quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

CPAD : A Santíssima Trindade — Lição 9: Espírito Santo — O Regenerador

 

TEXTO ÁUREO

Jesus respondeu e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus.

(Jo 3.3).

VERDADE PRÁTICA

A regeneração é a transformação operada pelo Espírito Santo, pela qual o pecador se torna uma nova criatura.

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE

João 3.1-8.

1 — E havia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos, príncipe dos judeus.

2 — Este foi ter de noite com Jesus e disse-lhe: Rabi, bem sabemos que és mestre vindo de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele.

3 — Jesus respondeu e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus.

4 — Disse-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura, pode tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer?

5 — Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus.

6 — O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.

7 — Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo.

8 — O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.

PLANO DE AULA

1. INTRODUÇÃO

A Regeneração é obra indispensável à salvação. Jesus ensinou que, para entrar no Reino, é necessário nascer de novo. Essa transformação não é exterior, mas interior, realizada pelo Espírito Santo, que regenera o pecador e o torna nova criatura em Cristo. Nesta lição veremos a Regeneração como uma obra trinitária, sua natureza espiritual e seus sinais na vida do crente.

2. APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO

A) Objetivos da Lição: I) Explicar que a Regeneração é uma obra trinitária, planejada pelo Pai, realizada pelo Filho e aplicada pelo Espírito Santo; II) Mostrar que a Regeneração é uma transformação espiritual interior e indispensável à salvação; III) Apontar os sinais práticos do Novo Nascimento: justificação, santificação e o fruto do Espírito.

B) Motivação: Muitos pensam que a vida cristã se resume a boas obras ou a uma mudança de comportamento. Porém, Jesus declarou que é necessário nascer de novo. A Regeneração é obra espiritual e milagrosa do Espírito Santo, que concede ao pecador uma nova vida. Essa verdade deve motivar-nos a viver conscientes de que fomos transformados e chamados a refletir o caráter de Cristo.

C) Sugestão de Método: Inicie a aula destacando no quadro ou de maneira verbal as palavras: “Carne” e “Espírito”. Peça aos alunos que citem exemplos do que pertence à carne (Gl 5.19-21) e do que pertence ao Espírito (Gl 5.22,23). Depois, leia João 3.5,6 e destaque: “O que é nascido da carne é carne; o que é nascido do Espírito é espírito”. Explique que a Regeneração não é um aperfeiçoamento humano, mas um milagre espiritual. Então, inicie a exposição do primeiro tópico.

3. CONCLUSÃO DA LIÇÃO

A) Aplicação: A Regeneração não é resultado de esforço humano, mas obra do Espírito Santo que concede nova vida em Cristo. Essa transformação nos conduz à justificação, ao processo de santificação e à manifestação do fruto do Espírito.

4. SUBSÍDIO AO PROFESSOR

A) Revista Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e subsídios de apoio à Lições Bíblicas Adultos. Na edição 104, p.37, você encontrará um subsídio especial para esta lição.

B) Auxílios Especiais: Ao final do tópico, você encontrará auxílios que darão suporte na preparação de sua aula: 1) O texto “A Regeneração”, localizado depois do primeiro tópico, aprofunda o tópico da Regeneração como obra trinitária na Salvação; 2) O texto “Purificando o Crente”, ao final do segundo tópico, aprofunda o tema da natureza espiritual da obra de Regeneração.

COMENTÁRIO

INTRODUÇÃO

O Novo Nascimento é uma obra indispensável à salvação. Jesus ensinou que para entrar no Reino é necessário nascer de novo. Não se trata de uma mera mudança exterior, mas de uma obra de transformação interior. Esta lição apresenta o Espírito Santo operando no plano trinitário da Salvação como o agente da Regeneração. Sua atuação revela o milagre divino que regenera a natureza humana decaída, concedendo nova vida em Cristo.

