domingo, 5 de outubro de 2025

CPAD – TEMA: CORPO, ALMA E ESPIRITO | Lição 01: O Homem – Corpo, Alma e Espírito

 


Lição 1: O Homem — Corpo, Alma e Espírito

Data: 5 de outubro de 2025

 

TEXTO ÁUREO

 “E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.” (1Ts 5.23).

VERDADE PRÁTICA

Deus nos fez corpo, alma e espírito para glorificá-lo eternamente com todo o nosso ser.

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE

Gênesis 1.26-28; 2.7,18,21-23.

Gênesis 1

26 — E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se move sobre a terra.

27 — E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou.

28 — E Deus os abençoou e Deus lhes disse: Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.

Gênesis 2

7 — E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra e soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.

18 — E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma adjutora que esteja como diante dele.

21 — Então, o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma das suas costelas e cerrou a carne em seu lugar.

22 — E da costela que o Senhor Deus tomou do homem formou uma mulher; e trouxe-a a Adão.

23 — E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos e carne da minha carne; esta será chamada varoa, porquanto do varão foi tomada.

COMENTÁRIO

INTRODUÇÃO

Deus criou o homem de forma especial, com um propósito especial (Gn 1.27,28), como um ato de coroamento de sua criação. E fez isso de maneira sublime e distinta em relação a todos os demais seres viventes. Muito além da expressão “produza a terra”, a partir da qual foram criados os animais (Gn 1.24), o homem é resultado de uma ação divina, pessoal e plural (Gn 1.26). Sua formação é constituída de uma modelagem sobrenatural — “do pó da terra” — e pelo sopro de Deus em seus narizes (Gn 2.7). Neste trimestre, estudaremos essa solene, maravilhosa e exclusiva criação, bem como a importância de uma vida equilibrada e saudável no espírito, na alma e no corpo, sob a perspectiva cristã. Abordaremos a Queda e a Redenção, firmados na esperança de nosso completo, iminente e eterno retorno ao Criador (1Ts 4.15-17).

Palavra-Chave: 

TRICOTOMIA

I. A TRICOTOMIA HUMANA

1. Doutrina e teologia. A Doutrina do Homem está fundamentada em toda a Escritura, numa revelação suficiente para demonstrar quem é o homem, como foi criado e com que propósito (Gn 1.26-29; 2.15; Sl 8.3-9; Ef 1.3-6). No campo da Teologia Sistemática, ela é conhecida como Antropologia Bíblica, que estuda o homem desde sua origem, constituição e existência, considerando o período anterior à Queda, o pecado original e suas consequências, o plano redentor e a eternidade. Relaciona-se com todas as outras grandes doutrinas da Bíblia e responde às intrigantes e milenares perguntas: Quem é o homem? De onde veio? Para onde vai?

Em um tempo de tanta psicologização da fé e intensa busca de respostas para os problemas humanos em concepções não cristãs, um piedoso e profundo estudo das Escrituras é cada vez mais necessário e urgente, a fim de desfazer toda e qualquer dúvida existencial e gerar uma fé bíblica genuína, sadia e equilibrada (1Co 2.1-16; 2Tm 3.16,17; Hb 4.12).

2. A tríplice natureza. A teologia utiliza o termo “tricotomia” para tratar da tríplice constituição do ser humano: o corpo, a alma e o espírito. Essas três substâncias, ou componentes do homem, são descritas tanto no Antigo quanto no Novo Testamento (Dt 4.9; Sl 42.11; 139.16; Dn 7.15; Zc 12.1; Mt 10.28; Lc 1.46,47; 1Co 14.14,15).

O próprio Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado — plenamente homem e plenamente Deus — possuía essa constituição (Lc 24.39; Jo 12.27; Lc 23.46). A primeira divisão — as partes material e imaterial — é explicitamente apresentada no ato de formação do homem: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra e soprou em seus narizes o fôlego da vida, e o homem foi feito alma vivente” (Gn 2.7).

3. Físico e espiritual. O processo formativo usado pelo Criador, que é Espírito (Jo 4.24), foi constituído de uma combinação única: o elemento físico (pó da terra) com o elemento espiritual (o sopro divino), tornando o homem um ser vivente diferente de todos os demais.

Os anjos são seres espirituais, porém sem corpo material (Sl 33.6; Hb 1.13,14). Os animais não possuem a parte imaterial que há no homem (alma e espírito). A “alma” do animal (sua vida) se restringe ao corpo e se esvai com ele (Lv 17.12-14).

Já o termo hebraico para “vida”, em Gênesis 2.7, alusivo ao homem, é chayim (no plural), permitindo a expressão literal “fôlego das vidas”. Isso pode significar que, em um único substantivo, o texto sagrado esteja aludindo implicitamente à vida do espírito humano, da alma humana e do corpo humano.

SINOPSE I

O ser humano foi criado por Deus com uma natureza tricotômica — corpo, alma e espírito — revelando seu propósito e dignidade única na criação.

AUXÍLIO BIBLIOLÓGIC 

“O QUE SIGNIFICA SER HUMANO?

A Bíblia afirma claramente que a raça humana, por decisão especial de Deus, foi criada à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26,27). Isto significa que Adão e Eva não eram produtos de evolução (Gn 1.27; Mt 19.4; Mc 10.6; veja o artigo A CRIAÇÃO, p.7). O fato de terem sido criados à semelhança de Deus significa que eles eram capazes de responder a Deus e ter um relacionamento pessoal com Ele.

[...] Observe pelo menos três aspectos diferentes da imagem de Deus na humanidade (veja Gn 1.26, nota): Adão e Eva possuíam uma semelhança moral com Deus, pelo fato de que foram originalmente criados justos e santos. Ou seja, eles estavam em um relacionamento correto com Deus, dedicados completamente a bons propósitos e separados do mal (cf. Ef 4.24), com o coração capaz de amar e desejar fazer o que é certo. Eles possuíam uma semelhança com Deus em sua inteligência, porque foram criados com espírito, mente, emoções e o poder de escolha (Gn 2.19,20; 3.6,7). De certa forma, a constituição física das pessoas também estava na imagem de Deus, de uma maneira que não acontecia com os animais. Deus deu aos seres humanos a forma em que Ele apareceria visivelmente no Antigo Testamento (Gn 18.1,2), e a forma que o seu Filho assumiria quando viesse à terra (Lc 1.35; Fp 2.7) para dar a vida em pagamento pelo nosso pecado.” (Bíblia de Estudo Pentecostal — Edição Global. Rio de Janeiro: CPAD, 2022, p.1106).

