INTRODUÇÃO
O
texto de Filipenses 4.7 traz, no original, os termos gregos rum (mente,
raciocínio), kardia (coração) e noema (um pensamento, aquilo que é pensado).
Nesse texto específico, o termo kardia tem um sentido amplo, mas com uma ênfase
maior em emoções e vontade, conforme assinalam Coenen e Brown citando Rudolf
Bultmann: “E, portanto, a pessoa, o ego do homem, que pensa, sente e deseja,
com especial atenção à responsabilidade diante de Deus, que o NT denota
mediante o emprego de kardia” (2000, p. 426).
0
ensino de Paulo nesse texto é de como Deus quer e pode guardar todas as nossas
fontes de vida interior para que tenhamos uma vida equilibrada, manifestada por
meio de uma nova natureza, gerada em Cristo Jesus. E a nova criatura mencionada
em 2 Coríntios 5.17. Nessas “coisas velhas”, estão incluídos pensamentos,
sentimentos e vontades, os quais agora devem ser novos em Cristo. Esse deve ser
o alvo de todo o cristão.
1 - O HOMEM, UM SER AFETIVO
1.
Propósitos do estudo
Como
já ressaltado, o propósito central do estudo da Antropologia Bíblica é uma
compreensão correta do homem como um ser integral para um viver equilibrado
(espírito, alma e corpo) à luz da Palavra de Deus. Isso inclui entender o que
são emoções e sentimentos e como podem e devem ser compatibilizados entre si. A
luta interna em torno dos pensamentos está relacionada à gestão das emoções e
sentimentos, pela profunda conexão que há entre o que pensamos e o que
sentimos, além da relação desses fenômenos com a vontade e as decisões humanas.
Pensar, sentir, desejar e agir. Nada em nós pode estar fora do propósito de
amar a Deus, servi-lo e adorá-lo (SI 103.1; Mc 12.30).
No
capítulo anterior, estudamos sobre os pensamentos e como eles podem influenciar
nossos sentimentos, nossa vontade e, consequentemente, nossas decisões.
Observamos que há, sim, uma forte correlação entre essas faculdades da alma em
processos complexos, nem sempre iguais. Neste capítulo, abordaremos a parte
afetiva do ser humano buscando definir e diferenciar emoções e sentimentos e
compreender a sua importância na experiência humano-espiritual. Apresentaremos
uma visão bíblica com aplicações práticas para um viver diário saudável e
equilibrado, guiado pelo Espírito Santo.
O ciclo entre pensar, sentir e agir
Da
mesma forma como pensamentos podem influenciar sentimentos, 0 que sentimos tem
ressonância no que pensamos e fazemos. Assim como há uma batalha na mente em
função dos pensamentos, há uma luta interior em torno do que sentimos.
Equilibrar razão e emoção não é uma tarefa fácil. Quanto mais compreendemos que
esses processos existem e são altamente influenciadores de nossas condutas,
mais devemos depender de Deus, acima de qualquer método ou técnica, pois
somente Ele é poderoso para guardar todas as faculdades de nosso interior.
A
falta de equilíbrio interior tem produzido um crescente processo de adoecimento
mental em todo o mundo, inclusive no Brasil. Como já mencionamos, esse fenômeno
é acompanhado do surgimento de diagnósticos excessivos, além de um consumo
desproporcional e preocupante de medicamentos para o tratamento de problemas
emocionais, principalmente ansiolíticos e antidepressivos. O psiquiatra
norte-americano Allen Francês, que liderou a equipe de profissionais
responsáveis pela elaboração do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos
Mentais DSM-IA) expõe a inflação diagnostica que viu retratada na versão
seguinte do manual (o DSM-V). Francês aponta numerosas causas para essa
distorção, algumas delas inerentes à própria psiquiatria, que, segundo ele,
apontam para a necessidade de uma cura que venha de dentro da profissão (ibid.,
p. 105).1
Isso
deve servir de alerta para todas as pessoas e, principalmente, para os
cristãos. Nosso propósito aqui é apresentar uma análise equilibrada do
problema, recomendando cuidados pessoais necessários, principalmente
espirituais. Isso inclui um correto entendimento do que sejam as emoções e os
sentimentos, qual a conexão existente entre o que pensamos e o que sentimos e
qual a relação desses fenômenos com a vontade e as decisões humanas. Não nos
esqueçamos de que a vontade de Deus é que tenhamos essas faculdades em pleno
funcionamento para que possamos amá-lo com o emprego de todas elas (ver Mc
12.30).
