quinta-feira, 30 de outubro de 2025

CPAD : Espírito, Alma e Corpo — Lição 5: A Alma — A natureza imaterial do ser humano

 


TEXTO ÁUREO

E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo.

(Mt 10.28).

VERDADE PRÁTICA

Cuidar da alma é uma atitude fundamental para uma vida cristã estável e uma eternidade de alegria e paz.

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE

Gênesis 1.27,28; 2.15-17; Mateus 10.28. 

Gênesis 1

27 — E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou.

28 — E Deus os abençoou e Deus lhes disse: Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.

Gênesis 2

15 — E tomou o Senhor Deus o homem e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar.

16 — E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim comerás livremente,

17 — mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.

Mateus 10

28 — E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo.

PLANO DE AULA

 

1. INTRODUÇÃO

A presente lição o convida a aprofundar a compreensão bíblica sobre a alma humana — sua natureza imaterial, atributos e importância no relacionamento com Deus. Vivemos dias em que ideologias materialistas negam a existência da alma e sua responsabilidade moral, tornando esse ensino ainda mais urgente. Ensinar sobre a alma é reafirmar a verdade de que fomos criados à imagem de Deus e chamados à santificação.

2. APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO

A) Objetivos da Lição: I) Fazer os alunos compreenderem que a alma é a sede das emoções, da razão e da vontade; II) Demonstrar aos alunos, com base bíblica, que a alma é uma parte imaterial e imortal do ser humano, capacitando-os a refutar visões materialistas; III) Conscientizar os alunos da necessidade de cultivar uma alma saudável por meio da oração, da meditação na Palavra de Deus e de hábitos santos.

B) Motivação: Estudar a natureza da alma fortalece a fé cristã ao revelar a dignidade e a responsabilidade do ser humano diante de Deus. Em tempos de relativismo e materialismo, é essencial reafirmar a verdade bíblica sobre a imortalidade da alma e sua necessidade de salvação.

C) Sugestão de Método: Para iniciar a lição, proponha a seguinte pergunta: “O que faz você ser quem é, além do corpo físico?”. Estimule os alunos a refletirem sobre suas emoções, pensamentos, decisões e experiências espirituais. Em seguida, leia Mateus 10.28 em voz alta e destaque a distinção entre corpo e alma, conforme ensinado por Jesus. Esse momento inicial criará um ambiente participativo, despertará o interesse pelo tema e abrirá espaço para explorar biblicamente os atributos, a natureza imaterial e a importância da alma no relacionamento com Deus e com o próximo. Utilize imagens ou exemplos do cotidiano para tornar o conteúdo mais acessível e significativo.

3. CONCLUSÃO DA LIÇÃO

A) Aplicação: Como seres criados à imagem de Deus, com alma imortal, somos chamados a viver em santidade e responsabilidade diante do Criador. Cuidar da alma é essencial para nossa salvação e comunhão com Deus.

4. SUBSÍDIO AO PROFESSOR

A) Revista Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e subsídios de apoio à Lições Bíblicas Adultos. Na edição 103, p.38, você encontrará um subsídio especial para esta lição.

B) Auxílios Especiais: Ao final do tópico, você encontrará auxílios que darão suporte na preparação de sua aula: 1) O texto “A Alma e a Presença de Deus”, localizado depois do primeiro tópico, aprofunda o assunto “Atributos da Alma”; 2) O texto “A Alma do Homem não está no Sangue”, ao final do segundo tópico, aprofunda o assunto “A Natureza da Alma: Imaterialidade e Imortalidade”.

COMENTÁRIO

INTRODUÇÃO

Na primeira lição apresentamos um conceito preliminar da alma, demonstrando seu lugar na tríplice constituição do homem. Vimos que, junto do espírito e inseparável dele, a alma compõe a parte imaterial ou espiritual do ser humano, que o torna uma pessoa, criado à imagem de Deus. Nesta lição buscaremos nos aprofundar no conceito e distinção da alma, estudando seus atributos e sua importância no relacionamento com Deus e com o próximo.

