domingo, 30 de novembro de 2025

CPAD - LIÇÃO 8: Emoções e Sentimentos — A Batalha do Equilíbrio Interior

 


   INTRODUÇÃO

   O texto de Filipenses 4.7 traz, no original, os termos gregos rum (mente, raciocínio), kardia (coração) e noema (um pensamento, aquilo que é pensado). Nesse texto específico, o termo kardia tem um sentido amplo, mas com uma ênfase maior em emoções e vontade, conforme assinalam Coenen e Brown citando Rudolf Bultmann: “E, portanto, a pessoa, o ego do homem, que pensa, sente e deseja, com especial atenção à responsabilidade diante de Deus, que o NT denota mediante o emprego de kardia” (2000, p. 426).

   0 ensino de Paulo nesse texto é de como Deus quer e pode guardar todas as nossas fontes de vida interior para que tenhamos uma vida equilibrada, manifestada por meio de uma nova natureza, gerada em Cristo Jesus. E a nova criatura mencionada em 2 Coríntios 5.17. Nessas “coisas velhas”, estão incluídos pensamentos, sentimentos e vontades, os quais agora devem ser novos em Cristo. Esse deve ser o alvo de todo o cristão.

  1 - O HOMEM, UM SER AFETIVO

  1. Propósitos do estudo

   Como já ressaltado, o propósito central do estudo da Antropologia Bíblica é uma compreensão correta do homem como um ser integral para um viver equilibrado (espírito, alma e corpo) à luz da Palavra de Deus. Isso inclui entender o que são emoções e sentimentos e como podem e devem ser compatibilizados entre si. A luta interna em torno dos pensamentos está relacionada à gestão das emoções e sentimentos, pela profunda conexão que há entre o que pensamos e o que sentimos, além da relação desses fenômenos com a vontade e as decisões humanas. Pensar, sentir, desejar e agir. Nada em nós pode estar fora do propósito de amar a Deus, servi-lo e adorá-lo (SI 103.1; Mc 12.30).

   No capítulo anterior, estudamos sobre os pensamentos e como eles podem influenciar nossos sentimentos, nossa vontade e, consequentemente, nossas decisões. Observamos que há, sim, uma forte correlação entre essas faculdades da alma em processos complexos, nem sempre iguais. Neste capítulo, abordaremos a parte afetiva do ser humano buscando definir e diferenciar emoções e sentimentos e compreender a sua importância na experiência humano-espiritual. Apresentaremos uma visão bíblica com aplicações práticas para um viver diário saudável e equilibrado, guiado pelo Espírito Santo.

  O ciclo entre pensar, sentir e agir

   Da mesma forma como pensamentos podem influenciar sentimentos, 0 que sentimos tem ressonância no que pensamos e fazemos. Assim como há uma batalha na mente em função dos pensamentos, há uma luta interior em torno do que sentimos. Equilibrar razão e emoção não é uma tarefa fácil. Quanto mais compreendemos que esses processos existem e são altamente influenciadores de nossas condutas, mais devemos depender de Deus, acima de qualquer método ou técnica, pois somente Ele é poderoso para guardar todas as faculdades de nosso interior.

   A falta de equilíbrio interior tem produzido um crescente processo de adoecimento mental em todo o mundo, inclusive no Brasil. Como já mencionamos, esse fenômeno é acompanhado do surgimento de diagnósticos excessivos, além de um consumo desproporcional e preocupante de medicamentos para o tratamento de problemas emocionais, principalmente ansiolíticos e antidepressivos. O psiquiatra norte-americano Allen Francês, que liderou a equipe de profissionais responsáveis pela elaboração do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais DSM-IA) expõe a inflação diagnostica que viu retratada na versão seguinte do manual (o DSM-V). Francês aponta numerosas causas para essa distorção, algumas delas inerentes à própria psiquiatria, que, segundo ele, apontam para a necessidade de uma cura que venha de dentro da profissão (ibid., p. 105).1

