TEXTO
ÁUREO
“E,
por isso, procuro sempre ter uma consciência sem ofensa, tanto para com Deus
como para com os homens.”
(At 24.16).
VERDADE
PRÁTICA
Diante
da crescente degradação do padrão moral do mundo, o cristão deve apegar-se cada
vez mais à sã doutrina para ter sempre uma boa consciência.
LEITURA
BÍBLICA EM CLASSE
Romanos
2.12-16.
12
— Porque
todos os que sem lei pecaram sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei
pecaram pela lei serão julgados.
13
— Porque
os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão
de ser justificados.
14
— Porque,
quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da
lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei,
15
— os
quais mostram a obra da lei escrita no seu coração, testificando juntamente a
sua consciência e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os,
16
— no
dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo
o meu evangelho.
PLANO
DE AULA
1.
INTRODUÇÃO
Esta
lição convida seus alunos a refletirem sobre a consciência como tribunal
interior, dado por Deus, que acusa, defende e julga nossos atos. Em meio a um
mundo moralmente corrompido, esta é uma oportunidade de destacar a importância
da consciência guiada pela Palavra e pelo Espírito Santo. Que o ensino desta
semana fortaleça a fé, promova arrependimento sincero e desperte o desejo por
uma vida santa diante de Deus e dos homens.
2.
APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO
A)
Objetivos da Lição: I) Mostrar aos alunos a origem
da consciência humana como um senso moral dado por Deus, reconhecendo seu papel
antes e depois da Queda; II) Ensinar que a consciência atua como um tribunal
interior, capaz de acusar ou defender, incentivando o autoexame constante; III)
Alertar os alunos para as falhas e deformações que a consciência pode sofrer
quando não é orientada pela verdade bíblica.
B)
Motivação: É essencial fortalecer o discernimento moral
do cristão, num tempo em que os padrões do mundo tentam silenciar a voz da
consciência. À luz da Bíblia, entenderemos como manter a consciência pura
diante de Deus e dos homens.
C)
Sugestão de Método: Para ensinar o terceiro tópico,
e concluir a lição, utilize o método do estudo de caso seguido de debate
orientado. Apresente aos alunos situações reais ou hipotéticas nas quais a
consciência individual foi enganada, distorcida ou manipulada. Em seguida,
promova uma discussão bíblica com base nos textos de 1 Timóteo 4.2, Tito 1.15 e
1 Coríntios 8.7-12, destacando como a consciência pode ser deformada quando não
está submissa à Palavra de Deus. Encerre com uma reflexão em classe sobre como
manter uma consciência saudável por meio da oração, da comunhão com o Espírito
Santo e do constante estudo das Escrituras. Esse método favorece o pensamento
crítico, a aplicação prática e o engajamento ativo dos alunos.
3.
CONCLUSÃO DA LIÇÃO
A)
Aplicação: Conclua enfatizando que a consciência,
embora importante, só é confiável quando iluminada pela Palavra de Deus e
guiada pelo Espírito Santo. Ensine que, diante de qualquer acusação interior, o
cristão deve buscar perdão e purificação no sangue de Cristo.
4.
SUBSÍDIO AO PROFESSOR
A)
Revista Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa
revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e subsídios de apoio à Lições
Bíblicas Adultos. Na edição 103, p.39, você encontrará um subsídio especial
para esta lição.
B)
Auxílios Especiais: Ao final do tópico, você
encontrará auxílios que darão suporte na preparação de sua aula: 1) O texto
“Transgressões contra a Consciência”, localizado depois do primeiro tópico,
aprofunda o assunto “Antes e depois da Queda”; 2) O texto “Também Perecerão”,
ao final do segundo tópico, aprofunda o assunto “O Funcionamento da
Consciência”.
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
Deus
fez o ser humano com um senso moral chamado consciência, que acusa, defende e
julga. Funciona segundo a Lei moral (comum a todas as pessoas), as Escrituras
Sagradas e outras fontes normativas, como a família, a Igreja e o Estado. A
consciência escrutina e emite juízo sobre todo o comportamento humano.
Palavra-Chave:
CONSCIÊNCIA
AUXÍLIO
BIBLIOLÓGICO
TRANSGRESSÕES
CONTRA A CONSCIÊNCIA
“As pessoas
não serão condenadas por aquilo que desconhecem, mas pela atitude que
demonstraram em relação ao que sabem. Aqueles que conhecem a Palavra de Deus e
sua Lei, serão julgados de acordo. Os que jamais viram uma Bíblia, mas sabem
discernir entre o certo e o errado, serão julgados pelas transgressões que
cometeram contra a própria consciência. A Lei de Deus está inscrita nas
pessoas. [...] Aqueles que viajarem para outros países, poderão encontrar
evidências da Lei moral de Deus em cada cultura e sociedade. Por exemplo, em
todas elas o assassinato é proibido, embora esta Lei tenha sido transgredida em
todas.” (Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD,
2022, p.1555).
