domingo, 2 de agosto de 2015

LIÇÃO 6 : CONSELHOS GERAIS

Lição 6 – Conselhos Gerais

As Ordenanças de Cristo nas Cartas Pastorais - Elinaldo Renovato de Lima


 No capítulo anterior, terminamos observando que Paulo se referia aos cuidados que Timóteo deveria ter com pessoas idosas, com jovens e especialmente com as viúvas, a quem ele destinou boa parte de seus conselhos pastorais. Em seguida, de modo aparentemente desconexo com o pensamento que seguia em sua carta, o apóstolo passa a doutrinar sobre os presbíteros, como líderes das igrejas locais, e o cuidado que os crentes devem ter para com eles, como também, outra vez, passa a dar conselhos importantes à igreja cristã sobre o relacionamento entre patrões e empregados, e para a igreja em geral.
 Paulo era um fazedor de líderes. Ele se preocupava com a formação de um a liderança cristã consciente de sua grande missão, especialmente naqueles tempos, em que a Igreja de Cristo estava sendo formada. A missão dos presbíteros era de grande valor e necessidade nos primórdios da expansão da Igreja no mundo.
Face à importância da missão dos líderes nas igrejas, Paulo recomenda que os mesmos tenham a consideração e o respeito por parte da comunidade, visto que aqueles líderes deixaram sua vida profissional ou particular para se dedicarem, em tempo inteiro, à obra do Senhor. Não havia a menor ideia de estruturas que garantissem assistência material ou previdência social para o final de suas missões. Tudo era feito por fé, atendendo ao chamado divino. Ele exortou de forma direta e oportuna: “Digno é o obreiro do seu salário” (1 Tm 5.18). Seguia o ensino de Cristo aos 70 discípulos, enviados como verdadeiros evangelistas aos mais diversos lugares, quando fossem acolhidos em alguma casa: “E ficai na mesma casa, com endo e bebendo do que eles tiverem, pois digno é o obreiro de seu salário. Não andeis de casa em casa” (Lc 10.7).
Além de exortar sobre o tratamento que deveria ser dado aos presbí­teros, naquelas circunstâncias e condições, Paulo passa para outro tipo de conselho pessoal a Timóteo, preocupado com sua atuação como líder com delegação para escolher outros líderes, necessários ao ordenamento da vida ministerial e organizacional da igreja. Ordena que Timóteo deve ter muito cuidado, na ordenação ou consagração de obreiros, sobre quem não se deve impor as mãos de modo precipitado (1 Tm 5.22). E revela outra faceta de um líder que, além de se preocupar com o trabalho, com a igreja, com a missão, dá valor à pessoa do liderado, ou do seu discípulo, orientando-o quanto aos cuidados com a saúde de Timóteo. Ao que parece, o jovem obreiro sofria de enfermidades no estômago, e Paulo dava um a receita caseira para aliviar seus problemas (1 T m 5.23). U m a grande lição para os pastores-líderes de hoje.
N o trecho seguinte de sua carta, Paulo volta-se para o relacionamento entre servos cristãos e seus patrões não crentes ou cristãos. E um verdadeiro preceito de relações humanas no trabalho, sob a ótica de um líder que não via só o lado espiritual dos crentes, mas seus relacionamentos e problemas de ordem humana e emocional. Em seguida, o apóstolo dos gentios demonstra sua visão ampla da vida cristã, quando exorta sobre a questão das ambições humanas, do amor ao dinheiro, e do desejo exacerbado na busca de riquezas materiais. Sem dúvida, nessa análise da carta de Paulo a Timóteo, temos muitas lições preciosas para a liderança cristã e para os crentes em geral.

I - AOS MINISTROS DE CRISTO

O apóstolo Paulo demonstrava seu cuidado e zelo pelo ministério e pelos obreiros cristãos. No texto em análise, revela seu interesse no bem-estar espiritual e também humano e social dos que se dedicam à obra do Senhor, de modo especial aqueles que o fazem com dedicação exclusiva e vivem do evangelho.
1. 0 Obreiro É Digno do seu Salário A igreja em Éfeso enfrentava muitos problemas desde a sua funda­ção. As heresias gnósticas e outras ameaçavam solapar a unidade entre os crentes, mediante a semeadura de doutrinas estranhas. Ao que parece, Paulo sentiu a necessidade de doutrinar sobre o sustento dos obreiros que se dedicavam à obra em tempo integral, tendo deixado suas atividades seculares para trás. “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina” (1 Tm 5.17). Boa parte dos líderes era formada por anciãos, escolhidos pela liderança da Igreja para cuidarem do rebanho em formação. Assim como os apóstolos do Grupo dos Doze deixaram tudo para seguir a Cristo, ao longo da formação da Igreja, muitos que se convertiam sentiam o chamado de Deus para se dedicar aos misteres da obra do Senhor.
 Porém, para que os líderes da igreja em seus primórdios pudessem dedicar-se à árdua tarefa de cuidar do rebanho, que crescia a cada ano, era necessário apoio financeiro para seu sustento e de sua família. Não dá para imaginar o que os primeiros obreiros do Senhor passaram na árdua tarefa de dedicar-se à obra do Senhor em tempo integral. As condições de vida para todos os que não pertenciam à “classe nobre” da sociedade eram muito difíceis. A sobrevivência dependia das contribuições, ofertas e dízimos nas igrejas. O s cristãos em geral faziam parte das classes mais humildes, pois era muito difícil um rico ou abastado interessar-se pelo cristianismo. Jesus mesmo enfatizou essa dificuldade (Mt 19.24). M as a solidariedade cristã sempre foi demonstrada, quando as pessoas eram tocadas pelo Espírito Santo para contribuir com a igreja, incluindo a manutenção dos obreiros e de suas famílias.
É possível que Paulo tenha observado alguma dificuldade de compreensão nesse aspecto, e incluiu em sua carta a recomendação a Timóteo para que fizesse saber aos crentes que era uma obrigação cristã contribuir para as necessidades da igreja e de seus obreiros, especialmente dos que se dedicavam em “tempo integral”. E usou a figura de um “boi que debulha” (1 Tm 5.18). Esse cuidado de caráter social fazia parte das recomendações de Paulo. Aos coríntios, ele fez observações idênticas, revelando seu zelo pela manutenção dos obreiros (Ver 1 C o 9.6- 10). Ele seguia a visão de Cristo, quando enviou os setenta discípulos em missão evangelizadora. (Cf. Lc 10.7) Esse cuidado de Paulo é legítimo. N os dias presentes, sem a menor dúvida, é assunto que deve ser levado em consideração. O s obreiros que têm dedicação exclusiva na obra do Senhor são dignos de “seu salário”, ou de sua “renda eclesiástica”, “prebenda” , seja qual for a denominação da remuneração devida aos que se dedicam à administração da “C asa do Senhor”, na igreja local.
Paulo conclui suas admoestações à igreja de Corinto, demonstrando que os obreiros que se ocupam integralmente da obra precisam ser bem cuidados, reconhecidos e assistidos. E termina, dizendo: Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho” (1 C o 9.14 - grifo nosso). Viver do evangelho significa ter seu sustento como resultado do seu trabalho, dedicado à pregação da Palavra, ao cuidado com a igreja local, ao ensino e ao discipulado, ao aconselhamento cristão, à assistência dos enfermos e carentes, ã visitação e muito mais.

