O
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enfoque
do presente capítulo é a unicidade do Deus Pai Todo-poderoso e Criador do
universo. A declaração de fé dos ateus é“Deus
não existe”, o oposto da confissão cristã. A Bíblia não é uma apologia à
existência de Deus; não há nela a preocupação em comprovar que Deus existe. A
existência de Deus é um fato consumado, uma verdade primária que não necessita
ser provada, pois Ele transcende à existência. O conhecimento humano sobre a
existência do Criador está na própria intuição e razão no interior das pessoas
(Rm 1.20, 21; 2.14, 15). A Bíblia é a única fonte confiável e confirma a
experiência humana.
Os principais credos ecumênicos apresentam características especiais existentes em Deus. O Credo dos Apóstolos declara: “Creio em Deus Pai Todo-poderoso, Criador do céu e da terra”; da mesma forma o Credo Niceno afirma: “Cremos em um só Deus, Pai Onipotente, Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis”; e o Credo Niceno-Constantinopolitano reafirma a fórmula nicena: “Cremos em um só Deus, o Pai Todo-poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas, visíveis e invisíveis”. Alguns dos antigos credos locais dos primeiros cinco séculos da história da Igreja serviram como a base dessas formulações ecumênicas. Todas essas declarações a respeito de Deus afirmam que Ele é um, exceto o Credo dos Apóstolos, que é Pai Onipotente ou Todo-Poderoso e Criador de todas as coisas. Trata-se da revelação bíblica posta de maneira sistemática. Há nas Escrituras provas abundantes que fundamentam essas declarações dos credos. Muitos outros credos regionais dos cinco primeiros séculos dizem a mesma coisa, empregando, às vezes, fraseologia similar. São informações importantes, pois falam que o nosso Deus é único, que é Pai, que é o Todo-poderoso e Criador de tudo o que há no Universo. Tais declarações nada mais são do que interpretações precisas das Escrituras que serviram para proteger a fé cristã do politeísmo e da idolatria dos gentios e os cristãos das heresias. Isso se reveste de uma importância especial na época, quando os gnósticos ganhavam espaço no seio da Igreja.
O gnosticismo atingiu o apogeu entre 130 e 170 d.C., mas o movimento já existia antes. O termo “gnosticismo” vem do grego gnōsis, que significa “conhecimento”. Trata-se, grosso modo, de um enxerto das filosofias pagãs nas doutrinas vitais do cristianismo. Sua marca registrada era o sincretismo. Suas ideias sobre a identidade de Jesus eram estranhas ao Novo Testamento e as ideais sobre Deus eram ainda mais exóticas. A escola gnóstica de Valentino (aproximadamente 130-170 d.C.) ensinava a existência de inúmeros seres eternos que viviam em perfeita harmonia, sendo o Pai do Universo um deles. Nesse modelo gnóstico, um dos seres eternos, Sofia, “sabedoria” em grego, teria destruído essa harmonia ao criar mundos para si, na tentativa de imitar o pai do Universo, e o resultado foi sua expulsão do reino divino. Essa tentativa resultou no demiurgo, do grego demiurgos, “artesão”, um deus criador inferior que aparece no diálogo de Platão intitulado Timeu. Para os gnósticos, o demiurgo criou o mundo físico. Outra linha de pensamento gnóstica era de Marcião, falecido em 165 d.C. Ele ensinava que o Deus do Antigo Testamento era inferior e até mesmo defeituoso; e dizia ainda que não era esse o mesmo Deus do Novo Testamento. Na sua mensagem, pregava que Jesus revelou um Deus até então desconhecido, por isso todos os cristãos deviam rejeitar tanto o Antigo Testamento quanto o seu Deus. Assim, a declaração “Creio em Deus Pai Todo-poderoso Criador do céu e da terra” é um ato de adoração a Deus a quem damos crédito. A ideia aqui diz respeito “àquele que governa tudo, que controla tudo”, para enfatizar o poder e a soberania de Deus em governar todo o universo. Isso neutralizava o pensamento marcionita que ensinava ser o universo criado e governado por demiurgos, e não pelo grande Deus Javé de Israel, revelado no Antigo Testamento. Paul Tillich, teólogo luterano e filósofo, diz o seguinte sobre as palavras iniciais do Credo dos Apóstolos, o que, sem dúvida, vale também para os outros: “Deveríamos pronunciar essas palavras com grande reverência, porque, por meio dessa confissão, o cristianismo se separou da interpretação dualista da realidade presente no paganismo... O primeiro artigo do Credo é a grande muralha que o cristianismo ergueu contra o paganismo. Sem essa separação a cristologia seria mais do que um dos poderes cósmicos entre outros, embora, talvez, o maior deles” (TILLICH, 2004, p. 41).
O DEUS DAS ESCRITURAS
O Deus da Bíblia é o mesmo Deus dos credos. A diferença está apenas na forma de apresentação, não na essência divina. A Bíblia é a Palavra de Deus para todos os seres humanos; o credo é a resposta do homem a Deus. Assim, os credos em sua forma embrionária estão presentes na Bíblia: “Ouve, Israel, o SENHOR nosso Deus é único SENHOR” (Dt 6.4). Deus é um em essência ou natureza, subsistindo por Si mesmo; só o SENHOR é Deus: “Eu sou o SENHOR, e não há outro; fora de mim não há deus...” (Is 45.5). Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou o monoteísmo como parte do primeiro de todos os mandamentos: “... Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor” (Mc 12.29); “... com verdade disseste que há um só Deus, e que não há outro além dele” (Mc 12.32); “E a vida eterna é esta: que conheçam a ti só por único Deus verdadeiro...” (Jo 17.3).
O apóstolo Paulo declara: “Todavia para nós há um só Deus” (1 Co 8.6); “Ora o medianeiro não é de um só, mas Deus é um” (Gl 3.20); “Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos” (Ef 4.6). “Porque há um só Deus” (1 Tm 2.5). Foi o Senhor Jesus quem revelou Deus aos seres humanos por meio da Bíblia: Mt 11.27; Jo 1.18).
O Deus que Jesus revelou é o Deus de Israel e isso ele deixou claro ao pronunciar o primeiro e grande mandamento: “E Jesus respondeu-lhe: O primeiro de todos os mandamentos é: “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás, pois, ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento” (Mc 12.29, 30). Essa é uma das várias declarações do Novo Testamento que ensina ser o cristianismo monoteísta. A declaração aqui é reveladora porque não deixa dúvida de que o Deus dos cristãos é o mesmo Deus de Israel, pois Jesus citou as palavras diretamente do Antigo Testamento (Dt 6.4-6).
A PATERNIDADE E A ONIPOTÊNCIA DE DEUS
Assim como os antigos credos sintetizam o ensino bíblico sobre a unidade de Deus e o monoteísmo, da mesma forma eles o fazem sobre a paternidade de Deus. Há abundantes declarações na Escrituras sobre a paternidade de Deus.
A figura do pai numa família é conhecida e compreensível em todas as civilizações desde a Antiguidade. Aplicada a Deus, torna-se um recurso extraordinário. Em primeiro lugar, porque mostra a doutrina de Deus não é abstrata (Dt 1.31; Ml 1.6). E não somente isso, pois são os pais que geram os filhos e são responsáveis por seu bem-estar, sustento, alimentação, vestimentas, saúde, educação e segurança. Essa manifestação de afeto e carinho acontece de maneira natural e ao mesmo tempo misteriosa. É a melhor e a mais perfeita maneira de ilustrar e explicar o grande amor de Deus pelo ser humano.
