TEXTO ÁUREO
“Mas, agora, vos admoesto a que tenhais bom
ânimo, porque não se perderá a vida de nenhum de vós, mas somente o navio.”
(At 27.22).
VERDADE PRÁTICA
Mesmo
quando perdas materiais são inevitáveis, Deus preserva a vida e cumpre suas
promessas àqueles que confiam nEle.
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE
Atos
27.9-15,21-26.
9
— Passado
muito tempo, e sendo já perigosa a navegação, pois também o jejum já tinha
passado, Paulo os admoestava,
10
— dizendo-lhes:
Varões, vejo que a navegação há de ser incômoda e com muito dano, não só para o
navio e a carga, mas também para a nossa vida.
11
— Mas
o centurião cria mais no piloto e no mestre do que no que dizia Paulo.
12
— E,
como aquele porto não era cômodo para invernar, os mais deles foram de parecer
que se partisse dali para ver se podiam chegar a Fenice, que é um porto de
Creta que olha para a banda do vento da África e do Coro, e invernar ali.
13
— E,
soprando o vento sul brandamente, lhes pareceu terem já o que desejavam, e,
fazendo-se de vela, foram de muito perto costeando Creta.
14
— Mas,
não muito depois, deu nela um pé de vento, chamado Euroaquilão.
15
— E,
sendo o navio arrebatado e não podendo navegar contra o vento, dando de mão a
tudo, nos deixamos ir à toa.
21
— Havendo
já muito que se não comia, então, Paulo, pondo-se em pé no meio deles, disse:
Fora, na verdade, razoável, ó varões, ter-me ouvido a mim e não partir de
Creta, e assim evitariam este incômodo e esta perdição.
22
— Mas,
agora, vos admoesto a que tenhais bom ânimo, porque não se perderá a vida de
nenhum de vós, mas somente o navio.
23
— Porque,
esta mesma noite, o anjo de Deus, de quem eu sou e a quem sirvo, esteve comigo,
24
— dizendo:
Paulo, não temas! Importa que sejas apresentado a César, e eis que Deus te deu
todos quantos navegam contigo.
25
— Portanto,
ó varões, tende bom ânimo! Porque creio em Deus que há de acontecer assim como
a mim me foi dito.
26
— É,
contudo, necessário irmos dar numa ilha.
PLANO
DE AULA
1.
INTRODUÇÃO
À
luz de Atos 27, esta lição nos convida a contemplar o agir soberano de Deus
quando os ventos são contrários e as decisões humanas falham. Em meio às perdas
e incertezas, o Senhor continua presente, sustentando a vida e cumprindo suas
promessas. Que possamos confiar não na estabilidade do navio, mas na fidelidade
daquEle que governa as tempestades.
2.
APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO
A)
Objetivos da Lição: I) Explicar como decisões
humanas precipitam crises espirituais; II) Demonstrar que a promessa divina
sustenta o crente na crise; III) Conduzir o aluno a confiar na providência de
Deus nas perdas.
B)
Motivação: Estudar Atos 27 é reconhecer que as
tempestades não anulam os propósitos de Deus. Ao refletir sobre crises,
decisões e promessas cumpridas, somos desafiados a enxergar a fidelidade divina
em meio às perdas. Esta lição fortalece a esperança e renova a confiança na
soberania do Senhor.
C)
Sugestão de Método: Desenvolva o Tópico II em três
movimentos: leitura de Atos 27.21-26, destacando o contraste entre desespero
humano e promessa divina; breve exposição doutrinária sobre a fidelidade de
Deus que fala no auge da crise; e aplicação dialogada, perguntando: “Que
promessa sustenta você hoje?”. Incentive testemunhos breves, reforçando que a
intervenção divina não elimina a tempestade de imediato, mas renova o ânimo e
confirma o propósito de Deus.
3.
CONCLUSÃO DA LIÇÃO
A)
Aplicação: Na vida cristã, as tempestades não
significam abandono, mas oportunidade de ouvir a voz de Deus com mais clareza.
Quando tudo parece perdido, somos chamados a permanecer firmes na promessa e
agir com fé. Confiar no Senhor em meio à crise transforma desespero em
testemunho vivo de esperança.
4.
SUBSÍDIO AO PROFESSOR
A)
Revista Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa
revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e subsídios de apoio à Lições
Bíblicas Adultos. Na edição 106, p.42, você encontrará um subsídio especial
para esta lição.