2. 0 Trato com o Presbitério Os presbíteros, ou “anciãos”, eram os líderes das igrejas cristãs em seus primórdios. Com o tais, sua missão era muito grande, e a eles deveria ser dado um tratamento diferenciado, não por serem mais importantes que os demais obreiros, mas por terem mais responsabilidades (Lc 12.48).
1) Acusação contra os presbíteros O s presbíteros, bispos ou pastores não são isentos de falhas. Podem, de uma forma ou de outra, cometer deslizes ou pecados em suas vidas, se não vigiarem e orarem (Mt 26.41). Nenhum obreiro pode arrogar-se o direito de ser infalível. Quem pensa assim é mais vulnerável do que os que se consideram fracos e sujeitos a erros, pois estes procuram precaver-se. Porém, o apóstolo adverte para o cuidado que a igreja deve ter com relação à possível acusação contra os líderes da igreja local. E dá duas orientações importantes. Primeiro, acerca das acusações, e diz: “Não aceites acusação contra presbítero, senão com duas ou três testemunhas” (1 T m 5.19).
Com o bom conhecedor do Antigo Testamento, Paulo sabia que, na Lei de Moisés, uma acusação contra qualquer pessoa só poderia ser aceita se fosse por mais de um a testemunha (Dt 19.15). Com base nesse preceito legal, Paulo exortou a Timóteo, para a igreja em Éfeso, que fosse observado esse critério. O Direito Romano também absorveu essa diretriz, no estabelecimento de um processo disciplinar contra alguém. Paz-se necessária a existência de pelo menos duas testemunhas (ou provas documentais ou materiais) para que uma acusação seja aceita. D o contrário, ainda que o acusado tenha praticado alguma transgressão, ao mesmo não poderá ser imputada a culpa.
Se o presbítero for culpado de algum pecado e não o confessar, por não existirem duas testemunhas, e se aproveitar disso para encobrir o seu erro, comete grande atentado contra sua vida espiritual. Primeiro, porque pecou. Depois, porque encobriu, prevalecendo-se do desconhecimento público de seu pecado. Para Deus, nada há encoberto. A Bíblia diz: “O que encobre as suas transgressões nunca prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia” (Pv 28.13). Assim , se o obreiro peca, a melhor atitude e decisão é confessar o seu pecado e abandonar a prática ilícita, ainda que venha sofrer a disciplina e a perda de suas funções. Encobrir não é a solução própria para um cristão. “Deus não tem o culpado por inocente” (Nm 14.18; N a 1.3). 2) A repreensão aos presbíteros “Aos que pecarem, repreende-os na presença de todos, para que também os outros tenham temor” (1 T m 5.20). Essa é um a questão sensível, principalmente nos dias presentes, quando há um a tendência para o acobertamento de faltas de líderes ou dos crentes em geral, e também a possibilidade de alguém que resolva levar os casos de disciplina à justiça comum. No comentário anterior, Paulo diz que não se deve aceitar acusação não comprovada por testemunhas. Aqui, vemos seu ensino quanto à disciplina dos que “pecaram ” , ou seja, contra quem há fatos comprovados que desabonam sua conduta. O s comentaristas bíblicos, baseados literalmente no que Paulo ensinou, entendem, em sua maioria, que, um a vez comprovada a falta de um presbítero, o mesmo deve ser repreendido “na presença de todos”.
Entendemos que, se um presbítero peca, ainda que uma única vez, principalmente, sendo um líder de uma congregação ou igreja, deve ser afastado das funções, e punido com a suspensão de com unhão ou até excluído da igreja. A o disciplinar alguém, o pastor assume o papel de juiz, de magistrado, diante de Deus. E precisa ter muito cuidado, para agir conforme “a reta justiça” e não “segundo a aparência” 0o 7.24). Esse julgamento deve ser feito criteriosamente, “diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, e dos anjos eleitos, [...] nada fazendo por parcialidade” (1 T m 5.21).    

3) A restauração de presbíteros “A ninguém imponhas precipitadamente as mãos, nem participes dos pecados alheios; conserva-te a ti mesm o puro” (1 T m 5.22). De um lado, há quem entenda que a “imposição de mãos” refere-se à consagração dos presbíteros. N o entanto, o texto em análise não se refere a consagrações, e, sim , à disciplina dos presbíteros. O versículo 22 indica que a exortação de Paulo diz respeito à restauração dos presbíteros pecantes, diante dos quais não deve haver precipitação em restaurá-los no ministério. A expressão “nem participes dos pecados alheios” parece indicar isso. A restauração de obreiros deve ser vista com o medida de alto significado cristão. O amor e a misericórdia são características fundamentais da igreja cristã. Muitas vezes, pelo com entendimento de um a única falta, um obreiro é defenestrado para sempre do ministério, sem qualquer chance de ser recuperado. Dependendo de seu erro, a restauração pode ser considerada, mesmo que não seja para a direção de um a igreja, mas para o exercício de outras funções ministeriais.
 De qualquer maneira, o ministério deve ter cuidado. Primeiro, para não consagrar pessoas despreparadas para o presbitério. Em segundo lugar, a igreja local precisa ter muito cuidado na disciplina ou na restauração de obreiros pecantes. Eles precisam, antes de tudo, dar provas de seu arrependimento sincero, com frutos que indiquem mudança de atitudes em sua vida. Ambas as aplicações ao texto são plausíveis.

