terça-feira, 12 de março de 2019

Lição 11 - João e os sinais do Filho de Deus




___/___/____   João, os Sinais do Filho de Deus

TEXTO BÍBLICO BÁSICO
João 11.40-45
40 - Disse-lhe Jesus: Não te hei dito que, se creres, verás a glória de Deus?
41 - Tiraram, pois, a pedra. E Jesus, levantando os olhos para o céu, disse: Pai, graças te dou, por me haveres ouvido.
42 - Eu bem sei que sempre me ouves, mas eu disse isso por causa da multidão que está ao redor, para que creiam que tu me enviaste.
43 - E, tendo dito isso, clamou com grande voz: Lázaro, vem para fora.
44 - E o defunto saiu, tendo as mãos e os pés ligados com faixas, e o seu rosto, envolto num lenço. Disse-lhes Jesus: Desligai-o e deixai-o ir.
45 - Muitos, pois, dentre os judeus que tinham vindo a Maria e que tinham visto o que Jesus fizera creram nele.

João 21.24,25
24 - Este é o discípulo que testifica dessas coisas e as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro.
25 - Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e, se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem. Amém!

TEXTO ÁUREO
"Este foi ter de noite com Jesus e disse-lhe: Rabi, bem sabemos que és mestre vindo de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele.",
 João 3.2
ORIENTAÇÕES PEDAGÓGICAS
Caro professor, o Evangelho de João está organizado em torno de um determinado número de milagres, os quais foram escolhidos pelo autor para revelar os diferentes entretons do poder conferido ao Filho de Deus; tais milagres — chamados de sinais — reforçam a doutrina central desse livro: a divindade de Cristo.
No quarto Evangelho, observamos que Jesus operou milagres em áreas totalmente inacessíveis à intervenção humana.
Com isso, Jesus provou ser poderoso onde o homem é impotente; e as obras que Ele fez testificam, destacam e glorificam Seu poder sobrenatural.
O estudo dos sinais apresentados por João é de grande importância para o fortalecimento dos irmãos, pois possibilita a construção de uma fé firme e sadia, alicerçada nas Escrituras.
Tenha uma excelente e abençoada aula!

Palavra introdutória

João foi testemunha ocular dos milagres [de Jesus] mencionados neste Evangelho. Apenas alguém que estivesse presente nas cenas registradas neste livro poderia descrevê-las tão detalhadamente. João assinala, por exemplo, nas bodas de Caná da Galileia, a quantidade de talhas e a capacidade de líquido que cada uma comportava (Jo 2.6); o peso e o valor do perfume que foi derramado sobre os pés de Jesus em Betânia (Jo 12.3-5); e alguns pontos do julgamento do Messias (18–19). Essas narrativas indicam sua presença em tais eventos, bem como apontam para sua enorme eficiência observativa.
Em destaque, neste Evangelho, está ainda o fato de João usar com frequência o termo sinal, em vez de milagre, para descrever as ações sobrenaturais do Filho de Deus (Jo 2.11). Por algumas vezes, o evangelista também usa a palavra obra, como quando, logo após ter curado um paralítico em um sábado, Jesus disse: as mesmas obras que eu faço testificam de mim, de que o Pai me enviou (Jo 5.36).

O discípulo amado utilizou em seu Evangelho os termos sinal e obra para evidenciar a real identidade  de Jesus de Nazaré: o Verbo Eterno estava com Deus no princípio de todas as coisas; Ele é Deus;
Ele fez-se carne e habitou entre nós (Jo 1.1.14).
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Ao registrar o diálogo havido
entre Jesus e Nicodemos
em uma noite palestina,
João explicita a divindade do
Messias, vaticinada por boca
deste príncipe dos judeus.
Disse ele na ocasião: Rabi,
bem sabemos que és mestre
vindo de Deus, porque
ninguém pode fazer estes
“sinais” que tu fazes, se Deus
não for com ele (Jo 3.2; grifo
do comentarista).
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1. TRANSFORMANDO A QUALIDADE E VENCENDO A DISTÂNCIA
1.1. A transformação da água em vinho: o Senhor da CriaçãoO primeiro sinal que Jesus realizou foi em uma festa de casamento, em Caná da Galileia (Jo 2.1-12) — segundo a tradição, celebrações desse tipo costumavam durar sete dias.
Diz o texto bíblico que, em determinado momento da festa, o vinho acabou (Jo 2.3). Nos tempos bíblicos, esta bebida estava associada à alegria (Sl 104.15), sendo, portanto, um elemento extremamente importante na recepção aos convidados — considerava-se vergonhoso seu término, antes do fim da cerimônia. Ao ser avisado por Sua mãe sobre o incidente (Jo 2.3), com uma resposta abrupta, mas não indelicada, Jesus declarou: Ainda não é chegada a minha hora (Jo 2.4). Em outras palavras, o Filho de Deus disse que não havia chegado o tempo de Ele revelar-se publicamente. Em razão disso, este primeiro sinal foi parcialmente público, pois somente Maria, os serventes e os discípulos — que haviam sido convidados para a festa — ficaram sabendo do que acontecera (Jo 2.2,5,9,11).
Maria, não obstante, disse aos serventes: Fazei tudo quanto ele vos disser (Jo 2.5). Jesus, então, ordenou que as talhas usadas para as purificações fossem cheias de água, e, em seguida, que os empregados servissem ao mestre-sala (Jo 2.6-8). Quando a água chegou até o responsável pela festa (NAA), já se havia transformado em vinho (Jo 2.9).
João conclui essa narrativa dizendo: assim [...] Jesus manifestou a sua glória (Jo 2.11a). Com este sinal, o evangelista destaca o poder do Filho de Deus sobre a Criação; fazendo, assim, aumentar a fé de Seus discípulos (Jo 2.11b).

1.2. A cura do filho de um oficial do rei: o Deus onipresente (de perto e de longe)
O segundo sinal operado por Cristo foi realizado a distância: a cura do filho de um oficial do rei (Jo 4.43-54).
Tendo retornado a Caná, Jesus foi abordado por um oficial que morava em Cafarnaum, cujo filho estava doente. Ao encontrar Jesus, o oficial rogou-lhe que fosse até a sua cidade e curasse o seu filho. O Mestre fez-lhe, então, uma repreensão:
Se não virdes sinais e milagres, não crereis (Jo 4.48). Mesmo diante da admoestação, o homem pediu a cura do menino (Jo 4.49). Jesus disse ao oficial que voltasse a casa, assegurando-lhe: Vai, o teu filho vive (Jo 4.50). Ao retornar, seus servos foram ao seu encontro para dar-lhe a alegre notícia: O teu filho vive (Jo 4.51). Ao perguntar a que horas o seu filho havia se sentido melhor, disseram: às sete horas (uma hora da tarde; conf. Jo 4.52 NTLH) — a exata hora de sua conversa com o Filho de Deus. Então o oficial creu, e toda a sua casa (Jo 4.53).
Com este sinal, João revela que o poder de Jesus não se limita a distâncias: Ele é Deus de perto; Ele é Deus de longe (Jr 23.23).