Palavra-Chave:

REGENERAÇÃO

 AUXÍLIO TEOLÓGICO

“A REGENERAÇÃO

Quando correspondemos ao chamado divino e ao convite do Espírito e da Palavra, Deus realiza atos soberanos que nos introduzem na família do seu Reino: regenera os que estão mortos nos seus delitos e pecados; justifica os que estão condenados diante de um Deus santo; e adota os filhos do inimigo. Embora estes atos ocorram simultaneamente na vida que crê, é possível examiná-los separadamente. A regeneração é a ação decisiva e instantânea do Espírito Santo, mediante a qual Ele cria de novo a natureza interior. O substantivo grego (palingenesia) traduzido por ‘regeneração’ aparece apenas duas vezes no Novo Testamento. Mateus 19.28 emprega-o com referência a novos tempos do fim. Somente em Tito 3.5 se refere à regeneração do indivíduo. [...] O Novo Testamento apresenta a figura do ser criado de novo (2Co 5.17) e da renovação (Tt 3.5), porém a mais comum é a de ‘nascer’ (gr. gennáō, ‘gerar’ ou ‘dar à luz’). Jesus disse: ‘Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus’ (Jo 3.3). Pedro declara que Deus, em sua grande misericórdia, ‘nos gerou de novo para uma viva esperança’ (1Pe 1.3). É uma obra que somente Deus realiza. ‘Nascer de novo’ diz respeito a uma transformação radical. Mas ainda se faz mister um processo de amadurecimento.” (HORTON, Stanley M. (Ed.). Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2019, pp.371,372).

AMPLIANDO O CONHECIMENTO

O NASCIMENTO ESPIRITUAL

 “Em João 3.1-8, Jesus discute uma das doutrinas fundamentais (isto é, ensinamentos, princípios básicos, as bases da crença) da fé cristã: Regeneração (Tt 3.5), ou nascimento espiritual. Sem ‘nascer de novo’ no contexto espiritual, uma pessoa não pode se tornar parte do Reino de Deus. Isso significa que a vida de uma pessoa deve ser espiritualmente renovada para que ela possa ser salva e receber o dom divino que é a vida eterna através da fé em Jesus.” Amplie mais o seu conhecimento, lendo a obra Bíblia de Estudo Pentecostal — Edição Global, editada pela CPAD.

  AUXÍLIO TEOLÓGICO

 “PURIFICANDO O CRENTE.

A obra do Espírito não cessa quando a pessoa reconhece sua culpa diante de Deus, mas vai crescendo a cada etapa subsequente. A segunda etapa na santificação pelo Espírito Santo na vida do indivíduo é a conversão. Esta é uma experiência instantânea. Inclui a santificação pelo Espírito, ou, em linguagem biblicamente mais correta, o processo da santificação pelo Espírito inclui a conversão. Podemos facilmente demonstrar esse fato pelas Escrituras. Considere as palavras de Paulo: ‘Mas devemos sempre dar graças a Deus, por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito e fé da verdade’ (2Ts 2.13). Note que a palavra ‘salvação’ é qualificada por duas frases preposicionais, que descrevem como foram salvos os crentes de Tessalônica. A segunda frase: ‘fé na verdade’ descreve o papel do crente na salvação: ter fé no evangelho de Jesus Cristo (v.14). A primeira frase: ‘em santificação do Espírito’, é mais importante para o presente estudo. Descreve o papel do Espírito na salvação: santificar o crente.” (HORTON, Stanley M. (Ed.). Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2019, pp.423,424).

