domingo, 30 de novembro de 2025

CPAD - LIÇÃO 7: OS PENSAMENTOS - A ARENA DE BATALHA NA VIDA CRISTÃ



INTRODUÇÃO

   Neste capítulo e nos dois seguintes, nosso foco de estudo serão as faculdades da alma: razão ou intelecto, sensibilidade ou sentimentos e volição ou vontade. A razão diz respeito à capacidade de pensar. E é sobre o pensamento que estudaremos neste capítulo.

   No campo da psicologia, talvez em nenhuma outra época tenha sido dado tanto valor ao pensamento como atualmente, quando está muito em voga a abordagem da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), que destaca como os pensamentos estão diretamente relacionados às emoções e comportamentos do indivíduo. Como afirma Judith Bèck (2022, p. 4), “o modelo cognitivo propõe que o pensamento disfuncional (que influencia o humor e o comportamento do cliente) é comum a todos os transtornos psicológicos. Quando as pessoas aprendem a avaliar o seu pensamento de forma mais realista e adaptativa, elas experimentam um decréscimo na emoção negativa e no comportamento mal- adaptatívo”. Embora a vida e os seus1 problemas não se resumam a isso, a TCC dá a sua contribuição com estudos que ajudam a compreender um pouco sobre a influência dos pensamentos nas emoções e no comportamento humano, embora não tenha suficiente explicação para essas realidades humanas, no que não difere de outras correntes e abordagens. Muito antes da psicologia, a Bíblia expõe a relação que os pensamentos têm com outros fenômenos da vida hu mana, estimulando reflexões corretas, verdadeiras, puras, sensatas e edificantes.

  I - UMA VISÃO INTRODUTÓRIA

   1. A experiência de Adão e Eva Gênesis registra não apenas a criação do homem, mas também as suas primeiras experiências, que são exemplares do complexo funcionamento do ser humano. Por isso, é sempre fundamental recorrer a esses registros quando se estuda Antropologia Bíblica. São deles que podemos extrair uma compreensão teológica mais abalizada do homem e os seus caracteres pes soais. No relato hebraico, os traços da personalidade humana manifestam-se originalmente na vida do primeiro casal. O aspecto cognitivo é visto na capacidade de comunicação, compreensão e governo do homem sobre a criação e no seu relacionamento interpessoal com o Criador (Gn 1.26-28; 2.18-23; 3.8). Para todos esses processos, Adão e Eva usavam o intelecto raciocinando, elaborando pensamentos e tomando decisões. Exemplo disso é o comportamento que tiveram quanto ao pecado original.

   Apesar de sucinto, o relato de Gênesis 3.1-6 demonstra que houve um tempo de comunicação entre Eva e a serpente, durante o qual a mulher elaborou alguns pensamentos acerca da árvore da ciência do bem e do mal. Foi o seu imprudente diálogo com a serpente que a levou a pensar o que não devia. O apóstolo Paulo explica que a mulher foi enganada (1 Tm 2.14), ou seja, ela iniciou a conversa com um entendimento e passou a ter outro. Experimentou a alteração do seu sentimento (desejou o fruto) e da sua vontade e conduta (tomou do fruto e comeu) (Gn 3.6).

   Eva abstinha-se antes do fruto da árvore da ciência do bem e do mal. Depois o desejou, tomou e comeu. Destacam-se no texto os adjetivos “boa”, “agradável” e “desejável”, todos ligados a sentimentos. Também se observa a expressão “vendo a mulher que”, que traduz a conclusão cognitiva, a manifes tação de um novo entendimento. Houve, portanto, um ciclo de pensamentos do início do diálogo à decisão e ato. A mudança de pensamento alterou o sentimento e, via de consequência, o comportamento. Eva, portanto, pensou o que não devia e foi enganada. Quanto a Adão, que não foi enganado, agiu de forma negligente, deixando de pensar o que devia. Adão simplesmente cedeu a sua vontade à oferta da mulher e pecou (Gn 3.6; 1 Tm 2.14).