A quem se refere à expressão “Deus Pai Todo-poderoso” ou fraseologia similar nos antigos credos? Os antigos intérpretes e exegetas tomaram essas palavras desde muito cedo em relação especial à santíssima Trindade: “o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Pe 1.3); “porque a este o Pai, Deus, o selou” (Jo 6.27). Mas Deus como Pai na Bíblia tem significado mais abrangente. O título “Pai” no Antigo Testamento se refere aos filhos de Israel, denota relação mediante aliança, concerto (Jr 31.9; Ml 2.10), de maneira coletiva, a Israel no todo (Êx 4.22; Os 11.1), às pessoas como seus filhos (Is 1.2; 30.1; 45.11; Jr 3.22) e ao Ungido Rei, o Messias (2 Sm 7.14; Sl 2.7; 89.27). No Novo Testamento, é frequente a frase “o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 15.6; 2 Co 1.3; 11.31; Ef 1.3) e fraseologia similar (Cl 1.3), e também “nosso Deus e Pai” ou “Pai nosso” (1 Co 8.6; 1 Ts 3.11, 13; 2 Ts 2.16), principalmente nas introduções das epístolas paulinas (1 Co 1.3; Gl 1.4; Ef 1.2; Fp 1.2; Cl 1.2).
Jesus nos tornou filhos de Deus por adoção, razão pela qual temos a liberdade e o direito de chamá-lo de Pai (Mt 6.13; Jo 1.12). A palavra aramaica abba, “aba”, ou, literalmente, “papai”, demonstra uma relação de intimidade dos crentes em Jesus com Deus (Rm 8.15; Gl 4.6). A ideia de que Deus é o Pai de todos os seres humanos é biblicamente válida por causa da criação (At 17.28, 29; Ef 4.6), mas isso não implica relação pessoal ou espiritual. No evangelho de João, o termo grego patēr, “pai”, aparece 136 vezes, e 120 delas se referem a Deus. Nos evangelhos sinópticos, essa referência a Deus é bem menor, mas permanece a mesma ideia.
O título de “Pai” se diferencia dos demais títulos e funções de Deus porque nunca se aplica a Jesus nem ao Espírito Santo. Há uma vasta lista de atributos, títulos, funções e obras de Deus Pai presentes no Filho e no Espírito Santo, mas o título de Pai é exclusivo ao Deus Pai. Alguém pode argumentar sobre a profecia messiânica que emprega as palavras “Pai da Eternidade” (Is 9.6). O bispo Sabélio costumava citar palavra profética para fundamentar a crença unicista de que Pai é Filho e Filho é Pai. Mas o que a Bíblia ensina aqui é que o Messias, como rei, “o principado está sobre os seus ombros”, é pai do seu povo (Is 22.21), e não o Deus-Pai. O Filho é Deus igual ao Pai (Jo 5.17, 18; 10.30), mas não é o Pai, senão “o Filho do Pai” (2 Jo 3). Ser todo-poderoso é o mesmo que ser onipotente (Sl 91.1). Esse atributo é exclusividade divina, no Deus trino e uno. Os credos começam reconhecendo esse atributo no Deus Pai: “Creio em Deus Pai Todo-poderoso”. A expressão “Todo-poderoso” é um dos nomes de Deus no Antigo Testamento (Gn 17.1; Êx 6.3), e a ideia nos antigos credos é de poder fazer todas as coisas, tudo o que deseja (Is 46.10). A onipotência ad extra está limitada somente pela natureza ou essência do próprio Deus e por nada externo a ele; por exemplo, “Deus não pode mentir” (Tt 1.2). Isso não deve ser interpretado como limite de seu poder; antes, trata-se da sua essência, pois ele mesmo é a Verdade. Os cristãos reconhecem que Deus pode todas as coisas: “Porque para Deus nada é impossível” (Lc 1.37).
BÍBLIA X CIÊNCIA
Não é verdade que a ciência contradiz a Bíblia e vice-versa. É necessário saber o que realmente é ciência e se os pressupostos científicos são realmente científicos. Se o resultado dessa investigação for positivo, resta ainda saber se o pensamento teológico é realmente bíblico ou se não está fundamentado numa falsa interpretação das Escrituras. Um exemplo clássico disso são as descobertas científicas de Galileu Galilei, que contrariavam a interpretação da Igreja Católica, e não a Bíblia, pois o papa achava que apenas o Sol e a Lua se moviam, e não a terra, com base na interpretação dada à passagem do dia longo de Josué (Js 10.12-14).
Os cientistas já investigaram diversas áreas do saber humano: astronomia e cosmologia, biologia e genética, paleontologia e geologia, métodos de datação geofísica e hidrodinâmica. Por que um número considerável deles rejeita completamente o evolucionismo? Muitas coisas no currículo escolar na área de ciências naturais precisam ser revistas, segundo um número considerável de cientistas.
Toda a criação louva a Deus – seres espirituais, racionais e irracionais e toda a natureza (Sl 148.2-12). Os ateus não adoram nem louvam a Deus; acham que não precisam dele e não participam da adoração a Deus. A existência de Deus é um fato; trata-se de uma verdade primária que não precisa ser provada. Seria insulto à inteligência humana dizer a alguém que um relógio simplesmente apareceu do nada, como resultado do acaso. O Salmo 19 mostra que o Universo, por si só, comprova a existência de Deus (Sl 19.1-6). As coisas visíveis de Deus são claramente vistas como recursos que Deus deixou para que o ser humano reconheça a existência do Criador: “para que eles fiquem inescusáveis” (Rm 1.20). Será que eles pensam que, negando a existência do Criador, escaparão da condenação eterna? Se for isso, estão enganados. A única salvação é o Senhor Jesus Cristo (Jo 14.6; At 16.31).
A
RAZÃO DA NOSSA FÉ
Esequias
Soares 📚
Ø
BIG-BANG.- Enciclopedia de Apologética - Norman
Geisler
É uma teoria muito
popularizada relativa à origem do universo (v. evolução cósmica), segundo a
qual o universo material ou cosmo surgiu de uma explosão há 15 bilhões de anos.
Desde então o universo vem se expandindo e desenvolvendo conforme as condições
estabelecidas no momento da sua origem. Se essas condições fossem ligeiramente
diferentes, o mundo e a vida que conhecemos, inclusive a vida humana, jamais
teriam se desenvolvido. O fato de que as condições necessárias e favoráveis
para o surgimento da vida humana foram determinadas no próprio momento da
explosão cósmica original é chamado de princípio antrópico.
Evidências do big-bang. O astrônomo inglês Stephen Hawking
esclareceu bem o assunto:
Contanto que o universo tivesse um começo, poderiamos supor
que teve um criador. Mas se o universo fosse na verdade completamente
auto-abrangente, sem limite ou extremidade, não teria nem começo nem fim;
simplesmente existiría (Uma breve história do tempo).
Robert Jastrow foi um dos primeiros a mencionar essa questão
no seu livro God and the astronomers [Deus e os astrônomos], Esse astrônomo
agnóstico observou que:
“três linhas de evidência — os movimentos das galáxias, as
leis de termodinâmica e a história de vida das estrelas — apontavam para uma
conclusão: todas indicavam que o universo teve um começo” (p. 111).
A segunda lei da termodinâmica. A segunda lei da
termodinâmica é a lei de entropia. Ela afirma que a quantidade de energia
utilizável em qualquer sistema fechado está sempre diminuindo. Isso deve ser
contrastado com a primeira lei da termodinâmica (v. termodinâmica, leis da), a
lei da conservação de energia, que afirma que a quantidade de energia real
existente no universo muda de forma, mas permanece constante. Enquanto a
energia muda para formas que requerem menos energia, o sistema fechado do
universo está se deteriorando; tudo tende ao caos. Jastrow observou: “Depois
que o hidrogênio se esgotar numa estrela e se converter em elementos mais
pesados, não pode mais ser restaurado ao estado original”. Logo, “minuto a
minuto e ano após ano, à medida que o hidrogênio é usado nas estrelas, o
suprimento desse elemento no universo diminui” (Scientist caught,p. 15 - 6).
