Segundo Stanley M. Horton, a doutrina do Espírito Santo nunca havia recebido um tratamento justo nos tratados de teologia antes do Avivamento da Rua Azusa: “Os antigos compêndios de teologia sistemática, em sua maioria, não possuem nenhum capítulo sobre pneumatologia” (HORTON, 2001, p. 9). Eruditos, durante e depois do Avivamento da Rua Azusa, empreenderam vários estudos sobre o Espírito Santo, sobre o batismo no Espírito Santo, sobre a glossolalia e sobre os dons do Espírito Santo. Obtiveram avanços significativos. A erudição não anula o fervor espiritual da fé cristã pentecostal.
É o Senhor Jesus o centro da mensagem pregada pelas Assembleias de Deus. Ainda há entre os evangélicos quem diga que a ênfase é o Espírito Santo acima de Jesus. O Pr. George Wood, presidente da Convenção Americana das Assembleias de Deus, numa entrevista à revista Christianity Today, edição de 29 de junho de 2015, fala em quatro grandes erros a respeito das Assembleias de Deus: 1) a crença no Cânon aberto, 2) a ênfase do Espírito Santo acima de Jesus, 3) a prática espiritual elitista e 4) a teologia da prosperidade. Ele rebate cada ponto explicando a fé assembleiana.
O ESPÍRITO SANTO NAS ESCRITURAS SAGRADAS
Sua divindade
O Espírito Santo é chamado de Senhor nas Escrituras Sagradas: “Ora, o Senhor é o Espírito; e, onde está Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2 Co 3.17 – ARA). Os nomes Deus e Espírito Santo aparecem alternadamente na Bíblia: “Porque encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, e retivesses parte do preço da herdade? ... Não mentiste aos homens, mas a Deus” (At 5.3, 4). Veja que Deus e o Espírito Santo aqui são uma mesma divindade. Primeiro o apóstolo Pedro diz que Ananias mentiu ao Espírito Santo, e depois o mesmo Espírito é chamado de Deus. O apóstolo Paulo também emprega esse tipo de linguagem: “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Co 3.16). Isso vem desde o Antigo Testamento: “O Espírito do SENHOR falou por mim, e a sua palavra esteve em minha boca. Disse o Deus de Israel, a Rocha de Israel a mim me falou” (2 Sm 23.2, 3). Da mesma forma o Espírito Santo é chamado de “Javé” ou “SENHOR” nas nossas versões de Almeida. Compare ainda Juízes 15.14; 16.20 e Números 12.6; 2 Pedro 1.21.
Jesus prometeu dar aos seus discípulos “outro Consolador” (Jo 14.16). A palavra “outro” aqui corresponde ao original grego allos, que significa “outro”, mas da mesma natureza, da mesma espécie e da mesma qualidade.
Segundo A. T. Robertson, “outro da mesma classe (allon, não héteron)” (ROBERTSON, vol. 5, 1990, p. 279). O termo grego para “Consolador” é paráklētos, que significa “ajudador”, “alguém chamado para auxiliar”, um “advogado”. Essa mesma palavra aparece em 1 João 2.1 com este significado: “Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis: e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo”. Em outras palavras, Jesus dizia aos seus discípulos que estava voltando para o Pai, mas que continuaria cuidando da Igreja, pelo seu Espírito Santo, seu Paraklētos, um como ele, que teria o mesmo poder para preservar o seu povo.
São inúmeras as obras de Deus efetuadas pelo Espírito Santo. Ele gerou a Jesus Cristo (Lc 1.35), dá a vida eterna (Gl 6.8) e guia o seu povo (Is 63.14; Rm 8.14; Gl 5.18), pois é o Senhor da igreja (At 20.28) e o santificador dos fiéis (1 Pe 1.2). O Espírito habita nos crentes (Jo 14.17), é autor do novo nascimento (Jo 3.5, 6), dá a vida (Ez 37.14; Rm 8.11), regenera (Tt 3.5) e distribui os dons espirituais (1 Co 12.7-11).
A divindade do Espírito Santo é revelada na Bíblia, por meio de seus atributos divinos, como acontece com o Senhor Jesus Cristo. Ele é onipotente (Rm 15.19) e fonte de poder e milagres (Mt 12.28; At 2.4; 1 Co 12.9-11). A onipresença é outro atributo incomunicável de Deus presente na terceira Pessoa da Trindade, o que mostra ser ele onipresente (Sl 139.7-10). Por ser onisciente, Ele conhece todas as coisas, até as profundezas de Deus (1 Co 2.10, 11), o coração do homem (Ez 11.5; Rm 8.26, 27; 1 Co 12.10; At 5.3-9) e o futuro (Lc 2.26; Jo 16.13; At 20.23; 1 Tm 4.1; 1 Pe 1.11). Possui também o atributo da eternidade, pois é chamado de “Espírito eterno” (Hb 9.14). A palavra asseidade advém do latim aseitatis, que vem de dois termos – a se significa “por si” ou “autocausado”, ou seja, diz respeito à existência por si mesmo e serve para designar o atributo divino segundo o qual Deus existe por si próprio. Assim como o Pai e o Filho, o Espírito Santo é autoexistente, ou seja, não depende de nada fora de si para existir. Ele sempre existiu. É o Criador do homem e do mundo (Jó 26.13; 33.4; Sl 104.30) e, também, o Salvador (Ef 1.13; 4.30; Tt 3.4, 5).
A Palavra de Deus apresenta, de igual modo, seus atributos comunicáveis, como a santidade, pois o Espírito Santo é santo (Rm 15.16; 1 Jo 2.20). Essa santidade do Espírito é única e real, absoluta e perfeita; não se trata, pois, de uma santidade cerimonial, mas de algo inerente à sua natureza. Ele é a verdade (1 Jo 5.6), é sábio (Is 11.2; Jo 14.26; Ef 1.17), bom (Ne 9.20; Sl 143.10) e verdadeiro (Jo 14.17; 15.26; 16.13; 1 Jo 5.6).
Sua personalidade
A personalidade do Espírito Santo está presente em toda a Bíblia de maneira abundante e inconfundível e tem sido crença da Igreja desde o princípio. Há nele elementos constitutivos da personalidade, como o intelecto; ele penetra todas as coisas (1 Co 2.10, 11) e é inteligente (Rm 8.27). Ele tem emoção, sensibilidade (Rm 15.30; Ef 4.30) e vontade (At 16.6-11; 1 Co 12.11). As três faculdades – intelecto, emoção e vontade – caracterizam a personalidade.
Os substantivos gregos apresentam três gêneros: masculino, feminino e neutro. O termo grego pneuma, usado amplamente no Novo Testamento para “espírito”, é substantivo neutro. O pronome demonstrativo na frase: “aquele Espírito da verdade” (Jo 15.26; 16.13) e o pessoal, em “Ele me glorificará” (Jo 16.14) estão no masculino. Isso revela a personalidade do Espírito Santo.
Outra prova da personalidade do Espírito Santo é que ele reage a certos atos praticados pelo homem. Pedro obedeceu ao Espírito Santo (At 10.19, 21); Ananias mentiu ao Espírito Santo (At 5.3); Estêvão disse que os judeus sempre resistiram ao Espírito Santo (At 7.51); o apóstolo Paulo nos recomenda não entristecer o Espírito Santo (Ef 4.30); os fariseus blasfemaram contra o Espírito Santo (Mt 12.29-31); os cristãos são batizados em seu nome (Mt 28.19).
A Bíblia revela os atributos pessoais do Espírito Santo. Ele ensina (Jo 14.26), fala (Ap 2.7, 11, 17), guia (Rm 8.14; Gl 5.18), clama (Gl 4.6), convence (Jo 16.7, 8), testifica (Jo 15.26; Rm 8.16), escolhe obreiros (At 13.2; 20.28), julga (At 15.28), advoga (Jo 14.16; At 5.32), envia missionários (At 13.2-4), convida (Ap 22.17), intercede (Rm 8.26), impede (At 16.6, 7), se entristece (Ef 4.30) e contende (Gn 6.3).
O Espírito é do Pai (1 Co 2.12; 3.16) e do Filho (At 16.7; Gl 4.6). Filioque é um termo latino que significa literalmente “e do filho”, usado em teologia para indicar a dupla processão do Espírito Santo, do Pai e do Filho (Jo 15.26; 20.22). A divindade possui uma só essência ou substância indivisível, e Pai, Filho e Espírito Santo são três hipóstases, ou seja, “forma de existir”. Usa-se comumente na teologia o termo “Pessoa” por falta de uma palavra mais precisa na linguagem humana para descrever cada uma dessas identidades conscientes. Quando se fala a respeito do Espírito Santo como terceira Pessoa da Trindade, isso não significa terceiro numa hierarquia, mas porque aparece em terceiro lugar na fórmula batismal: “batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28.19). As três hipóstases ou Pessoas são iguais em poder, glória e majestade, e não há entre elas primeiro e último.
HISTÓRIA DA DOUTRINA PNEUMATOLÓGICA
Período Pré-niceno
O capítulo 3, sobre a Santíssima Trindade, explica por que o tema pneumatológico foi deixado de lado antes do Concílio de Niceia. A discussão era centrada em Jesus e a sua identidade, e a doutrina sobre o Espírito Santo raramente entrava nos debates. São escassas as informações a respeito da identidade e das obras do Espírito Santo nos primeiros pais da Igreja.
As discussões no final do segundo século e no século seguinte giravam em torno da identidade do Logos, e isso envolvia o Espírito Santo como a terceira Pessoa da Trindade. O tema dos grupos adocionistas e modalistas era sobre Deus e o monoteísmo, e nesses debates o Espírito Santo estava presente, mas sem aprofundamento acerca de sua natureza. A cristologia ocupou praticamente os debates dos séculos 3 e 4 e quase não sobrou espaço para a pneumatologia. Não houve discussão a respeito do Espírito Santo em Niceia.
Orígenes, como visto no capítulo anterior, defendia uma Trindade influenciada pelo neoplatonismo: “O Filho é coeterno com o Pai, mas seu poder de ser é pouco inferior ao do Pai. É a mais alta das realidades geradas, mas menor do que o Pai. O mesmo se diz do Espírito Santo que age nas almas dos santos” (TILLICH, 2004, pp. 76, 77). No seu comentário sobre o evangelho de João 1.3, ele afirma que o Espírito Santo é criatura do Logos. Não há muita coisa sobre o Espírito Santo nos séculos 2 e 3, e de tudo o que existe, há problemas e, em Orígenes em especial, mais erros do que acertos.
Depois de Niceia
As controvérsias arianas continuaram. Ário negava a eternidade do Logos, defendia sua existência antes da encarnação, como as atuais testemunhas de Jeová, mas negava que ele fosse eterno com o Pai, insistia na tese de que o Verbo havia sido criado como primeira criatura de Deus. A palavra de ordem dos arianistas era: “Houve tempo em que o Filho não existia”. Ário considerava também o Espírito Santo como criatura, embora esse tema estivesse fora das discussões na época e o os debates se concentrassem no Filho. Alexandre, bispo de Alexandria, se limitava a manter a antiga afirmação de que o Espírito Santo inspirou os profetas e apóstolos. Eusébio de Cesareia emprega a exegese de Orígenes, colocando o Espírito Santo em terceira categoria, como “um terceiro poder” e como uma das coisas que vieram à existência por meio do Verbo, na interpretação origeneana sobre João 1.3 (Preparatio Evangelica, 11.21).
Não existia consenso sobre o Espírito Santo no Oriente nas primeiras décadas depois do Concílio de Niceia. Havia diversas interpretações. Uns diziam que as Escrituras Sagradas eram vagas sobre o assunto e por isso preferiam não se pronunciar; outros achavam que Ele era criatura; outros diziam que era um anjo; e outros, que era um espírito intercessor entre o Senhor Jesus e os anjos. Havia até triteístas entre eles.
Cirilo de Jerusalém apresenta alguns lampejos em favor da ortodoxia. Ele escreveu no ano 348 o seguinte: “O Espírito Santo é um e o mesmo; vivente e subsistente e que sempre está presente com o Pai e o Filho” (Catequese XVII.5). Cirilo diz ainda que o “Espírito Santo que é honrado com o Pai e o Filho e que no momento do santo batismo é simultaneamente incluído na Trindade Santa” (Catequese XVI.4).
