TEXTO
ÁUREO
“Porque hás
de ser sua testemunha para com todos os homens do que tens visto e ouvido.” (At
22.15).
VERDADE PRÁTICA
Todo aquele que teve um encontro real com Cristo é
chamado a testemunhar dEle com fidelidade, mesmo em meio à oposição e ao
sofrimento.
LEITURA
BÍBLICA EM CLASSE
Atos
21.27,28,30,31,33,39,40; 22.1-7.
Atos
21
27
— Quando os sete dias estavam quase a
terminar, os judeus da Ásia, vendo-o no templo, alvoroçaram todo o povo e
lançaram mão dele,
28
— clamando: Varões israelitas, acudi! Este é
o homem que por todas as partes ensina a todos, contra o povo, e contra a lei,
e contra este lugar [...].
30
— E alvoroçou-se toda a cidade, e houve
grande concurso de povo; e, pegando de Paulo, o arrastaram para fora do templo,
e logo as portas se fecharam.
31
— E, procurando eles matá-lo, chegou ao
tribuno da coorte o aviso de que Jerusalém estava toda em confusão.
33
— Então, aproximando-se o tribuno, o prendeu,
e o mandou atar com duas cadeias, e lhe perguntou quem era e o que tinha feito.
39
— Mas Paulo lhe disse: Na verdade, eu sou um
homem judeu, cidadão de Tarso, cidade não pouco célebre na Cilícia; rogo-te,
porém, que me permitas falar ao povo.
40
— E, havendo-lho permitido, Paulo, pondo-se
em pé nas escadas, fez sinal com a mão ao povo; e, feito grande silêncio,
falou-lhes em língua hebraica, dizendo:
Atos
22
1
— Varões irmãos e pais, ouvi agora a minha
defesa perante vós.
2
— (E, quando ouviram falar-lhes em língua
hebraica, maior silêncio guardaram.) E disse:
3
— Quanto a mim, sou varão judeu, nascido em
Tarso da Cilícia, mas criado nesta cidade aos pés de Gamaliel, instruído
conforme a verdade da lei de nossos pais, zeloso para com Deus, como todos vós
hoje sois.
4
— Ora, persegui este Caminho até à morte,
prendendo e metendo em prisões, tanto homens como mulheres,
5
— como também o sumo sacerdote me é
testemunha, e todo o conselho dos anciãos; e, recebendo destes cartas para os
irmãos, fui a Damasco, para trazer manietados para Jerusalém aqueles que ali
estivessem, a fim de que fossem castigados.
6
— Ora, aconteceu que, indo eu já de caminho e
chegando perto de Damasco, quase ao meio-dia, de repente me rodeou uma grande
luz do céu.
7
— E caí por terra e ouvi uma voz que me
dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?
PLANO DE AULA
1.
INTRODUÇÃO
Esta lição convida-nos a contemplar o testemunho
cristão não apenas como prática eclesial, mas como expressão da experiência com
Cristo. A narrativa do evangelista Lucas revela que a fidelidade ao Evangelho
se manifesta na tensão entre chamado e oposição. Paulo diante da multidão
ilustra que o sofrimento não invalida a missão; antes, integra a pedagogia
divina que forma servos corajosos e conscientes de sua vocação.
2.
APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO
A)
Objetivos da Lição: I)
Analisar a prisão de Paulo e compreender a fidelidade em meio à oposição; II)
Interpretar a defesa do apóstolo e reconhecer a sabedoria no testemunho
público; III) Aplicar o poder do testemunho pessoal à vivência cristã
cotidiana.
B)
Motivação: Estudar o poder do
testemunho pessoal é redescobrir que Deus transforma histórias marcadas por
falhas, em instrumentos de graça. Ao compreender a conversão e a missão de
Paulo, perceberemos que a experiência com Cristo possui valor formativo e
evangelístico. Isso fortalece nossa identidade e propósito cristão.
C)
Sugestão de Método: Inicie
a aula situando historicamente o contexto de Atos 21, destacando Jerusalém como
centro religioso e foco de tensões. Apresente, de forma expositiva e dialogada,
a acusação contra Paulo e a estrutura do templo, evidenciando como fatores
culturais e religiosos potencializaram o conflito. Conduza a classe a perceber
que a prisão do apóstolo não foi mero acaso, mas parte do avanço do Evangelho.
Assim, o tema da lição emerge como reflexão sobre fidelidade em contextos
adversos.
3.