B)
Auxílios Especiais: Ao final do tópico, você
encontrará auxílios que darão suporte na preparação de sua aula: 1) O texto “A
Intervenção Divina em Meio à Crise”, localizado depois do segundo tópico,
amplia a reflexão a respeito da realidade bíblica de que Deus intervém na hora
do desespero; 2) O texto “Paulo, não Temas”, localizado ao final do terceiro
tópico, aprofunda o tema providência divina como o fundamento do cumprimento de
promessas e preservação da vida dos fiéis.
AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO
A INTERVENÇÃO DIVINA EM MEIO À CRISE
“O prisioneiro judeu seguia ao longo das
estradas, para Roma. Talvez despertasse olhares de zombaria enquanto passava.
Os cristãos que o acompanhavam, no entanto, sabiam que andavam ao lado do
embaixador de Cristo. Um embaixador em cadeias (Ef 6.20; 2Co 5.20). Paulo nunca
disse que era prisioneiro do Império Romano. Não! Chamava-se ‘prisioneiro de
Jesus Cristo’ (Fm 1). Dizia com isso que estava preso à vontade de Deus.
Cumpria o plano de Deus para sua vida e sua obra. E, também, que todas as
coisas cooperam para o bem. Humanamente, a detenção de Paulo parecia um duro
golpe contra o Cristianismo, pois suas viagens missionárias foram
interrompidas. Contudo, na soberania divina, tudo foi transformado em bênção
para o mundo inteiro (Fp 1.12). Preservado das ciladas dos judeus, o apóstolo
teve tempo para descanso, oração e meditação após intensas labutas. Do
cativeiro surgiram epístolas como Filipenses, Colossenses, Efésios e Filemom.
Além disso, acorrentado a guardas romanos, testificava continuamente; as
frequentes trocas faziam com que seus ensinos se espalhassem pelas casernas,
tabernas, cortes e palácios. Embora não visitasse as igrejas, muitos obreiros o
procuravam para receber orientação pessoal e profunda.” (PEARMAN, Myer. Atos: A
Igreja Primitiva na força e na unção do Espírito. Rio de Janeiro: CPAD, 2018,
pp.250,251).
AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO
PAULO,
NÃO TEMAS
“Enquanto Deus tiver um lugar e um propósito
não concluído para a vida de uma pessoa na terra, e enquanto essa pessoa
estiver buscando um relacionamento mais profundo — com Deus e seguindo a
orientação do Espírito Santo (cf. 23.11; 24.16), o Senhor irá proteger essa
pessoa da morte. Todos os servos fiéis de Deus têm o direito de orar dizendo:
‘Ó, Senhor, sou Teu; eu te sirvo; protege-me’ (cf. Sl 16.1,2). [...] Paulo é um
prisioneiro no barco, no entanto, ele é um homem livre, espiritualmente, por
causa do seu relacionamento com Cristo. Por causa da presença de Deus, ele está
livre do temor, ao passo que aqueles que navegam com ele estão paralisados de
terror, por causa deste perigo no mar. Somente o crente sincero e fiel que
vivencia a proximidade de Deus pode encarar os perigos desta vida com coragem e
confiança em Cristo.” (Bíblia de Estudo Pentecostal — Edição Global. Rio de
Janeiro: CPAD, 2022, p.2004).
SUBSÍDIOS ENSINADOR CRISTÃO
ENTRE TEMPESTADES E PROMESSAS
Após testemunhar Cristo perante as
autoridades em Jerusalém, o apóstolo Paulo é conduzido a Roma, na Itália. A
viagem foi realizada por meio de navio. O episódio descrito em Atos 27 revela a
precipitação do centurião em prosseguir a viagem apesar dos perigos apontados
por Paulo a respeito daquela travessia. Diga-se de passagem, àquela altura da
vida, o apóstolo já havia enfrentado três naufrágios que quase lhe custaram a
vida (2Co 11.25). Porém, rejeitando o conselho de Paulo, o centurião autorizou
que o piloto prosseguisse a viagem (vv.10,11). Ocorreu que uma forte tempestade
se levantou no mar, de modo que mesmo lançando fora parte da estrutura do navio
não foi possível evitar o naufrágio. Havia muitos tipos de tempestades naquela
região e o conhecimento técnico do piloto, adicionado à sua experiência em
viagens semelhantes, o fazia crer de que tudo sucederia normalmente.