2.
Afetividade: emoções e sentimentos
O
termo “afetividade” não tem um conceito único ou fechado. Não aparece muito em
uso atualmente com o sentido geral que aqui será invocado, que é expressar o
conjunto de sentimentos humanos. Heidbreder (1981, p. 123) entende os afetos
(que chama de afecções) como elementos característicos da emoção, manifestados
em experiências como o amor e o ódio, a alegria e a tristeza, o que outros
autores conceituam incluindo expressamente os sentimentos. Ele ainda diz que as
afeições possuem três atributos: qualidade, intensidade e duração (ibid. p.
124), o que é bastante relevante especialmente quando tratarmos da diferença
entre emoção e sentimento.
Em um
conceito simplificado, afetividade é a capacidade humana de expressar emoções e
sentimentos. São processos psicológicos e fisiológicos e envolvem alma e corpo,
além do próprio espírito, como se observa na expressão de Salomão em Provérbios
15.13, na qual o termo “coração” refere-se à totalidade do intelecto, da emoção
e da vontade de uma pessoa (STAMPS, 2022, p. 1048): “O coração alegre aformoseia
o rosto, mas, pela dor do coração, o espírito se abate” (Pv 15.13).
Diferenciando emoção e sentimento
Tomando afetividade como um conjunto de
vivências ou aspectos afeti vos, podemos situar neles as emoções e os
sentimentos.3 Como diferenciação básica, pode-se afirmar que emoções são reações
instintivas, predominantemente inconscientes e passageiras, enquanto os
sentimentos são vivências afetivas mais duradouras. (É exatamente por isso que
é comum situar as paixões entre as emoções ou simplesmente tratar as paixões
como emoções, dado o caráter de instintividade e curta
durabilidade). Já os sentimentos só são formados e aferidos a partir do
critério temporal, da estabilidade da emoção. Como um prolongamento ou
repetição de emoções, o sentimento é uma percepção consciente de um determinado
estado emocional. A diferença principal, portanto, está na estabilidade do
afeto. Enquanto a emoção é rápida e fugaz — geralmente não evitável —, o
sentimento permanece por algum tempo, alguns por longo tempo ou até pela vida
toda!4
3. Principais afetos
Alegria, medo, raiva, surpresa, nojo e
tristeza são as seis emoções básicas universais, comumente citadas por autores
conhecidos, como Paul Ekman no seu livro Linguagem das Emoções (2011).
Admitindo que tanto cientistas quanto leigos ainda saibam muito pouco a
respeito das emoções, Ekman analisa que “está na natureza das próprias emoções
sobre como elas nos influenciam e como é possível reconhecer seus sinais, em
nós mesmos e nos outros” (p. 14). Ekman também trata do aspecto passageiro das
emoções:
As emoções podem começar rapidamente, e isso
ocorre muitas vezes; tão rápido que nossa consciência não participa ou
testemunha o que ativa uma emoção em nossa mente em determinado momento. Essa
velocidade pode salvar nossas vidas em uma emergência, mas também pode
arminá-las quando reagimos de forma exagerada. Não temos muito controle a
respeito do que nos deixa emocionados, mas é possí vel, embora não seja fácil,
fazer algumas mudanças naquilo que ativa nossas emoções e em nosso
comportamento quando nos emocionamos.