  SUBSÍDIOS ENSINADOR CRISTÃO

  O ESPÍRITO SANTO — O REGENERADOR

  A experiência da salvação não seria completa sem uma profunda transformação no interior do salvo. O milagre da regeneração não se limita a mudar a aparência, mas reveste o interior do crente com uma nova vida que coaduna com a vida de Cristo (Cl 3.10). Um dos maiores desafios da vida cristã é aprender a viver como salvo em meio a uma sociedade corrompida, marcada pelo pecado. Nesse cenário, o crente recém-convertido precisa aprender a lidar com as pressões do mundo e nutrir em sua vida diária a santidade. Uma vez justificado e adotado como filho de Deus pela fé, o salvo passa por um processo contínuo de santificação. Nutrir uma vida de santificação requer submeter-se à condução do Espírito e dispor-se a não viver mais como escravo do pecado (Rm 6.17,18). Para tanto, é necessário disciplina em relação à oração, meditação frequente nas Escrituras Sagradas e posicionamento firme contra maus hábitos. Significa renunciar diariamente ao pecado para praticar a justiça que agrada a Deus, seja por palavras, atitudes ou modo de pensar. Não devemos nos conformar com o mundo, mas assumir uma postura racional e transformada pela renovação do nosso entendimento (Rm 12.1,2).

SUBSÍDIOS ENSINADOR CRISTÃO

  No Comentário Histórico-Cultural do Novo Testamento (CPAD), Lawrence O. Richards explica que “a palavra usada aqui para ‘entendimento’ é ‘nous’, e não deve ser confundida com ‘conhecimento’ nem com ‘razão’. O que Paulo tem em mente é expresso mais apropriadamente como ‘perspectiva’ ou ‘modo de pensamento’. Os crentes devem resistir às pressões exercidas pelo mundo para nos conformar com seu modo de pensamento, e em vez disso ter cada uma de nossas perspectivas sobre as questões da vida a partir da perspectiva de Deus. Que grande dádiva é a Escritura. E que grande dádiva é o Espírito, que usa a Palavra para renovar nosso entendimento e transformar nossa vida” (2007, p.317). Essa postura é fruto do contato com o Evangelho da graça, através do qual, uma vez transformados por ele, experimentamos a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (v.2). Quando compreendemos o modo de pensar ensinado pelo Evangelho, aprendemos que praticar a Palavra de Deus não se limita a conhecer uma nova filosofia, mas é adotar um novo estilo de vida transformado pelo poder de Deus para salvação do homem (Rm 1.16). Por essa razão, o apóstolo Paulo encoraja os filipenses a desenvolverem a salvação com temor e tremor (Fp 2.12). Logo, a salvação não é apenas um estado de espírito, mas um viver diário que preservamos de modo vigilante à espera de nosso Senhor, que voltará em glória para nos buscar.

CONCLUSÃO

  A regeneração é uma obra trinitária operada pelo Espírito Santo. Não é um esforço humano, mas uma transformação espiritual profunda. Como regenerador, o Espírito concede nova vida, uma nova natureza e uma nova direção ao ser humano. É necessário nascer do alto para ver e entrar no Reino. Que cada crente se deixe conduzir pelo Espírito e reflita, dia a dia, a natureza divina recebida no Novo Nascimento.

  CPAD : A Santíssima Trindade — O Deus Único Revelado em Três Pessoas Eternas

Lição 9: Espírito Santo — O Regenerador

  


   A regeneração é a obra inicial do Espírito Santo na aplicação da salvação, pela qual o pecador espiritualmente morto é vivificado e transformado em uma nova criatura. Não se trata de uma mera mudança exterior, mas de uma transformação operada internamente pelo Espírito, que purifica dos pecados e concede nova natureza, e que não depende de obras meritórias, mas da graça divina Jo 1.12-13; Tt 3.5). O "nascer de novo” ou “nascer do alto” expressa essa nova criação de natureza espiritual (1 Pe 1.23).

   A regeneração é obra invisível, mas real, como o vento que não se vê, mas que se sente e produz efeitos (Jo 3.8). Essa metáfora desta catanto a soberania do Espírito, que atua livremente no coração humano, quanto a profundidade da mudança produzida na vida de um convertido. Esse capítulo apresenta o Espírito Santo operando no plano trinitário da salvação, como o agente da regeneração. Sua atuação revela o milagre divino que transforma a natureza humana decaída, concedendo nova vida em Cristo.

