terça-feira, 8 de agosto de 2017

Lição 7 - A Necessidade do Novo Nascimento




                              
A
 fidelidade a uma religião nem sempre significa fidelidade a Deus. Saulo de Tarso é o exemplo clássico disso. Religiosidade e novo nascimento são distintos. Quando alguém se converte ao cristianismo, essa pessoa precisa de cuidados espirituais, de um domicílio espiritual. Assim como um membro do corpo não pode se manter separado dele, o mesmo é válido para os que foram regenerados pelo Espírito Santo. Isso significa que todos os cristãos são religiosos, muitos já eram antes, outros não, mas agora trata-se de uma nova experiência com Cristo. Todos os que são transformados e regenerados pelo Espírito Santo são religiosos, pois estes são geralmente membros de igrejas e no mínimo participam dos cultos, fazendo-se presentes na adoração coletiva. Mas nem todos religiosos são cristãos e, mesmo pertencendo a uma religião cristã, isso não significa necessariamente que sejam regenerados.

RELIGIÃO
       A palavra “religião” chegou à língua portuguesa pelo latim. Veio de religare ou religere, cuja etimologia não lança muita luz sobre o termo, no sentido em que se emprega hoje. Segundo Richard A. Muller (1993), o termo latino religio significa: “Religião; religião verdadeira é mais simplesmente definida por eruditos protestantes com a ideia correta do conhecimento e da honra a Deus (recta Deum cognoscendi et colendi ratio), envolvendo conhecimento de Deus (cognitio Dei), amor de Deus (amor Dei...) e temor de Deus (timor Dei), dirigindo para a honra ou a veneração (cultus ...) de Deus”.
      Jerônimo usou o termo latino religio na Vulgata Latina para traduzir a palavra grega threskéia, “religião, culto, piedade”, que aparece quatro vezes no texto grego do Novo Testamento: “Conforme a mais severa seita da nossa religião, vivi fariseu” (At 26.5); “com pretexto de humildade e culto dos anjos” (Cl 2.18); “Se alguém entre vós cuida ser religioso e não refreia a sua língua, antes, engana o seu coração, a religião desse é vã. A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e guardar-se da corrupção do mundo” (Tg 1.26, 27).
       O termo threskéia se refere a uma expressão externa de crença. É verdade que muitas vezes o cristão hesita em usar a palavra “religião”, pois prefere substituí-la por “minha fé” ou pela “igreja à qual pertenço”, em vez de “minha religião”. Isso acontece pelo fato de ser o cristianismo diferente de todas as religiões do mundo! Está acima de todas, principalmente porque o seu Fundador é vivo!
     No Antigo Testamento usa-se com frequência a palavra hebraica ‘avôdâ, que significa “trabalho, serviço, serviço sagrado, culto religioso”; por exemplo: “Ao SENHOR teu Deus temerás e a ele servirás” (Dt 6.13). A Septuaginta traduziu esse termo por latreusis, também usado pelo Senhor Jesus na tentação do deserto: “Ao SENHOR, teu Deus, adorarás e só a ele servirás” (Mt 4.10) ou “Ao SENHOR, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto” (ARA). O substantivo latreia significa “serviço sagrado, culto, adoração”.
      A palavra dāt, que aparece no Antigo Testamento, é de origem semítica e usada nas línguas aramaica e hebraica. A ideia em aramaico é de “lei, ordem, decreto”. A lei, dāt, em aramaico, segundo Gesenius, tem o sentido de sistema de religião: “Nunca encontraremos motivo para acusar Daniel, a não ser que seja alguma coisa que tenha a ver com a religião dele” (Dn 6.5 – NTLH); “e cuidará em mudar os tempos e a lei” (Dn 7.25) ou: “Procurará NTLH); “e cuidará em mudar os tempos e a lei” (Dn 7.25) ou: “Procurará mudar a Lei de Deus e os tempos das festas religiosas” (NTLH).10 Isto significa que o anticristo tentará implantar uma nova religião. Gesenius afirma ainda que: “Os rabinos aplicaram esta palavra ao cristianismo e ao islamismo” (GESENIUS, 1982, p. 211). Ainda hoje em Israel, dāt é a palavra usada para “religião”, a mesma empregada na versão hebraica do Novo Testamento, em Atos 26.5. Mas o termo significa também “lei” em hebraico, como aparece com frequência no livro de Ester (1.8, 13, 15, 19; 2.14; 3.8 etc.) ou ainda “ordem, edito, decreto” (Ed 8.36).