 4) Parêntese sobre a saúde
 “Não bebas mais água só, mas usa de um pouco de vinho, por causado teu estômago e das tuas freqüentes enfermidades” (1 T m 5.23). U m pastor amoroso preocupa-se com o bem-estar de seus liderados. Paulo sabia que Timóteo era um jovem obreiro que sofria de algumas enfermidades gástricas. E fez recomendação informal sobre um a terapia alternativa para aliviar seus problemas estomacais. O apóstolo aconselha Timóteo a tomar “um pouco de vinho”, por causa de suas enfermidades gástricas. Esse texto não deve ser usado para justificar a ingestão de bebidas alcoólicas. D e acordo com a Bíblia de Estudo Pentecostal, “se Timóteo tivesse o costume de beber vinho, não teria sido necessário Paulo aconselhá-lo a tomar um pouco de vinho com propósitos medicinais (ver 3.3 nota)”.1 De acordo com essa explicação, provavelmente, Timóteo teria distúrbios gástricos, devido ao álcalis na água. A alcalinidade da água poderia ser amenizada com o uso de um pouco de vinho. N o Nordeste do Brasil, essa mistura é chamada de “sangria”, feita com vinho, misturado com água, o que anula seu teor alcoólico.
Ainda de acordo com a Bíblia de Estudo Pentecostal: “O vinho usado para o estômago, de acordo com antigos escritos gregos sobre medicina, costumava ser do tipo não embriagante” . Se alguém tinha enfermidade estomacal, o escritor Ateneu declarava: “Que tome vinho doce, ou misturado com água, ou aquecido, especialmente do tipo chamado protropos (o suco de uvas antes de espremê-las), por ser bom para o estômago, porque o vinho doce (oinos) não deixa a cabeça pesada”.2 Um a fonte interessante sobre esse “medicamento” caseiro é o Comentário Judaico do Novo Testamento, que diz: “A água era muitas vezes impura, transmitindo doenças; já com o vinho, a possibilidade de acontecer isso era menor. O próprio vinho era em geral diluído em três a seis partes de água”.


3 O estado de saúde de Timóteo contraria algumas heresias modernas, segundo as quais um crente fiel não pode ter doenças, pois Cristo já as levou sobre a cruz. “Eles ensinam que “todo cristão deve esperar viver uma vida plena, isenta de doenças” e viver de 70 a 80 anos, sem dor ou sofrimento. Quem ficar doente é porque não reivindica seus direitos ou não tem fé. E não há exceções. Pregam que Isaías 53.4,5 é algo absoluto. Fomos sarados e não existe mais doença para o crente. E, se o crente não for curado pela oração da fé, é por dois motivos: está em pecado, ou não tem fé!” Esse ensino tem levado muitos crentes incautos ao desespero, quando veem pessoas da família falecerem depois de orações em que é determinada a cura e o doente não resiste a enfermidade e morre. Quanto à expiação e a cura, devemos ressaltar o seguinte:
No entanto, a salvação envolve, imediatamente, o espírito e a alma. Quanto ao corpo, não há um efeito imediato, pleno, quanto à libertação dos males decorrentes do pecado. Isso porque, enquanto o espírito e a alma (o homem interior - cf. 2 Co 4.16) são salvos no momento da confissão a Cristo, o corpo ainda aguarda a redenção plena, conforme diz a Bíblia, sobre o gemido da criação: “E não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo” (Rm 8.23 - grifo do autor). A Bíblia diz: “No mundo, tereis aflições” (Jo 16.33). O apóstolo Paulo viveu doente (ver 1 Co 4.11; G14.13), passou fome, sede, nudez, agressões, etc. Seus companheiros adoeceram (Fp 2.30). Timóteo tinha uma doença crônica (1 Tm 5.23). Trófimo ficou doente (2 Tm 4.20). Essas pessoas não tinham fé? Estavam em pecado?
4 De forma alguma. O que acontece ao ímpio, em termos físicos, humanos ou terrenos, pode acontecer ao justo. Mas graças a Deus que, ao final, na eternidade, diante de Deus, há diferença entre o salvo e o perdido (Ml 3.17,18).
II - AOS EMPREGADOS E PATRÕES

1. Os Deveres dos Servos No Império Romano, havia poucas classes sociais. A maioria dos que se tornavam cristãos pertencia às classes mais humildes, geralmente dos plebeus, dos servos, dos escravos ou dos gentios. Mas alguns convertidos eram oriundos de classes nobres, e tinham servos a seu serviço. Com o também havia servos cristãos, sob as ordens de senhores crentes ou não. Com o era bem informado da situação social das comunidades cristãs, nas igrejas sob seu pastoreio, Paulo não deixou de lado a questão do relacionamento entre servos e patrões. Para os que tinham senhores não crentes, ele ensinou que “Todos os servos que estão debaixo do jugo estimem a seus senhores por dignos de toda a honra, para que o nome de Deus e a doutrina não sejam blasfemados” (1 Tm 6.1).

2. Servos de Senhores Não Crentes Paulo era bastante cuidadoso quanto ao tratamento humano na igreja local. Escrevendo aos colossenses, ele disse: “Vós, servos, obedecei em tudo a vosso senhor segundo a carne, não servindo só na aparência, como para agradar aos homens, mas em simplicidade de coração, temendo a D eus” (Cl 3.22). Nesse texto, ele exorta de modo geral aos servos cristãos para que obedeçam a seu “senhor segundo a carne”, sem fazer distinção da sua condição espiritual (crentes ou não). Notem os que a orientação do apóstolo é a de que os servos (ou escravos, à época) crentes se comportem, no trabalho, de forma consciente, “não servindo só na aparência, como para agradar a homens”, mas pelo fato de serem tementes a Deus. Orientação que é corroborada por Paulo, definindo um verdadeiro “princípio de ética cristã”, para a igreja de Colossos: “E, tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens” (Cl 3.23).

3. Servos de Senhores Crentes
Da mesm a forma, Paulo indica o comportamento dos servos cristãos, em relação aos seus patrões crentes: “E os que têm senhores crentes não os desprezem , por serem irmãos; antes, os sirvam melhor, porque eles, que participam do benefício, são crentes e amados. Isto ensina e exorta” (1 T m 6.2). Se em relação aos senhores não crentes os servos cristãos deveriam ter um comportamento adequado à sua fé, em relação aos que tinham senhores crentes, deveriam servir com muito m ais dedicação e zelo, pelo fato de serem “ crentes e amados” . Esse ensino deve ser observado por todos os cristãos, em todas as igrejas. Devem respeitar e honrar todas as pessoas, mesmo as descrentes. Porém, têm o dever de dar prioridade e consideração aos que são irmãos em Cristo, sejam senhores, sejam servos ou em pregados. O texto em apreço trata do comportamento dos servos ou empregados cristãos perante seus patrões. Mas cremos ser oportuno lembrar que os senhores ou patrões crentes em Jesus devem ter comportamento ético compatível com a ética cristã.

