TEXTO ÁUREO
“Jesus respondeu e disse-lhe: Na verdade, na
verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus.”
(Jo 3.3).
VERDADE PRÁTICA
A
regeneração é a transformação operada pelo Espírito Santo, pela qual o pecador
se torna uma nova criatura.
LEITURA
BÍBLICA EM CLASSE
João
3.1-8.
1
— E
havia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos, príncipe dos judeus.
2
— Este
foi ter de noite com Jesus e disse-lhe: Rabi, bem sabemos que és mestre vindo
de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for
com ele.
3
— Jesus
respondeu e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer
de novo não pode ver o Reino de Deus.
4
— Disse-lhe
Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura, pode tornar a
entrar no ventre de sua mãe e nascer?
5
— Jesus
respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e
do Espírito não pode entrar no Reino de Deus.
6
— O
que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.
7
— Não
te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo.
8
— O
vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para
onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.
PLANO
DE AULA
1.
INTRODUÇÃO
A
Regeneração é obra indispensável à salvação. Jesus ensinou que, para entrar no
Reino, é necessário nascer de novo. Essa transformação não é exterior, mas
interior, realizada pelo Espírito Santo, que regenera o pecador e o torna nova
criatura em Cristo. Nesta lição veremos a Regeneração como uma obra trinitária,
sua natureza espiritual e seus sinais na vida do crente.
2.
APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO
A)
Objetivos da Lição: I) Explicar que a Regeneração é
uma obra trinitária, planejada pelo Pai, realizada pelo Filho e aplicada pelo
Espírito Santo; II) Mostrar que a Regeneração é uma transformação espiritual
interior e indispensável à salvação; III) Apontar os sinais práticos do Novo
Nascimento: justificação, santificação e o fruto do Espírito.
B)
Motivação: Muitos pensam que a vida cristã se resume a
boas obras ou a uma mudança de comportamento. Porém, Jesus declarou que é
necessário nascer de novo. A Regeneração é obra espiritual e milagrosa do
Espírito Santo, que concede ao pecador uma nova vida. Essa verdade deve
motivar-nos a viver conscientes de que fomos transformados e chamados a
refletir o caráter de Cristo.
C)
Sugestão de Método: Inicie a aula destacando no
quadro ou de maneira verbal as palavras: “Carne” e “Espírito”. Peça aos alunos
que citem exemplos do que pertence à carne (Gl 5.19-21) e do que pertence ao
Espírito (Gl 5.22,23). Depois, leia João 3.5,6 e destaque: “O que é nascido da
carne é carne; o que é nascido do Espírito é espírito”. Explique que a
Regeneração não é um aperfeiçoamento humano, mas um milagre espiritual. Então,
inicie a exposição do primeiro tópico.
3.
CONCLUSÃO DA LIÇÃO
A)
Aplicação: A Regeneração não é resultado de esforço
humano, mas obra do Espírito Santo que concede nova vida em Cristo. Essa
transformação nos conduz à justificação, ao processo de santificação e à
manifestação do fruto do Espírito.
4.
SUBSÍDIO AO PROFESSOR
A)
Revista Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa
revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e subsídios de apoio à Lições
Bíblicas Adultos. Na edição 104, p.37, você encontrará um subsídio especial
para esta lição.
B)
Auxílios Especiais: Ao final do tópico, você
encontrará auxílios que darão suporte na preparação de sua aula: 1) O texto “A
Regeneração”, localizado depois do primeiro tópico, aprofunda o tópico da
Regeneração como obra trinitária na Salvação; 2) O texto “Purificando o Crente”,
ao final do segundo tópico, aprofunda o tema da natureza espiritual da obra de
Regeneração.
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
O
Novo Nascimento é uma obra indispensável à salvação. Jesus ensinou que para
entrar no Reino é necessário nascer de novo. Não se trata de uma mera mudança
exterior, mas de uma obra de transformação interior. Esta lição apresenta o
Espírito Santo operando no plano trinitário da Salvação como o agente da
Regeneração. Sua atuação revela o milagre divino que regenera a natureza humana
decaída, concedendo nova vida em Cristo.
