Lição 1: O
Homem — Corpo, Alma e Espírito
Data: 5
de outubro de 2025
TEXTO
ÁUREO
“E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.” (1Ts 5.23).
VERDADE
PRÁTICA
Deus nos fez corpo, alma e espírito para glorificá-lo eternamente com todo o nosso ser.
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE
Gênesis 1.26-28; 2.7,18,21-23.
Gênesis
1
26
— E
disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e
domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e
sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se move sobre a terra.
27
— E
criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os
criou.
28 — E Deus os abençoou e Deus lhes disse: Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.
Gênesis
2
7
— E
formou o Senhor Deus o homem do pó da terra e soprou em seus narizes o fôlego
da vida; e o homem foi feito alma vivente.
18
— E
disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma adjutora
que esteja como diante dele.
21
— Então,
o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma
das suas costelas e cerrou a carne em seu lugar.
22
— E
da costela que o Senhor Deus tomou do homem formou uma mulher; e trouxe-a a
Adão.
23
— E
disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos e carne da minha carne; esta será
chamada varoa, porquanto do varão foi tomada.
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
Deus criou o homem de forma especial, com um propósito especial (Gn 1.27,28), como um ato de coroamento de sua criação. E fez isso de maneira sublime e distinta em relação a todos os demais seres viventes. Muito além da expressão “produza a terra”, a partir da qual foram criados os animais (Gn 1.24), o homem é resultado de uma ação divina, pessoal e plural (Gn 1.26). Sua formação é constituída de uma modelagem sobrenatural — “do pó da terra” — e pelo sopro de Deus em seus narizes (Gn 2.7). Neste trimestre, estudaremos essa solene, maravilhosa e exclusiva criação, bem como a importância de uma vida equilibrada e saudável no espírito, na alma e no corpo, sob a perspectiva cristã. Abordaremos a Queda e a Redenção, firmados na esperança de nosso completo, iminente e eterno retorno ao Criador (1Ts 4.15-17).
Palavra-Chave:
TRICOTOMIA
I. A TRICOTOMIA HUMANA
1.
Doutrina e teologia. A Doutrina do Homem está
fundamentada em toda a Escritura, numa revelação suficiente para demonstrar
quem é o homem, como foi criado e com que propósito (Gn 1.26-29; 2.15; Sl
8.3-9; Ef 1.3-6). No campo da Teologia Sistemática, ela é conhecida como Antropologia
Bíblica, que estuda o homem desde sua origem, constituição e existência,
considerando o período anterior à Queda, o pecado original e suas
consequências, o plano redentor e a eternidade. Relaciona-se com todas as
outras grandes doutrinas da Bíblia e responde às intrigantes e milenares
perguntas: Quem é o homem? De onde veio? Para onde vai?
Em
um tempo de tanta psicologização da fé e intensa busca de respostas para os
problemas humanos em concepções não cristãs, um piedoso e profundo estudo das
Escrituras é cada vez mais necessário e urgente, a fim de desfazer toda e
qualquer dúvida existencial e gerar uma fé bíblica genuína, sadia e equilibrada
(1Co 2.1-16; 2Tm 3.16,17; Hb 4.12).
2.
A tríplice natureza. A teologia utiliza o termo
“tricotomia” para tratar da tríplice constituição do ser humano: o corpo, a
alma e o espírito. Essas três substâncias, ou componentes do homem, são
descritas tanto no Antigo quanto no Novo Testamento (Dt 4.9; Sl 42.11; 139.16; Dn
7.15; Zc 12.1; Mt 10.28; Lc 1.46,47; 1Co 14.14,15).
O
próprio Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado — plenamente homem e plenamente
Deus — possuía essa constituição (Lc 24.39; Jo 12.27; Lc 23.46). A primeira
divisão — as partes material e imaterial — é explicitamente apresentada no ato
de formação do homem: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra e soprou
em seus narizes o fôlego da vida, e o homem foi feito alma vivente” (Gn 2.7).
3.
Físico e espiritual. O processo formativo usado pelo
Criador, que é Espírito (Jo 4.24), foi constituído de uma combinação única: o
elemento físico (pó da terra) com o elemento espiritual (o sopro divino),
tornando o homem um ser vivente diferente de todos os demais.
Os
anjos são seres espirituais, porém sem corpo material (Sl 33.6; Hb 1.13,14). Os
animais não possuem a parte imaterial que há no homem (alma e espírito). A
“alma” do animal (sua vida) se restringe ao corpo e se esvai com ele (Lv
17.12-14).
Já o termo hebraico para “vida”, em Gênesis 2.7, alusivo ao homem, é chayim (no plural), permitindo a expressão literal “fôlego das vidas”. Isso pode significar que, em um único substantivo, o texto sagrado esteja aludindo implicitamente à vida do espírito humano, da alma humana e do corpo humano.
SINOPSE
I
O ser humano foi criado por Deus com uma natureza tricotômica — corpo, alma e espírito — revelando seu propósito e dignidade única na criação.
AUXÍLIO BIBLIOLÓGIC
“O QUE SIGNIFICA SER HUMANO?
A
Bíblia afirma claramente que a raça humana, por decisão especial de Deus, foi
criada à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26,27). Isto significa que Adão e
Eva não eram produtos de evolução (Gn 1.27; Mt 19.4; Mc 10.6; veja o artigo A
CRIAÇÃO, p.7). O fato de terem sido criados à semelhança de Deus significa que
eles eram capazes de responder a Deus e ter um relacionamento pessoal com Ele.
[...]
Observe pelo menos três aspectos diferentes da imagem de Deus na humanidade
(veja Gn 1.26, nota): Adão e Eva possuíam uma semelhança moral com Deus, pelo
fato de que foram originalmente criados justos e santos. Ou seja, eles estavam
em um relacionamento correto com Deus, dedicados completamente a bons
propósitos e separados do mal (cf. Ef 4.24), com o coração capaz de amar e
desejar fazer o que é certo. Eles possuíam uma semelhança com Deus em sua
inteligência, porque foram criados com espírito, mente, emoções e o poder de
escolha (Gn 2.19,20; 3.6,7). De certa forma, a constituição física das pessoas
também estava na imagem de Deus, de uma maneira que não acontecia com os
animais. Deus deu aos seres humanos a forma em que Ele apareceria visivelmente
no Antigo Testamento (Gn 18.1,2), e a forma que o seu Filho assumiria quando
viesse à terra (Lc 1.35; Fp 2.7) para dar a vida em pagamento pelo nosso
pecado.” (Bíblia de Estudo Pentecostal — Edição Global.
Rio de Janeiro: CPAD, 2022, p.1106).
II. A DISTINÇÃO ENTRE ALMA E ESPÍRITO
1.
A alma. Do hebraico nephesh e do
grego psyché, “alma” é uma das muitas palavras polissêmicas da Bíblia
— possui vários significados. Aparece 755 vezes somente no Antigo Testamento.
Seu primeiro sentido é “ser vivo”, como em Gênesis 1.20: “alma vivente”. Nesta
acepção, a palavra “alma” é usada também para os animais (Gn 1.24) e significa
simplesmente “vida”.