O NOVO NASCIMENTO
      Novo nascimento é regeneração, transformação de vida pelo poder atuante do Espírito Santo na vida do pecador (Tt 3.5). Não se trata simplesmente de mudança de hábito ou de pertencer a uma nova religião. A ideia de que o propósito de Deus é levar as pessoas à religião é falsa. Geralmente se ouve dizer que determinada pessoa precisa de religião. É até compreensível, pois quem se expressa dessa maneira, às vezes, está querendo dizer que tal pessoa precisa de Jesus. Mas há religiões que ensinam e acreditam que basta ter uma religião e estará tubo bem diante de Deus. Mahatma Gandhi dizia que não há necessidade de se converter a Cristo, basta ser bom religioso: o cristão, bom cristão; o muçulmano, bom muçulmano; o hindu, bom hindu, e assim por diante.
       Há no islamismo a ideia de que Deus estabeleceu ao longo da história três religiões: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Os muçulmanos acreditam que Deus enviou primeiro Moisés para estabelecer o judaísmo, mas, dada a desobediência dos judeus, eles foram dispersos pelo mundo todo e depois Deus enviou Jesus para estabelecer o cristianismo. Porém, no século 5, o cristianismo corrompeu-se tanto que Deus enviou Maomé a fim de estabelecer o islamismo, “sua revelação final”. Eles creem que o islamismo inclui tanto o judaísmo como o cristianismo.
      Essa ideia islâmica destoa completamente do pensamento bíblico. O Senhor Jesus não veio ao mundo porque os judeus desobedeceram a Deus, mas para salvar os pecadores: “Esta é uma palavra fiel e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1 Tm 1.15), e isso já havia sido anunciado pelo próprio Deus desde a Queda do Éden: “E porei inimizade entre ti e a mulher e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15). Além disso, a Igreja veio para ficar: “e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18); “a esse glória na igreja, por Jesus Cristo, em todas as gerações, para todo o sempre. Amém!” (Ef 3.21). A validade da obra redentora realizada pelo Senhor Jesus é para sempre: “Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hb 7.25). O cristianismo, portanto, não precisa de remendo.
       Apesar da contribuição da religião na construção de uma sociedade melhor na avaliação deles, ela em nada ajuda na salvação ou na transformação de vida do pecador. Não basta ser bom religioso, Gandhi estava equivocado. Nicodemos, Cornélio e Saulo de Tarso, entre tantos outros, eram também bons religiosos; no entanto, Jesus disse que Nicodemos precisava nascer de novo para ver o reino de Deus (Jo 3.1-5); Cornélio precisou se converter a Cristo (At 10.1-6), e Saulo, com toda a sua sinceridade e religiosidade (At 26.5; Gl 1.14), reconheceu depois de sua experiência com Jesus no caminho de Damasco o seu estado de miséria espiritual: “a mim, que, dantes, fui blasfemo, e perseguidor, e opressor; mas alcancei misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade” (1 Tm 1.13), e conclui afirmando ser o “principal dos pecadores” (1 Tm 1.15).
       A vontade de Deus não tem nada que ver com religião; o que Ele deseja é a comunhão com suas criaturas inteligentes. Quando Adão pecou no Éden, ele e sua mulher por si mesmos procuraram se esconder do Criador, mas a iniciativa de comunhão de uma relação que acabara de ser rompida foi do próprio Deus (Gn 3.7-10). Quando Deus mandou Moisés construir o tabernáculo, disse: “E me farão um santuário, e habitarei no meio deles” (Êx 25.8). Era o lugar santíssimo, também chamado de “santo dos santos” (1 Rs 6.16; Hb 9.3), uma das dependências do tabernáculo, onde ficava a arca da aliança (Êx 26.33; Lv 16.2, 3). Nesse lugar santíssimo, Deus se revelava aos filhos de Israel e falava ao povo, a princípio por meio de Moisés (Êx 25.22; Nm 7.89) e depois falava com o povo por meio do sumo sacerdote (1 Rs 8.10, 11). A importância do tabernáculo e posteriormente do templo não estava nos sacrifícios, mas na presença de Deus. Tudo isso se consumou na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo ao mundo: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14). O restabelecimento da plena comunhão com Deus por Jesus Cristo será no mundo vindouro: “Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e o mesmo Deus estará com eles e será o seu Deus” (Ap 21.3).
      