Palavra-Chave:

ALMA

 AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO

 A ALMA E A PRESENÇA DE DEUS

 “Assim como a água é essencial para a vida física, Deus e a sua presença são essenciais para a vida espiritual, e também para a máxima satisfação e plenitude em todos os aspectos da vida. Aqueles que verdadeiramente confiam em Deus sentirão fome e sede de ter um relacionamento mais profundo com Ele, de desfrutar do favor e da atividade sobrenatural do Senhor em sua vida.

   (1) Parar de sentir sede de Deus é o mesmo que morrer espiritualmente. Não devemos permitir que nada tire o nosso desejo intenso de conhecer a Deus e os seus propósitos. Precisamos evitar a distração com preocupações, necessidades, sucessos, atrações e prazeres da vida. Essas coisas podem bloquear a nossa sede de Deus e roubar de nós o desejo e a disciplina necessários para buscar um relacionamento mais profundo com Ele através da Palavra e da oração (Mc 4.19).

   (2) Devemos orar para que o nosso desejo da presença de Deus se torne mais profundo e mais forte. Isso vai requerer uma abertura maior para a completa demonstração dos dons, da direção e do poder do Espírito Santo (veja o quadro A OBRA DO ESPÍRITO SANTO, p.2147). A nossa paixão por ver os propósitos de Cristo serem cumpridos na terra também deve se intensificar até que ela nos leve à oração fervorosa e nos dê uma sede espiritual, como um cervo que “brama pelas correntes das águas” em tempos de seca (v.1; veja Mt 5.6; 6.33, notas)” (Bíblia de Estudo Pentecostal — Edição Global. Rio de Janeiro: CPAD, 2022, p.945).

  AMPLIANDO O CONHECIMENTO

 “ASPECTO DO SER HUMANO

  A alma (heb. nephesh; gr. psychē), frequentemente traduzida como ‘vida’, pode ser brevemente definida como a parte não material do ser humano, que resulta da união de corpo e espírito. Ela inclui a mente, as emoções e o livre-arbítrio. Juntamente com o espírito humano, a alma continuará a viver quando a pessoa morrer fisicamente. [...] A alma está tão intimamente conectada à personalidade interior que o termo é usado, às vezes, como sinônimo de ‘pessoa’ (p.ex., Lv 4.2; 7.20; Js 20.3).” Amplie mais o seu conhecimento, lendo a Bíblia de Estudo Pentecostal Edição Global, editada pela CPAD.

  AUXÍLIO TEOLÓGICO

 

 

 

 

 

  “A ALMA DO HOMEM NÃO ESTÁ NO SANGUE

   Quando a Bíblia, em Levítico 17.11, afirma: ‘a alma da carne está no sangue’, a palavra ‘alma’ está sendo usada como sinônimo de ‘vida’. Veja em Gênesis 9.4: ‘A carne, porém, com sua vida, isto é, com seu sangue, não comereis’. A ideia de que o sangue significa a alma do homem, abre a porta para muitas contradições. Vejamos o texto de Apocalipse 6.9,10: ‘E, havendo aberto o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram. E clamavam com grande voz, dizendo: Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?’. Se a alma fosse a mesma coisa que o sangue, como então as almas poderiam estar no Paraíso, debaixo do altar, uma vez que o seu sangue havia sido derramado sobre a terra?” (BERGSTÉN, Eurico. Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, 2020, p.131).

  SUBSÍDIOS ENSINADOR CRISTÃO

  A ALMA — A NATUREZA IMATERIAL DO SER HUMANO

   Nesta lição, estudaremos sobre a alma, parte imaterial que constitui o ser humano. A alma é o centro da razão, da emoção e da vontade. Tudo o que somos, pensamos e fazemos é decorrente da nossa alma. Isso inclui a formação do nosso caráter. Além de compreendermos os atributos da alma, precisamos nos ater aos cuidados que devemos ter com a saúde dela. A Palavra de Deus nos adverte: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida” (Pv 4.23). Nesta passagem, como em outras do Antigo Testamento, a expressão “coração” vem do hebraico leb e significa o ser interior, a mente, o lugar dos desejos, das emoções e paixões humanas. O conselho de Provérbios para o servo de Deus é ter cautela e não permitir que os enganos da natureza humana superem o compromisso com a Palavra de Deus. Nesse sentido, todo aquele que deseja fazer a vontade de Deus, deve submeter sua alma (coração) à disciplina pautada pelas Escrituras Sagradas, e não por sua vontade própria. Jesus ensinou: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me” (Lc 9.23). Logo, a alma humana, enquanto local de vontades e desejos, tenderá a buscar as coisas que mais lhe agradam e trazem conforto. Isso, muitas vezes, entra em oposição com a vontade de Deus, que é boa, agradável e perfeita (cf. Rm 12.2).