Na carta enviada a Serapião, bispo de Tmuis, cidade do Baixo Egito, Atanásio expõe o seu pensamento a respeito do Espírito Santo, afirmando que Ele partilha da mesma substância do Pai e do Filho: “O Espírito Santo é um, as criaturas são muitas e os anjos muitos. Que semelhança há entre o Espírito e as criaturas? Está claro, portanto, que o Espírito não é uma das muitas criaturas, nem tão pouco é um anjo. Mas porque ele é um, e ainda mais por que ele pertence ao Verbo que é um, ele pertence a Deus que é um, e um consubstancial com ele [homooúsion]” (Carta a Serapião I.27.3).
Aqui Atanásio está dando uma resposta aos tropicianos. Ele refuta os arianos, os tropicianos e os pneumatomacianos. É claro e direto ao afirmar que o Espírito Santo é consubstancial com o Pai e com o Filho. “Em 362, entretanto, por ocasião do Concílio de Alexandria, Atanásio conseguiu aceitação para a proposição de que o Espírito não é uma criatura, mas pertence à substância do Pai e do Filho, sendo inseparável dela” (KELLY, 2009, p. 195).
Os pais capadócios
Basílio de Cesareia, nos primeiros anos de sua pesquisa, era amigo e aliado de Eustáquio de Sebaste, líder dos pneumatomacianos. Contudo, depois de um exame mais preciso sobre o assunto, ele se encontrou com Eustáquio em Sebaste no ano de 372 e depois voltou a se encontrar com ele no ano seguinte, mas Eustáquio não concordou com a ideia de Basílio. Essa ruptura aconteceu em 373. Basílio a essa altura defendia a ortodoxia nicena e passou a combater os pneumatomacianos. Ele emprega cerca de 460 passagens bíblicas, sem contar as repetições, em seus escritos. O seu epistolário conta com 366 epístolas. Quem examinou todos os seus escritos afirma que “em lugar algum o Espírito Santo é chamado Deus, nem Sua consubstancialidade é afirmada explicitamente” (KELLY, 2009, pp. 196, 197). Mas, segundo Timothy P. McConnell, em sua obra Illumination in Basil of Caesarea’s Doctrines of the Holy Spirit (2004), Basílio dispensa a filosofia e evita termos filosóficos na teologia, preferindo a linguagem próxima da Bíblia. Basílio defende a divindade do Espírito Santo sem o uso desses termos: “Glorificamos o Espírito com o Pai e o Filho porque cremos que Ele não é estranho à natureza divina” (Epístola 159.2); “Quanto às criaturas, recebem de outrem a santificação, mas para o Espírito a santidade é integrante de sua natureza. Por conseguinte, ele não é santificado, mas santificador... são comuns os nomes dados ao Pai, e ao Filho e ao Espírito, que recebe tais denominações em vista da intimidade entre eles, por natureza” (Tratado sobre o Espírito Santo, 19.48).
O pensamento de Basílio se resume em três pontos: “a) o testemunho das Escrituras acerca da grandeza e da dignidade do Espírito, e do poder e da imensidão de Sua operação; b) sua associação com o Pai e com o Filho em tudo o que Eles realizam, especialmente na obra de santificação e glorificação; c) seu relacionamento pessoal tanto com o Pai quanto com o Filho” (KELLY, 2009, p. 197). A obra Tratado sobre o Espírito Santo foi o último dos seus escritos e apresenta os desenvolvimentos doutrinários mais avançados que abriram o caminho para as definições do Concílio de Constantinopla em 381.
Gregório de Nissa escreveu Sobre a Trindade, continuação da obra Contra Eunômio, da autoria de seu irmão, e Sobre não três Deuses, refutação ao heresiarca Ablábio, que defendia o triteísmo considerando o Pai, o Filho e o Espírito Santo como três Deuses. Ele defendia a unicidade de natureza partilhada pelas três Pessoas da Trindade e usava Salmos 33.6 com um dos fundamentos bíblicos: “Pela palavra do SENHOR foram feitos os céus; e todo o exército deles, pelo espírito da sua boca”.
Gregório de Nazianzo combateu os mesmos opositores de seus companheiros Basílio de Cesareia e Gregório de Nissa: Eunômio e os pneumatomacianos. Ele escreveu com elegância e clareza sobre a Trindade e, especialmente, sobre o Espírito Santo por meio de epístolas, poemas e sermões, sendo as Orações ou Discursos Teológicos cincos sermões, numerados de 27 a 31. Ele foi o mais ousado dos três capadócios. Diz abertamente em alto e bom som que o Espírito Santo é Deus e consubstancial: “Então o quê? O Espírito é Deus? Sim, de fato é Deus. Então ele é consubstancial? Sim, é verdade, pois ele é Deus” (Discurso 31.10). Ele afirma no quinto Discurso Teológico: “Se houve tempo em que Deus não existia, então houve um tempo em que o Filho não existia. Se houve um tempo no qual o Filho não existia, então houve um tempo no qual o Espírito não existia. Se um existiu desde o começo, logo os três também existiram” (Discurso 31.4).
Foram os pais capadócios que definiram de uma vez para sempre a doutrina da Trindade aceita e ensinada pelos principais ramos do cristianismo. Eles completaram a tarefa de Atanásio. A partir deles, ficou esclarecida a verdadeira identidade do Espírito Santo; no entanto, a processão ainda está em aberto. Em Gregório de Nazianzo encontra-se sua extraordinária contribuição para a vitória final da fé nicena. Ele organizou os dados da revelação divina, registrados nas Escrituras, e afirmou categoricamente que o Espírito Santo é Deus. O Concílio de Constantinopla, 381, descreveu o Espírito como Deus e como “o Senhor e provedor da vida, que procede do Pai e é adorado e glorificado com o Pai e com o Filho”.
Está claro nas Escrituras que ele é o Senhor e provedor da vida: “O Senhor é o Espírito” (2 Co 3.17); “Porque a lei do Espírito de vida” (Rm 8.2); “O Espírito é o que vivifica” (Jo 6.63); “e o Espírito vivifica” (2 Co 3.6); que ele procede do Pai (Jo 15.26); “o Espírito que provém de Deus” (1 Co 2.12); e que falou pelos profetas (2 Pe 1.21).
O que parece crucial nessa declaração é o fato de o Espírito Santo ser adorado com o Pai e com o Filho. A frase “adorado e glorificado com o Pai e com o Filho” vem de Atanásio ao afirmar que o Espírito Santo: “está unido ao Filho, como está unido ao Pai, ele que é glorificado com o Pai e o Filho é chamado Deus com o Verbo, e realizando o que o Pai faz mediante o Filho” (Carta a Serapião I.25.2). E Basílio de Cesareia diz: “... e constrói as igrejas que confessam a sã doutrina em que o Filho é reconhecido ser da mesma substância do Pai, e o Espírito Santo é considerado e adorado com a mesma igualdade de honra” (Epístola, 90.2). Há uma única passagem nas Escrituras que fala diretamente sobre a adoração do Espírito Santo: “Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus no Espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne” (Fp 3.3). O verbo “servir” aqui é latreuo, e em o sentido de prestar, culto, adorar, serviço sagrado. A construção grega aqui ficou ambígua e Agostinho de Hipona afirma que as gerações de cristãos antes dele adoravam o Espírito Santo com base nessa passagem paulina:
O Espírito Santo não é criatura. Ele, ao qual todos os santos prestam
culto, no dizer do apóstolo: Os
verdadeiros circuncidados somos nós, que servimos ao Espírito de Deus (Fl 3,3).
E em grego estão designados pelo termo latreuontes.
Em muitos exemplares de mesmo nos latinos assim se lê: Que servimos ao Espírito
de Deus; assim se encontra também na maioria ou quase em todos os códices
gregos. Em algumas cópias latinas, porém, o texto não é: Servimos ao Espírito
de Deus, mas: Servimos a Deus, no Espírito (A Trindade, Livro I, 13).
A cláusula grega para “somos nós, que
servimos a Deus no Espírito”, em grego, hoi
pneumati theou latreuontes, é ambígua porque a terminação –ti, no
substantivo pneuma, “espírito”, significa tanto “no Espírito” como também “ao
Espírito”, ou ainda “pelo Espírito” e também “com o Espírito”. A ausência de
uma preposição em pneumati deixa o assunto em aberto naquilo que a gramática
grega chama de caso dativo, caso locativo ou caso instrumental. Se é dativo, a
frase significa “nós que adoramos/servimos/prestamos culto ao Espírito de
Deus”. A. T. Robertson reconhece essa possibilidade: “Caso instrumental, ainda
o caso dativo como o objeto de latreuō também tem bom sentido (adorando ao
Espírito de Deus)” (ROBERTSON, tomo 4, 1989, p. 600).Há absoluta igualdade dentro da Trindade e nenhuma das três Pessoas está sujeita à outra, como se houvesse uma hierarquia divina. Existe, sim, uma distinção de serviço, e o Espírito Santo representa os interesses do Pai e do Filho na vida da Igreja na terra (Jo 16.13, 14). O Espírito Santo dá prosseguimento ao plano de salvação idealizado pelo Deus Pai e executado pelo Deus Filho. As três Pessoas estão presentes, atuando cada uma na sua esfera de atuação, em perfeita harmonia e perfeita unidade.
A
RAZÃO DA NOSSA FÉ
Esequias
Soares
Capítulo IX: O Espírito Santo
Conhecendo as Doutrinas da Bíblia
Myer Pearlman
Com exceção das Epístolas 2 e 3 de João, todos os livros do Novo Testamento contêm referências à obra do Espírito; todos os Evangelhos começam com uma promessa do derramamento do Espírito Santo.
No entanto, é reconhecida como a doutrina mais negligenciada. O formalismo e um medo indevido do fanatismo têm produzido uma reação contra a ênfase na obra do Espírito na experiência pessoal.
Naturalmente, este fato resultou em decadência espiritual, pois não pode haver um Cristianismo vivo sem o Espírito. Somente ele pode fazer real o que a obra de Cristo possibilitou. Inácio, grande pastor da igreja primitiva, disse: A graça do Espírito põe a maquinaria da redenção em conexão vital com a alma. Parte do Espírito, a cruz permanece inerte, uma imensa máquina parada, e em volta dela permanecem imóveis as pedras do edifício. Somente quando se colocar a "corda" é que se poderá proceder à obra de elevar a vida do indivíduo, pela fé, e pelo amor, para alcançar o lugar preparado para ela na igreja de Deus.
I. A natureza do Espírito Santo.
Quem é o Espírito Santo? A resposta a esta pergunta encontrar-se-á no estudo dos nomes que lhe foram dados, os símbolos que ilustram suas obras.
1. Os nomes do Espírito Santo.
(a) Espírito de Deus. O Espírito é o executivo da Divindade, operando tanto na esfera física como na moral. Por intermédio do Espírito, Deus criou e preserva o universo. Por meio do Espírito — "o dedo de Deus" (Luc. 11:20) — Deus opera na esfera espiritual, convertendo os pecadores, santificando e sustentando os crentes.
1) é o Espírito Santo divino no sentido absoluto? Sim. Prova-se sua divindade pelos seguintes fatos: Atributos divinos lhe são aplicados; ele é eterno, onipresente, onipotente, e onisciente (Heb. 9:14; Sal. 139:7-10; Luc. 1:35; 1 Cor. 2:10,11). Obras divinas lhe são atribuídas, como sejam: criação, regeneração e ressurreição (Gen. 1:2; Jo 33:4; João 3:5-8; Rom. 8:11). é classificado junto com o Pai e o Filho (1 Cor. 12:4-6; 2 Cor. 13:13; Mat. 28:19; Apoc. 1:4).