2. CURANDO E MULTIPLICANDO

2.1. A cura do paralítico no tanque de Betesda: o Deus do tempo
O terceiro sinal de Jesus, descrito por João, aconteceu em um sábado, marcando o início da perseguição contra Ele (Jo 5.1-16).
Jesus subiu a Jerusalém em um período de festa entre os judeus — não se sabe ao certo qual festividade seria; estudiosos sugerem a Festa das Cabanas, ou a Festa das Trombetas, ou a Festa de Purim. Fato é que havia um tanque chamado Betesda, com cinco entradas, perto da Porta das Ovelhas (Jo 5.2); nessas entradas ficava uma grande multidão de enfermos (Jo 5.3).
Havia uma tradição de cura associada àquele local: quem fosse colocado nas águas quando estas fossem agitadas, seria sarado de seu mal (Jo 5.7). Um homem incapacitado havia 38 anos tornou-se alvo da atenção de Jesus, que lhe perguntou: Queres ficar são (Jo 5.6)? A resposta do enfermo foi: Não tenho homem algum que [...] me coloque no tanque (Jo 5.7). Jesus, ignorando as águas do tanque, disse-lhe: Levanta-te, toma tua cama e anda (Jo 5.8). Instantaneamente, o homem foi curado.
Com este sinal, João ressalta que não importa o tempo de sofrimento; o Filho de Deus transcende o Cronos.
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A Porta das Ovelhas no muro
de Jerusalém ficava próximo
ao Templo e era por onde
as ovelhas passavam para
o sacrifício. O tanque de
Betesda era uma piscina dupla
cercada por uma galeria de
quatro colunas, construídas
por Herodes, e por uma
quinta galeria que dividia as
piscinas do norte e do sul
(RADMACHER; ALLEN; HOUSE.
Central Gospel, 2010b, p. 238).
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2.2. A multiplicação de peixes e pães: o Deus provedor
Este é o único milagre que aparece em todos os Evangelhos (Mt 14.13-21; Mc 6.30-44; Lc 9.10-17; Jo 6.1-15). Jesus, neste episódio, está do outro lado do mar da Galileia, também chamado de Tiberíades. As curas que Ele havia realizado, até então, fizeram com que multidões o seguissem (Jo 6.2). O Mestre, ao ver a multidão, tomou a iniciativa de perguntar a Filipe: Onde compraremos pão, para estes comerem (Jo 6.5)?
Filipe sabia que duzentos denários de pão não seriam suficientes para alimentar toda aquela gente (Jo 6.7; Mc 6.37 ARA). Havia cinco mil homens presentes (Jo 6.10), além de mulheres e crianças (Mt 14.21), ou seja, cerca de vinte mil pessoas, se mulheres e crianças fossem contadas.
Entrementes, André apareceu com magras provisões de cinco pães de cevada (o pão dos pobres) e dois peixinhos, que vieram de um dos jovens presentes (Jo 6.8,9). João fez questão de registrar que a pergunta de Jesus a Filipe teve por objetivo testá-lo, pois Ele bem sabia o que havia de fazer (Jo 6.6).
O Filho de Deus, então, mandou a multidão assentar-se (Jo 6.10), tomou os pães, deu graças e, em seguida, repartiu-os pelos discípulos, e os discípulos, pelos que estavam assentados (Jo 6.11). João faz-nos saber que, naquele dia, todos comeram até se fartar. Ao término da refeição, Jesus ordenou que Seus discípulos recolhessem as sobras, para que nada se perdesse.
As sobras de pão encheram doze cestos cheios (Jo 6.12,13).
Com este sinal, João sublinha a habilidade sobrenatural do Filho de Deus em multiplicar o pouco e prover alimento e sustento para a vida.

3. SOBREPUJANDO AS LEIS NATURAIS

3.1. O caminhar sobre as águas: o Senhor da Natureza
Além de João, Mateus e Marcos registraram esse milagre, destacando a autoridade de Jesus sobre as forças da Natureza (Mt 14.22-32; Mc 6.45-52; Jo 6.16-21). Eis o cenário: os discípulos estão retornando para Cafarnaum, quando uma violenta tempestade se levanta, dificultando o progresso da embarcação. João destaca que eles já haviam navegado vinte e cinco ou trinta estádios (aproximadamente cinco ou seis quilômetros; conf. Jo 6.19 NTLH).
Sendo já escuro (Jo 6.17), os discípulos ficaram assombrados com o que viram: Jesus andava sobre o mar, e aproximava-se do barco (Jo 6.19). O Mestre, então, disse-lhes: Sou eu; não temais (Jo 6.20). João informa-nos que todos receberam Jesus no barco de boa mente e chegaram, em segurança, ao destino proposto (Jo 6.21).
Com este sinal, João assegura a autoridade do Filho de Deus sobre as leis da Natureza: Ele andou por sobre as águas e acalmou a tempestade.

3.2. A cura de um cego de nascença: o Restaurador da visão (física e espiritual)
Neste sexto milagre registrado por João, é um cego de nascença quem recebe o favor do Filho de Deus (Jo 9.1-12) — vale destacar que não há qualquer relato de cura de cegos no Antigo Testamento; todavia, Jesus o fez repetidas vezes, reafirmando, assim, Sua divindade.
Os discípulos viram o cego e perguntaram a Jesus se seria o homem ou se seriam seus pais os responsáveis por aquela situação (Jo 9.2). A resposta do Mestre foi concisa: Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus (Jo 9.3). Então, de maneira inusitada, o Filho de Deus operou o milagre: Ele cuspiu na terra, e, com a saliva, fez lodo, e untou com o lodo os olhos do cego (Jo 9.6).
O simbolismo contido neste sinal remete à obra da Criação: o Eterno tomou do pó da terra para formar o homem (Gn 2.7).
Tendo feito isto, Jesus ordenou que o homem se lavasse no tanque de Siloé (Jo 9.7).
Este sinal remete-nos à realidade de que somente o Filho de Deus pode levar alguém das trevas para a luz.

4. EXERCENDO PODER SOBRE A VIDA

4.1. A ressurreição de Lázaro: o Senhor da vida
Este sinal começa com Lázaro de Betânia enfermo (Jo 11.1). Maria e Marta enviam uma mensagem a Jesus, notificando a enfermidade de seu irmão (Jo 11.3). Jesus não vai de imediato e manda avisar que a doença não seria para morte, mas para glória de Deus, e para que o Filho fosse glorificado por ela (Jo 11.4).
Quando Jesus chegou ao local, Lázaro já estava morto havia quatro dias (Jo 11.17,39) — no judaísmo, acreditava-se não haver chance de ressurreição depois do quarto dia; os rabis afirmavam que a alma pairava por sobre o corpo por três dias, havendo assim alguma esperança.
Ao perguntar onde o morto havia sido sepultado, o Mestre foi conduzido até lá. João diz que, naquele dia, Jesus chorou (Jo 11.35). Diante da comoção de alguns e do ceticismo de outros, Ele ordenou: Tirai a pedra (Jo 11.36-39). A pedra foi removida, Jesus levantou os olhos para os céus e orou (Jo 11.41,42). Logo em seguida, clamou com grande voz: Lázaro, vem para fora (Jo 11.43). O homem morto, agora vivo, despontou do sepulcro envolto em faixas funerárias. Jesus, por fim, ordenou que ele fosse desenfaixado (Jo 11.44).
Neste sétimo sinal descrito por João, vemos Deus manifestando Sua glória e revelando aos presentes o poder que Seu único Filho tem sobre a vida.

CONCLUSÃO
A chave para entendermos os sinais do Filho de Deus no Evangelho de João está na afirmação de seu próprio autor: Jesus, pois, operou também, em presença de seus discípulos, muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome (Jo 20.30,31).
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Três palavras destacam-se
em João 20.30,31: sinais, crer
e vida. Os sinais descritos
nesse texto fazem-nos crer
no Filho de Deus; e, em
crendo Nele, temos vida.
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ATIVIDADE PARA FIXAÇÃO
1. De acordo com o que foi exposto nesta lição, responda: Qual foi o primeiro milagre realizado por Jesus?
R.: A transformação da água em vinho, em Caná da Galileia (Jo 2.1-12).

                                         Fonte: Revista Lições da Palavra de Deus n° 57





A NOVA ALEGRIA João 2:1-11
 A própria riqueza do quarto Evangelho apresenta um problema àqueles que querem estudá-lo e a quem o expõe. No quarto Evangelho sempre há duas coisas. Há a história superficial, simples, que qualquer pessoa pode compreender e repetir; mas também há um tesouro de significados mais profundos para aquele que tem o desejo de procurar, o olho para ver e a mente para compreender. Em uma passagem como esta há tanto, que precisamos ocupar três partes em estudá-lo. Primeiro o analisaremos com toda simplicidade, para situá-lo em seu contexto e ver como surgiu. Logo analisaremos algumas das coisas que nos diz a respeito de Jesus e sua obra. E por último nos deteremos a analisar a verdade permanente que João quer nos relatar nesta história. Caná da Galiléia recebe esse nome para diferenciá-la de Caná de Coelo-Síria. Era uma aldeia muito próxima a Nazaré. Jerônimo, que viveu na Palestina, diz que a via desde Nazaré. Em Caná havia uma festa de bodas e a ela assistiu Maria. Toda a história nos diz que Maria ocupava um lugar especial nessa festa. Tinha algo que ver com a organização, visto que se sentiu preocupada quando acabou o vinho; e tinha suficiente autoridade para ordenar aos serventes que fizessem o que Jesus dissesse. Alguns dos Evangelhos posteriores que nunca foram introduzidos no Novo Testamento agregaram certos detalhes a este relato. Um dos Evangelhos cópticos do Egito nos diz que Maria era irmã da mãe do noivo. Há um antigo conjunto de prefácios aos livros do Novo Testamento chamado Prefácios monarquicanos, nos quais se afirma que
o noivo era o próprio João, e que sua mãe era Salomé, a irmã de Maria. Não sabemos se estes detalhes são verdadeiros ou não, mas não resta dúvida de que a história está relatada de maneira tão viva que evidentemente é a versão de uma testemunha ocular. No relato só se menciona Maria, não se fala nada de José. A explicação mais provável é que a esta altura José já tivesse morrido. Pareceria que José morreu muito cedo, e que a razão pela qual Jesus passou dezoito longos anos em Nazaré foi que teve que tomar a incumbência da manutenção de sua mãe e sua família. Só quando seus irmãos e irmãs menores puderam ocupar-se de si mesmos e da casa, Jesus os deixou. Neste relato se menciona somente a Maria porque 