CONCLUSÃO DA LIÇÃO
A)
Aplicação: Assim como Paulo,
o cristão é chamado a permanecer fiel mesmo quando mal compreendido ou
injustiçado. A vida cristã não se mede pela ausência de conflitos, mas pela
constância no testemunho. Em contextos adversos, Deus continua soberano e
transforma crises em ocasião de proclamar Cristo.
4.
SUBSÍDIO AO PROFESSOR
A)
Revista Ensinador Cristão. Vale
a pena conhecer essa revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e subsídios
de apoio à Lições Bíblicas Adultos. Na edição 106, p.40, você
encontrará um subsídio especial para esta lição.
B)
Auxílios Especiais: Ao
final do tópico, você encontrará auxílios que darão suporte na preparação de
sua aula: 1) O texto “Paulo desobedeceu ao Espírito Santo indo a Jerusalém?”,
localizado depois do primeiro tópico, amplia a reflexão a respeito da prisão de
Paulo em Jerusalém; 2) O texto “O Testemunho de Paulo”, localizado ao final do
segundo tópico, aprofunda o papel do testemunho do apóstolo Paulo diante da
multidão.
AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO
“PAULO
DESOBEDECEU AO ESPÍRITO SANTO INDO A JERUSALÉM? Não. Provavelmente, o Espírito revelou aos cristãos
o sofrimento que ele enfrentaria ali. Diante disso, concluíram que Paulo não
deveria ir por causa do perigo. Essa interpretação é reforçada em Atos
21.10-12, quando, após ouvirem do profeta Ágabo que ele seria entregue aos
romanos, os cristãos de Cesareia também lhe imploraram que não fosse a
Jerusalém. [...] Paulo sabia que seria preso em Jerusalém. Embora seus amigos
lhe pedissem que não partisse de Cesareia, o apóstolo compreendia que deveria
seguir viagem, pois essa era a vontade de Deus. Ninguém aprecia a dor, mas o
discípulo fiel deseja, acima de tudo, agradar ao Senhor. A vontade de agradá-lo
deve superar o desejo de evitar sofrimento. Quando realmente buscamos cumprir a
vontade divina, precisamos aceitar tudo o que a acompanha, inclusive a dor.
Então poderemos dizer: ‘Faça-se a vontade do Senhor!’” (Bíblia de Estudo
Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2013, pp.1533,1534).
AUXÍLIO
BIBLIOLÓGICO
O
TESTEMUNHO DE PAULO.
“Paulo
provavelmente falava aramaico, o idioma comum aos judeus palestinos. Ele
utilizava essa língua não apenas para se comunicar com seus ouvintes, mas
também para demonstrar que era um judeu devoto, respeitador das leis e dos
costumes judaicos. Com os oficiais romanos, falava em grego; com os judeus, em
aramaico. Para ministrar de maneira mais eficaz, é fundamental comunicar-se na
linguagem do público. [...] Depois de ganhar a atenção e estabelecer um ponto
em comum com seu público, Paulo apresentou seu testemunho, relatando como
passou a crer em Cristo. Ser ponderado é importante, mas também é essencial
compartilhar o que Cristo realizou em nossa vida. Contudo, mesmo quando a
mensagem é bem exposta, nem todos a aceitarão — e Paulo sabia disso. Cabe-nos
anunciar fiel e responsavelmente as Boas-Novas, confiando os resultados a
Deus.” (Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2013,
p.1535).