II.
O FUNCIONAMENTO DA CONSCIÊNCIA
1.
Acusação, defesa e julgamento. A consciência funciona como um órgão de acusação ou defesa, mas
também exerce função judicante (Sl 51.3). Gênesis 3.7 diz que tão logo Adão e
Eva pecaram “foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus”. O
verbo “conhecer”, yada, traduz o apontamento negativo feito pela
consciência, reprovando a conduta do primeiro casal. Antes do pecado, conheciam
somente o bem, e viviam em plena alegria e paz (Gn 2.25). Ao pecarem, a
consciência ecoou na alma, como uma voz secreta e incômoda (Gn 3.7-10). Às
vezes essa experiência é de dor no coração, como aconteceu com Davi após contar
o povo (2Sm 24.10). Uma consciência pesada produz males ao espírito, à alma e
ao corpo (Sl 31.9,10; 32.1-5; 38.1-8).
2.
Vãs justificativas. A
expressão “foram abertos os olhos” (Gn 3.7) também significa experimentação
imediata da malícia, antes inexistente em Adão e Eva. Ao ouvirem a voz do
Criador, se esconderam com medo. Deus dirigiu uma pergunta retórica a Adão:
“Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não
comesses?” (Gn 3.11). Não houve uma resposta direta. Impossibilitado de negar
seu pecado, Adão fez o que se tornaria comum ao ser humano: tentou se
justificar, certamente buscando aplacar a consciência: “A mulher que me deste por
companheira, ela me deu da árvore, e comi” (Gn 3.12). Eva seguiu o mesmo
caminho, culpando a serpente (Gn 3.13). Tentativas como estas são meros
placebos. A consciência é implacável e não cede a vãs formulações humanas,
ainda que teológicas, como as inclusivas (Rm 1.18-27; 2Tm 4.3). A confissão e o
afastamento do pecado são o remédio para a alma (Sl 41.4; Pv 28.13; Tg 5.16).
3.
O debate no tribunal. A
consciência é como um tribunal que julga condutas, aprovando-as ou
reprovando-as. Atua em relação ao presente (At 23.1), passado (1Co 4.4; 2Sm
24.10) e futuro (1Sm 24.6; At 24.16). Funciona interagindo com as demais
faculdades da alma, principalmente os pensamentos e os sentimentos (Rm 2.15;
9.1; 1Co 8.12). A consciência costuma entrar em longos debates com os
pensamentos, que a questionam e aprofundam a análise das ações. Esse processo
gera na mente um exame interior, uma investigação pessoal (1Co 11.28), com o
objetivo de alcançar um veredicto favorável — o testemunho de uma consciência
limpa (2Co 1.12).
Em casos assim, mesmo que acusações externas
prevaleçam, como ocorria com Paulo em Cesareia, há paz interior em função da
consciência estar sem ofensa (At 24.1-16). Então, há descanso para a alma.
SINOPSE
II
A consciência atua como um tribunal interior que
acusa, defende e julga nossas atitudes diante de Deus e dos homens.
AUXÍLIO
BIBLIOLÓGICO
“TAMBÉM PERECERÃO
Todos os que continuam no pecado (isto é, que se
opõem e desafiam a Deus e seguem seus próprios caminhos), ainda que tenham
pouco ou nenhum conhecimento da Lei de Deus, serão julgados e condenados,
porque têm uma ciência de Deus e algum conhecimento de certo e errado
(vv.14,15). Deus não salvará automaticamente os que não ouvirem a sua mensagem,
nem lhes dará uma segunda chance depois da morte. Embora Ele os julgue de
acordo com o conhecimento que eles têm e a oportunidade que tiveram, eles ainda
terão que responder com fé ao único Deus verdadeiro — confiando nEle para
obterem a vida eterna e o cumprimento dos seus propósitos. A consequência
eterna para aqueles que não tiveram uma oportunidade adequada de ouvir e
receber a mensagem de perdão e nova vida por intermédio de Jesus Cristo, deve
nos motivar a fazer todos os esforços para levar a sua mensagem a todas as
pessoas, de todas as nações (veja Mt 4.19, nota; 9.37, nota).” (Bíblia de
Estudo Pentecostal — Edição Global. Rio de Janeiro: CPAD,
2022, p.2019).
