“E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; pelo que também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus.” (Lc 1.35).
VERDADE PRÁTICA
O Filho de Deus cumpriu seu ministério em plena dependência do Espírito, revelando que a Obra redentora é trinitária: o Pai envia, o Filho obedece e o Espírito capacita.
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE
Lucas 1.26-38.
26 — E, no sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré,
27 — a uma virgem desposada com um varão cujo nome era José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria.
28 — E, entrando o anjo onde ela estava, disse: Salve, agraciada; o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres.
29 — E, vendo-o ela, turbou-se muito com aquelas palavras e considerava que saudação seria esta.
30 — Disse-lhe, então, o anjo: Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus,
31 — E eis que em teu ventre conceberás, e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de Jesus.
32 — Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai,
33 — e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu Reino não terá fim.
34 — E disse Maria ao anjo: Como se fará isso, visto que não conheço varão?
35 — E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; pelo que também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus.
36 — E eis que também Isabel, tua prima, concebeu um filho em sua velhice; e é este o sexto mês para aquela que era chamada estéril.
37 — Porque para Deus nada é impossível.
38 — Disse, então, Maria: Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo ausentou-se dela.
PLANO DE AULA
1. INTRODUÇÃO
Desde a concepção milagrosa do Filho até a sua glorificação, o Espírito está presente, revelando que a obra redentora é trinitária. Nesta lição, veremos como o Espírito Santo agiu na concepção, capacitação e missão de Jesus, e como essa verdade se aplica à nossa vida cristã.
2. APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO
A) Objetivos da Lição: I) Mostrar que a concepção de Jesus foi obra sobrenatural do Espírito Santo; II) Explicar que Jesus viveu e realizou seu ministério em plena dependência do Espírito; III) Destacar que a obra da salvação é trinitária e exige do crente fé e submissão.
B) Motivação: Se até o Filho de Deus escolheu viver em dependência do Espírito Santo, quanto mais nós precisamos dessa mesma capacitação em nossa caminhada cristã.
C) Sugestão de Método: Inicie a aula escrevendo no quadro três expressões: Concepção — Capacitação — Cooperação. Peça que os alunos digam rapidamente o que cada palavra lhes faz lembrar na vida de Jesus. Depois explique que essas três palavras resumem a relação entre o Filho e o Espírito: I) Concepção: o Espírito foi o agente da encarnação (Lc 1.35); 2) Capacitação: Jesus realizou milagres e ensinou pelo poder do Espírito (Mt 12.28); 3) Cooperação: a Trindade age unida na salvação — o Pai envia, o Filho obedece e o Espírito capacita. Finalize incentivando os alunos a dependerem do Espírito em todas as áreas da vida cristã.
3. CONCLUSÃO DA LIÇÃO
A) Aplicação: Jesus viveu em perfeita obediência ao Pai e na dependência do Espírito. Isso nos ensina que a vida cristã não se apoia apenas em esforço humano, mas no agir do Espírito Santo.
4. SUBSÍDIO AO PROFESSOR
A) Revista Ensinador Cristão. Essa revista traz reportagens, artigos, entrevistas e subsídios de apoio à Lições Bíblicas Adultos. Na edição 104, p.42, você encontrará um subsídio especial para esta lição.
B) Auxílios Especiais: Ao final do tópico, você encontrará auxílios que darão suporte na preparação de sua aula: 1) O texto “Concepção e Batismo”, localizado depois do primeiro tópico, aponta para a reflexão a respeito do papel do Espírito Santo na concepção virginal de Jesus Cristo; 2) O texto “Jesus e a Obra do Espírito”, ao final do segundo tópico, aprofunda o tema do relacionamento de Jesus com o Espírito Santo.
A Santíssima Trindade — O Deus Único Revelado em Três Pessoas Eternas
Comentarista: Douglas Baptista
Lição 12: O Filho e o Espírito
0 plano da salvação não é uma obra isolada, mas uma ação conjunta, coordenada em perfeita harmonia pelo Pai, pelo Filho e pelo Espírito Santo. A Escritura revela que a Trindade age inseparavelmente em favor da redenção da humanidade. Essa verdade bíblica revela não apenas a unidade trinitária, mas também a economia da salvação, isto é, a forma como cada Pessoa divina age de maneira distinta, mas inseparável, na obra redentora.
