TEXTO ÁUREO
“E não temais os que
matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer
perecer no inferno a alma e o corpo.”
(Mt 10.28).
VERDADE PRÁTICA
Cuidar da alma é uma atitude fundamental para uma
vida cristã estável e uma eternidade de alegria e paz.
LEITURA
BÍBLICA EM CLASSE
Gênesis
1.27,28; 2.15-17; Mateus 10.28.
Gênesis
1
27
— E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem
de Deus o criou; macho e fêmea os criou.
28
— E Deus os abençoou e Deus lhes disse:
Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre
os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move
sobre a terra.
Gênesis
2
15
— E tomou o Senhor Deus o homem e o pôs no
jardim do Éden para o lavrar e o guardar.
16
— E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo:
De toda árvore do jardim comerás livremente,
17
— mas da árvore da ciência do bem e do mal,
dela não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.
Mateus
10
28
— E não temais os que matam o corpo e não
podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno a
alma e o corpo.
PLANO
DE AULA
1.
INTRODUÇÃO
A presente lição o convida a aprofundar a
compreensão bíblica sobre a alma humana — sua natureza imaterial, atributos e
importância no relacionamento com Deus. Vivemos dias em que ideologias
materialistas negam a existência da alma e sua responsabilidade moral, tornando
esse ensino ainda mais urgente. Ensinar sobre a alma é reafirmar a verdade de
que fomos criados à imagem de Deus e chamados à santificação.
2.
APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO
A)
Objetivos da Lição: I)
Fazer os alunos compreenderem que a alma é a sede das emoções, da razão e da
vontade; II) Demonstrar aos alunos, com base bíblica, que a alma é uma parte
imaterial e imortal do ser humano, capacitando-os a refutar visões
materialistas; III) Conscientizar os alunos da necessidade de cultivar uma alma
saudável por meio da oração, da meditação na Palavra de Deus e de hábitos
santos.
B)
Motivação: Estudar a natureza
da alma fortalece a fé cristã ao revelar a dignidade e a responsabilidade do
ser humano diante de Deus. Em tempos de relativismo e materialismo, é essencial
reafirmar a verdade bíblica sobre a imortalidade da alma e sua necessidade de
salvação.
C)
Sugestão de Método: Para
iniciar a lição, proponha a seguinte pergunta: “O que faz você ser quem é, além
do corpo físico?”. Estimule os alunos a refletirem sobre suas emoções,
pensamentos, decisões e experiências espirituais. Em seguida, leia Mateus 10.28
em voz alta e destaque a distinção entre corpo e alma, conforme ensinado por
Jesus. Esse momento inicial criará um ambiente participativo, despertará o
interesse pelo tema e abrirá espaço para explorar biblicamente os atributos, a
natureza imaterial e a importância da alma no relacionamento com Deus e com o
próximo. Utilize imagens ou exemplos do cotidiano para tornar o conteúdo mais
acessível e significativo.
3.
CONCLUSÃO DA LIÇÃO
A)
Aplicação: Como seres criados
à imagem de Deus, com alma imortal, somos chamados a viver em santidade e
responsabilidade diante do Criador. Cuidar da alma é essencial para nossa
salvação e comunhão com Deus.
4.
SUBSÍDIO AO PROFESSOR
A)
Revista Ensinador Cristão. Vale
a pena conhecer essa revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e
subsídios de apoio à Lições Bíblicas Adultos. Na edição 103, p.38,
você encontrará um subsídio especial para esta lição.
B)
Auxílios Especiais: Ao
final do tópico, você encontrará auxílios que darão suporte na preparação de
sua aula: 1) O texto “A Alma e a Presença de Deus”, localizado depois do
primeiro tópico, aprofunda o assunto “Atributos da Alma”; 2) O texto “A Alma do
Homem não está no Sangue”, ao final do segundo tópico, aprofunda o assunto “A
Natureza da Alma: Imaterialidade e Imortalidade”.
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
Na primeira lição apresentamos um conceito
preliminar da alma, demonstrando seu lugar na tríplice constituição do homem.
Vimos que, junto do espírito e inseparável dele, a alma compõe a parte
imaterial ou espiritual do ser humano, que o torna uma pessoa, criado à imagem
de Deus. Nesta lição buscaremos nos aprofundar no conceito e distinção da alma,
estudando seus atributos e sua importância no relacionamento com Deus e com o
próximo.