   Ainda de acordo com o Dicionário Vine (CPAD): “O ‘coração’ é o lugar da consciência e do caráter moral. Como é que a pessoa responde à revelação de Deus e do mundo que o cerca? Jó responde: ‘Não me remorderá o meu coração em toda a minha vida’ (Jó 27.6). No lado oposto, ‘o coração doeu a Davi’ (2Sm 24.10). O ‘coração’ é a fonte das ações humanas: ‘Em sinceridade do coração e em pureza das minhas mãos, tenho feito isto’ (Gn 20.5,6). Davi andou ‘em verdade, e em justiça, e em retidão de coração’ (1Rs 3.6) e Ezequias andou ‘com coração perfeito’ (Is 38.3) diante de Deus. ‘Só aquele que é limpo de mãos e puro de coração’ (Sl 24.4) pode ficar na presença de Deus. [...] O ‘coração’ representa o ser interior do homem, o próprio homem. Neste sentido, é a fonte de tudo o que ele faz (Pv 4.4). Todos os seus pensamentos, desejos, palavras e ações fluem do fundo do seu ser. Contudo, o homem não pode entender o próprio ‘coração’ (Jr 17.9). À medida que o homem prossegue em seu próprio caminho, seu ‘coração’ fica cada vez mais duro. Mas Deus circuncidará (cortará a impureza de) o ‘coração’ do seu povo, de forma que ele venha a amá-lo e obedecê-lo de todo o seu ser (Dt 30.6)” (2015, pp.83,84). Isto posto, que nosso coração seja nutrido com as virtudes do Espírito Santo, de modo que tenhamos razão, sentimento e vontade guiados por Deus.

CONCLUSÃO

  O cristão precisa viver em plena santificação, o que inclui a contínua rejeição de pensamentos, sentimentos e desejos pecaminosos, mantendo pura a sua alma (1Pe 1.22; 1Jo 1.7). Atribui-se a Lutero a frase que diz: “Não podemos impedir que os pássaros voem sobre as nossas cabeças, mas podemos impedir que eles façam ninhos sobre elas”.

   


CPAD : Espírito, Alma e Corpo — A restauração integral do ser humano para chegar à estatura completa de Cristo

Comentarista: Silas Queiroz

Lição 5: A Alma — A natureza imaterial do ser humano

 

  INTRODUÇÃO

   No Capítulo 1, fizemos uma abordagem preliminar a respeito da alma quando tratamos da tríplice natureza do ser humano. Destacamos que, na tricotomia, a alma aparece como integrante da parte imaterial, distinta do espírito, porém inseparável dele. (Sobre essa inseparabilidade, Timothy Munyon (1996, p. 248) cita Myer Pearlman, que afirma que “alma e espírito são inseparáveis porque o espírito está entretecido na própria textura da alma. Fundidos e caldeados numa só substância”. O pastor Antonio Gilberto (2021, p. 1922) refere-se à distinção e à inseparabilidade entre alma e espírito afirmando que eles interpenetram-se de modo profundo e misterioso. O pastor Severino Pedro da Silva (1988, p. 142) também menciona a unidade de substância e natureza e junção entre alma e espírito: “A alma humana e o espírito são, de fato, duas substâncias espirituais formadas pelo sopro de Deus (Gn 2.7; SI 33.15; Ec 12.7; Is 57.16; Zc 12.1; Hb 12.9), para que juntos habitem no corpo humano”).

   Essa comum composição e o caráter de inseparabilidade em relação ao espírito são essenciais para o estudo da natureza da alma, inclusive no que diz respeito à sua imortalidade, atributo destacado por Jesus no texto introdutório deste capítulo. Nele o Senhor menciona que a alma (1) está fora do alcance do homem em relação à morte (a alma é imortal) e (2) que está sujeita a perecer eternamente no inferno. Como veremos mais adiante, no texto de Mateus 10.28, assim como em diversos outros, a referência à alma inclui necessariamente o espírito, assim como acontece em muitas passagens relativas ao espírito, como Eclesiastes 12.7, que trata do destino final da parte imaterial mencionando apenas o ruah (o espírito): “e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu”. Feita essa consideração inicial, passemos ao estudo da alma e os seus atributos.