   Isso deve servir de alerta para todas as pessoas e, principalmente, para os cristãos. Nosso propósito aqui é apresentar uma análise equilibrada do problema, recomendando cuidados pessoais necessários, principalmente espirituais. Isso inclui um correto entendimento do que sejam as emoções e os sentimentos, qual a conexão existente entre o que pensamos e o que sentimos e qual a relação desses fenômenos com a vontade e as decisões humanas. Não nos esqueçamos de que a vontade de Deus é que tenhamos essas faculdades em pleno funcionamento para que possamos amá-lo com o emprego de todas elas (ver Mc 12.30).

  2. Afetividade: emoções e sentimentos

   O termo “afetividade” não tem um conceito único ou fechado. Não aparece muito em uso atualmente com o sentido geral que aqui será invocado, que é expressar o conjunto de sentimentos humanos. Heidbreder (1981, p. 123) entende os afetos (que chama de afecções) como elementos característicos da emoção, manifestados em experiências como o amor e o ódio, a alegria e a tristeza, o que outros autores conceituam incluindo expressamente os sentimentos. Ele ainda diz que as afeições possuem três atributos: qualidade, intensidade e duração (ibid. p. 124), o que é bastante relevante especialmente quando tratarmos da diferença entre emoção e sentimento.

   Em um conceito simplificado, afetividade é a capacidade humana de expressar emoções e sentimentos. São processos psicológicos e fisiológicos e envolvem alma e corpo, além do próprio espírito, como se observa na expressão de Salomão em Provérbios 15.13, na qual o termo “coração” refere-se à totalidade do intelecto, da emoção e da vontade de uma pessoa (STAMPS, 2022, p. 1048): “O coração alegre aformoseia o rosto, mas, pela dor do coração, o espírito se abate” (Pv 15.13).

   Diferenciando emoção e sentimento

   Tomando afetividade como um conjunto de vivências ou aspectos afeti vos, podemos situar neles as emoções e os sentimentos.3 Como diferenciação básica, pode-se afirmar que emoções são reações instintivas, predominantemente inconscientes e passageiras, enquanto os sentimentos são vivências afetivas mais duradouras. (É exatamente por isso que é comum situar as paixões entre as emoções ou simplesmente tratar as paixões como emoções, dado o caráter de instintividade e curta durabilidade). Já os sentimentos só são formados e aferidos a partir do critério temporal, da estabilidade da emoção. Como um prolongamento ou repetição de emoções, o sentimento é uma percepção consciente de um determinado estado emocional. A diferença principal, portanto, está na estabilidade do afeto. Enquanto a emoção é rápida e fugaz — geralmente não evitável —, o sentimento permanece por algum tempo, alguns por longo tempo ou até pela vida toda!4

  3. Principais afetos

   Alegria, medo, raiva, surpresa, nojo e tristeza são as seis emoções básicas universais, comumente citadas por autores conhecidos, como Paul Ekman no seu livro Linguagem das Emoções (2011). Admitindo que tanto cientistas quanto leigos ainda saibam muito pouco a respeito das emoções, Ekman analisa que “está na natureza das próprias emoções sobre como elas nos influenciam e como é possível reconhecer seus sinais, em nós mesmos e nos outros” (p. 14). Ekman também trata do aspecto passageiro das emoções:

   As emoções podem começar rapidamente, e isso ocorre muitas vezes; tão rápido que nossa consciência não participa ou testemunha o que ativa uma emoção em nossa mente em determinado momento. Essa velocidade pode salvar nossas vidas em uma emergência, mas também pode arminá-las quando reagimos de forma exagerada. Não temos muito controle a respeito do que nos deixa emocionados, mas é possí vel, embora não seja fácil, fazer algumas mudanças naquilo que ativa nossas emoções e em nosso comportamento quando nos emocionamos.