Palavra-Chave:
ALMA
AUXÍLIO
BIBLIOLÓGICO
A ALMA E A PRESENÇA DE DEUS
“Assim como a
água é essencial para a vida física, Deus e a sua presença são essenciais para
a vida espiritual, e também para a máxima satisfação e plenitude em todos os
aspectos da vida. Aqueles que verdadeiramente confiam em Deus sentirão fome e
sede de ter um relacionamento mais profundo com Ele, de desfrutar do favor e da
atividade sobrenatural do Senhor em sua vida.
(1) Parar de sentir sede de Deus é o mesmo que
morrer espiritualmente. Não devemos permitir que nada tire o nosso desejo
intenso de conhecer a Deus e os seus propósitos. Precisamos evitar a distração
com preocupações, necessidades, sucessos, atrações e prazeres da vida. Essas
coisas podem bloquear a nossa sede de Deus e roubar de nós o desejo e a
disciplina necessários para buscar um relacionamento mais profundo com Ele
através da Palavra e da oração (Mc 4.19).
(2) Devemos orar para que o nosso desejo da
presença de Deus se torne mais profundo e mais forte. Isso vai requerer uma
abertura maior para a completa demonstração dos dons, da direção e do poder do
Espírito Santo (veja o quadro A OBRA DO ESPÍRITO SANTO, p.2147). A nossa paixão
por ver os propósitos de Cristo serem cumpridos na terra também deve se
intensificar até que ela nos leve à oração fervorosa e nos dê uma sede
espiritual, como um cervo que “brama pelas correntes das águas” em tempos de
seca (v.1; veja Mt 5.6; 6.33, notas)” (Bíblia de Estudo Pentecostal — Edição
Global. Rio de Janeiro: CPAD, 2022, p.945).
AMPLIANDO
O CONHECIMENTO
“ASPECTO DO SER HUMANO
A alma (heb.
nephesh; gr. psychē), frequentemente traduzida como ‘vida’, pode ser brevemente
definida como a parte não material do ser humano, que resulta da união de corpo
e espírito. Ela inclui a mente, as emoções e o livre-arbítrio. Juntamente com o
espírito humano, a alma continuará a viver quando a pessoa morrer fisicamente.
[...] A alma está tão intimamente conectada à personalidade interior que o
termo é usado, às vezes, como sinônimo de ‘pessoa’ (p.ex., Lv 4.2; 7.20; Js
20.3).” Amplie mais o seu conhecimento, lendo a Bíblia de Estudo Pentecostal
Edição Global, editada pela CPAD.
AUXÍLIO TEOLÓGICO
“A ALMA DO HOMEM NÃO ESTÁ NO SANGUE
Quando a
Bíblia, em Levítico 17.11, afirma: ‘a alma da carne está no sangue’, a palavra
‘alma’ está sendo usada como sinônimo de ‘vida’. Veja em Gênesis 9.4: ‘A carne,
porém, com sua vida, isto é, com seu sangue, não comereis’. A ideia de que o
sangue significa a alma do homem, abre a porta para muitas contradições.
Vejamos o texto de Apocalipse 6.9,10: ‘E, havendo aberto o quinto selo, vi
debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e
por amor do testemunho que deram. E clamavam com grande voz, dizendo: Até
quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos
que habitam sobre a terra?’. Se a alma fosse a mesma coisa que o sangue, como
então as almas poderiam estar no Paraíso, debaixo do altar, uma vez que o seu
sangue havia sido derramado sobre a terra?” (BERGSTÉN, Eurico. Teologia
Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, 2020, p.131).
SUBSÍDIOS ENSINADOR CRISTÃO
A ALMA — A NATUREZA IMATERIAL DO SER HUMANO
Nesta
lição, estudaremos sobre a alma, parte imaterial que constitui o ser humano. A
alma é o centro da razão, da emoção e da vontade. Tudo o que somos, pensamos e
fazemos é decorrente da nossa alma. Isso inclui a formação do nosso caráter.