II. A DISTINÇÃO ENTRE ALMA E ESPÍRITO

1. A alma. Do hebraico nephesh e do grego psyché, “alma” é uma das muitas palavras polissêmicas da Bíblia — possui vários significados. Aparece 755 vezes somente no Antigo Testamento. Seu primeiro sentido é “ser vivo”, como em Gênesis 1.20: “alma vivente”. Nesta acepção, a palavra “alma” é usada também para os animais (Gn 1.24) e significa simplesmente “vida”.

A distinção entre a alma do homem e a do animal é evidenciada no processo criativo: procedente do sopro de Deus (Gn 2.7), a alma do homem constitui uma substância espiritual, incorpórea, invisível e imortal (Dn 12.2; Mt 25.46; Lc 16.22-25; Ap 20.4). É dotada de razão, sentimento e vontade — atributos dados por Deus ao homem para o exercício de sua missão (Gn 1.28), especialmente sua vocação relacional com o Criador e com os semelhantes (Gn 2.15-24; 3.8). Isso, aliás, decorre do fato de o homem ser um ser pessoal, criado à imagem de Deus (Gn 1.26).

2. O espírito. Do hebraico ruah e do grego pneuma, o espírito do homem provém de Deus e constitui sua principal dimensão. É por meio dele que mantemos nossa comunhão com o Criador, o Pai dos espíritos, e o adoramos (Hb 12.9; Jo 4.23,24). Junto com a alma, e inseparável dela, compõe a parte imaterial do ser humano. É o “homem interior” que, na linguagem do apóstolo Paulo, aparece algumas vezes em contraste direto com o corpo, o homem exterior (Rm 7.22-25; 2Co 4.16-18; Ef 3.16-19). Como ensina o pastor Antônio Gilberto, em sua Bíblia com Comentários, “à luz das Escrituras, o espírito é a fonte da vida recebida de Deus. O espírito usa e transmite essa vida à alma, que, por sua vez, a expressa por meio do corpo, utilizando seus sentidos físicos para explorar o mundo exterior e dele receber as necessárias impressões”. São três elementos que formam um único ser ou pessoa.

SINOPSE II

A distinção entre alma e espírito, mostrando que ambos compõem a parte imaterial do ser humano, mas com funções diferentes na relação com Deus e com o próximo.

AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO

A ALMA E O ESPÍRITO

 

“A alma (heb. nephesh; gr. psychē), frequentemente traduzida como ‘vida’, pode ser brevemente definida como a parte não material do ser humano, que resulta da união de corpo e espírito. Ela inclui a mente, as emoções e o livre-arbítrio. Juntamente com o espírito humano, a alma continuará a viver quando a pessoa morrer fisicamente. (Nesse sentido, há certa superposição na Bíblia no uso das palavras ‘alma’ e ‘espírito’.) A alma está tão intimamente conectada à personalidade interior que o termo é usado, às vezes, como sinônimo de ‘pessoa’ (p.ex., Lv 4.2; 7.20; Js 20.3). O corpo (heb. basar; gr. sōma) pode ser brevemente definido como o elemento físico e material de um indivíduo que retorna ao pó quando este morre (às vezes, chamado de ‘carne’). O espírito (heb. ruach; gr. pneuma) pode ser brevemente definido como o componente de vida não material do ser humano ” a essência verdadeira da pessoa, dada por Deus — incluindo as nossas capacidades espirituais e a nossa consciência. É o aspecto pelo qual temos contato mais direto com o Espírito de Deus.” (Bíblia de Estudo Pentecostal — Edição Global. Rio de Janeiro: CPAD, 2022, pp.1106,1107).

III. A INTERAÇÃO DAS TRÊS DIMENSÕES

1. Corpo, afetos e somatização. O corpo (gr. sōma) é a parte material do ser humano, por meio da qual comumente manifestamos os atributos da alma e do espírito. Empregando o vocábulo “coração” (heb. leb; gr. kardia) — uma das principais palavras que o Antigo e o Novo Testamentos usam como sinônimo de alma —, Salomão bem identificou essa interação ao afirmar: “O coração alegre aformoseia o rosto” (Pv 15.13); “O coração com saúde é a vida da carne” (Pv 14.30); “O coração alegre serve de bom remédio, mas o espírito abatido virá a secar os ossos” (Pv 17.22). Identificados como doenças psicossomáticas a partir do século XX, muitos problemas físicos decorrem de crises da alma (e do espírito, inclusive pecados, cf. Sl 31.9,10; 32.1-5). E como se multiplicam em nossos dias!

2. Equilíbrio e saúde. Da mesma forma que o corpo padece por causa de disfunções da alma e do espírito, estes também sofrem por problemas do corpo — naturais ou não. A língua é um dos membros que mais produzem angústias ao ser humano (Pv 18.7,21; 21.23). Tem o nefasto poder de contaminar a pessoa por inteiro (Tg 3.6). Um viver santo e equilibrado requer constante vigilância e oração, preservando corpo, alma e espírito de toda a espécie de males, o que inclui cuidados físicos e relacionais saudáveis (Cl 3.5-9; Ef 4.25-32; 6.18).

Quanto à crescente busca por medicamentos como solução para todo tipo de problema emocional, é preciso discernimento e cautela. O acompanhamento médico e psicológico é importante em situações clinicamente diagnosticadas, mas, quando o problema tem origem espiritual — como crises produzidas por pecados não confessados —, os medicamentos não resolvem; no máximo, aliviam os sintomas. Arrependimento e abandono do pecado são essenciais para a verdadeira cura da alma (Cl 3.8; Ef 4.31; Tg 4.6-10; 2Cr 7.14; Is 53.4,5).

SINOPSE III

O corpo, a alma e o espírito estão interligados. O equilíbrio entre essas dimensões é essencial para uma vida cristã saudável e plena diante de Deus.

CONCLUSÃO 

Uma correta compreensão espiritual acerca do homem, de sua constituição e propósito é fundamental para uma vida cristã equilibrada (1Co 2.14,15). Mesmo as almas mais piedosas não encontram verdadeira paz e alegria senão em Deus, o seu Criador (Sl 42.1; Jo 14.27), pois “a alegria do Senhor é a [nossa] força” (Ne 8.10).