  I - REGENERAÇÃO:

  UMA OBRA TRINITÁRIA

  1. A Doutrina Bíblica da Regeneração

   No encontro com o fariseu Nicodemos, Jesus disse ao principal dos judeus: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus” Jo 3.3). A expressão “nascer de novo” une dois vocábulos gregos: o verbo gennáõ (“gerar”, “dar origem”) e o advérbio anõthen (“do alto”, “de cima”). O uso desse ad vérbio, especialmente em João, aponta para uma origem celestial (Jo 3.31; Tg 1.17), indicando que o novo nascimento não procede da vontade humana, nem da vontade da carne, mas de Deus Jo 1.13).

  Na conversa com Nicodemos, Jesus faz um contraste entre o nascimento físico “da carne” (gr. ek sárx) e o nascimento espiritual “do Espírito” (gr. ekpneâma), revelando que a regeneração é uma obra sobre natural Jo 3.6). Jesus explica que o “nascer de novo” é algo espiritual Jo 3.5) — uma segunda origem, não humana — um renascimento a partir do alto, isto é, de Deus. A Teologia Sistemática Pentecostal ensina que a expressão “de novo”, de acordo com o texto original, significa “nascer do alto, de cima, das alturas”.1 Isso quer dizer que se trata de uma obra realizada pelo Espírito.

  Nesse sentido, Paulo ensina que somos salvos “pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo” (Tt 3.5b). Aqui, “regeneração” (gr. palingenesia) significa “novo nascimento” e está intimamente ligada à conversão. Ratifica-se que se trata de renovação interior realizada pelo Espírito, ocasião em que a pessoa se torna uma nova criatura (2 Co 5.17). O pastor Antonio Gilberto afirma que “enquanto a regeneração enfatiza o nosso interior, a conversão, o nosso exterior. Quem diz ser nas cido de novo deve demonstrar isso no seu dia-a-dia”.2 Não é uma mera reforma moral, mas uma recriação plena do ser humano.

  2. A Regeneração como Exigência de Jesus

  Cristo declarou que “aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus” Jo 3.3). F. F. Bruce explica que “nesse Evangelho, bem como nos outros, ‘ver o Reino de Deus’ nesse sentido é a mesma coisa que a ‘vida eterna’ [...] A ‘regeneração’ é outro sinônimo (Mt 19.28). Porém, Jesus fala de uma regeneração a ser experimentada aqui e agora”. A expressão “ver o Reino” é paralelo à frase “entrar no Reino” Jo 3.5) evidenciando que não há participação na salvação sem o novo nasci mento. Equivale dizer que a regeneração é absolutamente necessária.3

   Nos Sinópticos, Jesus reforça essa exigência ao declarar: “se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos céus” (Mt 18.3). Nesse sentido, Henry salienta que a con versão significa “ter uma outra mentalidade, em uma outra estrutura e sentimento; devem ter outros pensamentos, tanto de si mesmos como do Reino dos céus, antes de estarem aptos a ocupar um lugar nele”.4 A regeneração/conversão é a porta de entrada no Reino, a obra inicial da graça que principia a transformação do pecador. A ideia é mudança radical de caráter e de total dependência de Deus (1 Co 6.9-11).

   No milagre do novo nascimento, há fé e arrependimento (Mt 4.17). Implica o abandono da velha vida, do egoísmo e do controle da carne, pela adoção de um novo comportamento de santidade e obediência a Cristo.5 O ser uma nova criatura é uma exigência absoluta, uma condição essencial para a salvação (G1 6.15). Aponta para uma nova ordem de existência, criada por Deus, não apenas melhorada. Essa “nova criação” é a evidência visível de que houve regeneração. Por essa razão, a pregação apostólica priorizava o chamado ao arrependimento e à fé (Mc 6.15; At 20.21), colocando a regeneração no centro da proclamação.