SUBSÍDIOS
ENSINADOR CRISTÃO
A
CONSCIÊNCIA: O TRIBUNAL INTERIOR
Nesta lição,
veremos como funciona a consciência. Criada por Deus, é por meio dela que
tomamos conhecimento daquilo que agrada a Deus ou não. Infelizmente, a entrada
do pecado no mundo, decorrente da Queda, descaracterizou a consciência humana
criada por Deus. Somente o conhecimento das Escrituras Sagradas pode trazer
renovação para consciência humana e trazê-la de volta ao pleno conhecimento da verdade.
O apóstolo Paulo discorre sobre o tratamento dado à consciência quando escreve
a Carta aos Romanos. Ele instrui que somos transformados pela renovação do
nosso entendimento a fim de que experimentemos a boa, agradável e perfeita
vontade de Deus (Rm 12.1). O primeiro passo é a submissão do corpo à vontade
divina. Jesus nos ensinou que o espírito está pronto, mas a carne é fraca (Mt
26.41). Logo, precisamos submetermo-nos como sacrifício vivo, santo e agradável
a Deus (Rm 12.1). A segunda lição ensinada pelo apóstolo diz respeito a não se
conformar com este mundo. Literalmente, significa não assumir a mesma forma que
o mundo, isto é, o comportamento, a maneira de agir e pensar das pessoas que
não creem no Evangelho (Rm 12.2). Essas atitudes devem ser lembradas por quem
deseja guardar os preceitos e valores da Palavra de Deus.
Por último,
o apóstolo menciona que somos transformados pela renovação do nosso
entendimento. Conforme discorre Lawrence O. Richards, na obra Comentário
Histórico-Cultural do Novo Testamento (CPAD), “a palavra usada aqui
para ‘entendimento’ é nous, e não deve ser confundida com ‘conhecimento’ nem
com ‘razão’. O que Paulo tem em mente é expresso mais apropriadamente como
‘perspectiva’ ou ‘modo de pensamento’. Os crentes devem resistir às pressões
exercidas pelo mundo para nos conformar com seu modo de pensamento, e em vez
disso ter cada uma de nossas perspectivas sobre as questões da vida renovada e
transformada. A única maneira de você ou eu podermos fazer a vontade de Deus é
reconhecê-la. E nós só podemos reconhecer a vontade de Deus se aprendermos a
ver as questões da vida a partir da perspectiva de Deus. Que grande dádiva é a
Escritura. E que grande dádiva é o Espírito, que usa a Palavra para renovar
nosso entendimento e transformar nossa vida” (2007, p.317).
A
consciência do homem sem Deus fica entenebrecida. Graças a Deus pelo Evangelho
de Jesus, que nos trouxe a luz da verdade. Acerca disso, o apóstolo João
enfatizou que devemos andar na luz, e “se andarmos na luz, como ele na luz
está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho,
nos purifica de todo o pecado” (1Jo 1.7). Permaneçamos nessa luz!
CONCLUSÃO
Devemos
manter nossa consciência sempre pura; renovada e iluminada por meio do contínuo
estudo da Bíblia, nossa infalível regra de fé e prática (Sl 119.18,34,130; 2Tm
3.16,17). Se ela nos acusar, não nos esqueçamos: o sangue de Cristo é poderoso
para purificar a consciência de todo aquele que, arrependido, confiar no poder
do seu sacrifício (Hb 9.14). Cheguemo-nos sempre a Ele com inteira certeza de
fé (Hb 10.22).
CPAD : Espírito, Alma e Corpo — A restauração
integral do ser humano para chegar à estatura completa de Cristo
Comentarista:
Silas Queiroz
Lição
6: A Consciência — O Tribunal Interior
INTRODUÇÃO
Na
madrugada da noite em que Jesus foi preso, muitos ouviram o galo cantar, mas
ninguém como Pedro, o discípulo que negou a Jesus três vezes: “Então, começou
ele a praguejar e a jurar, dizendo: Não conheço esse homem. E imediatamente o
galo cantou. E lembrou-se Pedro das palavras de Jesus, que lhe dissera: Antes
que o galo cante, três vezes me negarás. E, saindo dali, chorou amargamente”
(Mt 26.74,75). E assim com a consciência. Cada um tem a sua e vive as suas
próprias experiências.
A
experiência de Pedro.