 

         Sumário

Agradecimentos...................................................................5 Abreviaturas........................................................................6   Prefácio................................................................................7

Introdução..........................................................................11

 

 Capítulo 1

 O Homem — Corpo, Alma e Espírito.....................................................13

 Capítulo 2

 O Corpo — A Maravilhosa Obra da Criação de Deus.........................31

 Capítulo 3

 O Corpo e as Consequências do Pecado...................................................45

 Capítulo 4

 O Corpo como Templo do Espírito Santo................................................55

 Capítulo 5

 A Alma — A Natureza Imaterial do Ser Humano.................................. 65

 Capítulo 6

 A Consciência — O Tribunal Interior.....................................................75

 Capítulo 7

 Os Pensamentos — A Arena de Batalha na Vida Cristã.........................85

 Capítulo 8

 Emoções e Sentimentos — A Batalha do Equilíbrio Interior.................95

 Capítulo 9

 Vontade — O que Move o Ser Humano................................................. 107

10 | Corpo, Alma e Espírito

 Capítulo 10

 Espírito — O Âmago da Vida Humana...............................................117

 Capítulo 11

 O Espírito Humano e as Disciplinas Cristãs........................................ 125

 Capítulo 12

 O Espírito Humano e o Espírito de

Deus............................................133

 Capítulo 13

 Preparando o Corpo, a Alma e o Espírito para a Eternidade............ 143

 Referências......................................................................151

 

     Introdução

  Corpo, Alma e Espírito é um estudo panorâmico das Escrituras a respeito do homem e a sua constituição, a Queda e os seus efeitos e a Redenção e os seus eternos benefícios em Cristo. Quanto a esse terceiro aspecto, enfatiza a glorificação, a transformação do corpo na ressurreição e o arrebatamento dos salvos (1 Co 15.51-54; 1 Ts 4.16,17). A obra apresenta a tríplice natureza do ser humano (a tricotomia), sem ignorar a existência de outras duas visões teológicas relativas à composição do homem. A primeira é o monismo, também chamado de unitarianismo, corrente doutrinária segundo a qual o homem é um todo, uma só parte, uma unidade indivisível. Ao considerar não haver qualquer divisão na constituição humana, os monistas opõem-se às visões teológicas que apontam a existência das partes material e imaterial. Para o monismo, não existe alma ou qualquer parte do ser humano que sobreviva à morte (RENOVATO, 2021, p. 270). É, claramente, uma proposta antibíblica.

    Figurando no intermediário teológico — entre monismo e tricotomismo —, a doutrina do dicotomismo considera que o homem é constituído de uma parte material e outra imaterial, mas não admite que o imaterial seja composto de alma e espírito. Apesar de a Bíblia conter inúmeras referências aos termos “alma” e “espírito”, os dicotomistas consideram tratar-se de expressões sinônimas, sempre utilizadas de forma intercambiável, ou seja, o emprego de uma no lugar da outra não afetaria o sentido. Embora alguns textos bíblicos possam inicialmente conduzir a esse entendimento, um amplo exame das Escrituras permite-nos chegar a uma conclusão oposta: os termos “alma” e “espírito” aparecem de forma intercambiável em alguns textos bíblicos, mas também são empregados com significados claramente distintos em inúmeros outros tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Em geral, as defesas do dicotomismo costumam revelar apenas a escolha de uma linha interpretativa (a dicotomia) e a rejeição de outra (a tricotomia). A negação do que a visão tricotômica tem como propósito claro de diversos autores sagrados, que é a referência a espírito e alma como substâncias distintas. Visto assim, o dicotomismo torna-se mais a filiação a uma linha teológica do que uma refutação embasada da tricotomia.

   Ao longo desta obra, serão apresentadas referências bíblicas que não apenas permitem ver distinções entre alma e espírito, mas que também os citam explicitamente de forma apartada e não sinonímica. Além desses muitos fundamentos, o pensamento tricotômico ancora-se na eloquente expressão do escritor aos Hebreus quanto à divisão da alma e do espírito, lugar de acesso exclusivo da Palavra de Deus (Hb 4.12). O tricotomismo é, portanto, a aceitação plena do que dizem as Escrituras. De qualquer forma, crer com clareza de alma e de propósito no aspecto tricotômico do homem não deve induzir-nos a debates ou a qualquer meio de hostilização à visão dicotômica.

   Tratando do dicotomismo, o autor pentecostal Timothy Munyon (HORTON, 1996, p. 249) assinala ser possível admitir que os seus adeptos consigam defender as suas opiniões sem cair em erros doutrinários, mas alerta para perigos de extremos que podem ser produzidos no emprego da visão dualista, como ocorreu dentro do gnosticismo, que ameaçou a fé cristã nos primeiros séculos, e da teologia liberal, que teve o mesmo propósito já em tempos modernos. A ficha desses adeptos do dualismo conduz-nos a um quadro, no mínimo, preocupante! Embora dicotomista, Gordon H. Clark (1902—1995) também admite os perigos de uma visão dualista (2022, p. 63). O alerta de Munyon e a franqueza de Clark levam-nos a considerar, ainda, expressões extremistas vistas no cristianismo atual, que são a supervalorização do espírito em detrimento do corpo ou o inverso disso. São questões que serão tratadas ao longo desta obra.

   Ainda à título de introdução, duas observações precisam ser feitas. A primeira: o fato de o homem ser composto de três partes ou substâncias não deve levar-nos a concebê-lo como um ser repartido, mas, sim, na sua unidade. Como diz a Declaração de Fé das Assembléias de Deus (2025, p. 86), somos uma unidade (o homem) na pluralidade (espírito, alma e corpo) e uma pluralidade na unidade. A segunda observação é: a dupla constituição imaterial do homem (alma e espírito) não significa separabilidade dos elementos. Alma e espírito são inseparáveis. Não é incomum, portanto, que haja íntima comunicação entre eles, o que se apresenta na comunicabilidade, inclusive, da expressão das suas faculdades — isso, aliás, contribui para os dicotomistas verem um elemento apenas, e não dois. O fato é que o caráter unitário do homem — a sua integralidade — não admite ausência de afetação ou correlação mesmo em relação ao corpo. O homem é uma unidade composta e assim dever ser considerado. Por fim, esperamos que o leitor esteja ainda mais convicto de como a tricotomia humana está bem fundamentada nas Escrituras, e o quanto a sua compreensão conduz-nos ao exercício de uma vida cristã equilibrada.

   Que o Senhor nos conduza no presente estudo.

 


INTRODUÇÃO

   Nosso estudo da Antropologia Bíblica começa com uma oração de Paulo pelos tessalonicenses, na qual ele expressa os aspectos presente e futuro da obra da Salvação (santificação e glorificação) e expressa o que é um dos principais fundamentos bíblicos da composição tricotômica do homem: “E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Ts 5.23). O Deus de paz, que nos santifica integralmente e conserva-nos na esperança escatológica firmada na fé no seu Filho Jesus Cris to, é o Deus Criador, que nos fez à sua imagem: “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou” (Gn 1.27).