  3. O Pai como o Autor da Salvação

  A regeneração, ou novo nascimento, tem sua origem no plano eterno e soberano de Deus Pai. Paulo faz uso de dois termos que revelam a soberana vontade divina: “como também nos elegeu [...] e nos predestinou” (Ef 1.4-5). A expressão eleição significa “escolha”, e predestinação tem o sentido de “determinar antes”. Esses vocábulos ligados entre si explicam que, pela presciência divina, Deus soube de antemão quem iria crer e perseverar em Cristo desde a eternidade e elegeu-os conforme a sua vontade e, para esses eleitos, determinou pro Jesus explicou essa ação do Espírito ao dizer: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” (Jo 3.6). O texto descreve o Espírito Santo como o executante da regeneração. Isso indica que, onde o Espírito opera, ocorre transformação interna e espiritual. O Espírito não apenas desperta, mas implanta vida Jo 6.63). O resultado dessa nova vida é evidenciado pelo fruto do Espírito (G1 5.22-23), que é o caráter de Cristo formado no crente (Rm 8.29). Essa obra é contínua, pois o mesmo Espírito que regenera, também santifica e preserva o crente até o final (Fp 1.6; Rm 8.11).

  II - A NATUREZA ESPIRITUAL DA REGENERAÇÃO

  1. Uma Transformação Interior

  Nicodemos revelou total incompreensão espiritual ao questionar Jesus: “Como pode um homem nascer, sendo velho?” Jo 3.4). A pergunta reflete sua visão limitada ao plano natural. Sua interpretação naturalista revela que ele entendeu o “nascer de novo” literalmente como se fosse algo físico (da carne). Nicodemos, mesmo sendo mestre em Israel Jo 3.10), não foi capaz de discernir a realidade do novo pacto prometido pelos profetas. Evidencia que a mente religiosa, espiritualmente morta, e presa à lógica humana é incapaz de compreender que a justiça de Deus não advém das obras da carne (Rm 10.3).

   Stronstad anota que “o novo nascimento” na compreensão espiritual inepta de Nicodemos significava nascer “de novo” no sentido literal, mas Jesus lhe dizia que o sentido era “nascer de cima”, pelo Espírito.9 Significa que a natureza humana não pode ser mudada da for ma como pensou Nicodemos. Uma repetição do nascimento natural, estava fora de cogitação.10 Jeremias usou uma metáfora para ilustrar que o ser humano, por si mesmo, não pode mudar sua natureza pecaminosa, sendo necessária a ação transformadora de Deus: “Pode o etíope mudar a sua pele ou o leopardo as suas manchas?” Jr 13.23).

   Paulo ensina que “o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura” (1 Co 2.14). Sinaliza que o “homem natural” (gr. ánthrõpos psychikós) não consegue assimilar as coisas do Espírito, pois estas se discernem espiritualmente. Implica dizer que “qualquer um que vive afastado do Espírito de Deus é inca paz de avaliar assuntos que estão no plano do Espírito”.11 Nesse aspecto, aos Romanos, o apóstolo apresenta o correlato ético-religioso em que se alguém tentar “estabelecer a própria justiça” perderá a justiça de Deus (Rm 10.3). Era dessa forma que pensava Nicodemos; ele estava apegado à ideia de mérito para entrar no Reino de Deus, mas Jesus lhe exigiu algo totalmente novo.

   Era imprescindível, não nascer “de novo”, mas nascer “do alto” Jo 3.3). Não apenas um aperfeiçoamento de conduta, mas um novo nascimento, operado de dentro para fora, como ato do Espírito Jo 3.5). Jesus não propõe aprimoramento da velha natureza, mas nova origem “do alto”, isto é, a purificação e vivificação prometida pelos profetas, realizada pelo Espírito Santo em virtude da obra do Filho, segundo o decreto do Pai. A regeneração, portanto, é interior, soberana, eficaz e transformadora — começa no coração e floresce na vida.

  2. Uma Obra Soberana do Espírito

  Jesus acrescenta a Nicodemos que, para entrar no Reino de Deus, é necessário nascer “da água e do Espírito” Jo 3.5). A construção gramatical do texto grego (ek hydõr kai pneüma) forma uma ideia unificada — indicando que “água” e “Espírito” não são dois nascimentos distintos, mas aspectos complementares de um mesmo ato regenerador.