A
distinção entre a alma do homem e a do animal é evidenciada no processo
criativo: procedente do sopro de Deus (Gn 2.7), a alma do homem constitui uma
substância espiritual, incorpórea, invisível e imortal (Dn 12.2; Mt 25.46; Lc
16.22-25; Ap 20.4). É dotada de razão, sentimento e vontade — atributos dados
por Deus ao homem para o exercício de sua missão (Gn 1.28), especialmente sua
vocação relacional com o Criador e com os semelhantes (Gn 2.15-24; 3.8). Isso,
aliás, decorre do fato de o homem ser um ser pessoal, criado à imagem de Deus
(Gn 1.26).
2. O espírito. Do hebraico ruah e do grego pneuma, o espírito do homem provém de Deus e constitui sua principal dimensão. É por meio dele que mantemos nossa comunhão com o Criador, o Pai dos espíritos, e o adoramos (Hb 12.9; Jo 4.23,24). Junto com a alma, e inseparável dela, compõe a parte imaterial do ser humano. É o “homem interior” que, na linguagem do apóstolo Paulo, aparece algumas vezes em contraste direto com o corpo, o homem exterior (Rm 7.22-25; 2Co 4.16-18; Ef 3.16-19). Como ensina o pastor Antônio Gilberto, em sua Bíblia com Comentários, “à luz das Escrituras, o espírito é a fonte da vida recebida de Deus. O espírito usa e transmite essa vida à alma, que, por sua vez, a expressa por meio do corpo, utilizando seus sentidos físicos para explorar o mundo exterior e dele receber as necessárias impressões”. São três elementos que formam um único ser ou pessoa.
SINOPSE
II
A distinção entre alma e espírito, mostrando que ambos compõem a parte imaterial do ser humano, mas com funções diferentes na relação com Deus e com o próximo.
AUXÍLIO
BIBLIOLÓGICO
A
ALMA E O ESPÍRITO
“A alma (heb. nephesh; gr. psychē), frequentemente traduzida como ‘vida’, pode ser brevemente definida como a parte não material do ser humano, que resulta da união de corpo e espírito. Ela inclui a mente, as emoções e o livre-arbítrio. Juntamente com o espírito humano, a alma continuará a viver quando a pessoa morrer fisicamente. (Nesse sentido, há certa superposição na Bíblia no uso das palavras ‘alma’ e ‘espírito’.) A alma está tão intimamente conectada à personalidade interior que o termo é usado, às vezes, como sinônimo de ‘pessoa’ (p.ex., Lv 4.2; 7.20; Js 20.3). O corpo (heb. basar; gr. sōma) pode ser brevemente definido como o elemento físico e material de um indivíduo que retorna ao pó quando este morre (às vezes, chamado de ‘carne’). O espírito (heb. ruach; gr. pneuma) pode ser brevemente definido como o componente de vida não material do ser humano ” a essência verdadeira da pessoa, dada por Deus — incluindo as nossas capacidades espirituais e a nossa consciência. É o aspecto pelo qual temos contato mais direto com o Espírito de Deus.” (Bíblia de Estudo Pentecostal — Edição Global. Rio de Janeiro: CPAD, 2022, pp.1106,1107).
III. A INTERAÇÃO DAS TRÊS DIMENSÕES
1.
Corpo, afetos e somatização. O corpo
(gr. sōma) é a parte material do ser humano, por meio da qual
comumente manifestamos os atributos da alma e do espírito. Empregando o
vocábulo “coração” (heb. leb; gr. kardia) — uma das
principais palavras que o Antigo e o Novo Testamentos usam como sinônimo de
alma —, Salomão bem identificou essa interação ao afirmar: “O coração alegre
aformoseia o rosto” (Pv 15.13); “O coração com saúde é a vida da carne” (Pv
14.30); “O coração alegre serve de bom remédio, mas o espírito abatido virá a
secar os ossos” (Pv 17.22). Identificados como doenças psicossomáticas a partir
do século XX, muitos problemas físicos decorrem de crises da alma (e do
espírito, inclusive pecados, cf. Sl 31.9,10; 32.1-5). E como se multiplicam em
nossos dias!
2.
Equilíbrio e saúde. Da mesma forma que o corpo
padece por causa de disfunções da alma e do espírito, estes também sofrem por
problemas do corpo — naturais ou não. A língua é um dos membros que mais
produzem angústias ao ser humano (Pv 18.7,21; 21.23). Tem o nefasto poder de contaminar
a pessoa por inteiro (Tg 3.6). Um viver santo e equilibrado requer constante
vigilância e oração, preservando corpo, alma e espírito de toda a espécie de
males, o que inclui cuidados físicos e relacionais saudáveis (Cl 3.5-9; Ef
4.25-32; 6.18).
Quanto à crescente busca por medicamentos como solução para todo tipo de problema emocional, é preciso discernimento e cautela. O acompanhamento médico e psicológico é importante em situações clinicamente diagnosticadas, mas, quando o problema tem origem espiritual — como crises produzidas por pecados não confessados —, os medicamentos não resolvem; no máximo, aliviam os sintomas. Arrependimento e abandono do pecado são essenciais para a verdadeira cura da alma (Cl 3.8; Ef 4.31; Tg 4.6-10; 2Cr 7.14; Is 53.4,5).
SINOPSE
III
O corpo, a alma e o espírito estão interligados. O equilíbrio entre essas dimensões é essencial para uma vida cristã saudável e plena diante de Deus.
CONCLUSÃO
Uma
correta compreensão espiritual acerca do homem, de sua constituição e propósito
é fundamental para uma vida cristã equilibrada (1Co 2.14,15). Mesmo as almas
mais piedosas não encontram verdadeira paz e alegria senão em Deus, o seu
Criador (Sl 42.1; Jo 14.27), pois “a alegria do Senhor é a [nossa] força” (Ne
8.10).
Sumário
Agradecimentos...................................................................5
Abreviaturas........................................................................6 Prefácio................................................................................7
Introdução..........................................................................11
Capítulo 1
O Homem — Corpo, Alma e
Espírito.....................................................13
Capítulo 2
O Corpo — A Maravilhosa Obra da Criação de
Deus.........................31
Capítulo 3
O Corpo e as Consequências do
Pecado...................................................45
Capítulo 4
O Corpo como Templo do Espírito
Santo................................................55
Capítulo 5
A Alma — A Natureza Imaterial do Ser
Humano.................................. 65
Capítulo 6
A Consciência — O Tribunal
Interior.....................................................75
Capítulo 7
Os Pensamentos — A Arena de Batalha na Vida
Cristã.........................85
Capítulo 8
Emoções e Sentimentos — A Batalha do
Equilíbrio Interior.................95
Capítulo 9
Vontade — O que Move o Ser
Humano................................................. 107
10 | Corpo, Alma e Espírito
Capítulo 10
Espírito — O Âmago da Vida
Humana...............................................117
Capítulo 11
O Espírito Humano e as Disciplinas
Cristãs........................................ 125
Capítulo 12
O Espírito Humano e o Espírito de
Deus............................................133
Capítulo 13
Preparando o Corpo, a Alma e o Espírito para a
Eternidade............ 143
Referências......................................................................151
Introdução
Corpo,
Alma e Espírito é um estudo panorâmico das Escrituras a respeito do homem e a
sua constituição, a Queda e os seus efeitos e a Redenção e os seus eternos
benefícios em Cristo. Quanto a esse terceiro aspecto, enfatiza a glorificação,
a transformação do corpo na ressurreição e o arrebatamento dos salvos (1 Co
15.51-54; 1 Ts 4.16,17). A obra apresenta a tríplice natureza do ser humano (a
tricotomia), sem ignorar a existência de outras duas visões teológicas
relativas à composição do homem. A primeira é o monismo, também chamado de
unitarianismo, corrente doutrinária segundo a qual o homem é um todo, uma só
parte, uma unidade indivisível. Ao considerar não haver qualquer divisão na
constituição humana, os monistas opõem-se às visões teológicas que apontam a
existência das partes material e imaterial. Para o monismo, não existe alma ou
qualquer parte do ser humano que sobreviva à morte (RENOVATO, 2021, p. 270). É,
claramente, uma proposta antibíblica.