Além de compreendermos os atributos da alma, precisamos nos ater aos cuidados
que devemos ter com a saúde dela. A Palavra de Deus nos adverte: “Sobre tudo o
que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da
vida” (Pv 4.23). Nesta passagem, como em outras do Antigo Testamento, a
expressão “coração” vem do hebraico leb e significa o ser interior, a mente, o
lugar dos desejos, das emoções e paixões humanas. O conselho de Provérbios para
o servo de Deus é ter cautela e não permitir que os enganos da natureza humana
superem o compromisso com a Palavra de Deus. Nesse sentido, todo aquele que
deseja fazer a vontade de Deus, deve submeter sua alma (coração) à disciplina
pautada pelas Escrituras Sagradas, e não por sua vontade própria. Jesus
ensinou: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a
sua cruz, e siga-me” (Lc 9.23). Logo, a alma humana, enquanto local de vontades
e desejos, tenderá a buscar as coisas que mais lhe agradam e trazem conforto.
Isso, muitas vezes, entra em oposição com a vontade de Deus, que é boa,
agradável e perfeita (cf. Rm 12.2).
Ainda de
acordo com o Dicionário Vine (CPAD): “O ‘coração’ é o lugar da consciência e do
caráter moral. Como é que a pessoa responde à revelação de Deus e do mundo que
o cerca? Jó responde: ‘Não me remorderá o meu coração em toda a minha vida’ (Jó
27.6). No lado oposto, ‘o coração doeu a Davi’ (2Sm 24.10). O ‘coração’ é a
fonte das ações humanas: ‘Em sinceridade do coração e em pureza das minhas
mãos, tenho feito isto’ (Gn 20.5,6). Davi andou ‘em verdade, e em justiça, e em
retidão de coração’ (1Rs 3.6) e Ezequias andou ‘com coração perfeito’ (Is 38.3)
diante de Deus. ‘Só aquele que é limpo de mãos e puro de coração’ (Sl 24.4)
pode ficar na presença de Deus. [...] O ‘coração’ representa o ser interior do
homem, o próprio homem. Neste sentido, é a fonte de tudo o que ele faz (Pv
4.4). Todos os seus pensamentos, desejos, palavras e ações fluem do fundo do
seu ser. Contudo, o homem não pode entender o próprio ‘coração’ (Jr 17.9). À
medida que o homem prossegue em seu próprio caminho, seu ‘coração’ fica cada
vez mais duro. Mas Deus circuncidará (cortará a impureza de) o ‘coração’ do seu
povo, de forma que ele venha a amá-lo e obedecê-lo de todo o seu ser (Dt 30.6)”
(2015, pp.83,84). Isto posto, que nosso coração seja nutrido com as virtudes do
Espírito Santo, de modo que tenhamos razão, sentimento e vontade guiados por
Deus.
CONCLUSÃO
O cristão precisa
viver em plena santificação, o que inclui a contínua rejeição de pensamentos,
sentimentos e desejos pecaminosos, mantendo pura a sua alma (1Pe 1.22; 1Jo
1.7). Atribui-se a Lutero a frase que diz: “Não podemos impedir que os pássaros
voem sobre as nossas cabeças, mas podemos impedir que eles façam ninhos sobre
elas”.
CPAD :
Espírito, Alma e Corpo — A restauração integral do ser humano para chegar à
estatura completa de Cristo
Comentarista:
Silas Queiroz
Lição
5: A Alma — A natureza imaterial do ser humano
INTRODUÇÃO
No Capítulo 1, fizemos uma abordagem
preliminar a respeito da alma quando tratamos da tríplice natureza do ser
humano. Destacamos que, na tricotomia, a alma aparece como integrante da parte
imaterial, distinta do espírito, porém inseparável dele. (Sobre essa
inseparabilidade, Timothy Munyon (1996, p. 248) cita Myer Pearlman, que afirma
que “alma e espírito são inseparáveis porque o espírito está entretecido na
própria textura da alma. Fundidos e caldeados numa só substância”. O pastor
Antonio Gilberto (2021, p. 1922) refere-se à distinção e à inseparabilidade
entre alma e espírito afirmando que eles interpenetram-se de modo profundo e
misterioso. O pastor Severino Pedro da Silva (1988, p. 142) também menciona a
unidade de substância e natureza e junção entre alma e espírito: “A alma humana
e o espírito são, de fato, duas substâncias espirituais formadas pelo sopro de
Deus (Gn 2.7; SI 33.15; Ec 12.7; Is 57.16; Zc 12.1; Hb 12.9), para que juntos
habitem no corpo humano”).