III - CONSELHOS GERAIS

1. Aos que Não Respeitam a Sã Doutrina
 A sã doutrina é o conjunto de ensinos proferidos por Nosso Senhor Jesus Cristo em sua fonte primária, que são os Evangelhos. A inda que haja as chamadas “variantes textuais”, em que um escritor inseriu alguma expressão que não consta dos originais, os Evangelhos merecem credibilidade por se tratarem de relatos e escritos, considerados com consistência e autenticidade com o inspirados pelo Espírito Santo. Em primeira mão, é deles que podem os extrair a “sã doutrina” . Ao lado dos Evangelhos, há também os ensinos dos apóstolos de Jesus, em suas epístolas, as quais também merecem crédito, “porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum , mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo ” (2 Pe 1.21).
Porém, como acontecia na igreja em Efeso, sempre houve algum ensinador, “mestre” ou “doutor”, que resolveu ministrar ensinos “diferentes”, “inovações doutrinárias” , muitas vezes “espetaculares”, que, em vez de edificar, causam confusão no meio dos crentes.
Paulo considera tais ensinadores de falsas doutrinas como soberbos, presunçosos, que acham que são mais entendidos que os demais obreiros, promotores de contendas. Invejosos, que difundem blasfê­mias, corruptos, que acham que “a piedade seja causa de ganho”.

2. Aos que Desejam Riquezas Materiais A pós mostrar que os que não obedecem à Palavra de Deus são soberbos, invejosos, causadores de dissensões e oportunistas, que querem que “a piedade seja causa de ganho”, Paulo acrescenta ensinamento importante sobre a vida cristã ou “a piedade”. “Mas é grande ganho a piedade com contentamento. Porque nada trouxemos para este mundo e manifesto é que nada podem os levar dele. Tendo, porém, sustento e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes” (1 Tm 6.6-8). De fato, a vida cristã só tem sentido se o crente viver com contentamento, alegre e feliz, na presença do Senhor. Paulo lembra que “nada trouxemos para este mundo” e “nada podem os levar dele”. E a mesma visão que Jó teve séculos antes, quando, em meio à sua tribulação terrível, exclamou: “N u saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o Senhor o deu e o Senhor o tom ou; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1.21).
 A carta de Paulo a Timóteo dedica espaço bem significativo aos que buscam riquezas, com advertências que devem ser consideradas por todos os que querem viver segundo os princípios cristãos: “M as os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína. Porque o amor do dinheiro é a raiz de toda espécie de m ales; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé e se traspassaram a si mesmos com muitas dores” (1 T m 6.9,10).
 Quando a riqueza do crente é fruto de trabalho honesto, digno, que glorifica a Deus, certam ente é um a riqueza que é fruto da bênção do Senhor. M as Paulo se refere aos “que querem ser ricos”, ou que vivem buscando bens materiais, acima dos bens espirituais, que não dão valor às coisas de Deus. São como o rico da parábola, de quem Jesus disse: “Assim é aquele que para si ajunta tesouros e não é rico para com Deus” (Lc 12.21). Nesse texto, o apóstolo enfatiza que “o amor do dinheiro”, ou melhor, “o amor ao dinheiro” é “a raiz de toda espécie de m ales”. À primeira vista, parece um exagero. M as o amor ao dinheiro, ou a avareza, tem contribuído para muitas misérias m orais e sociais. E pelo amor ao dinheiro que os inescrupulosos agem de m á fé, prejudicando a tantas pessoas.
O s pastores, que usam o púlpito, ou a mídia, para praticarem “propaganda enganosa”, “vendendo” milagres e curas, são corruptos, e o fazem por amor ao dinheiro.
M as vale salientar que Deus jamais divinizou a pobreza, nem jamais demonizou a riqueza. M as a Palavra de Deus encara a busca pelas riquezas com o fator de empecilho ao melhor relacionamento com Ele. Jesus foi realista quando disse: “E outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de um a agulha do que entrar um rico no Reino de Deus” (Mt 19.24).
O Mestre não disse que é impossível um rico ser salvo. D e forma alguma. Mas acentuou que é difícil. Não por causa da riqueza em si, mas pela atitude mental que a maioria dos ricos tem em relação à vida espiritual. A riqueza faz m uitos se sentirem autossuficientes, orgulhosos, arrogantes e confiantes no poder econômico e financeiro. O s bens materiais propiciam mais oportunidades para um a vida desregrada. H aja vista o desperdício de dinheiro na prostituição, no adultério, nos jogos, nos vícios e em tantos prazeres hum anos e passageiros da vida

3. Conselhos aos que São Ricos

1. A esperança vã nas riquezas O ensino de Paulo é prescritivo em relação aos que já são ricos, alertando que as riquezas são incertas. “M anda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá todas as coisas para delas gozarmos” (1 T m 6.17).

 2. A prática do bem
 N o mesmo trecho de sua carta, Paulo acrescenta outros conselhos sábios em relação ao comportamento do crente que possui riquezas, mesmo concedidas por Deus. Ele diz que tais pessoas “fa­çam o bem , enriqueçam em boas obras, repartam de boa mente e sejam comunicáveis” (1 T m 6.18). Fazer o bem é resultado do fruto do Espírito chamado de “benignidade”, a qualidade de quem faz o bem . As boas obras não salvam ninguém (E f 2.8,9), mas são necessárias ao bom testem unho cristão; fazem parte da vida cristã; um salvo deve enriquecer “em boas obras” . E serem generosos para com os menos favorecidos. Isso fala de altruísmo, ou seja, a preocupação com os outros, em oposição ao egoísmo, que leva o homem a pensar primeiro em si próprio. A igreja que só prega o evangelho com palavras pode perder influência no meio em que se encontrar. O evangelho integral é aquele que proclama a palavra (Kerigma), m as pratica a diaconia, ou o serviço cristão em favor do próximo. A diaconia foi criada em função do atendimento aos problemas sociais na Igreja Primitiva (At 6).

3. 0 bom tesouro do crente
“[...] que entesourem para si mesmos um bom fundamento para o futuro, para que possam alcançar a vida eterna” (1 T m 6.19). Entesourar “bom fundamento” significa a prática de bom testemunho e ações de caráter cristão, que são base para um futuro sólido, fundamentado nos princípios cristãos. O crente sábio não entesoura para esta vida, mas para a futura (Mt 6.19-21). Se alguém põe o seu coração nos recursos materiais, seu tesouro está nisso. Em coisas vulneráveis, sujeitas instabilidades dos bens materiais. Mas, se Poe seu coração nas coisas que são de cima” (Cl 3.1,2), tem uma riqueza espiritual, eterna.

CONCLUSÃO


Neste capítulo, vimos como Paulo era cuidadoso em sua missão pastoral. Ele se preocupava com diversos assuntos, de interesse da igreja, de sua liderança e de seus membros. Deu especial importância à manutenção dos obreiros, discorreu sobre a questão da disciplina dos líderes, especialmente dos presbíteros que vierem a falhar. D e forma bem clara, doutrinou sobre o relacionamento hum ano, na igreja local, entre servos e senhores. É um a das marcas relevantes da teologia paulina o cuidado com as relações humanas entre cristãos e não cristãos. E conclui o texto, dando orientações sobre o trato com os bens ou recursos materiais. São conselhos tão sábios que devem ser observados mesmo nos dias presentes, quando esperamos a volta de Jesus.