A unidade perfeita da Trindade no plano da salvação é um testemunho de que Deus é ao mesmo tempo um só em essência e trino em pessoa, agindo com propósito eterno e amor redentor (Ef 1.9-10). Esse capítulo mostra como o Espírito Santo participa ativamente desde a encarnação do Filho, sua obra redentora, sua ressurreição e exaltação (Jo 3.16; Rm 8.11; Ef 1.4-7), bem como enfatiza a resposta esperada de cada crente à obra de redenção.
1 - O ESPÍRITO E A CONCEPÇÃO DO FILHO
1. O Anúncio do Nascimento de Jesus
O evangelista Lucas, com rigor histórico e teológico, registra que o anjo Gabriel foi enviado por Deus a Nazaré da Galileia para anunciar a uma jovem chamada Maria o nascimento do Salvador (Lc 1.26-27). A mensagem divina rompe o silêncio dos séculos e inaugura a plenitude dos tempos (G1 4.4). O anjo declara: “E eis que em teu ventre conceberás, e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de Jesus" (Lc 1.31). O anúncio contém três elementos fundamentais para a doutrina da encarnação do verbo de Deus: a concepção, o nascimento e a identidade da criança.
A concepção de Jesus foi um ato miraculoso de Deus. Paulo disse que a encarnação de Cristo foi um milagre e a chamou de “mistério da piedade” (1 Tm 3.16).' Maria concebeu pelo poder do “Espírito Santo”, cuja obra é santificar, e, portanto, santificou a virgem, para esse propósito (Lc 1.35). Henry anota que a criança não seria “concebida da maneira normal, porque ela não deveria compartilhar da corrupção e da contaminação comuns da natureza humana [...] A sua natureza humana deveria ser produzida desta maneira, como era adequado que fosse, pois se uniria à natureza divina”.1 2
O nascimento de Jesus, embora precedido por uma concepção sobrenatural (Mt 1.18,20; Lc 1.35), ocorreu de forma natural por meio do ventre de Maria, como qualquer outro parto. Lucas registra que “cumpriram-se os dias [...] E [Maria] deu à luz o seu filho” (Lc 2.6-7). Paulo reforça essa realidade ao afirmar que o Filho eterno foi “nascido de mulher” (G14.4), destacando sua plena humanidade. Assim, embora concebido milagrosamente, Jesus foi gerado, nasceu e cresceu dentro das condições normais da experiência humana (Lc 2.40,52), sendo verdadeiro Deus e verdadeiro homem. O anjo declara que o nome da criança seja Jesus e sua identidade divina é confirmada pelo título messiânico: “Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo” (Lc 1.32). Essa expressão não apenas revela a filiação divina de Jesus, mas o apresenta como o herdeiro do trono de Davi (2 Sm 7.12-16; Is 9.6-7). Maria demonstra perplexidade, não entende como isso podería acontecer uma vez que era virgem (Lc 1.34). A esse respeito o anjo lhe assegura: “para Deus nada é impossível” (Lc 1.37). Na sequência o texto afirma que ela creu e na mais completa confiança e submissão declarou: “Eis aqui a serva do Senhor ; cumpra-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1.38).