Ora, se a quantidade total de energia permanece a mesma, mas
o universo está gastando a energia utilizável, o universo começou com um
suprimento finito de energia. Isso significaria que o universo não podería ter
existido eternamente no passado. Se o universo está ficando cada vez mais
desordenado, não pode ser eterno. Senão, estaria totalmente desordenado agora,
mas não está. Então ele deve ter tido um começo altamente ordenado.
A expansão das galáxias. A segunda linha de evidência é a
expansão das galáxias. Evidências revelam que o universo não está apenas num
padrão estável, mantendo seu movimento eterno. Ele está se expandindo. No
momento parece que todas as galáxias estão se movendo para fora a partir de um
ponto central de origem e que todas as coisas estavam se expandindo mais rápido
no passado que agora. Quando olhamos para o espaço, também estamos olhando para
o passado, pois estamos vendo coisas não como são agora, mas como eram quando a
luz foi emitida muitos anos atrás. A luz de uma estrela a 7 milhões de anos-hiz
de distância nos conta como aquela estrela era e sua localização 7 milhões de
anos atrás. O estudo mais completo feito até agora foi realizado por Allan
Sandage utilizando um telescópio de 200 polegadas.
Ele reuniu informações de 42 galáxias, a distâncias no
espaço de até 6 bilhões de anos-luz de nós. Suas medições indicam que o
universo estava se expandindo mais rapidamente no passado que agora. Esse
resultado dá mais apoio à crença de que o universo surgiu de uma explosão
(Jastrov, God and the astronoiners, p. 95).
Outro astrônomo,Victor J. Stenger, usou uma frase semelhante
quando afirmou que “o universo explodiu do nada” (Stenger, p. 13). Essa
explosão, chamada big-bang, foi o ponto de partida do qual todo o universo
surgiu. Reverter o universo em expansão nos levaria de volta ao ponto onde o
universo fica menor e menor até desaparecer. Segundo esse raciocínio, num
determinado ponto no passado distante, -o universo surgiu.
O ruído da radiação. Uma terceira linha de evidências de que
o universo teve um começo é o “ruído” de radiação de microondas que parece vir
de todo o universo. A princípio acreditava-se que era uma falha ou um ruído dos
instrumentos, ou até o eleito de fezes de pombas. Mas pesquisas revelaram que o
ruído dos instrumentos vinha de toda a parte — o próprio universo tem um som de
radiação baixa emanando de alguma catástrofe passada como uma bola de fogo
gigante. Jastrow conclui:
Nenhuma explicação alem do big-bang jamais foi encontrada
para a radiação da bola de fogo. 0 ponto decisivo, que convenceu quase todos os
céticos, é que a radiação descoberta por Penzias e Wilson tem exatamente o
padrão de comprimentos de onda esperados para a luz e o calor produzidos numa
grande explosão. Defensores da teoria do estado estável tentaram
desesperadamente encontrar uma explicação alternativa, mas falharam
(lastrou’,“A scientist caught”,p. 15).
Novamente, essa evidência leva à conclusão de que houve um
começo do universo.
A descoberta de uma grande massa de matéria. Depois que
Jastrow escreveu as três linhas de evidência para o começo do universo, uma
quarta foi descoberta. Segundo as previsões da teoria do big-bang,
provavelmente teria havido uma grande massa de matéria associada à explosão
original do universo, mas nada comparável jamais fora encontrado. Então, por
meio da utilização do telescópio espacial Hubble (1992), astrônomos conseguiram
relatar que “ao investigar o início do tempo, um satélite descobre a estrutura
maior e mais antiga jamais observada — evidência de como o universo surgiu 15
bilhões de anos atrás”. Na verdade, descobriram a própria massa de matéria prevista
pela eosmologia do big-bang. Um cientista exclamou: “É como ver Deus”
(Lemonick, p. 62).
Objeções ao big-bang. É claro que nem todos os cientistas
que aceitam um universo em expansão concluem que o universo foi criado do nada
por Deus. Alguns têm buscado diligentemente encontrar outras alternativas para
as implicações teístas.
Teoria da repercussão cósmica. Alguns cosmólogos defendem um
tipo de teoria da repercussão segundo a qual o universo entra em colapso e
repercussão eternamente. Eles propõem que há matéria suficiente para causar uma
atração gravitacional que atrairá o universo em expansão. Consideram isso parte
da natureza pulsante da realidade de forma semelhante à visão hindu de que o
universo se move em ciclos eternos.
Mas os defensores do big-bang observam que não há evidência
para apoiar essa teoria. É improvável que haja matéria suficiente no universo
para fazer o universo em expansão entrar em colapso uma única vez. Mesmo se
houvesse matéria suficiente para causar uma repercussão, há bons motivos para
crer que ela não repercutiría para sempre. Pois de acordo com a comprovada
segunda lei da termodinâmica, cada repercussão sucessiva teria menos poder
explosivo que a anterior, até que o universo não repercutisse mais. Como uma
bola que quica, ele finalmente perdería a força, demonstrando não ser eterno. A
hipótese da repercussão é baseada na premissa falha de que o universo e 100°o
eficiente, o que não é. Parte da energia utilizável é perdida em cada processo.
Lógica e matematicamente a evidência para o big-bang sugere
que originariamente não havia espaço, nem tempo, nem matéria. Logo, mesmo que o
universo de alguma forma estivesse se expandindo e se contraindo desse ponto em
diante, no começo teria surgido do nada. Isso ainda exige um Criador inicial.
Cosmologia plasmática (Alfvén-Klein). Hannes Alfvén propôs
uma cosmologia plasmática, segundo a qual o universo é composto de gases
eletricamente condutores que produzem indiretamente um efeito de repulsão das
galáxias, causando a expansão observada. A expansão, no entanto, não começa com
um único ponto; ela tem um tipo de big-bang parcial e depois se contrai até
aproximadamente um terço do tamanho do universo atual. Então, algum princípio
desconhecido entra em ação e faz explodir tudo novamente, mantendo um
equilíbrio eterno. Essa especulação não tem apoio científico. Como outras
teorias de expan-são-contração, é contrária à segunda lei da termo dinâmica.
Especula sem evidência de que o universo nunca se desgasta, mas recicla
continuamente formas antigas de energia. Nada jamais é gasto.
Os teóricos da cosmologia plasmática admitem que não
conhecem nenhuma força que pudesse ter sido responsável pela expansão. É apenas
especulação baseada na pressuposição de um universo eterno. E a teoria
Alfvén-Klein não explica os isótopos de hélio e luz no universo que não teriam
sido sintetizados nessas quantidades só em estrelas. Elas podem ser explicadas
pelo big-bang. Além disso, não oferece uma boa explicação para o ruído cósmico,
que é explicado pela teoria do big-bang. Matéria mais pesada deveria ser
abundante de acordo com a teoria Alfvén-Klein. Nenhuma foi encontrada.
Finalmente, a teoria Alfvén-Klein não explica as origens
últimas. Eric Lerner, que popularizou essa teoria, propôs um “ponto de partida”
para o cosmo quando estava “cheio de um plasma de hidrogênio mais ou menos
uniforme, livre de elétrons e prótons” (Heeren, p. 81). Quando questionado
sobre o que criou esse plasma, ele admitiu que “não temos conhecimento real
sobre quais foram esses processos” (ibid., p. 81).
O tempo infinito de Hawking. Outra teoria especulativa sobre
o big-bang é a hipótese de Stephen Hawking sobre o tempo infinito - o universo
não teve começo. Mas essa recapitulação da teoria de Albert Einstein está
sujeita às mesmas críticas que levaram o próprio Einstein a descartá-la (v.
K.mam, argumento cosmológico). É uma teoria engenhosa destruída pelo mesmo
conjunto brutal de fatos que exige que o universo tenha início. Até Hawking
distingue seu abstrato tempo matemático, que não tem início, do tempo real em
que vivemos e que teve princípio. E até Hawking admitiu que, se houve um
início, então é razoável supor que tenha havido um Criador.