ORIENTAÇÕES ACERCA DOS PRESBÍTEROS. 5:17-25.

A PRIMEIRA EPÍSTOLA A TIMÓTEO - J. N. D. Kelly - Novo Testamento - Vida Nova - Série Cultura Cristã.
Se excluirmos 4:14, esta é a primeira ocorrência nas Pastorais, de “presbítero” (Gr. presbuteros) como título de um cargo; além da presente passagem é achado também em Tt 1:5. J. Jeremias e outros têm alegado que nestes dois contextos, a palavra simplesmente significa, como em 5:1 supra, “homem idoso,” e que, portanto, não há qualquer menção aberta de uma ordem de presbíteros nestas cartas, assim como não há nas Paulinas reconhecidas. É altamente provável, visto que este era o único método de organizar uma comunidade do qual tivera experiência direta, que Paulo instintivamente teria estabelecido mesa de presbíteros em todos os lugares onde fundava uma congregação, nas regiões gentias tanto quanto nas judaicas; e isto, conforme já vimos, é exatamente o que Lucas relata que ele fazia (At 14:23). Não há razão para supor que seus convertidos gentios, que tinham plena familiaridade com o governo das cidades ficando nas mãos de um senado, tivessem achado este plano estranho ou desagradável. É concebível, naturalmente, que o título “presbítero” pegasse mais rapidamente onde houvesse um elemento predominantemente judaico na congregação, pois relembrava a LXX; mas a política deve ter seguido linhas patriarcais, normalmente. Isto fornece uma explicação muito mais natural e satisfatória da preponderância universal da ordem dos presbíteros já nos fins do século I, do que a hipótese da fusão, nalguma data não determina após a morte de Paulo, de dois tipos estranhos de organização.


18. Paulo apoia sua proposição de que os ministros da igreja têm direito a apoio material com duas citações.
Pois a Escritura declara é uma expressão totalmente paulina: cf. Rm 4:3; 9:17; 11:2; G14:30; etc. A primeira das suas citações é Dt 25:4 (versão da LXX), texto este que aplica da mesma maneira em 1 Co 9:9. A intenção original de "Não amordaces, ” etc., era simplesmente garantir que um boi pudesse tirar algumas bocadas enquanto girava, pisando o trigo, mas em 1 Co 9:9 Paulo argumenta, de modo caracteristicamente rabínico, que DEUS não pode ter tido somente o gado em vista quando fez com que estas palavras fossem escritas. Destarte, acha nelas evidência inconfundível de que é da vontade divina que o apóstolo, ou o ministro cristão, seja sustentado pela congregação.
Tira a mesma lição aqui. A segunda citação: “O trabalhador é digno do seu salário,” não é tirado do A. T., mas,‘ sim, é um dito que Lucas (10:7) atribuiu a JESUS. À primeira vista, parece que o Terceiro Evangelho está sendo citado, e alguns acharam nisto prova convincente de que a carta deve datar da era pós-apostólica. Outros (e.g. C. Spicq) não pode ver razão alguma porque Paulo não estivesse citando um esboço anterior do Evangelho segundo Lucas, e declaram que este é o primeiro exemplo de o N. T. ser designado como sendo Escritura. Há certamente um problema aqui, mas sua solução não acarreta necessariamente qualquer destas duas conclusões. As palavras Pois a Escritura declara podem muito possivelmente referir-se somente à primeira citação, e o dito do Senhor pode ter sido frouxamente anexado como explicação ou confirmação. Alternativamente, a máxima pode derivar-se dalgum escrito apócrifo que contava como Escritura aos olhos do Apóstolo. Conforme tem sido freqüentemente indicado, Lc 10:7 deixa a nítida impressão de que JESUS está apelando a um provérbio comumente aceito.

17 Os presbíteros que governam bem sejam dignos de duplicada honra, especialmente os que labutam na pregação e no ensino. 

(1) honra e honorários. Devem receber honra e uma recompensa material (Crisostomo, C. Bouma).
(2) amplo pagamento, melhor remuneração, duas vezes o salário que recebem (algo nessa direção, mas com variações pessoais, Moflatt, White em Expositor ’s Greek Testament, Williams).
(3) o dobro da “honra” devida as viúvas, ou uma porção duplicada das primícias das viúvas (Constitutions ofthe Holy Apostles Il.xxviii; no mesmo sentido, Calvino, Lock).
(4) honra como irmãos e honra como governantes; ou honra quanto a idade e honra quanto ao ofício (Tertuliano, Bengel).
(5) honra como presbíteros, honra adicional como quem governa de forma excelente (Lenski). Creio que esta ultima interpretação é a correta, e aceito a declaração de Lenski de que o próprio contexto explica a “duplicada honra”. Não obstante, essa duplicada honra não deve ser interpretada como se fosse excluída toda a ideia de remuneração, e como se em conexão com o versículo 18 o pensamento desse a entender simplesmente isto: os presbíteros que governam de forma excelente deveriam receber o que é justo, a saber, duplicada honra; justamente como o boi que debulha recebe o que lhe corresponde, ou seja, punhados de grãos; e como o obreiro recebe o que lhe é devido, ou seja, seu salário (ver Lenski sobre o v. 18). Desse modo toda noção de remuneração econômica ficaria completamente excluída da “duplicada honra” devia aos presbíteros que servem bem e são dependentes disso. Mas isso dificilmente seria correto, porque também no caso das viúvas, a honra que lhes é devida estava imediatamente ligada ao sustento material (vv. 3 e 4), e as analogias usadas por Paulo no versículo 18 certamente apontam na mesma direção no que respeita aos presbíteros. Portanto, a verdadeira explicação pareceria ser esta: O presbítero merece ser honrado; particularmente, se seu labor se destaca por sua qualidade. Esta honra se deve especialmente aos que trabalham na pregação e no ensino. E isto implica, naturalmente, que, onde se faz necessário (e seria necessário especialmente no caso do “ministro”), seu trabalho deveria também ser remunerado de uma maneira material. O homem que dedica todo seu tempo e esforço na obra do reino (o “ministro”) certamente merece “um bom salário”. Não significa que a palavra “honra”, em si e por si, tenha aqui o sentido de honorário, significa honra. Mas seria evidência de falta de honra se a igreja exigisse de um homem a total dedicação à obra espiritual e que o fizesse gratuitamente. A explicação que eu tenho dado não significa simplesmente que todo presbítero, ou ainda que todo presbítero que governa excelentemente, receba salário. Todos os que governam bem merecem duplicada honra. No Novo Testamento, a palavra nunca significa soldo, ou pagamento, ou salário. Antes, tem o sentido de preço (Mt 27.6, 9; At 5.2, 3; 7 .16; ICo 6.20; 7.23; plural em At 4.34; 19.19) e estima, honra (Rm 12.10; 13.7; ICo 12.23; etc.). Isso corresponde a conotação da palavra nos papiros (M.M., p. 635). No grego clássico, a palavra tem uma vasta gama de significados: valor, preço; compensação, satisfação, recompensa; multa; honra, dignidade; senhorio, ofício; prêmio, presente, oferenda; estima, honra. Honra, é no caso dos que se dedicam inteiramente à obra da igreja; isto implica o direito à remuneração. (E implica ainda mais que isso; ver vv. 19, 20, 22.).
 