2. O Espírito com o Agente da Concepção
Diante da mensagem inusitada de sua gravidez, Maria indagou ao anjo Gabriel: “Como se fará isso, visto que não conheço varão?” (Lc 1.34), Essa pergunta não pode ser lida com conotação de dúvidas ou incredulidade, apenas demonstra a perplexidade da virgem acerca de como a concepção iria acontecer sem a intervenção de um homem.3 O teólogo da Reforma Filipe Melanchthon endossa o que já foi afirmado, isto é, “Deus desejou que Cristo nascesse sem a união física de um homem e uma mulher, para que sua concepção se realizasse sem pecado”.4 5 A explicação que o anjo faz de como seria a concepção é singular e miraculosa: “Descerá sobre ti o Espírito Santo” (Lc 1.35a). O “Espírito Santo” está \inculado a “virtude do .Altíssimo que te cobrirá com a sua sombra” (Lc 1.35b). A resposta é expressa na forma de paralelismo sinonímico, uma figura de linguagem em que a segunda linha repete a ideia da primeira.0 A “sombra”, como já visto nesta obra, diz respeito à presença de Deus (Ex 40.35), reporta à nuvem que deu sombra como sinal da presença di\ina na transfiguração (Lc 9.34) e sinaliza o poder criativo do Espírito de Deus (Gn 1.2; SI 104.30).6
Assim, a sombra do Espírito ao mesmo tempo protege e cria. Desse modo, elucida o anjo, a concepção será obra do Espírito Santo, e por isso declara: a criança “que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus” (Lc 1.35b). Essa linguagem lucana é especialmente trinitária: o Altíssimo, o Filho de Deus e o Espírito Santo. No evento da anunciação, como um incentivo a sua fé, o anjo comunica a Maria da gravidez de Isabel: “Isabel, tua prima, concebeu um filho em sua velhice” (Lc 1.36a). Todas as mulheres estéreis da história bíblica que engravidaram de modo sobrenatural prepararam o mundo para crer no milagre da concepção, inclusive de uma virgem esperando um filho.7
A perplexa jovem do início da revelação angelical, após a minuciosa explicação, compreendeu o desígnio divino e não desacreditou das palavras do anjo. Como observa Horton, a grande lição das narrativas da concepção e do nascimento de Jesus é a afirmação de que Ele é, ao mesmo tempo, Filho de Deus e filho de Maria. Desde o princípio, o Espírito Santo foi o agente da concepção no ventre da virgem, revelando o profundo vínculo de Cristo com a terceira Pessoa da Trindade (Lc 1.34-35).8 O exemplo de Maria, assim como o de Abraão, ensina o crente a não vacilar diante das promessas de Deus, mas a fortalecer-se na fé, dando glória ao Senhor (Rm 4.20-21).
3. A Pureza e a Santidade do Filho
No anúncio do anjo a Maria, uma declaração de caráter cristológico se destaca: “o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus” (Lc 1.35c). A palavra “santo” (gr. hágios) significa “separado, consagrado”, e quando aplicado a Cristo, não apenas indica dedicação ao serviço divino, mas também exprime um atributo essencial da sua natureza (SI 99.9). Diferente da humanidade marcada pelo pecado, Jesus foi concebido pelo Espírito Santo e, portanto, nasceu já em estado de perfeita santidade, sem qualquer mancha ou corrupção (Hb 4.15).
Ao atribuir o título de “santo” ao Filho desde o nascimento, o anjo não apenas descreve seu estado moral, mas confirma sua divindade intrínseca. Assim sendo, a santidade de Cristo não é adquirida, mas inerente à sua missão: (i) Obediência perfeita. Como segundo Adão, Cristo permaneceu justo e obediente, garantindo a justificação dos que creem (Rm 5.19; 1 Co 15.45); (ii) Cordeiro imaculado. Sua santidade o qualificou para ser o sacrifício perfeito e sem defeito (1 Pe 1.19); (iii) Redentor eficaz. Por ser santo, pôde oferecer-se de uma vez por todas em favor dos pecadores (Hb 10.10); e (iv) Modelo de santificação. Assim como foi concebido pelo Espírito, os crentes também nascem espiritualmente pelo mesmo Espírito e são conformados à imagem do Filho (Rm 8.29).
Do ponto de vista doutrinário, a santidade de Cristo constitui o fundamento da soteriologia cristã. Sem a santidade intrínseca do Filho, não havería redenção, justificação nem santificação possíveis. A doutrina da impecabilidade de Cristo9 afirma que, embora plenamente hu mano, Ele esteve livre da corrupção do pecado, garantindo a eficácia de sua obra expiatória.10 Sua santidade também é escatológica, pois garante a glorificação futura dos crentes, chamados a participar da herança incorruptível (1 Pe 1.4).