    Essa metáfora da água é recorrente nas Escrituras e aponta para limpeza e purificação do pecado (Ef 5.26; Hb 10.22). Água, sobretudo no Evangelho de João, é símbolo do Espírito Jo 7.37-39). Jesus está retomando a linguagem profética de Ezequiel, em que Deus promete purificar Israel com água limpa e colocar neles um novo espírito (Ez 36.25-27). O Espírito Santo é o agente que concede essa nova vida, capacitando o homem a viver em comunhão com Deus (2 Go 3.6).

  Aqui, água e Espírito formam um par inseparável — purificação e vivificação para descrever a regeneração.

   Cristo também compara a ação do Espírito com o vento (gr. pneüma), termo que no hebraico (ruach) tem o mesmo campo semântico. Assim como o vento sopra onde quer (Jo 3.8), o Espírito age livremente, sem depender de controle humano ou de rituais externos (1 Co 2.11- 12). Isso reforça e harmoniza a revelação bíblica: no Antigo Testamento, Deus prometeu tirar o “coração de pedra” e dar um “coração de carne” (Ez 36.26), colocando seu Espírito para capacitar à obediência. No Novo Testamento, Paulo descreve o mesmo processo como “lavagem da regeneração e renovação do Espírito Santo” (Tt 3.5).

   Por conseguinte, “nascer da água e do Espírito” significa uma transformação espiritual completa: ser purificado dos pecados e receber renovação interior pelo poder do Espírito (Ef 3.16; 5.26).

   Essa mudança não pode ser produzida pela carne. E um ato soberano do Espírito que age de acordo com a vontade eterna do Pai (Ef 1.4-5). Somente a ação divina é capaz de renascer o homem espiritualmente. Aquele que nasce do Espírito torna-se nova criatura (2 Co 5.17), com uma natureza renovada (Cl 3.10) e um coração transformado (Ez 36.26-27). Passa a ter uma nova vida e uma nova identidade.

  3. Uma Nova Vida e Nova Conduta

   Como ensinou Jesus, aquele que nasce apenas da natureza humana permanece limitado àquilo que é da carne; mas quem nasce pela ação do Espírito Santo recebe uma nova natureza espiritual Jo 3.6). Conforme F. F. Bruce, o ensino se refere a uma “antítese entre o campo de ação da carne e o do Espírito”.12 A expressão “carne” (gr. sárx) não diz respeito apenas ao “corpo”, mas indica a condição humana na sua limitação e incapacidade de comunhão com Deus Jo 1.13; 6.63). O vocábulo “Espirito” (gr. pneuma) assinala nova origem e nova ordem de existência. Essa distinção enfatiza que nada da carne pode produzir vida espiritual. As “obras da carne” descrevem a produção natural da velha natureza, tais como imoralidades, inimizades e heresias (G15.19-21). A carne gera concupiscência, escravidão e morte (Rm 8.6a). Aquele que é nascido da carne permanece dominado pela natureza pecaminosa. A Escritura revela que tanto a inclinação como o pensamento da carne são inimizade contra Deus (Rm 8.7). A tendência da carne é voltada para o pecado. E quem está “na carne” não pode agradar a Deus (Rm 8.8).

  Não obstante, todo aquele que vive no Espírito já está sob nova jurisdição (Rm 8.6b). Ratifica-se que não se trata de uma mera reforma comportamental; mas de fato uma vida nova (Jo 3.5-8; Tt 3.5). A antiga identidade “em Adão” dá lugar à identidade “em Cristo” (1 Co 15.22; Rm 8.1). O domínio da carne é vencido pela vida cheia do Espírito (G1 5.16). O pecado deixa de ser a prática dominante (1 Jo 3.9). O caráter de Cristo emerge em contraste com as obras da carne (G15.22).