Palavra-Chave:
REGENERAÇÃO
AUXÍLIO TEOLÓGICO
“A REGENERAÇÃO
Quando
correspondemos ao chamado divino e ao convite do Espírito e da Palavra, Deus
realiza atos soberanos que nos introduzem na família do seu Reino: regenera os
que estão mortos nos seus delitos e pecados; justifica os que estão condenados
diante de um Deus santo; e adota os filhos do inimigo. Embora estes atos
ocorram simultaneamente na vida que crê, é possível examiná-los separadamente.
A regeneração é a ação decisiva e instantânea do Espírito Santo, mediante a
qual Ele cria de novo a natureza interior. O substantivo grego (palingenesia)
traduzido por ‘regeneração’ aparece apenas duas vezes no Novo Testamento.
Mateus 19.28 emprega-o com referência a novos tempos do fim. Somente em Tito
3.5 se refere à regeneração do indivíduo. [...] O Novo Testamento apresenta a
figura do ser criado de novo (2Co 5.17) e da renovação (Tt 3.5), porém a mais
comum é a de ‘nascer’ (gr. gennáō, ‘gerar’ ou ‘dar à luz’). Jesus disse: ‘Na
verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o
Reino de Deus’ (Jo 3.3). Pedro declara que Deus, em sua grande misericórdia,
‘nos gerou de novo para uma viva esperança’ (1Pe 1.3). É uma obra que somente
Deus realiza. ‘Nascer de novo’ diz respeito a uma transformação radical. Mas
ainda se faz mister um processo de amadurecimento.” (HORTON, Stanley M. (Ed.).
Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2019,
pp.371,372).
AMPLIANDO O CONHECIMENTO
O NASCIMENTO ESPIRITUAL
“Em João 3.1-8, Jesus discute uma das
doutrinas fundamentais (isto é, ensinamentos, princípios básicos, as bases da
crença) da fé cristã: Regeneração (Tt 3.5), ou nascimento espiritual. Sem
‘nascer de novo’ no contexto espiritual, uma pessoa não pode se tornar parte do
Reino de Deus. Isso significa que a vida de uma pessoa deve ser espiritualmente
renovada para que ela possa ser salva e receber o dom divino que é a vida
eterna através da fé em Jesus.” Amplie mais o seu conhecimento, lendo a obra
Bíblia de Estudo Pentecostal — Edição Global, editada pela CPAD.
AUXÍLIO TEOLÓGICO
“PURIFICANDO O CRENTE.
A
obra do Espírito não cessa quando a pessoa reconhece sua culpa diante de Deus,
mas vai crescendo a cada etapa subsequente. A segunda etapa na santificação
pelo Espírito Santo na vida do indivíduo é a conversão. Esta é uma experiência
instantânea. Inclui a santificação pelo Espírito, ou, em linguagem biblicamente
mais correta, o processo da santificação pelo Espírito inclui a conversão.
Podemos facilmente demonstrar esse fato pelas Escrituras. Considere as palavras
de Paulo: ‘Mas devemos sempre dar graças a Deus, por vós, irmãos amados do
Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em
santificação do Espírito e fé da verdade’ (2Ts 2.13). Note que a palavra
‘salvação’ é qualificada por duas frases preposicionais, que descrevem como
foram salvos os crentes de Tessalônica. A segunda frase: ‘fé na verdade’
descreve o papel do crente na salvação: ter fé no evangelho de Jesus Cristo
(v.14). A primeira frase: ‘em santificação do Espírito’, é mais importante para
o presente estudo. Descreve o papel do Espírito na salvação: santificar o crente.”
(HORTON, Stanley M. (Ed.). Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal.
Rio de Janeiro: CPAD, 2019, pp.423,424).
