INTRODUÇÃO
Neste
capítulo e nos dois seguintes, nosso foco de estudo serão as faculdades da
alma: razão ou intelecto, sensibilidade ou sentimentos e volição ou vontade. A
razão diz respeito à capacidade de pensar. E é sobre o pensamento que
estudaremos neste capítulo.
No
campo da psicologia, talvez em nenhuma outra época tenha sido dado tanto valor
ao pensamento como atualmente, quando está muito em voga a abordagem da Terapia
Cognitivo-Comportamental (TCC), que destaca como os pensamentos estão
diretamente relacionados às emoções e comportamentos do indivíduo. Como afirma
Judith Bèck (2022, p. 4), “o modelo cognitivo propõe que o pensamento
disfuncional (que influencia o humor e o comportamento do cliente) é comum a
todos os transtornos psicológicos. Quando as pessoas aprendem a avaliar o seu
pensamento de forma mais realista e adaptativa, elas experimentam um decréscimo
na emoção negativa e no comportamento mal- adaptatívo”. Embora a vida e os
seus1 problemas não se resumam a isso, a TCC dá a sua contribuição com estudos
que ajudam a compreender um pouco sobre a influência dos pensamentos nas
emoções e no comportamento humano, embora não tenha suficiente explicação para
essas realidades humanas, no que não difere de outras correntes e abordagens.
Muito antes da psicologia, a Bíblia expõe a relação que os pensamentos têm com
outros fenômenos da vida hu mana, estimulando reflexões corretas, verdadeiras,
puras, sensatas e edificantes.
I - UMA
VISÃO INTRODUTÓRIA
1. A
experiência de Adão e Eva Gênesis registra não apenas a criação do homem, mas
também as suas primeiras experiências, que são exemplares do complexo
funcionamento do ser humano. Por isso, é sempre fundamental recorrer a esses
registros quando se estuda Antropologia Bíblica. São deles que podemos extrair
uma compreensão teológica mais abalizada do homem e os seus caracteres pes
soais. No relato hebraico, os traços da personalidade humana manifestam-se
originalmente na vida do primeiro casal. O aspecto cognitivo é visto na
capacidade de comunicação, compreensão e governo do homem sobre a criação e no
seu relacionamento interpessoal com o Criador (Gn 1.26-28; 2.18-23; 3.8). Para
todos esses processos, Adão e Eva usavam o intelecto raciocinando, elaborando
pensamentos e tomando decisões. Exemplo disso é o comportamento que tiveram
quanto ao pecado original.
Apesar
de sucinto, o relato de Gênesis 3.1-6 demonstra que houve um tempo de
comunicação entre Eva e a serpente, durante o qual a mulher elaborou alguns
pensamentos acerca da árvore da ciência do bem e do mal. Foi o seu imprudente
diálogo com a serpente que a levou a pensar o que não devia. O apóstolo Paulo
explica que a mulher foi enganada (1 Tm 2.14), ou seja, ela iniciou a conversa
com um entendimento e passou a ter outro. Experimentou a alteração do seu
sentimento (desejou o fruto) e da sua vontade e conduta (tomou do fruto e
comeu) (Gn 3.6).
Eva
abstinha-se antes do fruto da árvore da ciência do bem e do mal. Depois o
desejou, tomou e comeu. Destacam-se no texto os adjetivos “boa”, “agradável” e
“desejável”, todos ligados a sentimentos. Também se observa a expressão “vendo
a mulher que”, que traduz a conclusão cognitiva, a manifes tação de um novo
entendimento. Houve, portanto, um ciclo de pensamentos do início do diálogo à
decisão e ato. A mudança de pensamento alterou o sentimento e, via de consequência,
o comportamento. Eva, portanto, pensou o que não devia e foi enganada. Quanto a
Adão, que não foi enganado, agiu de forma negligente, deixando de pensar o que
devia. Adão simplesmente cedeu a sua vontade à oferta da mulher e pecou (Gn
3.6; 1 Tm 2.14).
2.