108 Jesus participou alegremente em um uma dessas felizes ocasiões. Mas algo andou mal. É muito provável que a chegada de Jesus tenha causado alguns problemas. Foi convidado à festa mas não tinha ido sozinho, mas sim com cinco discípulos. Cinco pessoas a mais na festa podem ter ocasionado complicações: cinco comensais a quem não se esperam ocasionam problemas em qualquer festa, e o vinho acabou. Em uma festa judaica o vinho era essencial. "Sem vinho", diziam os rabinos, "não há alegria". Não é que as pessoas fossem bêbadas; mas no Oriente o vinho era essencial. De fato, a embriaguez era uma grande desgraça, e bebiam uma mescla composta por duas partes de vinho para cada três partes de água. A falta de provisões teria sido um problema em qualquer momento, visto que no Oriente a hospitalidade é um dever sagrado, mas que faltassem provisões em uma festa de bodas seria uma vergonha terrível para o noivo e a noiva. Sem dúvida nenhuma teria sido uma grave humilhação. De maneira que Maria se aproximou de Jesus para lhe dizer o que acontecia. A tradução literal da resposta de Jesus fá-la parecer muito rude. Faz-lhe dizer: "O que tenho que ver contigo, mulher?" Mas esta é a tradução das palavras; de maneira nenhuma transmite o tom. A frase, "O que tenho que ver contigo?" era uma frase muito comum. Emitida com irritação e brutalidade expressava um completo desacordo e repreensão, mas quando ela era pronunciada com amabilidade não indicava recriminação, mas sim ela não se compreendeu a intenção do aludido. Quer dizer: "Não se preocupe; não chega a compreender o que acontece; deixa-o em minhas mãos e eu me encarregarei de solucioná-lo a meu modo". Quando Jesus disse isto a Maria o que lhe estava dizendo era que deixasse as coisas em suas mãos, que ele enfrentaria a situação a seu modo. A palavra mulher (gunai) também provoca confusões. Parece-nos muito abrupta e torpe. Mas é a mesma palavra que Jesus empregou quando se dirigiu a Maria da cruz para deixá-la a cargo de João (João 19:26). Em Homero, é o título com o qual Odisseu se dirige ao Penélope

109 sua esposa amada. É o título com o qual Augusto, o imperador romano, dirige-se a Cleópatra, "a famosa rainha egípcia. De maneira que, longe de ser uma palavra descortês e grosseira, era um título de respeito. Em nosso idioma não há uma forma que expresse o mesmo significado; mas é melhor traduzi-lo por senhora que pelo menos lhe dá a nota de cortesia que tem em sua forma original. Como quer que seja que Jesus tenha falado, Maria tinha confiança em seu filho. Disse aos serventes que fizessem o que este lhes dissesse. Na porta havia seis grandes talhas para água. A palavra traduzida cântaros ou talhas representa a medida hebraica chamada bato que equivale a trinta e sete litros. Eram muito grandes; podiam conter ao redor de noventa litros cada uma. João escreve o Evangelho para os gregos e por isso explica que essas talhas estavam ali para prover a água para os ritos da purificação dos judeus. Era preciso água para dois fins.
 Em primeiro lugar, era necessária para lavar os pés ao entrar na casa. Os caminhos da Palestina eram de terra. As sandálias não eram mais que uma sola atada ao pé com correias. Em um dia seco os pés estavam cobertos de pó e em um dia de chuva se sujavam de barro, e se usava a água para limpá-los. 

Em segundo lugar, era necessária para lavar as mãos. Os judeus estritos lavavam as mãos antes das refeições e entre um prato e outro. Primeiro se levantava a mão e se jogava água em cima de maneira que corresse até o punho; logo se baixava a mão e se despejava água do punho até a ponta dos dedos. Isto era feito com cada uma das duas mãos; logo se limpava cada palma esfregando-a contra o punho da outra mão. A Lei cerimonial judaica insistia em que isto devia ser feito não só no princípio de uma refeição, mas também entre um prato e outro; e se não se fizesse, as mãos estavam tecnicamente impuras. Para esta lavagem de pés e mãos estavam essas grandes talhas de pedra. Jesus ordenou que se enchessem as talhas até a boca. João menciona este fato para deixar bem claro que não ficou nada mais que água dentro das talhas. Logo disse que pegassem a água e a levassem a

110 architriclinos, a quem nossas versões chamam o mestre-sala. Em seus banquetes os romanos tinham um mestre de bebidas, chamado arbiter bibendi, que se tomava conta da bebida. Nas bodas judaicas às vezes um dos convidados atuava como uma espécie de mestre de cerimônias. Mas em realidade nosso equivalente do architriclinos é o primeiro garçom. Este era responsável por acomodar os convidados na mesa e do correto desenvolvimento da festa. Quando provou a água que se converteu em vinho se surpreendeu. Chamou o noivo — os pais do noivo eram os responsáveis pela festa — e falou em brincadeira. "A maioria das pessoas", disse, "serve o bom vinho no princípio; e depois, quando os convidados já beberam o bastante, e têm o paladar adormecido e não estão em condições de apreciar com certeza o que estão bebendo, servem o vinho inferior, mas você guardou até agora o melhor vinho". De maneira que a primeira vez que Jesus deu mostras de sua glória foi no casamento de uma jovem de uma aldeia da Galiléia; e foi ali onde seus discípulos puderam perceber outro sinal surpreendente do que era Jesus.

A NOVA ALEGRIA João 2:1-11 (continuação)
Este relato está cheio de coisas que lançam luz sobre a personalidade de Jesus. Devemos assinalar três coisas de índole geral a respeito deste fato maravilhoso que Jesus realizou. (1) Devemos notar quando aconteceu. Teve lugar em uma festa de bodas. Jesus se sentia muito à vontade em uma festa de bodas. Não era nenhum desmancha-prazeres severo e austero. Gostava de compartilhar a feliz alegria de uma festa de bodas. Há alguns religiosos que comunicam uma espécie de tristeza a qualquer lugar aonde vão. Há alguns que pensam mal com qualquer alegria e felicidade. Para eles a religião é algo próprio da roupa negra, a voz baixa, o rechaço das amizades sociais. Onde quer que vão se abate uma sorte de escuridão. Um dos discípulos João (William Barclay) 111 da Alice Freeman Palmer disse a respeito de sua professora: "Ela me fazia sentir como se a luz do Sol me banhava". Jesus era assim. 
Em seu livro Lições aos meus alunos, C. H. Spurgeon tem alguns conselhos sábios, embora irônicos. "Os tons sepulcrais podem convir a um homem para ser empresário de pompas fúnebres, mas a Lázaro Ele não tira da tumba com gemidos ocos". "Conheço irmãos que são tão sacerdotais dos pés a cabeça, em vestidos, dicção, maneiras, gravata e botas de cano longo que não se vê neles nenhuma pingo de humanidade... Alguns homens parecem ter uma gravata branca atada ao redor de suas almas, sua humanidade está afogada por esse trapo engomado".

 "Um indivíduo que carece de senso de humor melhor que se dedique a ser agente funerário, e sepultar os mortos, porque jamais conseguirá exercer alguma influência sobre os vivos". "Recomendo a todos os que queiram conquistar almas a expressar alegria; não secura e austeridade, mas sim um espírito feliz e alegre. Caçam-se mais moscas com mel que com vinagre, e levará mais almas ao céu um homem que tem o céu na cara que outro que leva o inferno no olhar".