   Isso demonstra, desde logo, o quanto devemos estar dedicados não tanto a tentar explicar nossas emoções, mas buscar em Deus força espiritual para não sermos vítimas delas. Mesmo não sendo bem compreendidas, as emoções fazem parte de nossa vida diária. Certamente as sentimos nas mais distintas experiências cotidianas. E necessário, portanto, que pres temos mais atenção às emoções pelo tanto que somos influenciados por elas, inclusive em nossas condutas.

   Exemplos bíblicos

   A primeira emoção expressamente retratada na Bíblia foi a reação de Adão ao acordar e contemplar Eva. Foi uma expressão de alegria (ver Gn2.23). Não sabemos por quanto tempo, mas essa emoção sobreviveu como um sentimento igualmente prazeroso pela feliz convivência cheia de cum plicidade que Adão e Eva tiveram. O texto de Gênesis 2.25 diz que “ambos estavam nus, o homem e a mulher; e não se envergonhavam”, o que significa que não havia emoção negativa alguma entre Adão e Eva. Pode-se imaginar a alegria que o casal tinha na santa contemplação mútua que faziam!

   Esse ambiente de emoções e sentimentos, todos positivos, durou até o pecado entrar na história. Depois do pecado, o casal passou a viver emoções e sentimentos negativos, como vergonha e medo. Dentre as reações externas imediatas, estão a percepção da nudez, o cobrir o corpo e o esconder de Deus (Gn 3.7-10). Tristeza e dor passaram a ser sentimentos constantes na vida do primeiro casal, a começar pelas sentenças resultantes da rebeldia praticada (Gn 3.16-18). A trágica cena descrita em Gênesis 3.23,24 — Deus lançando Adão e Eva para fora do jardim — certamente foi carregada de profunda frustração e angústia. O termo hebraico garash tem o sentido de expelir, expulsar, como visto na NVT e na NVT.

  4. Inveja, ira e ódio

   O rol de emoções negativas cresceu com a tragédia envolvendo Caim e o seu irmão Abel. Em Caim, é vista a emoção da ira, transformada em ódio ao irmão, que ficou estampado no seu rosto (Gn 4.5). Pelo texto, fica claro que houve na emoção as características de intensidade e duração, dois dos atributos mencionados por Heidbreder como próprios das emoções .

   As reações fisiológicas produzidas pelas emoções podem ser as mais diversas, dentre as quais o aumento da frequência cardíaca, respiração acelerada, transpiração, boca seca, pupilas dilatadas, mãos e pés frios, náuseas, diarréia e tensão muscular. Ekman (ibid., p. 36,37) analisa esse momento de manifestação da emoção no corpo tendo como exemplo a iminência de um acidente de trânsito:

   No momento em que uma emoção começa, ela se apodera de você nos primeiros milésimos de segundo, comandando o que você faz, diz e pensa. Sem escolher fazer isso, você vira o volante automaticamente para evitar a colisão, pressionando o pedal do freio com o pé. Ao mesmo tempo, uma expressão de medo atravessa seu rosto: sobrancelhas levantadas e unidas, olhos arregalados e boca esti cada para trás, na direção das orelhas. O coração começa a bater aceleradamente, você começa a transpirar e o sangue corre para os grandes músculos das pernas. Observe que você teria feito aquela expressão facial mesmo se não houvesse ninguém sentado no carro, da mesma forma que seu coração bateria mais rápido se você não se envolvesse em algum esforço físico repentino, exigindo maior circulação sangüínea. Essas respostas acontecem porque, ao longo de nossa evolução, se tornou útil para os outros saber quando sentimos perigo e, também, estar preparado para fugir em ocasiões assim.