  2. Conceito e origens

  Não há um conceito fechado a respeito do pensamento, até pelo caráter amplo e abstrato da possibilidade de pensar. Beck (ibid., p. 231) conceitua-o como idéias que se processam em palavras, quadros ou imagens; ou seja, quando pensamos, passa pela nossa mente a formulação de palavras, formas, cores etc. Podemos afirmar que pensamentos são processos mentais constituídos de informações, reflexões, lembranças, emoções, sons, imagens. Cruz (ibid., p. 284) entende que “Todos os nossos pensamentos, sem exceção, são construídos a partir do que vemos, ouvimos, imaginamos e vivenciamos”.

   A despeito dos mistérios da mente humana, sabe-se que os pensamentos originam-se de fatores internos (biológicos, psicológicos e espirituais) e externos ou ambientais (experiências do cotidiano). Podem também ser uma combinação desses fatores. Sobre o dinamismo dos pensamentos e da possibilidade que temos de educá-los, Cruz escreve:

   A interação com o meio físico e social, num primeiro momento, se lecionado e direcionado pelas escolhas familiares, nos direciona a pensar as coisas, os objetos, as possibilidades, os afetos e as pessoas. E essas relações nos levam a elaborar e formular conceitos e valores particulares, inclusive nossa autoimagem e autoestima. Com o passar dos anos, entretanto, vamos percebendo que não precisamos mais sim plesmente refletir o que experienciamos.   Aprendemos também com os erros e acertos dos outros, e percebemos que podemos pensar melhor, mais positivamente, escolhendo pensar de preferência no que edifica e santifica. Nossas vivências, percepções e racionalizações podem nos fazer pensar o pior. Muitas vezes as lembranças e sentimentos ruins insistem em dominar nossos pensamentos, tornando nossos dias mais tristes e sombrios. Mas lembre-se sempre de que eu e você podemos escolher onde colocar nossos pensamentos e nossas esperanças.

   As Escrituras ensinam que, qualquer que seja a origem dos pensamentos, cabe ao ser humano aceitá-los ou rejeitá-los, reprovando-os (Js 1.8; Pv 3.1-7; 15.28; Jr 17.9,10; Fp 4.8).

  3.   Características dos pensamentos

  A capacidade imaginativa do ser humano é muito ampla. Não podemos afirmar que seja infinita, pois a infinitude não é dada ao homem em aspecto algum. Ainda assim, a possibilidade de pensamento é amplíssima. O homem pode construir os mais diversos cenários na mente: silenciosos ou barulhentos; simples ou complexos; neutros ou coloridos. Quantas imaginações já tivemos desde os tempos de criança! Na fase dos porquês — geralmente dos 2 aos 4 anos —, a mente infantil chega a ficar absorta em tantos pensamentos, geradores de curiosidades, além de muitos questionamentos. A literatura, o cinema, a TV e tantos outros meios modernos de criação de conteúdo são uma prova inconteste da capacidade imaginativa do ser humano. Em tempos tão remotos, Salomão já escreveu: “[...] não há limite para fazer livros” (Ec 12.12).

  Os pensamentos não são apenas múltiplos e neutros. Eles guardam em si características de índole ético-moral. Podem ser bons ou ruins, puros ou impuros, verdadeiros ou falsos. Os que são originados de fatores externos são fruto de experiências sensoriais. Como já destacado, a mente faz criações a partir de conteúdos que obtém por meio dos órgãos dos sentidos, como os olhos, o ouvido, a boca, as mãos, o nariz etc. Nesse sentido, abster-se de toda aparência do mal é essencial (1 Ts 5.22). Não podemos alimentar nossa mente com conteúdos enganosos ou impuros (SI 101.3-5). Deles podem surgir gravíssimos pecados, como violências, imoralidades sexuais, mentiras, calúnias e maledicências. Os fariseus foram chamados de “raça de víboras” porque as suas palavras más eram a reprodução do coração perverso que tinham com pensamentos e sentimentos ruins (ver Mt 12.34; cf. 15.19).