SUBSÍDIOS ENSINADOR CRISTÃO
CORAGEM
PARA TESTEMUNHAR: PAULO DIANTE DA MULTIDÃO
Paulo foi
escolhido e separado para ser uma testemunha fiel do Senhor diante dos reis e
sábios do seu tempo. Apesar de toda oposição e sofrimento que teve de
enfrentar, o apóstolo não recuou, mas aproveitou cada oportunidade para
confessar a Cristo diante dos homens. Depois de se despedir dos irmãos em
Éfeso, Paulo viajou a Jerusalém a encontrar-se com os demais líderes da igreja
para prestar contas dos feitos realizados na terceira viagem missionária, bem
como do progresso da pregação do Evangelho pela Ásia Menor. Após ser avistado
pelos judeus no Templo em Jerusalém, inicia-se um processo de ódio e
perseguições severas contra Paulo, levando-o a ser novamente preso. Mesmo
diante das acusações e hostilidades, Paulo vê nessa adversidade uma
oportunidade para testemunhar de maneira clara e incisiva. Paulo era
consistente ao testemunhar Cristo diante da multidão. Tanto é que ao ser
enviado para ser examinado com açoites, Paulo recorre à cidadania romana
(22.25). Conforme discorre Lawrence O. Richards, na obra Comentário
Histórico-Cultural do Novo Testamento (CPAD), “Naquela época a cidadania
[romana] era uma raridade e o diploma civitais Romanae, concedido a pessoas
recentemente promovidas por causa de um serviço ou elevado padrão social, era
mantida nos arquivos familiares. O nome do novo cidadão era registrado em Roma,
e ele era relacionado como cidadão no respectivo registro municipal. Mas os
cidadãos romanos não carregavam qualquer identificação quando viajavam, nem
usavam qualquer vestuário que os distinguisse dos demais. O fato é que, no
primeiro século, uma simples declaração verbal de cidadania era aceita por seu
valor de face. Talvez a razão disso não seja tão difícil de entender, se,
examinando a legislação romana, descobrirmos que uma pessoa que declarasse uma
falsa cidadania ou falsificasse documentos era condenada à morte” (2007,
p.283). Nesse sentido, a cidadania de Paulo foi estratégica para que tivesse
autorização para testemunhar acerca da sua conversão, bem como da verdade do
Evangelho. Deus utiliza dos conhecimentos e patentes humanas para propagar Sua
mensagem da salvação a lugares onde o Evangelho é rechaçado, e os crentes são
estigmatizados como extremistas ou fanáticos religiosos. Mas nada há o que
dizer quando o testemunho cristão diz muito mais do que palavras. No caso de
Paulo, sua vida ilibada, zelosa de boas obras e honestidade para com Deus e os
homens corroboraram para que fosse livre de condenações. Deus abre portas e
concede livramentos a Seus servos quando estes testemunham o Evangelho por meio
de um estilo de vida honesto e sincero perante Deus e os homens (At 6.3; 1Tm
3.7).
CONCLUSÃO
A prisão não silenciou Paulo; tornou-se um púlpito providencial. Em meio à injustiça e à oposição, Deus transformou a perseguição em oportunidade para o testemunho do Evangelho. A fidelidade do apóstolo revela que nenhuma circunstância escapa ao governo divino. Assim, aprendemos que provações podem se tornar instrumentos da graça, quando escolhemos permanecer firmes e testemunhar de Cristo, mesmo em cenários adversos.
A
Igreja dos Gentios — Da chamada missionária à consolidação do Evangelho entre
os povos
Comentarista: Wagner
Gaby
Lição
9: Coragem para testemunhar: Paulo diante da multidão
INTRODUÇÃO
Ao retornar
a Jerusalém após a sua terceira viagem missionária, Paulo e os seus amigos
foram recebidos de muita boa vontade, um testemunho da crescente reputação do apóstolo
e da gratidão que sentiam pela generosa oferta que eles estavam trazendo das
igrejas (At 24.17; Rm 15.25-27; 1 Co 16.1-4; 2 Co 8.13,14; 9.12,13). Paulo não
tinha esquecido a recomendação da igreja de Jerusalém, expressa alguns anos
antes, para que se lembrassem dos pobres (Gl 2.10). Os anciãos de Jerusalém
nunca teriam imaginado que eles seriam beneficiários da obediência de Paulo à
sua recomendação, muito menos que o sustento viria de igrejas predominantemente
gentílicas. Como isso deve ter unido os segmentos judeu e gentio da Igreja!
Obviamente,
essa era uma reunião importante, uma vez que todos os anciãos estiveram
presentes. Eles ouviram o relatório minucioso
de Paulo sobre o que, pelo seu ministério, Deus
fizera entre os gentios (At 21.20). Muitos judeus, entretanto, estavam
preocupados com rumores de que ele ensinava os judeus a abandonarem a Lei de
Moisés e as tradições (At 21.20,21). Para demonstrar que ele não era contra a
Lei e evitar escândalo, os líderes da igreja Tiago
e os anciãos aconselham o apóstolo a participar de
uma cerimônia pública de purificação no Templo, baseado no voto de nazireado. Eles
pensavam que esse ato iria sufocar os falsos rumores que circulavam a respeito
de Paulo de que ele estava gradativamente minando a Lei Mosaica.
Por
deferência aos líderes da igreja, Paulo concordou com a
proposta deles para demonstrar respeito pelas
tradições judaicas (Rm 9.1-5), para evitar escândalo entre os judeus cristãos
(Rm 14.19) e para testemunhar Cristo com sabedoria (1 Co 9.20; Gl 2.5).
Paulo foi
agredido em Jerusalém e preso pelos judeus que o acusaram falsamente de ter profanado
o Templo, introduzindo gregos e ensinando a abandonar a Lei de Moisés (At
21.27-22.29).