Conceito e origens
Não há um conceito fechado a respeito do
pensamento, até pelo caráter amplo e abstrato da possibilidade de pensar. Beck
(ibid., p. 231) conceitua-o como idéias que se processam em palavras, quadros
ou imagens; ou seja, quando pensamos, passa pela nossa mente a formulação de
palavras, formas, cores etc. Podemos afirmar que pensamentos são processos
mentais constituídos de informações, reflexões, lembranças, emoções, sons,
imagens. Cruz (ibid., p. 284) entende que “Todos os nossos pensamentos, sem
exceção, são construídos a partir do que vemos, ouvimos, imaginamos e
vivenciamos”.
A despeito dos mistérios da mente humana,
sabe-se que os pensamentos originam-se de fatores internos (biológicos,
psicológicos e espirituais) e externos ou ambientais (experiências do cotidiano).
Podem também ser uma combinação desses fatores. Sobre o dinamismo dos
pensamentos e da possibilidade que temos de educá-los, Cruz escreve:
A interação com o meio físico e social, num
primeiro momento, se lecionado e direcionado pelas escolhas familiares, nos
direciona a pensar as coisas, os objetos, as possibilidades, os afetos e as
pessoas. E essas relações nos levam a elaborar e formular conceitos e valores
particulares, inclusive nossa autoimagem e autoestima. Com o passar dos anos,
entretanto, vamos percebendo que não precisamos mais sim plesmente refletir o
que experienciamos. Aprendemos também
com os erros e acertos dos outros, e percebemos que podemos pensar melhor, mais
positivamente, escolhendo pensar de preferência no que edifica e santifica. Nossas
vivências, percepções e racionalizações podem nos fazer pensar o pior. Muitas
vezes as lembranças e sentimentos ruins insistem em dominar nossos pensamentos,
tornando nossos dias mais tristes e sombrios. Mas lembre-se sempre de que eu e
você podemos escolher onde colocar nossos pensamentos e nossas esperanças.
As
Escrituras ensinam que, qualquer que seja a origem dos pensamentos, cabe ao ser
humano aceitá-los ou rejeitá-los, reprovando-os (Js 1.8; Pv 3.1-7; 15.28; Jr
17.9,10; Fp 4.8).
3. Características dos pensamentos
A capacidade imaginativa do ser humano é
muito ampla. Não podemos afirmar que seja infinita, pois a infinitude não é
dada ao homem em aspecto algum. Ainda assim, a possibilidade de pensamento é
amplíssima. O homem pode construir os mais diversos cenários na mente:
silenciosos ou barulhentos; simples ou complexos; neutros ou coloridos. Quantas
imaginações já tivemos desde os tempos de criança! Na fase dos porquês —
geralmente dos 2 aos 4 anos —, a mente infantil chega a ficar absorta em tantos
pensamentos, geradores de curiosidades, além de muitos questionamentos. A
literatura, o cinema, a TV e tantos outros meios modernos de criação de
conteúdo são uma prova inconteste da capacidade imaginativa do ser humano. Em
tempos tão remotos, Salomão já escreveu: “[...] não há limite para fazer
livros” (Ec 12.12).
Os pensamentos não são apenas múltiplos e
neutros. Eles guardam em si características de índole ético-moral. Podem ser
bons ou ruins, puros ou impuros, verdadeiros ou falsos. Os que são originados
de fatores externos são fruto de experiências sensoriais. Como já destacado, a
mente faz criações a partir de conteúdos que obtém por meio dos órgãos dos
sentidos, como os olhos, o ouvido, a boca, as mãos, o nariz etc. Nesse sentido,
abster-se de toda aparência do mal é essencial (1 Ts 5.22). Não podemos
alimentar nossa mente com conteúdos enganosos ou impuros (SI 101.3-5). Deles
podem surgir gravíssimos pecados, como violências, imoralidades sexuais,
mentiras, calúnias e maledicências. Os fariseus foram chamados de “raça de
víboras” porque as suas palavras más eram a reprodução do coração perverso que
tinham com pensamentos e sentimentos ruins (ver Mt 12.34; cf. 15.19).
H - A
GESTÃO DOS PENSAMENTOS
1.