Hawking admitiu ainda que, mesmo que sua proposta acabasse
descrevendo o universo real, nenhuma conclusão poderia ser tomada sobre a
existência de Deus. Escreveu: “Não creio que a proposta da inexistência de
limites prove a inexistência de Deus, mas pode afetar nossas idéias sobre a
natureza de Deus”. Nas palavras de Hawking, apenas demonstraria que “não
precisamos de alguém para acender o pavio do universo” (Heeren, p. 83). Mas
isso não quer dizer que não haveria nada para Deus fazer, pois há mais coisas
para fazer funcionar um universo do que simplesmente detonar o big-bang
inicial.
Os cientistas não têm uma teoria que demonstre como um
universo ilimitada poderia existir. Como, por exemplo, as idéias do universo em
expansão podem ser combinadas com um ou nenhum limite? Alan Guth, pai do modelo
inflacionário, concluiu que a proposta de Hawking
sofre do problema de ainda não ter uma teoria bem definida
em que implantá-la. Ou seja, sua teoria é, na verdade, uma noção de gravidade
quântica, e até agora não temos uma teoria completa da gravidade em que
implantar essa idéia (Heeren, p. 83).
Mesmo Einstein não foi capaz de encontrar uma explicação
para a equação da relatividade geral que não exigisse um início ou um Criador
para o universo. Mais tarde ele escreveu seu desejo “de saber como Deus criou o
universo” (ibid., p. 84). Na verdade, até Hawking levanta a questão de quem
“deu partida às equações”e detonou o universo (Buracos negros,p. 99)
Erupção espontânea: sem necessidade de causa. Alguns ateus
argumentam que não há necessidade de uma causa do início do universo. Eles
insistem que não há nada incoerente sobre algo que surge espontaneamente do
nada. Alguns pontos são relevantes para responder a essa objeção.
Inicialmente, essa proposição é contrária ao princípio
estabelecido da causalidade (v. causalidade, princípio da) que afirma que tudo
que surge teve uma causa. Na verdade, até o cético David Humf. confessou sua
crença nesse princípio comprovado, dizendo: “Jamais afirmei uma proposta tão
absurda quanto a idéia de que qualquer coisa possa surgir sem causa” (Hume,v.
l,p. 187).
Em segundo lugar, ela é contrária à iniciativa científica
que busca a explicação causai das coisas. Francis Bacon, o pai da ciência
moderna, afirmou que o verdadeiro conhecimento é “o conhecimento das causas”
(Bacon, v. 2, p. 121).
Em terceiro lugar, é contrário ao senso comum acreditar que
as coisas simplesmente aparecem do nada, sem mais nem menos. A realidade não
funciona assim na nossa experiência.
Em quarto lugar, a idéia de que nada pode causar alguma
coisa é logicamente incoerente, já que “nada” não tem poder para fazer nada —
nem sequer existe. Como diz o axioma latino: Ex nihilo nihil fit: Do nada, nada
vem.
Em quinto lugar, quando se examina o “nada” de que o
universo supostamente veio, sem uma causa sobrenatural, descobre-se que não é
realmente nada. Isaac Asimov fala sobre isso como um estado de “existência” em
que há “energia” (Asimov, p. 148). Está muito longe de ser nada. Mesmo em
termos físicos não é realmente o nada. Ed Tryon, que deu origem à idéia (num
artigo de Nature de 1973), reconheceu o problema de explicar a criação a partir
do nada absoluto, já que os efeitos quânticos exigem algo mais que nada —
exigem espaço, algo que os físicos agora distinguem cuidadosamente de “nada”
(v. Heeren, p. 93). Como Fred Hoyle observou:“As propriedades físicas do vácuo
[ou “nada”) ainda seriam necessárias, e isso seria algo” (Hoyle, p. 144). Além
disso, a relatividade geral revela que o espaço no nosso universo não é apenas
um nada. Como Einstein escreveu: “Não existe um espaço vazio, isto é, um espaço
sem campo. 0 tempo-espaço não existe sozinho, mas apenas como uma qualidade
estrutural do campo” (Heeren, p. 93). 0 cosmólogo Paul Davies lembra que,
quando um físico pergunta como a matéria surgiu do nada, “isso significa não só
como a matéria surgiu do nada, mas também ‘por que o espaço e tempo existem,
para que a matéria surja deles?”. Como o cientista espacial John Mather
observa, não temos nenhuma equação para criar espaço e tempo. E o conceito nem
mesmo faz sentido, [...] E certamente não conheço nenhum trabalho que realmente
o explique, uma vez que não pode sequer formular o conceito (ibid., p. 93-4).
George Smoot, principal pesquisador com o satélite cobe,
disse: “É possível imaginar a criação do universo do quase nada — não do nada,
mas praticamente nada” (ibid., p. 94). Então, o “nada” a partir do qual alguns
cientistas sugerem que o universo surgiría sem uma causa sobrenatural não é
realmente nada — é algo. Isso envolve pelo menos espaço e tempo. Mas antes do
big-bang não havia espaço, nem tempo, nem matéria. Desse “nada”, só uma causa
sobrenatural podería criar algo.
A primeira lei da termodinâmica. Muitos astrônomos que
propõem que o universo pode ser eterno, incluindo Carl Sagan, usam a primeira
lei da termodinâmica para apoiar sua teoria. Geralmente essa lei da conservação
de energia é assim formulada: “A energia não pode ser criada nem destruída”. Se
isso fosse verdade, a conclusão natural seria que o universo (i.e., a soma
total de toda energia real) é eterno.
Essa, todavia, é uma má interpretação da lei, que deveria
ser assim formulada: “A quantidade real de energia no universo permanece
constante”. Essa formulação é baseada na observação científica sobre o que
realmente ocorre e não é uma afirmação filosófica dogmática sobre o que pode ou
não pode acontecer. Não há evidência científica de que o universo é eterno.
A segunda lei confirma que a primeira lei não pode ser
afirmada em termos que não permitem a criação de energia. Pois a segunda lei
demonstra que nenhuma energia existiría se não viesse de fora de um sistema.
Portanto, não pode haver nada como um sistema realmente fechado.
Dizer que a energia não pode ser criada é uma petição de
princípio. Isso é o que precisa ser provado. É vitória por definição
estipuladora — um exemplo clássico do erro lógico de petitio principii.
Universo eterno inativo. Alguns sugerem que o big-bang
apenas indica a primeira erupção num universo anteriormente eterno. Isto é, o
universo era eternamente inativo antes desse primeiro evento. A singularidade
do big-bang apenas marca a transição da matéria física primeva. Assim, não
haveria necessidade de um Criador para fazer surgir algo do nada.
Os teístas observam que nenhuma lei natural conhecida
poderia explicar essa erupção violenta a partir de inatividade eterna. Alguns
argumentam que um universo eternamente inativo é fisicamente impossível, já que
teria de existir no zero absoluto, o que é impossível. A matéria no início
poderia ser qualquer coisa, menos fria, pois estaria concentrada numa bola de
fogo com temperaturas acima de bilhões de graus Kelvin. Num monte de matéria
congelada a zero absoluto, nenhum evento inicial teria ocorrido.
Supor matéria primordial eterna não explica a ordem incrível
que segue o momento do big-bang. Apenas um Criador inteligente pode explicar
isso.
A teoria do estado estável. Hoyle propôs a teoria do estado
estável para evitar a conclusão de um Criador. Ela afirma que átomos de
hidrogênio surgem para impedir o esgotamento do universo. Essa hipótese tem
falhas fatais, e a maior delas é que nenhuma evidência científica sequer sugere
tal evento. Ninguém jamais observou energia surgindo em lugar nenhum.