2) O Espírito Santo é uma pessoa ou é apenas uma influência? Muitas vezes descreve-se o Espírito duma maneira impessoal — como o Sopro que preenche, a Unção que unge, e o Fogo que ilumina e aquece, a Água que é derramada e o Dom do qual todos participam. Contudo, esses nomes são meramente descrições das suas operações. Descreve-se o Espírito duma maneira que não deixa dúvida quanto à sua personalidade. Ele exerce os atributos de personalidade: mente (Rom. 8:27); vontade (1 Cor. 12:11); sentimento (Efés 4:30). Atividades pessoais lhe são atribuídas: Ele revela (2 Ped. 1:21); ensina (João 14:26); clama (Gál. 4:6); intercede (Rom. 8:26); fala (Apo. 2:7); ordena (Atos 16:6,7); testifica (João 15:26). Ele pode ser entristecido (Efés. 4:30); contra ele se pode mentir (Atos 5:3), e blasfemar (Mat. 12:31,32). Sua personalidade é indicada pelo fato de que se manifestou em forma visível de pomba (Mat. 3:16) e pelo fato de que ele se distingue dos seus dons (1 Cor. 12:11). Alguns talvez tenham negado a personalidade do Espírito porque ele é descrito como tendo corpo ou forma. Mas é preciso distinguir a personalidade e a forma corpórea (possuir corpo). A personalidade é aquilo que possui inteligência, sentimento e vontade; ela não requer necessariamente um corpo. Além disso, a falta duma forma definida não é argumento contra a realidade. O vento é real apesar de não possuir forma. (João 3:8.) Não é difícil formar um conceito de Deus Pai ou do Senhor Jesus Cristo, mas alguns têm confessado certa dificuldade em formar um conceito claro do Espírito Santo. A razão é dupla: Primeiro, nas Escrituras as operações do Espírito são invisíveis, secretas, e internas; segundo, o Espírito Santo nunca fala de si mesmo nem apresenta a si mesmo. Ele sempre vem em nome de outro. Ele se oculta atrás do Senhor Jesus Cristo e nas profundezas do nosso homem interior. Ele nunca chama a atenção para si próprio, mas sempre para a vontade de Deus e para a obra salvadora de Cristo. "não falar de si mesmo" (João 16:13).
3) é o Espírito Santo uma personalidade distinta e separada de Deus? Sim; o Espírito procede de Deus, é enviado de Deus, é dom de Deus aos homens. No entanto, o Espírito não é independente de Deus. Ele sempre representa o único Deus operando nas esferas do pensamento, da vontade, da atividade. O fato de o Espírito poder ser um com Deus e ao mesmo tempo ser distinto de Deus é parte do grande mistério da Trindade.
(b) Espírito de Cristo. (Rom. 8:9.) não há nenhuma distinção especial entre as expressões Espírito de Deus, Espírito de Cristo, e Espírito Santo. Há somente um Espírito Santo, da mesma maneira como há somente um Deus e um Filho. Mas o Espírito Santo tem muitos nomes que descrevem seus diversos ministérios. Por que o Espírito é chamado o Espírito de Cristo?
1) Porque ele é enviado em nome de Cristo (João 14:26).
2) Porque ele é o Espírito enviado por Cristo. O Espírito é o princípio da vida espiritual pelo qual os homens são nascidos no reino de Deus. Essa nova vida é comunicada e mantida por Cristo (João 1:12,13; 4:10; 7:38), que também batiza com o Espírito Santo (Mat. 3:11).
(3) O Espírito Santo é chamado Espírito de Cristo porque sua missão especial nesta época é a de glorificar a Cristo (João 16:14). Sua obra especial acha-se em conexão com aquele que viveu, morreu, ressuscitou e ascendeu ao céu. Ele torna real nos crentes o que Cristo fez por eles.
4) O Cristo glorificado está presente na igreja e nos crentes pelo Espírito Santo. Ouve-se sempre que o Espírito veio tomar o lugar de Cristo, mas é mais correto dizer que ele veio tornar real a Cristo. O Espírito Santo torna possível e real a onipresença de Cristo no mundo (Mat. 18:20) e sua habitação nos crentes. A conexão entre Cristo e o Espírito é tão íntima, que se diz que tanto Cristo como também o Espírito habitam no crente (Gal. 2:20; Rom. 8:9,10); e o crente está tanto "em Cristo" como "no Espírito". Graças ao Espírito Santo, a vida de Cristo torna-se a nossa vida em Cristo.
(c) O Consolador. Esse é o título
dado ao Espírito no Evangelho de João, capítulos 14 a 17. Um estudo de
fundo histórico destes capítulos revelará o significado do dom. Os
discípulos haviam tomado sua última ceia com o Mestre. Os seus
corações estavam tristes pensando na sua partida, e estavam oprimidos
pelo sentimento de fraqueza e debilidade. Quem nos ajudará quando
ele partir? Quem nos ensinará e nos guiará ? Quem estará
conosco quando pregarmos e ensinarmos? Como poderemos enfrentar um
mundo hostil? Cristo aquietou esses temores infundados com esta promessa: "Eu
rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco
para sempre" (João 14:16). A palavra "Consolador"
("parácleto", no grego) significa alguém chamado para ficar ao lado
de outrem, com o propósito de ajudá-lo em qualquer eventualidade, especialmente
em processos legais e criminais. Era costume nos tribunais antigos, as
partes aparecerem no tribunal assistidas por um ou mais dos seus
amigos mais prestigiosos, que no grego chamavam, "parácleto", e
em latim, "advocatus". Estes assistiam seus amigos, não pela recompensa
ou remuneração, mas por amor e consideração; a vantagem da sua presença
pessoal era a ajuda dos seus sábios conselhos. Eles orientavam seus amigos
quanto ao que deviam dizer e fazer; falavam por eles; representavam-nos, faziam
da causa de seus amigos sua própria causa; amparavam-nos nas provas,
dificuldades, e perigos da situação. Foi essa também a relação do Senhor
Jesus com seus discípulos durante seu ministério na terra, e naturalmente
eles sentiam tristeza ao pensarem na sua partida. Mas ele os consolou com
a promessa de outro Consolador que seria seu defensor, seu ajudador e
instrutor durante a sua ausência. O Espírito Santo é chamado "outro"
Consolador porque seria ele, em forma invisível aos discípulos, justamente o
que Jesus lhes havia sido em forma visível. A palavra "outro" faz
distinção entre o Espírito Santo e Jesus; no entanto, coloca-os no mesmo nível.
Jesus enviou o Espírito; mas, Jesus vem espiritualmente a seus discípulos
pelo Espírito. O Espírito Santo é o sucessor de Cristo como também a sua
Presença. O Espírito Santo torna possível e real a presença continua
de Cristo na igreja. É ele quem faz com que a pessoa de Cristo habite
nos crentes de maneira que possam dizer como Paulo: "Cristo vive em
mim." Por conseguinte, é a vida de Cristo, sua natureza, seus
sentimentos e suas virtudes que o Espírito comunica aos crentes. É segundo
a semelhança de Cristo que ele os transforma, segundo o modelo que Cristo
nos deixara. Sem Cristo o Espírito não tem nada a produzir no coração do
crente. Se eliminasse a Cristo e sua Palavra, seria como remover do
estúdio do fotógrafo a pessoa a ser fotografada, cujas feições a luz não
fixaria na chapa, por estar a pessoa ausente. A vinda do Consolador
não significa que Cristo cessasse de ser Ajudador e Advogado do
seu povo. João nos informa que ele ainda desempenha esse oficio (1
João 2:1). Cristo, cuja esfera de ação é no céu, defende os discípulos
contra as acusações do "acusador dos irmãos". Ao mesmo tempo o
Espírito, cuja esfera de ação é na terra, faz calar os adversários da igreja
pela vitória da fé que vence o mundo. Assim como Cristo é Parácleto no
céu, assim o Espírito é Parácleto na terra. O Cristo glorificado não
somente envia o Espírito mas também se manifesta por meio do Espírito. Na
carne ele podia estar somente em um lugar de cada vez; na sua vida
glorificada ele é onipresente pelo Espírito. Durante sua vida terrestre,
não habitava no interior dos homens; pelo Espírito ele pode habitar na
profundidade de suas almas. Certo escritor esclareceu essa verdade da seguinte
maneira: Se ele tivesse permanecido na terra em sua vida física, ele teria sido
somente um exemplo a ser copiado; mas, desde que subiu a seu Pai e enviou
o seu Espírito, então ele representa uma vida a ser vivida. Se tivesse
permanecido visível e tangível conosco, sua relação para conosco seria
meramente como o modelo é para o artista que esculpe o mármore, mas não seria
como a idéia e a inspiração que produzem a verdadeira obra de arte. Se tivesse
permanecido na terra, ele teria sido o objeto de prolongada observação de
estudo cientifico, e sempre teria estado fora de nós, externo para nós: uma voz
externa, uma vida externa, um exemplo externo... mas graças a seu
Espírito, agora ele pode viver em nós como a verdadeira Alma da nossa alma,
o verdadeiro Espírito do nosso espírito, a Verdade da nossa mente, o Amor
do nosso coração, e o Desejo da nossa Vontade. Se a atuação do Espírito é
comunicar a obra do Filho, que vantagem haveria na partida de um a fim de
fazer possível a vinda do outro? Resposta: não é o Cristo terreno que o
Espírito comunica, mas o Cristo celestial — o Cristo reinvestido de seu
poder eterno, revestido de gloria celestial. O Dr. A. J. Gordon
empregou a seguinte ilustração: é como se um pai, cujo parente
tivesse falecido, dissesse a seus filhos: "Somos pobres, mas
tornei-me herdeiro de um parente rico. Se vocês estão dispostos a
me deixarem ausentar de casa a fim de ir além-mar para receber
a herança, enviarei a vocês mil vezes mais do que poderia dar
se permanecesse com vocês. A vida de Cristo na terra representa os dias de
sua pobreza (2 Cor. 8:9) e humilhação; na cruz ele ganhou as riquezas de sua
graça (Efés 1:7); no trono assegurou as riquezas da sua gloria. (Efés.
3:16). Depois da sua ascensão ao Pai, ele enviou o Espírito para comunicar
as riquezas da sua herança. Pela sua ascensão, Cristo teria mais para
oferecer, e a igreja teria mais para receber. (João 16:12; 14:12.) "O
rio da vida disporá de mais força em razão da fonte mais elevada da qual
procede." O consolador ensina somente as coisas de Cristo, no entanto,
ensina mais do que Cristo ensinou. Até a Crucificação, a
Ressurreição e a Ascensão, o conjunto da doutrina cristã ainda
estava incompleto e, portanto, não poderia ser plenamente comunicado aos
discípulos de Cristo. Em João 16:12,13, é como se Jesus dissesse:
"Tenho-vos encaminhado um pouco no conhecimento da minha doutrina;
ele vos conduzirá até ao fim do caminho." A ascensão teve por finalidade
trazer maior comunicação da verdade como também maior comunicação de
poder.(d) Espírito Santo. Ele é chamado santo, porque é o Espírito do Santo, e porque sua obra principal é a santificação. Necessitamos dum Salvador por duas razões: para fazer alguma coisa por nós, e alguma coisa em nós. Jesus fez o primeiro ao morrer por nós; e pelo Espírito Santo ele habita em nós, transmitindo às nossas almas a sua vida divina. O Espírito Santo veio para reorganizar a natureza do homem e para opor-se a todas as suas tendências más.
(e) Espírito da promessa. O Espírito Santo é chamado assim porque sua graça e seu poder são umas das bênçãos principais prometidas no Antigo Testamento. (Ezeq. 36:7; Joel 2:28.) A prerrogativa mais elevada de Cristo, ou o Messias, era a de conceder o Espírito, e esta prerrogativa Jesus a reivindicou quando disse: "Eis que sobre vos envio a promessa de meu Pai" (Luc. 24:49; Gál. 3:14).
(f) Espírito da verdade. O propósito da Encarnação foi revelar o Pai; a missão do Consolador é revelar o Filho. Ao contemplar-se um quadro a óleo, qualquer pessoa notará muita beleza de cor e forma; mas para compreender o significado intrínseco do quadro e apreciar o seu verdadeiro propósito precisará de um intérprete experiente. O Espírito Santo é o Intérprete de Jesus Cristo. Ele não oferece uma nova e diferente revelação, mas abre as mentes dos homens para verem o mais profundo significado da vida e das palavras de Cristo. Como o Filho não falou de si mesmo, mas falou o que recebeu do Pai, assim o Espírito não fala de si mesmo, como se fosse fonte independente de conhecimento, mas declara o que ouviu daquela vida íntima da Divindade.
(g) Espírito da graça. (Heb. 10:29; Zac. 12:10.) O Espírito Santo dá graça ao homem para que se arrependa, quando peleja com ele; concede o poder para santificação, perseverança e serviço. Aquele que trata com desdém ao Espírito da graça, afasta o único que pode tocar ou comover o coração, e assim se separa a si mesmo da misericórdia de Deus.