Imperativo ético e espiritual
A Bíblia não nos recomenda nada que nos seja
impossível fazer mediante a graça de Deus. Um desses deveres que nos atribuem
as Escrituras é a gestão de nossos pensamentos, como Paulo trata na Epístola
aos Filipenses. Aliás, essa carta é rica em relação ao registro de bons
sentimentos ou emoções — não sem razão tem, entre os seus epítetos, o de
“Epístola da Alegria” (cf Fp 1.7,8; 2.1,2,20,26; 3.15; 4.1,2,7), mas também é
nela que está uma das mais contun dentes afirmações paulinas acerca da boa
gestão dos pensamentos: “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo
o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo
o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai”
(Fp 4.8). Como podemos fazer isso? Em primeiro lugar, é preciso observar que o
imperativo bíblico não diz respeito a um processo mecânico, automático, formal
ou meramente humano. O cristão não pode, por si só, simplesmente decidir gerir
a mente e passar a fazê-lo, como se tivesse, com as suas próprias forças, pleno
controle sobre os seus pensamentos. Antes de tratar do aspecto positivo da
atividade intelectiva (o que pensar), Paulo apresenta-nos a necessidade de uma
atitude espiritual indispensável, que é a oração (Fp 4.6). Se deixarmos nossa
mente envolta nas inquietudes dessa vida, não teremos como ordenar nossos
pensamentos.
O
cristão precisa lutar espiritualmente para vencer a ansiedade. E como fazemos
isso? Não há outro meio senão uma consagração pessoal a Deus, diariamente, em
oração. A mente não se aquieta com técnica de meditação. Devemos orar e fazer
“conhecidas diante de Deus” todas as nossas petições. Tudo de que precisamos,
tudo o que nos aflige e tudo o que nos inquieta: nada deve ficar fora de nossa
oração. E não se trata de uma oração curta, uma repetição, como uma mera
formalidade. Paulo refere-se a “oração e súplicas, com ação de graças”. Deve
haver intensidade na oração até ao ponto de nosso coração ser realmente aberto
(se possível, derramado) e nosso espírito e alma irromperem em gratidão a Deus,
louvando-o pelos seus feitos e maravilhas.
Tudo isso faz parte do processo de gestão do
pensamento, como condição prévia indispensável. Parece-nos que isso combina com
o conselho de Davi no Salmo 37.4: “Deleita-te também no Senhor, e ele te
concederá o que deseja o teu coração”. Observe que é preciso, a princípio,
estabelecer um relacionamento íntimo, vencendo a ansiedade e todas as
inquietações. Enquanto estivermos ansiosos, tentando estabelecer o alvo de
nossas preocupações, não encontraremos paz e estabilidade espiritual e mental
que nos permita gerir bem nossos pensamentos. Um turbilhão de idéias agitadas
estará em nossa mente, longe do alvo divino estabelecido em Filipenses 4.8.
O
passo seguinte na conquista espiritual, vencida a ansiedade em oração, é receber
a paz de Deus, que excede todo entendimento e que é poderosa para guardar
corações e mentes em Cristo (Fp 4.7, NVI). E somente nessa condição — com a
mente guardada por Deus — que alcançaremos a graça de fazer uma gestão
consagrada de nossos pensamentos, focando no alvo descrito por Paulo em
Filipenses 4.8. Ao usar o pronome indefinido “tudo”, o apóstolo abre uma ampla
possibilidade para os pensamentos, desde que qualificados com os adjetivos
“verdadeiro”, “honesto”, “justo”, “puro”, “amável”, “de boa fama”, virtuoso e
digno de louvor. O emprego do verbo pensar no imperativo afirmativo (“pensai”)
indica que é nosso dever pensar em coisas boas, rejeitando as más. Uma conduta
ativa e não passiva. Precisamos refletir, portanto, a respeito de como estamos
gerindo nossos pensamentos. Embora saibamos que não é simples ou fácil cogitar
o controle do que pensamos —-e não se espera que isso ocorra de forma
absolutamente rígida —, se estivermos munidos de armas espirituais, pode remos
levar cativo todo entendimento à obediência de Cristo.