  H - A GESTÃO DOS PENSAMENTOS

  1. Imperativo ético e espiritual

   A Bíblia não nos recomenda nada que nos seja impossível fazer mediante a graça de Deus. Um desses deveres que nos atribuem as Escrituras é a gestão de nossos pensamentos, como Paulo trata na Epístola aos Filipenses. Aliás, essa carta é rica em relação ao registro de bons sentimentos ou emoções — não sem razão tem, entre os seus epítetos, o de “Epístola da Alegria” (cf Fp 1.7,8; 2.1,2,20,26; 3.15; 4.1,2,7), mas também é nela que está uma das mais contun dentes afirmações paulinas acerca da boa gestão dos pensamentos: “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai” (Fp 4.8). Como podemos fazer isso? Em primeiro lugar, é preciso observar que o imperativo bíblico não diz respeito a um processo mecânico, automático, formal ou meramente humano. O cristão não pode, por si só, simplesmente decidir gerir a mente e passar a fazê-lo, como se tivesse, com as suas próprias forças, pleno controle sobre os seus pensamentos. Antes de tratar do aspecto positivo da atividade intelectiva (o que pensar), Paulo apresenta-nos a necessidade de uma atitude espiritual indispensável, que é a oração (Fp 4.6). Se deixarmos nossa mente envolta nas inquietudes dessa vida, não teremos como ordenar nossos pensamentos.

   O cristão precisa lutar espiritualmente para vencer a ansiedade. E como fazemos isso? Não há outro meio senão uma consagração pessoal a Deus, diariamente, em oração. A mente não se aquieta com técnica de meditação. Devemos orar e fazer “conhecidas diante de Deus” todas as nossas petições. Tudo de que precisamos, tudo o que nos aflige e tudo o que nos inquieta: nada deve ficar fora de nossa oração. E não se trata de uma oração curta, uma repetição, como uma mera formalidade. Paulo refere-se a “oração e súplicas, com ação de graças”. Deve haver intensidade na oração até ao ponto de nosso coração ser realmente aberto (se possível, derramado) e nosso espírito e alma irromperem em gratidão a Deus, louvando-o pelos seus feitos e maravilhas.

  Tudo isso faz parte do processo de gestão do pensamento, como condição prévia indispensável. Parece-nos que isso combina com o conselho de Davi no Salmo 37.4: “Deleita-te também no Senhor, e ele te concederá o que deseja o teu coração”. Observe que é preciso, a princípio, estabelecer um relacionamento íntimo, vencendo a ansiedade e todas as inquietações. Enquanto estivermos ansiosos, tentando estabelecer o alvo de nossas preocupações, não encontraremos paz e estabilidade espiritual e mental que nos permita gerir bem nossos pensamentos. Um turbilhão de idéias agitadas estará em nossa mente, longe do alvo divino estabelecido em Filipenses 4.8.

   O passo seguinte na conquista espiritual, vencida a ansiedade em oração, é receber a paz de Deus, que excede todo entendimento e que é poderosa para guardar corações e mentes em Cristo (Fp 4.7, NVI). E somente nessa condição — com a mente guardada por Deus — que alcançaremos a graça de fazer uma gestão consagrada de nossos pensamentos, focando no alvo descrito por Paulo em Filipenses 4.8. Ao usar o pronome indefinido “tudo”, o apóstolo abre uma ampla possibilidade para os pensamentos, desde que qualificados com os adjetivos “verdadeiro”, “honesto”, “justo”, “puro”, “amável”, “de boa fama”, virtuoso e digno de louvor. O emprego do verbo pensar no imperativo afirmativo (“pensai”) indica que é nosso dever pensar em coisas boas, rejeitando as más. Uma conduta ativa e não passiva. Precisamos refletir, portanto, a respeito de como estamos gerindo nossos pensamentos. Embora saibamos que não é simples ou fácil cogitar o controle do que pensamos —-e não se espera que isso ocorra de forma absolutamente rígida —, se estivermos munidos de armas espirituais, pode remos levar cativo todo entendimento à obediência de Cristo.