SUBSÍDIOS ENSINADOR CRISTÃO
O ESPÍRITO SANTO — O REGENERADOR
A
experiência da salvação não seria completa sem uma profunda transformação no
interior do salvo. O milagre da regeneração não se limita a mudar a aparência,
mas reveste o interior do crente com uma nova vida que coaduna com a vida de
Cristo (Cl 3.10). Um dos maiores desafios da vida cristã é aprender a viver
como salvo em meio a uma sociedade corrompida, marcada pelo pecado. Nesse
cenário, o crente recém-convertido precisa aprender a lidar com as pressões do
mundo e nutrir em sua vida diária a santidade. Uma vez justificado e adotado
como filho de Deus pela fé, o salvo passa por um processo contínuo de
santificação. Nutrir uma vida de santificação requer submeter-se à condução do
Espírito e dispor-se a não viver mais como escravo do pecado (Rm 6.17,18). Para
tanto, é necessário disciplina em relação à oração, meditação frequente nas
Escrituras Sagradas e posicionamento firme contra maus hábitos. Significa
renunciar diariamente ao pecado para praticar a justiça que agrada a Deus, seja
por palavras, atitudes ou modo de pensar. Não devemos nos conformar com o
mundo, mas assumir uma postura racional e transformada pela renovação do nosso
entendimento (Rm 12.1,2).
SUBSÍDIOS
ENSINADOR CRISTÃO
No Comentário Histórico-Cultural do Novo
Testamento (CPAD), Lawrence O. Richards explica que “a palavra usada aqui para
‘entendimento’ é ‘nous’, e não deve ser confundida com ‘conhecimento’ nem com
‘razão’. O que Paulo tem em mente é expresso mais apropriadamente como
‘perspectiva’ ou ‘modo de pensamento’. Os crentes devem resistir às pressões
exercidas pelo mundo para nos conformar com seu modo de pensamento, e em vez
disso ter cada uma de nossas perspectivas sobre as questões da vida a partir da
perspectiva de Deus. Que grande dádiva é a Escritura. E que grande dádiva é o
Espírito, que usa a Palavra para renovar nosso entendimento e transformar nossa
vida” (2007, p.317). Essa postura é fruto do contato com o Evangelho da graça,
através do qual, uma vez transformados por ele, experimentamos a boa, agradável
e perfeita vontade de Deus (v.2). Quando compreendemos o modo de pensar
ensinado pelo Evangelho, aprendemos que praticar a Palavra de Deus não se
limita a conhecer uma nova filosofia, mas é adotar um novo estilo de vida
transformado pelo poder de Deus para salvação do homem (Rm 1.16). Por essa
razão, o apóstolo Paulo encoraja os filipenses a desenvolverem a salvação com
temor e tremor (Fp 2.12). Logo, a salvação não é apenas um estado de espírito,
mas um viver diário que preservamos de modo vigilante à espera de nosso Senhor,
que voltará em glória para nos buscar.
CONCLUSÃO
A regeneração é uma obra trinitária operada
pelo Espírito Santo. Não é um esforço humano, mas uma transformação espiritual
profunda. Como regenerador, o Espírito concede nova vida, uma nova natureza e
uma nova direção ao ser humano. É necessário nascer do alto para ver e entrar
no Reino. Que cada crente se deixe conduzir pelo Espírito e reflita, dia a dia,
a natureza divina recebida no Novo Nascimento.
CPAD :
A Santíssima Trindade — O Deus Único Revelado em Três Pessoas Eternas
Lição 9: Espírito Santo — O
Regenerador
A regeneração é a obra inicial do Espírito
Santo na aplicação da salvação, pela qual o pecador espiritualmente morto é
vivificado e transformado em uma nova criatura. Não se trata de uma mera mudança
exterior, mas de uma transformação operada internamente pelo Espírito, que
purifica dos pecados e concede nova natureza, e que não depende de obras
meritórias, mas da graça divina Jo 1.12-13; Tt 3.5). O "nascer de novo” ou
“nascer do alto” expressa essa nova criação de natureza espiritual (1 Pe 1.23).
A
regeneração é obra invisível, mas real, como o vento que não se vê, mas que se
sente e produz efeitos (Jo 3.8). Essa metáfora desta catanto a soberania do
Espírito, que atua livremente no coração humano, quanto a profundidade da
mudança produzida na vida de um convertido. Esse capítulo apresenta o Espírito
Santo operando no plano trinitário da salvação, como o agente da regeneração.
Sua atuação revela o milagre divino que transforma a natureza humana decaída,
concedendo nova vida em Cristo.