Infelizmente, o pior aconteceu, trazendo desespero a todos os que se
encontravam a bordo do navio. O Dicionário Bíblico Wycliffe (CPAD) explana o
significado do nome dado a tempestade Euroaquilão: “A palavra era normalmente
usada pelos marinheiros para designar um vento leste ou nordeste. Era um vento
violento que, frequentemente, originava-se nas águas de Creta, descendo
rapidamente das montanhas em fortes rajadas. A palavra é formada a partir de
duas outras, a palavra grega eyros, que quer dizer ‘vento leste’, e a palavra
latina aquilo, que quer dizer ‘vento nordeste’. Assim, parece expressar um
vento nordeste que se origina no leste. Ainda é comum que ventos e tempestuosos
vindos do leste, do sul e do nordeste agitem o Mediterrâneo. Este foi o vento
tempestuoso na ocasião do desastroso naufrágio de Paulo (At 27.14)” (2006,
pp.710,711).
O ponto alto desse episódio foi a revelação
de Deus a Paulo, na qual um anjo lhe disse que nenhum daqueles que estavam no
navio se perderia. O cuidado divino sobre Paulo fazia parte do propósito de
levá-lo até Roma, local onde ele deveria prestar testemunho de Cristo perante
os governadores. É impressionante como Deus preserva outras pessoas por amor
aos seus servos que estão debaixo dos seus cuidados! Ainda que as perdas
materiais fossem tais de modo que eles temessem perder a própria vida, no
final, Deus proveu o livramento (2Pe 2.9). Se o próprio apóstolo Paulo, homem
zeloso e temente a Deus, teve de enfrentar perdas materiais ao longo de sua
trajetória, que dirá, nós crentes da atual geração! O exemplo de fé do apóstolo
torna claro que, em muitas circunstâncias, Deus permitirá que ocorram perdas
materiais na vida de seus servos, porém, a vida deles está guardada em Deus que
mantém o domínio sobre todas as coisas (Cl 3.3; Pe 1.5).
CONCLUSÃO
O naufrágio de Paulo não representou derrota,
mas o cumprimento do propósito de Deus em sua jornada até Roma. A narrativa nos
ensina que, mesmo quando as circunstâncias parecem fora de controle, a
providência divina continua conduzindo os que confiam no Senhor. As tempestades
da vida cristã não anulam as promessas de Deus; antes, tornam-se ocasiões para
testemunhar sua fidelidade. Assim, aprendemos que confiar em Deus é descansar
na certeza de que Ele nos guia em segurança em meio às maiores adversidades.
CPAD : A Igreja dos Gentios — Da chamada
missionária à consolidação do Evangelho entre os povos
Comentarista:
Wagner Gaby
Lição
11: Entre tempestades e promessas
INTRODUÇÃO
A narrativa de Atos 27 é tomada pelo relato da
viagem de
Paulo
a Roma, quando ele foi enviado para lá como prisioneiro pelo governador Festo
por ter apelado a César.
Esse
foi um dos relatos mais detalhados da viagem maritima de toda a Bíblia. Lucas,
médico e historiador, descreve com precisão técnica os ventos, portos, embarcações
e decisões humanas. Contudo, por trás dos acontecimentos naturais, revela-se a
mão invisível da providência divina, conduzindo Paulo até Roma, conforme a promessa
do Senhor (At 23.11). Esse texto ensina que a vontade de Deus não exclui
tempestades, mas garante a chegada ao destino.
Não se sabe quanto tempo depois da
conferência com Agripa Paulo foi enviado a Roma, mas é provável que o enviaram
na primeira oportunidade que tiveram. Nesse meio-tempo, Paulo está entre os
amigos em Cesareia, que o confortaram, sendo o apóstolo uma bênção para eles.
Paulo é entregue ao centurião Júlio, da
coorte Augusta, chamada Italiana (At 10.1). Ele tinha soldados ao seu comando
que fariam a guarda de Paulo para que este não pudesse fugir e também para protegê-lo
para que não causassem nenhum dano ao apóstolo.
Coorte era uma das divisões do exército
romano. As coortes eram compostas de dez centúrias (de cem soldados cada), e
cada centúria contava com o seu centurião ou capitão. Cláudio Lísias (At 21.31;
23.26) era comandante de uma dessas coortes de mil homens. A maior divisão que
havia no Exército romano era a "legião", que às vezes consistia em
nada menos de dez coortes, embora ordinariamente contasse apenas com 6 mil
homens. Além das coortes, uma legião também contava usualmente com a
"ala", composta de 120 cavaleiros.
Eles embarcaram num navio de Adramítio (At
27.2), um porto da África, de onde esse navio trazia mercadorias africanas, e, como
parece, fazia uma viagem costeira para Síria, onde aquelas embarcações chegavam
a um bom mercado.