Temos
alguns pontos fundamentais relacionados ao funcionamento da consciência no
episódio envolvendo Pedro. Em primeiro lugar, Pedro foi devidamente avisado (Mt
26.31-35). O funcionamento acusativo da consciência pressupõe a indicação
prévia de uma conduta vedada, como aconteceu com Adão e Eva em relação à arvore
do conhecimento do bem e do mal (Gn 2.16,17). Em segundo lugar, Pedro agiu
deliberadamente, confiando em si mesmo (Mt 26.35). Foi dissimulado e reticente
no que fez: negou três vezes e ainda se embruteceu, praguejando. Terceiro, o
galo “cantou imediatamente”. A consciência funciona tão logo uma conduta
pecaminosa ou antiética é praticada. Não dá trégua. O quarto ponto fundamental:
Pedro sentiu não apenas uma indicação de culpa, mas também terríveis consequências
no espírito, na alma e no corpo: “E, saindo dali, chorou amargamente”. O Pedro
impulsivo e cheio de si perdeu a graça e deixou o ambiente em que estava cheio
de tristeza e amargura de alma. Quinto, afligido pela sua consciência, ele
experimentou arrependimento sincero, levando o Mestre a, no momento oportuno,
trazê-lo de volta à restauração. Se não sufocar mos nossa consciência, mas
seguirmos o caminho da humildade diante de Deus, seremos restaurados por Ele à
sua presença, pois o funcionamento da consciência não é para nosso mal, mas
para nosso bem.
I -
ANTES E DEPOIS DA QUEDA
Deus
dotou o homem de um senso moral chamado consciência. Em tempos de tanta
tecnologia, podemos compará-la a um sensor capaz de de tectar falhas e emitir
juízos morais e espirituais em relação a elas; ou, diante de condutas corretas,
emitir sinais de aprovação. Esse é o funcionamento adequado desse sensor se não
estiver com defeito. Terrivelmente acusado pelos judeus diante do governador
Félix, em Cesareia, Paulo responde se renamente: “procuro sempre ter uma
consciência sem ofensa, tanto para com Deus como para com os homens” (At
24.16).
Paulo
refere-se a essa faculdade espiritual que Deus deu a todos os homens, que tem
como função acusar, defender e julgar. O seu funciona mento segue parâmetros
estabelecidos pela lei moral, comum a todas as pessoas, pelas Escrituras
Sagradas e por outras fontes normativas, como a família, a Igreja e o Estado,
as quais devem ser observadas sob o escrutínio da consciência (Rm 13.1-7; Ef
6.1-9; Hb 13.17). Os parâmetros podem ser absolutos ou relativos. Os absolutos
têm valor universal. Não mudam com o tempo ou lugar. Os relativos variam
conforme a época, cultura ou lugar. Absolutos ou relativos, a consciência
absorve tais parâmetros e passa a emitir os seus juízos sobre nossa
conformidade ou não a eles.
1. A
primeira manifestação
Os
textos de Gênesis 2.16,17 e 3.6-10 tratam da primeira manifesta ção negativa da
consciência na experiência humana. Criado como um ser moral, o homem recebeu de
Deus a capacidade de discernir entre o certo e o errado e, assim, orientar-se
nas suas decisões. Havia condutas permitidas, dentre elas comer livremente de
toda árvore do jardim, mas também havia uma conduta proibida: comer do fruto da
árvore da ciência do bem e do mal, com uma punição correspondente devidamente
fixada: “no dia em que dela comeres, certamente morrerás”.
O
homem, portanto, era livre quase absolutamente, e, enquanto agisse dentro desse
amplo espaço de vivência, a sua consciência iria aprová-lo, como, de fato,
ocorreu por algum tempo (não sabemos quanto). Se, contudo, violasse a lei
divina, agindo em rebeldia, a mesma consciência funcionaria em sentido oposto,
acusando-o. Foi o que ocorreu: o homem violou a ordem de Deus e experimentou o
funcionamento acusativo da consciência: culpa, vergonha e medo.
Do
grego syneidesis (“saber com”) e do latim conscimüa (con, “com ou junto” e
sámtia, “ciência”), o sentido literal da palavra consciência é “com concordar
com algo ou alguém”, permitindo entender, então, que seu papel é concordar com
um princípio estabelecido no âmago do espírito humano (CABRAL, p. 47). Trata-se
de uma faculdade inata, ou seja, todos nascem com ela.
Há,
todavia, uma discussão entre os teólogos sobre a consciência ser uma faculdade
do espírito ou da alma, havendo opiniões nos dois sentidos. Como já indicado, o
pastor Elienai Cabral, assim como vários outros teó logos pentecostais,
considera que a consciência situa-se no espírito: “Ela existe dentro de cada
ser humano como um sensor inevitável na parte mais elevada, instalado no âmago
do nosso espírito” (ibid., p. 15).1
As
características e funções da consciência, como um agente de Deus inserido no
homem, corroboram esse entendimento de ser ela uma faculdade do espírito,
principalmente a sua localização no ponto mais elevado ou profundo do ser
humano.