I -
REGENERAÇÃO:
UMA OBRA TRINITÁRIA
1. A
Doutrina Bíblica da Regeneração
No
encontro com o fariseu Nicodemos, Jesus disse ao principal dos judeus: “Na
verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o
Reino de Deus” Jo 3.3). A expressão “nascer de novo” une dois vocábulos gregos:
o verbo gennáõ (“gerar”, “dar origem”) e o advérbio anõthen (“do alto”, “de
cima”). O uso desse ad vérbio, especialmente em João, aponta para uma origem
celestial (Jo 3.31; Tg 1.17), indicando que o novo nascimento não procede da
vontade humana, nem da vontade da carne, mas de Deus Jo 1.13).
Na conversa com Nicodemos, Jesus faz um
contraste entre o nascimento físico “da carne” (gr. ek sárx) e o nascimento espiritual
“do Espírito” (gr. ekpneâma), revelando que a regeneração é uma obra sobre
natural Jo 3.6). Jesus explica que o “nascer de novo” é algo espiritual Jo 3.5)
— uma segunda origem, não humana — um renascimento a partir do alto, isto é, de
Deus. A Teologia Sistemática Pentecostal ensina que a expressão “de novo”, de
acordo com o texto original, significa “nascer do alto, de cima, das alturas”.1
Isso quer dizer que se trata de uma obra realizada pelo Espírito.
Nesse sentido, Paulo ensina que somos salvos
“pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo” (Tt 3.5b). Aqui,
“regeneração” (gr. palingenesia) significa “novo nascimento” e está intimamente
ligada à conversão. Ratifica-se que se trata de renovação interior realizada
pelo Espírito, ocasião em que a pessoa se torna uma nova criatura (2 Co 5.17).
O pastor Antonio Gilberto afirma que “enquanto a regeneração enfatiza o nosso
interior, a conversão, o nosso exterior. Quem diz ser nas cido de novo deve
demonstrar isso no seu dia-a-dia”.2 Não é uma mera reforma moral, mas uma
recriação plena do ser humano.
2. A
Regeneração como Exigência de Jesus
Cristo
declarou que “aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus”
Jo 3.3). F. F. Bruce explica que “nesse Evangelho, bem como nos outros, ‘ver o
Reino de Deus’ nesse sentido é a mesma coisa que a ‘vida eterna’ [...] A
‘regeneração’ é outro sinônimo (Mt 19.28). Porém, Jesus fala de uma regeneração
a ser experimentada aqui e agora”. A expressão “ver o Reino” é paralelo à frase
“entrar no Reino” Jo 3.5) evidenciando que não há participação na salvação sem
o novo nasci mento. Equivale dizer que a regeneração é absolutamente
necessária.3
Nos
Sinópticos, Jesus reforça essa exigência ao declarar: “se não vos converterdes
e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos céus”
(Mt 18.3). Nesse sentido, Henry salienta que a con versão significa “ter uma
outra mentalidade, em uma outra estrutura e sentimento; devem ter outros pensamentos,
tanto de si mesmos como do Reino dos céus, antes de estarem aptos a ocupar um
lugar nele”.4 A regeneração/conversão é a porta de entrada no Reino, a obra
inicial da graça que principia a transformação do pecador. A ideia é mudança
radical de caráter e de total dependência de Deus (1 Co 6.9-11).
No
milagre do novo nascimento, há fé e arrependimento (Mt 4.17). Implica o
abandono da velha vida, do egoísmo e do controle da carne, pela adoção de um
novo comportamento de santidade e obediência a Cristo.5 O ser uma nova criatura
é uma exigência absoluta, uma condição essencial para a salvação (G1 6.15).
Aponta para uma nova ordem de existência, criada por Deus, não apenas
melhorada. Essa “nova criação” é a evidência visível de que houve regeneração.
Por essa razão, a pregação apostólica priorizava o chamado ao arrependimento e
à fé (Mc 6.15; At 20.21), colocando a regeneração no centro da proclamação.