   A Imagem de Deus no Homem

   Gênesis inicia apresentando-nos Deus dando forma e beleza aos céus e à terra, que era sem forma e vazia. Moisés descreve-nos um cenário de luz em meio às trevas e de organização e vida a partir do nada. Tendo feito tudo perfeito, o Criador, na sua soberania, entregou o governo da sua obra a um ser especial e diferente de todos os demais já criados. Animados, po rém não autogovernados, os animais, que já povoavam terra e céus, foram feitos cada um segundo a sua espécie. O homem, contudo, trouxe consigo a imagem de Deus. Gênesis 1.26 é a grande proclamação da criação de um ser autônomo, e não autômato, pensante, e não meramente vivente, sensitivo, e não meramente instintivo.1

   A distinção entre o homem e os animais é verificada nos atos de criação. Em relação ao homem, Gênesis 1 traz a narrativa do que Deus fez. Em Gênesis 2, descortina-se como tudo foi feito por Ele, destacando a sua obra distinta. A chave para compreender tudo isso começa com a descrição da ação verbal anunciada em Gênesis 1.26, pois tudo muda na narrativa bíblica quando o homem entra no cenário da história. As ex pressões “haja”, “ajuntem-se” e “produza”, usadas na criação dos animais, dão lugar ao “façamos”, indicando o concerto da Trindade para uma obra superior a todas as já antes feitas. Não sem razão, as Escrituras apresentam em diversos textos o homem em posição distinta e elevada em relação a toda a criação. Coube a Davi uma das mais sublimes declarações bíblicas acerca do ser humano: “[...] pouco menor o fizeste do que os anjos e de glória e de honra o coroaste” (SI 8.5).

   Liberdade, autogoverno, autodeterminação, racionalidade, vontade e sentimento são características humanas inalienáveis, saídas perfeitas das mãos de Deus (Ec 7.9). O Criador fez o homem para dominar sobre a toda a Criação: “[...] e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se move sobre a terra” (Gn 1.26b). A condição indispensável para isso foi dotá-lo dos atributos pessoais já mencionados, todos relativos à sublime característica de imagem de Deus, a imago Dei tão estudada pela Teologia ao longo dos séculos.23

   Queda e Redenção

   O cenário de perfeição foi alterado com a Queda, a desobediência de Adão e Eva, principiada por esta após a negligente conversa com a serpente, instrumento que Satanás usou para enganá-la (Gn 3.1-7). Gomo seres morais dotados de livre-arbítrio, homem e mulher podiam decidir entre obedecer ou não a Deus: “E ordenou Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16,17). Deus referia-se, em primeiro lugar, à natureza espiritual do homem, a primeira a ser afetada pelo nefasto pecado, mas também se referia à morte do corpo, que não tardaria a ingressar na história humana, com a tragédia do primeiro homicídio, que vitimou o jovem Abel (Gn 4.1-8).

   As consequências do pecado foram anunciadas por Deus à serpente, à mulher e ao homem, e afetou toda a criação (Gn 3.14-19). Em relação ao homem, diz a Declaraçã) de Fé das Assembléias de Deus (2025, p. 98, 99):

   A Queda no Éden arruinou toda a humanidade tão profundamente que transmitiu a todos os seres humanos a tendência ou inclinação para o pecado. Não somente isso, contaminou toda a humanidade [...] A natureza moral foi corrompida, e o coração humano tornou-se enganoso e perverso. Todas as pessoas estão mortas em ofensas e pecados; são inimigas de Deus e escravas do pecado. A corrupção do gênero humano atingiu o homem em toda a sua composição — corpo, alma e espírito [...]. Apesar de tudo, a imagem de Deus no ser humano não foi aniquilada; foi, no entanto, desfigurada a tal ponto que a sua restauração só é possível em Cristo.

   Para aniquilar os efeitos da Queda, trazidos pelo pecado do primeiro Adão, Cristo, o último Adão, como Homem Perfeito, consumou na cruz a obra de redenção, suficiente para restaurar a imagem de Deus no homem por inteiro, incluindo o corpo (1 Co 15.53; 1 Ts 4.16,17): “Mas todos nós, com cara descoberta, refletindo, como um espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor” (2 Co 3.18). “[...] O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão, em espírito vivificante. [...] E, assim, como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos a imagem do celestial” (1 Co 15.45,49).

   I - A TRICOTOMIA HUMANA

   Na introdução desta obra, fizemos referências às duas outras visões teo lógicas relativas à constituição do homem: o unitarianismo (ou monismo) e o dicotomismo. Aqui trataremos da doutrina tricotômica, claramente lastreada nas Escrituras e que também pode ser defendida a partir de uma analogia com o Ser de Deus, como observa Eurico Bergstén (1913-1999): “Deus, que é trino, criou o homem como um ser tríplice, isto é, composto de corpo, alma e espírito. O Deus trino, isto é, Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, imprimiu sua semelhança na formação do homem” (BERGSTÉN, 1999, p. 128). O teólogo pentecostal também invoca o Tabernáculo e as suas três partes de forma analógica ao homem e os seus três elementos (ibid., p. 129). Essas mesmas analogias são feitas pelo pastor Antonio Gilberto (1927-2018) (2021, p. 1921). No capítulo 4, voltaremos a essa analogia quando tratarmos do corpo. Ainda em comparação com a tricotomia humana, podemos pen sar no aspecto tríplice dos reinos terrenos: o animal, o vegetal e o mineral.

   O leitor poderá, a partir dos muitos textos bíblicos que aqui serão citados, examinar o quanto a Bíblia refere-se ao espírito e à alma com clara distinção, sem prejuízo das referências em que os termos aparecem de forma intercambiável ou sinônima, o que não depõe contra a visão tricotômica, mas reforça-a, pois, como acentua Myer Pearlman (1898-1943), citado por Timothy Munyon (1996, p. 248), “o espírito está entretecido na própria textura da alma. São fundidos e caldeados numa só substância”.

   O que se tem, com suficiente clareza, é que as Escrituras citam inúmeras vezes o espírito e a alma no exercício das suas faculdades inerentes, que se comunicam em muitas referências — e não é demais que, às vezes, até se confundam pela íntima e profunda fusão existente entre ambos, como já destacado, ao ponto de a divisão só ser distinguida por Deus mediante a sua Palavra, conforme a conhecida citação de Hebreus 4.12.