   O Espírito gera nova vida com fruto espiritual (G1 5.22). Ao nascer do Espírito, o crente passa a viver sob uma nova condição de ordem espiritual. O salvo passa a viver em novidade de vida (Rm 6.4), não uma continuidade melhorada, mas um novo modo de existir. Torna-se uma nova criatura, com uma nova mentalidade, novos desejos e nova direção de vida (Ef 4.22-24). Essa nova vida se evidencia na prática da justiça, no amor fraternal, no desejo pela Palavra e na obediência a Cristo — que são marcas da regeneração genuína (1 Jo 3.9).

  III - SINAIS DO NOVO NASCIMENTO EM CRISTO

  1. A Justificação pela Fé

   A doutrina da justificação pela fé é a grande verdade que a Reforma Protestante restituiu à Igreja. Lutero vivia atormentado com o seguinte raciocínio: “Se Deus julga o homem de acordo com a sua estrita justiça, quem poderá ser salvo?”. Em certa ocasião, ele escreveu: “Eu era o homem mais miserável da terra. Dia e noite eram gritos e desespero, e ninguém podia ajudar-me”.13 E, foi somente após compreender o texto “o justo viverá dá fé” (Rm 1.17) que Lutero encontrou alívio para sua alma.

  A doutrina da justificação pela fé ensina que o pecador é justificado (absolvido da condenação do pecado) unicamente pela fé na graça divina. Ratifica que as obras humanas não podem salvar, mas apenas a fé em Cristo por meio da recepção da graça de Deus (Ef 2.8-9). Ao descrever a ação divina para justificar pecadores, os ter mos usados na Bíblia apontam para o contexto judicial e forense. Em outras palavras, Deus torna livres os pecadores condenados e os declara plenamente justos e isentos de toda culpa, mediante a fé na obra de Cristo na cruz.

   Quanto a essa verdade, o Novo Testamento jamais afirma que a justificação é “diapistin” (“em troca da fé”), mas sempre “diapisteos” (mediante a fé). Isso significa que a fé não é meritória, ou seja, a fé é o meio de se receber a justificação. Desse modo, a justificação pela fé está atrelada à graça divina. Lutero, ao receber a paz que vem me diante a fé, escreveu: “Finalmente compreendí que a justiça de que fala o evangelho é aquela pela qual Deus, em sua graça, nos justifica. Imediatamente senti que renascia para uma nova vida”.14

   Em síntese, pela fé em Cristo, o pecador é justificado, e recebe uma nova posição diante de Deus, não por mérito pessoal, mas pela obra redentora do Calvário (Rm 3.24,28). O crente não é apenas per doado, mas é declarado justo diante de Deus, isto é, absolvido da culpa e da condenação do pecado (Rm 4.7-8). Essa dádiva é recebida somente por meio da fé, como resposta à graça de Deus revelada em Cristo (Rm 3.22). Os efeitos da justificação pela fé incluem a paz com Deus (Rm 5.1) e a adoção como filhos amados do Pai Jo 1.12).

 2. A Vida de Santificação

  O Novo Dicionário de Teologia leciona que “santificação” é um ter mo técnico de ritual de culto. Apresenta a ideia tanto de limpeza (Êx 19.10,14) quanto de consagração e dedicação a Deus (Êx 19.22; Dt 15.19; 2 Sm 8.11; Is 13.3). A palavra hebraica “qadash”, traduzida por “santo”, possui o significado básico de separação do uso comum para uso exclusivo ao serviço de Deus.15 Contudo, o significado de santificação e santidade se estende além do ritual para a esfera moral.16

   No Novo Testamento, o termo grego mais comum traduzido por “santo” é “hagios”. No singular, é usado com o adjetivo para descrever Deus e o seu o Espírito. No plural, é empregado como substantivo para referir-se ao povo de Deus.1' O verbo “hagiazo” é utilizado no sentido ritual de separar algo dentre o que é comum para a utilização com propósitos sagrados (Mt 6.9; Jo 10.39; 1 Pe 3.15). A expressão “hagnos” se refere particularmente a pureza no sentido ético. Em ter mos gerais, “a obra da santificação é a separação de tudo que é contrá rio à pureza do Espírito”.18

   A Teologia Sistemática Pentecostal define que santificar é “pôr à par te, separar, consagrar ou dedicar uma coisa ou alguém para uso estritamente pessoal”. Assim, “santo” é todo crente que vive no domínio exclusivo de Deus, separado do pecado e das práticas mundanas pecaminosas. E exatamente o contrário do crente que se mistura com as coisas tenebrosas do pecado.19 Nesse entendimento, na obra da redenção, o pecador é imediato e simultaneamente salvo, regenerado, justificado e adotado como filho de Deus (At 13.39;Jo 5.24; Rm 8.15).