  I - ATRIBUTOS DA ALMA

  1. De volta ao Gênesis

   As mais claras e fundamentais características do ser humano estão presentes na descrição da sua formação contida no Gênesis. Aliás, a literatura hebraica é rica, altamente espiritual e profunda, além de ser mais ampla, dinâmica e integral em relação à visão grega, que tende a ser mais racionalista e, portanto, mais fragmentada. Os textos hebraicos dedicam- -se mais a apresentar o homem como uma unidade, como um todo, com mais concretude e menos abstração, um expediente que é mais típico do pensamento grego. Considerando as influências da epistemologia mo derna, cientificista e antropocêntrica, Hans Walter Wolff (2007, p. 25) alerta para o perigo de antropolizar-se a teologia se não estivermos abertos à compreensão teológica dos fenômenos antropológicos, ou seja, se não buscarmos na própria Escritura os fundamentos para nosso entendimento acerca do homem. Como diz Wolff,

  Tanto no conjunto como nos pormenores, apenas a exploração dos textos esclarecerá a função de uma antropologia bíblica. Quanto mais conseguimos conhecer as questões, percepções e expectativas dos autores dos escritos veterotestamentários tanto melhor poderemos precaver-nos contra os perigos atuais de questionamentos estreitos demais ou a incompreensão de problemas concretos; assim, contribuiremos para enfocar o essencial do ser humano. *

   O que Wolff está afirmando é que, no estudo da antropologia bíblica, devemos sempre nos guiar pelo que nos diz as Escrituras, considerando a sua natureza espiritual como Revelação divina, completa, perfeita, inerrante, infalível e imutável. A Bíblia não é um livro de ciências ou filosofia. Não se preocupa em satisfazer as especulações humanas, geralmente dedicadas a formulações de meras teorias, cíclicas e superáveis, que mais produzem confusão do que entendimento e edificação. Como Revelação completa, as Escrituras Sagradas têm tanto a linguagem hebraica, com a sua característica peculiar de perspectiva de mais integralidade e concretude, quanto a especificidade de uma mente neotestamentária como a de Paulo. Profundo conhecedor dos textos veterotestamentários, ele apresenta-os para nós com precisa linguagem espiritual, assomados às revelações que recebeu (Ef 3.1 -8). Nenhuma influência linguística ou cultural comprometeu a perfeição da Bíblia. Isso é reconfortante em relação a todas as doutrinas nela contidas, inclusive a triunidade humana (ver 2 Pe 1.21).

  Alma e imagem de Deus

   Diferentemente dos animais, que foram criados cada um segundo a sua espécie (Gn 1.24,25), o homem é um ser pessoal, criado à imagem e semelhança de Deus. Portanto, o estudo da alma humana está diretamente relacionado ao tema da “imagem de Deus”, considerando as suas faculdades específicas e as que desempenha junto e através do espírito. O homem foi criado com autoconsciência e autodeterminação, que é a capacidade “de dar respostas a Deus, de perguntar a Deus, e ter comunhão com Deus e de amar a Deus” (HOEKEMA, 2018, p. 92). Entende-se que esse aspecto fundamental — de relacionamento com o Criador — é a base do conceito da imago Dei, que inclui todas as características pessoais dadas por Deus ao homem, a fim de que este se relacionasse com aquEle em amor. O autor bíblico não se preocupa em explicar o significado de “imagem de Deus”, apenas o apresenta. Nessa apresentação, algumas questões estão implícitas, e outras, explícitas.

   Em primeiro lugar, ao decidir criar o homem à sua imagem, Deus outorgou-lhe parte dos seus perfeitos atributos (os atributos comunicáveis), tais como amor, santidade, justiça e bondade.1 Tais virtudes seriam empregadas pelo homem na sua vida relacionai tanto com Deus quanto com o seu semelhante. Não há, portanto, como prescindir dessas características ao considerar-se o que significa a “imagem de Deus” no homem.