18. Porque a Escritura diz: Não amordace o boi que está debulhando e O trabalhador é digno de seu salário.
Ambos os provérbios estão claramente coordenados. Se o primeiro “Escritura” é, então o segundo também o é. Assim uma palavra dita por JESUS é posta em paralelo com um provérbio do canon do Antigo Testamento. O primeiro provérbio é uma citação de Deuterônomio 25.4. Paulo faz uso semelhante dele em 1 Corintios 9.8-12. O quadro é o de uma eira: um terreno circular exposto ao relento. As vezes era uma rocha plana no cume de uma colina. Os feixes de grãos eram desatados e se estendiam no piso, arranjados e em círculos. Os bois eram guiados a pisarem sobre as espigas para que, pelo impacto de seus pés, o grão maduro se soltasse das espigas (Os 10.11; Mq4.13). Ou, com o mesmo propósito, os bois podiam ser arreados e montados por um condutor que guiava os bois para que dessem repetidos giros (Jz 8.7; Is 28.27; 41.15), Esse arreio era uma espécie de trenó formado por duas tábuas pesadas, atadas uma ao lado da outra e curvadas para cima na parte dianteira. Punham-se-lhes debaixo pedras pontiagudas para fazer soltar os grãos de trigo.
Ora, os cruéis pagãos às vezes punham bocais nos bois enquanto debulhavam, mas JDEUS proibira claramente a Israel que fizesse tal coisa. O propósito dessa ordem era para que os homens pudessem ver a bondade de DEUS; particularmente, para que pudessem discernir este princípio básico, ou seja: que a todo obreiro (quer aquele que trabalha com bois, ou um trabalhador comum, ou um ministro do evangelho) DEUS tem dado o direito de participar dos frutos de seu trabalho. Em Deuterônomio trata de homens, não de animais. Cf. ICo 9.9, 10.) No presente caso, isso significaria que “os que proclamam o evangelho devem viver do evangelho” (ICo 9.14).
O segundo provérbio, “O trabalhador é digno de seu salário”, encontra-se precisamente nessa forma em Lucas 10.7. (Em Mt 10.10, o provérbio ocorre numa forma ligeiramente diferente: “O trabalhador é digno de seu alimento”.) Paulo e Lucas eram amigos, e com frequência estavam juntos. Lucas estivera com Paulo durante a primeira prisão deste em Roma (Cl 4.14; Fm 24). Nao é impossível que o evangelho de Lucas já tivesse sido concluido. Daí, se esse foi o caso, o apóstolo estava em condições de citá-lo. Ou também poderia ser que estivesse citando uma coleção de provérbios que presumivelmente fora usada como fonte do Evangelho de Lucas. Combinando as duas citações, e considerando-as à luz do contexto precedente, notamos que Paulo esta enfatizando que o respeito do qual são dignos os presbíteros que governam bem, implica que os que entre eles se dedicam inteiramente à obra do evangelho tem o direito a salário, e que tal salário não lhes devia ser retido.
 
19. Ora, essa “honra” que é devida ao presbítero deveria ser também expressa noutro sentido: Nunca aceite uma acusação contra um presbítero, a menos que [ela seja] endossada por duas ou três testemunhas.
Uma acusação contra um presbítero deve ser sobre - ou seja, deve ter por base o testemunho oral de - duas ou três testemunhas. Note que, embora de antemão todo israelita estivesse salvaguardado de processo e sentença, a menos que duas ou três testemunhas fidedígnas testificassem contra o mesmo (cf. Dt 17.6; cf. Nm 35.30; e ver C.N.T. sobre João 5.31; 8.14). Aqui (! Tm 5.19) os presbíteros são excetuados ainda de ter de responder a uma acusação (cf. Ex 23.1 na LXX), a menos que esteja imediatamente endossada por duas ou três testemunhas. Sem esse apoio, a acusação não deve ser levada em conta nem ainda recebida. Não se deve prejudicar desnecessariamente a reputação de um presbítero, e sua obra não deve sofrer uma interrupção desnecessária.
 
(1) honra e honorários. Devem receber honra e uma recompensa material (Crisostomo, C. Bouma).
(2) amplo pagamento, melhor remuneração, duas vezes o salário que recebem (algo nessa direção, mas com variações pessoais, Moflatt, White em Expositor ’s Greek Testament, Williams).
(3) o dobro da “honra” devida as viúvas, ou uma porção duplicada das primícias das viúvas (Constitutions ofthe Holy Apostles Il.xxviii; no mesmo sentido, Calvino, Lock).
(4) honra como irmãos e honra como governantes; ou honra quanto a idade e honra quanto ao ofício (Tertuliano, Bengel).
(5) honra como presbíteros, honra adicional como quem governa de forma excelente (Lenski). Creio que esta ultima interpretação é a correta, e aceito a declaração de Lenski de que o próprio contexto explica a “duplicada honra”. Não obstante, essa duplicada honra não deve ser interpretada como se fosse excluída toda a ideia de remuneração, e como se em conexão com o versículo 18 o pensamento desse a entender simplesmente isto: os presbíteros que governam de forma excelente deveriam receber o que é justo, a saber, duplicada honra; justamente como o boi que debulha recebe o que lhe corresponde, ou seja, punhados de grãos; e como o obreiro recebe o que lhe é devido, ou seja, seu salário (ver Lenski sobre o v. 18). Desse modo toda noção de remuneração econômica ficaria completamente excluída da “duplicada honra” devia aos presbíteros que servem bem e são dependentes disso. Mas isso dificilmente seria correto, porque também no caso das viúvas, a honra que lhes é devida estava imediatamente ligada ao sustento material (vv. 3 e 4), e as analogias usadas por Paulo no versículo 18 certamente apontam na mesma direção no que respeita aos presbíteros. Portanto, a verdadeira explicação pareceria ser esta: O presbítero merece ser honrado; particularmente, se seu labor se destaca por sua qualidade. Esta honra se deve especialmente aos que trabalham na pregação e no ensino. E isto implica, naturalmente, que, onde se faz necessário (e seria necessário especialmente no caso do “ministro”), seu trabalho deveria também ser remunerado de uma maneira material. O homem que dedica todo seu tempo e esforço na obra do reino (o “ministro”) certamente merece “um bom salário”. Não significa que a palavra “honra”, em si e por si, tenha aqui o sentido de honorário, significa honra. Mas seria evidência de falta de honra se a igreja exigisse de um homem a total dedicação à obra espiritual e que o fizesse gratuitamente. A explicação que eu tenho dado não significa simplesmente que todo presbítero, ou ainda que todo presbítero que governa excelentemente, receba salário. Todos os que governam bem merecem duplicada honra. No Novo Testamento, a palavra nunca significa soldo, ou pagamento, ou salário. Antes, tem o sentido de preço (Mt 27.6, 9; At 5.2, 3; 7 .16; ICo 6.20; 7.23; plural em At 4.34; 19.19) e estima, honra (Rm 12.10; 13.7; ICo 12.23; etc.). Isso corresponde a conotação da palavra nos papiros (M.M., p. 635). No grego clássico, a palavra tem uma vasta gama de significados: valor, preço; compensação, satisfação, recompensa; multa; honra, dignidade; senhorio, ofício; prêmio, presente, oferenda; estima, honra. Honra, é no caso dos que se dedicam inteiramente à obra da igreja; isto implica o direito à remuneração. (E implica ainda mais que isso; ver vv. 19, 20, 22.).
 