   Elaine Cruz (ibid., p. 284—285) afirma que, se podemos levar cativo todo pensamento à obediência de Cristo, como Paulo afirma em 2 Coríntios 10.4,5 (“levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo”), po demos controlar o que pensamos, a despeito de muitos dizerem o contrário:

   Quanto mais conhecemos a Bíblia, mais facilmente reconhecemos os pensamentos pecaminosos: difamatórios, egoístas, arrogantes, enganosos, autodestrutivos, afrontosos quanto ao nosso caráter, e mentirosos quanto a Deus. Esses pensamentos errôneos não podem ser aceitos como nossos, e nem podemos nos demorar ponderando seus desdobramentos. Afinal, sabemos que podem ser resultado de nossa humanidade ou da ação sugestiva de Satanás. Portanto, assumir o domínio dos pensamentos é mais do que apenas recusar maus pensamentos — até devemos fazer isso, mas é eliminar rapidamente os que são errôneos ou maléficos, ao mesmo tempo em que incluímos nossa mente pensamentos que venham agradar a Deus.

  2. Acima da técnica

   Há uma profusão de técnicas de gerenciamento do pensamento, como a ênfase na importância de pensar positivo, como afirma Beck no seu livro (p. 18). São estratégias de valor relativo, que se limitam ao plano da realidade humana; ao nível terreno. A Palavra de Deus vai muito além disso e ensina mos que devemos pensar “nas coisas que são de cima e não nas que são da terra” (Cl 3.2). Isso nos liberta da atmosfera de conflitos mentais comuns a todas as pessoas, dando-nos percepção e discernimento espirituais, fazendo com que tenhamos a mente de Cristo (1 Co 2.15,16). Além de encher nosso coração da esperança que não traz confusão (Rm 5.5), a visão do celestial, que é infinitamente superior, é o mais elevado padrão para inspirar e guiar todos os sistemas da vida terrena, que é inferior, efêmera e passageira, somado ao fato de que é um preventivo eficaz contra a ansiedade (Mt 6.25-34; Fp 4.6).

   Outra questão fundamental a ser considerada é que as Escrituras apresentam-nos um cenário de luta espiritual, que exige o emprego de armas espirituais: “porque não temos que lutar contra carne e sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais” (Ef 6.12). A descrição paulina demonstra a possibilidade de uma série de combates que o cristão pode enfrentar, internos e externos, dentre os quais estão os ataques do Inimigo à nossa mente.

   São múltiplas e terríveis as possibilidades de o cristão ser atacado com pensamentos perturbadores,1 fazendo com que tenha que resistir firme para não ser vencido nesse “dia mal”, que pode ter duração de tempo indeter minado (6.13). Na verdade, eles também podem ser originados em nossa própria natureza carnal, caída e rebelde em relação a Deus. Em função disso, precisamos tomar toda a armadura de Deus, que inclui, sobretudo, o escudo da fé e o capacete da salvação, com o qual podemos apagar todos os dardos inflamados do maligno (6.14-17). Não resta dúvida, portanto, que pensar nas coisas que são de cima deve ser uma conduta constante do cristão, o que o previne de ataques rasteiros do maligno, os quais, quando ocorrerem, possam ser vencidos na força do poder de Deus, em quem o crente deve estar fortalecido (6.10).