  1. Doutrina e teologia

   A Doutrina do Homem é conhecida na Teologia Sistemática como Antropologia Bíblica ou Antropologia Teológica. É uma doutrina que se relaciona com todas as demais doutrinas fundamentais, pois toda a Revelação está voltada ao tema do relacionamento de Deus com o homem e deste com aquEle. Assim, o estudo da antropologia leva em conta, de início, a Doutrina de Deus e considera todas as demais doutrinas, como a hamartiologia, a cristologia, a soteriologia e a escatologia, pois o seu campo de estudo englo ba a criação, a Queda e a redenção. Como doutrina, a antropologia busca todos os seus fundamentos nas Escrituras e serve-se de reflexões teológicas formuladas a partir do conteúdo escriturístico. Doutrina e teologia bíblicas constituem o arcabouço da Antropologia Bíblica ou Teológica.1 4

   A Antropologia como Ciência

   Antes de prosseguir no estudo da Antropologia Bíblica, é importante conceituar antropologia e considerar a sua área de atuação como ciência. Formada dos vocábulos gregos antrophos (homem) e logia (estudo), a antropologia foi organizada como uma área científica somente no século XIX. O seu objeto de estudo é o homem nas suas vivências, considerando aspectos de organização social, cultural, línguas, hábitos, costumes, tradições etc. Jean-Marie Auzias (p. 11) sintetiza o conceito de antropologia como sendo “a ciência das culturas de toda a Humanidade”.5

  O grande avanço das pesquisas de cunho antropológico deu-se no período das grandes navegações protagonizadas pelos europeus a partir do século XV Foi a chamada era dos descobrimentos. O conhecimento de novos povos e culturas desafiou o pensamento dos colonizadores em pleno Iluminismo (séculos XVII e XVIII), quando estava em franca valorização a razão humana em detrimento do pensamento religioso medieval. Esse encontro de novos povos levou ao avanço da ciência e ao surgimento de campos de estudos específicos, como a Antropologia, tendo como primeiros teóricos Émile Durkheim (1858-1917) e Marcei Mauss (1872-1950), conforme acentua o antropólogo François Laplantine (2007, p. 87-92).

   Atualmente, a Antropologia está dividida em diversos campos. O mo delo americano classifica-a em quatro áreas: (1) a Antropologia Cultural, (2) a Arqueologia, (3) a Antropologia Físico-Biológica e (4) a Antropologia Linguística. Existem outras divisões de estudo nos modelos britânico e francês, além de realidades peculiares de diversos países, como o Brasil, onde se pratica mais a Antropologia Cultural. Enquanto instrumento de pesquisa da realidade dos povos, a antropologia produz achados interessantes para a humanidade. O seu grande problema, contudo, é quando se envereda para a discussão da existência humana, a sua origem, propósito e destino. Gomo não há resposta para essas questões fora da Bíblia, os antropólogos nada podem dizer ao homem que realmente faça sentido e responda as grandes dúvidas da humanidade.

   Enquanto a Antropologia Bíblica mostra-nos, pelas Escrituras, a história da Salvação — que passa pela Queda e apresenta a Redenção —, a Antropologia Científica, com as suas concepções ateístas e materialistas, permanece presa a um quadro de teorias, incredulidade e caos. As suas concepções e conclusões não oferecem qualquer esperança para o homem. Ao negar a criação, o edifício antropológico da ciência humana é construído sobre bases insustentáveis. Há um abismo debaixo das crenças antropológicas formuladas à parte da Bíblia, as quais estão infelizmente permeadas em todo o sistema de vida humano, que não presume a existência de Deus e a sua obra, mas rejeita-as.

   Anthony A. Hoekema (2018, p. 13) aponta o materialismo como o tipo de antropologista não cristã mais influente atualmente:

   Segundo essa ideia, o homem é um ser composto de elementos materiais, sendo sua vida mental, emocional e espiritual simples mente subprodutos de sua estrutura material. Por exemplo, a visão marxista da determinação econômica da História repousa sobre uma concepção materialista ou naturalista da natureza humana. Para o marxista, o homem é, simplesmente, um produto da natureza. Os seres humanos não foram criados à imagem de Deus — na verdade, a existência real do Criador é negada. [...]

   Um outro tipo de antropologia materialista influente em nossos dias é a ideia do homem subjacente nos escritos de B. F. Skinner. Em sua obra Beyond Freedom and Dignity (Além da Liberdade e da Dignidade), Skinner sustenta que a ideia de que o ser humano é responsável por sua conduta está enraizada numa tradição que não é mais cientificamente aceitável.

   O discurso do homem sobre o homem é utópico e sem sentido. Limitada ao que vê e divagando em teses frágeis quanto ao que não vê, a humanidade segue em busca de explicações para as suas inquietantes dúvidas existenciais. Sem respostas, a Antropologia Geral tem-se reduzido a contemplar e descrever a existência humana em grupo; as culturas dos povos, as suas organizações em sociedade, os seus arcabouços linguísticos, os seus costumes e práticas. Quando tenta formular explicações para as grandes questões da vida humana, perde-se no pântano das incertezas. Somente as Escrituras têm a resposta para as mais antigas e inquietantes perguntas do homem. Esse é o grande tema da Antropologia Bíblica.

   A Psicologização da Fé

   O homem é um ser complexo e não pode ser compreendido à parte da Revelação. Por isso, não apenas as equivocadas concepções antropológicas e filosóficas, mas também visões de outras áreas do conhecimento humano, como a psicologia, devem ser encaradas com as devidas reservas, pois sempre conflitarão em diversos pontos com as Escrituras e a verdadeira fé cristã. Considerando que as ciências em geral não partem do pressuposto de que Deus existe, é uma grande temeridade — e tem-se mostrado um perigo crescente para a Igreja atual — o cristão deixar-se guiar cegamente por abordagens e diagnósticos psicológicos se estes não podem levar em conta fatores espirituais. Se não se pode ter uma concepção antropológica adequada sem considerar o homem na sua integralidade (corpo, alma e espírito), como é possível encontrar respostas seguras para os problemas do homem em terapias que não admitem fatores de ordem espiritual?