Elaine
Cruz (ibid., p. 284—285) afirma que, se podemos levar cativo todo pensamento à
obediência de Cristo, como Paulo afirma em 2 Coríntios 10.4,5 (“levando cativo
todo o entendimento à obediência de Cristo”), po demos controlar o que
pensamos, a despeito de muitos dizerem o contrário:
Quanto
mais conhecemos a Bíblia, mais facilmente reconhecemos os pensamentos
pecaminosos: difamatórios, egoístas, arrogantes, enganosos, autodestrutivos,
afrontosos quanto ao nosso caráter, e mentirosos quanto a Deus. Esses
pensamentos errôneos não podem ser aceitos como nossos, e nem podemos nos
demorar ponderando seus desdobramentos. Afinal, sabemos que podem ser resultado
de nossa humanidade ou da ação sugestiva de Satanás. Portanto, assumir o
domínio dos pensamentos é mais do que apenas recusar maus pensamentos — até
devemos fazer isso, mas é eliminar rapidamente os que são errôneos ou
maléficos, ao mesmo tempo em que incluímos nossa mente pensamentos que venham
agradar a Deus.
2.
Acima da técnica
Há uma
profusão de técnicas de gerenciamento do pensamento, como a ênfase na
importância de pensar positivo, como afirma Beck no seu livro (p. 18). São
estratégias de valor relativo, que se limitam ao plano da realidade humana; ao
nível terreno. A Palavra de Deus vai muito além disso e ensina mos que devemos
pensar “nas coisas que são de cima e não nas que são da terra” (Cl 3.2). Isso
nos liberta da atmosfera de conflitos mentais comuns a todas as pessoas,
dando-nos percepção e discernimento espirituais, fazendo com que tenhamos a
mente de Cristo (1 Co 2.15,16). Além de encher nosso coração da esperança que
não traz confusão (Rm 5.5), a visão do celestial, que é infinitamente superior,
é o mais elevado padrão para inspirar e guiar todos os sistemas da vida
terrena, que é inferior, efêmera e passageira, somado ao fato de que é um
preventivo eficaz contra a ansiedade (Mt 6.25-34; Fp 4.6).
Outra
questão fundamental a ser considerada é que as Escrituras apresentam-nos um
cenário de luta espiritual, que exige o emprego de armas espirituais: “porque
não temos que lutar contra carne e sangue, mas, sim, contra os principados,
contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as
hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais” (Ef 6.12). A descrição
paulina demonstra a possibilidade de uma série de combates que o cristão pode
enfrentar, internos e externos, dentre os quais estão os ataques do Inimigo à
nossa mente.
São
múltiplas e terríveis as possibilidades de o cristão ser atacado com
pensamentos perturbadores,1 fazendo com que tenha que resistir firme para não
ser vencido nesse “dia mal”, que pode ter duração de tempo indeter minado
(6.13). Na verdade, eles também podem ser originados em nossa própria natureza
carnal, caída e rebelde em relação a Deus. Em função disso, precisamos tomar
toda a armadura de Deus, que inclui, sobretudo, o escudo da fé e o capacete da
salvação, com o qual podemos apagar todos os dardos inflamados do maligno
(6.14-17). Não resta dúvida, portanto, que pensar nas coisas que são de cima
deve ser uma conduta constante do cristão, o que o previne de ataques rasteiros
do maligno, os quais, quando ocorrerem, possam ser vencidos na força do poder
de Deus, em quem o crente deve estar fortalecido (6.10).