Havia alguns prisioneiros confiados à
custódia do mesmo Centurião, que provavelmente também tinham apelado a César,
ou estavam sendo, por algum outro motivo, levados a Roma para serem ali
julgados, ou então para serem interrogados como testemunhas contra alguns
prisioneiros que lá estivessem. Alguns transgressores conhecidos, como foi
Barrabás, foram, portanto, ordenados a serem levados diante do imperador.
O apóstolo Paulo, entretanto, também tinha
alguns dos seus amigos consigo, em particular Lucas, o autor de Atos.
Percebe-se isso pela autoinclusão do médico e historiador na narrativa (v. 2). Aristarco,
macedônico de Tessalônica, parece ter sido um dos amigos particularmente fiéis
que Paulo teve (At 20.4), e estava com o apóstolo durante a sua primeira prisão
em Roma (Cl 4.10; Fm 24).
I -A TEMPESTADE QUE SURGE NA VIAGEM
1. A decisão precipitada de navegar
apesar da advertência de Paulo (vv. 9-12)
Um caminho determinado por Deus, porém
marcado por oposição. Paulo segue como prisioneiro ruma a Roma, mas não como derrotado;
ele vai como testemunha de Cristo (At 23.11). A viagem não foi tranquila mesmo
estando no centro da vontade de Deus. Isso nos ensina que obediência não é
sinônimo de facilidade e que chamado não é isenção de sofrimento (ver Jo
16.33).
Paulo, mesmo sendo prisioneiro, alertou sobre
os perigos da viagem (At 27.10). Isso sugere que o termo vejo, nesse versículo,
refere-se a uma intuição ou observação humana, e não a uma inspiração divina,
como o apóstolo mais tarde recebeu uma revelação divina de que não seria
perdida nenhuma vida (v. 24). Paulo já tinha longa experiência de viagens marítimas
e já sofrera nada menos do que três naufrágios, conforme se lê em 2 Coríntios
11.25; por isso mesmo, ele poderia julgar, com base nessas experiências, que seria
uma temeridade prosseguir viagem.
Em que pese essa experiência, a perspectiva
aqui (à luz da sua atividade em outras partes do livro de Atos) pode ser
considerada, no âmbito da história maior de Lucas, como divinamente revelada, e
não como uma intuição meramente baseada no clima. Paulo fala com confiança aqui
no restante de Atos; essa confiança conduz com a maneira como Lucas retrata o
seu personagem em outras partes como agente de Deus.
Os marinheiros e o centurião, porém,
confiando mais na experiência do piloto e no mestre do navio, ignoraram a
orientação divina dada por Paulo e seguiram viagem (vv. 11,12). Lucas passa-nos
a impressão de que a decisão ficou com o centurião; muitos comentaristas têm
suposto que assim teria sido porque o navio estava a serviço do governo.
"Piloto" é entendido ao pé da letra como
"timoneiro",
indicando aquele elemento da tripulação que traçava os planos de navegação.
"Mestre", de conformidade com algumas traduções, seria o
"proprietário" do barco. Porém, exemplos do uso desse vocábulo em
papiros pertencentes ao primeiro século da era crista indicam que realmente era
o "capitão" ou "mestre" de um navio e, de forma alguma, o seu
proprietário. Posto que mui provavelmente se tratava de um navio do governo
romano, usado no transporte de cereais, o centurião tinha patente e autoridade maior
do que o piloto e o mestre da embarcação. Lucas, todavia, poderia estar dizendo
apenas que o centurião atendeu à opinião dos marinheiros, cuja opinião final
acabou cooperando. Preferir o conselho deles ao de Paulo foi um erro que o
centurião Júlio não repetiria posteriormente na narrativa (At 27.31,32). No
entanto, rapidamente perceberam que estavam à mercê da natureza. A viagem
torna-se perigosa devido ao outono, e a tripulação decide buscar abrigo em uma
baía.
A decisão dos marinheiros de prosseguir apesar
do aviso mostra a tendência humana de confiar mais na experiência do que na revelação.
Isso mostra como muitas vezes a voz da experiência humana fala mais alto do que
a voz de Deus. Em primeiro lugar, devemos aprender sobre a fragilidade dos
planos humanos (Pv 16.9; Tg 4.13-17).
Assim também é a vida: sem a direção de Deus,
os melhores planos podem naufragar (SI 37.5; Pv 14.12). Quantas vezes o homem
insiste em seguir os seus próprios caminhos, acreditando
que
a sua sabedoria é suficiente, esquecendo-se de que "o coração
do
homem pode fazer planos, mas a resposta dos lábios certa vem do SENHOR"
(Pv 16.1, ARA).