   Em segundo lugar, verifica-se que a imagem de Deus tinha como propósitos funcionais a procriação e o governo da terra. Para tanto, o homem precisava ser dotado de habilidades específicas, também inerentes à imagem divina nele plasmada. O Criador constituiu o homem como o seu representante, dando-lhe poder de governo sobre toda a obra criada (Gn 1.28).

   A capacidade de administração, compreensão e decisão moral que o ser humano possui é resultado do caráter consciente e autônomo da alma. De forma prática, Gênesis apresenta a missão laborativa primordial dada a Adão, que era lavrar e guardar o jardim, o que necessariamente exigia a concessão divina de aptidão intelectual compatível (2.15). O aspecto da imagem também se apresenta na sua condição de discernir entre o certo e o errado e fazer escolhas (2.16,17) e de dar nomes aos animais (2.19). Outro aspecto — este ligado à disposição amorável do homem — é a sua constituição afetiva, demonstrada na afirmação divina da necessidade de uma companheira e na própria expressão de satisfação de Adão ao receber Eva, a primeira composição poética da história humana, segundo alguns eruditos (Gn 2.18,23). Nesse resumo, são verificadas as três faculdades principais da alma, que são: emoção ou sentimento, razão ou intelecto e volição ou vontade.

  2. Entre o espírito e o corpo

   Como já visto, a alma do homem é a sua personalidade ou distintivo pessoal. É a sede dos afetos, raciocínio, impulsos e desejos, atributos que levam o ser humano a comunicar-se com Deus e com o mundo físico, principalmente os seus semelhantes. Para ter comunhão com Deus, a alma serve-se do espírito. Para a comunicação com o próximo, o veículo é o corpo e os seus órgãos sensoriais (pele, olhos, ouvidos, nariz, boca).

   Pode-se dizer, então, que a alma tem um funcionamento intermediário, situando-se entre o espírito, que se conecta com Deus, o Ser Divino, e o corpo, que se conecta com o mundo dos homens, a realidade física em geral, incluindo os animais. Acerca dessa relação de mediação feita pela alma, Gilberto (2021, p. 12) destaca a expressão da vida espiritual, afirmando que o espírito é a fonte da vida recebida de Deus e que usa e transmite essa vida à alma, que, por sua vez, a expressa por meio do corpo, utilizando os sentidos físicos para explorar o mundo exterior e dele receber as necessárias impressões.

   Isso pode ser visto na experiência de Maria, narrada no texto de Lucas 1.46,47. Nele, vemos a mãe de Jesus exultante após o seu afetuoso e espiritual encontro com a prima Isabel, de cujo ventre saltou a criança (que seria chamado João, o futuro João Batista). Cheia do Espírito Santo, Isabel saúda Maria. O clima espiritual eleva-se, e ela irrompe em cântico. O que temos aí? Maria expressa através do corpo a alegria que sentia na sua alma, em profunda comunhão com Deus, por intermédio do seu espírito. E uma típica cena da interação e comunicação entre alma e corpo e alma e espírito e entre alma, espírito e corpo. E a unidade humana plenamente ativa.

  3. A alma abatida

   A mesma interação entre os três elementos que compõem a unidade humana pode ser vista em diversos textos bíblicos, como os Salmos, que são ricos em expressão de sentimentos. O Salmo 42 é um dos principais textos que contém essa exposição dos afetos da alma em relação a Deus. Nele o salmista conversa consigo mesmo: “Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas em mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei na salvação da sua presença” (SI 42.5). O contexto indica que o autor experimentava aflição espiritual e alguma crise na sua comunhão com Deus (w. 4,9; 43.2), por isso a sua alma estava entristecida e suspirava: “A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus?” (v. 2).