 Jesus jamais teve como um delito ser feliz. Por que deve sê-lo para seus seguidores? (2) Devemos notar onde sucedeu. Ocorreu em uma casa humilde em uma aldeia da Galiléia. Este milagre foi levado a cabo no ambiente de uma ocasião muito importante e diante de grandes multidões. Foi realizado em um lar.
Em seu livro A Portrait of St. Luke (Retrato de São Lucas), A. H. N. Green-Armytage fala de como Lucas gostava de mostrar a Jesus em ambientes de coisas e gente simples e cotidianas. Em uma frase vívida diz que o Evangelho de São Lucas "transformou Deus em algo doméstico"; trouxe Deus para o círculo caseiro e às coisas cotidianas da vida. A atitude de Jesus em Caná da Galiléia demonstra o que pensava de um lar. Como diz o texto "manifestou sua glória" (V. 11) e essa manifestação de glória teve lugar no interior de um lar. Há um estranho paradoxo na atitude de tanta gente para com o lugar que chamam lar. Estão dispostos a reconhecer que não há um lugar mais apreciado em todo mundo; mas, ao mesmo tempo, teriam que reconhecer
112 que dentro dele exigem o direito de serem muito mais descorteses, muito mais egoístas, muito mais mal educados do que se animariam a ser em companhia de estranhos. Muitos de nós tratamos aqueles que mais amamos em uma forma que não nos animaríamos a tratar a nenhum conhecido. O fato trágico é que com muito freqüência os estranhos vêem nosso lado melhor enquanto que aqueles que vivem conosco vêem o pior. Deveríamos sempre lembrar que foi em um lar humilde que Jesus manifestou sua glória. Para Ele um lar era um lugar onde só correspondia expressar o melhor que tinha.
(3) Devemos notar por que sucedeu. Já dissemos que no Oriente a hospitalidade sempre foi um dever sagrado. Se esse dia o vinho tivesse faltado teria causado uma vergonha e uma humilhação embaraçosa nessa casa. Jesus manifestou seu poder para evitar a tristeza e a humilhação de uma humilde família galiléia. Atuou movido pela simpatia, pela bondade e pela compreensão para com as pessoas simples. Quase todos podem fazer o correto em uma ocasião transcendental; mas tinha que ser Jesus para assumir uma grande atitude em uma ocasião simples e caseira como esta. Há uma espécie de natural malícia humana que se alegra nas desgraças dos outros, e que se deleita em fazer delas motivo de fofoca. Mas Jesus, o Senhor de toda vida, o Rei da glória, fez uso de seu poder para salvar da humilhação e da vergonha a um casal de jovens aldeãos. É justamente através destes atos de compreensão, de simples bondade, que podemos demonstrar que somos seguidores do Jesus Cristo. Mais ainda, esta história nos mostra em forma muito bonita a fé de Maria em Jesus. Nela vemos duas coisas a respeito desta fé.
 (1) Maria se dirigia a Jesus instintivamente quando algo ia mal. Conhecia seu filho. Jesus foi embora de casa só aos trinta anos; e durante todos esses anos Maria tinha vivido com Ele. Há uma velha lenda que fala da época em que Jesus era um bebê na casa de Nazaré. Conta que nesses dias, quando as pessoas se sentiam cansadas e preocupadas, incomodadas e irritadas e com calor, costumavam dizer: "Vamos falar com filho de Maria", e iam e olhavam a João (William Barclay) 113 Jesus, e seus problemas pareciam desaparecer. Ainda é certo que aqueles que conhecem intimamente a Jesus vão até Ele em forma instintiva quando as coisas andam mal — e Ele nunca os defrauda.
 (2) Mesmo que Maria não compreendia o que Jesus ia fazer, mesmo que parecia que Ele havia negado seu pedido, Maria continuou crendo tanto nele que se dirigiu aos serventes e lhes disse que fizessem o que Jesus lhes ordenasse. Maria possuía essa fé que podia confiar até sem entender. Não sabia o que Jesus faria, mas estava completamente segura de que faria o correto. Na vida surgem períodos de escuridão nos quais não vemos o caminho. Na vida aparecem coisas que não compreendemos por que vêm ou o que significam. Feliz o homem que, ao chegar esse momento, continua confiando mesmo que não possa compreender. Mais ainda, este relato nos diz algo a respeito de Jesus. Em resposta a Maria, disse: “Ainda não é chegada a minha hora.” Ao longo de todo o relato evangélico Jesus fala de sua hora. Em João 7:6-8 é a hora de seu surgimento como o Messias. Em João 12:23 e 17:1, e em Mateus 26:18, 45, e em Marcos 14:41 é a hora de sua crucificação e morte. Ao longo de toda a sua vida Jesus soube que tinha vindo a este mundo com um propósito definido e para cumprir com uma tarefa determinada. Via sua vida, não em termos de seus desejos, e sim em termos do propósito que Deus lhe tinha reservado. Via sua vida, não contra o pano de fundo cambiante do tempo, e sim contra o pano de fundo fixo da eternidade. Ao longo de toda sua vida se dirigiu com firmeza e segurança para essa hora para a qual sabia que tinha vindo ao mundo. Não é só Jesus quem veio a este mundo para cumprir o propósito do Deus. Como disse alguém: "Todo homem é um sonho e uma idéia de Deus". E nós também devemos pensar, não em nossos próprios desejos e desejos, a não ser no fim para o qual Deus nos trouxe para seu mundo.

A NOVA ALEGRIA João 2:1-11 (continuação)
E agora devemos considerar a verdade profunda e permanente que João está tentando nos ensinar ao relatar esta história. Devemos lembrar que João escreve a partir de um duplo pano de fundo. Era judeu e escrevia para judeus; mas seu grande objetivo era escrever a história de Jesus de maneira tal que também os gregos a compreendessem. Observemo-la em primeiro lugar do ponto de vista judaico. Sempre devemos lembrar que por sob os relatos singelos de João há um significado mais profundo que só está aberto àqueles que têm olhos para vê-lo. João, em todo seu evangelho, não escreveu um só detalhe sem sentido e desnecessário. Cada coisa significa algo e aponta além de si mesmo. Havia seis talhas de pedra; e diante da ordem de Jesus a água que continham se transformou em vinho. Agora, segundo os judeus, sete é o número absoluto, completo e perfeito; e seis é o número incompleto, inacabado e imperfeito. As seis talhas de pedra representam todas as imperfeições da Lei judaica. Jesus precisou eliminar as imperfeições da Lei, e substituí-las pelo vinho novo do evangelho de sua graça. Com sua vinda, Jesus transformou a imperfeição da Lei na perfeição da graça. Há algo mais no relato que se liga a isto e do qual devemos tomar nota. Lembremos que em uma história relatada por João cada detalhe está cheio de sentido. Havia seis talhas; em cada uma delas cabiam dois ou três cântaros de água. Jesus transformou a água em vinho. Isso significa que se obtiveram entre doze e dezoito cântaros de vinho. O simples fato de apontar esta circunstância demonstra que João não pretendia que se tomasse seu relato ao pé da letra. O que quis dizer é que quando a graça de Jesus vem aos homens há suficiente e de sobra para todos. Em nenhuma festa de bodas na Terra se poderia beber entre doze e dezoito cântaros de vinho. Nenhuma necessidade da Terra pode esgotar toda a graça de Cristo. Há João (William Barclay) 

115 uma superabundância gloriosa na graça de Cristo. João nos está dizendo que, em Jesus, as imperfeições se transformaram em perfeição, e que a graça se converteu em algo ilimitado, suficiente e mais que suficiente para todas as necessidades. Observemo-lo agora do ponto de vista grego. Acontece que os gregos tinham histórias como esta em sua tradição. Dionísio era o rei grego do vinho. Pausanias era um grego que escreveu uma descrição de seu país e de suas cerimônias antigas. Em sua descrição da Elis, descreve desta maneira uma antiga cerimônia e crença: "Próximo ao mercado há um antigo teatro e santuário de Dionísio; a imagem foi feita por Praxiteles. Os helenos não reverenciam a nenhum deus tanto como a Dionísio, e dizem que está presente em seu festival do Thia. O lugar onde celebram a festa chamada do Thia está como a um quilômetro e meio da cidade. Os sacerdotes levam três caldeirões vazios dentro do edifício e os depositam em presença dos cidadãos e de qualquer estrangeiro que esteja vivendo no lugar. Os sacerdotes, e qualquer outro que queira fazê-lo, põem seus selos sobre as portas do edifício. No dia seguinte podem examinar os selos, e ao entrar no edifício encontram os caldeirões cheios de vinho. Eu não estive presente na época das festas, mas os homens mais respeitáveis da Elis, e também os estrangeiros, juraram que os fatos são tal como os narrei". De maneira que os gregos também tinham histórias deste tipo; e é como se João lhes tivesse dito: "Vocês têm suas histórias e lendas sobre seus deuses. Não são mais que histórias, e vocês sabem que não são verdadeiras. Mas Jesus veio a fazer o que vocês sempre sonharam que seus deuses pudessem fazer. Veio a fazer aquilo que vocês sempre desejaram que fosse verdade." De maneira que, para os judeus, João dizia: "Jesus veio para transformar a imperfeição da Lei na perfeição da graça". E aos gregos, dizia: "Jesus veio para fazer de verdade o que vocês só sonhavam que os deuses podiam fazer". Agora podemos ver o que João nos ensina. Cada história que nos conta nos diz, não o que Jesus fez uma vez e não voltou a repetir nunca mais, e sim algo que faz eternamente. João nos relata, não as coisas que