2. O
direito natural
O
homem não nasceu como um ser bruto, praticamente irracional, como querem fazer
crer os adeptos da teoria da evolução. Não é originário do que chamam “o homem
pré-histórico”, os primatas (ancestral comum de animais como os chimpanzés) ou
o “homem das cavernas”. O homem foi criado à imagem de Deus, como um ser moral
inteligente. A comunicação de Deus com Adão e os seus atos iniciais (assim como
os de Eva) demonstram isso com muita clareza. Assim como Adão, todo o ser
humano nasce com um conteúdo normativo fundamental, que é a lei moral — também
chamada de lei da natureza ou direito natural — escrita no coração. Em Gênesis,
isso é visto pela primeira vez em Caim, que, tomado pela ira, feriu 0 direito
natural tirando a vida do próprio irmão (4.8).
Como
consequência imediata da terrível violação praticada por Caim, a sua
consciência afligiu-o com pesada culpa, dada a gravidade do seu pecado (w.
13,14). Isso demonstra que a atitude de Caim foi a escolha entre a vontade de
Deus (a preservação da vida humana, criada à sua imagem) e o seu ímpeto
assassino, pela sua malignidade. Como escreveu o evangelista João, Caim era do
maligno e praticava obras más (1 Jo 3.12). Assim, ao tirar a vida do próprio
irmão, a sua consciência acusou-o implacavelmente, e ele, como fez Pedro, sentiu-se
inquieto e procurou afastar-se. Quando a consciência acusa, a tendência humana
é buscar um lugar de adequação, mas não adianta tentar esconder-se (ver SI
139.7,8;Jn 1.3-12).
3.
Escrita no coração
Em
Romanos 2.12-16, Paulo faz referência à Lei Mosaica, dada a Israel, e à lei
moral, o direito natural, comum a todos os homens, inclusive aos gentios (v.
15). Em princípio, é com base nessa lei geral que a consciência atua, “ora
acusando-os, ora defendendo-os” (NVT).
Á medida que as sociedades eram organizadas,
desde os primórdios do mundo antigo, os princípios da lei natural estabelecida
por Deus eram registrados, segundo a compreensão própria e imperfeita de cada
povo — não sem distorções diante da maldade do coração humano. Com maior ou
menor aproximação do propósito divino, o processo de codificação foi ocorrendo
à medida que surgiu a escrita. Em relação aos hebreus, essa positivação do
Direito Natural deu-se de forma perfeita, já que foi feita pelo próprio Deus.
Foi a outorga do Decálogo, os Dez Mandamentos, escritos em pedras “com o dedo
de Deus” (Êx 34.1-9; Dt 9.9-11). Mas a Lei Mosaica também incluía ampla
regulação da \ida civil (direito de propriedade e direito de família, (ver Ex
22; Dt 24), além do estabelecimento de leis cerimoniais, necessárias para o
culto a Jeová (e.g. Lv 1—7).
Antes
da codificação do direito natural pela Lei Mosaica, outras socie dades antigas
tinham os seus regramentos. Edwin M. Yamauchi e Marvin R. Wilson (2023, p.
892-894) referem-se a vários códigos de leis e as listas de leis do antigo
mundo do Oriente Próximo, tais como: o “código” de Ur-Mammu (2070 a.C.), também
conhecido como “Código Sumério”; o código de leis de Lipit-Ishtar (1850 a.C.);
as leis babilônicas de Hamurabi (1792-1750 a.C.); as leis de Eshnunna; o Código
da Lei Assíria Média, o Código Hitita, além de leis do Egito. Séculos depois,
surgiram as leis do mundo greco-romano, do mundo judaico e do mundo cristão,
até os tempos modernos. Consideradas as muitas variações e diferenças
existentes nas leis de todos os povos, o que há de bom nas imperfeitas leis
humanas é inspira do na lei moral escrita no coração humano: “Toda boa dádiva e
todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há
mudança, nem sombra de variação” (Tg 1.17).
II - O FUNCIONAMENTO DA CONSCIÊNCIA
1. Acusação, defesa e julgamento
Como
já destacado, a consciência funciona como um órgão de acusação ou defesa, mas
também exerce função judicante (SI 51.3). A respeito do funcionamento da
consciência, o pastor Elienai apresenta quatro modos distintos de julgamento.