   No caso de Caim, a origem das suas emoções negativas era a sua própria conduta. O apóstolo João afirma que as obras de Caim “eram más, e as de seu irmão, justas” (1 Jo 3.12). Com isso, houve aceitação da oferta de Abel, e não da dele, Caim, o que o fez ficar irado. A ira de Caim, portanto, era decorrente do seu próprio estado pecaminoso, o que é bem relevante considerar. Não poucas hipóteses de emoções negativas são fruto de pecados praticados ou enraizados no coração. De qualquer sorte, toda a origem do mal manifesto na vida humana vem do pecado, a Queda ocorrida no Éden, além do agravamento em função de nossas próprias condutas más.

   Ainda sobre o exemplo de Caim, é importante observar que, mesmo com o sentimento ruim instalado e agravado na sua alma, ele tinha a possibilidade de desviar-se do curso para o qual o seu perverso intento apontava. Mesmo advertido por Deus (Gn 4.7), Caim permitiu que a emoção fosse transformada num sentimento de ódio e matou o próprio irmão (4.8). Ele passou a viver outros sentimentos negativos, como culpa e medo, que o acompanhariam por toda a vida (4.10-14).

  II - EMOÇÕES: EXPERIÊNCIA E CONTROLE

  1. Reação e decisão

   É correto afirmar que, como reações instintivas, muitas emoções acontecem fora do controle humano. Em casos assim, não constituem um pecado em si mesmas. Mas cabe-nos decidir como agir diante de uma reação emocional. Uma coisa é a emoção, e outra coisa é a decisão. A frase paulina “Irai-vos e não pequeis” (Ef 4.26) demonstra essa verdade, separando bem emoção (“irai-vos”) e decisão (“não pequeis”). Paulo aconselha os efésios a que controlem a ira e não deixem ser dominados por ela. Permanecer irado é dar lugar ao Diabo e abrir caminho para terríveis pecados (4.27). A ira, portanto, é uma experiência emocional que deve ser repelida e jamais cultivada. Aliás, o versículo termina com a expressão “não se ponha o sol sobre a vossa ira”, que trata do fator cronológico ou temporal: a ira não deve durar muito tempo; nem até o fim do dia. Na NVT, o texto é: ‘Acalmem a ira antes que sol se ponha”.

   Esse fator está ligado ao que vimos tratando acerca da transformação da emoção em sentimento. A medida que a ira é alimentada, deixa de ser uma emoção e vira um sentimento, que, quanto mais dura, mais pensamentos e desejos ruins produz, servindo de ocasião para o Diabo, como adverte Paulo no versículo 27: “Não deis lugar ao diabo”.

  A mortificação da carne

  No versículo 31 do mesmo capítulo de Efésios, Paulo diz para livrarmo- -nos de toda amargura, ira e cólera. Assim, admite-se a ira como emoção, mas não como sentimento. O verdadeiro cristão não pode viver irado, e só é possível alcançar isso pelo processo de mortificação da natureza carnal. Em Colossenses 3.5, Paulo diz: “Mortificai, pois, os vossos membros que estão sobre a terra” e, no versículo 8 do mesmo capítulo, cita, dentre outras obras da carne, as emoções da ira e da cólera, que são indignação e raiva. A NTLH traduz como raiva, paixão e sentimentos de ódio. Thumos, no grego, é uma “raiva ardente”. Indignar-se é “estar muito bravo” (VINE, p. 709). Nota-se, portanto, que já não se trata apenas de uma emoção, mas um sentimento, e num estado emocional bem prolongado: estar muito bravo.

   Em Romanos, Paulo também trata desse processo de mortificação da natureza carnal (ver Rm 8.13). Essa “mortificação” é um processo contínuo, em que o cristão deve avançar a cada dia. Justificar os próprios arroubos emocionais e permanecer neles é negar a eficácia da obra de Cristo (2 Co 5.17). Há os que colocam a culpa na natureza dos pais ou dos avós — “eles eram assim, e eu sou assim” — como se comportamentos pecaminosos fossem determinados por fatores genéticos. Se houve regeneração, houve um novo nascimento, que é o recebimento de uma nova natureza, uma natureza espiritual, gerada em Cristo em nós pelo Espírito Santo, mediante a Palavra recebida (1 Pe 1.23).