116 Jesus fez uma vez na Palestina, e sim as coisas que continua fazendo ainda hoje. E o que João quer que vejamos aqui não é que um dia Jesus converteu algumas talhas de água em vinho; quer que vejamos que quando Jesus entra na vida, traz consigo uma nova qualidade que é como se transformasse a água em vinho. Sem Jesus, a vida é monótona, amarga e chata; quando Jesus entra na vida, esta se transforma em algo ágil, dinâmico, emocionante. Sem Jesus a vida resulta pesada e carente de interesse; com Jesus a vida é algo emocionante, maravilhoso e cheio de alegria. Quando Sir Wilfred Grenfell estava pedindo voluntários para seu trabalho no Lavrador, disse que não podia lhes prometer muito dinheiro, mas podia lhes prometer que se fossem fazer esse trabalho viveriam os melhores anos de sua vida. Isso é o que nos promete Jesus. Lembremos que João escrevia setenta anos depois da crucificação de Jesus. Durante setenta anos tinha valorado, meditado e recordado, até que percebeu significados e matizes que não tinha visto em seu momento. Enquanto João contava esta história recordava o que tinha sido a vida com Jesus; e dizia: "A qualquer lugar que Jesus fosse, quando entrava na vida de alguém, e quando entra agora é como transformar a água em vinho". Este relato é João que nos diz: "Se quiserem a nova alegria, tornai-vos seguidores de Jesus Cristo, e se produzirá uma mudança em sua vida que será como transformar a água em vinho".

A FÉ DE UM OFICIAL DO REI João 4:46-54
A maioria dos comentaristas consideram que esta passagem ás outra versão da cura do servo do centurião que aparece em Mateus 8:5-13 e em Lucas 7:1-10. Pode ser que seja assim, mas existem diferenças que justificam o que nós tomamos como uma história distinta. Na conduta deste oficial do rei há certos rasgos que servem de exemplo a todos os homens. (1) Aqui temos um cortesão que vai a um carpinteiro. Em grego, o homem é chamado basilikos. A palavra pode inclusive significar que era um rei pequeno. Mas a usa para designar a um oficial real, e este homem ocupava uma posição proeminente na corte do Herodes. Por outro lado,

188 Jesus não tinha maior status que o de ser o filho do carpinteiro da aldeia de Nazaré. Além disso, Jesus estava em Caná e este homem vivia em Capernaum, e Caná está a mais de trinta quilômetros de Cafarnaum. Isso explica por que demorou tanto tempo em voltar para sua casa. De maneira que aqui nos encontramos com um cortesão que viaja mais de trinta quilômetros para pedir a ajuda de um carpinteiro. Não podia haver uma cena menos provável no mundo que a de um importante oficial do rei fazendo trinta quilômetros para pedir um favor ao carpinteiro de uma aldeia. Primeiro e sobretudo, este cortesão "engoliu" seu orgulho. Necessitava algo, e nem a convenção nem o costume puderam detê-lo quando se propôs expor sua necessidade a Cristo. Não cabe a menor dúvida de que sua ação causaria sensação mas não lhe importava o que as pessoas dissessem se obtinha a ajuda que tanto desejava. Se quisermos a ajuda que Cristo nos pode dar devemos ser o suficientemente humildes para engolir o orgulho e não nos preocupar com o que os outros possam dizer. O mais importante é um sentimento tal de necessidade que faça que o orgulho e as convenções não ocupem nenhum lugar em nossas vidas. 
(2) Estamos diante de um cortesão que se negava a sentir-se descoroçoado. Jesus o encarou com a afirmação, que à primeira vista pode parecer muito brusca, a respeito de que o povo gente não creria se não lhe mostrassem sinais e maravilhas. Pode ser que o objetivo de Jesus ao pronunciar essa frase não fosse dirigir-se ao oficial, e sim à multidão que deve ter-se reunido para ver o resultado deste surpreendente evento. Deviam estar de boca aberta e os olhos fixos nos dois personagens para ver o que aconteceria. Possivelmente Jesus estava falando com essa gente ávida de sensacionalismo. Mas Jesus tinha uma forma de assegurar-se de que uma pessoa falava sério. Fez o mesmo com a mulher cananéia (Mateus 15:21-28). Se o homem tivesse dado meia volta irritado e petulante; se tivesse sido muito orgulhoso para aceitar uma correção; se tivesse abandonado a empresa desesperado, nesse mesmo
189 momento. Jesus saberia que sua fé não era autêntica. O homem deve estar seguro antes de receber a ajuda de Cristo.

(3) Estamos diante de um cortesão que tinha fé. Deve ter-lhe sido difícil dar a volta e voltar para sua casa com a segurança que Jesus lhe tinha dado de que seu filhinho viveria. Na atualidade, o povo está começando a aceitar o poder do pensamento e da telepatia de maneira tal que ninguém rechaçaria este milagre simplesmente porque se produziu à distância. Mas deve ter sido difícil para o oficial. Entretanto, teve a fé suficiente para dar meia volta e voltar a andar esse caminho de trinta quilômetros com nada mais que a segurança que Jesus lhe tinha dado para consolar seu coração. É da mesma essência da fé crer que o que Jesus diz é verdade. Ocorre muito freqüentemente que experimentamos como que um desejo vago, nebuloso, de que as promessas de Jesus sejam certas. A única forma de penetrar nelas é crer nelas com a ansiosa intensidade de um homem que se afoga. Se Jesus disser algo, não é questão de que "pode ser certo"; "deve ser certo".

 (4) Estamos diante de um cortesão que se rendeu. Não se trata de um homem que obteve o que quis de Cristo e depois se esqueceu. Ele e toda sua casa creram. Tal coisa não lhe deve ter resultado fácil visto que a idéia de Jesus como o Ungido de Deus deve ter arrasado com todas as suas convicções anteriores. Deve ter sido um fato surpreendente que o carpinteiro de Nazaré fosse o Messias. Tampouco deve ter sido fácil professar a fé em Jesus na corte do Herodes. Teria que suportar as brincadeira e as risadas; e sem dúvida haveria aqueles que pensariam que se tornou um tanto louco. Mas este oficial era um homem que enfrentava os atos e os aceitava. Tinha visto o que Jesus podia fazer; e a única coisa que restava a fazer era render-se a Ele. Tinha começado com um sentimento desesperado de necessidade, essa necessidade tinha sido satisfeita, e seu sentimento de necessidade se converteu em um amor total e pleno, e assim deve acontecer sempre no progresso da vida cristã.

Nesta história podemos ver com toda clareza sob que condições o poder de Jesus operava. Devemos notar que Jesus fala com imperativos. Dava suas ordens, seus mandamentos aos homens, e na medida em que estes buscassem obedecê-los recebiam esse poder. 

(1) Jesus começou perguntando ao homem se queria ser curado. Não é uma pergunta tão parva como pode parecer. O homem tinha esperado durante trinta e oito anos e bem poderia ter perdido as esperanças, deixando em seu lugar um passivo e triste desespero. Poderia ter ocorrido que no mais íntimo de seu coração se sentisse satisfeito de continuar sendo um inválido porque, se ficasse curado, teria que enfrentar-se com todo o peso de ganhar a vida e assumir novamente todas as suas responsabilidades. Há inválidos para quem sua doença não é tão desagradável, visto que outra pessoa faz todo o trabalho e assume todas as responsabilidades.