Em vista disso, a declaração angelical revela que Jesus nasceu santo, separado do pecado e consagrado desde a concepção pelo Espírito Santo. Essa santidade é atributo divino essencial, confirmando-o como verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Teologicamente, ela é a base da obra redentora de Cristo, pois somente um Salvador santo poderia cumprir a Lei, oferecer-se como sacrifício perfeito e conduzir os crentes à santificação. A santidade do Filho é a garantia da justificação e glorificação do salvo, bem como o paradigma da vida cristã conduzida pelo Espírito.
II - O FILHO E SUA RELAÇÃO COM O ESPÍRITO
1. O Filho E o Verbo Feito Carne
Ao assegurar que “o Verbo se fez carne”, a Escritura revela o mistério do Filho Jo 1.14). Porém, João não descreve um início do Logos em Maria, mas a entrada do Logos eterno na história humana. O prólogo joanino demonstra a pré-existência, a divindade, a mediação criadora e a pessoalidade do Verbo, coigual com o Pai e o Espírito Jo 1.1-3), culminando na sua encarnação e autorrevelação como a glória do Pai “cheio de graça e de verdade” Jo 1.14). Em termos salvíficos, a encarnação é o modo pelo qual Deus realiza a redenção; em termos trinitários, ela manifesta a perfeita harmonia entre o Pai, o Filho e o Espírito.
A encarnação ocorre “na plenitude dos tempos” (G1 4.4). O Filho eterno, “nascido de mulher”, assume a humanidade sem cessar de ser Deus. Aqui se firma a união hipostática: uma Pessoa (o Filho), duas naturezas (divina e humana), não dividida ou separada em duas pessoas, mas um só e mesmo Filho Unigênito. Assim, a encarnação não implica redução da divindade do Filho, mas assunção da natureza humana. A distinção de natureza de modo algum é anulada pela união, mas, pelo contrário, as propriedades de cada natureza permanecem intactas (Calcedônia, 451 d.C.).11
Significa que Cristo submeteu-se voluntariamente às limitações humanas, mas manteve a sua essência divina (Jo 5.19). O Filho “esvaziou- -se” (Fp 2.6-8) não de seus atributos, mas de suas prerrogativas e do status de glória, assumindo forma de servo e limites humanos (fome, cansaço, dor, tristeza, alegria), permanecendo plenamente Deus. Horton reitera a respeito desse assunto “que Jesus não deixou de ser Deus durante a encarnação. Pelo contrário, abriu mão apenas do exercício independente dos atributos divinos”.12 O pastor Antonio Gilberto ressalta que, ao humanizar-se, Cristo não deixou de ser divino, pois atributos exclusivos da deidade foram manifestos por Ele entre os homens.13
A doutrina da encarnação explica que, embora possuísse em si mesmo todos os atributos divinos, Cristo optou em não usá-los de forma independente, vivendo cheio do Espírito (Lc 4.18-19; Jo 5.19; At 10.38). Implica dizer que, ao assumir a natureza humana, Ele escolheu viver em dependência do Pai, no poder do Espírito. Pearlman afirma que “Ele exerceu seu ministério com o conhecimento íntimo de que o poder divino habitava nele. Sabia que o Espírito do Senhor Deus estava sobre ele”.14 Dessa forma, a encarnação foi operada pelo Espírito Santo (Mt 1.20; Lc 1.35), demonstrando a perfeita harmonia entre o Filho e o Espírito na execução do plano redentor do Pai.
2. O Espírito Capacita o Filho
A encarnação do Verbo Jo 1.14) revela não apenas a união das naturezas divina e humana em Cristo, mas também a maneira pela qual Ele viveu. Embora fosse plenamente Deus, Jesus escolheu agir como verdadeiro homem. As Escrituras revelam que o seu ministério terreno foi marcado pela ação do Espírito Santo. Stronstad esclarece que o poder exercido por Ele é atribuído “à capacitação que Jesus recebeu do Espírito Santo (Mt 12.28)”.15 O próprio Senhor Jesus reconhece ser ungido pelo Espírito de Deus para anunciar boas-novas, curar e libertar os cativos e oprimidos (Lc 4.18).