Essa comum composição e o caráter de
inseparabilidade em relação ao espírito são essenciais para o estudo da
natureza da alma, inclusive no que diz respeito à sua imortalidade, atributo
destacado por Jesus no texto introdutório deste capítulo. Nele o Senhor
menciona que a alma (1) está fora do alcance do homem em relação à morte (a
alma é imortal) e (2) que está sujeita a perecer eternamente no inferno. Como
veremos mais adiante, no texto de Mateus 10.28, assim como em diversos outros,
a referência à alma inclui necessariamente o espírito, assim como acontece em muitas
passagens relativas ao espírito, como Eclesiastes 12.7, que trata do destino
final da parte imaterial mencionando apenas o ruah (o espírito): “e o pó volte
à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu”. Feita essa
consideração inicial, passemos ao estudo da alma e os seus atributos.
I -
ATRIBUTOS DA ALMA
1. De volta ao Gênesis
As mais claras e fundamentais características
do ser humano estão presentes na descrição da sua formação contida no Gênesis.
Aliás, a literatura hebraica é rica, altamente espiritual e profunda, além de
ser mais ampla, dinâmica e integral em relação à visão grega, que tende a ser
mais racionalista e, portanto, mais fragmentada. Os textos hebraicos dedicam-
-se mais a apresentar o homem como uma unidade, como um todo, com mais
concretude e menos abstração, um expediente que é mais típico do pensamento
grego. Considerando as influências da epistemologia mo derna, cientificista e
antropocêntrica, Hans Walter Wolff (2007, p. 25) alerta para o perigo de
antropolizar-se a teologia se não estivermos abertos à compreensão teológica
dos fenômenos antropológicos, ou seja, se não buscarmos na própria Escritura os
fundamentos para nosso entendimento acerca do homem. Como diz Wolff,
Tanto no conjunto como nos pormenores, apenas
a exploração dos textos esclarecerá a função de uma antropologia bíblica.
Quanto mais conseguimos conhecer as questões, percepções e expectativas dos
autores dos escritos veterotestamentários tanto melhor poderemos precaver-nos
contra os perigos atuais de questionamentos estreitos demais ou a incompreensão
de problemas concretos; assim, contribuiremos para enfocar o essencial do ser
humano. *
O que Wolff está afirmando é que, no estudo da
antropologia bíblica, devemos sempre nos guiar pelo que nos diz as Escrituras,
considerando a sua natureza espiritual como Revelação divina, completa,
perfeita, inerrante, infalível e imutável. A Bíblia não é um livro de ciências
ou filosofia. Não se preocupa em satisfazer as especulações humanas, geralmente
dedicadas a formulações de meras teorias, cíclicas e superáveis, que mais
produzem confusão do que entendimento e edificação. Como Revelação completa, as
Escrituras Sagradas têm tanto a linguagem hebraica, com a sua característica
peculiar de perspectiva de mais integralidade e concretude, quanto a especificidade
de uma mente neotestamentária como a de Paulo. Profundo conhecedor dos textos
veterotestamentários, ele apresenta-os para nós com precisa linguagem
espiritual, assomados às revelações que recebeu (Ef 3.1 -8). Nenhuma influência
linguística ou cultural comprometeu a perfeição da Bíblia. Isso é reconfortante
em relação a todas as doutrinas nela contidas, inclusive a triunidade humana
(ver 2 Pe 1.21).
Alma e
imagem de Deus
Diferentemente dos animais, que foram criados
cada um segundo a sua espécie (Gn 1.24,25), o homem é um ser pessoal, criado à
imagem e semelhança de Deus. Portanto, o estudo da alma humana está diretamente
relacionado ao tema da “imagem de Deus”, considerando as suas faculdades
específicas e as que desempenha junto e através do espírito. O homem foi criado
com autoconsciência e autodeterminação, que é a capacidade “de dar respostas a
Deus, de perguntar a Deus, e ter comunhão com Deus e de amar a Deus” (HOEKEMA,
2018, p. 92). Entende-se que esse aspecto fundamental — de relacionamento com o
Criador — é a base do conceito da imago Dei, que inclui todas as
características pessoais dadas por Deus ao homem, a fim de que este se
relacionasse com aquEle em amor. O autor bíblico não se preocupa em explicar o
significado de “imagem de Deus”, apenas o apresenta. Nessa apresentação,
algumas questões estão implícitas, e outras, explícitas.
Em primeiro
lugar, ao decidir criar o homem à sua imagem, Deus outorgou-lhe parte dos seus
perfeitos atributos (os atributos comunicáveis), tais como amor, santidade,
justiça e bondade.1 Tais virtudes seriam empregadas pelo homem na sua vida
relacionai tanto com Deus quanto com o seu semelhante. Não há, portanto, como
prescindir dessas características ao considerar-se o que significa a “imagem de
Deus” no homem.