3. Recursos espirituais
Jesus
foi submetido a grandes tentações direta e pessoalmente pelo Diabo depois de
quarenta dias jejuando e orando (Lc 4.1-13). O que se verifica em comum em
todas as fases da tentação de Cristo foi o recurso que Ele usou para vencê-las:
as Escrituras. A Palavra de Deus produz fé e profunda convicção em nosso
espírito, trazendo esclarecimento e firmeza para a alma. Para que possamos ter nossa
mente cheia da revelação divina, precisamos ler a Bíblia e ouvir a exposição do
texto sagrado. Esse é um recurso extraordinário para a produção de bons
pensamentos, inspirados em verdades eternas. É uma disciplina que traz profunda
edificação e firmeza espiritual (SI 37.31; 119.33,93). Meditar é refletir,
pensar de maneira detida, o que exige o emprego da vontade (a decisão, o
querer) (SI 119.131). Produz sentimentos elevados (amor, alegria e paz pelas
verdades apreendidas) (119.97), abundante sabedoria e correta direção (SI
119.98-102).
4. Jerusalém e Betânia
Além dos recursos espirituais, precisamos
compreender que nossa mente também é influenciada por fatores orgânicos,
físicos e ambientais. Por isso, os cuidados com a saúde mental incluem a
observância de uma rotina saudável, mediante a exposição a experiências que não
agridam a mente, mas sejam agradáveis. Acentua-se cada vez mais a incidência da
chamada Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA) diante do estilo de vida
moderno, principalmente depois da invasão das telas. Uma torrente de
informações de todos os lados produz uma atividade cognitiva intensa — ainda
que superficial e produtora de baixo nível de conhecimento. Não são mais apenas
as fontes profissionais de informação (os meios de comunicação de massa).
Bilhões de pessoas querem ser portadoras de notícias, sejam estas verdadeiras
ou falsas, enchendo a mente coletiva global de conteúdo e mais conteúdo. As
redes sociais estão entulhadas de textos, imagens, áudios e vídeos. Isso tem
contribuído seguramente para promover mais agitação mental, ansiedade,
irritabilidade, dificuldade de concentração, fadiga, insônia, dores de cabeça,
dores musculares, problemas de memória e outras incômodas consequências A vida
sempre teve os seus centros de agitação em todas as épocas. Seja qual for a
circunstância, Jesus ensina-nos a importância de descansar o corpo e a mente.
Ele mesmo tinha o costume recolher-se a lugares tranquilos, principalmente para
dedicar-se à oração, mas também para buscar refrigério físico e mental (Mt
14.23; Mc 6.31,32). O Mestre tinha o cuidado de deixar Jerusalém em momentos
estratégicos e caminhar até a pequena aldeia de Betânia para fugir da agitação.
Com Ele aprendemos, portanto, que há o tempo de Jerusalém, mas há também o
tempo de Betânia (Mt 21.17; Jo 12.1,2). Ativismo religioso não é
espiritualidade cristã sadia.
III - A
BATALHA NA ARENA DOS PENSAMENTOS
1.
Influências espirituais
Já abordamos os desafios que a mente do
cristão geralmente enfrenta nos conflitos com o tentador quando falamos da
gestão dos pensamentos. Essa constatação evita que simplifiquemos o processo de
controle dos pensa mentos e muito menos neguemos o aspecto espiritual dessa
batalha travada na arena dos pensamentos, como fazem alguns cristãos
naturalistas, que chegam a negar que haja mesmo esse conflito com principados e
potestades do mal e dominadores espirituais deste mundo tenebroso. São cristãos
que rejeitam a linguagem bíblica, que descreve a vida espiritual e os seus
conflitos (FOULKES, 1983, p. 142). Além de crermos em tudo o que a Bíblia diz,
não poucos cristãos sabem, por experiência própria, que a mente é um campo de
batalhas sujeita a intensos combates, verdadeiros bombardeios, inclusive
espirituais. Como afirma Leslie Parrott (2013, p. 77),
As maiores batalhas não foram travadas nas
praias da Normandia nem nas plantações de arroz do sudeste da Ásia, mas na mente
humana. A sua mente não é apenas o maior campo de batalha da sua vida, como
também é a maior e mais poderosa arma que você empunha nos grandes riscos por
uma vida realizada. A mente fraca, que perdeu a batalha por bons pensamentos e
idéias poderosas, se contenta com uma vida que sofre de atrofia, tédio e
utilidade limitada; ao passo que a mente forte vence o ataque de mesquinharia,
pensamentos ressentidos e opiniões egocêntricas. A vida realizada começa na
mente.