   Não nos conformemos, portanto, com emoções e sentimentos ruins. Devemos crucificar nossa velha natureza com as suas tendências pecaminosas, inclusive as ligadas ao temperamento: “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” (G1 5.24). Assim fazendo, o Espírito produz em nós o seu glorioso fruto: amor, alegria, paz, longanimida- de, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio (G1 5.22).

  2. Emoção e pecado

   No tópico anterior, já observamos que as emoções não podem ser tidas simplesmente como reações instintivas. Se é fato que existem reações que não constituem pecado — como o medo diante de uma fera, por exemplo —, existem outras que, mesmo que instintivas, decorrem de nossa nature za pecaminosa ainda não subjugada. Medo, raiva, inveja, tristeza e outras emoções reiteradas podem ser expressões de pecados enraizados no coração. Uma pessoa orgulhosa, por exemplo, é muito suscetível a reações emocionais negativas como irritação, raiva, inveja, rejeição e outros comportamentos hostis às pessoas com as quais convive. Não é apenas uma emoção, mas uma manifestação de pecados do coração.

   Alguém que não consegue conter-se no trânsito, por exemplo, precisa buscar em Deus um espírito de mansidão. Um personagem bíblico que tem muitas lições para ensinar-nos nesse campo é Moisés. Aos quarenta anos, ele feriu um egípcio e matou-o (Ex 2.12). Quarenta anos depois, era outro Moisés, chegando ao ponto de ser chamado de o homem mais manso da terra (Nm 12.3), pois não reagia mesmo afrontado muitas vezes. Moisés foi tratado por Deus durante quarenta anos.

   Aos colossenses, Paulo trata de um processo semelhante. Depois de listar emoções negativas como a ira e a cólera e apontar o caminho da mortificação da carne (o velho homem), o apóstolo incentiva os crentes a progredirem e trocarem emoções negativas por emoções e sentimentos positivos (ver Cl 3.12,13). Não há lugar, portanto, para a permanência de qualquer emoção ou sentimento que seja expressão de pecado.

   No dia em que Moisés descuidou-se e agiu segundo o seu velho tem peramento, experimentou um incalculável prejuízo. Deus havia ordenado que ele falasse à rocha para que dela jorrasse água para o povo. Indignado, Moisés chamou o povo de rebelde e feriu a rocha. Moisés não se conteve e desobedeceu a ordem de Deus (Nm 20.10,11), e o anúncio da consequência foi imediato (20.12).

   O Antigo Testamento também menciona o exemplo de Nabal, um homem soberbo, mal-humorado e ingrato (1 Sm 25.10,11). A sua insensatez custou-lhe a vida (25.36-38). Um coração altivo é muito propenso a emoções negativas e sentimentos facciosos (Pv 13.10; 21.24). Como Davi, devemos rogar a Deus que nos livre da soberba para que ela não nos domine e leve-nos a transgressões (SI 19.13).

  3. O aspecto positivo das emoções

   Apesar de experiências negativas que temos com algumas de nossas emoções, precisamos considerá-las também em aspectos e aplicações posi tivos. Como enfatiza Elaine Cruz (2024, p. 34), “As emoções nos motivam a agir. Só estudamos para um concurso se formos capazes de sentir orgulho por nossas conquistas. Reclamamos de um produto entregue com defeito se sentirmos um mínimo de indignação por isso”. A autora cita o exemplo de Davi, que se emocionou (sentiu indignação) ao ouvir Golias afrontar o povo de Israel, reação que foi importante para a sua prontidão de enfrentar o gi gante. Menciona também a disposição de Davi à adoração: “Davi, o homem segundo o coração de Deus, não tinha vergonha ou medo de expressar suas emoções; ele as vivenciava com intensidade, dançando, lutando, cantando, compondo poemas e adorando a Deus!”.