  3. Recursos espirituais

   Jesus foi submetido a grandes tentações direta e pessoalmente pelo Diabo depois de quarenta dias jejuando e orando (Lc 4.1-13). O que se verifica em comum em todas as fases da tentação de Cristo foi o recurso que Ele usou para vencê-las: as Escrituras. A Palavra de Deus produz fé e profunda convicção em nosso espírito, trazendo esclarecimento e firmeza para a alma. Para que possamos ter nossa mente cheia da revelação divina, precisamos ler a Bíblia e ouvir a exposição do texto sagrado. Esse é um recurso extraordinário para a produção de bons pensamentos, inspirados em verdades eternas. É uma disciplina que traz profunda edificação e firmeza espiritual (SI 37.31; 119.33,93). Meditar é refletir, pensar de maneira detida, o que exige o emprego da vontade (a decisão, o querer) (SI 119.131). Produz sentimentos elevados (amor, alegria e paz pelas verdades apreendidas) (119.97), abundante sabedoria e correta direção (SI 119.98-102).

   4. Jerusalém e Betânia

  Além dos recursos espirituais, precisamos compreender que nossa mente também é influenciada por fatores orgânicos, físicos e ambientais. Por isso, os cuidados com a saúde mental incluem a observância de uma rotina saudável, mediante a exposição a experiências que não agridam a mente, mas sejam agradáveis. Acentua-se cada vez mais a incidência da chamada Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA) diante do estilo de vida moderno, principalmente depois da invasão das telas. Uma torrente de informações de todos os lados produz uma atividade cognitiva intensa — ainda que superficial e produtora de baixo nível de conhecimento. Não são mais apenas as fontes profissionais de informação (os meios de comunicação de massa). Bilhões de pessoas querem ser portadoras de notícias, sejam estas verdadeiras ou falsas, enchendo a mente coletiva global de conteúdo e mais conteúdo. As redes sociais estão entulhadas de textos, imagens, áudios e vídeos. Isso tem contribuído seguramente para promover mais agitação mental, ansiedade, irritabilidade, dificuldade de concentração, fadiga, insônia, dores de cabeça, dores musculares, problemas de memória e outras incômodas consequências A vida sempre teve os seus centros de agitação em todas as épocas. Seja qual for a circunstância, Jesus ensina-nos a importância de descansar o corpo e a mente. Ele mesmo tinha o costume recolher-se a lugares tranquilos, principalmente para dedicar-se à oração, mas também para buscar refrigério físico e mental (Mt 14.23; Mc 6.31,32). O Mestre tinha o cuidado de deixar Jerusalém em momentos estratégicos e caminhar até a pequena aldeia de Betânia para fugir da agitação. Com Ele aprendemos, portanto, que há o tempo de Jerusalém, mas há também o tempo de Betânia (Mt 21.17; Jo 12.1,2). Ativismo religioso não é espiritualidade cristã sadia.

  III - A BATALHA NA ARENA DOS PENSAMENTOS

  1. Influências espirituais

  Já abordamos os desafios que a mente do cristão geralmente enfrenta nos conflitos com o tentador quando falamos da gestão dos pensamentos. Essa constatação evita que simplifiquemos o processo de controle dos pensa mentos e muito menos neguemos o aspecto espiritual dessa batalha travada na arena dos pensamentos, como fazem alguns cristãos naturalistas, que chegam a negar que haja mesmo esse conflito com principados e potestades do mal e dominadores espirituais deste mundo tenebroso. São cristãos que rejeitam a linguagem bíblica, que descreve a vida espiritual e os seus conflitos (FOULKES, 1983, p. 142). Além de crermos em tudo o que a Bíblia diz, não poucos cristãos sabem, por experiência própria, que a mente é um campo de batalhas sujeita a intensos combates, verdadeiros bombardeios, inclusive espirituais. Como afirma Leslie Parrott (2013, p. 77),

  As maiores batalhas não foram travadas nas praias da Normandia nem nas plantações de arroz do sudeste da Ásia, mas na mente humana. A sua mente não é apenas o maior campo de batalha da sua vida, como também é a maior e mais poderosa arma que você empunha nos grandes riscos por uma vida realizada. A mente fraca, que perdeu a batalha por bons pensamentos e idéias poderosas, se contenta com uma vida que sofre de atrofia, tédio e utilidade limitada; ao passo que a mente forte vence o ataque de mesquinharia, pensamentos ressentidos e opiniões egocêntricas. A vida realizada começa na mente.