3. O Pai como o Autor da Salvação
A regeneração, ou novo nascimento, tem sua
origem no plano eterno e soberano de Deus Pai. Paulo faz uso de dois termos que
revelam a soberana vontade divina: “como também nos elegeu [...] e nos
predestinou” (Ef 1.4-5). A expressão eleição significa “escolha”, e
predestinação tem o sentido de “determinar antes”. Esses vocábulos ligados
entre si explicam que, pela presciência divina, Deus soube de antemão quem iria
crer e perseverar em Cristo desde a eternidade e elegeu-os conforme a sua
vontade e, para esses eleitos, determinou pro Jesus explicou
essa ação do Espírito ao dizer: “O que é nascido da carne é carne, e o que é
nascido do Espírito é espírito” (Jo 3.6). O texto descreve o Espírito Santo
como o executante da regeneração. Isso indica que, onde o Espírito opera, ocorre
transformação interna e espiritual. O Espírito não apenas desperta, mas
implanta vida Jo 6.63). O resultado dessa nova vida é evidenciado pelo fruto do
Espírito (G1 5.22-23), que é o caráter de Cristo formado no crente (Rm 8.29).
Essa obra é contínua, pois o mesmo Espírito que regenera, também santifica e
preserva o crente até o final (Fp 1.6; Rm 8.11).
II - A NATUREZA ESPIRITUAL DA REGENERAÇÃO
1. Uma
Transformação Interior
Nicodemos revelou total incompreensão
espiritual ao questionar Jesus: “Como pode um homem nascer, sendo velho?” Jo
3.4). A pergunta reflete sua visão limitada ao plano natural. Sua interpretação
naturalista revela que ele entendeu o “nascer de novo” literalmente como se
fosse algo físico (da carne). Nicodemos, mesmo sendo mestre em Israel Jo 3.10),
não foi capaz de discernir a realidade do novo pacto prometido pelos profetas.
Evidencia que a mente religiosa, espiritualmente morta, e presa à lógica humana
é incapaz de compreender que a justiça de Deus não advém das obras da carne (Rm
10.3).
Stronstad anota que “o novo nascimento” na
compreensão espiritual inepta de Nicodemos significava nascer “de novo” no
sentido literal, mas Jesus lhe dizia que o sentido era “nascer de cima”, pelo
Espírito.9 Significa que a natureza humana não pode ser mudada da for ma como
pensou Nicodemos. Uma repetição do nascimento natural, estava fora de
cogitação.10 Jeremias usou uma metáfora para ilustrar que o ser humano, por si
mesmo, não pode mudar sua natureza pecaminosa, sendo necessária a ação
transformadora de Deus: “Pode o etíope mudar a sua pele ou o leopardo as suas
manchas?” Jr 13.23).
Paulo ensina que “o homem natural não
compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura” (1 Co
2.14). Sinaliza que o “homem natural” (gr. ánthrõpos psychikós) não consegue
assimilar as coisas do Espírito, pois estas se discernem espiritualmente.
Implica dizer que “qualquer um que vive afastado do Espírito de Deus é inca paz
de avaliar assuntos que estão no plano do Espírito”.11 Nesse aspecto, aos
Romanos, o apóstolo apresenta o correlato ético-religioso em que se alguém
tentar “estabelecer a própria justiça” perderá a justiça de Deus (Rm 10.3). Era
dessa forma que pensava Nicodemos; ele estava apegado à ideia de mérito para
entrar no Reino de Deus, mas Jesus lhe exigiu algo totalmente novo.
Era
imprescindível, não nascer “de novo”, mas nascer “do alto” Jo 3.3). Não apenas
um aperfeiçoamento de conduta, mas um novo nascimento, operado de dentro para
fora, como ato do Espírito Jo 3.5). Jesus não propõe aprimoramento da velha
natureza, mas nova origem “do alto”, isto é, a purificação e vivificação
prometida pelos profetas, realizada pelo Espírito Santo em virtude da obra do
Filho, segundo o decreto do Pai. A regeneração, portanto, é interior, soberana,
eficaz e transformadora — começa no coração e floresce na vida.
2. Uma
Obra Soberana do Espírito
Jesus acrescenta a Nicodemos que, para entrar
no Reino de Deus, é necessário nascer “da água e do Espírito” Jo 3.5). A
construção gramatical do texto grego (ek hydõr kai pneüma) forma uma ideia
unificada — indicando que “água” e “Espírito” não são dois nascimentos distintos,
mas aspectos complementares de um mesmo ato regenerador.