Figurando no intermediário teológico — entre
monismo e tricotomismo —, a doutrina do dicotomismo considera que o homem é
constituído de uma parte material e outra imaterial, mas não admite que o
imaterial seja composto de alma e espírito. Apesar de a Bíblia conter inúmeras
referências aos termos “alma” e “espírito”, os dicotomistas consideram
tratar-se de expressões sinônimas, sempre utilizadas de forma intercambiável,
ou seja, o emprego de uma no lugar da outra não afetaria o sentido. Embora
alguns textos bíblicos possam inicialmente conduzir a esse entendimento, um amplo
exame das Escrituras permite-nos chegar a uma conclusão oposta: os termos
“alma” e “espírito” aparecem de forma intercambiável em alguns textos bíblicos,
mas também são empregados com significados claramente distintos em inúmeros
outros tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Em geral, as defesas do
dicotomismo costumam revelar apenas a escolha de uma linha interpretativa (a
dicotomia) e a rejeição de outra (a tricotomia). A negação do que a visão
tricotômica tem como propósito claro de diversos autores sagrados, que é a
referência a espírito e alma como substâncias distintas. Visto assim, o
dicotomismo torna-se mais a filiação a uma linha teológica do que uma refutação
embasada da tricotomia.
Ao longo desta obra, serão apresentadas
referências bíblicas que não apenas permitem ver distinções entre alma e
espírito, mas que também os citam explicitamente de forma apartada e não
sinonímica. Além desses muitos fundamentos, o pensamento tricotômico ancora-se
na eloquente expressão do escritor aos Hebreus quanto à divisão da alma e do
espírito, lugar de acesso exclusivo da Palavra de Deus (Hb 4.12). O
tricotomismo é, portanto, a aceitação plena do que dizem as Escrituras. De
qualquer forma, crer com clareza de alma e de propósito no aspecto tricotômico
do homem não deve induzir-nos a debates ou a qualquer meio de hostilização à
visão dicotômica.
Tratando do dicotomismo, o autor pentecostal Timothy
Munyon (HORTON, 1996, p. 249) assinala ser possível admitir que os seus adeptos
consigam defender as suas opiniões sem cair em erros doutrinários, mas alerta
para perigos de extremos que podem ser produzidos no emprego da visão dualista,
como ocorreu dentro do gnosticismo, que ameaçou a fé cristã nos primeiros
séculos, e da teologia liberal, que teve o mesmo propósito já em tempos
modernos. A ficha desses adeptos do dualismo conduz-nos a um quadro, no mínimo,
preocupante! Embora dicotomista, Gordon H. Clark (1902—1995) também admite os
perigos de uma visão dualista (2022, p. 63). O alerta de Munyon e a franqueza
de Clark levam-nos a considerar, ainda, expressões extremistas vistas no
cristianismo atual, que são a supervalorização do espírito em detrimento do
corpo ou o inverso disso. São questões que serão tratadas ao longo desta obra.
Ainda
à título de introdução, duas observações precisam ser feitas. A primeira: o
fato de o homem ser composto de três partes ou substâncias não deve levar-nos a
concebê-lo como um ser repartido, mas, sim, na sua unidade. Como diz a
Declaração de Fé das Assembléias de Deus (2025, p. 86), somos uma unidade (o
homem) na pluralidade (espírito, alma e corpo) e uma pluralidade na unidade. A
segunda observação é: a dupla constituição imaterial do homem (alma e espírito)
não significa separabilidade dos elementos. Alma e espírito são inseparáveis.
Não é incomum, portanto, que haja íntima comunicação entre eles, o que se
apresenta na comunicabilidade, inclusive, da expressão das suas faculdades —
isso, aliás, contribui para os dicotomistas verem um elemento apenas, e não
dois. O fato é que o caráter unitário do homem — a sua integralidade — não
admite ausência de afetação ou correlação mesmo em relação ao corpo. O homem é
uma unidade composta e assim dever ser considerado. Por fim, esperamos que o
leitor esteja ainda mais convicto de como a tricotomia humana está bem
fundamentada nas Escrituras, e o quanto a sua compreensão conduz-nos ao
exercício de uma vida cristã equilibrada.
Que o
Senhor nos conduza no presente estudo.
INTRODUÇÃO
Nosso
estudo da Antropologia Bíblica começa com uma oração de Paulo pelos
tessalonicenses, na qual ele expressa os aspectos presente e futuro da obra da
Salvação (santificação e glorificação) e expressa o que é um dos principais
fundamentos bíblicos da composição tricotômica do homem: “E o mesmo Deus de paz
vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo sejam
plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus
Cristo” (1 Ts 5.23). O Deus de paz, que nos santifica integralmente e conserva-nos
na esperança escatológica firmada na fé no seu Filho Jesus Cris to, é o Deus
Criador, que nos fez à sua imagem: “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem
de Deus o criou; macho e fêmea os criou” (Gn 1.27).
A Imagem de Deus no Homem
Gênesis inicia apresentando-nos Deus dando
forma e beleza aos céus e à terra, que era sem forma e vazia. Moisés
descreve-nos um cenário de luz em meio às trevas e de organização e vida a
partir do nada. Tendo feito tudo perfeito, o Criador, na sua soberania, entregou
o governo da sua obra a um ser especial e diferente de todos os demais já
criados. Animados, po rém não autogovernados, os animais, que já povoavam terra
e céus, foram feitos cada um segundo a sua espécie. O homem, contudo, trouxe
consigo a imagem de Deus. Gênesis 1.26 é a grande proclamação da criação de um
ser autônomo, e não autômato, pensante, e não meramente vivente, sensitivo, e
não meramente instintivo.1
A distinção entre o homem e os animais é
verificada nos atos de criação. Em relação ao homem, Gênesis 1 traz a narrativa
do que Deus fez. Em Gênesis 2, descortina-se como tudo foi feito por Ele,
destacando a sua obra distinta. A chave para compreender tudo isso começa com a
descrição da ação verbal anunciada em Gênesis 1.26, pois tudo muda na narrativa
bíblica quando o homem entra no cenário da história. As ex pressões “haja”,
“ajuntem-se” e “produza”, usadas na criação dos animais, dão lugar ao
“façamos”, indicando o concerto da Trindade para uma obra superior a todas as
já antes feitas. Não sem razão, as Escrituras apresentam em diversos textos o
homem em posição distinta e elevada em relação a toda a criação. Coube a Davi
uma das mais sublimes declarações bíblicas acerca do ser humano: “[...] pouco
menor o fizeste do que os anjos e de glória e de honra o coroaste” (SI 8.5).