Em primeiro lugar, a consciência julga com total imparcialidade, não fazendo
acepção de pessoas ou aceitando qualquer tipo de discriminação. Em segundo
lugar, a consciência não aceita apelação. O seu julgamento é irrefutável,
absoluto e inapelável. Não faz alteração nos seus juízos, motivada por
bajulação contida em palavras bonitas e orações poéticas. Em terceiro, a
consciência julga nossas ações mediante os fatos. Não julga em cima de
especulações e suposições. Em quarto lugar, a consciência age individualmente.
A consciência de cada pessoa exerce juízo sobre os atos dela, e não de outrem
(ibid., p. 79-81).
A luz
de Gênesis 3.7, entendemos que a ação da consciência é exatamente tornar
conhecida a transgressão. Tão logo Adão e Eva pecaram, “foram abertos os olhos
de ambos, e conheceram que estavam nus”. O verbo “conhecer”,yada, traduz o
apontamento negativo feito pela consciência, reprovando a conduta do primeiro
casal. Antes do pecado, conheciam somente o bem e viviam em plena alegria e paz
(Gn 2.25). Ao pecarem, a consciência ecoou na alma (refletiu nos pensamentos e
sentimentos), como uma voz secreta e incômoda (3.7-10). Às vezes, essa
experiência é de dor no coração, como aconteceu com Davi após contar o povo (2
Sm 24.10). Uma consciência pesada produz males ao espírito, à alma e ao corpo
(SI 32.1-5). Como observa Brunelli, a ação acusativa da consciência gera um sentimento
que abate nosso ânimo, rouba nossa paz e traz a sensação de que alguma coisa
não saiu como devia, atormentando nossa mente; uma noção intrínseca de certo e
errado que grita em nossa alma e leva-nos tanto ao remorso quanto ao arrependimento;
a consciência atua como juíza, cumprindo o dever de culpar ou absolver a pessoa
(ibid., p. 68).
2. Vãs
justificativas
Desde
o exemplo de Adão e Eva, o ser humano costuma reagir com vãs justificativas
diante da ação acusativa da consciência, apesar de esse senso moral ser claro o
suficiente acerca da transgressão praticada. No caso do primeiro casal, Gênesis
3.7 diz que “foram abertos os olhos de ambos”, demonstrando, assim, uma
alteração cognitiva imediata — e não apenas cognitiva, mas também moral. Houve
uma experimentação imediata da malícia, antes inexistente em Adão e Eva. Ao
ouvir a voz do Criador, o casal escondeu-se com medo (Gn 3.8).
Mesmo
sabendo tudo o que Adão e Eva haviam feito, Deus dirigiu uma pergunta retórica
a Adão (3.11). O Criador apelou à própria consciência humana, porque ninguém,
senão ela, havia apontado o pecado de Adão. Assim, apesar de o texto não
mencionar a consciência, ali está ela agindo em vários momentos.
Em
Adão, a sua agência foi implacável, a ponto de ele não ter o que responder a
Deus. Estava patente a sua rebeldia. Impossibilitado de negar o seu pecado,
Adão fez o que se tornaria comum ao ser humano: tentou justificar-se,
certamente buscando aplacar a consciência (3.12). Eva seguiu o mesmo caminho,
culpando a serpente (3.13). Tentativas como essas são meros placebos: parecem
resolver, mas não trazem cura para a chaga do pecado. A consciência é
implacável e não cede a vãs formulações humanas, ainda que teológicas, como as
inclusivas (Rm 1.18-27; 2 Tm 4.3). A confissão e o afastamento do pecado são o
remédio eficaz para a alma (Pv 28.13; Tg 5.16).
3. O debate no tribunal
Quando
uma causa chega a um Tribunal são feitos debates entre acusação e defesa. No Tribunal
do Júri, onde há julgamento popular (sete pessoas do povo), são longas horas
ouvindo testemunhas, o depoimento do réu e as palavras da acusação (promotor
público) e da defesa (advogados do réu). Razões e mais razões são apresentadas
a fim de, ao final, alcançar-se um veredicto. Isso também acontece na
consciência, principalmente quando questões controvertidas são postas a exame.
Ela é como um tribunal que julga condutas, aprovando-as ou reprovando-as. A
consciência examina fatos do presente (At 23.1) e do passado (2 Sm 24.10; 1 Co
4.4), mas também exerce uma função de orientação de conduta em relação ao
futuro. Isso pode ser visto na expressão de Paulo, de que procurava conservar
uma consciência sem ofensa, ou seja, sem o registro de transgressões, contra
Deus e contra os homens (At 24.16).