A missão de Jesus, portanto, foi conduzida sob a unção e capacitação do Espírito Santo: (i) A cada palavra proferida. Cristo falava as palavras de Deus porque o Espírito lhe fora dado “sem medida” Jo 3.34). Logo, cada ensino tinha autoridade divina, mas comunicado por meio da unção do Espírito; (ii) A cada milagre realizado. Sob a mediação do Espírito “o poder do Senhor estava com Ele para curar” (Lc 5.17); (iii) A cada demônio expulso. Pela ação direta do Espírito, os espíritos malignos eram exorcizados “pelo dedo de Deus” (Lc 11.20); e (iw) A cada perdão ministrado. Concedido no contexto de sua autoridade ungida pelo Espírito (Lc 5.24).
A capacitação de Jesus pelo Espírito tem profundas implicações doutrinárias: (i) Cristológicas. Na encarnação, Cristo assumiu a natureza humana e escolheu depender do Espírito, revelando obediência filial (Fp 2.8); (ii) Pneumatológicas. O Espírito é o agente central na vida de Cristo, desde a concepção (Lc 1.35), batismo (Lc 3.22), tentação (Mt 4.1), milagres (At 10.38), até a ressurreição (Rm 8.11); (iii) Soteriológicas. O sacrifício vicário de Cristo é realizado em comunhão com o Espírito (Tt 3.5-6; Hb 9.14); e (iv) Eclesiológicas. Assim como Jesus viveu e atuou no poder do Espírito, a Igreja é chamada a realizar sua missão pela capacitação do mesmo Espírito (At 1.8).
Cristo não veio com ostentação, mas como servo, movido por compaixão divina (Fp 2.5-7). O Espírito o capacitava com sabedoria, inteligência, poder e direção (Is 11.2). Esse padrão mostra que até o Verbo encarnado escolheu depender do Espírito de Deus (Mt 4.1). O exemplo do Filho tem implicações diretas para os discípulos. Jesus deixou claro que a obra do Reino só pode avançar mediante a unção do Espírito (Lc 24.49; At 1.8). Isso confirma a ênfase pentecostal de que o batismo no Espírito Santo não é apenas experiência inicial, mas capacitação contínua para o testemunho eficaz, para a manifestação dos dons espirituais e para uma vida de santidade (1 Co 12.7-11).
3. O Filho e o Poder do Espírito
Como já observado, os Evangelhos mostram que, embora sendo Deus, o Filho viveu em dependência do Espírito Santo, revelando a humildade de sua encarnação e oferecendo um paradigma para a vida cristã.16 Tal relação entre Cristo e o Espírito não diminui sua divindade, mas evidencia o mistério da união hipostática, em que o Verbo eterno assume a natureza humana e nela realiza a redenção em plena obediência ao Pai pelo poder do Espírito Santo (Jo 6.38; Fp 2.6-8).
Seu batismo foi confirmado pelo Espírito e pela voz do Pai como a manifestação das três Pessoas da Trindade no plano redentor (Lc 3.22). Exegeticamente, o verbo grego katabainõ (“descer”) indica o revestimento de poder do Espírito para a missão messiânica, não uma outorga de divindade, mas a confirmação de sua consagração messiânica. No deserto, em contraste com Adão, que sucumbiu à tentação, Cristo, o “último Adão”, venceu o Diabo pela obediência à Palavra e pelo poder do Espírito (Mt 4.1; 1 Co 15.45).
A unção e o poder do Espírito sustentaram seu ministério terreno em todo o tempo (Is 42.1-4; Mt 12.18-21). Seus milagres eram sinais que revelavam o Reino de Deus, e eram realizados em cooperação com o Espírito (Mt 12.28). Em sua humanidade, submeteu-se ao Pai e agiu sempre no poder do Espírito Jo 6.38). Sua obediência encontrou o ápice na cruz e sublinhou a dimensão trinitária do sacrifício (Hb 9.14). Sua vitória sobre a morte é também uma obra operada pelo poder do Espírito (Rm 8.11).
Desse modo, todas as etapas da vida de Jesus — encarnação, batismo, tentação, pregação, milagres, morte sacrificial e ressurreição — são apresentadas como fruto da cooperação entre o Filho e o poder do Espírito na execução do propósito do Pai. Essa cooperação enfatiza que a salvação é obra do Pai, realizada pelo Filho e sustentada pelo Espírito. A conduta do Senhor Jesus mostra que o poder para a missão procede do Espírito.17 Assim, o crente é chamado a viver sob a mesma dependência, realizando a obra do Reino “não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor ” (Z c 4.6).