Liberdade, autogoverno, autodeterminação,
racionalidade, vontade e sentimento são características humanas inalienáveis,
saídas perfeitas das mãos de Deus (Ec 7.9). O Criador fez o homem para dominar
sobre a toda a Criação: “[...] e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves
dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se move
sobre a terra” (Gn 1.26b). A condição indispensável para isso foi dotá-lo dos
atributos pessoais já mencionados, todos relativos à sublime característica de
imagem de Deus, a imago Dei tão estudada pela Teologia ao longo dos séculos.23
Queda
e Redenção
O
cenário de perfeição foi alterado com a Queda, a desobediência de Adão e Eva,
principiada por esta após a negligente conversa com a serpente, instrumento que
Satanás usou para enganá-la (Gn 3.1-7). Gomo seres morais dotados de
livre-arbítrio, homem e mulher podiam decidir entre obedecer ou não a Deus: “E
ordenou Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente,
mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia em
que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16,17). Deus referia-se, em
primeiro lugar, à natureza espiritual do homem, a primeira a ser afetada pelo
nefasto pecado, mas também se referia à morte do corpo, que não tardaria a
ingressar na história humana, com a tragédia do primeiro homicídio, que vitimou
o jovem Abel (Gn 4.1-8).
As
consequências do pecado foram anunciadas por Deus à serpente, à mulher e ao
homem, e afetou toda a criação (Gn 3.14-19). Em relação ao homem, diz a
Declaraçã) de Fé das Assembléias de Deus (2025, p. 98, 99):
A Queda no Éden arruinou toda a
humanidade tão profundamente que transmitiu a todos os seres humanos a
tendência ou inclinação para o pecado. Não somente isso, contaminou toda a
humanidade [...] A natureza moral foi corrompida, e o coração humano tornou-se
enganoso e perverso. Todas as pessoas estão mortas em ofensas e pecados; são
inimigas de Deus e escravas do pecado. A corrupção do gênero humano atingiu o
homem em toda a sua composição — corpo, alma e espírito [...]. Apesar de tudo,
a imagem de Deus no ser humano não foi aniquilada; foi, no entanto, desfigurada
a tal ponto que a sua restauração só é possível em Cristo.
Para
aniquilar os efeitos da Queda, trazidos pelo pecado do primeiro Adão, Cristo, o
último Adão, como Homem Perfeito, consumou na cruz a obra de redenção,
suficiente para restaurar a imagem de Deus no homem por inteiro, incluindo o
corpo (1 Co 15.53; 1 Ts 4.16,17): “Mas todos nós, com cara descoberta,
refletindo, como um espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória
em glória, na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor” (2 Co 3.18). “[...] O
primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão, em espírito
vivificante. [...] E, assim, como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos
a imagem do celestial” (1 Co 15.45,49).
I - A TRICOTOMIA HUMANA
Na
introdução desta obra, fizemos referências às duas outras visões teo lógicas
relativas à constituição do homem: o unitarianismo (ou monismo) e o
dicotomismo. Aqui trataremos da doutrina tricotômica, claramente lastreada nas
Escrituras e que também pode ser defendida a partir de uma analogia com o Ser
de Deus, como observa Eurico Bergstén (1913-1999): “Deus, que é trino, criou o
homem como um ser tríplice, isto é, composto de corpo, alma e espírito. O Deus
trino, isto é, Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, imprimiu sua
semelhança na formação do homem” (BERGSTÉN, 1999, p. 128). O teólogo
pentecostal também invoca o Tabernáculo e as suas três partes de forma
analógica ao homem e os seus três elementos (ibid., p. 129). Essas mesmas
analogias são feitas pelo pastor Antonio Gilberto (1927-2018) (2021, p. 1921).
No capítulo 4, voltaremos a essa analogia quando tratarmos do corpo. Ainda em
comparação com a tricotomia humana, podemos pen sar no aspecto tríplice dos
reinos terrenos: o animal, o vegetal e o mineral.
O
leitor poderá, a partir dos muitos textos bíblicos que aqui serão citados,
examinar o quanto a Bíblia refere-se ao espírito e à alma com clara distinção,
sem prejuízo das referências em que os termos aparecem de forma intercambiável
ou sinônima, o que não depõe contra a visão tricotômica, mas reforça-a, pois,
como acentua Myer Pearlman (1898-1943), citado por Timothy Munyon (1996, p.
248), “o espírito está entretecido na própria textura da alma. São fundidos e
caldeados numa só substância”.
O que
se tem, com suficiente clareza, é que as Escrituras citam inúmeras vezes o
espírito e a alma no exercício das suas faculdades inerentes, que se comunicam
em muitas referências — e não é demais que, às vezes, até se confundam pela
íntima e profunda fusão existente entre ambos, como já destacado, ao ponto de a
divisão só ser distinguida por Deus mediante a sua Palavra, conforme a
conhecida citação de Hebreus 4.12.
1.
Doutrina e teologia
A
Doutrina do Homem é conhecida na Teologia Sistemática como Antropologia Bíblica
ou Antropologia Teológica. É uma doutrina que se relaciona com todas as demais
doutrinas fundamentais, pois toda a Revelação está voltada ao tema do
relacionamento de Deus com o homem e deste com aquEle. Assim, o estudo da
antropologia leva em conta, de início, a Doutrina de Deus e considera todas as
demais doutrinas, como a hamartiologia, a cristologia, a soteriologia e a
escatologia, pois o seu campo de estudo englo ba a criação, a Queda e a
redenção. Como doutrina, a antropologia busca todos os seus fundamentos nas
Escrituras e serve-se de reflexões teológicas formuladas a partir do conteúdo
escriturístico. Doutrina e teologia bíblicas constituem o arcabouço da
Antropologia Bíblica ou Teológica.1 4
A Antropologia como Ciência
Antes
de prosseguir no estudo da Antropologia Bíblica, é importante conceituar
antropologia e considerar a sua área de atuação como ciência. Formada dos
vocábulos gregos antrophos (homem) e logia (estudo), a antropologia foi
organizada como uma área científica somente no século XIX. O seu objeto de
estudo é o homem nas suas vivências, considerando aspectos de organização
social, cultural, línguas, hábitos, costumes, tradições etc. Jean-Marie Auzias
(p. 11) sintetiza o conceito de antropologia como sendo “a ciência das culturas
de toda a Humanidade”.5
O grande avanço das pesquisas de cunho
antropológico deu-se no período das grandes navegações protagonizadas pelos
europeus a partir do século XV Foi a chamada era dos descobrimentos. O
conhecimento de novos povos e culturas desafiou o pensamento dos colonizadores
em pleno Iluminismo (séculos XVII e XVIII), quando estava em franca valorização
a razão humana em detrimento do pensamento religioso medieval. Esse encontro de
novos povos levou ao avanço da ciência e ao surgimento de campos de estudos
específicos, como a Antropologia, tendo como primeiros teóricos Émile Durkheim
(1858-1917) e Marcei Mauss (1872-1950), conforme acentua o antropólogo François
Laplantine (2007, p. 87-92).