(h) Espírito da vida. (Rom. 8:2; Apoc. 11:11.) Um credo antigo dizia: "creio no Espírito Santo, o Senhor, e Doador da vida." O Espírito é aquela Pessoa da Divindade cujo oficio especial é a criação e a preservação da vida natural e espiritual.
(i) Espírito de adoção; (Rom. 8:15.) Quando a pessoa é salva, não somente lhe é dado o nome de filho de Deus, e adotada na família divina, mas também recebe "dentro de sua alma o conhecimento de que participa da natureza divina. Assim escreve o bispo Andrews: "Como Cristo é nossa testemunha no céu, assim aqui na terra o Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus"
2. Símbolos do espírito.
Alguém disse: "as palavras são veículos inadequados para transmitir a verdade. Quando muito, apenas revelam a metade das profundidades do pensamento". Deus achou por bem ilustrar com símbolos o que de outra maneira, devido à pobreza de linguagem humana, nunca poderíamos saber. Os seguintes símbolos são empregados para descrever as operações do Espírito Santo:
(a) Fogo. (Isa. 4:4; Mat. 3:11; Luc. 3:16.) O fogo ilustra a limpeza, a purificação, a intrepidez ardente, e o zelo produzido pela unção do Espírito. O Espírito é comparado ao fogo porque o fogo aquece, ilumina, espalha-se e purifica. (Vide Jer. 20:9.)
(b) Vento. (Ezeq. 37:7-10: João 3:8; Atos 2:2.) O vento simboliza a obra regeneradora do Espírito e é indicativo da sua misteriosa operação independente, penetrante, vivificante e purificante.
(c) água. (Êxo. 17:6; Ezeq. 36:25-27; 47:1; João 3:5; 4:14; 7:38, 39.) O Espírito é a fonte da água viva, a mais pura, e a melhor, porque ele é um verdadeiro rio de vida — inundando as nossas almas, e limpando a poeira do pecado. O poder do Espírito opera no reino espiritual o que a água faz na ordem material. A água purifica, refresca, sacia a sede, e torna frutífero o estéril. Ela purifica o que está sujo e restaura a limpeza. É um símbolo adequado da graça divina que não somente purifica a alma mas também lhe acrescenta a beleza divina. A água é um elemento indispensável na vida física; o Espírito Santo é um elemento indispensável na vida espiritual. Qual é o significado da expressão "água viva"? é viva em contraste com as águas fétidas de cisternas e brejos: é água que salta, correndo sempre da sua fonte, sempre evidenciando vida. Se essa água for detida num reservatório, interrompida sua corrente, separada da sua fonte, já não se pode dizer que é água viva. Os cristãos têm a "água viva" na proporção em que estiverem em contato com a fonte divina em Cristo.
(d) Selo. (Efés. 1:13; 2 Tim. 2:19.) Essa ilustração exprime os seguintes pensamentos:
1) Possessão. A impressão dum selo dá a entender uma relação com o dono do selo, e é um sinal seguro de algo que lhe pertence. Os crentes são propriedade de Deus, e sabe-se que o são pelo Espírito que neles habita. O seguinte costume era comum em Éfeso no tempo de Paulo. Um negociante ia ao porto selecionar certa madeira e então a marcava com seu selo — um sinal de reconhecimento da possessão. Mais tarde mandava seu servo com o selo, e ele trazia a madeira que tivesse a marca correspondente. (Vide 2 Tim. 2: 19.)
2) A idéia de segurança também está incluída. (Efés. 1:13. Vide Apo. 7:3.) O Espírito inspira um sentimento de segurança e certeza no coração do crente. (Rom. 8:16). Ele é o penhor ou as primícias da nossa herança celestial, uma garantia da glória vindoura. Os crentes têm sido selados, mas devem ter cuidado que ao façam alguma coisa que destrua a impressão do selo. (Efés. 4:30.)
(e) Azeite. O azeite é, talvez, o mais comum e mais conhecido símbolo do Espírito. Quando se usava o azeite no ritual do Antigo Testamento, falava-se de utilidade, frutificação, beleza, vida e transformação. Geralmente era usado como alimento, para iluminação, lubrificação, cura, e alivio da pele. Da mesma maneira, na ordem espiritual, o Espírito fortalece, ilumina, liberta, cura e alivia a alma.
(f) Pomba. A pomba, como símbolo, significa brandura, doçura, amabilidade, inocência, suavidade, paz, pureza e paciência. Entre os sírios é emblema dos poderes vivificantes da natureza. Uma tradição judaica traduz Gên. 1:2 da seguinte maneira. "O Espírito de Deus como pomba pousava sobre as águas." Cristo falou da pomba como a encarnação da simplicidade, uma das belas características dos seus discípulos.
II. O Espírito no Antigo Testamento
O Espírito Santo é revelado no Antigo Testamento de três maneiras: primeira, como Espírito criador ou cósmico, por cujo poder o universo e todos os seres foram criados; segunda, como o Espírito dinâmico ou doador de poder; terceira, como Espírito regenerador, pelo qual a natureza humana é transformada.
1. Espírito criador.
O Espírito Santo é a terceira Pessoa da Trindade por cujo poder o universo foi criado. Ele pairava por sobre a face das águas e participou da glória da criação. (Gên. 1:2; Jo 26:13; Sal. 33:6; 104:30.) O Dr. Denio escreve: O Espírito Santo, como Divindade inseparável em toda a criação, manifesta sua presença pelo que chamamos as leis da natureza. Ele é o princípio da ordem e da vida, o poder organizador da natureza criada. Todas as forças da natureza são apenas evidências da presença e operação do Espírito de Deus. As forças mecânicas, a ação química, a vida orgânica nas plantas e nos animais, a energia relativa à ação nervosa a inteligência e a conduta moral são apenas evidências da imanência de Deus, da qual o Espírito Santo é o agente. O Espírito Santo criou e sustenta o homem. (Gên. 2:7; Jo 33:4.)
Toda pessoa, seja ou não servo de Deus, é sustentada pelo poder criador do Espírito de Deus. (Dan. 5:23; Atos 17:28.) A existência do homem é como o som da tecla do harmônio que dura tão-somente enquanto o dedo do artista a comprime. O homem deve a sua existência e a continuação desta às "duas mãos de Deus", isto é, o Verbo (João 1:1-3), e o Espírito. Foi a esses que Deus se dirigiu dizendo: "Façamos o homem."
2. Espírito dinâmico que produz.
O Espírito Criador criou o homem a fim de formar uma sociedade governada por Deus; em outras palavras, o reino de Deus. Depois que entrou o pecado e a sociedade humana foi organizada à parte de Deus e em oposição à sua pessoa, Deus começou de novo ao chamar o povo de Israel, organizando-o sob suas leis, e assim constituindo-o como reino de Jeová . (2 Crôn. 13:8.) Ao estudar a história de Israel lemos que o Espírito Santo inspirou certos homens para governar e guiar os membros desse reino e para dirigir seu progresso na vida de consagração. A operação dinâmica do Espírito criou duas classes de ministros: primeira, obreiros para Deus — homens de ação, organizadores, executivos; segunda, locutores para Deus — profetas e mestres.
(a) Obreiros para Deus. Como exemplos de obreiros inspirados pelo Espírito, mencionamos Josué (Num. 27:8-21); Otoniel (Juízes 3:9-10; José (Gên.41:38-40); Bezaleel (Êxo. 35:30-31); Moisés (Num. 11:16,17); Gideão (Jui. 6:34), Jefté (Jui 11:29); Sansão (Jui. 13:24,25); Saul (1 Sam. 10:6). É muito provável que, à luz desses exemplos, os dirigentes da igreja primitiva insistissem em que aqueles que serviam às mesas deviam ser cheios do Espírito Santo (Atos 6:3).
(b) Locutores de Deus. O profeta de Israel, podemos dizer, era um locutor de Deus — um que recebia mensagens de Deus e as entregava ao povo. Ele estava cônscio do poder celestial que descia sobre ele de tempos em tempos capacitando-o para pronunciar mensagens não concebidas por sua própria mente, característica que o distinguia dos falsos profetas. (Ezeq. 13:2.) A palavra "profeta" indica inspiração, originada duma palavra que significa "borbulhar" — um testemunho à eloqüência torrencial que muitas vezes manava dos lábios dos profetas. (Vide João 7:38.)
1) As expressões empregadas para descrever a maneira como lhes chegava a inspiração mostram que essa inspiração era repentina e de modo sobrenatural. Ao referirem-se à origem de seu poder, os profetas diziam que Deus "derramou" seu Espírito, "pôs seu Espírito sobre eles", "deu" seu Espírito, "encheu-os do seu Espírito", e "pôs seu Espírito" dentro deles. Descreveram a variedade de influência, declaram que o Espírito "estava sobre eles", "descansava sobre eles", e os "tomava". Para indicar a influência exercida sobre eles, diziam que estavam "cheios do Espírito", "movidos" pelo Espírito, "tomados" pelo Espírito, e que o Espírito falava por meio deles.
2) Quando um profeta profetizava, às vezes estava em estado conhecido como "êxtase" — estado pelo qual a pessoa fica elevada acima da percepção comum e introduzida num domínio espiritual, no domínio profético. Ezequiel disse: "A mão do Senhor (o poder do Senhor Deus) caiu sobre mim ... e o Espírito me levantou entre a terra e o céu, e me trouxe a Jerusalém em visões de Deus" (Ezeq. 8:1-3). É muito provável que Isaias estivesse nessa condição quando viu a glória de Jeová (Isa. 6). João o apóstolo declara que foi "arrebatado em espírito no dia do Senhor" (Apo.?. Vide Atos 22:17.) As expressões usadas para descrever a inspiração e o êxtase dos profetas são semelhantes àquelas que descrevem a experiência do Novo Testamento de "ser cheio" ou "batizado" com o Espírito. (Vide o livro de Atos.) Parece que nessa experiência o Espírito tem um impacto tão direto sobre o espírito humano, que a pessoa fica como que arrebatada a uma experiência na qual pronuncia uma linguagem extática.
3) Os profetas nem sempre profetizavam em estado extático; a expressão "veio a Palavra do Senhor" dá a entender que a revelação veio por uma iluminação sobrenatural da mente. A mensagem divina pode ser recebida e entregue em qualquer das duas maneiras.
4) O profeta não exercia o dom à sua discrição; a profecia não foi produzida "por vontade de homem" (2 Ped. 1:21). Jeremias disse que não sabia que o povo estava maquinando contra ele (Jer. 11:19). Os profetas nunca supuseram, nem tampouco os israelitas jamais creram, que o poder profético fosse privilégio de algum homem como dom permanente e sem interrupção para ser usado à sua própria vontade. Entenderam que o Espírito era um agente pessoal e, portanto, a inspiração era proveniente da soberana vontade de Deus. Os profetas podiam, porém, pôr-se numa condição de receptividade ao Espírito (2 Reis 3:15), e em tempos de crise podiam pedir direção a Deus.
3. Espírito regenerador.
Consideraremos as seguintes verdades relativas ao Espírito regenerador. Sua presença é registrada no Antigo Testamento, porém não é acentuada; seu derramamento é descrito, principalmente como uma bênção futura, em conexão com a vinda do Messias; e mostra características distintas.
(a) Operativo mas não acentuado. O Espírito Santo no Antigo Testamento é descrito como associado à transformação da natureza humana. Em Isa. 63:10,11 faz-se referência ao êxodo e à vida no deserto. Quando o profeta diz que Israel contristou o seu santo Espírito, ou quando se diz que deu seu "bom Espírito" para os instruir (Nee. 9:20), refere-se ao Espírito como quem inspira a bondade. (Vide Sal. 143:10.) Davi reconhecia o Espírito como presente em toda a parte, aquele que esquadrinha os caminhos dos homens, e revela, à luz de Deus, os esconderijos mais escuros de suas vidas. Depois de cometer seu grande pecado, Davi orou para que o Espírito Santo de Deus, a Presença santificadora de Deus, aquele Espírito que influencia o caráter, não lhe fosse tirado (Sal. 51:11). Esse aspecto, porém, da obra do Espírito não é acentuado no Antigo Testamento. O nome Espírito Santo ocorre somente três vezes no Antigo Testamento, mas oitenta e seis no Novo, sugerindo que no Antigo Testamento a ênfase está sobre operações dinâmicas do Espírito, enquanto no Novo Testamento a ênfase está sobre o seu poder santificador.