   No seu comentário ao Salmo 42, Matthew Henry (2022, p. 43) aborda essa dinâmica espiritual da alma, que incluía a esperança de uma mudança no espírito, sede da comunhão com Deus. Para Henry, a alma expressava esperança de que ainda experimentaria uma mudança significativa na sua situação, que não lhe faltaria motivo para louvar a Deus: “uma mudança tal no meu espírito, que não me faltará louvor no coração”. São inquietações espirituais que afligem a alma e que reclamam um reposicionamento em termos de comunhão com Deus. O Salmo 84.2 também ilustra essa função da alma. Na sua oração no Salmo 51, Davi fala da tristeza que afetava a sua alma e do anseio por um espírito reto, voluntário e renovado, o que devolvería alegria à integralidade do seu ser (SI 51.7-12). Esses textos mostram a alma como uma espécie de centro condutor da ação humana, exatamente pela sua posição intermediária entre espírito e corpo. Não sem razão, a alma é considerada o “eu”, o “ego” (cfi, Brunelli, 2017, p. 59). Conforme Renovato (ibid., p. 271), a “própria vida”, “o princípio vital da vida humana”.

   II - A NATUREZA DA ALMA: IMATERIALIDADE E IMORTALIDADE

   1. Distinção de substâncias

   E extraordinário como o Mestre dos mestres transmite tantas verdades profundas e irrefutáveis acerca da alma em um texto tão curto. Jesus está encorajando os seus discípulos para o exercício da missão de proclama ção do Reino de Deus, prevenindo-os de que encontrariam inúmeros desafios, incluindo a morte. É nesse ponto que faz a diferenciação entre o poder dos homens e o de Deus em relação à alma humana (ver Mt 10.28). A passagem de Mateus 10.28 é um excelente fundamento para o estudo da alma como parte da natureza imaterial do ser humano em termos da sua imortalidade.

   As profundas verdades espirituais reveladas por Jesus a respeito de nossa psyche estão relacionadas a debates alimentados ao longo de toda a história, inclusive no contexto da Igreja. Norman Geisler (2017, p. 40-44) apresenta um resumo de várias perspectivas acerca da natureza humana e da sua relação com o corpo. Com base no esboço feito por Geisler, seguem as principais perspectivas:

   1) Materialismo antropológico: afirma que os seres humanos têm um corpo, mas nega que tenham uma alma imaterial. Segundo essa visão, somente o corpo existe; o que se costuma chamar de alma racional, na verdade, não existe. O corpo estaria para a mente (alma), assim como o cérebro está para um sonho; a mente seria simplesmente uma manifestação da matéria.

   2) Epifenomenalismo antropológico: uma forma modificada de materialismo; o seu fundador afirmava que a alma não passa de uma silhueta do corpo; o corpo estaria para a alma, assim como a árvore está para a sua sombra.

   3) Idealismo antropológico: é outro extremo da teoria não-teísta do materialismo; considera que os seres humanos têm uma alma, mas não um corpo. O corpo estaria, supostamente, para a alma como uma miragem está para a mente. Seria meramente uma ilusão. Somente a mente existe.

  4) Monismo antropológico: a visão de duplo aspecto segundo a qual alma e corpo seriam dois lados (interno e externo) da mesma coisa. Alma e corpo são substâncias, ou seja, a alma está para o corpo como um lado de um prato está para outro, sendo somente um aspecto da mesma entidade.

   5) Dualismo antropológico: considera que alma e corpo são entidades separadas e paralelas. O problema com o Dualismo é a falta de qualquer tipo de contato, unidade ou interação entre alma e corpo, uma visão atribuída a Platão.

   Expondo o engano presente em todas essas teorias, o ensino de Cristo mostra a clara distinção de substâncias entre as partes material e imaterial do homem, apesar da sua interação, inclusive na eternidade. A parte material e tangível (o corpo, que pode perecer por ação humana) e a parte imaterial e intangível (a alma, que não pode ser destruída pelo homem). Como já destacado, esse é um dos textos nos quais alma ou espírito aparecem re presentando o todo imaterial, devido ao caráter de inseparabilidade entre ambos. Mas nele Jesus também trata da ressurreição do corpo, já que aborda o seu sofrimento eterno, junto com alma.

  2. Imaterialidade e responsabilidade pessoal

   Ao tratar do perecimento da alma e do corpo no Inferno, Jesus refuta as concepções antropológicas materialistas existentes desde a Antiguidade, como as mencionadas anteriormente. O que é relevante ressaltar aqui é o reflexo dessas concepções em movimentos modernos, como o marxismo, que, pregando que o homem resume-se à matéria, ignora a existência de uma alma consciente após a morte (Lc 16.19-31). Isso faz dessa corrente mais do que uma ideologia política, uma vez que o seu ateísmo nega a pecaminosidade e a responsabilidade moral do indivíduo. Considera que o mal é estrutural; que a culpa é da sociedade; que as pessoas individualmente são vítimas de estruturas opressoras. Os marxistas identificam pecados sociais, mas não individuais.