2. A
fragilidade humana diante das forças da natureza (vv. 13-17)
O navio começou a viagem, cuidadosamente se
conservando perto do litoral. Um suave vento sulino aparentemente favorável encorajou-os
a seguir viagem (At 27.13). Eles alimentavam grandes esperanças de alcançar o
ancoradouro mais desejável de Fênice, a cerca de 64 quilômetros a oeste. Tudo
correu bem de início. Os marinheiros, no entanto, não tinham contado com uma
mudança repentina do vento. Um forte tufão de vento começou a soprar do lado da
terra, descendo das montanhas ao nordeste, mas logo foram surpreendidos pelo
Euroaquilão, um vendaval incontrolável (v. 14).
Euroaquilão ou Euraquilão (grego: eurakylon)
parece ser uma formação híbrida do grego euros, vento de leste, e do latim
aquilo, vento do norte e presumivelmente significa "vento do nordeste".
Os gregos tinham um nome adequado para esse vento, kaikias, mas o latim não
tinha um nome equivalente, pelo que os marinheiros romanos, na falta de um
termo específico, aparentemente cunharam essa palavra. A palavra "Euroaquilão"
(em latim, Euroaquilo ou Euraquilo) está grafada na Vulgata Latina, a tradução
da Bíblia para o latim, feita por Jerônimo, no século IV, que se tornou a
versão padrão da Igreja Católica por séculos, chamada "Vulgata" por
ser uma versão para o latim "vulgar" (popular).
Euroaquilão é um vento nordeste violento, que
soprava sobre o mar Mediterrâneo, famoso por ser a tempestade violenta e incontrolável
que atingiu o navio onde o apóstolo Paulo estava, causando um grande naufrágio
e sendo um marco de desespero, mas também de fé e intervenção divina. Era um
vento extremamente perigoso para grandes navios, fazendo-os perder o controle e
ser levados ao léu, com risco de encalhar nas areias movediças da Africa.
O navio foi levado na tempestade sem controle
(vv. 15,16). Os navios antigos não podiam bordejar (navegar em ziguezague, fazendo
bordos, para aproveitar ventos contrários ou laterais), nem enfrentar mares
turbulentos, e, portanto, os marinheiros não tinham outra opção senão deixar o
navio ser levado ao léu do vento, para longe da terra. Isso revela a fraqueza
do homem diante da força da natureza. Todo o esforço humano foi insuficiente:
amarraram o navio, usaram cabos, tentaram controlar, mas nada resolveu (v. 17).
A expressão "amainadas as velas" é traduzida com mais exatidão como
"diminuindo a marcha". É nas tempestades que reconhecemos nossa total
dependência de Deus (SI 46.1; 2 Co 12.9).
A tempestade da viagem de Paulo ensina que:
(1) decisões sem ouvir a voz de Deus levam a dificuldades; (2) nossa força é
insuficiente para enfrentar as tempestades da vida; e (3) quando tudo parece
perdido, a esperança em Deus é a única âncora segura.
3. A perda da esperança diante da adversidade
(vv. 18-20)
Mesmo depois de muitos dias lutando contra o
vento e o mar, as medidas tomadas pelos marinheiros foram inadequadas. O navio
estava enfrentando mares bravios e, provavelmente, estava subindo água a bordo,
de modo que começaram a aliviar o peso. Depois de muitos dias, os marinheiros
lancaram ao mar a carga e os cquipamentos do navio (vv. 18,19).
O ponto culminante na descrição da tempestade
é que os marinheiros nao tinham ideia alguma da sua posição em que estavam, com
relação a terra, ou rochas ou bancos de areia. O mau tempo impedia qualquer
observação do sol ou das estrelas mediante as quais talvez pudessem ter feito
algum cálculo do seu posicionamento.
Os marinheiros dependem do Sol e das estrelas
para saber a direção para onde o navio está indo. A ausência de luz (Sol e estrelas)
simboliza a escuridão espiritual que se instala quando não enxergamos saída.
Por causa das pesadas nuvens que cobrem o céu, eles não têm pontos de navegação
para determinar onde estão e, por conseguinte, perdem o rumo. Naqueles dias,
não havia bússola, e os marinheiros dependiam totalmente da navegação pelos
astros. Eles estavam em pleno inverno. Não era pequena a tempestade; havia
chuva, neve e todos os rigores daquela estação do ano, de maneira que eles estavam
para morrer de frio, e tudo isso durou muitos dias.
Humanamente falando, não parecia ter
possibilidade de so-
brevivência,
e o desânimo apoderou-se das pessoas no navio. Os passageiros e tripulantes perderam
totalmente a esperança de salvação devido à fúria do mar e à falta de
visibilidade, ficando catorze noites à deriva, sem ver o sol e as estrelas, o
que os levou ao desespero (v. 20).