Essa
metáfora da água é recorrente nas Escrituras e aponta para limpeza e
purificação do pecado (Ef 5.26; Hb 10.22). Água, sobretudo no Evangelho de
João, é símbolo do Espírito Jo 7.37-39). Jesus está retomando a linguagem
profética de Ezequiel, em que Deus promete purificar Israel com água limpa e
colocar neles um novo espírito (Ez 36.25-27). O Espírito Santo é o agente que
concede essa nova vida, capacitando o homem a viver em comunhão com Deus (2 Go
3.6).
Aqui, água e Espírito formam um par
inseparável — purificação e vivificação para descrever a regeneração.
Cristo
também compara a ação do Espírito com o vento (gr. pneüma), termo que no
hebraico (ruach) tem o mesmo campo semântico. Assim como o vento sopra onde
quer (Jo 3.8), o Espírito age livremente, sem depender de controle humano ou de
rituais externos (1 Co 2.11- 12). Isso reforça e harmoniza a revelação bíblica:
no Antigo Testamento, Deus prometeu tirar o “coração de pedra” e dar um
“coração de carne” (Ez 36.26), colocando seu Espírito para capacitar à
obediência. No Novo Testamento, Paulo descreve o mesmo processo como “lavagem
da regeneração e renovação do Espírito Santo” (Tt 3.5).
Por
conseguinte, “nascer da água e do Espírito” significa uma transformação
espiritual completa: ser purificado dos pecados e receber renovação interior
pelo poder do Espírito (Ef 3.16; 5.26).
Essa
mudança não pode ser produzida pela carne. E um ato soberano do Espírito que
age de acordo com a vontade eterna do Pai (Ef 1.4-5). Somente a ação divina é
capaz de renascer o homem espiritualmente. Aquele que nasce do Espírito
torna-se nova criatura (2 Co 5.17), com uma natureza renovada (Cl 3.10) e um
coração transformado (Ez 36.26-27). Passa a ter uma nova vida e uma nova
identidade.
3. Uma Nova Vida e Nova Conduta
Como
ensinou Jesus, aquele que nasce apenas da natureza humana permanece limitado
àquilo que é da carne; mas quem nasce pela ação do Espírito Santo recebe uma
nova natureza espiritual Jo 3.6). Conforme F. F. Bruce, o ensino se refere a
uma “antítese entre o campo de ação da carne e o do Espírito”.12 A expressão “carne”
(gr. sárx) não diz respeito apenas ao “corpo”, mas indica a condição humana na
sua limitação e incapacidade de comunhão com Deus Jo 1.13; 6.63). O vocábulo
“Espirito” (gr. pneuma) assinala nova origem e nova ordem de existência. Essa
distinção enfatiza que nada da carne pode produzir vida espiritual. As “obras
da carne” descrevem a produção natural da velha natureza, tais como
imoralidades, inimizades e heresias (G15.19-21). A carne gera concupiscência,
escravidão e morte (Rm 8.6a). Aquele que é nascido da carne permanece dominado
pela natureza pecaminosa. A Escritura revela que tanto a inclinação como o
pensamento da carne são inimizade contra Deus (Rm 8.7). A tendência da carne é
voltada para o pecado. E quem está “na carne” não pode agradar a Deus (Rm 8.8).
Não
obstante, todo aquele que vive no Espírito já está sob nova jurisdição (Rm
8.6b). Ratifica-se que não se trata de uma mera reforma comportamental; mas de
fato uma vida nova (Jo 3.5-8; Tt 3.5). A antiga identidade “em Adão” dá lugar à
identidade “em Cristo” (1 Co 15.22; Rm 8.1). O domínio da carne é vencido pela
vida cheia do Espírito (G1 5.16). O pecado deixa de ser a prática dominante (1
Jo 3.9). O caráter de Cristo emerge em contraste com as obras da carne
(G15.22).