III - A TRINDADE E A MISSÃO REDENTORA
1. O Pai Envia o Filho e o Espírito
Reitera-se que a Escritura apresenta o Pai como a origem e o fundamento da salvação. Ele é a fonte de todo propósito redentor (Jo 3.16). O Pai não apenas idealiza o plano, mas envia o Filho ao mundo, não como mero mensageiro, mas como oferta viva para resgatar os que estavam debaixo da lei (G1 4.4-5; Hb 9.14). O verbo grego apesteilen (“enviou”, G1 4.4) denota não só um comissionamento, mas uma missão com propósito sacrificial. O envio do Filho mostra que a redenção é histórica, concreta e vicária (At 10.38). Essa perspectiva mostra que a redenção é expressão da graça e do amor eterno do Pai (1 Jo 4.9).
Esse amor foi a causa do envio do Filho para propiciação pelos pecados da humanidade (1 Jo 4.10).18 O Filho, o Verbo Eterno, encarnou-se para cumprir perfeitamente a lei e assumir a penalidade do pecado Jo 1.14; 2 Co 5.21). O credo Atanasiano (séc. IV) ratifica que Cristo “sofreu por nossa salvação: desceu ao inferno, ao terceiro dia ressurgiu dos mortos. Ascendeu aos céus: assentando-se à direita de Deus Pai Onipotente, de onde virá para julgar os vivos e os mortos”.19
O Espírito, que também procede do Pai Jo 15.26), não é um agente passivo.20 Ele não ocupa papel secundário, mas é plenamente ativo na salvação. Como já visto, reitera-se que o Espírito concebe o Filho no ventre de Maria (Lc 1.35), unge, capacita e acompanha o Filho em cada etapa do ministério (At 10.38). E, finalmente, o Espírito aplica os méritos de Cristo na vida dos crentes. Paulo afirma que é pelo Espírito que o cristão conhece e experimenta a salvação (1 Co 2.10-12; Rm 8.16). Dessa forma, a obra do Filho realizada na cruz torna-se eficaz em cada crente pela ação do Espírito.
Essa cooperação, ratifica-se, demonstra que a redenção é, em sua essência, uma obra trinitária. Sem sobreposição ou confusão, mas em perfeita harmonia. Essa estrutura não revela três salvação distintas, mas uma só salvação trinitária: o Pai, em amor eterno pelos pecadores, envia; o Filho, em total submissão e obediência, executa; e o Espírito, em virtude e poder, aplica (1 Pe 1.2). A fé cristã encontra aqui sua base para viver na experiência do amor do Pai, na graça do Filho e na comunhão do Espírito Santo (2 Co 13.13).
2. O Espírito Revela e Exalta o Filho
João explica que a missão do Espírito não é atrair atenção para si, mas revelar e exaltar o Filho. Cristo afirmou: “Ele me glorificará” (Jo 16.14a). O verbo “glorificar” (gr. doxasei) significa “louvar, exaltar, magnificar, celebrar”, e ainda, “conferir honras, tornar a dignidade e o valor de alguém manifesto e conhecido”.21 Stronstad afirma que “o Espírito não falará de si mesmo, mas glorificará Jesus fazendo conhecido o que lhe pertence. A natureza e humildade recatada do Espírito vem à tona, até a sua atitude submissa é semelhante a servo, da mesma maneira que Jesus”.22
Esse versículo completa a missão do Espírito: “porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar” Jo 16.14b). O texto realça que a mensagem do Espírito não é autônoma, mas proveniente do Filho. Ele transmite aquilo que já pertence a Cristo, revelando quem é Jesus e o que Ele fez. Carson enfatiza que “seu meio é a revelação da pessoa e da obra de Jesus [...] não quer dizer simplesmente que o Paracleto passa para frente o que Jesus declara, mas também que toda a revelação relacionada à pessoa e missão de Jesus são reforçadas para os discípulos”.23
Nesse aspecto, o ministério do Espírito objetiva formar no crente uma vida santificada (1 Ts 4.7-8) e glorificar a Cristo Jo 16.14). Não consiste apenas em repetir ou lembrar o que Jesus disse, mas fazer com que os discípulos compreendam, internalizem e vivam a revelação de Cristo (1 Co 2.12-13). Ele reforça, comunica e aplica aos discípulos a verdade e a vida que estão em Jesus (Jo 6.63). Desse modo, no culto e na pregação, o Espírito deve elevar Cristo, confirmando sua morte, ressurreição e senhorio (1 Co 2.2; 12.3; Rm 10.9), e não trazer foco em experiências subjetivas ou no próprio Espírito (Cl 1.18). Assim, toda manifestação do Espírito deve glorificar a Cristo (1 Jo 4.2).