       A vontade de Deus não é que as pessoas se tornem religiosas, mas a sua comunhão com elas. Essa comunhão com Deus é restabelecida no novo nascimento: “Se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Co 5.17). É assim que o pecador é transformado e regenerado pelo poder do Espírito Santo.
10 Algumas porções do Antigo Testamento foram escritas originalmente em aramaico, sendo preservadas até hoje nessa língua. São elas: Jeremias 10.11 e duas palavras em Gênesis 31.47, além de Esdras 4.8–6.18; 7.12-26 e Daniel 2.4–7.28.

A RAZÃO DA NOSSA FÉ
Esequias Soares 📚



                       📌  Conhecendo as Doutrinas da Bíblia
                                                         Myer Pearlman

III. A Regeneração

1. Natureza da regeneração.

A regeneração é o ato divino que concede ao penitente que crê uma vida nova e mais elevada mediante união pessoal com Cristo. O Novo Testamento assim descreve a regeneração:
                                           
(a) Nascimento. Deus o pai é quem "gerou", e o crente é "nascido" de Deus (1 João 5:1), "nascido do Espírito" (João 3:8), "nascido do alto" (tradução literal de João 3:3,7). Esses termos referem-se ao ato da graça criadora que faz do crente um filho de Deus.

(b) Purificação. Deus nos salvou pela "lavagem" (literalmente, lavatório ou banho) da regeneração". (Tito 3:5.) A alma foi lavada completamente das imundícias da vida de outrora, recebendo novidade de vida, experiência simbolicamente expressa no ato de batismo. (Atos

(c) Vivificação. Somos salvos não somente pela "lavagem da regeneração", nas também pela "renovação do Espírito Santo" (Tito 3:5. Vide também Col. 3:10; Rom. 12:2; Efés. 4:23; Sal. 51:10). A essência da regeneração é uma nova vida concedida por Deus Pai, mediante Jesus Cristo e pela operação do Espírito Santo.

(d) Criação. Aquele que criou o homem no princípio e soprou em suas narinas o fôlego de vida, o recria pela operação do seu Espírito Santo. (2 Cor. 5:17;Efés. 2:10; Gál. 6:15; Efés. 4:24; vide Gên. 2:7.) O resultado prático é uma transformação radical da pessoa em sua natureza, seu caráter, desejos e propósitos.