O
Espírito gera nova vida com fruto espiritual (G1 5.22). Ao nascer do Espírito,
o crente passa a viver sob uma nova condição de ordem espiritual. O salvo passa
a viver em novidade de vida (Rm 6.4), não uma continuidade melhorada, mas um
novo modo de existir. Torna-se uma nova criatura, com uma nova mentalidade,
novos desejos e nova direção de vida (Ef 4.22-24). Essa nova vida se evidencia
na prática da justiça, no amor fraternal, no desejo pela Palavra e na
obediência a Cristo — que são marcas da regeneração genuína (1 Jo 3.9).
III -
SINAIS DO NOVO NASCIMENTO EM CRISTO
1. A
Justificação pela Fé
A
doutrina da justificação pela fé é a grande verdade que a Reforma Protestante
restituiu à Igreja. Lutero vivia atormentado com o seguinte raciocínio: “Se
Deus julga o homem de acordo com a sua estrita justiça, quem poderá ser
salvo?”. Em certa ocasião, ele escreveu: “Eu era o homem mais miserável da
terra. Dia e noite eram gritos e desespero, e ninguém podia ajudar-me”.13 E,
foi somente após compreender o texto “o justo viverá dá fé” (Rm 1.17) que
Lutero encontrou alívio para sua alma.
A doutrina da justificação pela fé ensina que
o pecador é justificado (absolvido da condenação do pecado) unicamente pela fé
na graça divina. Ratifica que as obras humanas não podem salvar, mas apenas a
fé em Cristo por meio da recepção da graça de Deus (Ef 2.8-9). Ao descrever a
ação divina para justificar pecadores, os ter mos usados na Bíblia apontam para
o contexto judicial e forense. Em outras palavras, Deus torna livres os
pecadores condenados e os declara plenamente justos e isentos de toda culpa, mediante
a fé na obra de Cristo na cruz.
Quanto
a essa verdade, o Novo Testamento jamais afirma que a justificação é “diapistin”
(“em troca da fé”), mas sempre “diapisteos” (mediante a fé). Isso significa que
a fé não é meritória, ou seja, a fé é o meio de se receber a justificação.
Desse modo, a justificação pela fé está atrelada à graça divina. Lutero, ao
receber a paz que vem me diante a fé, escreveu: “Finalmente compreendí que a
justiça de que fala o evangelho é aquela pela qual Deus, em sua graça, nos justifica.
Imediatamente senti que renascia para uma nova vida”.14
Em
síntese, pela fé em Cristo, o pecador é justificado, e recebe uma nova posição
diante de Deus, não por mérito pessoal, mas pela obra redentora do Calvário (Rm
3.24,28). O crente não é apenas per doado, mas é declarado justo diante de Deus,
isto é, absolvido da culpa e da condenação do pecado (Rm 4.7-8). Essa dádiva é
recebida somente por meio da fé, como resposta à graça de Deus revelada em
Cristo (Rm 3.22). Os efeitos da justificação pela fé incluem a paz com Deus (Rm
5.1) e a adoção como filhos amados do
Pai Jo 1.12).
2. A Vida de Santificação
O Novo Dicionário de Teologia leciona que
“santificação” é um ter mo técnico de ritual de culto. Apresenta a ideia tanto
de limpeza (Êx 19.10,14) quanto de consagração e dedicação a Deus (Êx 19.22; Dt
15.19; 2 Sm 8.11; Is 13.3). A palavra hebraica “qadash”, traduzida por “santo”,
possui o significado básico de separação do uso comum para uso exclusivo ao
serviço de Deus.15 Contudo, o significado de santificação e santidade se
estende além do ritual para a esfera moral.16
No
Novo Testamento, o termo grego mais comum traduzido por “santo” é “hagios”. No
singular, é usado com o adjetivo para descrever Deus e o seu o Espírito. No
plural, é empregado como substantivo para referir-se ao povo de Deus.1' O verbo
“hagiazo” é utilizado no sentido ritual de separar algo dentre o que é comum
para a utilização com propósitos sagrados (Mt 6.9; Jo 10.39; 1 Pe 3.15). A
expressão “hagnos” se refere particularmente a pureza no sentido ético. Em ter
mos gerais, “a obra da santificação é a separação de tudo que é contrá rio à
pureza do Espírito”.18
A Teologia Sistemática Pentecostal
define que santificar é “pôr à par te, separar, consagrar ou dedicar uma coisa
ou alguém para uso estritamente pessoal”. Assim, “santo” é todo crente que vive
no domínio exclusivo de Deus, separado do pecado e das práticas mundanas pecaminosas.