Durante o
aprisionamento, Paulo fez um discurso de defesa aos judeus, relatando a sua conversão
no caminho para Damasco e a sua experiência no Templo. A multidão impediu-o de
falar, forçando o comandante romano a levá-lo para a fortaleza, onde o apóstolo
deu o seu testemunho para o povo.
I
- A PRISÃO DE PAULO EM JERUSALÉM
1.
A conspiração dos judeus e a falsa acusação de profanação do templo (21.27-30)
Movidos por
ciúmes e ódio, a multidão inflamada pelos "[ ...] judeus da Ásia, vendo-o
no templo, alvoroçaram todo o povo e lançaram mão dele" (v. 27). Paulo foi
agredido por judeus da Ásia, isto é, de Éfeso (At 10.1,10) que provavelmente
vieram a Jerusalém como peregrinos no Pentecostes. Esses judeus falsamente
fizeram as seguintes acusações contra Paulo: (1) conduta antipatriótica; (2) blasfêmia
e (3) sacrilégio (v. 28).
Quanto a
terceira acusação, eles equivocadamente acusaram
Paulo de ter levado Trófimo, o efésio, ao lugar do
Templo cujo acesso era negado aos gentios (v. 29). Não havia feito isso, mas acusaram-no
sem provas. No entanto, para eles, a realidade não importava. Só importava o
que eles, com a sua fanática imaginação, concebiam como real. Era uma
falsidade. Assim como Paulo, muitos cristãos ao longo da história sofreram
injustiças e calúnias, mas permaneceram firmes porque sabiam em quem haviam
crido.
O argumento
que Paulo trouxera gentios para o Templo, profanando-o, portanto, é, no mínimo,
irônico, por ter ocorrido num período em que ele estava passando pela
purificação a fim de não profanar o Templo. A acusação provocou agitação entre
a população da cidade onde o cristianismo provavelmente tinha uma péssima reputação
desde o incidente com Estêvão (At 8.1). A turba ajudou
a agarrar Paulo; foram fechadas as portas para
manter a violência fora da área do Templo, e a população tentou matar Paulo (v.
30). O castigo para qualquer israelita que profanasse o Templo era "a surra
do apóstata" --- o linchamento judaico. Essas portas são, provavelmente,
as que separavam os pátios internos do pátio dos gentios, e não as portas
exteriores do complexo do Templo.
2. A divisão do templo em Jerusalém
O segundo
Templo de Jerusalém nos dias do apóstolo Paulo era o grandioso complexo
reconstruído e ampliado por Herodes, o Grande (73-4 a.C.). Com uma estrutura
imponente e vasta, com terraços amplos e muros de contenção, era o maior
santuário do mundo antigo, sendo dividido em vários átrios retangulares concêntricos
(At 3.2): um átrio dos gentios, aberto a todos; um átrio só para mulheres; um
átrio de Israel (ou dos homens), para judeus circuncidados; um átrio dos
sacerdotes, com o Altar de Sacrificios; o Lugar Santo e o Santo dos Santos,
acessíveis apenas aos sacerdotes e sumo sacerdote, respectivamente, marcando a
hierarquia e santidade e sendo palco de grandes atividades religiosas e
conflitos.
O átrio dos
gentios (pátio externo) era a parte mais ampla e externa, onde todos os gentios
e não judeus podiam entrar, realizar transações (como a venda de animais para
sacrificios) e sentir a presença do Templo, só que sem penetrar nas áreas mais
sagradas. Foi aqui que Jesus expulsou os cambistas (Mt 21.12,13). Os gentios tinham licença para penetrar no
átrio externo, mas eram impedidos de proceder mais além, para o "átrio das
mulheres", e muito menos para o "átrio de Israel", por uma
barreira baixa que ostentava avisos em grego e latim com os dizeres:
"Nenhum estrangeiro pode atravessar a barricada que cerca o Templo e o seu
recinto. Qualquer pessoa presa ao assim fazer será culpada pela sua morte que
se seguirá". E justamente essa barreira que está por trás da acusação
contra Paulo em Atos 21.28, a de ter introduzido um gentio no Templo.
O átrio das
mulheres era uma área interna acessível exclusiva somente aos judeus (homens e
mulheres). Era o local mais avançado do Templo que as mulheres podiam frequentar,
bem como um local de orações e ofertas (Lc 21.1-4). A oferta da viúva pobre aconteceu
aqui.