A teoria do estado estável contradiz o princípio de
causalidade de que deve haver uma causa adequada para todo evento. Apenas um
Criador seria uma causa adequada para a criação de novos átomos de hidrogênio
do nada. Negar o princípio de causalidade é um preço alto para o cientista
pagar.
Apesar de Hoyle não ter abandonado sua teoria do estado
estável, ele concluiu que a incrível complexidade até das formas mais simples
de vida exigem um Criador. Depois de calcular que a probabilidade de a primeira
vida ter surgido sem intervenção inteligente é de 1 em IO40000, Hoyle reconhece
um Criador da vida (Hoyle, p. 24,147,150).
Reação às evidências. As evidências combinadas para uma
origem do cosmos por meio do big-bang dão fortes razões para o início do
universo. Nenhuma alternativa científica viável foi encontrada. Mas, se o
universo tem início, então, como Hawking admitiu, a evidência indicaria a
existência de um Criador. Conclui-se logicamente que tudo que tem início tem um
Criador. Diante dessa evidência poderosa para o início do universo, é
interessante observar como alguns cientistas perspicazes reagiram à notícia.
O astrofísico Arthur Eddington resumiu a atitude de muitos
cientistas naturalistas quando escreveu: “Filosoficamente, a idéia de um início
da atual ordem da natureza é repugnante para mim [...] Gostaria de encontrar
uma saída genuína” (Heeren, p. 81).
A princípio Einstein se recusou a admitir que sua teoria
geral da relatividade levava à conclusão de que o universo tinha um início.
Para evitar essa conclusão, Einstein tentou trapacear nas suas equações, mas
foi humilhado quando sua falha foi descoberta. A seu favor reconheça-se que
fmalmente admitiu seu erro e concluiu que o universo foi criado. Então,
escreveu sobre seu desejo “de saber como Deus criou esse mundo”. Disse: “Não
estou interessado nesse ou naquele fenômeno, no espectro desse ou daquele elemento.
Quero conhecer seu [de Deus] raciocínio; o resto é detalhe” (citado por
Herbert, p. 177).
Deve-se perguntar por que seres racionais reagem de maneiras
irracionais à notícia de que o universo teve um início. Jastrow oferece uma
pista esclarecedora.
Há um tipo de religião na ciência. É a religião da pessoa
que crê que há ordem e harmonia no universo [...] Todo efeito deve ter sua
causa: Não há uma primeira causa [...] Essa fé religiosa dos cientistas é
violada pela descoberta de que o mundo teve um começo sob condições em que as
leis conhecidas da física não são válidas, e como produto de forças e
circunstâncias que não podemos descobrir. Quando isso acontece, o dentista
perde o controle. (Jastrow, God and the astronomers,p. 113-4, grifo do autor).
Implicações teístas. Após revisar as evidências de que o
cosmos teve um início, o físico Edmund Whittaker concluiu: “É mais simples
postular a criação ex nihilo — vontade divina constituindo a natureza do nada”
(citado em Jastrow,“A scientist caught”, p. 111).Até Jastrow, um agnóstico
declarado, disse que “o fato de existirem coisas que eu ou qualquer outra
pessoa chamaria de forças sobrenaturais em ação é agora, na minha opinião,
cientificamente comprovado” { God and the astronomers,p. 15,18). Jastrow acrescenta
algumas palavras embaraçosas tanto para astrônomos céticos quanto para teólogos
liberais:
Agora percebemos como a evidência astronômica leva à visão
bíblica da origem do mundo. Os detalhes diferem, mas os elementos essenciais
nos registros astronômicos e bíblicos da gênese são os mesmos: a cadeia de
eventos que leva ao homem começa repentina e drasticamente num determinado
momento no tempo, numa explosão de luz e energia” (A scientist caught, p. 14).
Ele ainda observou:
O astrônomos descobriram agora que ficaram encurralados
porque provaram, pelos métodos, que o mundo começou repentinamente num ato de
criação [...] E descobriram que tudo isso aconteceu como produto de forças que
jamais poderão descobrir (God and the astronomers.p. 115).
Assim, ele afirma que “a busca dos cientistas pelo passado
termina no momento da criação”. Diz ainda:
Esse é um acontecimento extremamente estranho, inesperado
para todos, menos para os teólogos. Eles sempre aceitaram a palavra da Bíblia:
‘No princípio, criou Deus os céus e a terra (“A scientist caught”, p. 115).
Jastrow termina seu livro com palavras notáveis:
Para o cientista que viveu pela fé no poder da razão, a
história termina como um pesadelo. Ele escalou a montanha da ignorância; está
prestes a conquistar o pico mais alto; e, quando chega à última pedra, é
cumprimentado por um bando de teólogos que estavam sentados alihá séculos (God
and the astronomers, p. 116).
Outros ateus oferecem indícios semelhantes de que o problema
de tirar uma conclusão teísta das evidências não é racional, mas espiritual.
Julian Huxley disse: “Na minha opinião, a sensação de alívio espiritual que vem
da rejeição da idéia de Deus como ser sobrenatural é enorme” (Huxley, p. 32).
Mas, se alguém é puramente objetivo na consideração das evidências, então por
que experimentar “alívio espiritual” com a notícia de que Deus não existe!
Talvez o famoso ateu, Friedrich Nietzsche, tenha dito mais
claramente: “Se alguém provasse esse Deus dos cristãos para nós, seríamos ainda
menos capazes de crer nele” (Nietzsche, p. 627). É óbvio que o problema de
Nietzsche não era racional, mas moral.
Conclusão. Em vista da ordem incrível no universo, é difícil
tirar qualquer conclusão além da existência de um Ser sobrenatural e
superinteligente por trás de tudo. Como um cientista gracejou, você pode levar
um astrônomo cético à ordem, mas não pode fazè-lo pensar. Depois de escrever o
que acreditava serem críticas definitivas de qualquer tentativa de demonstrar e
existência de Deus, até o maior agnóstico filosófico, Immanuel Kant, escreveu:
Duas coisas enchem a mente com admiração e reverencia
cada vez maior e mais nova, por mais freqüente e constante que seja nossa
reflexão sobre elas: o céu estrelado e a lei moral dentro de mim” (Kant, p.
166).
Os astrônomos modernos enfrentam novamente a evidência de
Deus como Criador do cosmos. É interessante que é justamente isso a que o
apóstolo Paulo se refere como a razão de serem “indesculpáveis” (Rm 1.19,20).
Ø CRIAR
- Códigos de Análise Morfológica de Robinson
ברא bara’ קנה qanah עשה Ìasah
CRIAR bãrã’ (ברא): “criar,
fazer”. Esta palavra é de profundo significado teológico, visto que só Deus é o
sujeito deste verbo. Somente Deus pode “criar” no sentido implicado em bãrã’. O
verbo expressa criação do nada, uma idéia vista claramente em passagens que têm
a ver com a criação em escala cósmica: “No princípio, criou Deus
os. céus e a terra” (Gn
- 1;
cf. Gn 2.3; Is 40.26; 42.5). Todos os outros
verbos traduzidos por “criar” permitem uma gama muito mais ampla de
significados; eles aceitam sujeitos divinos e humanos, e são usados em
contextos onde trazer algo ou alguém à existência não é a questão.
O verbo bãrã’ é encontrado em paralelo
com estes outros verbos: ‘ãsãh, “fazer” (Is 41.20; 43.7; 45.7,12; Am
4.13),yãsar, “formar” (Is 43.1,7; 45.7; Am
4.13) e kün, “estabelecer”. Um versículo que
ilustra todos estes verbos juntos éIs 45.18: “Porque assim
diz o SENHOR que tem criado [bãrã’] os céus, o Deus que formou
[yã^a/־] a terra e a fez [ ‘ãsãh]; ele a estabeleceu [kün], não
a criou [bãrã’] vazia, mas a formou [yãsar] para
que fosse habitada: Eu sou o SENHOR, e não há outro”. O significado técnico
de bãrã’ (“criar do nada”) pode não comportar nestas
passagens; talvez 0 verbo tenha sido popularizado nestes exemplos a fim de
proporcionar sinônimo poético.