(b) Sua concessão representa uma bênção futura. O derramamento geral do Espírito como fonte de santidade é mencionado como acontecimento do futuro, uma das bênçãos do prometido reino de Deus. Em Israel o Espírito de Deus era dado a certos lideres escolhidos, e indubitavelmente quando havia verdadeira piedade, tal se devia à obra do seu Espírito. Mas em geral, a massa do povo inclinava-se para o paganismo e para a iniqüidade. Embora de tempos em tempos fossem reavivados pelo ministério de profetas e reis piedosos, era evidente que a nação era má de coração e que era necessário um derramamento geral do Espírito para que voltassem a Deus. Tal derramamento foi predito pelos profetas, que falaram que o Espírito Santo seria derramado sobre o povo numa medida sem precedentes. Jeová purificaria os corações do povo, poria seu Espírito dentro deles, e escreveria a sua lei em seu interior. (Ezeq. 36:25-29; Jer. 31:34.) Nesses dias o Espírito seria derramado com poder sobre toda a carne (Joel 2:28), isto é, sobre toda a classe e condição de homens, sem distinção de idade, sexo e posição. A oração de Moisés de que "todo o povo do Senhor fosse profeta" seria então cumprida (Num. 11:29). Como resultado, muitos seriam convertidos, porque "todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo" (Joel 2:32). A característica que distinguia o povo de Deus sob a velha dispensação era a possessão e revelação da lei de Deus; a característica que distingue seu povo sob a nova dispensação é a escrita da lei e a morada do Espírito em seus corações.
(c) Em conexão com a vinda do Messias, o grande derramamento do Espírito Santo teria por ponto culminante a Pessoa do Messias-Rei, sobre o qual o Espírito de Jeová repousaria permanentemente na qualidade de Espírito de sabedoria e entendimento, de conhecimento e temor santo, conselho e poder. Ele seria o Profeta perfeito que proclamaria as Boas-Novas de libertação, de cura divina, de consolo e de gozo. Qual é a conexão entre esses dois grandes eventos proféticos? Será a vinda do Ungido e a efusão universal do Espírito Santo? João Batista respondeu quando interrogado: "Eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem apos mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo." Em outras palavras, o Messias é o Doador do Espírito Santo. Foi isso que o assinalou como o Messias ou o Fundador do Reino de Deus. A grande bênção da nova época seria o derramamento do Espírito e foi o mais elevado privilégio do Messias, o de conceder o Espírito. Durante seu ministério terrestre Cristo falou do Espírito como o melhor dom do Pai (Luc. 11:13); ele convidou os sedentos espiritualmente a virem beber, oferecendo-lhes abundante abastecimento da água da vida; em seus discursos de despedida prometeu enviar o Consolador a seus discípulos. Notem especialmente a conexão do dom com a obra redentora de Cristo. A concessão do Espírito está associada com a partida de Cristo (João 16:7) e sua glorificação (João 7:39), o que implica sua morte (João 12: 23, 24; 13:31, 33; Luc.24:49). Paulo claramente declara essa conexão em Gál. 3:13,14; 4:4-6 e Efés. 1:3, 7:13, 14.
(d) Exibindo características especiais. Talvez este seja o lugar de inquirir acerca do significado da declaração: "porque o Espírito Santo ainda não fora dado, por ainda Jesus não ter sido glorificado". João certamente não queria dizer que nos tempos do Antigo Testamento ninguém haja experimentado manifestações do Espírito; todo judeu sabia que as poderosas obras dos dirigentes de Israel e as mensagens dos profetas eram provenientes das operações do Espírito de Deus. Evidentemente ele se refere a certos aspectos da obra do Espírito que não eram conhecidos nas dispensações anteriores. Quais são, então, as características distintas da obra do Espírito na presente dispensasão?
1) O Espírito ainda não havia sido dado como o Espírito do Cristo crucificado e glorificado. Essa missão do Espírito não podia iniciar-se enquanto a missão do Filho não terminasse; Jesus não podia manifestar-se no Espírito enquanto estivesse em carne. O dom do Espírito não podia ser reivindicado por ele a favor dos homens enquanto ele não assumisse sua posição de Advogado dos homens na presença de Deus. Quando Jesus falou, ainda não havia no mundo uma força espiritual como a que foi inaugurada no dia de Pentecoste e que posteriormente cobriu toda a terra como uma grande enchente. Porque Jesus ainda não havia subido aonde estivera antes da encarnação (João 6:62), e ainda não estivera com o Pai (João 16:7; 20:17), não podia haver uma presença espiritual universal antes que fosse retirada a presença na carne, e o Filho do homem fosse coroado na sua exaltação à destra de Deus. O Espírito foi guardado nas mãos de Deus aguardando esse derramamento geral, até que o Cristo vitorioso o reivindicasse a favor da humanidade.
2) Nos tempos do Antigo Testamento o Espírito não era dado universalmente, mas, de modo geral limitado a Israel, e concedido segundo a soberana vontade de Deus a certos indivíduos, como sejam: profetas, sacerdotes, reis e outros obreiros em seu reino. Mas na presente época ou dispensação o Espírito está ao dispor de todos, sem distinção de idade, sexo ou raça. Nesta relação nota-se que o Antigo Testamento raramente se refere ao Espírito de Deus pela breve designação "o Espírito". Lemos acerca do "Espírito de Jeová " ou "Espírito de Deus". Mas no Novo Testamento o título breve o "Espírito" ocorre com muita freqüência, sugerindo que suas operações já não são manifestações isoladas, mas acontecimentos comuns.
3) Alguns eruditos crêem que a concessão do Espírito nos tempos do Antigo Testamento não envolve a morada ou permanência do Espírito, que é característica do dom nos tempos do Novo Testamento. Eles explicam que a palavra "dom", implica possessão e permanência, e que nesse sentido não havia Dom do Espírito no Antigo Testamento. É certo que João Batista foi cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe e isso implica uma unção permanente. Talvez esse e outros casos semelhantes poderiam ser considerados como exceções à regra geral. Por exemplo, quando Enoque e Elias foram transladados, foram exceções à regra geral do Antigo Testamento, isto é, a entrada na presença de Deus era por meio do túmulo e do Seol (o reino dos espíritos desencarnados).
III. O Espírito em Cristo.
O Novo Testamento introduz a Dispensação do Espírito, cumprindo-se a promessa de que Deus derramaria do seu Espírito sobre toda a carne, que poria seu Espírito no coração de seu povo, e assim escrevendo suas leis em seu interior. Isso seria feito nos dias do Messias, o qual seria ungido com o Espírito Santo. Por conseguinte, verificamos no Novo Testamento que o Espírito Santo é descrito como: operando sobre, dentro, e por meio de Jesus Cristo. Os títulos, "Espírito de Cristo" e "Espírito de Jesus Cristo", indicam uma relação entre Cristo e o Espírito Santo na qual não participaram os seus discípulos. Por exemplo, não nos atreveríamos a falar do "Espírito de Paulo". Desde o princípio até ao fim de sua vida terrena, o Senhor Jesus esteve intimamente ligado ao Espírito Santo. Tão íntima foi esta relação que Paulo descreve a Cristo como "um Espírito vivificante". O significado não é que Jesus é o Espírito, e, sim, que ele dá o Espírito, e através do mesmo Espírito exerce onipresença. O Espírito é mencionado em conexão com as seguintes crises e aspectos do ministério de Cristo:
1. Nascimento.
O Espírito Santo é descrito como o agente na milagrosa concepção de Jesus (Mat. 1.20; Luc. 1:35). Jesus esteve relacionado com o Espírito de Deus desde o primeiro momento da sua existência humana. O Espírito Santo desceu sobre Maria, o Poder do Altíssimo cobriu-a com sua sombra, e àquele que dela nasceu foi dado o direito de ser chamado santo, Filho de Deus. Para João, o precursor, foi suficiente que fosse cheio do Espírito desde o ventre de sua mãe, ao passo que Jesus foi concebido pelo poder do Espírito no ventre, e por essa razão levou tais nomes e títulos que não podiam ser conferidos a João. Deus, operando pelo Espírito, é o Pai da natureza humana de Jesus, no sentido de que sua origem proveniente da substância da Virgem mãe foi um ato divino. O efeito dessa intervenção divina revela-se no estado imaculado de Cristo, sua perfeita consagração, e seu senso permanente da Paternidade de Deus. Enfim, o poder do pecado foi destruído, e Um nascido de mulher, ao mesmo tempo que era homem e santo, era também o Filho de Deus. O segundo Homem é do céu (1 Cor. 15:47). Sua vida era de cima (João 8:23); sua passagem pelo mundo representa a vitória sobre o pecado, e os resultados de sua vida foram a vivificação da raça (1 Cor. 15:45). Aquele que nenhum pecado cometera e que salva o seu povo dos seus pecados, necessariamente teria que ser gerado pelo Espírito Santo.
2. Batismo.
Com o passar dos anos, começou uma nova relação com o Espírito. Aquele que havia sido concebido pelo Espírito e que era cônscio da morada do Espírito divino em sua pessoa, foi ungido com o Espírito. Assim como o Espírito desceu sobre Maria na concepção, assim também no batismo o Espírito desceu sobre o Filho, ungindo-o como Profeta, Sacerdote e Rei. A primeira operação santificou sua humanidade; a segunda consagrou sua vida oficial. Assim como sua concepção foi o princípio da sua existência humana, assim também seu batismo foi o princípio de seu ministério ativo.
3. Ministério.
Logo foi levado pelo Espírito ao deserto (Mar. 1:12) para ser tentado por Satanás. Ali ele venceu as sugestões do príncipe deste mundo, as quais o teriam tentado a fazer sua obra duma maneira egoísta, vangloriosa e num espírito mundano, e a usar seu poder conforme o curso de ação da ordem natural. Ele exerceu seu ministério com o conhecimento íntimo de que o poder divino habitava nele. Sabia que o Espírito do Senhor Deus estava sobre ele para cumprir o ministério predito acerca do Messias (Luc. 4:18); e pelo dedo de Deus expulsou demônios. (Luc. 11:20; vide Atos 10:38.) Ele testificou do fato que o Pai, que estava nele, era quem operava as obras milagrosas.
4. Crucificação.
O mesmo Espírito que o conduziu ao deserto e o sustentou ali, também lhe deu força para consumar seu ministério sobre a cruz, onde, "pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus" (Heb. 9:14). Ele foi à cruz com a unção ainda sobre ele. O Espírito manteve diante dele as exigências inflexíveis de Deus e o inflamou de amor para com o homem e zelo para com Deus, para prosseguir, apesar dos impedimentos, da dor e das dificuldades, para efetuar a redenção do mundo. O Espírito Santo encheu-lhe a mente de ardor, zelo e amor persistentes, os quais o conduziram a completar seu sacrifício. Seu espírito humano estava de tal modo saturado e elevado pelo Espírito de Deus que vivia no eterno e invisível, e pôde "suportar a cruz, desprezando a afronta" (Heb. 12:2).
5. Ressurreição.
O Espírito Santo foi o agente vivificante na ressurreição de Cristo. (Rom. 1:4; 8:11.) Alguns dias depois desse evento, Cristo apareceu a seus discípulos, soprou sobre eles, e disse: "Recebei o Espírito Santo" (João 20:22; vide Atos 1:2). Essas palavras não podem significar o revestimento de poder pelo qual o Senhor, antes de sua ascensão, lhes havia mandado que esperassem. Alguns eruditos crêem que esse sopro foi meramente um símbolo daquilo que havia de ocorrer cinqüenta dias depois, isto é, um lembrete do Pentecoste vindouro. Outros crêem que algo de positivo foi concedido aos discípulos, nesse ato. Uma comparação com Gên. 2:7 indica que o sopro divino simboliza um ato criador. Mais tarde Cristo é descrito como um espírito vivificante, ou o que dá vida. (1 Cor. 15:45.) é de supor que nessa ocasião o Senhor da vida fizesse conhecer a seus discípulos, por experiência, "o poder de sua ressurreição"? Os onze discípulos seriam enviados ao mundo para cumprirem uma nova missão; continuariam a obra de Cristo. Em si mesmos eram incapazes para tal missão, assim como um corpo inanimado é incapaz de efetuar as funções dum homem vivo. Dai inferimos a necessidade do ato simbólico de dar a vida. Assim como a humanidade antiga recebeu o sopro do Senhor Deus, assim também a nova humanidade recebeu o sopro do Senhor Jesus. Se concedermos que nessa ocasião houve uma verdadeira concessão do Espírito, devemos lembrar, porém, que não foi a Pessoa do Espírito Santo que foi comunicada, mas a inspiração de sua Vida. O Dr. Westcott assim frisa a distinção entre o Dom da Páscoa e o "Dom do Pentecoste": "O primeiro corresponde ao poder da Ressurreição, e o outro ao poder da Ascensão." Isto é, o primeiro é a graça vivificante; o outro é a graça de dotação.