O átrio de
Israel (Pátio dos homens) era mais interno e só permitido aos homens judeus que
estivessem cerimonialmente puros. Aqui eles podiam trazer as suas ofertas e
aproximar-se mais do altar.
O átrio dos
sacerdotes era uma área restrita apenas aos sacerdotes levitas. Continha o
Altar dos Holocaustos (sacrificios), a Pia de Bronze e utensílios do culto.
O Lugar
Santo (Kodesh) era acessível aos sacerdotes e continha o Candelabro, a Mesa dos
pães da Proposição e o Altar de Incenso, iluminado pela luz do candelabro.E o
Santo dos Santos (Kodesh HaKodashim) é o lugar mais sagrado, separado por um
véu espesso, onde habitava a glória de Deus, sendo acessível apenas ao Sumo Sacerdote
uma vez por ano (no Yom Kippur).
O fato de
que os romanos estavam dispostos a ratificar sentenças de morte, até sobre os
próprios romanos, conforme parece, pela quebra desse regulamento do Templo,
indica quão significante era e quanta emoção vinculava-se às ideias judaicas da
pureza do Templo. Não é estranho que a acusação feita contra Paulo levasse à
semelhante explosão de sentimento.
3. A intervenção das autoridades romanas
(21.31-36)
Alguém levou
a notícia ao comandante das tropas romanas; na hierarquia militar romana, um
tribuno (gr. chiliarchos) militar (um oficial com patente semelhante a um
coronel) comandava uma coorte (gr. speira) de mil soldados (760 soldados de
infantaria e 240 da cavalaria), que, por si só, era uma força suficiente para
manter a ordem em uma cidade como Jerusalém.
Essa coorte
(Jo 18.3) tinha a sua base na torre chamada Antônia (Mt 26.47), construída por
Herodes, o Grande, que tinha vista para o Templo no seu canto a noroeste. Dois
lances de escada davam acesso direto do forte de Antônia ao átrio dos gentios.
Também havia uma passagem subterrânea que dava para o átrio dos israelitas. O comandante
chamava-se Cláudio Lísias (At 23.26). Uma legião era composta de 6 mil sodados.
Cada legião romana contava com seis "tribunos", e cada tribuno ou
quiliarca comandava mil homens.
O comandante
prendeu Paulo e amarrou-o com duas correntes. As duas correntes significam que
Paulo foi acorrentado a dois soldados, um de cada lado (v. 33), e com isso se
cumpriu a profecia de Ágabo (v. 11; ver At 12.6). A multidão continuava agitada
e confusa. O comandante, vendo que não conseguia saber a verdade, mandou que
Paulo fosse levado para a fortaleza. A multidão pressionava mais e mais. Os
soldados apressando o passo, quase correndo, levaram Paulo carregado.
A multidão continuava
gritando: "Mata-o!" da mesma forma como fizeram com Jesus nesse mesmo
lugar, cerca de trinta anos antes (Lc 23.18; Jo 19.15), onde os autores
empregam o mesmo verbo (ver At 22.22).
A prisão de
Paulo mostra-nos que a fidelidade a Cristo não nos isenta de sofrimentos. O
apóstolo foi atacado pela multidão, mas Deus preservou a sua vida mediante
intervenção das autoridades romanas. Dessa forma, aprendemos que o Senhor
continua soberano mesmo em cenários de oposição. Assim como Paulo, o cristão
pode enfrentar injustiças, mas Deus continua no controle da situação.
II - A OPORTUNIDADE PARA TESTEMUNHAR
1. Paulo pede licença para falar ao povo
(21.37-40)
Paulo está no meio de uma grande confusão, acusado e
quase linchado pela multidão. Ao ser preso no Templo e levado pelos soldados,
surpreende a todos ao não se calar. Ele identifica-se educadamente ao
comandante e esclarece a sua origem (cidadão de Tarso, cidade importante na
Cilícia).
Em vez de
lamentar a prisão diante de um povo hostil, ele pediu licença para falar ao
povo (21.37-40). Paulo não perdeu a calma e soube transformar um momento de
aparente derrota em ocasião de testemunho. Com a permissão concedida,
posiciona-se nos degraus da fortaleza e faz um gesto para silenciar o
povo. Esse ato demonstra a sua calma,
coragem e intenção clara de testemunhar sobre a sua fé e a razão da sua prisão.