Em vista disso, o Espírito não busca glória própria, mas dá testemunho do Filho Jo 15.26). A direção do Espírito está, portanto, ligada principalmente à revelação do mistério da salvação, do Cristo crucificado e ressuscitado, que um dia voltará para buscar sua Igreja (1 Co 2.10). Assim, toda obra genuína do Espírito é profundamente cristocêntrica. Portanto, a Igreja hodierna deve discernir as manifestações espirituais à luz da Bíblia (1 Jo 4.1-2). Tudo o que não aponta para Cristo, não procede do Espírito. Cristo é o centro da obra do Espírito Jo 16.13).
3. A Fé e a Submissão do Crente
O plano da redenção é uma obra trinitária, concebida na eternidade e realizada na história por meio do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Contudo, embora seja uma iniciativa soberana de Deus, a salvação requer uma resposta humana de fé, submissão e obediência. Paulo afirma que a salvação é um dom de Deus: “pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus” (Ef 2.8). Esse princípio demonstra que, ainda que o homem não seja agente da redenção, ele é seu recipiente e participante, como diz a Escritura: “E tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo e nos deu o ministério da reconciliação” (2 Co 5.18).
Maria, ao ouvir a mensagem do anjo sobre a concepção milagrosa, mesmo sem entender plenamente, submeteu-se com fé (Lc 1.38). A fé é mais do que um assentimento intelectual; é confiança e entrega total a Deus. Na perspectiva pentecostal, não é possível exercer a fé salvífica à parte da capacitação divina. Tudo quanto pertence à salvação é dádiva divina: “A fé [...] é a resposta do homem. É Deus quem possibilita a fé, mas a fé (o ato de crer) não é de Deus, mas do homem”.24 Nesse diapasão, a submissão está intrinsecamente ligada à fé, pois confiar em Deus implica abrir mão do controle pessoal e entregar-se à sua vontade: “Entrega o teu caminho ao S e n h o r ; confia nele, e ele tudo fará” (SI 37.5). Nesse contexto, um exemplo bíblico de submissão é Maria, mãe de Jesus. Sua confiança e acatamento nas palavras do Anjo (Lc 1.38), servem como exemplo da postura que todo crente deve assumir diante da obra trinitária, isto é, confiar com humildade e entrega total (SI 37.5). Assim como o Filho se submeteu ao Pai e foi ungido pelo Espírito, também o crente é chamado a se colocar nas mãos de Deus, crendo que Ele é poderoso para fazer o impossível (Lc 1.37). A resposta que Ele espera de seus discípulos são atitudes que incluem: (i) fé, confiança no caráter e nas promessas de Deus (Hb 11.6); (ii) arrependimento, mudança de mente e de vida (At 17.30); e (iii) obediência, por meio da prática da Palavra (Tg 1.22).
CONCLUSÃO
Reiteramos que a redenção é uma obra trinitária que revela a perfeita unidade e cooperação entre as Pessoas divinas. O Filho, embora sendo Deus, submeteu-se ao Pai e agiu no poder do Espírito. Ao contemplarmos essa harmonia divina, somos convidados a uma resposta de fé genuína em Cristo, submissão voluntária à vontade do Pai e obediência perseverante à direção do Espírito Santo em nosso viver diário.
O Filho e o Espírito | 145
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