A situação era tão desesperadora, que até
marinheiros experientes não conseguiam encontrar uma solução, indicando o nível
de desespero que tomou conta de todos.
II - A INTERVENÇÃO DE DEUS NA HORA DO
DESESPERO
1. A palavra de encorajamento de Paulo (vv. 21,22)
A má situação chegou ao auge (At 27.21), o que
não era incomum naqueles dias numa tempestade marítima, pelo fato de o alimento
estragar-se, ou pela impossibilidade de cozinhá-lo. Os homens passavam dias a
fio, desalentados, molhados, enfadados, famintos. A falta de alimentação apropriada
e a cxaustão causada pelo trabalho prolongado naturalmente agravavam os sentimentos
de desespero. Depois de muitos dias sem comer e em total desespero,
Paulo levanta-se com autoridade espiritual.
Antes de animar aos seus ouvintes (o que só faz no versículo seguinte), Paulo
repreendeu os responsáveis pela embarcação com o seu "Eu bem que
disse", o que daria maior autoridade às suas próximas palavras de ânimo.
É possível que houvesse pouca comida
disponível depois da tempestade e que as pessoas sentissem-se demasiadamente
ansiosas, enjoadas ou desanimadas para comer. Todo esse sofrimento e risco
poderia ser evitado se o navio tivesse permanecido em Bons Portos, e Paulo
comentou que a sua advertência não fora devidamente atendida; a sua profecia de
danos e perdas foi cumprida, embora, por enquanto, só afetasse (e, no fim,
somente afetaria) o navio, e não as pessoas a bordo que incluíra na sua
profecia. É essa qualificação da sua profecia anterior que Paulo agora ressalta
num esforço para animar as pessoas.
Paulo transmite esperança mesmo em meio ao
desespero (v.
22;
cf. Rm 15.13; Is 41.10). Nossa esperança segura de ser recompensados por Deus
pode diminuir nossa ansiedade e ajudar-nos a ficar calmos, a pensar de modo claro
e a manter nossa fe forte. A esperança também nos dá forças para que
enfrentemos as dificuldades (ver Am 3.7; SI 25.14).
2. A promessa de Deus em meio à
crise (vv. 23,24)
Durante a tempestade no naufrágio,
passageiros e tripulantes perderam a esperança de salvação devido à fúria do
mar e à falta de visibilidade, ficando catorze noites sem ver o Sol, o que os
levou ao desespero (At 27.18-20). Paulo, no entanto, confortou-os com a promessa
divina de que todos seriam salvos, embora o navio fosse perdido (SI 34.19).
A base dessa segurança não é otimismo humano,
mas revelação divina (vv. 23,24). O anjo do Senhor fortaleceu Paulo! Quando toda
esperança parecia perdida, Deus envia um anjo a Paulo, garantindo que nenhum
daqueles 276 (ver v. 37) passageiros perderiam a vida. A vida de Paulo preservou
outras vidas. Isso revela o alcance coletivo da graça, o impacto espiritual de
um justo no meio dos ímpios.
Visões espirituais assinalavam coerentemente
as crises da vida do apóstolo Paulo (At 9.3-6; 16.9,10; 18.9,10). Paulo
reconhecia que pertencia a Deus (v. 23). Não somos de nós mesmos, fomos
comprados por bom preço (1 Co 6.19,20). As promessas de Deus não dependem das
circunstâncias, mas da fidelidade do Senhor (Hb 10.23).
Enquanto
Deus tiver um lugar na vida de alguém aqui na terra e tal pessoa buscar a Deus
e seguir a direção do Espírito Santo (At 23.11; 24.16), o Senhor irá protegê-lo
da morte.
3. A fé e a liderança espiritual
de Paulo (vv. 33-36)
Paulo, após a visão de um anjo, declara que a
vida de todos será salva. Ele exorta os homens a alimentarem-se, o que seria de
grande valor para a própria segurança deles, pois, se não se nutrissem
adequadamente, não estariam em condições para a tarefa extenuante de chegar à
praia (vv. 33,34).
Mais uma vez, dá a eles a certeza de que
sairão seguros e preservados do perigo (1 Sm 14.45; Mt 10.36; Lc 12.7; 21.18).
Essa mensagem de encorajamento transformou Paulo em líder espiritual no meio da
crise. A providência de Deus não remove a tempestade, mas garante que os seus
planos sejam cumpridos. Devemos ouvir a direção de Deus mais do que confiar
apenas na experiência humana.