Em segundo lugar, verifica-se que a imagem de
Deus tinha como propósitos funcionais a procriação e o governo da terra. Para
tanto, o homem precisava ser dotado de habilidades específicas, também inerentes
à imagem divina nele plasmada. O Criador constituiu o homem como o seu
representante, dando-lhe poder de governo sobre toda a obra criada (Gn 1.28).
A capacidade de administração, compreensão e
decisão moral que o ser humano possui é resultado do caráter consciente e
autônomo da alma. De forma prática, Gênesis apresenta a missão laborativa
primordial dada a Adão, que era lavrar e guardar o jardim, o que
necessariamente exigia a concessão divina de aptidão intelectual compatível
(2.15). O aspecto da imagem também se apresenta na sua condição de discernir
entre o certo e o errado e fazer escolhas (2.16,17) e de dar nomes aos animais
(2.19). Outro aspecto — este ligado à disposição amorável do homem — é a sua
constituição afetiva, demonstrada na afirmação divina da necessidade de uma
companheira e na própria expressão de satisfação de Adão ao receber Eva, a
primeira composição poética da história humana, segundo alguns eruditos (Gn
2.18,23). Nesse resumo, são verificadas as três faculdades principais da alma,
que são: emoção ou sentimento, razão ou intelecto e volição ou vontade.
2.
Entre o espírito e o corpo
Como já visto, a alma do homem é a sua
personalidade ou distintivo pessoal. É a sede dos afetos, raciocínio, impulsos
e desejos, atributos que levam o ser humano a comunicar-se com Deus e com o
mundo físico, principalmente os seus semelhantes. Para ter comunhão com Deus, a
alma serve-se do espírito. Para a comunicação com o próximo, o veículo é o
corpo e os seus órgãos sensoriais (pele, olhos, ouvidos, nariz, boca).
Pode-se dizer, então, que a alma tem um
funcionamento intermediário, situando-se entre o espírito, que se conecta com
Deus, o Ser Divino, e o corpo, que se conecta com o mundo dos homens, a
realidade física em geral, incluindo os animais. Acerca dessa relação de
mediação feita pela alma, Gilberto (2021, p. 12) destaca a expressão da vida
espiritual, afirmando que o espírito é a fonte da vida recebida de Deus e que
usa e transmite essa vida à alma, que, por sua vez, a expressa por meio do
corpo, utilizando os sentidos físicos para explorar o mundo exterior e dele
receber as necessárias impressões.
Isso pode ser visto na experiência de Maria,
narrada no texto de Lucas 1.46,47. Nele, vemos a mãe de Jesus exultante após o
seu afetuoso e espiritual encontro com a prima Isabel, de cujo ventre saltou a
criança (que seria chamado João, o futuro João Batista). Cheia do Espírito
Santo, Isabel saúda Maria. O clima espiritual eleva-se, e ela irrompe em
cântico. O que temos aí? Maria expressa através do corpo a alegria que sentia
na sua alma, em profunda comunhão com Deus, por intermédio do seu espírito. E
uma típica cena da interação e comunicação entre alma e corpo e alma e espírito
e entre alma, espírito e corpo. E a unidade humana plenamente ativa.
3. A
alma abatida
A mesma interação entre os três elementos que
compõem a unidade humana pode ser vista em diversos textos bíblicos, como os
Salmos, que são ricos em expressão de sentimentos. O Salmo 42 é um dos
principais textos que contém essa exposição dos afetos da alma em relação a
Deus. Nele o salmista conversa consigo mesmo: “Por que estás abatida, ó minha alma, e por que
te perturbas em mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei na salvação da sua
presença” (SI 42.5). O contexto indica que o autor experimentava
aflição espiritual e alguma crise na sua comunhão com Deus (w. 4,9; 43.2), por
isso a sua alma estava entristecida e suspirava: “A minha alma tem sede de
Deus, do Deus vivo; quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus?” (v.
2).