  Embora se saiba que, em conjunto, a sociedade também é capaz de for mar estruturas corruptas e opressoras, ainda assim isso não passa da reunião de culpas pessoais, como bem observam César Moisés Carvalho e Céfora Carvalho (2022, p. 1505): “Identificar uma estrutura pecaminosa em nossa realidade não exclui a culpa de cada indivíduo; muito pelo contrário, ajuda a trazer ainda mais profundidade a esse conceito”. O grande problema de ver-se apenas os problemas das estruturas sociais é que isso leva a desconsiderar a necessidade de arrependimento, conversão e salvação pessoal e mantém as almas dos seus adeptos no caminho da perdição eterna (At 3.19; Jo 17.3).

   Há, também, o terrível engano de imaginar-se que é possível desfazer essas estruturas pecaminosas através do engajamento político. Na verdade, toda ideologia humana que promete solução para os problemas do homem por meio de doutrinas sociais, políticas ou econômicas não passa de uma proposta humana falível. Sabemos, porém, que o único caminho eficaz para a libertação do pecado é o arrependimento e a conversão do indivíduo pela fé em Cristo como Salvador e Senhor. O avanço desse processo de salvação em cada pessoa e de pessoa a pessoa é que pode influenciar a sociedade; ainda assim, sempre haverá uma geração perversa de cujo modelo de vida devemos escapar (At 2.40).

  3. Materialismo e teologia

   A medida que avança na política secular, a visão antropológica materia lista também se infiltra e molda teologias, alterando, e muito, as concepções relativas principalmente ao que é a missão da Igreja, a ortopraxia, a prática correta a ser adotada pelos seguidores de Jesus. No campo católico, inspirou a Teologia da Libertação, surgida na América Latina na década de 1960. Diante da inequívoca influência da concepção antropológica materialista do marxismo, a Teologia da Libertação concentra-se em fatores políticos, econômicos e sociais na sua luta pelo que entende ser justiça social. A sua proposta, contudo, não passa de um aprofundamento da deturpação do sentido de igreja feito pelo catolicismo de muitas maneiras ao longo da história.

   O protestantismo também tem os seus próprios movimentos teológico-político-ideológicos, que alteram a sua missão, afastando-se da dependência de Deus e do poder do Espírito para confiar em estruturas humanas. Geralmente se considera que, nos tempos modernos, esse movimento de mudança radical de visão missiológica tem como um dos pontos de partida a publicação do livro Nos Seus Passos o que Faria Jesus, de Charles M. Sheldon, em 1896, visto como um fato de grande incentivo para uma guinada de muitas denomi nações para o Evangelho Social.2 Na década de 1970, surgiu a Teologia da Missão Integral, que também se alimenta de concepções socioeconômicas e políticas comuns ao marxismo, que, por sua vez, tem como fundamento o ideário antropológico materialista histórico, que busca tirar Deus do cenário humano e instigar as lutas de classes.

   Toda negação da condição pecaminosa do homem é, no mínimo, um ateísmo prático, independentemente do viés que assuma (Lm 3.39; Tt 1.16). Outras teologias surgiram dessa visão humanista e fracionária da busca por “libertação” de “estruturas opressoras”, como, por exemplo, a Teologia Negra e a Teologia Feminista, que também são enquadradas como teologias da libertação. Por isso, pertencem ao mesmo campo pernicioso (Lc 11.17; 1 Co 14.33). O materialismo tem-se incorporado também à cultura popular de muitas maneiras, como através de crenças refletidas em frases bem conhe cidas, como “Aqui se faz, aqui se paga!” e “Morreu, acabou!”. Isso ignora a imortalidade da alma, que Jesus reafirmou em Mateus 10.28.