194 Mas a resposta deste homem foi imediata. Queria curar-se, embora não via como poderia curar-se, visto que não havia ninguém que o ajudasse. A primeira coisa que se necessita para receber o poder de Jesus é um desejo intenso desse poder. Jesus vem a nós e diz: "Você realmente quer mudar?" Se no mais recôndito de nosso coração estamos contentes sendo como somos, não pode haver nenhuma mudança. O desejo das coisas superiores deve inflamar nossos corações.
 (2) Jesus, pois, disse-lhe ao homem que se levantasse. É como se lhe tivesse dito: "Homem, use sua vontade! Faça um esforço supremo e você e eu conseguiremos!" O poder de Deus nunca prescinde do esforço do homem. Nenhum homem pode apoltronar-se, relaxar-se, e esperar que aconteça um milagre. Não há nada mais certo que o fato de que devemos tomar consciência de nosso desamparo; mas em um sentido muito real, também é certo que o milagre acontece quando nossa vontade e o poder de Deus cooperam para fazê-lo possível.
(3) De fato, Jesus estava ordenando ao homem que tentasse o impossível. Ele disse: "Levante-se!" O homem poderia haver dito, com ressentimento e dor, que isso era exatamente o que não podia fazer. Sua cama deve ter sido uma simples estrutura semelhante a uma maca. A palavra grega é krabbatos, que é uma palavra da linguagem coloquial — quer dizer maca — e Jesus lhe disse que a levantasse e a levasse. O homem poderia ter dito que durante trinta e oito anos a cama tinha estado levando a ele e que não tinha muito sentido dizer a ele que levasse a cama. Mas uma vez mais o homem fez o esforço ao mesmo tempo que Cristo — e aconteceu o milagre. (4) Aqui temos o caminho para obter o que nos propomos. Há tantas coisas neste mundo que nos vencem, nos derrotam e se apoderam de nós. Quando a intensidade do desejo está em nós, quando nos propomos fazer o esforço, embora possa parecer sem esperanças, então o poder de Cristo tem sua oportunidade, e com Cristo conquistamos aquilo que durante tanto tempo nos conquistou .

 O SIGNIFICADO INTERIOR João 5:1-9 (continuação)
Antes de abandonar esta passagem devemos assinalar que alguns estudiosos do tema consideram que se trata de uma alegoria. Crêem que o homem e a cena têm um significado interior. A verdade interior que aparece na alegoria seria a seguinte. O homem representa o povo do Israel. Os cinco pórticos representam os cinco livros da Lei. Nos pórticos jazia o povo doente, que ainda não se curou. A Lei era aquilo que podia apontar ao homem seu pecado mas que não podia fazer nada por solucioná-lo; podia descobrir a debilidade de um homem, mas não podia fazer nada para curá-la. A Lei, assim como os pórticos, dava refúgio à alma doente mas jamais podia curá-la. Os trinta e oito anos representam os trinta e oito anos durante os quais os judeus vagaram no deserto antes de entrar na terra prometida; ou representam a quantidade de séculos durante os quais os homens esperaram o Messias. Os homens tinham esperado durante todo este tempo, e agora tinha chegado o poder de Deus. A agitação das águas representa o batismo. De fato, na arte cristã primitiva se está acostumado a representar a um homem surgindo das águas batismais levando uma cama sobre as costas. Pode ser que agora se possam ler todos estes significados no relato; mas é muito improvável que João o tenha escrito como uma alegoria. Todo o relato tem o selo da verdade e da realidade. Mas faremos muito bem em recordar que toda história bíblica contém muito mais que os atos que relata. Há verdades mais profundas por baixo da superfície e até as histórias mais simples se propõem a nos deixar frente a frente com as coisas eternas.

OS PÃES E OS PEIXES João 6:1-13
Ao ver a multidão, acendeu-se a compaixão de Jesus. Estavam famintos e cansados e era preciso dar-lhes de comer. Era natural que se dirigisse a Filipe, porque vinha de Betsaida (João 1:44) e sem dúvida conheceria o lugar. Jesus lhe perguntou onde se podia obter comida. Filipe deu uma resposta desesperada. Disse que embora se pudesse conseguir comida, seriam necessários mais de duzentos denários para dar uma mínima quantidade a cada um dos componentes dessa vasta multidão. Um denário representava a diária normal de um operário. Filipe calculou que se necessitariam as diárias de mais de seis meses para começar a alimentar uma multidão como esta. Então apareceu André em cena. Tinha encontrado um garoto que tinha cinco pães de cevada e dois peixinhos. É muito possível que o garoto os tivesse levado para almoçar. Possivelmente tinha saído para passar o dia fora e, tal como faria qualquer garoto, se uniu à multidão. André como era seu costume levava gente à presença de Jesus. O garoto não tinha muito que oferecer. O pão de cevada era o mais econômico de todos, e o menosprezava.

220 Na Mishnah há uma disposição a respeito da oferta que uma mulher adúltera deve apresentar. É obvio que deve levar uma oferta por seu pecado. Em todos os sacrifícios se fazia uma oferta consistente em uma mescla de farinha, vinho e azeite. Em geral se empregava farinha de trigo; mas estava estabelecido que, no caso de uma oferta por adultério, devia empregar-se farinha de cevada, porque a cevada é a comida das bestas e o pecado da mulher era um pecado bestial. O pão de cevada era aquele que comiam os muito pobres. Os peixes não seriam muito maiores que uma sardinha. O peixe em vinagre proveniente da Galiléia era muito conhecido em todo o Império Romano. Naqueles dias o peixe fresco era um luxo desconhecido visto que não havia forma de transportá-lo e mantê-lo em boas condições de consumo.

No mar da Galiléia abundavam pequenos peixes semelhantes à sardinha. Eram pescados e conservados em vinagre como uma espécie de drinque. O garoto tinha seu peixe em vinagre para acompanhar o seco pão de cevada. Jesus, pois, disse a seus discípulos que fizessem as pessoas sentarem. Tomou os pães e os peixes e os abençoou. Ao fazê-lo estava agindo como um pai de família. A ação de graças que pronunciou provavelmente fora a que se empregava na maioria das casas judaicas: "Bendito és tu, Senhor nosso Deus, que fazes crescer o pão da terra". E o povo comeu e se sentiu saciada. Inclusive a palavra que se usa para significar satisfeito (chortazesthai) resulta sugestiva. Em suas origens, no grego clássico, era empregada para denominar a alimentação dos cavalos com forragem, e quando era empregada com respeito às pessoas queria dizer que estavam empachados, cheios. Quando o povo ficou saciado, Jesus fez seus discípulos recolherem os pedaços que tinham sobrado. Por que os pedaços? Nas festas judaicas se acostumava deixar algo para os servos. O que sobrava recebia o nome do Peah. Sem dúvida as pessoas deixavam uma parte para aqueles que tinham servido os pães.

221 Recolheram-se doze cestas de pedaços. Sem dúvida cada um dos discípulos tinha sua cesta (kofinos). As cestas tinham forma de garrafa. Nenhum judeu saía de viaje sem sua cesta. Juvenal fala em dois ocasiões (3:14; 6:542) de "o judeu com sua cesta e seu maço de palha". (O maço de palha era para usar como cama, porque muitos judeus levavam uma vida nômade). O judeu com sua inseparável cesta era uma figura muito conspícua. Levava-a, em parte porque era naturalmente aquisitivo, e em parte porque precisava levar sua própria comida se tinha que observar as normas judaicas de limpeza e impureza. De maneira que cada discípulo encheu sua cesta com os pedaços que sobraram. E assim a multidão faminta foi alimentada com acréscimo.

O SIGNIFICADO DE UM MILAGRE João 6:1-13 (continuação)
 Nunca saberemos com exatidão o que foi que aconteceu nessa verde planície da Betsaida Julia. Podemos vê-lo em três formas.
 (a) Podemos vê-lo simplesmente como um milagre no qual Jesus multiplicou, literalmente, pães e peixes. Pode haver aqueles que achem muito difícil imaginar algo semelhante. E haverá aqueles que achem muito difícil conciliá-lo com o fato de que isso foi justamente o que Jesus se negou a fazer durante suas tentações, quando declinou converter as pedras em pães (Mateus 4:3-4). Se podemos crer no caráter puramente milagroso deste fato, continuemos crendo. Mas se nos sentimos intrigados, há duas explicações possíveis.
 (b) Pode ser que em realidade se tratou de uma comida sacramental. No resto do capítulo a linguagem que Jesus emprega é idêntica ao da Última Ceia, quando se refere a comer sua carne e beber seu sangue. Pode ser que nesta refeição em El-Batiya o que cada pessoa recebeu não foi mais que um fragmento, como no sacramento; e que a emoção e maravilha da presença de Jesus e da realidade de Deus converteram esta migalha sacramental em algo que nutriu e saciou os corações e as almas João (William Barclay) 222 dos homens. Isto é o que acontece em cada mesa de comunhão até nossos dias.
(c) Pode haver outra explicação, muito bonita. Não se deve pensar que a multidão empreendeu uma expedição de quatorze quilômetros sem fazer nenhum preparativo. Se entre eles havia peregrinos, sem dúvida teriam provisões para a viagem. Mas pode ser que nenhum deles tenha querido oferecer o que tinha, porque com todo egoísmo — e muito humanamente — queriam guardar tudo para si. Pode ser que Jesus, com seu estranho sorriso, tirou a pequena provisão que tinha com seus discípulos, com uma fé radiante deu graças a Deus por ela e a compartilhou com todos. Comovidos por seu exemplo, todos os que tinham algo o imitaram; e ao final houve comida suficiente, e mais que suficiente, para todos. Pode ser que se trate de um milagre no qual a presença de Jesus e seu amor converteram a uma multidão de homens e mulheres egoístas em uma comunidade disposta a compartilhar tudo. Pode ser que na presença de Jesus aqueles cuja única idéia consistia em guardar tudo para si, se tornassem pessoas cuja única idéia era dar. Possivelmente este relato represente a maior das histórias: um milagre que trocou a natureza humana, e transformou, não pães e peixes, a não ser homens e mulheres. Seja como for, houve algumas pessoas sem as quais o milagre teria sido impossível.