Atualmente, a Antropologia está dividida em
diversos campos. O mo delo americano classifica-a em quatro áreas: (1) a
Antropologia Cultural, (2) a Arqueologia, (3) a Antropologia Físico-Biológica e
(4) a Antropologia Linguística. Existem outras divisões de estudo nos modelos
britânico e francês, além de realidades peculiares de diversos países, como o
Brasil, onde se pratica mais a Antropologia Cultural. Enquanto instrumento de
pesquisa da realidade dos povos, a antropologia produz achados interessantes
para a humanidade. O seu grande problema, contudo, é quando se envereda para a
discussão da existência humana, a sua origem, propósito e destino. Gomo não há
resposta para essas questões fora da Bíblia, os antropólogos nada podem dizer
ao homem que realmente faça sentido e responda as grandes dúvidas da
humanidade.
Enquanto a Antropologia Bíblica mostra-nos,
pelas Escrituras, a história da Salvação — que passa pela Queda e apresenta a
Redenção —, a Antropologia Científica, com as suas concepções ateístas e
materialistas, permanece presa a um quadro de teorias, incredulidade e caos. As
suas concepções e conclusões não oferecem qualquer esperança para o homem. Ao negar
a criação, o edifício antropológico da ciência humana é construído sobre bases
insustentáveis. Há um abismo debaixo das crenças antropológicas formuladas à
parte da Bíblia, as quais estão infelizmente permeadas em todo o sistema de
vida humano, que não presume a existência de Deus e a sua obra, mas rejeita-as.
Anthony A. Hoekema (2018, p. 13) aponta o
materialismo como o tipo de antropologista não cristã mais influente
atualmente:
Segundo essa ideia, o homem é um
ser composto de elementos materiais, sendo sua vida mental, emocional e
espiritual simples mente subprodutos de sua estrutura material. Por exemplo, a
visão marxista da determinação econômica da História repousa sobre uma
concepção materialista ou naturalista da natureza humana. Para o marxista, o
homem é, simplesmente, um produto da natureza. Os seres humanos não foram
criados à imagem de Deus — na verdade, a existência real do Criador é negada.
[...]
Um outro tipo de antropologia
materialista influente em nossos dias é a ideia do homem subjacente nos
escritos de B. F. Skinner. Em sua obra Beyond Freedom and Dignity (Além da
Liberdade e da Dignidade), Skinner sustenta que a ideia de que o ser humano é
responsável por sua conduta está enraizada numa tradição que não é mais
cientificamente aceitável.
O
discurso do homem sobre o homem é utópico e sem sentido. Limitada ao que vê e
divagando em teses frágeis quanto ao que não vê, a humanidade segue em busca de
explicações para as suas inquietantes dúvidas existenciais. Sem respostas, a
Antropologia Geral tem-se reduzido a contemplar e descrever a existência humana
em grupo; as culturas dos povos, as suas organizações em sociedade, os seus
arcabouços linguísticos, os seus costumes e práticas. Quando tenta formular
explicações para as grandes questões da vida humana, perde-se no pântano das
incertezas. Somente as Escrituras têm a resposta para as mais antigas e
inquietantes perguntas do homem. Esse é o grande tema da Antropologia Bíblica.
A
Psicologização da Fé
O
homem é um ser complexo e não pode ser compreendido à parte da Revelação. Por
isso, não apenas as equivocadas concepções antropológicas e filosóficas, mas
também visões de outras áreas do conhecimento humano, como a psicologia, devem
ser encaradas com as devidas reservas, pois sempre conflitarão em diversos
pontos com as Escrituras e a verdadeira fé cristã. Considerando que as ciências
em geral não partem do pressuposto de que Deus existe, é uma grande temeridade
— e tem-se mostrado um perigo crescente para a Igreja atual — o cristão
deixar-se guiar cegamente por abordagens e diagnósticos psicológicos se estes
não podem levar em conta fatores espirituais. Se não se pode ter uma concepção
antropológica adequada sem considerar o homem na sua integralidade (corpo, alma
e espírito), como é possível encontrar respostas seguras para os problemas do
homem em terapias que não admitem fatores de ordem espiritual?
A
psicologização da fé é um processo gradual de substituição da fé pela
psicologia no ambiente cristão. Psicologizar a fé é tentar explicar e tratar
problemas emocionais que tenham origem espiritual por meio de teorias e
técnicas da psicologia, cujos pressupostos são alheios à verdadeira origem das
crises. E negar os efeitos do pecado, como a culpa, buscando soluções terapêuticas
sem considerar a necessidade de atitudes espirituais, como o arrependimento, a
confissão e o abandono do pecado. Gomo observa Billie Davis (2018, p. 192), “os
cristãos que estudam psicologia geral ou treinam para trabalhar como psicólogos
com pessoas perturbadas veem como as perspectivas (ou cosmovisões) da
psicologia secular podem torcer o entendimento sobre a natureza humana”. Por
isso, salienta-se a necessidade de a verdade psicológica ser examinada à luz da
verdade cristã, e não à parte dela (ibid., p. 193).'
Citando Gary R. Collins (1934-2021), Davis
ainda analisa que as teorias da psicologia secular não explicam as realidades
humanas adequadamente porque são construídas em pressuposições erradas sobre a
origem e a natureza das pessoas; os seus métodos não podem responder as
questões essenciais, como as relativas a significado, propósito e condições
espirituais dos seres humanos (p. 194). As Escrituras dizem-nos que Gaim era do
maligno e matou o seu irmão porque as suas obras eram más, e as de seu irmão
Abel, justas (1 Jo 3.12). A psicologia faria todo o tipo de diagnóstico da
personalidade de Caim, menos esse.
O
psicólogo cristão Jamiel Lopes (2017, p. 11) adverte:
A
aceitação sem questionamentos das práticas psicoterapêuticas nas igrejas pode
representar um grande problema. Psicologia e cristianismo são dois caminhos
diferentes que parecem próximos, mas que, ao mesmo tempo, são muito distantes.
Há um grande abismo que separa um do outro. A Psicologia lida com a natureza do
homem, como ele vive e como ele muda. A Bíblia lida exatamente com as mesmas
questões. No entanto, os principais ensinamentos da Psicologia contradizem ou
comprometem muitas vezes os ensinos das Escrituras.
Jesus
convida os cansados e oprimidos para irem a Ele e encontrar descanso para a
alma (Mt 11.28,29). Pedro pregou arrependimento e conversão para libertação e
alcance de refrigério (At 3.19). (A NVB traz no versículo 20 a expressão “tempos
maravilhosos de alívio”, o que equivale a paz, alegria e um novo vigor para
espírito e alma). Antes de expor nossas angústias e tristezas a diagnósticos
humanos, devemos submetê-las ao crivo divino (SI 142.1-7).8
Trataremos um pouco mais dessa relação entre
fé e psicologia ainda neste capítulo, quando falarmos sobre Equilíbrio e Saúde,
no tópico A In teração das Três Dimensões. 2.
A
tríplice natureza
Diversos textos bíblicos fazem referência aos
três elementos constitutivos do ser humano. Em Deuteronômio 4.9, somos
advertidos a guardar bem a “alma”, para que ela não se esqueça do que os olhos
têm visto. Nota-se, claramente, a alma como lugar de recordação e reflexão,
além de decisão, pois o texto diz mais: “[...] e se não apartem do teu coração
todos os dias da tua vida, e as farás saber a teus filhos e aos filhos de teus filhos”.