E em
função disso que a Bíblia adverte-nos de que devemos guardar nosso coração (ou
mente), porque o que pensamos tem grande potencial de influenciar nossos
sentimentos, desejos e decisões: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o
teu coração, porque dele procedem as saídas da vida (Pv 4.23). Na versão NTLH,
está escrito: “Tenha cuidado com o que você pensa, pois a sua vida é dirigida
pelos seus pensamentos”. Judas e Ananias são exemplos de personagens bíblicos
que deixaram Satanás influenciar os seus pensamentos e fazer “ninhos” na mente.
Ambos tiveram fins trágicos (Mt 27.3-5;Jo 13.2,27; At 5.1-5).
2.
Cuidados práticos
Para
encontrar quietude e paz na alma, num viver equilibrado, o cristão deve adotar
algumas atitudes no processo de proteção da sua mente, como já enfatizamos.
Elaine Cruz (ibid., p. 285) afirma que devemos construir muros de proteção
mental, que equivale a guardar o coração mencionado por Salomão. Essa guarda da
mente depende de como interagimos com o mundo externo, bem como das influências
espirituais que recebemos, pois estas podem gerar emoções boas ou ruins e
moldar nosso comportamento. Devemos ser cuidadosos com a maneira como nos
expomos a pessoas que queiram produzir perturbações em nossa mente.
Relacionamentos conflituosos costumam ser fatores indutores de profundas crises
mentais. Contendas verbais poluem a mente, produzindo pensamentos aflitivos ou
perturbadores (Pv 12.18; 15.4,18; 21.19): “Evitar contendas é sinal de honra;
apenas o insensato insiste em brigar” (Pv 20.3, NVT). Devemos procurar nutrir
relacionamentos saudáveis.
No aspecto espiritual, nossa comunhão com o
Espírito Santo é funda mental, pois é Ele quem se comunica com nosso espírito
que somos filhos de Deus (Rm 8.16). Isso traz paz ao coração, produzindo
pensamentos e sentimentos saudáveis. E como no processo de justificação:
pensamentos e sentimentos unem-se e produzem um estado de regozijo; a fluência
da paz com Deus: “Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus por
nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1).
Podemos, por fim, relacionar as seguintes
medidas práticas de proteção da mente à disposição do cristão: (1) não nutrir
pensamentos distorcidos de si mesmo, que produzem complexos de inferioridade ou
superioridade (2 Co 10.13); (2) purificar a mente dos maus pensamentos e vigiar
contra a mentira e todo tipo de engano (Tg 4.8). Jacó sofreu por mais de vinte
anos pensando que o seu filho José estava morto (Gn 37.31-35; 45.26-28; 46.30);
(3) livrar-se da intoxicação — o excesso de informações (princi palmente das
redes sociais) que produz fadiga, exaustão e ansiedade; (4) focar a mente no
que edifica ou no que, pelo menos, instrui (1 Co 10.23; (5) construir
relacionamentos saudáveis. Fugir de contendas verbais geram pensamentos
aflitivos e perturbam a mente; (6) deixa-se ser transformado por Deus “pela
renovação da mente” (Rm 12.2, NAA). Isso nos coloca em sintonia com a vontade
divina.
Conclusão
Não
são poucos os prejuízos experimentados pelo ser humano em toda a história por
causa dos maus pensamentos, que têm o potencial de produzir sentimentos ruins e
podem levar-nos a decisões e práticas pecaminosas de gravíssimas consequências.
Quem já não viveu a experiência de agir com base em maus pensamentos e
arrependeu-se depois? Como cristãos, não podemos ficar conformados com a agitação
deste mundo. Precisamos seguir o que nos ensinam as Sagradas Escrituras: nada
que nos inquieta deve ficar fora de nossas orações e súplicas diante de Deus, a
fim de que nosso coração seja cheio de paz e nossa mente flua em pensamentos
bons, puros, verdadeiros, honestos, cheios de virtude e louvor: “[...] e o Deus
de paz será [conosco]” (Fp 4.9).
94 | Corpo, Alma e Espírito
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