Paulo surpreende o oficial romano falando com ele em grego. No mundo antigo, o
grego era uma língua franca, mas o oficial tinha julgado mal Paulo como judeu e
pessoa rude sem ter recebido educação. A cena ensina-nos que, mesmo em meio à
adversidade, existe oportunidade para anunciar o evangelho. Esse momento serve
como uma introdução poderosa ao seu discurso de defesa (que continua no
capítulo 22),
onde ele compartilha o seu testemunho pessoal de
conversão no caminho para Damasco.
O relato da
prisão de Paulo em Jerusalém revela a postura de um verdadeiro servo de Deus
diante da adversidade. Enquanto muitos se desesperam ao serem presos injustamente,
Paulo aproveitou a situação para anunciar a mensagem do evangelho.
Em primeiro
lugar, observamos a sua serenidade ao pedir licença para falar ao povo. Diante
do tribuno romano, Paulo mostrou respeito e sabedoria, demonstrando que um
coração cheio do Espírito Santo sabe dialogar mesmo em meio à hostilidade. O
simples ato de pedir permissão abriu espaço para que ele pudesse testemunhar.
2. O uso da língua hebraica para ganhar
atenção
(At
22.1,2)
Paulo usou
uma estratégia, estabelecendo uma conexão cultural para conectar-se com os
ouvintes usando a língua hebraica, mais precisamente o aramaico, a língua que
os judeus mais valorizavam, para mostrar identidade e ganhar a atenção da
multidão, compartilhando a sua trajetória. Poucos judeus da Diáspora conseguiam
falar a língua da Palestina (At 6.1), e alguém que falasse esse idioma merecia
ser ouvido (At 22.2). Paulo demonstrou respeito pela sua cultura e tradição,
permitindo que ele apresentasse a sua defesa.
Com isso,
ele garantiu que todos os presentes pudessem entender a sua defesa diretamente
sem a necessidade de um intérprete ou a barreira que o grego (língua franca do
Império Romano) poderia representar para alguns membros da congregação mais conservadores.
A mudança
para o hebraico/aramaico, a lingua dos textos sagrados e do ensino rabínico,
ajudou a estabelecer a autoridade de Paulo como um judeu devoto e instruído,
não apenas um forasteiro ou um agitador anti-judaico, como talvez o
percebessem.
Esse gesto
demonstra sabedoria e coragem, usando a sensibilidade cultural e sabedoria para
contextualizar a mensagem. Paulo começa dirigindo-se à audiência por
"Varões irmãos e pais" (v. I), a mesma saudação que Estêvão usou no
seu discurso (At 7.2). "Pais" seria apropriado para os sacerdotes e
membros do Sinédrio. Nada é dito sobre eles, mas talvez alguns estivessem
presentes nessa ocasião.
Dirigindo-se a eles como "irmãos", Paulo
reforça que ele é judeu; eles são irmãos. Ele fala com eles no seu próprio
idioma. Quando o ouvem falar em hebraico, podem ter ficado impressionados com a
sua fidelidade ao judaísmo e ouvido cuidadosamente a sua defesa.
O cristão
deve usar sabedoria para transformar crises em oportunidades de proclamar a fé.
O evangelho deve ser comunicado de forma sábia e compreensível ao público alvo.
3.
Coragem para testemunhar em meio à hostilidade
(At
22.3-5)
Paulo
dirigiu-se ao público e fez um resumo da sua vida, a começar pelo seu
nascimento, formação, religião e como perseguiu a Igreja do Senhor. Paulo corajosamente
expõe a verdade diante da oposição, mesmo ao fazer menção que fora comissionado
a evangelizar os gentios, sendo que o povo novamente explodiu em fúria, de modo
que o comandante, confuso, mandou que o apóstolo fosse açoitado. Paulo, então,
declarou ser cidadão romano, o que lhe favoreceu escapar da ira intensa do povo
e aos flagelos que lhe seriam impostos pela guarnição romana.
Como Paulo
invoca a sua cidadania romana, os preparativos para a flagelação são cancelados.
O centurião presume que Paulo está dizendo a verdade e informa o seu superior.
O tribuno quer ter certeza e pergunta a Paulo se este é romano. Paulo confirma
a pergunta de forma sucinta com um "sim". Ele não entra em detalhes sobre
o que tudo isso significa; apenas quer salientar que algo está acontecendo que contradiz
a lei da qual Roma tanto se orgulha.
O tribuno
olha para Paulo com desconfianca - afinal de contas, qualquer um pode afirmar
que é romano. Ele mesmo comprou essa cidadania por muito dinheiro, pois a
cidadania romana dava-lhe muitas vantagens. Onde esse pequeno homem teria
conseguido o dinheiro? Paulo, porém, tinha automaticamente essa cidadania porque
nasceu em Tarso.