6. Ascensão.
Notem os seguintes três graus na concessão do Espírito a Cristo:
1) Na sua concepção, o Espírito de Deus foi, desde esse momento, o Espírito de Jesus, o poder vivificante e santificador, pelo qual ingressou na sua carreira de Filho do homem e pelo qual viveu até o fim.
2) Com o passar dos anos começou uma nova relação com o Espírito. O Espírito de Deus veio a ser o Espírito de Cristo no sentido de que descansava sobre ele para exercer seu ministério messiânico.
3) Depois da ascensão, o Espírito veio a ser o Espírito de Cristo no sentido de ser concedido a outros. O Espírito veio para habitar em Cristo, não somente para suas próprias necessidades, mas também para que ele o derramasse sobre todos os crentes. (Vide João 1:33 e note-se especialmente a palavra "repousar".) Depois da ascensão o Senhor Jesus exerceu a grande prerrogativa messiânica que lhe foi concedida — enviar o Espírito sobre outros. (Atos 2:33; vide Apo. 5:6.) Portanto, ele concede a bênção que ele mesmo recebeu e desfruta, e nos faz co-participantes com ele mesmo. Assim é que não somente lemos acerca do dom, mas também da "comunhão" do Espírito Santo, isto é, participando em comum do privilégio e da bênção de ser o Espírito de Deus concedido a nós, não somente comunhão dos crentes uns com os outros mas também com Cristo; eles recebem a mesma unção que ele recebeu; é como a unção preciosa sobre a cabeça de Arão, que desceu sobre a barba e até à orla de seus vestidos. Todos os membros do corpo de Cristo, como reino de sacerdotes, participam da unção do Espírito que mana da sua cabeça, nosso grande Sumo Sacerdote que subiu aos céus.
IV. O Espírito na experiência humana.
Esta secção concerne às várias operações do Espírito em relação com os homens.
1. Convicção.
Em João 16:7-11 Jesus descreve a obra do Consolador em relação ao mundo. O Espírito agirá como "promotor de Justiça", por assim dizer, trabalhando para conseguir uma condenação divina contra os que rejeitam a Cristo. Convencer significa levar ao conhecimento verdades que de outra maneira seriam postas em dúvida ou rejeitadas, ou provar acusações feitas contra a conduta. Os homens não sabem o que é o pecado, a justiça e o juízo; portanto, precisam ser convencidos da verdade espiritual. Por exemplo, seria inútil discutir com uma pessoa que declarasse não ver beleza alguma numa rosa, pois sua incapacidade demonstraria falta de apreciação pelo belo. Precisa ser despertado nela um sentido de beleza; precisa ser "convencida" da beleza da flor. Da mesma maneira, a mente e a alma obscurecidas nada discernem das verdades espirituais antes de serem convencidas e despertadas pelo Espírito Santo. Ele convencerá os homens das seguintes verdades:
(a) O pecado de incredulidade. Quando Pedro pregou, no dia de Pentecoste, ele nada disse acerca da vida licenciosa do povo, do seu mundanismo, ou de sua cobiça; ele não entrou em detalhes sobre sua depravação para os envergonhar. O pecado do qual os culpou, e do qual mandou que se arrependessem, foi a crucificação do Senhor da glória; o perigo do qual os avisou foi o de se recusarem a crer em Jesus. Portanto, descreve-se o pecado da incredulidade como o pecado único, porque, nas palavras dum erudito, "onde esse permanece, todos os demais pecados surgem e quando esse desaparece todos os demais desaparecem". É o "pecado mater", porque produz novos pecados, e por ser o pecado contra o remédio para o pecado. Assim escreve o Dr. Smeaton: "Por muito grande e perigoso que seja esse pecado, tal é a ignorância dos homens a seu respeito que sua criminalidade é inteiramente desconhecida até que seja descoberta pela influência do Espírito Santo, o Consolador. A consciência poderá convencer o homem dos pecados comuns, mas nunca do pecado da incredulidade. Jamais homem algum foi convencido da enormidade desse pecado, a não ser pelo próprio Espírito Santo."
(b) A justiça de Cristo. "Da justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis mais" (João 16:10). Jesus Cristo foi crucificado como malfeitor e impostor. Mas depois do dia de Pentecoste, o derramamento do Espírito e a realização do milagre em seu nome convenceram a milhares de judeus de que não somente ele era justo, mas também era a fonte única e o caminho da justiça. Usando Pedro, o Espírito os convenceu de que haviam crucificado o Senhor da Justiça (Atos 2:36, 37), mas também ele lhes assegurou que havia perdão e salvação em seu nome (Atos 2:38).
(c) O juízo sobre Satanás. "E do juízo, porque já o príncipe deste mundo está julgado" (João 16:11). Como se convencerão as pessoas na atualidade de que o crime será castigado? Pela descoberta do crime e seu subseqüente castigo; em outras palavras, pela demonstração da justiça. A cruz foi uma demonstração da verdade de que o poder de Satanás sobre a vida dos homens foi destruído, e de que sua completa ruína foi decretada. (Heb. 2:14,15; l João 3:8; Col. 2:15; Rom. 16:20.) Satanás tem sido julgado no sentido de que perdeu a grande causa, de modo que já não tem mais direito de reter, como escravos, os homens seus súditos. Pela sua morte, Cristo resgatou todos os homens do domínio de Satanás, devendo estes aceitar sua libertação. Os homens são convencidos pelo Espírito Santo de que na verdade são livres (João 8:36). Já não são súditos do tentador; já não são obrigados mais a obedecer-lhe, agora são súditos leais de Cristo, servindo-o voluntariamente no dia do seu poder. (Sal. 110:3.) Satanás alegou que lhe cabia o direito de possuir os homens que pecaram, e que o justo Juiz devia deixá-los sujeitos a ele. O Mediador, por outra parte, apelou para o fato de que ele, o Mediador, havia levado o castigo do homem, tomando assim o seu lugar, e que, portanto, a justiça, bem como a misericórdia, exigiam que o direito de conquista fosse anulado e que o mundo fosse dado a ele, o Cristo, que era o seu segundo Adão e Senhor de todas as coisas. O veredito final divino foi contrário ao príncipe deste mundo — e ele foi julgado. Ele já não pode guardar seus bens em paz visto que Um mais poderoso o venceu. (Luc. 11:21, 22.)
2. Regeneração.
A obra criadora do Espírito sobre a alma ilustra-se pela obra criadora do Espírito de Deus no princípio sobre o corpo do homem.
Voltemos à cena apresentada em Gên. 2:7. Deus tomou o pó da terra e formou um corpo. Ali jazia inanimado e quieto esse corpo. Embora já estando no mundo, e rodeado por suas belezas, esse corpo não reagia porque não tinha vida; não via, não ouvia, não entendia.
Então "Deus soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente". Imediatamente tomou conhecimento, vendo as belezas e ouvindo os sons do mundo ao seu redor. Como sucedeu com o corpo, assim também sucede com a alma. O homem está rodeado pelo mundo espiritual e rodeado por Deus que não está longe de nenhum de nós. (Atos 17:27.) No entanto, o homem vive e opera como se esse mundo de Deus não existisse, em razão de estar morto espiritualmente, não podendo reagir como devia. Mas quando o mesmo Senhor que vivificou o corpo vivifica a alma, a pessoa desperta para o mundo espiritual e começa a viver a vida espiritual. Qualquer pessoa que tenha presenciado as reações dum verdadeiro convertido, conforme a experiência radical conhecida como novo nascimento, sabe que a regeneração não é meramente uma doutrina, mas uma realidade prática.
3. Habitação.
Vide João 14:17; Rom. 8:9; 1Cor. 6:19; 2Tim. 1:14: 1João 2:27; Col. 1:27; 1João 3:24; Apo. 3:20. Deus está sempre e necessariamente presente em toda parte; nele vivem todos os homens; nele se movem e têm seu ser. Mas a habitação interior significa que Deus está presente duma maneira nova, mantendo uma relação pessoal com o indivíduo. Esta união com Deus, que é chamada habitação, morada, é produzida realmente pela presença da Trindade completa, como se poderá ver por um exame dos textos supra citados. Considerando que o ministério especial do Espírito Santo é o de habitar no coração dos homens, a experiência é geralmente conhecida como morada do Espírito Santo.
Muitos eruditos ortodoxos crêem que Deus concedeu a Adão não somente vida física e mental mas também a habitação do Espírito, a qual ele perdeu por causa do pecado. Essa perda atingiu não somente a ele mas também os seus descendentes. Essa ausência do Espírito deixou o homem nas trevas e na debilidade espiritual. Quando, não logo, pouco a pouco, ataca essas falhas, uma após outra, ora estas ora aquelas, entrando nos mínimos detalhes de modo tão cabal que, não podendo escapar à influência do Espírito, um dia esse homem será perfeito, glorificado pelo Espírito, e resplandecente com a vida de Deus".
4. Recebimento dos dons.
Requisitos. Deus é soberano na questão de outorgar os dons; é ele quem decide quanto à classe de dom a ser outorgado. Ele pode conceder um dom sem nenhuma intervenção humana, e mesmo sem a pessoa o pedir. Mas geralmente Deus age em cooperação com o homem, e há alguma coisa que o homem pode fazer nesse caso. Que se requer daqueles que desejam os dons?
(a) Submissão à vontade divina. A atitude deve ser, não o que eu quero, mas o que ele quer. Às vezes queremos um dom extra-ordinário, e Deus pode decidir por outra coisa.
(b) Ambição santa. "Procurai com zelo os melhores dons" (1Cor. 12:31; 14:1). Muitas vezes a ambição tem conduzido as pessoas à ruína e ao prejuízo, mas isso não é razão de não a consagrarmos ao serviço de Deus.
(c) Desejo ardente pelos dons naturalmente resultará em oração, e sempre em submissão a Deus. (Vide 1Reis 3:5-10; 2 Reis 2:9, 10.)
(d) Fé. Alguns têm perguntado o seguinte: "Devemos esperar pelos dons?" Posto que os dons espirituais são instrumentos para a edificação da igreja, parece mais razoável começar a trabalhar para Deus e confiar nele a fim de que conceda o dom necessário para a tarefa particular. Desse modo o professor da Escola Dominical confiará em Deus para a operação dos dons necessários a um mestre; da mesma maneira o pastor, o evangelista e os leigos. Uma boa maneira de conseguir um emprego é ir preparado para trabalhar. Uma boa maneira de receber os dons espirituais é estar "na obra" de Deus, em vez de estar sentado, de braços cruzados, esperando que o dom caia do céu.
(e) Aquiescência. O fogo da inspiração pode ser extinguido pela negligência; daí a necessidade de despertar (literalmente "acender") o dom que está em nos (2Tim. 1:6; 1 Tim. 4:14).
5. A prova dos dons.
As Escrituras admitem a possibilidade da inspiração demoníaca como também das supostas mensagens proféticas que se originam no próprio espírito da pessoa. Apresentamos as seguintes provas pelas quais se pode distinguir entre a inspiração verdadeira e a falsa.
(a) Lealdade a Cristo. Quando estava em Éfeso, Paulo recebeu uma carta da igreja em Corinto contendo certas perguntas, uma das quais era "concernente aos dons espirituais", 1Cor. 12:3 sugere uma provável razão para a pergunta. Durante uma reunião, estando o dom de profecia em operação, ouvia-se uma voz que gritava: "Jesus é maldito." é possível que algum adivinho ou devoto do templo pagão houvesse assistido à reunião, e quando o poder de Deus desceu sobre os cristãos, esses pagãos se entregaram ao poder do demônio e se opuseram à confissão: "Jesus é Senhor", com a negação diabólica: "Jesus é maldito!" A história das missões modernas na China e em outros países oferece casos semelhantes. Paulo imediatamente explica aos coríntios, desanimados e perplexos, que há duas classes de inspiração: a divina e a demoníaca, e explica a diferença entre ambas. Ele lhes lembra os impulsos e êxtases demoníacos que haviam experimentado ou presenciado em algum templo pagão, e assinala que essa inspiração conduz à adoração dos ídolos. (Vide 1Cor. 10:20.) De outra parte, o Espírito de Deus inspira as pessoas a confessarem a Jesus como Senhor. "Portanto, vos quero fazer compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz: Jesus é anátema, e ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor senão pelo Espírito Santo" (1Cor. 12:3; Vide Apo. 19:10; Mat. 16:16, 17; 1João 4:1,2). Naturalmente isso não significa que a pessoa não pode dizer, como um papagaio, que Jesus é Senhor. O sentido verdadeiro é que ninguém pode expressar a sincera convicção sobre a divindade de Jesus sem a iluminação do Espírito Santo. (Vide Rom. 10:9.)