  III - ALMA RENOVADA E SUBMISSA A DEUS

  1. Edificação e saúde

   Conhecer os atributos da alma, a sua importância e natureza deve estimular-nos a dar-lhe mais valor e devotar-lhe o devido cuidado. Jesus contou a parábola do rico insensato, que se preocupou com o ajuntamento de bens materiais, mas descuidou-se do cuidado da alma (Lc 12.13-21). A corrida de senfreada às coisas da vida é um dos fatores de frieza e adoecimento espiritual. Para não ser vítima desse terrível mal, é preciso fazer escolhas certas, renunciar aos tesouros da terra e trabalhar para ajuntar tesouros no céu (Mt 6.19).

   A ansiedade é um dos problemas da alma mais recorrentes em nossos dias e costuma desencadear transtornos mentais graves. Como escreve a psicóloga Elaine Cruz (2020, p. 134),

   Na ansiedade ocorre o desequilíbrio de certas substâncias químicas no cérebro, chamadas neurotransmissores. Destes, dois neurotransmissores, chamados serotonina e noradrenalina, estão relacionados aos transtornos de ansiedade. Quando o nível de serotonina cai e os níveis de noradrenalina se elevam, podemos ter um quadro de ansiedade, que pode ser situacional e passageira, ou persistente.

   Além de decidir não viver em torno das demandas terrenas, orar é fundamental para vencer a ansiedade e ter uma alma cheia de paz (Fp 4.6,7). Na verdade, não se imagina que tenhamos força para vencer as tentações deste mundo sem a oração. O apóstolo Pedro escreveu que devemos lançar sobre Deus toda a nossa ansiedade, porque Ele tem cuidado de nós (1 Pe 5.7). É o Senhor que nos dá paz e protege nossas emoções e pensamentos (Fp 4.7) e que também nos guia no caminho da sua vontade (Cl 3.15). Fatores espirituais, ambientais e relacionais sempre devem ser buscados antes de outros recursos, como é o caso do uso de medicamentos, em relação ao qual sempre é preciso ter a devida cautela, como afirmamos no Capítulo 1. Aliás, no caso da ansiedade, a dra. Elaine Cruz observa:

   Quando a ansiedade perdura por seis meses no mínimo, causando sofrimento pessoal ou familiar, sendo desproporcional e irracional, podemos estar diante de um quadro ansiolítico ou TAG — Trans torno de Ansiedade Generalizada —, cuja incidência é maior nas mulheres. Nesse caso, é importante um diagnóstico clínico realizado por um profissional de saúde, podendo até mesmo ser necessário o uso de medicamentos ansiolíticos (ibid., p. 134).

  2. Purificação e renovação

   Uma condição fundamental para uma vida cristã dinâmica é o cristão apresentar a sua alma diariamente a Deus para que seja purificada e viva em constante renovação. E, para conservar a alma pura e renovada, precisamos cuidar das fontes às quais diariamente expomos nossos sentidos. O que falamos, o que ouvimos, o que lemos e vemos pode determinar nosso estado interior. O Salmo 1 ensina-nos que devemos sempre nos esquivar dos que proferem maus conselhos, praticam maldades, vivem afastados de Deus e zombam do que é sagrado. Não é incomum que isso seja feito em filmes, séries, programas de TV e redes sociais. Abster-se dessas fontes e dedicar-se à meditação na Palavra de Deus é cuidar da alma. Ainda quanto à mordo mia desse nosso ente imaterial, a Bíblia adverte-nos dos maus pensamentos (Mt 15.19), dos desejos impuros e perversos (Pv 21.10; Tg 1.14,15) e das intenções e inclinações malignas (Nm 21.5; 1 Pe 2.1).

    CONCLUSÃO

   Pensar na imortalidade da alma deve produzir em nós um temor maior e levar-nos a uma vida mais zelosa em relação a nossos pensamentos, sen timentos e vontades, que devem sempre ser conduzidos segundo a vontade de Deus. Embora não tenhamos um controle absoluto dessas faculdades, com a graça de Deus podemos ter nosso coração guardado por Cristo Jesus e uma contínua purificação pelo seu sangue (1 Pe 1.22; 1 Jo 1.7). O que não podemos é entregar nossa alma a qualquer tipo de pecado, ainda que em pensamentos. Atribui-se a Lutero a frase que diz: “Não podemos impedir que os pássaros voem sobre nossas cabeças, mas podemos impedir que eles façam ninhos sobre elas”.

      74 | Corpo, Alma e Espírito

 


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