18. Porque a Escritura diz: Não amordace o boi que está debulhando e O trabalhador é digno de seu salário.
Ambos os provérbios estão claramente coordenados. Se o primeiro “Escritura” é, então o segundo também o é. Assim uma palavra dita por JESUS é posta em paralelo com um provérbio do canon do Antigo Testamento. O primeiro provérbio é uma citação de Deuterônomio 25.4. Paulo faz uso semelhante dele em 1 Corintios 9.8-12. O quadro é o de uma eira: um terreno circular exposto ao relento. As vezes era uma rocha plana no cume de uma colina. Os feixes de grãos eram desatados e se estendiam no piso, arranjados e em círculos. Os bois eram guiados a pisarem sobre as espigas para que, pelo impacto de seus pés, o grão maduro se soltasse das espigas (Os 10.11; Mq4.13). Ou, com o mesmo propósito, os bois podiam ser arreados e montados por um condutor que guiava os bois para que dessem repetidos giros (Jz 8.7; Is 28.27; 41.15), Esse arreio era uma espécie de trenó formado por duas tábuas pesadas, atadas uma ao lado da outra e curvadas para cima na parte dianteira. Punham-se-lhes debaixo pedras pontiagudas para fazer soltar os grãos de trigo.
Ora, os cruéis pagãos às vezes punham bocais nos bois enquanto debulhavam, mas JDEUS proibira claramente a Israel que fizesse tal coisa. O propósito dessa ordem era para que os homens pudessem ver a bondade de DEUS; particularmente, para que pudessem discernir este princípio básico, ou seja: que a todo obreiro (quer aquele que trabalha com bois, ou um trabalhador comum, ou um ministro do evangelho) DEUS tem dado o direito de participar dos frutos de seu trabalho. Em Deuterônomio trata de homens, não de animais. Cf. ICo 9.9, 10.) No presente caso, isso significaria que “os que proclamam o evangelho devem viver do evangelho” (ICo 9.14).
O segundo provérbio, “O trabalhador é digno de seu salário”, encontra-se precisamente nessa forma em Lucas 10.7. (Em Mt 10.10, o provérbio ocorre numa forma ligeiramente diferente: “O trabalhador é digno de seu alimento”.) Paulo e Lucas eram amigos, e com frequência estavam juntos. Lucas estivera com Paulo durante a primeira prisão deste em Roma (Cl 4.14; Fm 24). Nao é impossível que o evangelho de Lucas já tivesse sido concluido. Daí, se esse foi o caso, o apóstolo estava em condições de citá-lo. Ou também poderia ser que estivesse citando uma coleção de provérbios que presumivelmente fora usada como fonte do Evangelho de Lucas. Combinando as duas citações, e considerando-as à luz do contexto precedente, notamos que Paulo esta enfatizando que o respeito do qual são dignos os presbíteros que governam bem, implica que os que entre eles se dedicam inteiramente à obra do evangelho tem o direito a salário, e que tal salário não lhes devia ser retido.
 
19. Ora, essa “honra” que é devida ao presbítero deveria ser também expressa noutro sentido: Nunca aceite uma acusação contra um presbítero, a menos que [ela seja] endossada por duas ou três testemunhas.
Uma acusação contra um presbítero deve ser sobre - ou seja, deve ter por base o testemunho oral de - duas ou três testemunhas. Note que, embora de antemão todo israelita estivesse salvaguardado de processo e sentença, a menos que duas ou três testemunhas fidedígnas testificassem contra o mesmo (cf. Dt 17.6; cf. Nm 35.30; e ver C.N.T. sobre João 5.31; 8.14). Aqui (! Tm 5.19) os presbíteros são excetuados ainda de ter de responder a uma acusação (cf. Ex 23.1 na LXX), a menos que esteja imediatamente endossada por duas ou três testemunhas. Sem esse apoio, a acusação não deve ser levada em conta nem ainda recebida. Não se deve prejudicar desnecessariamente a reputação de um presbítero, e sua obra não deve sofrer uma interrupção desnecessária.
 