Isso
demonstra, desde logo, o quanto devemos estar dedicados não tanto a tentar
explicar nossas emoções, mas buscar em Deus força espiritual para não sermos
vítimas delas. Mesmo não sendo bem compreendidas, as emoções fazem parte de
nossa vida diária. Certamente as sentimos nas mais distintas experiências
cotidianas. E necessário, portanto, que pres temos mais atenção às emoções pelo
tanto que somos influenciados por elas, inclusive em nossas condutas.
Exemplos bíblicos
A
primeira emoção expressamente retratada na Bíblia foi a reação de Adão ao
acordar e contemplar Eva. Foi uma expressão de alegria (ver Gn2.23). Não
sabemos por quanto tempo, mas essa emoção sobreviveu como um sentimento
igualmente prazeroso pela feliz convivência cheia de cum plicidade que Adão e
Eva tiveram. O texto de Gênesis 2.25 diz que “ambos estavam nus, o homem e a
mulher; e não se envergonhavam”, o que significa que não havia emoção negativa
alguma entre Adão e Eva. Pode-se imaginar a alegria que o casal tinha na santa
contemplação mútua que faziam!
Esse
ambiente de emoções e sentimentos, todos positivos, durou até o pecado entrar
na história. Depois do pecado, o casal passou a viver emoções e sentimentos
negativos, como vergonha e medo. Dentre as reações externas imediatas, estão a
percepção da nudez, o cobrir o corpo e o esconder de Deus (Gn 3.7-10). Tristeza
e dor passaram a ser sentimentos constantes na vida do primeiro casal, a
começar pelas sentenças resultantes da rebeldia praticada (Gn 3.16-18). A
trágica cena descrita em Gênesis 3.23,24 — Deus lançando Adão e Eva para fora
do jardim — certamente foi carregada de profunda frustração e angústia. O termo
hebraico garash tem o sentido de expelir, expulsar, como visto na NVT e na NVT.
4.
Inveja, ira e ódio
O rol
de emoções negativas cresceu com a tragédia envolvendo Caim e o seu irmão Abel.
Em Caim, é vista a emoção da ira, transformada em ódio ao irmão, que ficou
estampado no seu rosto (Gn 4.5). Pelo texto, fica claro que houve na emoção as
características de intensidade e duração, dois dos atributos mencionados por
Heidbreder como próprios das emoções .
As reações fisiológicas produzidas pelas
emoções podem ser as mais diversas, dentre as quais o aumento da frequência
cardíaca, respiração acelerada, transpiração, boca seca, pupilas dilatadas,
mãos e pés frios, náuseas, diarréia e tensão muscular. Ekman (ibid., p. 36,37)
analisa esse momento de manifestação da emoção no corpo tendo como exemplo a
iminência de um acidente de trânsito:
No momento em que uma emoção começa, ela se
apodera de você nos primeiros milésimos de segundo, comandando o que você faz,
diz e pensa. Sem escolher fazer isso, você vira o volante automaticamente para
evitar a colisão, pressionando o pedal do freio com o pé. Ao mesmo tempo, uma
expressão de medo atravessa seu rosto: sobrancelhas levantadas e unidas, olhos
arregalados e boca esti cada para trás, na direção das orelhas. O coração
começa a bater aceleradamente, você começa a transpirar e o sangue corre para
os grandes músculos das pernas. Observe que você teria feito aquela expressão
facial mesmo se não houvesse ninguém sentado no carro, da mesma forma que seu
coração bateria mais rápido se você não se envolvesse em algum esforço físico
repentino, exigindo maior circulação sangüínea. Essas respostas acontecem
porque, ao longo de nossa evolução, se tornou útil para os outros saber quando
sentimos perigo e, também, estar preparado para fugir em ocasiões assim.
No
caso de Caim, a origem das suas emoções negativas era a sua própria conduta. O
apóstolo João afirma que as obras de Caim “eram más, e as de seu irmão, justas”
(1 Jo 3.12). Com isso, houve aceitação da oferta de Abel, e não da dele, Caim,
o que o fez ficar irado. A ira de Caim, portanto, era decorrente do seu próprio
estado pecaminoso, o que é bem relevante considerar. Não poucas hipóteses de
emoções negativas são fruto de pecados praticados ou enraizados no coração. De
qualquer sorte, toda a origem do mal manifesto na vida humana vem do pecado, a
Queda ocorrida no Éden, além do agravamento em função de nossas próprias
condutas más.