(e) Ressurreição. (Rom. 6:4,5; Col. 2:13; 3:1; Efés. 2:5, 6.) Como Deus vivificou o barro inanimado e o fez vivo para com o mundo físico, assim ele vivifica a alma em seus pecados e a faz viva para as realidades do mundo espiritual. Esse ato de ressurreição espiritual é simbolizado pelo batismo nas águas. A regeneração é "a grande mudança que Deus opera na alma quando a vivifica; quando ele a levanta da morte do pecado para a vida de justiça" (João Wesley).
Notar-se-á que os termos acima citados são apenas variantes de um grande pensamento básico da regeneração, isto é, uma divina comunicação duma nova vida à alma do homem. Três fatos científicos relativos à vida natural também se aplicam à vida espiritual; isto é, ela surge repentinamente; aparece misteriosamente, e desenvolve-se gradativamente.
Regeneração é o aspecto singular da religião do Novo Testamento. Nas religiões pagãs, reconhece-se universalmente a permanência do caráter. Embora essas religiões recomendem penitências e ritos, pelos quais a pessoa espera expiar os seus pecados, não há promessa de vida e de graça para transformar a sua natureza. A religião de Jesus Cristo é "a única religião no mundo que declara tomar a natureza decaída do homem e regenerá-la, colocando-a em contacto com a vida de Deus". Assim declara fazer, porque o Fundador do Cristianismo é Pessoa Viva e Divina, que vive para salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus. (Heb. 7:25.) Não existe nenhuma analogia entre a religião cristã, e, digamos, o Budismo ou a religião maometana. De maneira nenhuma se pode dizer: "quem tem Buda tem a vida". (Vide 1João 5:12.) Buda pode ter algo em relação à moralidade. Pode estimular, causar impressão, ensinar, e guiar, mas nenhum elemento novo foi acrescido às almas que professam o Budismo. Tais religiões podem ser produtos do homem natural e moral. Mas o Cristianismo declara-se ser muito mais. Além das coisas de ordem natural e moral, o homem desfruta algo mais na Pessoa de Alguém mais, Jesus Cristo.

2. Necessidade da regeneração.

A entrevista de nosso Senhor com Nicodemos (João 3) proporciona um excelente fundo histórico para o estudo deste tópico. As primeiras palavras de Nicodemos revelam uma série de emoções provenientes do seu coração. A declaração abrupta de Jesus no verso 3, que parece ser uma repentina mudança do assunto, explica-se pelo fato de Jesus estar respondendo ao coração de Nicodemos e não às palavras de sua interrogação. As primeiras palavras de Nicodemos revelam. 1) Fome espiritual. Se esse chefe judaico tivesse expressado o desejo de sua alma, talvez teria dito: "Estou cansado do ritualismo morto da sinagoga vou lá mas volto para casa com a mesma fome com que saí. Infelizmente, a glória divina afastou-se de Israel; não há visão e o povo perece. Mestre, a minh'alma suspira pela realidade! Pouco conheço de tua pessoa, mas tuas palavras tocaram-me o coração. Teus milagres convenceram-me de que és Mestre vindo de Deus. Gostaria de te acompanhar.
 2) Faltou a Nicodemos profunda convicção. Sentiu a sua necessidade, mas necessidade dum instrutor e não dum Salvador. Tal qual a mulher samaritana, ele queria a água da vida (João 4:15), mas, como aquela, Nicodemos teve de compreender que era pecador, que precisava de purificação e transformação. (João 4:16-18.)
 3) Nota-se nas suas palavras um rasto de autocomplacência, coisa muito natural num homem de sua idade e posição. Ele diria a Jesus: "Creio que foste enviado a restaurar o reino de Israel, e vim dar-te alguns conselhos quanto aos planos para conseguir esse objetivo." Provavelmente ele supôs que sendo israelita e filho de Abraão, essas qualificações seriam suficientes para o tornarem membro do reino de Deus.
"Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus." Parafraseando essa passagem, Jesus diria: "Nicodemos, tu não podes unir-te à minha companhia como se te unisses a uma organização. O pertencer à minha companhia não depende da qualidade de tua vida; minha causa não é outra senão aquela do reino de Deus, e tu não podes entrar nesse reino sem experimentar uma transformação espiritual. O reino de Deus é muito diferente do que estás pensando, e o modo de estabelecê-lo e de juntar seus súditos é muito diferente do meio de que estás cogitando."
Jesus apontou a necessidade mais profunda e universal de todos os homens — uma mudança radical e completa da natureza e caráter do homem em sua totalidade. Toda a natureza do homem ficou deformada pelo pecado, a herança da queda; essa deformação moral reflete-se em sua conduta e em todas as suas relações. Antes que o homem possa ter uma vida que agrade a Deus, seja no presente ou na eternidade, sua natureza precisa passar por uma transformação tão radical, que seja realmente um segundo nascimento. O homem não pode transformar-se a si mesmo; essa transformação terá que vir de cima.
Jesus não tentou explicar o como do novo nascimento, mas explicou opor quê do assunto. "O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido de Espírito é espírito." Carne e espírito pertencem a reinos diferentes, e um não pode produzir o outro. A natureza humana pode gerar a natureza humana, mas somente o Espírito Santo pode gerar a natureza espiritual. A natureza humana somente pode produzir a natureza humana; e nenhuma criatura poderá elevar-se acima de sua própria natureza. A vida espiritual não passa do pai ao filho pela geração natural; ela procede de Deus para o homem por meio da geração espiritual.
A natureza humana não pode elevar-se acima de si própria. Escreveu Marcus Dods:

 Todas as criaturas possuem certa natureza segundo a sua espécie, determinada pela sua ascendência. Essa natureza que o animal recebe dos seus pais determina, desde o princípio, a sua capacidade e a esfera desse animal. A toupeira não pode subir aos ares como o faz a águia; nem tampouco pode o filhote da águia cavar um buraco como afaz toupeira. Nenhum treino jamais fará a tartaruga correr como o antílope, nem fará o antílope tão forte como o leão... Além de sua natureza, nenhum animal poderá agir.

O mesmo princípio podemos aplicar ao homem. O destino mais elevado do homem é viver com Deus para sempre; mas a natureza humana, em seu estado presente, não possui a capacidade para viver no reino celestial. Portanto, será necessário que a vida celestial desça de cima para transformar a natureza humana, preparando-a para ser membro desse reino.

3. Os meios de regeneração.

(a) Agência divina. O Espírito Santo é o agente especial na obra de regeneração. Ele opera a transformação na pessoa. (João 3:6; Tito 3:5.) Contudo, todas as Pessoas da Trindade operam nessa obra. Realmente as três Pessoas operam em todas as divinas operações, embora cada Pessoa exerça certos ofícios que lhe são peculiares. Dessa forma o Pai é preeminentemente o Criador; contudo, tanto o Filho como o Espírito Santo são mencionados como agentes na criação. O Pai gera (Tia. 1:18) e no Evangelho de João, o Filho é apresentado como o Doador da vida. (Vide caps. 5 e 6.)
Notem especialmente a relação de Cristo com a regeneração do homem. É ele o Doador da vida. De que maneira ele vivifica os homens? Vivifica-os por morrer por eles, de forma que, ao comerem sua carne e beberem seu sangue (que significa crer em sua morte expiatória), eles recebem a vida eterna. Qual é o processo de conceder a vida aos homens? Uma parte da recompensa de Cristo era a prerrogativa de conceder o Espírito Santo (Vide João 3:3,13; Gál.3:13,14), e ele ascendeu para que pudesse tomar-se a Fonte da vida e energia espiritual (João 6:62; Atos 2:33). O Pai tem vida em si (João 5:26); portanto, ele concede ao Filho ter vida em si; o Pai é a Fonte do Espírito Santo, mas ele concede ao Filho o poder de conceder o Espírito; desta forma o Filho é um "Espírito vivificante" (1 Cor. 15:45), tendo poder, não somente para ressuscitar os mortos, fisicamente, (João 5:25,26) mas também vivificar as almas mortas dos homens. (Vide Gên 2:7; João 20:22; 1 Cor. 15:45.)
(b) A preparação humana. Estritamente falando, o homem não pode cooperar no ato de regeneração, que é um ato soberano de Deus; mas o homem pode tomar parte na preparação para o novo nascimento. Qual é essa preparação? Resposta: Arrependimento e fé.