(1) André é uma delas. Há um contraste entre André e Filipe. Filipe foi o homem que disse: "A situação é desesperada, não há nada a fazer." André disse: "Verei o que posso fazer, e confio em que Jesus fará o resto." Foi André quem levou o garoto a Jesus, e ao fazê-lo fez possível o milagre. Ninguém nunca sabe o que acontecerá e o que resultado terá o levar alguém à presença de Jesus. Se um pai educar a seu filho no conhecimento, no amor e no temor de Deus, ninguém pode dizer que grandes coisas pode realizar esse menino algum dia para Deus e para os homens. Se o professor de uma escola dominical aproxima um menino

223 de Cristo, ninguém pode predizer o que esse menino pode fazer algum dia por Cristo e sua Igreja.
Conta-se uma história a respeito de um ancião alemão, professor de escola, que ao entrar na sala-de-aula pela manhã costumava tirar o chapéu e fazer uma reverência a seus alunos. Um deles lhe perguntou por que o fazia. Sua resposta foi: "A gente nunca sabe o que pode chegar a ser algum dia um destes garotos." Tinha razão, porque um dos alunos se chamava Martinho Lutero. André não sabia o que estava fazendo quando aproximou esse garoto a Jesus, mas estava provendo o material para um milagre. Nunca sabemos que possibilidades estamos liberando quando levamos alguém a Jesus.
 (2) O garoto era outra dessas pessoas. Não tinha muito que oferecer mas no que ofereceu Jesus encontrou o material para fazer um milagre. Teria havido um brilhante acontecimento a menos na história se esse garoto se negasse a aproximar-se ou se tivesse guardado para si seus pães e peixes. A verdade é que Jesus necessita o que podemos lhe trazer. Pode ser que não tenhamos muito a oferecer, mas ele necessita o que temos. Pode ser que neguemos ao mundo triunfo após triunfo e milagre após milagre porque não queremos entregar a Cristo o que temos e o que somos. Se, tal como somos, nos oferecêssemos no altar do serviço de Jesus Cristo, ninguém pode dizer as coisas que Cristo poderia fazer conosco e por meio de nós. Podemos sentir tristeza e vergonha por não poder oferecer mais coisas, e é correto que o sintamos; mas essa não é razão para evitar ou negar-se a levar o que temos e o que somos. Um pouco sempre é muito nas mãos de Cristo.

UMA AJUDA BEM PRESENTE EM MOMENTOS DE NECESSIDADE João 6:16-21
Este é um dos relatos mais maravilhosos do quarto Evangelho. E se torna mais maravilhoso quando penetramos no significado original no idioma grego e o significado do incidente original, e quando descobrimos que o que descreve em realidade não é um milagre extraordinário, mas um acontecimento muito simples nAquele que João descobriu, e jamais pôde esquecer como era Jesus.

226 Em primeiro lugar, reconstruamos o relato. Depois de alimentar os cinco mil, e depois do intento por parte da multidão de torná-lo rei, Jesus se tinha afastado sozinho à montanha. Passou o dia. Chegou o momento que os judeus denominam "a segunda tarde", entre o crepúsculo e a escuridão. Jesus ainda não tinha chegado. Não devemos pensar que os discípulos foram esquecidos ou descorteses ao deixar Jesus para atrás, porque, conforme Marcos conta, Jesus mandou-os ir diante dele (Marcos 6:45), enquanto convencia a multidão de que voltasse para suas casas. Sem dúvida sua intenção era bordejar o lago enquanto eles o cruzavam remando, e reunir-se com eles em Cafarnaum. Agora, João estava presente, e se alguma vez houve um relato de uma testemunha ocular, este é um deles. Não há dúvida que se trata de um incidente em que João participou e sobre o qual pensou durante setenta anos; e à medida que pensava nele, convertia-se em algo simples rodeado de maravilha. De maneira que os discípulos começaram a navegar. Levantou-se o vento, como pode fazê-lo nesse lago estreito, rodeado de terra; e as águas se cobriram de espuma. Devemos lembrar que era a época da Páscoa e a época da Páscoa era tempo de Lua cheia (João 6:4). Na montanha Jesus orou e se comunicou com Deus; quando ficou em caminho, a Lua cheia fazia que a cena parecesse desenvolver-se à luz do dia; e podia ver no lago o barco e os remadores lutando com seus remos e sabia que estava dando muito trabalho avançar. Por isso desceu. Agora, aqui devemos lembrar duas coisas. Já vimos que no extremo norte o lago não tinha mais de seis quilômetros de largura; e João nos diz que os discípulos tinham remado entre cinco e seis quilômetros; quer dizer que estavam chegando quase no fim da viagem. É natural e inevitável supor que, em vista do vento que soprava, tinham tentado aproximar-se da margem o mais possível para obter maior amparo. Esse é o primeiro dado; agora vejamos o segundo. Viram que Jesus andava sobre o mar. A tradução literal do grego é exatamente a mesma frase que aparece em João 21:1, onde diz que Jesus se manifestou outra vez a seus discípulos junto ao mar de Tiberíades. Em João 21:1 esta

227 frase significa sem nenhuma ajuda — nunca foi questionada —, que Jesus estava caminhando pela margem. E isso é o que significa nossa frase também. Jesus estava caminhando epites thalassis, junto à margem. Os atarefados discípulos levantaram os olhos; e de repente o viram. Foi algo tão inesperado, tinham estado reclinados nos remos durante tanto tempo que se sentiram alarmados porque criam que o que viam era um espírito. Então, por cima das águas, chegou essa voz tão amada: "Sou Eu; não temais." Gostariam que subisse a bordo; o grego, muito mais naturalmente significa que seu desejo não se cumpriu. Por que? Lembremos da largura do extremo Norte do lago e lembremos o quanto tinham avançado. A largura era de seis quilômetros. Tinham remado cinco e seis quilômetros. A razão muito simples pela qual seu desejo não foi completo foi que antes que pudessem recebê-lo a bordo, a barco tocou a margem, e já tinham chegado. Este é o tipo de relato que um pescador como João sentiria prazer em ouvir e recordar. Cada vez que o recordasse voltaria a sentir o que sentiu aquela noite, o cinza prateado da Lua, o tosco remo em sua mão, as sacudidas da vela, o uivar do vento e o som da água enfurecida, a surpreendentemente inesperada aparição de Jesus, o som de sua voz por cima das ondas, e o rangido da barco ao tocar a margem da Galiléia. E ao recordar tudo isto João via coisas maravilhosas no relato, milagres que ainda estão presentes para que nós os leiamos.

(1) Viu que Jesus vigia. Na montanha Jesus estava observando-os. Não os tinha esquecido. Não estava muito ocupado com Deus para pensar neles. Até na hora da devoção seus discípulos estavam presentes em seu coração. João se deu conta de que durante todo o tempo que eles estiveram lutando com seus remos, o olhar amoroso de Jesus estava sobre eles. Enquanto estamos lutando, Jesus vigia. Não nos faz as coisas fáceis. Deixa-nos travar nossas próprias batalhas e obter nossa própria vitória. É como um pai que observa seu filho ou filha fazer um grande esforço em alguma competição de atletismo, e se sente orgulhoso de nós. 