Entre os objetos do verbo incluem-se os céus e a terra (Gn
1.1; Is
40.26; 42.5; 45.18; 65.17); o homem (Gn
1.27; 5.2; 6.7; Dt
4.32; Sl 89.47; Is 43.7; 45.12); Israel (Is 43.1; Ml 2.10); uma coisa nova (Jr 31.22); a nuvem e a
fumaça (Is 4.5); o
Norte e o Sul (Sl 89.12); a salvação e a justiça (Is 45.8); o fruto dos
lábios — a fala (Is 57.19);
as trevas (Is 45.7);
0 vento (Am 4.13); eumcoração puro (Sl
51.10). Um estudo cuidadoso das passagens onde bãrã’ ocorre
mostra que em alguns casos não poéticos (principalmente em Gênesis), 0 escritor
usa a linguagem cientificamente precisa para demonstrar que Deus trouxe o
objeto ou conceito à existência a partir de material previamente inexistente.
Especialmente surpreendente é o uso de bãrã’ em
Is 40—65. Das 49 ocorrências do verbo no Antigo Testamento, 20 estão nestes
capítulos. Pelo fato de Isaías escrever profeticamente aos judeus no exílio,
ele fala palavras de conforto fundamentadas nos benefícios e bênçãos de Deus
concedidas anteriormente ao Seu povo. Isaías quer mostrar sobretudo que, visto
que Jeová é o Criador, Ele pode livrar Seu povo do cativeiro. O Deus de Israel
criou todas as coisas: “Eu fiz [,ãsãh] a terra e
criei [bãrã’] nela o homem; eu o fiz; as minhas mãos
estenderam os céus e a todos os seus exércitos dei as minhas ordens” (Is 45.12). Os deuses da
Babilônia são nulidades impotentes (Is 44.12-20; 46.1-7), e, assim,
Israel pode esperar que Deus venha a triunfar na realização de uma nova criação
(Is 43.16-21; 65.17-25).
Embora seja termo técnico precisamente correto que sugere
criação cósmica e material a partir do nada, bãrã’ é rico
veículo teológico para comunicar 0 poder soberano de Deus que origina e
regula todas as coisas para a Sua glória.
qãnãh (דנה): “obter, adquirir,
ganhar". Estes significados básicos são dominantes no Antigo Testamento,
mas certas passagens poéticas há muito sugerem que este verbo significa ״criar".
Em Gn 14.19. Melquizedeque abençoou Abrão e disse: ״Bendito
seja Abrão do Deus Altíssimo, o Possuidor [Criador] dos céus e da terra”. Este
epíteto divino é repetido em Gn
14.22. Este significado é tomado como certo em Dt
32.6, no qual qãnãh é paralelo a ־ãsãh.“fazer”:
“Não é ele teu Pai, que te [criou] adquiriu [qãnãh], te
fez [,ãsah] e te estabeleceu [Â.־z?72]?“ A idéia da
criação também é indicada no Sl
78.54; 139.13 e
em Pv 8.22,23.
Os idiomas cognatos seguem em geral 0 hebraico no
significado básico de “obter, adquirir”. O ugarítico, porém, atesta o
significado de “criar”. De fato, qny é o termo ugarítico
primário para expressar criação. A relação estreita do hebraico e do ugarítico
com o significado contextual de qãnãh como “criar” nas
passagens do Antigo Testamento citadas acima, sustenta o uso de qãnãh como
sinônimo de “criar” junto com bãrã’, ‘ãsãh eyãscir.
‘ãsãh (עשה): “criar, fazer”. Este
verbo, que ocorre mais de 2.600 vezes no Antigo Testamento, é usado como
sinônimo de “criar” somente cerca de 60 vezes. Não há nada inerente na palavra
que indique a natureza da criação; é só quando ‘ãsãh é para-
leio a bãrã’ que podemos estar certos de que implica criação.
Infelizmente, a palavra não é atestada nos idiomas
cognatos contemporâneos com 0 Antigo Testamento, e sua etimologia é
obscura. Pelo fato de ‘ãsãh descrever a mais comum das
atividades humanas (e divinas), é inadequado para comunicar o significado
teológico — exceto onde é usado com bãrã’ ou ou-- tros termos
cujos significados técnicos estejam cia- ramente estabelecidos.
As ocorrências mais instrutivas de ‘ãsãh estão
nos primeiros capítulos de Gênesis. O verbo bãrã' é usado
em Gn 1.1 para apresentar o relato da Criação. e Gn
1.7 fala de sua execução detalhada: “E fez [ 'ãsãh] Deus
a expansão”. Se o firmamento (ou expansão) foi ou não feito de material
existente, não se pode determinar, visto que a passagem usa somente 'ãsãh. Mas
está claro que o verbo expressa criação, já que é usado naquele contexto e
segue a palavra técnica bãrã'. O mesmo pode ser dito de outros
versículos em Gênesis: 1.16 (as luzes do céu);1.25: 3.1 !os animais): 1.31; 2.2
(toda a sua obra); e 6.6 (0 homem). Em Gn 1.26.27, 'ãsãh tem
de significar criação do nada. visto que é usado como sinônimo de bãrã’. 0
texto lê: “Façamos [‘ãsãh] o homem à nossa imagem, conforme a
nossa semelhança. [...] E criou [bãrã’] Deus o homem à sua
imagem". Semelhantemente, Gn
2.4 declara: “Estas são as origens dos céus e da terra, quando
foram criados [bãrã']: no dia em que o SENHOR Deus fez [ ‘ãsãh] a
terra e os céus". Finalmente, Gn
5.1 compara os dois verbos: "No dia em que Deus
criou [bãrã’] o homem, à semelhança de Deus o fez [,ãsãh]”.
A justaposição incomum de bãrã’ com ‘ãsãh em Gn
2.3. refere-se à totalidade da criação que Deus tinha
"criado" "fazendo".
E injustificado aprimorar excessivamente o significado
de 'ãsãh para indicar que significa cria- cão de also ao invés
de criacão do nada. Só o contexto pode determinar sua acepção especial. Pode
significar qualquer um dos dois, dependendo da situação.
Ø OS
DIAS DA CRIAÇÃO DE DEUS - Teologia Sistemática Pentecostal
Há uma parte da teontologia que trata da obra da criação,
dos decretos divinos e da providência. O que a Bíblia ensina sobre o
planejamento, a origem e a manutenção de todas as coisas no Céu e na Terra? E
desse assunto que nos ocuparemos a partir de agora, o qual envolve governo e
preservação de todas as criaturas de Deus.
Deus criou o Universo do nada, ex nihilo,66 È
o que ensina a Bíblia. A narrativa do primeiro capítulo de Gênesis deve ser
entendida à luz do contexto bíblico. E o ponto de partida da criação é: “No
princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn I.I). O verbo hebraico hara’,
“criou”, “denota o conceito de ‘iniciar alguma coisa nova’ em um certo número
de passagens”.67Trata-se, pois, de um termo essencialmente
teológico.
Tal verbo é empregado somente com referência à atividade
de Deus, exceto em outras construções ou graus do verbo hebraico — estrutura
peculiar às línguas semíticas, que altera o seu significado. Essa idéia do fat
divmo é apoiada em toda a Bíblia. Deus trouxe o Universo à existência do nada e
de maneira instantânea, pela sua soberana e livre vontade.
Porque falou, e tudo st fez; mandou, e logo tudo apareceu
(Sl
33.9).
Pela fé, entendemos que os mundos, pela palavra de Deus,
foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que ê aparente
(Hb
11.3).
Digno és, Senhor, de receber glória, e honra, e poder,
porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade são eforam criadas (Ap
4.11).