   A psicologização da fé é um processo gradual de substituição da fé pela psicologia no ambiente cristão. Psicologizar a fé é tentar explicar e tratar problemas emocionais que tenham origem espiritual por meio de teorias e técnicas da psicologia, cujos pressupostos são alheios à verdadeira origem das crises. E negar os efeitos do pecado, como a culpa, buscando soluções terapêuticas sem considerar a necessidade de atitudes espirituais, como o arrependimento, a confissão e o abandono do pecado. Gomo observa Billie Davis (2018, p. 192), “os cristãos que estudam psicologia geral ou treinam para trabalhar como psicólogos com pessoas perturbadas veem como as perspectivas (ou cosmovisões) da psicologia secular podem torcer o entendimento sobre a natureza humana”. Por isso, salienta-se a necessidade de a verdade psicológica ser examinada à luz da verdade cristã, e não à parte dela (ibid., p. 193).'

   Citando Gary R. Collins (1934-2021), Davis ainda analisa que as teorias da psicologia secular não explicam as realidades humanas adequadamente porque são construídas em pressuposições erradas sobre a origem e a natureza das pessoas; os seus métodos não podem responder as questões essenciais, como as relativas a significado, propósito e condições espirituais dos seres humanos (p. 194). As Escrituras dizem-nos que Gaim era do maligno e matou o seu irmão porque as suas obras eram más, e as de seu irmão Abel, justas (1 Jo 3.12). A psicologia faria todo o tipo de diagnóstico da personalidade de Caim, menos esse.

  O psicólogo cristão Jamiel Lopes (2017, p. 11) adverte:

  A aceitação sem questionamentos das práticas psicoterapêuticas nas igrejas pode representar um grande problema. Psicologia e cristianismo são dois caminhos diferentes que parecem próximos, mas que, ao mesmo tempo, são muito distantes. Há um grande abismo que separa um do outro. A Psicologia lida com a natureza do homem, como ele vive e como ele muda. A Bíblia lida exatamente com as mesmas questões. No entanto, os principais ensinamentos da Psicologia contradizem ou comprometem muitas vezes os ensinos das Escrituras.

   Jesus convida os cansados e oprimidos para irem a Ele e encontrar descanso para a alma (Mt 11.28,29). Pedro pregou arrependimento e conversão para libertação e alcance de refrigério (At 3.19). (A NVB traz no versículo 20 a expressão “tempos maravilhosos de alívio”, o que equivale a paz, alegria e um novo vigor para espírito e alma). Antes de expor nossas angústias e tristezas a diagnósticos humanos, devemos submetê-las ao crivo divino (SI 142.1-7).8

   Trataremos um pouco mais dessa relação entre fé e psicologia ainda neste capítulo, quando falarmos sobre Equilíbrio e Saúde, no tópico A In teração das Três Dimensões. 2.

   A tríplice natureza

   Diversos textos bíblicos fazem referência aos três elementos constitutivos do ser humano. Em Deuteronômio 4.9, somos advertidos a guardar bem a “alma”, para que ela não se esqueça do que os olhos têm visto. Nota-se, claramente, a alma como lugar de recordação e reflexão, além de decisão, pois o texto diz mais: “[...] e se não apartem do teu coração todos os dias da tua vida, e as farás saber a teus filhos e aos filhos de teus filhos”. Aparece no texto o termo hebraico leb (coração), muitas vezes usado no sentido de alma ou espírito ou alma e espírito, “a totalidade da natureza interior ou imaterial do homem” (Harris, 1998, p. 765).9 Hans Walter Wolff (1911-1993) (2007, p. 79) observa que leb é a palavra mais importante para a gramática da antropologia veterotestamentária. Na forma mais corrente, aparece 598 vezes.

   Em Daniel 7.15, o profeta afirma: “Quanto a mim, Daniel, o meu espírito foi abatido dentro do meu corpo, e as visões da minha cabeça me espantavam”. A referência a “espírito” (ruah) não pode ser tida como aleatória, principalmente porque, no mesmo texto, o profeta refere-se ao que povoava a sua mente (“as visões da minha cabeça”), após se referir ao corpo: espírito e mente (pensamentos, visões) estavam inquietos, ou seja, todo o interior do profeta. Zacarias 12.1 é o clássico texto que fala da formação do espírito dentro do homem: “[...] Fala o Senhor, o que estende o céu, e que funda a terra, e que forma o espírito do homem dentro dele”. Mais uma vez o termo hebraico aqui é ruah, e não nephesh (alma). Em Mateus 10.28, temos a declaração de Jesus acerca da distinção entre a parte mortal (corpo) e a imortal do homem (representada pela alma): “E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo”. (Analisaremos mais detidamente esse versículo no capítulo 5, quando tratarmos especificamente da alma).

   Também reforça o aspecto tríplice da constituição humana o fato de que Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado, tinha semelhantes elementos, como se observa em diversos textos dos Evangelhos. Em Lucas 23.46, Jesus, estando na cruz e antes de expirar, entregou ao Pai o espírito (pneuma). Em Lucas 24.39, já ressuscitado, aparece aos discípulos e afirma: “Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; tocai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho”. Isso disse por que os discípulos pensavam estar vendo um “espírito” (24.37). Em João 12.27, Jesus afirma: “Agora, a minha alma \psyque] está perturbada”. Na sua oração no Getsêmani, Ele fala da angústia da sua alma: “[...] A minha alma está cheia de tristeza até à morte; ficai aqui e vigiai comigo” (Mt 26.38).

   O que se pode concluir diante dessas e de tantas outras citações de espírito e alma como elementos distintos é que os considerar o mesmo componente é mais uma escolha hermenêutica do que um exercício exegético correto. E rejeitar a literalidade do texto, preferindo entender que o uso dos termos (ora espírito, ora alma) sempre se dá de forma aleatória, intercambiável e sinônima. Não é, seguramente, o caminho mais adequado, principalmente porque, mais adiante, o estudante da Bíblia há que se deparar com 1 Tessalonicenses 5.23, que faz a citação de espírito, alma e corpo em continuidade textual e sem nenhuma indicação de sinonímia, e ainda verá o já citado texto de Hebreus 4.12, que menciona a divisão entre alma e espírito. A tríplice natureza está, portanto, bem solidificada nas Escrituras.

   3. Físico e espiritual

   Gênesis 2.7 apresenta Deus formando o homem do pó da terra (parte física) e, sendo Ele espírito (Jo 4.24) e o Pai dos espíritos (Hb 12.9), soprando o fôlego de vida, fazendo o homem uma alma vivente. O sopro é o elemento espiritual que torna o homem um ser vivente diferente de todos os animais, com uma alma racional, afetiva e volitiva. A faculdade da consciência, que só o ser humano possui entranhada na sua substância espiritual, também se soma aos fatores que o distingue dos animais. Por outro lado, os homens também são distintos dos anjos, que são seres espirituais reais e distintos, mas imateriais e incorpóreos fisicamente (GABY, 2021, p. 448). São “espíritos ministradores”, conforme Hebreus 1.14.