Quando o dia começou a raiar, enquanto o
navio ficava estável com as âncoras, Paulo começou a animar as pessoas a bordo para
comerem. Em seguida, ele dá exemplo ao partir o pão e dar graças a Deus,
partindo o pão para todos, fortalecendo o ânimo da tripulação (vv. 35,36).
Paulo acrescenta a essa exortação o seu próprio
exemplo, pois, ao tomar um pouco de pão, deu graças a Deus, partiu e pôs-se a comê-lo.
O fato de o apóstolo haver dado graças a Deus talvez indique apenas o costume
judeu de dar "graças" às refeições, e essa teria sido uma refeição
comum. Essa atitude não parece ser "um ritual de comunhão", como a
celebração da Ceia do Senhor, mas a ação de Paulo produziu o efeito desejado
(v. 36). Mais tarde, isso seria comprovado como importante, devido à inesperada
dificuldade de ter de nadar até à costa. A comunhão precede a vitória! A fé
vivida em atitude gera coragem e esperança nos que estão ao redor (cf. Mt
5.16).
Durante
todo o tempo dessas severas provações, o apóstolo tinha mostrado "um
exemplo para todos os cristãos" de três maneiras: (1) coragem em meio ao
perigo (vv. 21,22); (2) confiança em Deus (vv 23,25); e (3) comando ou
autoridade em meio à crise (vv 31-36).
Quando os que estavam no navio com Paulo já
estavam refeitos (satisfeitos) com a comida (v. 38), aliviaram o navio,
lançando o seu carregamento de trigo ao mar. O propósito daqueles homens era tornar
o navio mais leve (carregado, ele ficaria mais seis metros dentro da água), e
assim poder aproximar-se mais da praia. A razão disso é que eles queriam que o
navio conseguisse ficar na superfície para alcançar um ponto que fosse o mais
próximo possível da praia, de forma que assim pudessem estar a uma distância da
costa que fosse facilmente percorrida a nado.
III - A PROVIDÊNCIA DIVINA NO
NAUFRÁGIO
(At 27.39-44)
1. O cuidado de Deus preservando vidas (vv. 39-41)
Quando nasceu o dia, todos estavam
ansiosamente fitos na praia. Mas ninguem reconheceu o lugar onde estavam, mas o
que mais importava no momento foi que viram uma enseada com uma praia (v. 39),
que seria um ponto apropriado para tentar encalhar o navio.
Os marinheiros prepararam-se para levar o
navio à praia. Soltaram as âncoras, desamarradas do navio, no mar. Além disso, desamarraram
as cordas que scguravam os dois remos que serviam de leme de segurança durante a
tempestade e içaram a pequena vela da proa (cf. v. 15; decerto estava colhida
enquanto o navio estava ancorado), a fim de irem manobrando o navio em direção à
praia (v. 40).
O plano deles desandou, no entanto, pois o
navio foi contra um banco de areia, onde as duas correntes encontravam-se,
ficando encalhado. O choque da proa contra o fundo do mar mais os impactos das
ondas teriam despedaçado a popa. Na verdade, alguns textos omitem a referência
às ondas, e assim dão esse sentido ao versículo. O tempo imperfeito podia levar
a esta interpretação:
"começou
a arrebentar-se".
A promessa do Senhor foi integralmente
cumprida. A pre-
servação
de todas as vidas confirma a fidelidade do Senhor (Lc 21.18). Deus usa meios
improváveis para cumprir a sua vontade. A salvação pode vir de formas inesperadas.
Alguns nadam, outros se agarram a tábuas, mas todos chegam à praia. O naufrágio
mostra que Deus pode permitir perdas materiais sem jamais permitir perdas
eternas. Todos chegam em segurança a terra como o Senhor havia prometido. O
navio fica quebrado, mas a promessa permanece intacta. A chegada a terra, ainda
que em destroços, confirma que Deus cumpre a sua palavra mesmo quando o caminho
parece contraditório (cf. Is 43.2). O naufrágio, que parecia o fim, tornou-se
instrumento para glorificar a Deus e confirmar a sua palavra. Deus permitiu a
perda do material, mas guardou o que era essencial: a vida.
Assim,
compreendemos que a verdadeira segurança não está nos barcos que construímos,
mas na mão soberana de Deus, que guia nossa existência.
A vida cristã, portanto, não está livre de
tempestades, mas cstá firmada na providência divina (ver SI 33.18,19, NTLH). O
que o homem chama de tragédia Deus pode transformar em testemunho de fé e
vitória.