No seu comentário ao Salmo 42, Matthew Henry
(2022, p. 43) aborda essa dinâmica espiritual da alma, que incluía a esperança
de uma mudança no espírito, sede da comunhão com Deus. Para Henry, a alma
expressava esperança de que ainda experimentaria uma mudança significativa na
sua situação, que não lhe faltaria motivo para louvar a Deus: “uma mudança tal
no meu espírito, que não me faltará louvor no coração”. São inquietações
espirituais que afligem a alma e que reclamam um reposicionamento em termos de
comunhão com Deus. O Salmo 84.2 também ilustra essa função da alma. Na sua
oração no Salmo 51, Davi fala da tristeza que afetava a sua alma e do anseio
por um espírito reto, voluntário e renovado, o que devolvería alegria à
integralidade do seu ser (SI 51.7-12). Esses textos mostram a alma como uma
espécie de centro condutor da ação humana, exatamente pela sua posição
intermediária entre espírito e corpo. Não sem razão, a alma é considerada o
“eu”, o “ego” (cfi, Brunelli, 2017, p. 59). Conforme Renovato (ibid., p. 271),
a “própria vida”, “o princípio vital da vida humana”.
II - A
NATUREZA DA ALMA: IMATERIALIDADE E IMORTALIDADE
1.
Distinção de substâncias
E extraordinário como o Mestre dos mestres
transmite tantas verdades profundas e irrefutáveis acerca da alma em um texto
tão curto. Jesus está encorajando os seus discípulos para o exercício da missão
de proclama ção do Reino de Deus, prevenindo-os de que encontrariam inúmeros
desafios, incluindo a morte. É nesse ponto que faz a diferenciação entre o
poder dos homens e o de Deus em relação à alma humana (ver Mt 10.28). A
passagem de Mateus 10.28 é um excelente fundamento para o estudo da alma como
parte da natureza imaterial do ser humano em termos da sua imortalidade.
As
profundas verdades espirituais reveladas por Jesus a respeito de nossa psyche
estão relacionadas a debates alimentados ao longo de toda a história, inclusive
no contexto da Igreja. Norman Geisler (2017, p. 40-44) apresenta um resumo de
várias perspectivas acerca da natureza humana e da sua relação com o corpo. Com
base no esboço feito por Geisler, seguem as principais perspectivas:
1)
Materialismo antropológico: afirma que os seres humanos têm um corpo, mas
nega que tenham uma alma imaterial. Segundo essa visão, somente o corpo existe;
o que se costuma chamar de alma racional, na verdade, não existe. O corpo
estaria para a mente (alma), assim como o cérebro está para um sonho; a mente
seria simplesmente uma manifestação da matéria.
2)
Epifenomenalismo antropológico: uma forma modificada de materialismo; o seu fundador afirmava que a
alma não passa de uma silhueta do corpo; o corpo estaria para a alma, assim
como a árvore está para a sua sombra.
3) Idealismo antropológico: é outro
extremo da teoria não-teísta do materialismo; considera que os seres humanos
têm uma alma, mas não um corpo. O corpo estaria, supostamente, para a alma como
uma miragem está para a mente. Seria meramente uma ilusão. Somente a mente
existe.
4)
Monismo antropológico: a visão de duplo aspecto segundo a qual alma e corpo
seriam dois lados (interno e externo) da mesma coisa. Alma e corpo são
substâncias, ou seja, a alma está para o corpo como um lado de um prato está
para outro, sendo somente um aspecto da mesma entidade.
5) Dualismo antropológico: considera
que alma e corpo são entidades separadas e paralelas. O problema com o Dualismo
é a falta de qualquer tipo de contato, unidade ou interação entre alma e corpo,
uma visão atribuída a Platão.
Expondo o engano presente em todas essas
teorias, o ensino de Cristo mostra a clara distinção de substâncias entre as
partes material e imaterial do homem, apesar da sua interação, inclusive na
eternidade. A parte material e tangível (o corpo, que pode perecer por ação
humana) e a parte imaterial e intangível (a alma, que não pode ser destruída
pelo homem). Como já destacado, esse é um dos textos nos quais alma ou espírito
aparecem re presentando o todo imaterial, devido ao caráter de inseparabilidade
entre ambos. Mas nele Jesus também trata da ressurreição do corpo, já que
aborda o seu sofrimento eterno, junto com alma.
2.