(b) A prova prática. Os coríntios eram espirituais no sentido de que mostravam um vivo interesse nos dons espirituais (1Cor. 12:1; 14:12). Entretanto, embora gloriando-se no poder vivificante do Espírito, parecia haver falta do seu poder santificador. Estavam divididos em facções; a igreja tolerava um caso de imoralidade indescritível; os irmãos processavam uns aos outros nos tribunais; alguns estavam retrocedendo para os costumes pagãos; outros participavam da ceia do Senhor em estado de embriaguez. Podemos estar seguros de que o apóstolo não julgou asperamente esses convertidos, lembrando-se da vileza pagã da qual recentemente haviam sido resgatados e das tentações de que estavam rodeados. Porém ele sentiu que os coríntios deviam ficar impressionados com a verdade de que por muito importantes que fossem os dons espirituais, o alvo supremo de seus esforços devia ser: o caráter cristão e a vida reta. Depois de encorajá-los a que "procurassem os melhores dons" (1Cor. 12.31), ele acrescenta o seguinte: "Eu vos mostrarei um caminho ainda mais excelente." A seguir vem seu sublime discurso sobre o amor divino, a coroa do caráter cristão. Mas aqui devemos ter cuidado de distinguir as coisas que diferem entre si. Aqueles que se opõem ao falar em línguas (que são antibíblicos em sua atitude, 1Cor. 14:39), afirmam que se faria melhor buscar o amor, que é o dom supremo. Eles são culpados de confundir os pensamentos. O amor não é um dom, mas um fruto do Espírito. O fruto do Espírito é o desenvolvimento progressivo da vida de Cristo enxertada pela regeneração; ao passo que os dons podem ser outorgados repentinamente a qualquer crente cheio do Espírito, em qualquer ponto de sua experiência. O primeiro representa o poder santificador do Espírito, enquanto o segundo implica seu poder vivificante. não obstante, ninguém erra em insistir pela supremacia do caráter cristão. Por muito estranho que pareça, é um fato comprovado que pessoas deficientes na santidade podem exibir manifestações dos dons. Devemos considerar os seguintes fatos:
1) o batismo no Espírito Santo não faz a pessoa perfeita de uma vez. A dotação de poder é uma coisa; a madureza nas graças cristãs é outra. Tanto o novo nascimento como o batismo no Espírito Santo são dons da graça de Deus e revelam sua graça para conosco. Todavia, pode haver a necessidade duma santificação pessoal que se obtenha por meio da operação do Espírito Santo, revelando pouco a pouco a graça de Deus em nós.
2) A operação dos dons não tem um poder santificador. Balaão experimentou o dom profético, embora no coração desejasse trair o povo de Deus por dinheiro.
3) Paulo nos diz claramente da possibilidade de possuir os dons sem possuir o amor. Sérias conseqüências podem sobrevir àquele que exercita os dons à parte do amor. Primeiro, ser uma pedra de tropeço constante para aqueles que conhecem seu verdadeiro caráter; segundo, os dons não lhe são de nenhum proveito. Nenhuma quantidade de manifestações espirituais, nenhum zelo no ministério, nenhum resultado alcançado, podem tomar o lugar da santidade pessoal. (Heb. 12:14.)
(c) A prova doutrinária. O Espírito Santo veio para operar na esfera da verdade com relação à deidade de Cristo e sua obra expiatória. É inconcebível que ele contradissesse o que já foi revelado por Cristo e seus apóstolos. Portanto, qualquer profeta, por exemplo, que negue a encarnação de Cristo, não está falando pelo Espírito de Deus (1João 4:2, 3).
6. Glorificação.
Estará o Espírito Santo com o crente no céu? Ou o Espírito o deixará apos a morte? A resposta é que o Espírito Santo no crente é como uma fonte de água que salta para a vida eterna (João 4:14). A habitação do Espírito representa apenas o princípio da vida eterna, que será consumada na vida vindoura. "A nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a Fé", escreveu Paulo, cujas palavras significam que experimentamos unicamente o princípio duma salvação que ser consumada na vida vindoura. O Espírito Santo representa o começo ou a primeira parte dessa salvação completa. Essa verdade tomará expressão sob estas três ilustrações:
(a) Comercial. O Espírito é descrito como "o penhor da nossa herança, para a redenção da possessão de Deus" (Efés. 1:14; 2Cor. 5:5). O Espírito Santo é a garantia de que a nossa libertação ser completa. é mais do que penhor; é a primeira prestação dada com antecedência, como garantia de que se completar o resto.
(b) Agrícola. O Espírito Santo representa as primícias da vida futura. (Rom. 8:23.) Quando um israelita trazia as primícias dos seus produtos ao templo de Deus, era esse um modo de reconhecer que tudo pertencia a Deus. A oferta duma parte simbolizava a oferta do todo. O Espírito Santo nos crentes representa as primícias da gloriosa colheita vindoura.
(c) Doméstica. Assim como se dá às crianças uma pequena porção de doce antes do banquete, assim na experiência do Espírito , os crentes por enquanto apenas "provaram... as virtudes do século futuro" (Heb. 6:5). Em Apo. 7:17 lemos que "o Cordeiro que está no meio do trono... lhes servirá de guia para as fontes das águas da vida". Note-se o plural nessas últimas palavras. Na vida vindoura, Cristo será o Doador do Espírito; o mesmo que concedeu uma prova antecipada, conduzirá seus seguidores a novas porções do Espírito e aos meios de graça e enriquecimento espiritual, desconhecidos durante a peregrinação terrena.
7. Pecados contra o Espírito Santo.
As benévolas operações do Espírito trazem grandes bênçãos, mas essas inferem responsabilidades correspondentes. Falando de modo geral, os crentes podem entristecer, mentir à Pessoa do Espírito, e extinguir seu poder. (Efés. 4:30; Atos 5: 3, 4; 1Tess. 5:19.) Os incrédulos podem blasfemar contra a Pessoa do Espírito e resistir ao seu poder. (Atos 7:51; Mat. 12:31,32.) Em cada caso o contexto explicará a natureza do pecado. William Evans assinala que: "resistir tem a ver com a obra regeneradora do Espírito; o entristecer tem a ver com a habitação interna do Espírito Santo, enquanto o extinguir tem a ver com o derramamento para servir."
8. Revestimento de poder.
Nesta seção consideraremos os seguintes fatos concernentes à dotação de poder: seu caráter geral, seu caráter especial, sua evidência inicial, seu aspecto continuo, e a maneira de sua recepção.
(a) Sua natureza geral. As seções anteriores trataram da obra regeneradora e santificadora do Espírito Santo; nesta seção trataremos de outro modo de operação: sua obra vitalizante. Esta última fase da obra do Espírito é apresentada na promessa de Cristo: "Mas recebereis a virtude do Espírito, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas" (Atos 1:8).
1) A característica principal dessa promessa é poder para servir e não a regeneração para a vida eterna. Sempre que lemos acerca do Espírito vindo sobre, repousando sobre, ou enchendo as pessoas, a referência nunca é à obra salvadora do Espírito, mas sempre ao poder para servir.
2) As palavras foram dirigidas a homens que já estavam em relação íntima com Cristo. Foram enviados a pregar, armados de poder espiritual para esse propósito (Mat. 10:1); a eles foi dito: "os vossos nomes estão escritos nos céus" (Luc. 10:20); sua condição moral foi descrita nas palavras: "Vos já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado" (João 15:3); sua relação com Cristo foi ilustrada com a figura: "Eu sou a videira, vós as varas" (João 15:5); eles conheciam a presença do Espírito com eles (João 14:17); sentiram o sopro do Cristo ressuscitado e ouviram-no dizer: "recebei o Espírito Santo" (João 20:22). Os fatos acima mencionados demonstram a possibilidade de a pessoa estar em contato com Cristo e ser seu discípulo, e, contudo, carecer do revestimento especial mencionado em Atos 1:8. Pode-se objetar que tudo isso se refere aos discípulos antes do Pentecoste; mas em Atos 8:12-16 temos o caso de pessoas batizadas em Cristo que receberam o dom do Espírito alguns dias depois.
3) Acompanhando o cumprimento dessa promessa (Atos 1:8) houve manifestações sobrenaturais (Atos 2:1-4), das quais, a mais importante e comum foi o milagre de falar em outros idiomas. Que essa expressão oral, sobrenatural, acompanhou o recebimento do poder espiritual é declarado em dois outros casos (Atos 10:44-46; 19:1-6) e infere-se de mais outro caso. (Atos 8:14-19.)
4) Esse revestimento é descrito como um batismo (Atos 1:5). Quando Paulo declara que somente há um batismo (Efés. 4:5), ele se refere ao batismo literal nas águas. Tanto os judeus como os pagãos praticavam as lavagens cerimoniais, e João Batista havia administrado o batismo nas águas para arrependimento; mas Paulo declara que agora somente um batismo é válido diante de Deus, a saber, o batismo autorizado por Jesus e efetuado em nome da Trindade — em outras palavras, o batismo cristão. Quando a palavra "batismo" é aplicada à experiência espiritual, é usada figurativamente para descrever a imersão no poder vitalizante do Espírito Divino. A palavra foi usada figuradamente por Cristo para descrever sua imersão nas inundações de sofrimento. (Mat. 20:22.)
5) Essa comunicação de poder é descrita como ser cheio do Espírito. Aqueles que foram batizados com o Espírito Santo no dia de Pentecoste também foram cheios do Espírito.
(b) Suas características especiais.Os fatos acima expostos nos levam à conclusão de que o crente pode experimentar um revestimento de poder, experiência suplementar e subseqüente à conversão cuja manifestação inicial se evidencia pelo milagre de falar em língua por ele nunca aprendida. A conclusão acima tem sido combatida. Alguns dizem que há muitos cristãos que conhecem o Espírito Santo em seu poder regenerador e santificador, sem terem falado em outras línguas. De fato, o Novo Testamento ensina que a pessoa não pode ser cristã sem ter o Espírito, isto é, ser habitação do Espírito. "Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele" (Rom. 8:9). Que o Espírito de Cristo significa o Espírito Santo, indica-se pelo contexto e se prova por 1 Ped. 1:11 onde a frase "espírito de Cristo" pode referir-se unicamente ao Espírito Santo. Outras referências são citadas para sustentar a mesma verdade. (Rom. 5:5; 8: 14, 16; 1Cor. 6:19; Gal. 4:6; 1João 3:24; 4:13.) Também se afirma que muitos obreiros cristãos têm experimentado unções do Espírito, por meio das quais foram capacitados a ganhar almas para Cristo e fazer outras obras cristãs e, no entanto, esses não falaram em outras línguas. Não se pode negar que existe um verdadeiro sentido no qual todas as pessoas verdadeiramente regeneradas têm o Espírito. Mas como é natural, surge a pergunta: "Que há de diferente e suplementar na experiência chamada batismo no Espírito Santo? Respondemos da seguinte maneira: Há um Espírito Santo, mas muitas operações desse Espírito; assim como há uma eletricidade, mas muitas operações dessa eletricidade, a qual aciona fábricas, ilumina as nossas casas, faz funcionar as geladeiras, e efetua muitos outros trabalhos, da mesma maneira, o mesmo Espírito regenera, santifica, dá vigor, ilumina e reveste de dons especiais. O Espírito regenera a natureza humana na ocasião da conversão; depois, sendo o Espírito de santidade que habita no interior, ele produz o "fruto do Espírito", as características distintivas do caráter cristão. Em certas ocasiões, os crentes fazem uma consagração especial e recebem vitória sobre o pecado, e há conseqüente aumento do gozo e paz, experiência que, às vezes, tem sido chamada "santificação", ou uma "segunda obra da graça". Mas além dessas operações do Espírito Santo, há outra, cujo propósito especial é dar energia à natureza humana para um serviço para Deus, resultando em uma expressão externa dum caráter sobrenatural. Duma maneira geral, S. Paulo se refere a essa expressão exterior como "a manifestação do Espírito" (1Cor. 12:7), talvez em contraste com as operações mais quietas e secretas do Espírito. No Novo Testamento essa experiência é assinalada por expressões como: "descer sobre", "ser derramado" e "ser cheio com", expressões essas que dão a idéia de algo repentino e sobrenatural. Todas essas expressões são usadas em conexão com a experiência conhecida como o batismo no Espírito Santo. (Atos 1:5.) A operação do Espírito Santo descrita por essas expressões é tão distinta de suas manifestações quietas e usuais, que os eruditos criaram uma palavra para descrevê-la. Essa palavra é "carismático", duma palavra grega freqüentemente usada para designar um revestimento especial de poder espiritual. A. B. Bruce, erudito presbiteriano, escreve: A obra do Espírito era entendida como transcendente, milagrosa e carismática. O poder do Espírito Santo em um poder que vinha de fora, produzindo efeitos extraordinários que chamaram a atenção até do observador profano, como Simão o mago. Ao mesmo tempo que reconhece que os cristãos primitivos creram também nas operações santificadoras do Espírito (ele cita Atos 16:14), e sua inspiração de fé, esperança e amor em seus corações, o mesmo escritor conclui: O dom do Espírito Santo veio a significar... o dom de falar em estado de êxtase, e de profetizar com entusiasmo, e curar os doentes pela oração. O ponto que desejamos acentuar é o seguinte: o batismo com o Espírito Santo, que é um batismo de poder, é de caráter "carismático", a julgar pelas descrições dos resultados desse revestimento. Assim, ao mesmo tempo que admitimos livremente que cristãos são nascidos do Espírito, e que obreiros têm sido ungidos com o Espírito, afirmamos que nem todos os cristãos têm experimentado a operação "carismática" do Espírito, acompanhada por expressão oral, o falar repentino e sobrenatural.