O fato de
Paulo ter invocado a sua cidadania romana imediatamente o livrou da ameaça de
açoitamento. O tribuno, no entanto, ainda quer saber qual é a sua posição em
relação a Paulo. Ele manda tirar os grilhões do apóstolo e ordena que sumo
sacerdote e sinédrio reúnam-se. O tribuno não leva Paulo perante o sinédrio por
aquilo tratar-se de um julgamento, mas para descobrir o que, de fato, está em
jogo aqui por meio do confronto entre as duas partes.
Isso mostra
o poder dos romanos sobre o sistema religioso dos judeus. Isso também deixa
claro o quão grande é a escravidão em relação às nações e em quais escravidões
o povo de Deus caiu por causa dos seus pecados. Isso também mostra como o povo
é cego e arrogante quando se trata do fato de que a salvação de Deus estende-se
às nações.
A coragem de
Paulo ao testemunhar sobre a sua conversão diante da hostilidade é um exemplo
de fé e resiliência. O exemplo de Paulo inspira-nos a não desperdiçar
oportunidades. Cada situação da vida pode tornar-se ocasião para glorificar a
Cristo. Mesmo na prisão, em injustiça e hostilidade, Paulo encontrou o momento certo
para pregar o evangelho. É o Espírito Santo que nos fortalece para
testemunharmos com coragem mesmo em ambientes hostis.
III - O PODER DO TESTEMUNHO PESSOAL
1. A vida de Paulo antes da conversão (At
22.3-5)
O discurso é
dividido em três partes. A primeira diz respeito à conduta anterior de Paulo -
a propósito, bem semelhante ao de Gálatas 1.13-17, Filipenses 3.4-11, 1 Timóteo
1.12-16 e Atos 26.4ss.
Paulo inicia
o seu testemunho apresentando o seu passado religioso e moral. Ele não oculta
quem foi, nem tenta suavizar a sua antiga conduta; pelo contrário, fala com
clareza e honestidade (At 22.3).
Perante os
judeus, ele aparecia como um devoto da Lei. Paulo fora educado em Jerusalém aos
pés de Gamaliel. De acordo com a tradição, Gamaliel tinha 500 discípulos, entre
os quais Paulo destacava-se em particular (Gl 1.13,14). Ele absorveu todas as tradições
associadas à Lei, sendo moldado por elas. Tudo o que aprendeu, ele colocou em
prática com zelo inimitável, assim como eles ainda fazem. Quanto a si mesmo,
ele fala no tempo passado e, quanto a eles, no tempo presente. Ao mencioná-lo,
Paulo mostrava as suas credenciais como um homem culto, treinado pelo mais
respeitoso mestre judeu. A sua educação consistiu na estrita instrução
"conforme a verdade da lei de nossos pais" (At 22.3).
O uso que
Paulo faz agora rememora o seu antigo orgulho de fariseu guardador da Lei (Fp
3.6). Em Galatas 1.14, ele descreve-se como antigo fariseu, "extremamente
zeloso" das tradições; aqui, o apóstolo afirma que havia sido "zeloso
para com Deus, como todos vós hoje sois" (v. 3). Romanos 10.2 diz,
todavia, que devemos ser zelosos com entendimento.
Paulo foi
educado segundo a mais rigorosa tradição da Lei, sendo extremamente zeloso de
Deus. Ele tinha, de fato, uma vida religiosa, só que sem Cristo. Todo esse
conhecimento e zelo, no entanto, não produziram salvação. Isso nos ensina que
religiosidade não é sinônimo de conversão (Rm 10.2).
Paulo havia
aparecido perante os cristãos como perseguidor da Igreja (At 22.4). Ele não
apenas discordava do cristianismo, como também o combatia com violência,
pensando estar servindo a Deus, quando, na verdade, estava resistindo ao Senhor
(At 26.9). O testemunho pessoal começa com humildade. Reconhecer quem fomos sem
Cristo exalta o pecador, e não a graça divina.
2. O encontro com Cristo no caminho de
Damasco
(At
22.6-11)
A segunda
parte do seu discurso diz respeito à sua conversão. O ponto central do
testemunho de Paulo não é o seu pecado, mas o encontro transformador com Jesus.
Entretanto, o que aconteceu no caminho de Damasco mudou totalmente a sua vida.
Paulo destacou o encontro pessoal com Cristo no caminho de Damasco (At 22.6).
A história
narrada a respeito da sua conversão é essencialmente a mesma de Atos 9.3-19.