Imaterialidade e responsabilidade pessoal
Ao tratar do perecimento da alma e do corpo no
Inferno, Jesus refuta as concepções antropológicas materialistas existentes
desde a Antiguidade, como as mencionadas anteriormente. O que é relevante
ressaltar aqui é o reflexo dessas concepções em movimentos modernos, como o
marxismo, que, pregando que o homem resume-se à matéria, ignora a existência de
uma alma consciente após a morte (Lc 16.19-31). Isso faz dessa corrente mais do
que uma ideologia política, uma vez que o seu ateísmo nega a pecaminosidade e a
responsabilidade moral do indivíduo. Considera que o mal é estrutural; que a
culpa é da sociedade; que as pessoas individualmente são vítimas de estruturas
opressoras. Os marxistas identificam pecados sociais, mas não individuais.
Embora se
saiba que, em conjunto, a sociedade também é capaz de for mar estruturas
corruptas e opressoras, ainda assim isso não passa da reunião de culpas
pessoais, como bem observam César Moisés Carvalho e Céfora Carvalho (2022, p.
1505): “Identificar uma estrutura pecaminosa em nossa realidade não exclui a
culpa de cada indivíduo; muito pelo contrário, ajuda a trazer ainda mais
profundidade a esse conceito”. O grande problema de ver-se apenas os problemas
das estruturas sociais é que isso leva a desconsiderar a necessidade de arrependimento,
conversão e salvação pessoal e mantém as almas dos seus adeptos no caminho da
perdição eterna (At 3.19; Jo 17.3).
Há, também, o terrível engano de imaginar-se
que é possível desfazer essas estruturas pecaminosas através do engajamento
político. Na verdade, toda ideologia humana que promete solução para os
problemas do homem por meio de doutrinas sociais, políticas ou econômicas não
passa de uma proposta humana falível. Sabemos, porém, que o único caminho
eficaz para a libertação do pecado é o arrependimento e a conversão do
indivíduo pela fé em Cristo como Salvador e Senhor. O avanço desse processo de
salvação em cada pessoa e de pessoa a pessoa é que pode influenciar a
sociedade; ainda assim, sempre haverá uma geração perversa de cujo modelo de
vida devemos escapar (At 2.40).
3.
Materialismo e teologia
A medida que avança na política secular, a
visão antropológica materia lista também se infiltra e molda teologias,
alterando, e muito, as concepções relativas principalmente ao que é a missão da
Igreja, a ortopraxia, a prática correta a ser adotada pelos seguidores de
Jesus. No campo católico, inspirou a Teologia da Libertação, surgida na América
Latina na década de 1960. Diante da inequívoca influência da concepção
antropológica materialista do marxismo, a Teologia da Libertação concentra-se
em fatores políticos, econômicos e sociais na sua luta pelo que entende ser
justiça social. A sua proposta, contudo, não passa de um aprofundamento da
deturpação do sentido de igreja feito pelo catolicismo de muitas maneiras ao
longo da história.
O protestantismo também tem os seus próprios
movimentos teológico-político-ideológicos, que alteram a sua missão,
afastando-se da dependência de Deus e do poder do Espírito para confiar em
estruturas humanas. Geralmente se considera que, nos tempos modernos, esse
movimento de mudança radical de visão missiológica tem como um dos pontos de
partida a publicação do livro Nos Seus Passos o que Faria Jesus, de Charles M.
Sheldon, em 1896, visto como um fato de grande incentivo para uma guinada de
muitas denomi nações para o Evangelho Social.2 Na década de 1970, surgiu a
Teologia da Missão Integral, que também se alimenta de concepções
socioeconômicas e políticas comuns ao marxismo, que, por sua vez, tem como
fundamento o ideário antropológico materialista histórico, que busca tirar Deus
do cenário humano e instigar as lutas de classes.
Toda
negação da condição pecaminosa do homem é, no mínimo, um ateísmo prático,
independentemente do viés que assuma (Lm 3.39; Tt 1.16). Outras teologias
surgiram dessa visão humanista e fracionária da busca por “libertação” de
“estruturas opressoras”, como, por exemplo, a Teologia Negra e a Teologia
Feminista, que também são enquadradas como teologias da libertação. Por isso, pertencem
ao mesmo campo pernicioso (Lc 11.17; 1 Co 14.33). O materialismo tem-se
incorporado também à cultura popular de muitas maneiras, como através de
crenças refletidas em frases bem conhe cidas, como “Aqui se faz, aqui se paga!”
e “Morreu, acabou!”. Isso ignora a imortalidade da alma, que Jesus reafirmou em
Mateus 10.28.
III - ALMA RENOVADA E SUBMISSA A DEUS
1.