A creatio ex nihilo, da teologia judaico-cristã, invalida
todo o sistema panteísta; e de igual modo, no período da Grécia antiga, o
pensamento grego, pelo qual se defendia a idéia da eternidade da matéria — a
qual é antibíblica e, portanto, inaceitável aos judeus e cristãos.
Desde o surgimento do darwinismo a narrativa da criação
tem sido reavaliada e reinterpretada por muitos teólogos. Hoje, a origem do
mundo, conforme o relato de Gênesis, é interpretada e reinterpretada por
diversos sistemas teológicos e filosóficos tendenciosos.
O primeiro versículo da Bíblia revela a origem do
Universo, sem explicar detalhadamente como e quando isso aconteceu. Trata-se da
criação original. O relato dos dias da criação é interpretado por alguns como
períodos de mil anos cada; outros procuram associá-los às supostas eras
geológicas; ainda outros os definem como dias literais de restauração, haja vista
o Universo ter vindo à existência “no princípio” (Gn I.I).
Muitos tentam adaptar o darwinismo à Bíblia; defendem a
creatio ex nihilo seguida da evolução, nas longas eras geológicas, ajustando-as
aos dias mencionados em Gênesis
1.5;2.3. O termo hebraicoyom, “dia”, e seu
correspondente grego hemera às vezes indicam certo período: “eis aqui agora o
dia da salvação” (2 Co 6.2);
nem sempre denotam, na Bíblia, dia literal, de 24 horas.
A palavra “dia” é “cercada de muitos temas teológicos
relacionados à soberania de Deus”,68 como lemos em Salmos 90.4 e 2 Pedro 3.8: “Porque mil
anos são aos teus olhos como o dia de ontem que passou, e como a vigília da
noite”; “Mas, amados, não ignoreis uma coisa: que um dia para o Senhor é como
mil anos, e mil anos, como um dia”.
Para alguns teólogos, haveria uma certa correspondência
entre os supostos seis períodos geológicos e a narrativa do livro de Gênesis,
seguindo, em lmhas gerais, aos mesmos estágios. Os chamados dias da criação
seriam, nesse caso, “dias da recriação” ou “restauração”. Isso é a chamada
teoria do intervalo.
Entretanto, o contexto bíblico mostra que o Universo
apareceu perfeito, o que chamamos de “Terra original”. Onde localizar o antigo
habitat do querubim ungido, mencionado em Ezequiel 28.12-16?
O que dizer da queda de Lúcifer, citada em Isaías 14.12-14?
Em que momento não havia chuva na Terra (Gn
- ?
Deus teria criado a Terra caótica?
Segundo a teoria em apreço, as passagens bíblicas acima
falam da Terra em seu estado original, quando Deus a criou “no princípio”
(I-I), pois, em seguida, o texto sagrado registra: “E a terra era sem forma e
vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia
sobre a face das águas” (Gn 1.2).
A Palavra de Deus afirma que Deus não criou a Terra
vazia: “o Deus que formou a terra e a fez; ele a estabeleceu, não a criou
vazia” (Is 45.18).
No hebraico, “sem forma e vazia” é tohu wabohu. O profeta Isaías empregou o
termo tohu que significa “confusão, espaço vazio, sem forma, nada, nulidade,
vacuidade, vaidade, deserto, caos”.69 E o profeta Jeremias usou
a mesma expressão de Gênesis
- 2:
“Observei a terra, e eis que estava assolada e vazia; e os céus, e não
tinham a sua luz” (Jr
4.23).
Ainda segundo a teoria em análise, a Terra “tornou-se” ou
“veio a ser” sem forma e vazia, o que nos levaria a admitir — se tal
interpretação estiver correta
- que
“não pode, portanto, haver qualquer objeção gramatical contra traduzir Gênesis 1:2: ‘E a terra
veio a ser vazia e deserta...”'0
Teria, pois, havido — conquanto a Bíblia não assevere
isso de maneira clara — uma catástrofe universal que transformou a Terra
original num caos. Teria, ainda, havido um período de tempo que não se pode
calcular entre Gênesis
1.1;1.2.
De acordo com a mesma interpretação, é possível que o
referido caos tenha resultado da queda de Lúcifer. Essa era a teoria propagada
por pioneiros da Assembléia de Deus, como Lars Ene (Eunco) Bergstén e N.
Lawrence Olson/1 que se baseavam em passagens como Isaías 14.12-14:
Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva!
Como foste lançado por terra, tu que debilítavas as nações! E tu dizias no teu
coração: Eu subirei ao céu, e, acima das estrelas de E)eus, exaltarei o meu
trono, e, no monte da congregação, me assentarei, da banda dos lados do Norte.
Subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo.
A Vulgata Latina usa o termo lucifer, “portador de luz”,
em lugar de “estrela da manhã”. Daí Lúcifer ter se tornado um dos nomes de
Satanás. O Senhor Jesus falou de sua queda: “Eu via Satanás, como raio, cair do
céu” (Lc 10.18). De acordo com a teoria defendida pelos teólogos
pentecostais Olson e Bergstén, o relato seguinte trata de restauração, pelo
mesmo poder da Palavra que “criou os céus e a terra”.
A CRIAÇÃO DO HOMEM
No primeiro dia, Deus trouxe a luz à existência (Gn
1.3). No segundo, criou a expansão ou o firmamento — hb. raqia (Gn
1.6-8). No terceiro, “disse Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos
céus num lugar; e apareça a porção seca” (Gn
1.9).
Essa porção seca, que Deus chamou de Terra (v. 10), foi
criada naquele momento ou já existia submersa nas águas, tendo sido criada “no
princípio”? O apóstolo Pedro afirma que a Terra “foi tirada da água e no meio
da água subsiste” (2 Pe 3.5).
No terceiro dia, surgiram os continentes com os seus
relevos e a vegetação (Gn 1.9-13). Os corpos celestes — o Sol, a
Lua e as estrelas — apareceram no quarto dia (Gn I.I4-I9). As aves e os animais
marinhos, no quinto (Gn 1.2023). Os animais terrestres, no
sexto (Gn 1.24, 25). E, finalmente, Deus fez
o homem, também no dia sexto:
E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a
nossa semelhança; e domine sohre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e
sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se move sobre a
terra. E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho
efêmea os criou (Gn 1,26,27).
A raça humana teve a sua origem em Deus, através de Adão:
“O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente” (I Co 15.45); “de um só fez
toda a geração dos homens para habitar sobre toda a face da terra” (Atos 17.26).
Adão, o primeiro homem, foi criado no sexto dia como a
coroa de toda a criação; ele recebeu de Deus a incumbência para administrar a
Terra e a natureza. O ser humano não é meramente um animal racional, mas um ser
espiritual, criado à imagem e semelhança de Deus.
O homem recebeu diretamente de Deus o sopro de vida em
suas narinas: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra e
soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente” (Gn
2.7).
Em Salmos 8.3-5, a
Bíblia revela que o homem foi feito um pouco menor do que os anjos:
Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as
estrelas quepreparaste; que é o homem mortal para que te lembres dele? E o
filho do homem, para que o visites? Contudo, pouco menor o fzeste do que os
anjos e de glória e de honra o coroaste.
Portanto, não há, nas Escrituras Sagradas, nada que apóie
o darwinismo e as suas várias interpretações inverídicas. O homem e os animais
surgiram na Terra da mesma forma como eles são hoje.
Os DECRETOS DE DEUS
Os decretos divinos, também chamados de conselhos divinos,
dizem respeito à vontade e ao propósito de Deus para a criação; são
deliberações incondicionais que nasceram do desígnio e do propósito de Deus.
Tudo o que o Senhor quis, ele o fez, nos céus e na terra,
nos mares e em todos os abismos (Sl
135.6).