Ainda
sobre o exemplo de Caim, é importante observar que, mesmo com o sentimento ruim
instalado e agravado na sua alma, ele tinha a possibilidade de desviar-se do
curso para o qual o seu perverso intento apontava. Mesmo advertido por Deus (Gn
4.7), Caim permitiu que a emoção fosse transformada num sentimento de ódio e
matou o próprio irmão (4.8). Ele passou a viver outros sentimentos negativos,
como culpa e medo, que o acompanhariam por toda a vida (4.10-14).
II -
EMOÇÕES: EXPERIÊNCIA E CONTROLE
1. Reação e decisão
É
correto afirmar que, como reações instintivas, muitas emoções acontecem fora do
controle humano. Em casos assim, não constituem um pecado em si mesmas. Mas
cabe-nos decidir como agir diante de uma reação emocional. Uma coisa é a
emoção, e outra coisa é a decisão. A frase paulina “Irai-vos e não pequeis” (Ef
4.26) demonstra essa verdade, separando bem emoção (“irai-vos”) e decisão (“não
pequeis”). Paulo aconselha os efésios a que controlem a ira e não deixem ser
dominados por ela. Permanecer irado é dar lugar ao Diabo e abrir caminho para
terríveis pecados (4.27). A ira, portanto, é uma experiência emocional que deve
ser repelida e jamais cultivada. Aliás, o versículo termina com a expressão
“não se ponha o sol sobre a vossa ira”, que trata do fator cronológico ou
temporal: a ira não deve durar muito tempo; nem até o fim do dia. Na NVT, o
texto é: ‘Acalmem a ira antes que sol se ponha”.
Esse fator está ligado ao que vimos tratando
acerca da transformação da emoção em sentimento. A medida que a ira é
alimentada, deixa de ser uma emoção e vira um sentimento, que, quanto mais
dura, mais pensamentos e desejos ruins produz, servindo de ocasião para o
Diabo, como adverte Paulo no versículo 27: “Não deis lugar ao diabo”.
A
mortificação da carne
No versículo 31 do mesmo capítulo de Efésios,
Paulo diz para livrarmo- -nos de toda amargura, ira e cólera. Assim, admite-se
a ira como emoção, mas não como sentimento. O verdadeiro cristão não pode viver
irado, e só é possível alcançar isso pelo processo de mortificação da natureza
carnal. Em Colossenses 3.5, Paulo diz: “Mortificai, pois, os vossos membros que
estão sobre a terra” e, no versículo 8 do mesmo capítulo, cita, dentre outras
obras da carne, as emoções da ira e da cólera, que são indignação e raiva. A
NTLH traduz como raiva, paixão e sentimentos de ódio. Thumos, no grego, é uma
“raiva ardente”. Indignar-se é “estar muito bravo” (VINE, p. 709). Nota-se,
portanto, que já não se trata apenas de uma emoção, mas um sentimento, e num
estado emocional bem prolongado: estar muito bravo.
Em
Romanos, Paulo também trata desse processo de mortificação da natureza carnal
(ver Rm 8.13). Essa “mortificação” é um processo contínuo, em que o cristão
deve avançar a cada dia. Justificar os próprios arroubos emocionais e
permanecer neles é negar a eficácia da obra de Cristo (2 Co 5.17). Há os que
colocam a culpa na natureza dos pais ou dos avós — “eles eram assim, e eu sou
assim” — como se comportamentos pecaminosos fossem determinados por fatores
genéticos. Se houve regeneração, houve um novo nascimento, que é o recebimento
de uma nova natureza, uma natureza espiritual, gerada em Cristo em nós pelo
Espírito Santo, mediante a Palavra recebida (1 Pe 1.23).