   Quanto aos animais, são físicos e não espirituais. A “alma” dos animais é restrita ao corpo e esvai-se com ele no momento da morte. Levítico 17.11 diz: “a alma [vida] da carne está no sangue”. O homem tem vida consciente e racional, enquanto a vida dos animais é inconsciente. Como acentua o pastor Antonio Gilberto (2021, p. 12), a alma do homem tem inteligência consciente, ao passo que a chamada “inteligência” e “argúcia” dos animais é puramente instintiva, não racional.

   Referindo-se a Gênesis 2.7, o pastor Antonio Gilberto (p. 13) explica que, na citada passagem, o vocábulo “vida” (chayim) está na forma plural no hebraico, certamente indicando as vidas do espírito, da alma e do corpo humano. “O nosso corpo põe-nos em contato com a matéria, isto é, com o mundo material. A nossa alma põe-nos em contato com o próximo, com o mundo social. O nosso espírito põe-nos em contato com Deus, com a esfera do espiritual”, ensina. Quanto à dicotomia, o mestre pentecostal acentua: “Isso é doutrina de homem. Só porque eles não entendem certa coisa, concluem que ela não existe. Fiquemos, aqui, somente com a Palavra de Deus” (ibid., p. 14).

   A respeito da relação entre as três substâncias que compõem o homem, a Dedaraçã) de Fé da Assembkia de Deus sintetiza (p. 86-7):

   O corpo é o invólucro do espírito e da alma; contudo, o homem é um só, e não cada uma de suas partes, mas a totalidade delas: uma unidade (o homem) na pluralidade (espírito, alma e corpo) e uma pluralidade na unidade. [...] A alma e o espírito são elementos espirituais incorpóreos e invisíveis, ambos deixam o corpo por ocasião da morte e sobrevivem a ela. Apesar dessas características comuns, são entidades distintas, porém inseparáveis; são os dois lados do mesmo elemento não físicos do ser humano (Ef 3.16).

   II - A DISTINÇÃO ENTRE ALMA ESPÍRITO

1.  A alma

  A referência à “alma vivente” em Gênesis 2.7, feita em relação ao homem, é comum à expressão utilizada para os animais (Gn 1.20,30). Entretanto, é preciso analisar a distinção do termo quando empregado em relação ao ser humano, dado o seu componente espiritual. Assim como diversos outros termos bíblicos, “alma” é uma palavra polissêmica, ou seja, tem vários sentidos.10 O seu significado depende do contexto em que está inserida. Isso se dá principalmente no Antigo Testamento, pois, conforme explica Hans Walter Wolff (ibid., p. 35), “o hebreu diz uma só e mesma palavra onde nós precisamos usar termos muito diversos”.

   Do hebraico nephesh, do grego psyche e do latim anima, no texto bíblico a palavra “alma” aparece 755 vezes somente no Antigo Testamento, sendo a primeira dela em Gênesis 1.20 com o sentido de “ser vivo”.11 Aliás, é bastante comum o uso do termo para significar “vida” em geral, incluindo a dos animais, como em Provérbios 7.23: “como a ave que se apressa para o laço e não sabe que ele está ali contra a sua [nephesh] vida”. Em Deuteronômio 12.23, nephesh (a alma) é o sangue, a vida animal. Também deve ser observado que nephesh é usada diversas vezes para referir-se à pessoa, como em Levítico 24.17.

   A distinção da alma humana é vista no processo criativo, pois, dife rentemente dos animais, que foram criados por uma ordem verbal divina, o homem recebeu o sopro divino. Como observa Wollf (ibid., p. 69), esse “vento” (neshama) é a força vital do ser humano dada por Deus; e é com esse sopro que o Criador “molda” a ruah (o espírito) no interior do ser humano (Zc 12.1). Assim, a alma do homem, criado à imagem de Deus, é distinta da dos animais, pois é uma substância espiritual, incorpórea, invisível e imortal (Dn 12.1; Mt 25.46; Ap 20.4), sendo dotada de faculdades próprias, como o intelecto ou razão, a sensibilidade ou sentimento e a vontade ou volição.

   Essas características estão intimamente ligadas ao fato de o homem ter sido criado para relacionar-se com o Criador e com os seus semelhantes e ser o representante de Deus perante todo o restante da Criação. Entende mos, ademais, que é nisso que consiste o significado de “imagem de Deus” outorgado ao homem, como explica Timothy Munyon (ibid., p. 259):

   [...] a imagem de Deus pertence à nossa natureza moral-intelectual-espiritual. Explicando melhor: a imagem de Deus na pessoa humana é algo que somos, e não algo que temos ou fazemos. Esta opinião está em perfeito acordo com o que já estabelecemos como propósito de Deus na criação da humanidade. Primeiro: o homem foi criado para conhecer, amar e servir a Deus. Segundo: relacionamo-nos com outros seres humanos e temos a oportunidade de exercer o domínio apropriado sobre a criação de Deus. A imagem de Deus em nós ajuda-nos a fazer exatamente essas coisas.

  2. O espírito

   Quanto ao espírito (ruah no hebraico e pneuma no grego), é a principal dimensão do ser humano, a parte mais íntima do ser. É por meio dele que mantemos comunhão com o Criador, o Pai dos espíritos, e também o adoramos (Jo 4.23,24; Elb 12.9). Como entidade espiritual, é inseparável da alma. Paulo menciona essa parte imaterial do ser humano como “homem interior”, em contraste com o corpo, o “homem exterior” (Rm 7.22-25; 2 Co 4.16-18). O espírito não é o fôlego, como esclarece o pastor Antonio Gilberto (ibid., p. 14): ‘A respiração é um processo para admissão de oxigênio, para que vivam as células orgânicas do corpo. O espírito identifica o homem, a criação espiritual, e dá-lhe consciência de Deus” (p. 1921-22). “A luz das Sagradas Escrituras, o espírito é a fonte da vida recebida de Deus. O espírito usa e transmite esta vida a alma, que por sua vez a expressa por meio do corpo, utilizando seus sentidos físicos para explorar o mundo exterior e dele receber as necessárias impressões” (p. 12). Citando Howard Marshall, Brian Glusish (2009, p. 603) menciona o espírito como “o aspecto mais alto da personalidade humana”.