2. A soberania divina acima das decisões
humanas
(vv.
42,43)
Estando o navio condenado, os soldados eram
de opiniao que todos os prisioneiros fossem mortos antes que algum dentre eles escapasse
e eles fossem responsabilizados (v. 42). Não seria difícil aos que sabiam nadar
chegar ao litoral e afundar-se nas matas do interior, de onde so com
dificuldade poderiam ser presos de novo.
Os guardas prefeririam o suicídio a ter de
enfrentar a corte marcial pela acusação de descumprimento do dever: Pedro liberto
da prisão (At 12.10-19); o carcereiro de Filipos (At 16.27). Os soldados
pagariam com a própria vida se algum dos seus prisioneiros escapassem. O código
posterior de Justiniano formalizou o princípio de que um guarda cujo prisioneiro
escapasse cumpriria a sentença do prisioneiro.
O plano humano de matar todos os prisioneiros
foi frustrado pelo agir divino. Os soldados pagariam com a vida se algum dos seus
prisioneiros escapassem (At 12.18,19; 16.27). Júlio, o centurião, desejava
salvar a vida de Paulo, por estar resoluto a não submeter a vida do apóstolo a
perigo, sobretudo tendo em vista a atividade de Paulo durante a viagem. A palavra
"salvar" significa conduzir com segurança no meio do perigo. Assim,
deu ordens no sentido de cada um chegar a terra da melhor maneira que pudessem.
Os
que soubessem nadar, que partissem imediatamente. Aqueles que sabiam nadar
facilmente chegariam à praia, que não estava tão distante (v. 43). Paulo
poderia estar incluído aqui, visto ter sobrevivido a três naufrágios e ter
passado uma noite no mar (2 Co 11.25). Isso mostra que até as intenções humanas
são controladas pela providência de Deus. Ele preservou a vida de Paulo e
permitiu que a promessa de Deus de que todas as pessoas no navio seriam salvas
fosse cumprida (At 27.22).
O coração dos homens está sob o governo do
Senhor (ver Pv 21.1). Nada escapa ao controle divino. Nenhum poder nos céus ou
na terra poderia tirar a vida de Paulo, porque o Senhor ja determinara que ele
fosse pregar o evangelho em Roma (At 27.24).
3. O cumprimento fiel da promessa de Deus (v. 44)
Os demais que não soubessem nadar deviam
seguir usando tábuas ou outros destroços do navio capazes de flutuar para
sustentá-los na água. Essas pessoas que não sabiam nadar, porém, agarrando-se a
pedaços de madeira pertencentes ao navio, puderam flutuar, sendo empurradas
para a praia pela força das ondas, como se estivessem surfando. Há a
possibilidade de a construção grega significar, no entanto, que eram levados
pelos que sabiam nadar, que usavam técnicas de salva-vidas para conduzir em
segurança os que não sabiam. Os que nadassem estariam na praia para garantir
que estes extraviados chegassem em segurança a terra. Exatamente como o anjo
havia dito, todos se salvaram. Foi só por causa da corajosa liderança de Paulo
sob a orientação de Deus que essa viagem agonizante chegou a um desfecho
satisfatório. A Palavra de Deus é firme mesmo em meio ao caos. O naufrágio de
Paulo é um poderoso testemunho de que, mesmo nos momentos mais turbulentos, a
providência divina está presente, conduzindo a vitória dos que confiam na sua
palavra. O Senhor cumpriu a promessa feita por intermédio do anjo (At 27.22).
Durante todos os dias da tormenta e os demais que se seguiram após o naufrágio,
Paulo manteve-se confiante nessa promessa e foi sustentado por ela.
CONCLUSÃO
O capítulo 27 de Atos ensina-nos que
tempestades não anulam promessas; que naufrágios não frustram o plano de Deus;
e que a providência divina governa até os detalhes do caos.
A vida crista e comparada a uma jornada no
mar da vida, onde tempestades surgem de forma inesperada. O naufrágio de Paulo
não foi apenas um evento histórico, mas também uma liçao espiritual sobre a
soberania de Deus; afinal: "[ ... ] todas as coisas contribuem juntamente
para o bem daqueles que amam a Deus" (Rm 8.28).
O naufrágio de Paulo não foi o fim, mas parte
do plano de Deus para levá-lo a Roma. Isso mostra que, mesmo quando tudo parece
perdido, a providência divina guia os passos dos que confiam em Deus e
transforma tempestades em testemunhos. Assim também em nossa vida, quando
confiamos em Deus, podemos ter certeza de que seremos por Ele conduzidos em
segurança.
Entre Tempestades e Promessas
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