   Uma emoção que geralmente é vista como negativa, mas que também pode ser positiva, é o medo. Quando sentimos medo, nosso cérebro inicia um processo instantâneo de descarga de adrenalina, hormônio que põe o corpo em imediato movimento, para luta ou fuga. Em casos assim, o medo funciona como um ativador de nosso mecanismo de defesa. O corpo ficaria inerte, sem ação e totalmente vulnerável sem essa emoção. Conforme afirma Paul Ekman (ibid., p. 66), o medo é algo que nos protege porque nos faz reagir às ameaças de modo protetor e instantâneo, sem o pensamento. Ele cita como exemplo o pisar instintivo no freio como uma resposta ao medo de ser atingido por outro carro (p. 74). Foi tomado de uma justa indignação que Jesus expulsou os vendilhões do Templo (Mt 21.12).

  5 Memórias afetivas

   Alegria, felicidade e amor são emoções agradáveis, também fundamentais para a vida, principalmente em função de nossos relacionamentos. Dentre tantos outros benefícios que as emoções positivas trazem a nós, Elaine Cruz (p. 35) menciona o efeito que produzem relação ao processo de memorização dos fatos: “Emoções fazem bem para a memória, e sempre nos lembraremos com mais detalhes das situações que foram envolvidas com maior carga emocional”. São as chamadas memórias afetivas, que podem ser despertadas e remeter-nos a experiências emocionais vividas. Cruz refere-se às memórias associativas, conceito que inclui as memórias afetivas:

   Cada vez que você vivência uma emoção forte, as células do seu cérebro desenvolvem uma conexão. Essa conexão vai ficando cada vez mais forte conforme você repete aquela emoção e vai ficando cada vez mais provável repetir aquela emoção porque você construiu uma conexão em seu cérebro. Isso é o resultado da aprendizagem, que garante que quanto mais potente for a emoção, maior seja a conexão. Quantas músicas e louvores, que ouvíamos com frequência em uma época da vida, nos fazem voltar no tempo, para quando estávamos muito felizes ou amargurados.6

   Isso nos ensina o quanto é importante promover boas emoções nas pessoas com as quais convivemos. Isso fará bem a elas e a nós.7 (Há uma passagem bíblica que geralmente cito, que é Gênesis 27.4. Isaque pediu a Esaú que lhe preparasse um guisado saboroso, como ele gostava, para que a sua alma fosse abençoada. A emoção positiva que seria sentida por Isaque teria uma conexão direta com a sua disposição de alma para abençoar o filho). Jacó, na sua velhice, recorda-se das tristezas que viveu por tenebrosas condutas dos seus filhos, como o caso de Rúben, memória que lhe custou a perda das prerrogativas de primogênito (ver Gn 49.4). Que Deus nos guarde de produzir emoções e sentimentos negativos nas pessoas com as quais nos relacionamos.

  III - SENTIMENTOS GUARDADOS POR DEUS

  1. A falsa autonomia humana

  A Bíblia apresenta várias passagens sobre a necessidade que temos de que Deus guarde nosso coração, o que inclui nossos sentimentos. No Salmo 121.7, o salmista roga que o Senhor guarde a sua alma. No Salmo 62.5, Davi expressa: “O minha alma, espera somente em Deus, porque dele vem a minha esperança”. No texto bíblico introdutório deste capítulo (Fp 4.7), Paulo menciona que o Deus de paz guarda nossos corações. Essa dependência, contudo, não é vista na maioria dos seres humanos. Como em tantas outras áreas da vida, no aspecto das emoções e dos sentimentos, o homem prefere acreditar na sua própria capacidade. O mercado está cheio de conteúdo sobre inteligência e gestão emocional. São diversas as técnicas com as quais se promete o reconhecimento, a compreensão e o controle não só das próprias emoções, mas também das dos outros. E uma espécie de novo racionalismo: a crença no poder da razão em relação aos sentimentos.