(c) Sem evidência inicial. Como sabemos que a pessoa recebeu revestimento "carismático" do Espírito Santo? Em outras palavras: Qual é a evidência de que a pessoa recebeu o batismo no Espírito Santo? A questão não se resolve pelos quatro Evangelhos, porque estes contêm profecias da vinda do Espírito, e uma profecia toma-se clara somente pelo seu cumprimento; nem tampouco se resolve pelas Epístolas, porque em sua maioria são instruções pastorais às igrejas estabelecidas nas quais o poder do Espírito com suas manifestações exteriores era considerado como a experiência normal de todo cristão. É, portanto, evidente que o assunto deve decidir-se pelo livro de Atos dos Apóstolos que registra muitos casos de pessoas que receberam o batismo no Espírito e descreve os resultados que se seguiram. Admitimos que em todos os casos mencionados no livro de Atos, os resultados do revestimento não são registrados; mas onde os resultados que se seguiram são descritos, sempre houve uma expressão imediata, sobrenatural, e exterior, convincente, não somente para quem recebeu, mas também para o povo ouvinte, de que um poder divino dominava essa pessoa; e em todos os casos houve um falar estático numa língua que essa pessoa nunca havia aprendido. Será essa declaração meramente a interpretação particular dum grupo religioso ou é reconhecida por outros grupos? O Dr. Rees, teólogo inglês, de idéias liberais, escreve: A glossolalia (o falar em línguas) era o dom mais conspícuo e popular dos primeiros anos da igreja. Parece que foi o acompanhamento regular e a evidência da descida do Espírito Santo sobre os crentes. O Dr. G. B. Stevens, da Universidade de Yale, em seu livro "Teologia do Novo Testamento", escreve: O Espírito era considerado como dom especial que nem sempre acompanhava o batismo e a fé. Os samaritanos não foram considerados como tendo o Escrito Santo quando creram na Palavra de Deus. Eles haviam crido e foram batizados, mais foi somente quando Pedro e João impuseram as mãos sobre eles que o dom do Espírito foi derramado. Evidentemente, aqui se vê algum revestimento ou experiência especial. Comentando Atos 19:1-7, ele escreve: não somente não receberam o Espírito Santo quando creram, nem mesmo depois que foram batizados em nome de Cristo, nas unicamente quando Paulo impôs as mãos sobre eles é que veio o Espírito Santo e falaram em línguas e profetizaram. Aqui é obvio que o dom do Espírito é considerado como sinônimo do carisma estático (revestimento espiritual) de falar em línguas e profetizar. O Dr. A. B. MacDonald, ministro escocês, presbiteriano, escreve: A crença da igreja acerca do Espírito surgiu dum fato que experimentou. Bem cedo em sua carreira os discípulos notaram um novo poder que operava dentro deles. No princípio, sua manifestação mais extraordinária foi "falar em línguas", o poder de expressão oral extática numa língua não inteligível. Tanto esses que eram tomados por esse poder, como também os que viam e ouviam suas manifestações foram convencidos de que um poder do mundo superior atingira suas vidas, dotando-os de capacidades de expressão e de outros dons, os quais pareciam ser algo diferentes, e não apenas uma intensificação da capacidade que já possuíam. Pessoas que até então não pareciam ser nada além do comum, repentinamente se tornaram capazes de orar e de se expressar veementemente, em atitudes sublimes nas quais era manifesto que conversavam com o Invisível. Ele declara que o falar em línguas "parece ter sido o que mais atraia, e a manifestação mais proeminente do Espírito, no princípio". Há alguma passagem no Novo Testamento em que se faz distinção entre aqueles que receberam o revestimento de poder e aqueles que não o receberam? A. B. MacDonald, o escritor acima citado, responde afirmativamente. Ele assinala que a palavra "indoutos" em 1Cor. 14:16,23 (que ele traduz: "cristão particular") denota pessoas que se diferenciam dos incrédulos pelo fato de tomarem parte no culto e o compreendem até ao ponto de dizerem "Amém"; também são considerados diferentes dos demais crentes pelo fato de não serem capazes de tomar parte ativa nas manifestações do Espírito. Parece que uma área especial do local das reuniões era reservada para os "indoutos" (1Cor. 14:16). Weymouth traduz a palavra "indouto" pela expressão "alguns que carecem do dom". O dicionário grego de Thayer interpreta-a assim: "Um que carece do dom de línguas; um cristão que não é profeta." MacDonald descreve-o como "um que espera, ou que é mantido esperando pelo momento decisivo quando o Espírito desça sobre ele". Não obstante sua denominação ou escola de pensamento teológico, eruditos capazes admitem que a recepção do Espírito na igreja primitiva não era uma cerimônia nem uma teoria doutrinária, mas uma verdadeira experiência. O Cônego Streeter diz que Paulo pergunta aos gálatas se fora pela lei ou pela pregação da fé que haviam recebido o dom do Espírito, "como se a recepção do Espírito fora algo bem definido e perceptível".
(d) Seu aspecto continuo. A experiência descrita pela expressão "cheio do Espírito" está ligada à idéia de poder para servir. Devemos distinguir três fases dessa experiência.
1) A plenitude inicial quando a pessoa recebe o batismo no Espírito Santo.
2) Uma condição habitual indicada pelas palavras "cheios do Espírito Santo" (Atos 6:3; 7:55,11:24), palavras que descrevem a vida diária da pessoa espiritual, cujo caráter revela "o fruto do Espírito". A exortação "enchei-vos do Espírito" refere-se a essa condição habitual.
3) Unções para ocasiões especiais. Paulo estava cheio do Espírito, depois da sua conversão, mas em Atos 13:9 vemos que Deus lhe deu uma unção especial para resistir ao poder maligno dum mago. Pedro foi cheio do Espírito no dia de Pentecoste, mas Deus lhe concedeu uma unção especial quando esteve diante do concilio judaico (Atos 4:8). Os discípulos haviam recebido a plenitude ou o batismo do Espírito Santo no dia de Pentecoste, mas, em resposta à oração, Deus lhes deu uma unção especial para fortalecê-los contra a oposição dos lideres judaicos (Atos 4:31). Como disse o pastor F. B. Meyer, de saudosa memória: Tu podes ser um homem cheio do Espírito Santo quando estás no seio de tua família, mas antes de subires ao púlpito, deves ter a certeza de que estás especialmente equipado com uma nova unção do Espírito Santo.
(e) A maneira de sua recepção. Como poderá a pessoa receber esse batismo de poder?
1) Uma atitude correta é essencial. Os primeiros crentes que receberam o Espírito Santo "perseveraram unânimes em oração e súplicas" (Atos 1:14). O ideal seria a pessoa receber o derramamento de poder imediatamente após a conversão, mas normalmente há várias circunstâncias duma e de outra natureza que tornam necessário algum tempo de espera diante do Senhor.
2) A recepção do dom do Espírito Santo subseqüente à conversão está ligada às orações dos obreiros cristãos. O escritor do livro dos Atos descreve da seguinte maneira as experiências dos convertidos samaritanos, que já haviam crido e haviam sido batizados: "Os quais (Pedro e João), tendo descido, oraram por eles para que recebessem o Espírito Santo... Então lhes impuseram as mãos, e receberam o Espírito Santo" (Atos 8: 15, 17). Weinel, teólogo alemão, fez um estudo minucioso das manifestações espirituais da época apostólica. Ele diz que "o que podem ser chamadas 'reuniões inspiradoras' realizavam-se constantemente até ao segundo século, por muito estranho que isso pareça às pessoas desconhecedoras do assunto". O Espírito Santo, declara ele, veio aos novos conversos pela imposição das mãos e oração e o próprio Espírito operava sinais e maravilhas. "Reuniões inspiradoras" parece tratar-se de cultos especiais para aqueles que desejavam receber o poder do Espírito Santo.
3) O recebimento do poder espiritual está relacionado com as orações em comum da igreja. Depois que os cristãos da igreja em Jerusalém haviam orado a fim de receberem coragem para pregar a Palavra, "moveu-se o lugar em que estavam reunidos; e todos foram cheios do Espírito Santo" (Atos 4:31). A expressão "moveu-se o lugar", significa algo espetacular e sobrenatural que convenceu os discípulos de que o poder que desceu no dia de Pentecoste estava ainda presente na igreja.
4) Um derramamento espontâneo, em alguns casos, pode fazer a oração e o esforço desnecessários, como foi o caso das pessoas que estavam na casa de Cornélio, cujos corações já haviam sido "purificados pela fé" (Atos 10:44; 15:9).
5) Visto que o batismo de poder é descrito como um dom (Atos 10:45), o crente pode requerer diante do trono da graça o cumprimento da promessa de Jesus: "Se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lhe pedirem?" (Luc. 11:13). Certa escola de pensamento teológico ensina que não se deve pedir o Espírito, pela seguinte razão: No dia de Pentecoste o Espírito Santo veio habitar permanentemente na igreja; desde então, todo aquele que é agregado à igreja pelo Senhor, é batizado em Cristo. Por esse mesmo fato participa do Espírito (1Cor. 12:13.). É verdade que o Espírito habita na igreja, mas isso não deve impedir que o crente o peça e o busque. Como ressaltou o Dr. A. J. Gordon, que embora o Espírito fosse dado duma vez para sempre no dia de Pentecoste, isso não significa que todo crente haja recebido o batismo. O dom de Deus requer apropriação. Deus deu (João 3:16), nós devemos receber. (João 1:12.) Como pecadores aceitamos a Cristo; como crentes aceitamos o Espírito Santo. Como há uma fé para com Cristo para a salvação, assim há uma fé para com o Espírito para alcançar poder e consagração. O Pentecoste é uma vez para sempre; o batismo dos crentes é sempre para todos. A limitação de certas e grandes bênçãos do Espírito Santo ao reino ideal chamado "Era Apostólica", não bastante ser conveniente como meio de escapar às supostas dificuldades, pode tomar-se o meio de roubar aos crentes alguns dos seus direitos mais preciosos.
6) Oração individual. Saulo de Tarso jejuou e orou três dias antes de ser cheio do Espírito Santo (Atos 9: 9-17).
7) Obediência. O Espírito Santo é a pessoa que "Deus deu àqueles que lhe obedecem" (Atos 5:32).
Conhecendo as Doutrinas da Bíblia
Myer Pearlman
EM CONSTRUÇÃO



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