228 Ou como alguém que observa a outro fazendo um trágico abandono, e se entristece. Vivemos a vida com o olho amoroso de Jesus sobre nós.
(2) Viu que Jesus vem. Jesus desceu da montanha para permitir que os discípulos pudessem fazer o último esforço que os faria chegar a terra a salvo. Não nos observa conservando uma distância serena e incomovível. Não nos observa como se estivesse na tribuna principal, do lado de fora. Justo quando fraquejam as forças e a vida fica muito dura, Ele vem, e com Ele vem o último esforço e o último fôlego que levam à vitória e ao logro de nosso objetivo.
(3) Viu que Jesus ajuda. Vigia, vem e ajuda. A maravilha da vida cristã é que não há nada que devamos fazer completamente sozinhos. Margaret Avery conta que uma professora de uma escola rural contou esta historia a seus meninos, e deve tê-la contado muito bem. Pouco tempo depois houve uma tormenta de chuva e neve. Quando terminou a hora da lição, a professora acompanhou os meninos até sua casa. Em certos momentos tinha que arrastá-los em meio da tormenta. Quando todos se sentiam quase exaustos, escutou que um dos garotinhos murmurava para si mesmo: "Seria bom que esse Senhor Jesus estivesse aqui agora." Sempre nos faz bem a companhia de Jesus e jamais poderemos estar sem Ele.
(4) Viu que Jesus nos leva ao porto. Ao João recordar, parecia-lhe que logo que Jesus chegou, a quilha da barco tocou no chão, e chegaram. Como diz o salmista: “Então, se alegraram com a bonança; e, assim, os levou ao desejado porto” (Salmo 107:30). De algum modo, com a presença de Jesus até a viagem mais longa parece curta e a batalha mais dura se apresenta como algo fácil. Uma das coisas mais bonitas do quarto Evangelho é que João, o velho pescador convertido em evangelista, encontrou toda a riqueza de Cristo na lembrança de um relato de pescadores.

CADA VEZ MAIOR João 9:1-41
 Antes de passar a outro capítulo, conviria que lêssemos este, muito maravilhoso, de principio a fim. Se o fizermos com cuidado e meditação, veremos a mais bela progressão da idéia do homem cego sobre Jesus. Sua idéia de Jesus passa por três etapas, cada uma mais elevada que a anterior.
(1) Começa dizendo que Jesus é um homem. “O homem chamado Jesus fez” me abriu os olhos (versículo 11). Em um princípio, viu Jesus como um homem muito maravilhoso. Qualquer um pode começar por
331 ali. O cego jamais conheceu ninguém que pudesse fazer as coisas que Jesus fazia. E começou considerando que Jesus era um ser supremo entre os homens. Fazemos bem em pensar, às vezes, no caráter maravilhoso de Jesus enquanto homem. Em qualquer galeria dos heróis universais deve haver um lugar para Jesus. Em qualquer antologia sobre as vidas mais bonitas, deverá incluir-se a de Jesus. Em qualquer coleção das partes literárias mais excelsas, devem incluir-se suas parábolas. Shakespeare faz dizer a Marco Antonio em seu obra Júlio César, ao referir-se a este: Sua vida foi bela, e os elementos combinaram-se nele de maneira tal que a Natureza poderia erguer-se e proclamar ao mundo inteiro: "Este era um homem". Podemos duvidar sobre qualquer outra coisa, mas jamais duvidar de que Jesus foi um homem entre os homens.
(2) Logo passa a chamar Jesus de profeta. Quando lhe perguntaram qual era sua opinião sobre Jesus diante do fato de que lhe tinha dado a vista, respondeu: "É profeta" (versículo 17). Agora, profeta é um homem que traz a mensagem de Deus aos homens. "Porque não fará nada Jeová o Senhor", diz Amos, "sem que revele seu segredo a seus servos os profetas" (Amos 3:7).
 O profeta é um homem que vive perto de Deus. É um homem que penetrou na mente de Deus. Quando lemos a sabedoria das palavras de Jesus, quando ouvimos sua voz pronunciando estas frases imortais, somos levados a dizer: "Este é um profeta." Podemos duvidar de todo o resto, mas há algo que está além de toda dúvida: se os homens seguissem os ensinos de Jesus se solucionariam todos os problemas pessoais, sociais, nacionais, internacionais. Se alguma vez um homem teve o direito de ser chamado profeta, se houve alguém que falou com os homens com a voz de Deus, esse homem é Jesus.
 (3) Por último, o cego confiou que Jesus era o Filho de Deus. Chegou a perceber que as categorias humanas não eram adequadas para descrever a Jesus. Viu que Jesus fazia coisas que estavam além da
332 capacidade humana e que sabia coisas que superam a possibilidade de conhecer dos homens. Em uma oportunidade, Napoleão formava parte de um grupo no qual alguns céticos muito brilhantes discutiam a respeito de Jesus. Terminaram por catalogá-lo como um grande homem, mas nada mais. "Cavaleiros", disse Napoleão, "eu conheço os homens e Jesus era mais que um homem." Se Jesus Cristo for um homem E só um homem afirmo Que de todos os homens, me uno a ele E a ele me unirei sempre. Se Jesus Cristo for um deus — E o único Deus — juro Que o seguirei pelo céu e o inferno, A terra, o ar e o mar. O tremendo sobre Jesus é que quanto mais o conhecemos mais Ele se converte em alguém magnífico. O problema com as relações humanas é que muito freqüentemente quanto mais conhecemos uma pessoa, fazemo-nos mais conscientes de suas debilidades, de suas faltas, de seus fracassos, de suas limitações; mas quanto mais conhecemos Jesus, mais Ele nos maravilha. E será assim, não só agora, mas também na eternidade.

NO CAMINHO RUMO À GLÓRIA João 11:1-5
O nome Lázaro significa Deus é minha ajuda e é idêntico ao nome Eleazar. Lázaro caiu doente e as irmãs mandaram uma mensagem a Jesus informando-o sobre a enfermidade. É bonito notar que a mensagem não solicitava a Jesus que fosse a Betânia. Sabiam que era desnecessário pedir-lhe Sabiam que a mera afirmação de que necessitavam ajuda
364 levaria a Jesus até elas. Agostinho assinalou isto dizendo que bastava que Jesus soubesse o que acontecia porque não é possível que alguém ame a um amigo e o abandone. Em algum escrito, C. F. Andrews fala sobre dois amigos que lutaram juntos durante a Primeira Guerra Mundial. Um deles caiu ferido e o deixaram desamparado e sofrendo em meio das trincheiras. O outro se arrastou nas trevas, expondo sua vida para ajudar o amigo. Quando se aproximou dele, o homem ferido o olhou e disse: "Eu sabia que você viria." O mero fato da necessidade humana aproxima de Jesus a nosso lado em um instante. Quando Jesus foi a Betânia sabia o que estava fazendo. Sabia que fosse qual fosse a enfermidade do Lázaro Ele contava com o poder necessário para curá-la. Mas também disse algo. Afirmou que essa enfermidade se produziu para glória de Deus e dEle próprio. Agora, isto era certo em um duplo sentido, e Jesus o sabia.
(a) Sem dúvida alguma, a cura permitiria aos homens ver a glória de Deus em ação.
 (b) Mas havia algo mais. Uma e outra vez com o passar do Quarto Evangelho Jesus fala de sua glória com relação à cruz. Em 7:39 João nos diz que o Espírito ainda não tinha vindo porque Jesus ainda não tinha sido glorificado: quer dizer, ainda não tinha morrido na cruz. Quando se aproximaram os gregos, Jesus disse: “É chegada a hora de ser glorificado o Filho do Homem” (João 12:23). E se referia à sua cruz porque imediatamente passou a falar sobre o grão de trigo que deve cair na terra e morrer. Em João 12:16 diz que os discípulos recordaram estas coisas quando Jesus foi glorificado, quer dizer, depois que tinha morrido e tinha ressuscitado. No Quarto Evangelho se manifesta com toda clareza que Jesus contemplava à cruz tanto como sua glória suprema como o caminho que o levaria a ela.
 De maneira que quando Jesus disse que a cura do Lázaro o glorificaria, demonstrava saber muito bem que o fato de ir a Betânia e curar a Lázaro significava dar um passo que terminaria na cruz, coisa que aconteceu. João (William Barclay) 365 Jesus, com plena consciência, aceitou a cruz para ajudar a seu amigo. Jesus sabia qual era o preço que era preciso pagar para ajudar ao homem e estava disposto a pagá-lo.
Quando recebemos alguma dor ou alguma prova, especialmente se forem o resultado direto da lealdade a Jesus Cristo, faria uma imensa diferença se víssemos a cruz que devemos carregar como nossa glória e o caminho que conduzirá a uma glória ainda maior. Não há a menor dúvida de que não pode haver maior glória que sofrer por Cristo. E sem dúvida alguma, se crerem o que Jesus nos disse, podemos estar seguros de que aquele que toma sua cruz e o segue receberá a glória e a coroa no fim do caminho. Para Jesus, não havia outro caminho que levasse a glória fora de que passava pela cruz. O mesmo devem pensar aqueles que o seguem.


João (William Barclay)




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