4. Efeitos da regeneração.

Podemos agrupá-los sob três tópicos: posicionais (adoção); espirituais (união com Deus); práticos (a vida de justiça).
(a) Posicionais. Quando a pessoa passa pela transformação espiritual conhecida como regeneração, torna-se filho de Deus e beneficiário de todos os privilégios dessa filiação. Assim escreve o Dr. William Evans: "Pela adoção, o crente, que já é filho de Deus, recebe o lugar de filho adulto; dessa forma o menino torna-se filho, o filho menor torna-se adulto." (Gál. 4:1-7.) A palavra "adoção" significa literalmente: "dar a posição de filhos" e refere-se, no uso comum, ao homem que toma para seu lar crianças que não são as suas pelo nascimento.
Quanto à doutrina, devemos distinguir entre adoção e regeneração: o primeiro é um termo legal que indica conceder o privilégio de filiação a um que não é membro da família; o segundo significa a transformação espiritual que toma a pessoa filho de Deus e participante da natureza divina. Contudo, na própria experiência, é difícil separar os dois, visto que a regeneração e a adoção representam a dupla experiência da filiação.
No Novo Testamento a filiação comum é, às vezes, definida pelo termo "filhos" ("uioi"— no grego), termo que originou a palavra "adoção"; outras vezes é definida pela palavra "tekna", no grego, também traduzida por "filhos", que significa literalmente "os gerados", significando a regeneração. As duas idéias são distintas e ao mesmo tempo combinadas nas seguintes passagens: "Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder (implicando adoção) de serem feitos filhos de Deus... os quais... nasceram... de Deus" (João 1:12,13). "Vede quão grande caridade nos tem concedido o Pai, que fôssemos chamados (implicando adoção) filhos de Deus (a palavra que significa "gerados" de Deus)" (1 João 3:1). Em Rom. 8: 15,16 as duas idéias se entrelaçam: "Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes em temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos Abba, Pai. O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus."
(b) Espirituais. Devido à sua natureza, a regeneração envolve união espiritual com Deus e com Cristo mediante o Espírito Santo; e essa união espiritual envolve habitação divina (2 Cor. 6:16-18; Gál. 2:20; 4:5,6; 1 João 3:24; 4:13.) Essa união resulta em um novo tipo de vida e de caráter, descrito de várias maneiras; novidade de vida (Rom. 6:4); um novo coração (Ezeq. 36:26); um novo espírito (Ezeq. 11:19); um novo homem (Efés. 4:24); participantes da natureza divina (2 Ped. 1:4). O dever do crente é manter seu contacto com Deus mediante os vários meios de graça e dessa forma preservar e nutrir a sua vida espiritual.
(c) Práticos. A pessoa nascida de Deus demonstrará esse fato pelo ódio que tem ao pecado (1 João 3:9; 5:18), por obras de justiça (1 João 2:29), pelo amor fraternal (1 João 4:7) e pela vitória que alcança sobre o mundo (1 João 5:4).
Devemos evitar estes dois extremos: primeiro, estabelecer um padrão tão baixo que a regeneração se torne questão de reforma natural; segundo, estabelecer um padrão elevado demais que não leve em conta as fraquezas dos crentes. Crentes novos que estão aprendendo a andar com Jesus estão sujeitos a tropeçar, como o bebê que aprende a andar. Mesmo os crentes mais velhos podem ser surpreendidos em alguma falta. João declara que é absolutamente inconsistente que a pessoa nascida de Deus, portadora da natureza divina, continue a viver habitualmente no pecado (1 João 3.9), mas ao mesmo tempo ele tem cuidado em escrever: "Se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo" (1 João 2:1).

➤Conhecendo as Doutrinas da Bíblia
Myer Pearlman



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