   A partir da regeneração/conversão, inaugura-se o processo contínuo de santificação, isto é, uma vida separada do pecado e consagrada à obediência, até a sua glorificação final no Dia de Cristo (2 Co 3.18). O crente passa a viver segundo o Espírito, e não mais como escravo da carne (1 Ts 4.3-4). Conforme abordado no capítulo anterior, a santificação apresenta aspectos posicionais e progressivos, à medida que o crente avança em maturidade espiritual e se torna mais semelhante a Cristo (1 Pe 1.15-16). Essa nova vida recebida na regeneração se manifesta pela renúncia ao pecado e pela prática contínua da justiça e santidade (Rm 6.11; Ef 4.24).

  3. O Fruto do Espírito

   O fruto do Espírito Santo se relaciona com o crescimento espiritual e o desenvolvimento do caráter do cristão. Refere-se à nova vida em Cristo, ao modo de andar e proceder daqueles que pertencem a Cristo e vivem no Espírito (G1 5.16-18; Ef 5.18). Cristo ensinou que é pelo fruto que se conhece a árvore (Mt 12.33). Desse modo, o verdadeiro cristão é identificado pelo bom fruto que evidencia no seu caminhar diário. E que o contrário, o fruto mau — a prática das obras da carne (Cl 5.19-21) , denuncia que a pessoa ainda não experimentou a genuína regeneração.

   O Comentário de Aplicação Pessoal anota que “os crentes exibem o fruto do Espírito, não porque eles trabalham nele, mas simplesmente porque o Espírito controla as suas vidas”.20 Paulo observa que “o melhor antídoto contra o veneno do pecado é andar no Espírito, estar em íntima sintonia com as coisas espirituais, dedicar-se às coisas da alma, que é a parte espiritual do homem”.21 Nesse sentido, a ênfase é assim resumida: “Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito” (G1 5.25). Biblicamente (G1 5.22,23) as características do fruto do Espírito classificam-se em três categorias, a saber: (i) as três primeiras são interiores e só podem vir de Deus — amor, alegria e paz; (ii) as três seguintes dizem respeito ao relacionamento de cada crente com os de mais — longanimidade, benignidade e bondade; e (iii) as três últimas apresentam traços mais gerais de caráter que devem guiar a vida de todo crente — fé, mansidão e temperança.22

   Não se trata de dons espirituais, mas de virtudes que o Espírito Santo produz no caráter do regenerado, como expressão de sua nova vida (Ef 2.10). Antes, era dominado pelas paixões carnais, mas agora manifesta a presença do Espírito em suas atitudes diárias (Rm 8.5). Portanto, o fruto do Espírito é a evidência prática da regeneração (Mt 7.16). Quem nasceu de novo passa a refletir, ainda que imperfeitamente, o caráter de Cristo em suas palavras, ações e reações (Lc 6.40). Tal postura não pode ser esporádica, e sim uma marca contínua da nova vida recebida em Cristo (Mt 5.16).

  CONCLUSÃO

    A regeneração é uma obra trinitária operada pelo Espírito Santo. Não é um esforço humano, mas uma transformação espiritual profunda. Como regenerador, o Espírito concede nova vida, uma nova natureza e uma nova direção ao ser humano. E necessário nascer do alto para ver e entrar no Reino. Que cada crente se deixe conduzir pelo Espírito e reflita dia a dia a natureza divina recebida no novo nascimento.

     Espírito Santo — O Regenerador | 111

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