Quadro
semelhante vemos em Davi. O senso moral e espiritual que ele tinha em relação
ao princípio de autoridade impediu-o de ferir a Saul (tempo presente), mas, em
caráter continuado, guardava o coração de fazê-lo no futuro. Por haver cortado
a orla do manto do rei de Israel, o belemita sentiu dor no coração e, cheio de
temor, rogava a Deus que o guardasse de estender a mão contra o monarca, por
ser este o escolhido e constituído pelo Senhor (1 Sm 24.6). Davi tinha uma
consciência ativa, que o permitia compreender a gravidade de violar o princípio
de autoridade A consciência não funciona de forma isolada ou sem relação às
demais faculdades do espírito e da alma. Em Romanos 2.15, Paulo trata do conhecimento
contido no coração (base moral) e dos pensamentos, como caixa de ressonância do
papel da consciência. De fato, a mente fica agitada quando a consciência age,
principalmente se acusando. Isso leva a longas horas de preocupação, que, não
raro, comprometem o sono. Em muitos outros casos, os males de uma consciência
com ofensa podem ser somatizados, isto é, sentidos no próprio corpo.
Que o
Senhor nos guarde de todo o pecado e nos conserve com uma consciência pura, sem
ofensa, diante dEle e dos homens.
III - A CONSCIÊNCIA É FALÍVEL
1. Defeitos da consciência
Como
tudo o mais que há no ser humano, a consciência também foi afetada pela Queda,
principalmente pela confusão de juízos e sentimentos que o homem passou a criar
por sua própria conta, fruto do seu imaginativo e maldoso coração: “E viu o
Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda
imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente” (Gn 6.5).
Apesar de ainda funcionar, a consciência humana passou a apresentar defeitos. E
isso pode agravar-se conforme a possuímos, principalmente se ignorarmos o seu
funcionamento, tentando manipulá-la. A Bíblia menciona consciências
defeituosas. A consciência cauterizada é aquela que se mostra insensível ao
pecado; que perde a sensibilidade para as coisas boas e corretas; significa a
neutralização de todo sentimento humano que qualquer criatura possui; a perda
da capacidade de distinguir entre o certo e errado, entre o que é puro e o que
é impuro, o profano e o sacro (Ef 4.19; 1 Tm 4.2): “A cauterização da consciência
pode acontecer mediante a persistência numa atitude de desobediência e a recusa
em dar ouvidos à sua voz (da consciência)” (Cabral, p. 111).
A
consciência fraca não é orientada corretamente pela verdade, tornando-se
legalista (1 Co 8.7-12). É imatura, hipersensível e vulnerável. E típica do cristão
que facilmente se escandaliza e chega a abandonar a fé. O crente de consciência
fraca vive preocupado com exterioridades terrenas e temporais em detrimento das
coisas mais sublimes e eternas, não conseguindo avaliar a sua vida pela Palavra
de Deus, porque está sempre preocupado com os outros cristãos e com o que eles
fazem (p. 113).
Cabral
ainda aborda a consciência contaminada ou corrompida (Tt 1.15), que é
“contagiada” por agentes externos, como um vírus contagia o corpo e pode
torná-lo doente. É a fraqueza da consciência que a faz corromper-se, como
escreveu Paulo: “Mas nem em todos há conhecimento; porque alguns até agora
comem, no seu costume para com o ídolo, coisas sacrificadas ao ídolo; e a sua
consciência, sendo fraca, fica contaminada” (1 Co 8.7). Para que não haja
contaminação, o cristão deve abster-se de tudo o que seja pecaminoso ou que
tenha dúvida acerca da sua licitude ou conveniência. O ensino de Paulo é
bastante elevado, porque chega a tratar da irrelevância espiritual de comer
alimentos sacrificados aos ídolos, pela ciência de que eles (os ídolos), na
verdade, nada são: “Para aqueles que sabiam que os ídolos não eram nada, Paulo
afirma o óbvio: Ingerir alimentos (mesmo comida sacrificada a ídolos) não torna
os crentes inaceitáveis perante Deus” (HOWARD, 2018, p. 1827).
Para a
consciência funcionar bem, é preciso que ela esteja corretamente educada e
cuidada à luz da genuína Palavra de Deus, no Espírito Santo (Rm 9.1; 1 Tm
1.5,19). Todo desequilíbrio é perigoso. A insensibilidade leva à complacência
com o pecado, e a hipersensibilidade produz extremismo, fazendo considerar tudo
como pecado. E é nesse campo que agem as seitas, manipulando e aprisionando
almas incautas, como faziam os falsos mestres do primeiro século (Cl 2.16-23).