Aparece no texto o termo hebraico leb (coração), muitas vezes usado no sentido
de alma ou espírito ou alma e espírito, “a totalidade da natureza interior ou
imaterial do homem” (Harris, 1998, p. 765).9 Hans Walter Wolff (1911-1993)
(2007, p. 79) observa que leb é a palavra mais importante para a gramática da
antropologia veterotestamentária. Na forma mais corrente, aparece 598 vezes.
Em
Daniel 7.15, o profeta afirma: “Quanto a mim, Daniel, o meu espírito foi
abatido dentro do meu corpo, e as visões da minha cabeça me espantavam”. A
referência a “espírito” (ruah) não pode ser tida como aleatória, principalmente
porque, no mesmo texto, o profeta refere-se ao que povoava a sua mente (“as visões
da minha cabeça”), após se referir ao corpo: espírito e mente (pensamentos,
visões) estavam inquietos, ou seja, todo o interior do profeta. Zacarias 12.1 é
o clássico texto que fala da formação do espírito dentro do homem: “[...] Fala
o Senhor, o que estende o céu, e que funda a terra, e que forma o espírito do
homem dentro dele”. Mais uma vez o termo hebraico aqui é ruah, e não nephesh
(alma). Em Mateus 10.28, temos a declaração de Jesus acerca da distinção entre
a parte mortal (corpo) e a imortal do homem (representada pela alma): “E não
temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que
pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo”. (Analisaremos mais detidamente
esse versículo no capítulo 5, quando tratarmos especificamente da alma).
Também
reforça o aspecto tríplice da constituição humana o fato de que Jesus Cristo, o
Filho de Deus encarnado, tinha semelhantes elementos, como se observa em
diversos textos dos Evangelhos. Em Lucas 23.46, Jesus, estando na cruz e antes
de expirar, entregou ao Pai o espírito (pneuma). Em Lucas 24.39, já
ressuscitado, aparece aos discípulos e afirma: “Vede as minhas mãos e os meus
pés, que sou eu mesmo; tocai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem
ossos, como vedes que eu tenho”. Isso disse por que os discípulos pensavam
estar vendo um “espírito” (24.37). Em João 12.27, Jesus afirma: “Agora, a minha
alma \psyque] está perturbada”. Na sua oração no Getsêmani, Ele fala da
angústia da sua alma: “[...] A minha alma está cheia de tristeza até à morte;
ficai aqui e vigiai comigo” (Mt 26.38).
O que se pode concluir diante dessas e de tantas
outras citações de espírito e alma como elementos distintos é que os considerar
o mesmo componente é mais uma escolha hermenêutica do que um exercício
exegético correto. E rejeitar a literalidade do texto, preferindo entender que
o uso dos termos (ora espírito, ora alma) sempre se dá de forma aleatória,
intercambiável e sinônima. Não é, seguramente, o caminho mais adequado,
principalmente porque, mais adiante, o estudante da Bíblia há que se deparar
com 1 Tessalonicenses 5.23, que faz a citação de espírito, alma e corpo em
continuidade textual e sem nenhuma indicação de sinonímia, e ainda verá o já
citado texto de Hebreus 4.12, que menciona a divisão entre alma e espírito. A
tríplice natureza está, portanto, bem solidificada nas Escrituras.
3. Físico e espiritual
Gênesis 2.7 apresenta Deus formando o homem do
pó da terra (parte física) e, sendo Ele espírito (Jo 4.24) e o Pai dos espíritos
(Hb 12.9), soprando o fôlego de vida, fazendo o homem uma alma vivente. O sopro
é o elemento espiritual que torna o homem um ser vivente diferente de todos os
animais, com uma alma racional, afetiva e volitiva. A faculdade da consciência,
que só o ser humano possui entranhada na sua substância espiritual, também se
soma aos fatores que o distingue dos animais. Por outro lado, os homens também
são distintos dos anjos, que são seres espirituais reais e distintos, mas
imateriais e incorpóreos fisicamente (GABY, 2021, p. 448). São “espíritos
ministradores”, conforme Hebreus 1.14.
Quanto
aos animais, são físicos e não espirituais. A “alma” dos animais é restrita ao
corpo e esvai-se com ele no momento da morte. Levítico 17.11 diz: “a alma
[vida] da carne está no sangue”. O homem tem vida consciente e racional,
enquanto a vida dos animais é inconsciente. Como acentua o pastor Antonio
Gilberto (2021, p. 12), a alma do homem tem inteligência consciente, ao passo
que a chamada “inteligência” e “argúcia” dos animais é puramente instintiva,
não racional.
Referindo-se a Gênesis 2.7, o pastor Antonio
Gilberto (p. 13) explica que, na citada passagem, o vocábulo “vida” (chayim)
está na forma plural no hebraico, certamente indicando as vidas do espírito, da
alma e do corpo humano. “O nosso corpo põe-nos em contato com a matéria, isto
é, com o mundo material. A nossa alma põe-nos em contato com o próximo, com o
mundo social. O nosso espírito põe-nos em contato com Deus, com a esfera do
espiritual”, ensina. Quanto à dicotomia, o mestre pentecostal acentua: “Isso é
doutrina de homem. Só porque eles não entendem certa coisa, concluem que ela
não existe. Fiquemos, aqui, somente com a Palavra de Deus” (ibid., p. 14).
A
respeito da relação entre as três substâncias que compõem o homem, a Dedaraçã)
de Fé da Assembkia de Deus sintetiza (p. 86-7):
O corpo é o invólucro do espírito e da alma;
contudo, o homem é um só, e não cada uma de suas partes, mas a totalidade
delas: uma unidade (o homem) na pluralidade (espírito, alma e corpo) e uma
pluralidade na unidade. [...] A alma e o espírito são elementos espirituais
incorpóreos e invisíveis, ambos deixam o corpo por ocasião da morte e
sobrevivem a ela. Apesar dessas características comuns, são entidades
distintas, porém inseparáveis; são os dois lados do mesmo elemento não físicos
do ser humano (Ef 3.16).
II - A DISTINÇÃO ENTRE ALMA
ESPÍRITO
1. A alma
A referência à “alma vivente” em Gênesis 2.7,
feita em relação ao homem, é comum à expressão utilizada para os animais (Gn
1.20,30). Entretanto, é preciso analisar a distinção do termo quando empregado
em relação ao ser humano, dado o seu componente espiritual. Assim como diversos
outros termos bíblicos, “alma” é uma palavra polissêmica, ou seja, tem vários
sentidos.10 O seu significado depende do contexto em que está inserida. Isso se
dá principalmente no Antigo Testamento, pois, conforme explica Hans Walter
Wolff (ibid., p. 35), “o hebreu diz uma só e mesma palavra onde nós precisamos
usar termos muito diversos”.
Do
hebraico nephesh, do grego psyche e do latim anima, no texto bíblico a palavra
“alma” aparece 755 vezes somente no Antigo Testamento, sendo a primeira dela em
Gênesis 1.20 com o sentido de “ser vivo”.11 Aliás, é bastante comum o uso do
termo para significar “vida” em geral, incluindo a dos animais, como em Provérbios
7.23: “como a ave que se apressa para o laço e não sabe que ele está ali contra
a sua [nephesh] vida”. Em Deuteronômio 12.23, nephesh (a alma) é o sangue, a
vida animal. Também deve ser observado que nephesh é usada diversas vezes para
referir-se à pessoa, como em Levítico 24.17.