Que anuncio o fim desde o princípio e, desde a
antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho será
firme, e farei toda a minha vontade (Is 46.10).
Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo
sido predestinados conforme o propósito daquele que faz todas as coisas,
segundo o conselho da sua vontade (Ef l.ll).
O termo grego boulç, usado para “conselho”, nas duas
passagens acima (Is 46.10,
Septuaginta), significa “intenção”, “propósito”, “resolução” e abrange a
totalidade da vontade de Deus. Isso tem implicações com a Soteriologia, a
doutrina da salvação, e envolve as questões da predestinação. Há na teologia
cristã duas escolas principais sobre o assunto: o calvinismo e o arminianismo.
Calvinismo. Depois de Agostinho de Hipona, os
escolásticos72 desenvolveram uma filosofia agostiniana durante
a Idade Média. João Calvino, por sua vez, era o maior perito do pensamento
agostiniano no século XIV. O calvinismo registrado nas Institutas da Religião
Cristã é diferente do cunho eclesiástico e “governamental” do Sínodo de Dort,
reduzido a definições teológicas compactadas, transformadas em polêmica contra
os cinco pontos levantados pelos Remonstrantes, que se definiram como
arminianos.73
Como resposta do Sínodo, ao refutar cada um dos desses
pontos, resultaram os cinco pontos do calvinismo. Quer dizer, portanto, que o
calvinismo, conforme o conhecemos, não foi produzido por João Calvino, tampouco
foi um resumo das Institutas; foi, na verdade, fruto de um embate teológico. A
soberania de Deus ocupava lugar central no sistema de Calvino, e não a
predestinação.
Paul Tillich declarou:
O centro de onde emanam todas as demais doutrinas de
Calvino é a doutrina de Deus, Alguns acham que sua doutrina fundamental é a da
predestinação. Essa opinião éfacilmente refutável uma vez que na primeira
edição das “Institutas”, a doutrina da predestinação nem mesmo havia sido
desenvolvida. Foi só nas edições posteriores que passou a ocupar espaço
proeminente.'
Esse também é o entendimento de Alister E. McGrath75 e
de Justo L. Gonzalez.76 Segundo o calvinismo, os decretos
divinos são absolutos, eternos e imutáveis, incluindo a antecipação do destino
de todos os homens.
Por outro lado, para o arminianismo — depois modificado
por João Wesley —, todo o conhecimento de Deus é imediato, simultâneo e
completo; todas as coisas lhe são conhecidas como presente de eternidade a
eternidade; logo, os decretos divinos não devem ser interpretados como
determinações de antemão. Deus criou o homem dotado de livre-arbítrio; sua
Queda, portanto, foi divinamente permitida, e não decretada.
Por mais de vinte séculos, temos tido a predestinação e o
livre-arbítrio colocados em mútua oposição, em extremos forçados que nunca
chegam a um acordo. Temos por detrás desse debate teológico um problema filosófico;
o debate, na realidade, é entre o determinismo e o livre-arbítrio, debate que
já acontecia muitos séculos antes de Cristo.
O determinismo foi usado entre os estóicos para os ciclos
históricos predeterminados, como necessários, pelo logos divino. Os muçulmanos
usam o termo kismet, “destino fatal”, frio e implacável, vinculado à pessoa de
Alá.
Alguns vocábulos são traduzidos por “predestinação” no
Novo Testamento grego. Nós, porém, entendemos que tudo pode ser mudado mediante
a fé em nosso Deus pessoal. As profecias, ao invés de predizerem um futuro
friamente predestinado, são apelos para nos convertermos dos nossos maus
caminhos, a fim de termos um futuro bem diferente — esses apelos são feitos à
nossa consciência e pressupõem o nosso livre-arbítrio. Esse assunto é dilatado
no capítulo Soteriologia.
A PROVIDÊNCIA DIVINA
O termo “providência” não aparece nas Escrituras
Sagradas, porém a doutrina é bíblica. Ela consiste na atividade de Deus para
preservar a sua criação até ao seu destino final. Isso implica governo,
soberania e preservação, haja vista ser Ele o Criador de todas as coisas. O
Universo lhe pertence: “Porque dele, e por ele, e para ele são todas as coisas;
glória, pois, a ele eternamente. Amém!” (Rm
11.36).
Deus é o único soberano do Universo e tem o controle de
tudo: “E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele” (Cl 1.17). Esses aspectos,
por si só, afastam qualquer idéia panteísta ou deísta.
Preservação é o cuidado divino em conservar e manter
todas as coisas criadas. Isso inclui o homem, os demais seres viventes e toda a
natureza: “Abres a mão e satisfazes os desejos de todos os viventes” (SI
145.16). Deus cuida de todos os viventes, desde a estrutura mais simples até a
mais complexa. O que seria do mundo sem a vontade preservadora de Deus?
Tu só és SENHOR, tu fizeste o céu, o céu dos céus e todo
o seu exército, a terra e tudo quanto nela há, os mares e tudo quanto neles há;
e tu os guardas em vida a todos, e o exército dos céus te adora (Ne
9.6).
OTodo-Poderoso é, por conseguinte, o Criador e o
Mantenedor do Universo. Ele está no controle de tudo e sustenta “todas as
coisas pela palavra do seu poder” (Hb
1.3), como Paulo asseverou em Atos 17.24-27:
O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor
do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens. Nem
tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa;
pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas; e de
um só fez toda a geração dos homens para habitar sobre toda a face da terra,
determinando os tempos já dantes ordenados e os limites da sua habitação, para
que buscassem ao Senhor, se, porventura, tateando, o pudessem achar, ainda que
não está longe de cada um de nós.
Esses dados da revelação nos parecem complexos, mas essa
aparente complexidade não é sinônima de contradição. Não há, na verdade,
contradição nas Escrituras; estamos lidando com um Ser que é infinito. Como
escreveu Chafer: “A doutrina como apresentada nas Escrituras é, portanto,
aceitável ainda que não explicável”.77
Deuteronômío
6.4. “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o
único Senhor”. E evidente que esta passagem bíblica refere-se
ao DeusTnno, àTrindade — como veremos abaixo. Nela, temos tanto o termo “Deus”
como o tetragrama YHWH. A sua ênfase é o monoteísmo, que se tornou ao longo dos
séculos a confissão de fé dos judeus.
Ainda hoje, os judeus religiosos recitam esse versículo
três vezes ao dia. O termo hebraico usado para “único” Çehact) indica unidade
composta:
No famoso Shemá de Deuteronômío 6.4... a questão da diversidade
dentro da unidade tem implicações teológicas. Alguns eruditos têm pensado que,
embora “um” esteja no singular, o uso da palavra abre espaço para a doutrina da
Trindade.
A expressão hebraica YHWH ’ehad traduz-se também por
“Jeová é um”; esta construção hebraica aparece em Zacarias 14.9:
"naquele dia um só será Jeová, e um só o seu nome” (Tradução Brasileira).
A palavra apropriada hebraica para “unidade absoluta” é yahid, que traz a idéia
de “solitário, isolado”, mas não é esse é o termo usado em Deuteronômío
6.4.
Em Gênesis
2.24, a palavra ’ebad é usada para dizer que o marido e a mulher são
ambos “uma só carne”. O Novo Testamento não contradiz o Antigo, porém torna
explícito o que dantes estava implícito: a unidade de Deus não é absoluta; e
sim composta. O Antigo Testamento revela a unidade na Trindade, ao passo que o
Novo revela a Trindade na unidade.
A doutrina da Trindade não neutraliza nem contradiz a
doutrina da unidade; nem esta anula a da Trindade, que, conforme pregada pelos
cristãos que seguem a Palavra do Senhor, consiste em um só Deus em três
Pessoas, e não três Deuses; isso seria apenas uma tríade, e não a Trindade.
FONTE: http://www.apazdosenhor.org.br/profhenrique/



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