O esclarecimento da consciência pela luz das Escrituras faz com que o fiel não
se prenda ao controle humano, fazendo-o viver nos limites da liberdade cristã.
Raymond Franz foi um destacado membro do
corpo governante das Testemunhas de Jeová na sua sede, nos Estados Unidos da
América, instituição a que pertenceu até os seus sessenta anos de idade. O seu
livro Crise de Consciência (2002) é um forte testemunho do que acontece com
milhões de pessoas ao redor do mundo, que se ligam aos chamados grupos heterodoxos,
ficando presas em função da consciência e práticas legalistas dessas entidades
religiosas. Em relação às Testemunhas de Jeová, Franz afirma que, no seu
processo de saída da organização, ficou evidente que os líderes da organização
não estavam dispostos a discutir pontos de dúvida em relação às Escrituras,
pois consideravam determinante a lealdade à organização e aos seus ensinos: “Na
mente dos interrogadores, a questão principal era, não a lealdade a Deus e à
sua Palavra, mas a lealdade à organização e aos seus ensinos” (p. 309). Toda
instituição que põe as suas normas acima das Escrituras apresenta
característica de seita, ainda que negue sê-la.
2.
Deus, o Supremo-Juiz
O
testemunho de Raymond Franz ilustra a fundamental necessidade de estudo e
ensino das Escrituras, no lar e na igreja para a correta formação da
consciência. Quanto mais a mente humana for iluminada pelo Espírito de
Deus, mais conhecerá o que está revelado na Bíblia, gerando firmeza na fé e
convicção da boa, agradável e perfeita vontade do Senhor para todas as áreas da
vida. O cristão que assim age deixa de ser presa fácil de heresias. Como ensina
Elienai Cabral (ibid., p. 134,135), “Se a nossa consciência for moldada na
Palavra de Deus, poderá produzir uma vida feliz. A Bíblia Sagrada é o melhor e
singular molde para a consciência cristã”. O processo de modelagem da
consciência, diz Cabral, envolve três práticas essenciais: (1) ler assiduamente
as Escrituras, (2) meditar nelas (refletir e concentrar a mente sobre certas
passagens) e (3) memorizar trechos ou versículos da Bíblia.
É preciso estar ciente, contudo, de que
mesmo nos esforçando para ter uma consciência plenamente eficaz, ficamos
isentos de engano ou mesmo de resistir ao reconhecimento de erros e pecados de
nossa parte. Por causa disso, a palavra final jamais deve ser nossa. Ainda que,
examinando nossa consciência, sejamos achados sem ofensa, devemos deixar que a
palavra final, o juízo absoluto ou definitivo, seja sempre do Supremo-Juiz, que
conhece todas as coisas. Como fazia Paulo: “Porque em nada me sinto culpado;
mas nem por isso me considero justificado, pois quem me julga é o Senhor” (1 Co
4.4).
Mesmo
com uma consciência pura, devemos estar humildemente submetidos a Deus para que
sejamos inteiramente examinados por Ele. Só Ele, o Supremo-Juiz, pode sondar
nosso interior e expor os mais profundos desígnios de nosso coração, mesmo os
que nos sejam ocultos (SI 19.12,13; 139.23,24;). Pela dureza de nosso coração, corremos
o risco de considerarmo-nos justos, mesmo estando em falta. As vezes, só o
confronto divino faz com que reconheçamos nossos pecados. Davi, por exemplo,
permaneceu insensível e rigoroso até ser repreendido pelo profeta Natã (2 Sm
12.1-13). Já Pedro precisou ouvir o canto do galo (Lc 22.54-62). Em suma: pecados
do espírito, como soberba e orgulho, são os que mais se escondem em nosso
íntimo (Pv 16.18).
CONCLUSÃO
Bendito seja Deus que nos deu a consciência,
pela qual podemos discer nir entre o certo e o errado, identificar erros e
acertos e rogar-lhe o perdão. É nosso dever preservar uma consciência sem
ofensa tanto para com Deus como para com os homens, como fazia Paulo. E
fundamental mantê-la viva e sempre renovada mediante o estudo contínuo da
Bíblia, nossa infalível regra de fé e prática (2 Tm 3.16,17). Se formos
acusados por ela, não nos esqueçamos de que o sangue de Cristo é poderoso para
purificar a cons ciência de todo aquele que, arrependido, confiar no poder do
seu sacrifício (Hb 9.14). Cheguemo-nos sempre a Ele com inteira certeza de fé
(10.22).
A Consciência — O Tribunal Interior | 83
Nenhum comentário:
Postar um comentário