   Um dos autores mais citados nessa área é Daniel Goleman, que, no seu mais conhecido livro, Inteligência Emocional (2012), fala sobre a importância de conhecermos as próprias emoções e as de terceiros e aprendermos a lidar com elas. O autor defende a ideia de que é possível gerenciar as próprias emoções, assim como é possível reconhecer e influenciar as emoções dos outros. Ele menciona, por exemplo, que é necessário conhecer o que está por trás de um sentimento, como a mágoa que dispara a raiva, e aprender a lidar com ansiedades, ira e tristeza (p. 284). Não podemos negar o valor de uma reflexão cuidadosa sobre as emoções. O equilíbrio não nos admite desprezar métodos inteligentes de ajuda ao ser humano nesse tão complexo processo. Todavia, é falso e enganoso acreditar num fantástico controle abso luto que os “mestres” das emoções parecem prometer. Não raro eles mesmos se surpreendem com os seus próprios fracassos, na inglória empreitada de serem emocionalmente invencíveis (Jr 17.5,9).

   O cristão tem como auxílio a presença do Espírito Santo, que, operando muito além da inteligência humana, age em nosso espírito e inunda nossa alma, produzindo o seu fruto, que inclui a temperança ou domínio próprio. Assim, mais do que inteligência emocional, precisamos ter esse controle espiritual. O termo grego para temperança é enkratàa. Conforme Vine (p. 1012), refere-se à operação do Espírito de Deus controlando nossa vontade, para que não ocorra abuso, como é a tendência do homem. Conforme o dicionarista explica, Deus concede várias capacidades ao homem, as quais são passíveis de abuso. O uso correto delas só acontece mediante o controle divino. Agindo em nós, o Espírito de Deus faz com que nossas emoções não tenham mal uso. Sem a ação divina controladora, o homem jamais consegue conter as suas emoções satisfatoriamente.

  2. Obediência, humildade e oração

   Um aspecto fundamental na vitória sobre nossas emoções é trilhar o caminho da obediência e da humildade. Não podemos esperar que nossas emoções sejam apenas positivas ou que estejam sempre alinhadas com a vontade de Deus. Todos estamos sujeitos a emoções negativas, inclusive com potencial de causar-nos grandes prejuízos. Por isso, jamais podemos ser guiados por nossas emoções ou sentimentos. Precisamos conhecer, acima de tudo, qual é a vontade de Deus e segui-la integralmente. O maior de todos os exemplos é o de Cristo, citado por Paulo em Filipenses, a mesma carta em que enuncia que o Deus de paz guarda nosso coração. O apóstolo exorta-nos a ter o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus, cuja vida foi marcada pela disposição de completa obediência ao Pai (Fp 2.5-8).

  Jesus experimentou profundas emoções negativas no Getsêmani. Os evangelistas Mateus, Marcos e Lucas retratam a cena mencionando tristeza, angústia, pavor e agonia; todas em grau intenso, ao ponto de o seu suor transformar-se em grandes gotas de sangue (Mt 26.37; Mc 14.33; Lc 22.44). Apesar de todo esse sofrimento, Jesus tomou a decisão correta: entregou-se para cumprir a vontade do Pai (ver Lc 22.42). Jesus não negou seus senti mentos. Expressou-os. Mas não escolheu segui-los. Decidiu obedecer. E foi obediente até a morte de cruz. Esta deve ser a nossa firme disposição: não viver de acordo com nossas emoções ou sentimentos, mas segundo a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.   

  CONCLUSÃO

  Não devemos confiar em nós mesmos, mas depender da graça divina, para que possamos vencer todas as batalhas, alcançar equilíbrio interior e não viver segundo nossas paixões. Se estivermos realmente dispostos a cumprir a vontade de Deus, Ele guardará nosso coração e também nos guiará para o seu eterno propósito.

Emoções e Sentimentos — A Batalha do Equilíbrio Interior | 97


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