Ele menciona aqui que viu "ao meio dia a luz" (26.13). Ele caiu ao
solo (22.7,8; 26.7,8,14), e "todos igualmente caíram", e ouviu-se uma
voz. Paulo explicou que os homens que estavam com ele "[ ... ] viram, em
verdade, a luz, e se atemorizaram muito; mas não ouviram a voz daquele que
falava comigo" (9.4).
Paulo não
estava buscando a Cristo; foi Cristo que o buscou. O encontro ocorreu
inesperadamente, em plena atividade contrária ao evangelho e por iniciativa
divina. Isso revela que a conversão é obra da graça soberana de Deus (Ef
2.8,9). Nesse encontro pessoal, ele ouve a voz (At 22.7). Jesus chama Paulo
pelo nome. O encontro não foi apenas um fenômeno sobrenatural, mas também uma
experiência pessoal e confrontadora (22.8). Perseguir a Igreja é perseguir o próprio
Cristo (Mt 25.40). A pergunta de Paulo foi sem dúvida, um encontro que gerou a
rendição dele (At 22.10).
Essa
pergunta revela um coração quebrantado e submisso. O verdadeiro encontro com
Cristo sempre produz convicção de pecado, reconhecimento da soberania de Jesus
e disposição para obedecer.
Ananias, por
sua vez, confirmou a chamada divina na sua vida (At 22.12). Deus usa Ananias
para restaurar a visão de Paulo, confirmar o seu chamado e integrá-lo à
comunhão cristã. Isso mostra que ninguém é chamado para caminhar sozinho.
3. Sua missão como servo e testemunha de
Cristo
(At
22.12-29)
A terceira
parte do discurso de Paulo diz respeito ao seu chamado. Para ele, a conversão
fez-se acompanhar de uma vocação imediata para o serviço, independentemente de
esta ser esclarecida ao longo dos anos seguintes (At 9.15). O instrumento do
seu chamado foi
Ananias (At
9.13), que foi descrito no relato anterior. Paulo agora acrescenta tratar-se de
"homem piedoso conforme a lei, que tinha bom testemunho de todos os judeus
que ali [em Damasco] moravam" (v. 12). O propósito de Paulo era demonstrar
que um homem desse calibre é quem desempenhou um papel crucial na sua
conversão.
A oposição
aumentou quando Paulo falou da sua missão aos gentios, mas o evangelho expandiu-se
mesmo assim. O testemunho pessoal é uma poderosa ferramenta de evangelização e
não pode ser silenciado! O testemunho de Paulo revela que a verdadeira força da
Igreja não está em poder humano, mas no encontro com Cristo. A sua experiência
no caminho de Damasco e a sua chamada para os gentios escandalizaram os seus
acusadores, mas confirmaram a amplitude do plano divino. Paulo não foi chamado apenas
para crer, mas para testemunhar: (At 22.15). Ele seria um servo obediente, uma
testemunha pública e um instrumento nas mãos de Deus. A missão de Paulo foi
marcada por obediência e renúncia (At 22.21). O chamado de Paulo implicava
rejeição, sofrimento e sacrificio. Ainda assim, ele obedeceu.
O testemunho pessoal não termina na conversão; ele continua na missão diária, mesmo em meio às dificuldades.
CONCLUSÃO
A prisão não
silenciou Paulo; antes, deu-lhe um púlpito maior. Da mesma forma, nossas
provações podem tornar-se plataformas para glorificar a Deus. O desafio que
esse texto nos deixa é viver de tal modo que, mesmo em situações adversas,
sejamos testemunhas fiéis do evangelho.
A prisão de
Paulo em Jerusalém é um episódio emblemático que mostra como a fidelidade ao evangelho
provoca oposição, mas também como Deus dirige a história em favor dos seus
servos. O relato da prisão mostra como a oposição não impediu o propósito de
Deus. O Senhor usou até a perseguição para abrir portas ao testemunho do
evangelho.A narrativa da prisão de Paulo em Jerusalém revela a tensão e a fidelidade
ao evangelho. Embora acusado injustamente, Paulo viu na prisão uma oportunidade
de anunciar a sua fé.
O testemunho
de Paulo ensina-nos que Deus transforma o passado em instrumento de graça; o
encontro com Cristo muda a direção da vida; todo salvo é chamado para ser testemunha
(At 1.8). O poder do testemunho pessoal não está na perfeição da história, mas
na ação do Cristo vivo que transforma pecadores em servos fiéis (2 Co 5.17).
Coragem para Testemunhar: Paulo diante da
Multidão
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