Não
nos conformemos, portanto, com emoções e sentimentos ruins. Devemos crucificar
nossa velha natureza com as suas tendências pecaminosas, inclusive as ligadas
ao temperamento: “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas
paixões e concupiscências” (G1 5.24). Assim fazendo, o Espírito produz em nós o
seu glorioso fruto: amor, alegria, paz, longanimida- de, benignidade, bondade,
fidelidade, mansidão, domínio próprio (G1 5.22).
2. Emoção e pecado
No
tópico anterior, já observamos que as emoções não podem ser tidas simplesmente
como reações instintivas. Se é fato que existem reações que não constituem
pecado — como o medo diante de uma fera, por exemplo —, existem outras que,
mesmo que instintivas, decorrem de nossa nature za pecaminosa ainda não
subjugada. Medo, raiva, inveja, tristeza e outras emoções reiteradas podem ser
expressões de pecados enraizados no coração. Uma pessoa orgulhosa, por exemplo,
é muito suscetível a reações emocionais negativas como irritação, raiva,
inveja, rejeição e outros comportamentos hostis às pessoas com as quais
convive. Não é apenas uma emoção, mas uma manifestação de pecados do coração.
Alguém
que não consegue conter-se no trânsito, por exemplo, precisa buscar em Deus um
espírito de mansidão. Um personagem bíblico que tem muitas lições para
ensinar-nos nesse campo é Moisés. Aos quarenta anos, ele feriu um egípcio e
matou-o (Ex 2.12). Quarenta anos depois, era outro Moisés, chegando ao ponto de
ser chamado de o homem mais manso da terra (Nm 12.3), pois não reagia mesmo
afrontado muitas vezes. Moisés foi tratado por Deus durante quarenta anos.
Aos
colossenses, Paulo trata de um processo semelhante. Depois de listar emoções negativas
como a ira e a cólera e apontar o caminho da mortificação da carne (o velho
homem), o apóstolo incentiva os crentes a progredirem e trocarem emoções
negativas por emoções e sentimentos positivos (ver Cl 3.12,13). Não há lugar,
portanto, para a permanência de qualquer emoção ou sentimento que seja
expressão de pecado.
No dia
em que Moisés descuidou-se e agiu segundo o seu velho tem peramento,
experimentou um incalculável prejuízo. Deus havia ordenado que ele falasse à
rocha para que dela jorrasse água para o povo. Indignado, Moisés chamou o povo
de rebelde e feriu a rocha. Moisés não se conteve e desobedeceu a ordem de Deus
(Nm 20.10,11), e o anúncio da consequência foi imediato (20.12).
O
Antigo Testamento também menciona o exemplo de Nabal, um homem soberbo,
mal-humorado e ingrato (1 Sm 25.10,11). A sua insensatez custou-lhe a vida
(25.36-38). Um coração altivo é muito propenso a emoções negativas e
sentimentos facciosos (Pv 13.10; 21.24). Como Davi, devemos rogar a Deus que
nos livre da soberba para que ela não nos domine e leve-nos a transgressões (SI
19.13).
3. O
aspecto positivo das emoções
Apesar
de experiências negativas que temos com algumas de nossas emoções, precisamos
considerá-las também em aspectos e aplicações posi tivos. Como enfatiza Elaine
Cruz (2024, p. 34), “As emoções nos motivam a agir. Só estudamos para um
concurso se formos capazes de sentir orgulho por nossas conquistas. Reclamamos
de um produto entregue com defeito se sentirmos um mínimo de indignação por
isso”. A autora cita o exemplo de Davi, que se emocionou (sentiu indignação) ao
ouvir Golias afrontar o povo de Israel, reação que foi importante para a sua
prontidão de enfrentar o gi gante. Menciona também a disposição de Davi à
adoração: “Davi, o homem segundo o coração de Deus, não tinha vergonha ou medo
de expressar suas emoções; ele as vivenciava com intensidade, dançando,
lutando, cantando, compondo poemas e adorando a Deus!”.