24. Voltando agora ao tema da precaução necessária antes da ordenação de alguém para o ofício (ver v. 22), Paulo diz: Os pecados de alguns homens são claramente evidentes, e vão adiante deles para juízo, mas os pecados de outros seguem após eles].
a. os pecados claramente evidentes de alguns homens;
b. os pecados que não são claramente evidentes de outros homens (isto está mais implícito do que explicito).
Expressamente, ele divide o segundo grupo principal - os feitos nobres de homens que são aptos para o ofício - em duas subdivisões similares:
a. os feitos nobres claramente evidentes de alguns homens;
b. os feitos não nobres claramente evidentes de outros homens.
Portanto, com respeito ao primeiro grupo, Paulo diz que os pecados de alguns homens são tão claramente evidentes (ver também Hb 7.14), tão conspícuos ou óbvios, que em seu caso nem sequer é necessário um exame detido para se chegar a uma decisão ou juízo (ver C.N.T. sobre João, Vol. I). Os pecados precedem o homem! Isso não significa meramente que o homem em questão desfruta de má reputação (porque tal coisa poderia estar baseada numa calúnia), mas que é mau: suas más ações estão a descoberto. Estão a vista de todos. A própria ideia de designar tais homens para o ofício é ridícula. No caso de outros homens, a situação é diferente. Seus pecados os seguem (literalmente, seguem após eles, ou os perseguem). Ao considerar seu caso para chegar a uma decisão, depois de um cuidadoso exame, descobre-se que não são aptos para o ofício. Antes que seu caso venha a lume, Timóteo, e talvez os diversos presbíteros, deve considerar tais homens como candidatos para o ofício. Depois de um exame criterioso e o veredicto, as coisas tomam um aspecto completamente diferente. Os pecados desses homens agora foram descobertos, de modo que, havendo emitido o juízo, já não resta dúvida alguma da falta de aptidão dos mesmos para o ofício. A situação com respeito a homens que são espiritualmente aptos para o ofício é semelhante neste aspecto, a saber: que também em seu filho Timóteo, como regra, não necessita temer que as qualidades ocultas continuem ocultas. Em geral, os feitos nobres (ou obras excelentes que adornam a vida desses homens serão claramente evidentes). Mesmo no caso excepcional em que não fazem evidentes de imediato, não podem permanecer ocultas. As averiguações e perguntas adequadas as fará vir a superfície. Com vistas ao incentivo de Timóteo que, como já se demonstrou (ver p. 48), era por demais tímido, Paulo está tentando estabelecer este ponto: se ele tiver o devido cuidado e não se precipitar na ordenação de homens para o ofício (ver v. 22), terá bons presbíteros nas igrejas de Éfeso e suas cercanias. A regra é que mesmo no caso de homens tais que não se mostram de imediato, de forma clara, se são ou não aptos, um exame cuidadoso o conduzirá a conclusões válidas. E, em todo caso, então Timóteo não se verá envolvido nos pecados de outros homens.

Capítulo 5
 o qual pode ser parafraseado assim: Quanto aos membros que necessitam de conselho pastoral ou correção, você (Timóteo) deve tratá-los como o requer sua idade e seu sexo: Admoeste um homem [mais] idoso como se fosse seu pai; os homens [mais] jovens, como a irmãos; as mulheres [mais] idosas, como a mães; as mulheres [mais] jovens, como a irmãs, com toda pureza. Quanto as viúvas que se acham em necessidade, devem honrar e dar assistência as que são realmente destituídas de amparo. Devem receber tanto apoio moral quanto físico. O Objeto de sua constante esperança e oração lhes será provido por meio da igreja. Entretanto, há viúvas que tem filhos e netos que podem prover-lhes sustento. Estes devem quitar aquela dívida que contraíram ao serem eles criados por elas. DEUS tem prazer em tal atitude. Se negligenciam seu dever, são piores que os infiéis. E a viúva que carece de meios de sustento que devem ser assistidas pela igreja. Há algumas viúvas, contudo, que passam a viver nos prazeres. Essas, ainda que fisicamente vivas, estão espiritualmente mortas. Nem é preciso acrescentar que tais viúvas não merecem ser honradas pela igreja. Enfatiza constantemente tais regulamentações a respeito do dever da igreja e dos filhos e netos para com as viúvas. Ora, quanto as viúvas e sua obra, com vistas a qualificá-las para obras tais como ministrar bom conselho as mulheres mais jovens, prepará-las para o batismo, levá-las a comunhão, ministrar orientação aos órfãos, etc. (esta é uma conjetura acerca da natureza de sua obra), estas não devem ter menos de 60 anos de idade, devem ter sido esposas fiéis, mães sabias, boas hospedeiras, benfeitoras bondosas; em suma tem de ter dado provas de sua aptidão para essa posição. Para este tipo de obra, você não deve engajar viúvas jovens, porque a experiência tem provado que em muitos casos elas se inquietam e quebram o compromisso de trabalho devotado a igreja, incorrendo, portanto, em culpa. Também amiúde põem as atividades sociais acima das atividades do reino, de modo que ao visitarem diversos lares aparentemente com o intuito de ministrar orientação, realmente não fazem outra coisa senão tagarelar e intrometer-se nos assuntos de outrem. Assim causam mais dano que benefício e provocam escândalos. É preciso evitar isso por todos os meios. É necessário que eu adicione isso, pois estou a par de certas viúvas que se tem desviado do honroso curso com o fim de seguir Satanás. Não obstante, isso não significa que não há oportunidade para as viúvas jovens na obra do reino. Há trabalho para todos, bem como para toda e qualquer mulher. Por exemplo, se há alguma mulher crente que possua meios, que se ponha em alguma relação de responsabilidade para com as viúvas desamparadas; que as ajude para que a igreja não seja sobrecarregada e estejam em melhores condições de auxiliar as viúvas que não recebem sustento de ninguém. Quanto aos presbíteros, e futuros presbíteros, note o seguinte: O presbítero deve ser honrado por causa de seu ofício; e deve receber honra duplicada caso execute bem sua tarefa. Isso recebe ênfase especial com respeito aos “ministros”, homens que labutam na pregação e no ensino. Deve-se respeitá-los de forma elevada e prover-lhes de forma generosa, porque diz a Escritura: “Não amordace o boi quando está debulhando” (Dt 25.4) e “O trabalhador é digno de seu salário” (Lc 10.7).
Acerca de acusações contra um presbítero, as mesmas não devem ser aceitas a não ser que sejam endossadas por duas ou três testemunhas. Mas, se o pecado fica claramente determinado, o homem que o cometeu deve ser reprovado na presença de todo o consistório para que os demais presbíteros se encham de piedoso temor diante de DEUS e de JESUS e dos anjos eleitos, para que você observe essas diretrizes sem preconceito. Não deve permitir a influência de considerações subjetivas. Não se apresse a ordenar um homem. Assim não será responsável com ele pelos males que venha a cometer no futuro. Conserve-se puro. (Incidentemente, cuide também de seu corpo. Não beba apenas água, mas use um pouco de vinho por causa de seu estômago e suas frequentes enfermidades.)
Em conexão com os homens que estão sendo considerados para algum ofício, você não deve preocupar-se indevidamente, uma vez que exerça a devida prudência. No caso de homens que não são aptos, seus pecados, os quais os desqualificam, com frequência se fazem evidentes mesmo antes de começar-se uma investigação de seu caráter; e se não se tornam evidentes antes, se tornarão evidentes depois da investigação. E no caso de homens que são aptos, seus feitos nobres, os quais revelam que são qualificados, são geralmente tão claramente evidentes, ainda antes da investigação; e se não antes, se farão evidentes posteriormente.
 
Por  //www.apazdosenhor.org.br/



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