A distinção da alma humana é vista no
processo criativo, pois, dife rentemente dos animais, que foram criados por uma
ordem verbal divina, o homem recebeu o sopro divino. Como observa Wollf (ibid.,
p. 69), esse “vento” (neshama) é a força vital do ser humano dada por Deus; e é
com esse sopro que o Criador “molda” a ruah (o espírito) no interior do ser
humano (Zc 12.1). Assim, a alma do homem, criado à imagem de Deus, é distinta
da dos animais, pois é uma substância espiritual, incorpórea, invisível e
imortal (Dn 12.1; Mt 25.46; Ap 20.4), sendo dotada de faculdades próprias, como
o intelecto ou razão, a sensibilidade ou sentimento e a vontade ou volição.
Essas
características estão intimamente ligadas ao fato de o homem ter sido criado
para relacionar-se com o Criador e com os seus semelhantes e ser o
representante de Deus perante todo o restante da Criação. Entende mos, ademais,
que é nisso que consiste o significado de “imagem de Deus” outorgado ao homem,
como explica Timothy Munyon (ibid., p. 259):
[...] a imagem de Deus pertence à
nossa natureza moral-intelectual-espiritual. Explicando melhor: a imagem de
Deus na pessoa humana é algo que somos, e não algo que temos ou fazemos. Esta
opinião está em perfeito acordo com o que já estabelecemos como propósito de
Deus na criação da humanidade. Primeiro: o homem foi criado para conhecer, amar
e servir a Deus. Segundo: relacionamo-nos com outros seres humanos e temos a
oportunidade de exercer o domínio apropriado sobre a criação de Deus. A imagem
de Deus em nós ajuda-nos a fazer exatamente essas coisas.
2. O
espírito
Quanto
ao espírito (ruah no hebraico e pneuma no grego), é a principal dimensão do ser
humano, a parte mais íntima do ser. É por meio dele que mantemos comunhão com o
Criador, o Pai dos espíritos, e também o adoramos (Jo 4.23,24; Elb 12.9). Como
entidade espiritual, é inseparável da alma. Paulo menciona essa parte imaterial
do ser humano como “homem interior”, em contraste com o corpo, o “homem
exterior” (Rm 7.22-25; 2 Co 4.16-18). O espírito não é o fôlego, como esclarece
o pastor Antonio Gilberto (ibid., p. 14): ‘A respiração é um processo para
admissão de oxigênio, para que vivam as células orgânicas do corpo. O espírito
identifica o homem, a criação espiritual, e dá-lhe consciência de Deus” (p.
1921-22). “A luz das Sagradas Escrituras, o espírito é a fonte da vida recebida
de Deus. O espírito usa e transmite esta vida a alma, que por sua vez a
expressa por meio do corpo, utilizando seus sentidos físicos para explorar o
mundo exterior e dele receber as necessárias impressões” (p. 12). Citando
Howard Marshall, Brian Glusish (2009, p. 603) menciona o espírito como “o
aspecto mais alto da personalidade humana”.
III - A
INTERAÇÃO DAS TRÊS DIMENSÕES
Compreender o homem como um ser tripartido é
fundamental para entendê-lo como um ser integral, no qual há íntima correlação
entre espírito, alma e corpo. Isso, como já destacado, contribui para que haja
um equilíbrio vivencial que não despreze quaisquer das substâncias. Assim como
a criação, completa e perfeita em todos os seus aspectos, a Redenção resgata o
homem por inteiro, o que há de consumar-se na glorificação, com a transformação
do corpo, como já assinalado. Por enquanto, vivemos neste “tabernáculo”, nossa
“casa terrestre”, como disse Paulo (2 Co 5.1), em meio a fraquezas e
imperfeições. E a forma como vivemos aqui, neste corpo, que definirá nossa
eternidade (G1 2.20).
1. Corpo, afetos e somatização
Do
grego soma, o corpo, como já definido, é parte material do ser humano,
comumente chamado de “invólucro do espírito e da alma”.12 “E a sede dos
sentidos, por meio dos quais a alma explora o mundo exterior. É o corpo que nos
põe em contato com o mundo físico. Ele sempre integrará o homem, exceto durante
o chamado estado intermediário, isto é, o tempo em que o corpo permanece no
túmulo” (Gilberto, p. 1921).
Diante
desse papel de expressão dos atributos interiores do homem, o corpo está
sujeito a reações positivas e negativas: alegria e tristeza; coragem e medo;
prazer e dor. Tudo isso se reflete em comportamentos corpóreos (ou linguagem
corporal). O vocábulo mais utilizado pela Bíblia como origem dos afetos —
inclusive os que se expressam por intermédio do corpo — é “coração” (kb, no
hebraico, e kardia, no grego). Na maioria das vezes que é usado em linguagem
figurada, tem o significado apenas de “alma”. Noutras vezes, refere-se a todo o
interior do homem. Numa longa e profunda análise do termo leb no Antigo
Testamento, Hans Walter Wolff vê “coração” com inúmeros sentidos: desejo e
aspiração; idéias secretas; funções intelectuais e racionais; consciência;
repositório de saber e recordações (memória); pensa mento, consideração,
reflexão e deliberação; conhecer e escolher; julgamento; intelecção e volição;
consciência moral; decisões da vontade (op. cit., p. 80-97). Observa-se,
portanto, tanto faculdades da alma quanto do espírito.
O corpo está sempre em interação com as
substâncias imateriais. Em Provérbios 14.30 e 15.13, Salomão retrata a relação
entre sentimento e corpo. O primeiro texto diz: “O coração com saúde é a vida
da carne”. O segundo, “O coração alegre aformoseia o rosto”. Em Provérbios
17.22, o rei de Israel alterna entre reações positivas e negativas do corpo em
decorrência de sentimentos: “O coração alegre serve de bom remédio, mas o
espírito abatido virá a secar os ossos”. Apesar da linguagem poética,
compreende-se que o escritor bíblico referia-se a fenômenos físicos originados
na alma, assim como fez Davi em diversas ocasiões, como quando mencionou que os
seus olhos, a alma e o corpo estavam consumidos de tristeza, a vida gasta, a
força reduzida, e os ossos enfraquecendo-se (SI 31.9,10) — ou, ainda, quando se
referiu a envelhecimento dos ossos e perda do humor (SI 32.3).
De fato, emoções e sentimentos têm o
potencial de afetar diretamente o corpo, alterando as suas funções biológicas e
fisiológicas, produzindo sintomas como a perda do apetite e do sono. Mesmo que
emoções e sentimentos não causem enfermidades físicas diretamente, o
prolongamento de disfunções como as já citadas (perda de apetite e sono) podem
levar ao desencadeamento de doenças nos sistemas orgânicos. Assim, esses e
outros fatores são vistos como causadores das chamadas doenças psicossomáticas,
mais identificadas a partir do século XX.13
O
pastor Wagner Gaby (2008, p. 163) assim as conceitua:
As doenças psicossomáticas são
aquelas que têm um componente psíquico. São a manifestação das doenças
orgânicas provocadas por problemas emocionais, nervosismo, depressão etc.
