica, o público é ensinado a consumir sobre o referimento do que é popular e não do que é desejado. Aí notamos a vedação do poder escolha que ocorre seja na violência simbólica ou na segmentação do espaço como demarcação de grupo através dos meios de comunicação daí alguém pode pensar aonde ouvir outra música cristã além das tocadas no rádio? Existe outra para que eu possa escolher? Comumente, é natural domesticar os ouvintes a receberem novas canções sem esforço algum, do que induzilos à busca (é o mercado do óbvio). Ou seja, a indústria mina, demarca e com suas fórmulas e esquemas ataca sem dar trégua.
Pois bem gente, aonde chegamos? Marketing eclesiásticos, consumismo desenfreado, venda de indulgências modernas, práticas domesticadas pela indústria da cultura, resignificação de novos grupos e cantore(a)s que giram num mesmo ciclo de pseudonovidades, gosto pelo popular e não pelo fundamental. Muita superficialidade e pouca essencialidade. Muita diversão, muita distração. É isso que ela quer pra nós.
Portanto, bom é reconceituar que a Indústria Cultural torna-se de fato a Indústria da Diversão, e nesta não se pretende pensar, senão esquecer a dor, mesmo onde quer que ela se mostre pra que assim, na base do divertimento instala-se a impotência, a legitimação, o uso e o abuso. Efetivamente, a libertação prometida pelo entretenimento é a do próprio pensamento como negação. E nós como Igreja, será que estamos atuando nossa faculdade de autonomia de pensamento? (Reflitamos) Almejo a que igreja brasileira se liberte das garras da manipulação. Almejo que as formas de culto, as nossas canções, nossos hobbys, nossas práticas estejam além do que a indústria da cultura “ gospel” nos oferece. Almejo que cantemos novas canções, que sejamos livres, criativos, pensantes, e de vida plena e dominada apenas pela graça e sabedoria vindas de Deus.

                                                                          Por Antognoni Misael


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