Uma
emoção que geralmente é vista como negativa, mas que também pode ser positiva,
é o medo. Quando sentimos medo, nosso cérebro inicia um processo instantâneo de
descarga de adrenalina, hormônio que põe o corpo em imediato movimento, para
luta ou fuga. Em casos assim, o medo funciona como um ativador de nosso
mecanismo de defesa. O corpo ficaria inerte, sem ação e totalmente vulnerável
sem essa emoção. Conforme afirma Paul Ekman (ibid., p. 66), o medo é algo que
nos protege porque nos faz reagir às ameaças de modo protetor e instantâneo,
sem o pensamento. Ele cita como exemplo o pisar instintivo no freio como uma
resposta ao medo de ser atingido por outro carro (p. 74). Foi tomado de uma
justa indignação que Jesus expulsou os vendilhões do Templo (Mt 21.12).
5 Memórias afetivas
Alegria, felicidade e amor são emoções
agradáveis, também fundamentais para a vida, principalmente em função de nossos
relacionamentos. Dentre tantos outros benefícios que as emoções positivas
trazem a nós, Elaine Cruz (p. 35) menciona o efeito que produzem relação ao
processo de memorização dos fatos: “Emoções fazem bem para a memória, e sempre
nos lembraremos com mais detalhes das situações que foram envolvidas com maior
carga emocional”. São as chamadas memórias afetivas, que podem ser despertadas
e remeter-nos a experiências emocionais vividas. Cruz refere-se às memórias
associativas, conceito que inclui as memórias afetivas:
Cada
vez que você vivência uma emoção forte, as células do seu cérebro desenvolvem
uma conexão. Essa conexão vai ficando cada vez mais forte conforme você repete
aquela emoção e vai ficando cada vez mais provável repetir aquela emoção porque
você construiu uma conexão em seu cérebro. Isso é o resultado da aprendizagem,
que garante que quanto mais potente for a emoção, maior seja a conexão. Quantas
músicas e louvores, que ouvíamos com frequência em uma época da vida, nos fazem
voltar no tempo, para quando estávamos muito felizes ou amargurados.6
Isso
nos ensina o quanto é importante promover boas emoções nas pessoas com as quais
convivemos. Isso fará bem a elas e a nós.7 (Há uma passagem bíblica que
geralmente cito, que é Gênesis 27.4. Isaque pediu a Esaú que lhe preparasse um
guisado saboroso, como ele gostava, para que a sua alma fosse abençoada. A
emoção positiva que seria sentida por Isaque teria uma conexão direta com a sua
disposição de alma para abençoar o filho). Jacó, na sua velhice, recorda-se das
tristezas que viveu por tenebrosas condutas dos seus filhos, como o caso de
Rúben, memória que lhe custou a perda das prerrogativas de primogênito (ver Gn
49.4). Que Deus nos guarde de produzir emoções e sentimentos negativos nas
pessoas com as quais nos relacionamos.
III - SENTIMENTOS GUARDADOS POR DEUS
1. A
falsa autonomia humana
A Bíblia apresenta várias passagens sobre a
necessidade que temos de que Deus guarde nosso coração, o que inclui nossos
sentimentos. No Salmo 121.7, o salmista roga que o Senhor guarde a sua alma. No
Salmo 62.5, Davi expressa: “O minha alma, espera somente em Deus, porque dele
vem a minha esperança”. No texto bíblico introdutório deste capítulo (Fp 4.7),
Paulo menciona que o Deus de paz guarda nossos corações. Essa dependência,
contudo, não é vista na maioria dos seres humanos. Como em tantas outras áreas
da vida, no aspecto das emoções e dos sentimentos, o homem prefere acreditar na
sua própria capacidade. O mercado está cheio de conteúdo sobre inteligência e
gestão emocional. São diversas as técnicas com as quais se promete o
reconhecimento, a compreensão e o controle não só das próprias emoções, mas
também das dos outros. E uma espécie de novo racionalismo: a crença no poder da
razão em relação aos sentimentos.