Quando somatizamos, temos a consciência de que forçamos além da conta uma
emoção. Daí as consequências como um resfriado, uma diarréia, um herpes, uma
enxaqueca. O corpo expressa, põe para fora as emoções, que por vezes escondemos
de nós mesmos, por meio de gestos, mímicas, contraturas, calor, tremor, dores
de barriga, sustos, travamento dos dentes, enfim, tantas e tantas demonstrações
físicas.
Gaby
cita o médico José Humberto Moromizato, especialista em doenças
psicossomáticas, segundo o qual inúmeras outras doenças podem ser provocadas
por problemas emocionais; fatos negativos que ficam gravados em nosso
inconsciente, citando moléstias como infarto, pressão alta, bronquite, asma,
gastrite, colite, úlcera (ibid., p. 164).
2. Equilíbrio e saúde
Assim
como o corpo padece por causa de disfunções da alma e do espírito, estes também
sofrem em decorrência de problemas físicos, que podem ser naturais, ou seja,
não diretamente provocados, ou decorrentes de ação ou negligência pessoal.11
Qualquer que seja a causa, as doenças têm o potencial de tirar a alegria,
abater a alma. Cuidar bem do corpo é, portanto, um fator determinante para uma
vida saudável na sua integralidade. Isso diz respeito, inclusive, a não
entregar o corpo à prática do pecado, pois há uma interação direta entre a alma
e o espírito e a estrutura material. O apóstolo Tiago cita a língua, que,
mal-usada, “contamina a pessoa por inteiro” (Tg 3.6, NVI).
E
preciso observar quando os problemas emocionais decorrem de causas espirituais,
como pecados, sejam eles praticados com o corpo, a alma ou o espírito. Dado o
grande aumento dos transtornos mentais, cresce cada vez mais e de forma
indiscriminada o uso de medicamentos como os antidepressivos e ansiolíticos.
Recorrer a medicamentos sem levar em conta a verdadeira origem dos problemas da
alma pode piorar o quadro em vez de dissipá-lo. Tanto o corpo pode estar
padecendo em função de iniquidades, quanto a alma pode estar afetada por
transgressões e resistência em arrepender-se e mudar de atitude.
Quando
transtornos de humor, por exemplo, têm origem em comporta mentos de rebeldia,
iras, intrigas, maledicências e outras práticas sustentadas em pecados
enraizados no espírito ou na alma, medicamentos não podem trazer a solução.
Escrevendo aos colossenses, o apóstolo Paulo recomendou a mortificação da carne
e o abandono de todo tipo de pecado — citou a ira, a cólera, a malícia, a
maledicência, as palavras torpes, a mentira — e receitou, como remédio, a
misericórdia, a benignidade, a humildade, a mansidão, a longanimidade, o perdão
e o amor (Cl 3.5-15). O resultado é um cenário interior de paz e abundante
alegria (3.16,17).
Quando
o distúrbio tem origem espiritual — como crises produzidas por pecado não
confessado —, arrependimento e abandono da prática pecaminosa são essenciais
para a verdadeira cura (2 Cr 7.14; Is 53.4,5; Ef 4.31; Cl 3.8; Tg 4.6-10). O
cristão, portanto, precisa ser cauteloso em não recorrer aos remédios antes de
considerar se os seus problemas emocionais são ou não de origem espiritual.
Mesmo a proposta de muitos, de integrar psicologia e fé cristã, precisa ser
encarada com muita cautela. Erwin Lutzer (2000, p. 91) propõe uma interessante
fronteira ao referir-se à discussão acerca das propostas de integração entre
psicologia e Bíblia:
Pessoalmente, acautelo-me com as tentativas
de integração. Não encontro base bíblica par fazer distinção entre um problema
espiritual e um problema psicológico. Basicamente, os problemas psicológicos —
a menos que tenham causas físicas ou químicas — são espirituais. Onde, além das
Escrituras, poderiamos encontrar uma melhor análise das necessidades humanas,
juntamente com o remédio sobrenatural? Segundo escreve Pedro, o poder divino do
nosso Senhor nos concedeu “tudo de que necessitamos para a vida e para a
piedade, por meio do pleno conhecimento daquele que nos chamou para a sua
própria glória e virtude (2 Pe 1.3).
Como
em tudo na vida, é preciso que haja equilíbrio quando o cristão enfrentar
distúrbios psíquicos. Se, por um lado, não é razoável a busca de medicamentos
para a solução de todo e qualquer tipo de problema emocional, por outro lado
não se pode desprezar a necessidade de acompanhamento médico e psicológico em
situações diagnosticadas clinicamente. Gomo alerta o pastor e psicólogo
Maurício Ferreira Brito (2021, p. 60), não podemos materializar tudo e nem
espiritualizar. O problema pode ser originado em fatores físicos ou químicos.
Mesmo assim, devemos levar todas as coisas ao conhecimento de nosso Deus,
rogando-lhe o seu favor, pois a bênção de que precisamos, por meio do uso de
medicamentos ou não, está nas mãos dEle.
E
preciso considerar, por fim, que o uso de medicamentos não é a primeira
alternativa mesmo quando os fatores não forem de ordem espiritual. Há
transtornos emocionais que podem ser evitados, minorados ou vencidos com a
mudanças de comportamento em nosso cotidiano. Bons hábitos alimentares, tempo
regular de sono, a prática de exercícios físicos e relacionamentos saudáveis
são “santos” remédios. Falando ao PODCAST JesusCopy, o psiquiatra cristão
Felipe Batistela trata dessas condutas e faz uma afirmação que deve ser muito
levada em conta diante do crescente consumo de ansiolíticos e antidepressivos.
O médico disse que quanto mais estuda, menos remédio prescreve para os seus
pacientes.15
Para que não se conclua que essa cautela quanto
ao uso indiscriminado de medicamentos para tratar de problemas emocionais seja
“coisa de crente”, basta consultar fontes seculares, como o livro Voltando ao
Normal, do renomado psiquiatra norte-americano Allen Francês, que faz um alerta
para o excesso de diagnósticos e a medicalização da vida e afirma:
A
melhor forma de lidar com os problemas da vida diária é resolvê-los de maneira
direta ou esperar que vão embora, em vez de medicalizá-los com um diagnóstico
psiquiátrico ou tratá-los com um comprimido. Recorrer de modo prematuro a medicamentos
provoca um curto-circuito nos caminhos tradicionais da cura natural e
renovadora — buscar o apoio da família, dos amigos e da comunidade; fazer as
mudanças necessárias na vida, descarregar o excesso de estresse; dedicar-se a
hobbies e interesses, aos exercícios, ao descanso, às distrações, à mudança de
ritmo. Superar problemas sozinho normaliza a situação, ensina novas habilidades
e traz o indivíduo para perto daqueles que o ajudaram. (2016, p. 55)
CONCLUSÃO
O Deus
criador e sustentador de todas as coisas é poderoso para, num mundo tão
conturbado, agitado e cheio de contradições, dar-nos sabedoria e vigor no
espírito, na alma e no corpo, a fim de vivermos saudáveis e servi-lo com todo o
nosso ser (Fp 4.6,7).
O Homem — Corpo, Alma e Espírito | 29
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