   E em função disso que a Bíblia adverte-nos de que devemos guardar nosso coração (ou mente), porque o que pensamos tem grande potencial de influenciar nossos sentimentos, desejos e decisões: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida (Pv 4.23). Na versão NTLH, está escrito: “Tenha cuidado com o que você pensa, pois a sua vida é dirigida pelos seus pensamentos”. Judas e Ananias são exemplos de personagens bíblicos que deixaram Satanás influenciar os seus pensamentos e fazer “ninhos” na mente. Ambos tiveram fins trágicos (Mt 27.3-5;Jo 13.2,27; At 5.1-5).

  2. Cuidados práticos

   Para encontrar quietude e paz na alma, num viver equilibrado, o cristão deve adotar algumas atitudes no processo de proteção da sua mente, como já enfatizamos. Elaine Cruz (ibid., p. 285) afirma que devemos construir muros de proteção mental, que equivale a guardar o coração mencionado por Salomão. Essa guarda da mente depende de como interagimos com o mundo externo, bem como das influências espirituais que recebemos, pois estas podem gerar emoções boas ou ruins e moldar nosso comportamento. Devemos ser cuidadosos com a maneira como nos expomos a pessoas que queiram produzir perturbações em nossa mente. Relacionamentos conflituosos costumam ser fatores indutores de profundas crises mentais. Contendas verbais poluem a mente, produzindo pensamentos aflitivos ou perturbadores (Pv 12.18; 15.4,18; 21.19): “Evitar contendas é sinal de honra; apenas o insensato insiste em brigar” (Pv 20.3, NVT). Devemos procurar nutrir relacionamentos saudáveis.

   No aspecto espiritual, nossa comunhão com o Espírito Santo é funda mental, pois é Ele quem se comunica com nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8.16). Isso traz paz ao coração, produzindo pensamentos e sentimentos saudáveis. E como no processo de justificação: pensamentos e sentimentos unem-se e produzem um estado de regozijo; a fluência da paz com Deus: “Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1).

   Podemos, por fim, relacionar as seguintes medidas práticas de proteção da mente à disposição do cristão: (1) não nutrir pensamentos distorcidos de si mesmo, que produzem complexos de inferioridade ou superioridade (2 Co 10.13); (2) purificar a mente dos maus pensamentos e vigiar contra a mentira e todo tipo de engano (Tg 4.8). Jacó sofreu por mais de vinte anos pensando que o seu filho José estava morto (Gn 37.31-35; 45.26-28; 46.30); (3) livrar-se da intoxicação — o excesso de informações (princi palmente das redes sociais) que produz fadiga, exaustão e ansiedade; (4) focar a mente no que edifica ou no que, pelo menos, instrui (1 Co 10.23; (5) construir relacionamentos saudáveis. Fugir de contendas verbais geram pensamentos aflitivos e perturbam a mente; (6) deixa-se ser transformado por Deus “pela renovação da mente” (Rm 12.2, NAA). Isso nos coloca em sintonia com a vontade divina.

  Conclusão

   Não são poucos os prejuízos experimentados pelo ser humano em toda a história por causa dos maus pensamentos, que têm o potencial de produzir sentimentos ruins e podem levar-nos a decisões e práticas pecaminosas de gravíssimas consequências. Quem já não viveu a experiência de agir com base em maus pensamentos e arrependeu-se depois? Como cristãos, não podemos ficar conformados com a agitação deste mundo. Precisamos seguir o que nos ensinam as Sagradas Escrituras: nada que nos inquieta deve ficar fora de nossas orações e súplicas diante de Deus, a fim de que nosso coração seja cheio de paz e nossa mente flua em pensamentos bons, puros, verdadeiros, honestos, cheios de virtude e louvor: “[...] e o Deus de paz será [conosco]” (Fp 4.9).

   94 | Corpo, Alma e Espírito

 

 


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