Um dos
autores mais citados nessa área é Daniel Goleman, que, no seu mais conhecido
livro, Inteligência Emocional (2012), fala sobre a importância de conhecermos
as próprias emoções e as de terceiros e aprendermos a lidar com elas. O autor
defende a ideia de que é possível gerenciar as próprias emoções, assim como é
possível reconhecer e influenciar as emoções dos outros. Ele menciona, por
exemplo, que é necessário conhecer o que está por trás de um sentimento, como a
mágoa que dispara a raiva, e aprender a lidar com ansiedades, ira e tristeza
(p. 284). Não podemos negar o valor de uma reflexão cuidadosa sobre as emoções.
O equilíbrio não nos admite desprezar métodos inteligentes de ajuda ao ser
humano nesse tão complexo processo. Todavia, é falso e enganoso acreditar num
fantástico controle abso luto que os “mestres” das emoções parecem prometer.
Não raro eles mesmos se surpreendem com os seus próprios fracassos, na inglória
empreitada de serem emocionalmente invencíveis (Jr 17.5,9).
O
cristão tem como auxílio a presença do Espírito Santo, que, operando muito além
da inteligência humana, age em nosso espírito e inunda nossa alma, produzindo o
seu fruto, que inclui a temperança ou domínio próprio. Assim, mais do que
inteligência emocional, precisamos ter esse controle espiritual. O termo grego
para temperança é enkratàa. Conforme Vine (p. 1012), refere-se à operação do
Espírito de Deus controlando nossa vontade, para que não ocorra abuso, como é a
tendência do homem. Conforme o dicionarista explica, Deus concede várias
capacidades ao homem, as quais são passíveis de abuso. O uso correto delas só
acontece mediante o controle divino. Agindo em nós, o Espírito de Deus faz com
que nossas emoções não tenham mal uso. Sem a ação divina controladora, o homem
jamais consegue conter as suas emoções satisfatoriamente.
2.
Obediência, humildade e oração
Um
aspecto fundamental na vitória sobre nossas emoções é trilhar o caminho da
obediência e da humildade. Não podemos esperar que nossas emoções sejam apenas
positivas ou que estejam sempre alinhadas com a vontade de Deus. Todos estamos
sujeitos a emoções negativas, inclusive com potencial de causar-nos grandes
prejuízos. Por isso, jamais podemos ser guiados por nossas emoções ou
sentimentos. Precisamos conhecer, acima de tudo, qual é a vontade de Deus e
segui-la integralmente. O maior de todos os exemplos é o de Cristo, citado por
Paulo em Filipenses, a mesma carta em que enuncia que o Deus de paz guarda
nosso coração. O apóstolo exorta-nos a ter o mesmo sentimento que houve em
Cristo Jesus, cuja vida foi marcada pela disposição de completa obediência ao
Pai (Fp 2.5-8).
Jesus experimentou profundas emoções
negativas no Getsêmani. Os evangelistas Mateus, Marcos e Lucas retratam a cena
mencionando tristeza, angústia, pavor e agonia; todas em grau intenso, ao ponto
de o seu suor transformar-se em grandes gotas de sangue (Mt 26.37; Mc 14.33; Lc
22.44). Apesar de todo esse sofrimento, Jesus tomou a decisão correta:
entregou-se para cumprir a vontade do Pai (ver Lc 22.42). Jesus não negou seus
senti mentos. Expressou-os. Mas não escolheu segui-los. Decidiu obedecer. E foi
obediente até a morte de cruz. Esta deve ser a nossa firme disposição: não
viver de acordo com nossas emoções ou sentimentos, mas segundo a boa, agradável
e perfeita vontade de Deus.
CONCLUSÃO
Não devemos confiar em nós mesmos, mas
depender da graça divina, para que possamos vencer todas as batalhas, alcançar
equilíbrio interior e não viver segundo nossas paixões. Se estivermos realmente
dispostos a cumprir a vontade de Deus, Ele guardará nosso coração e também nos
guiará para o seu eterno propósito.
Emoções e Sentimentos — A Batalha
do Equilíbrio Interior | 97
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