E exatamente o contrário do crente que se mistura com as coisas tenebrosas do
pecado.19 Nesse entendimento, na obra da redenção, o pecador é imediato e
simultaneamente salvo, regenerado, justificado e adotado como filho de Deus (At
13.39;Jo 5.24; Rm 8.15).
A
partir da regeneração/conversão, inaugura-se o processo contínuo de
santificação, isto é, uma vida separada do pecado e consagrada à obediência,
até a sua glorificação final no Dia de Cristo (2 Co 3.18). O crente passa a
viver segundo o Espírito, e não mais como escravo da carne (1 Ts 4.3-4).
Conforme abordado no capítulo anterior, a santificação apresenta aspectos
posicionais e progressivos, à medida que o crente avança em maturidade
espiritual e se torna mais semelhante a Cristo (1 Pe 1.15-16). Essa nova vida
recebida na regeneração se manifesta pela renúncia ao pecado e pela prática
contínua da justiça e santidade (Rm 6.11; Ef 4.24).
3. O Fruto do Espírito
O
fruto do Espírito Santo se relaciona com o crescimento espiritual e o
desenvolvimento do caráter do cristão. Refere-se à nova vida em Cristo, ao modo
de andar e proceder daqueles que pertencem a Cristo e vivem no Espírito (G1
5.16-18; Ef 5.18). Cristo ensinou que é pelo fruto que se conhece a árvore (Mt
12.33). Desse modo, o verdadeiro cristão é identificado pelo bom fruto que
evidencia no seu caminhar diário. E que o contrário, o fruto mau — a prática
das obras da carne (Cl 5.19-21) , denuncia que a pessoa ainda não experimentou
a genuína regeneração.
O Comentário de Aplicação Pessoal anota
que “os crentes exibem o fruto do Espírito, não porque eles trabalham nele, mas
simplesmente porque o Espírito controla as suas vidas”.20 Paulo observa que “o
melhor antídoto contra o veneno do pecado é andar no Espírito, estar em íntima
sintonia com as coisas espirituais, dedicar-se às coisas da alma, que é a parte
espiritual do homem”.21 Nesse sentido, a ênfase é assim resumida: “Se vivemos
no Espírito, andemos também no Espírito” (G1 5.25). Biblicamente (G1 5.22,23)
as características do fruto do Espírito classificam-se em três categorias, a
saber: (i) as três primeiras são interiores e só podem vir de Deus — amor,
alegria e paz; (ii) as três seguintes dizem respeito ao relacionamento de cada
crente com os de mais — longanimidade, benignidade e bondade; e (iii) as três
últimas apresentam traços mais gerais de caráter que devem guiar a vida de todo
crente — fé, mansidão e temperança.22
Não se
trata de dons espirituais, mas de virtudes que o Espírito Santo produz no
caráter do regenerado, como expressão de sua nova vida (Ef 2.10). Antes, era
dominado pelas paixões carnais, mas agora manifesta a presença do Espírito em
suas atitudes diárias (Rm 8.5). Portanto, o fruto do Espírito é a evidência
prática da regeneração (Mt 7.16). Quem nasceu de novo passa a refletir, ainda
que imperfeitamente, o caráter de Cristo em suas palavras, ações e reações (Lc
6.40). Tal postura não pode ser esporádica, e sim uma marca contínua da nova
vida recebida em Cristo (Mt 5.16).
CONCLUSÃO
A
regeneração é uma obra trinitária operada pelo Espírito Santo. Não é um esforço
humano, mas uma transformação espiritual profunda. Como regenerador, o Espírito
concede nova vida, uma nova natureza e uma nova direção ao ser humano. E
necessário nascer do alto para ver e entrar no Reino. Que cada crente se deixe
conduzir pelo Espírito e reflita dia a dia a natureza divina recebida no novo
nascimento.
Espírito Santo — O Regenerador | 111
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