Edificação e saúde
Conhecer os atributos da alma, a sua importância
e natureza deve estimular-nos a dar-lhe mais valor e devotar-lhe o devido
cuidado. Jesus contou a parábola do rico insensato, que se preocupou com o
ajuntamento de bens materiais, mas descuidou-se do cuidado da alma (Lc
12.13-21). A corrida de senfreada às coisas da vida é um dos fatores de frieza
e adoecimento espiritual. Para não ser vítima desse terrível mal, é preciso
fazer escolhas certas, renunciar aos tesouros da terra e trabalhar para ajuntar
tesouros no céu (Mt 6.19).
A
ansiedade é um dos problemas da alma mais recorrentes em nossos dias e costuma
desencadear transtornos mentais graves. Como escreve a psicóloga Elaine Cruz
(2020, p. 134),
Na
ansiedade ocorre o desequilíbrio de certas substâncias químicas no cérebro,
chamadas neurotransmissores. Destes, dois neurotransmissores, chamados
serotonina e noradrenalina, estão relacionados aos transtornos de ansiedade.
Quando o nível de serotonina cai e os níveis de noradrenalina se elevam,
podemos ter um quadro de ansiedade, que pode ser situacional e passageira, ou
persistente.
Além
de decidir não viver em torno das demandas terrenas, orar é fundamental para
vencer a ansiedade e ter uma alma cheia de paz (Fp 4.6,7). Na verdade, não se
imagina que tenhamos força para vencer as tentações deste mundo sem a oração. O
apóstolo Pedro escreveu que devemos lançar sobre Deus toda a nossa ansiedade,
porque Ele tem cuidado de nós (1 Pe 5.7). É o Senhor que nos dá paz e protege
nossas emoções e pensamentos (Fp 4.7) e que também nos guia no caminho da sua
vontade (Cl 3.15). Fatores espirituais, ambientais e relacionais sempre devem
ser buscados antes de outros recursos, como é o caso do uso de medicamentos, em
relação ao qual sempre é preciso ter a devida cautela, como afirmamos no
Capítulo 1. Aliás, no caso da ansiedade, a dra. Elaine Cruz observa:
Quando a ansiedade perdura por seis meses no
mínimo, causando sofrimento pessoal ou familiar, sendo desproporcional e
irracional, podemos estar diante de um quadro ansiolítico ou TAG — Trans torno
de Ansiedade Generalizada —, cuja incidência é maior nas mulheres. Nesse caso,
é importante um diagnóstico clínico realizado por um profissional de saúde,
podendo até mesmo ser necessário o uso de medicamentos ansiolíticos (ibid., p.
134).
2.
Purificação e renovação
Uma
condição fundamental para uma vida cristã dinâmica é o cristão apresentar a sua
alma diariamente a Deus para que seja purificada e viva em constante renovação.
E, para conservar a alma pura e renovada, precisamos cuidar das fontes às quais
diariamente expomos nossos sentidos. O que falamos, o que ouvimos, o que lemos
e vemos pode determinar nosso estado interior. O Salmo 1 ensina-nos que devemos
sempre nos esquivar dos que proferem maus conselhos, praticam maldades, vivem
afastados de Deus e zombam do que é sagrado. Não é incomum que isso seja feito
em filmes, séries, programas de TV e redes sociais. Abster-se dessas fontes e
dedicar-se à meditação na Palavra de Deus é cuidar da alma. Ainda quanto à
mordo mia desse nosso ente imaterial, a Bíblia adverte-nos dos maus pensamentos
(Mt 15.19), dos desejos impuros e perversos (Pv 21.10; Tg 1.14,15) e das
intenções e inclinações malignas (Nm 21.5; 1 Pe 2.1).
CONCLUSÃO
Pensar
na imortalidade da alma deve produzir em nós um temor maior e levar-nos a uma
vida mais zelosa em relação a nossos pensamentos, sen timentos e vontades, que
devem sempre ser conduzidos segundo a vontade de Deus. Embora não tenhamos um
controle absoluto dessas faculdades, com a graça de Deus podemos ter nosso
coração guardado por Cristo Jesus e uma contínua purificação pelo seu sangue (1
Pe 1.22; 1 Jo 1.7). O que não podemos é entregar nossa alma a qualquer tipo de
pecado, ainda que em pensamentos. Atribui-se a Lutero a frase que diz: “Não
podemos impedir que os pássaros voem sobre nossas cabeças, mas podemos impedir
que eles façam ninhos sobre elas”.
74 | Corpo, Alma e Espírito
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