  III - A INTERAÇÃO DAS TRÊS DIMENSÕES

   Compreender o homem como um ser tripartido é fundamental para entendê-lo como um ser integral, no qual há íntima correlação entre espírito, alma e corpo. Isso, como já destacado, contribui para que haja um equilíbrio vivencial que não despreze quaisquer das substâncias. Assim como a criação, completa e perfeita em todos os seus aspectos, a Redenção resgata o homem por inteiro, o que há de consumar-se na glorificação, com a transformação do corpo, como já assinalado. Por enquanto, vivemos neste “tabernáculo”, nossa “casa terrestre”, como disse Paulo (2 Co 5.1), em meio a fraquezas e imperfeições. E a forma como vivemos aqui, neste corpo, que definirá nossa eternidade (G1 2.20).

  1. Corpo, afetos e somatização

   Do grego soma, o corpo, como já definido, é parte material do ser humano, comumente chamado de “invólucro do espírito e da alma”.12 “E a sede dos sentidos, por meio dos quais a alma explora o mundo exterior. É o corpo que nos põe em contato com o mundo físico. Ele sempre integrará o homem, exceto durante o chamado estado intermediário, isto é, o tempo em que o corpo permanece no túmulo” (Gilberto, p. 1921).

   Diante desse papel de expressão dos atributos interiores do homem, o corpo está sujeito a reações positivas e negativas: alegria e tristeza; coragem e medo; prazer e dor. Tudo isso se reflete em comportamentos corpóreos (ou linguagem corporal). O vocábulo mais utilizado pela Bíblia como origem dos afetos — inclusive os que se expressam por intermédio do corpo — é “coração” (kb, no hebraico, e kardia, no grego). Na maioria das vezes que é usado em linguagem figurada, tem o significado apenas de “alma”. Noutras vezes, refere-se a todo o interior do homem. Numa longa e profunda análise do termo leb no Antigo Testamento, Hans Walter Wolff vê “coração” com inúmeros sentidos: desejo e aspiração; idéias secretas; funções intelectuais e racionais; consciência; repositório de saber e recordações (memória); pensa mento, consideração, reflexão e deliberação; conhecer e escolher; julgamento; intelecção e volição; consciência moral; decisões da vontade (op. cit., p. 80-97). Observa-se, portanto, tanto faculdades da alma quanto do espírito.

    O corpo está sempre em interação com as substâncias imateriais. Em Provérbios 14.30 e 15.13, Salomão retrata a relação entre sentimento e corpo. O primeiro texto diz: “O coração com saúde é a vida da carne”. O segundo, “O coração alegre aformoseia o rosto”. Em Provérbios 17.22, o rei de Israel alterna entre reações positivas e negativas do corpo em decorrência de sentimentos: “O coração alegre serve de bom remédio, mas o espírito abatido virá a secar os ossos”. Apesar da linguagem poética, compreende-se que o escritor bíblico referia-se a fenômenos físicos originados na alma, assim como fez Davi em diversas ocasiões, como quando mencionou que os seus olhos, a alma e o corpo estavam consumidos de tristeza, a vida gasta, a força reduzida, e os ossos enfraquecendo-se (SI 31.9,10) — ou, ainda, quando se referiu a envelhecimento dos ossos e perda do humor (SI 32.3).

   De fato, emoções e sentimentos têm o potencial de afetar diretamente o corpo, alterando as suas funções biológicas e fisiológicas, produzindo sintomas como a perda do apetite e do sono. Mesmo que emoções e sentimentos não causem enfermidades físicas diretamente, o prolongamento de disfunções como as já citadas (perda de apetite e sono) podem levar ao desencadeamento de doenças nos sistemas orgânicos. Assim, esses e outros fatores são vistos como causadores das chamadas doenças psicossomáticas, mais identificadas a partir do século XX.13

   O pastor Wagner Gaby (2008, p. 163) assim as conceitua:

   As doenças psicossomáticas são aquelas que têm um componente psíquico. São a manifestação das doenças orgânicas provocadas por problemas emocionais, nervosismo, depressão etc. Quando somatizamos, temos a consciência de que forçamos além da conta uma emoção. Daí as consequências como um resfriado, uma diarréia, um herpes, uma enxaqueca. O corpo expressa, põe para fora as emoções, que por vezes escondemos de nós mesmos, por meio de gestos, mímicas, contraturas, calor, tremor, dores de barriga, sustos, travamento dos dentes, enfim, tantas e tantas demonstrações físicas.

   Gaby cita o médico José Humberto Moromizato, especialista em doenças psicossomáticas, segundo o qual inúmeras outras doenças podem ser provocadas por problemas emocionais; fatos negativos que ficam gravados em nosso inconsciente, citando moléstias como infarto, pressão alta, bronquite, asma, gastrite, colite, úlcera (ibid., p. 164).

  2. Equilíbrio e saúde

   Assim como o corpo padece por causa de disfunções da alma e do espírito, estes também sofrem em decorrência de problemas físicos, que podem ser naturais, ou seja, não diretamente provocados, ou decorrentes de ação ou negligência pessoal.11 Qualquer que seja a causa, as doenças têm o potencial de tirar a alegria, abater a alma. Cuidar bem do corpo é, portanto, um fator determinante para uma vida saudável na sua integralidade. Isso diz respeito, inclusive, a não entregar o corpo à prática do pecado, pois há uma interação direta entre a alma e o espírito e a estrutura material. O apóstolo Tiago cita a língua, que, mal-usada, “contamina a pessoa por inteiro” (Tg 3.6, NVI).

   E preciso observar quando os problemas emocionais decorrem de causas espirituais, como pecados, sejam eles praticados com o corpo, a alma ou o espírito. Dado o grande aumento dos transtornos mentais, cresce cada vez mais e de forma indiscriminada o uso de medicamentos como os antidepressivos e ansiolíticos. Recorrer a medicamentos sem levar em conta a verdadeira origem dos problemas da alma pode piorar o quadro em vez de dissipá-lo. Tanto o corpo pode estar padecendo em função de iniquidades, quanto a alma pode estar afetada por transgressões e resistência em arrepender-se e mudar de atitude.

   Quando transtornos de humor, por exemplo, têm origem em comporta mentos de rebeldia, iras, intrigas, maledicências e outras práticas sustentadas em pecados enraizados no espírito ou na alma, medicamentos não podem trazer a solução. Escrevendo aos colossenses, o apóstolo Paulo recomendou a mortificação da carne e o abandono de todo tipo de pecado — citou a ira, a cólera, a malícia, a maledicência, as palavras torpes, a mentira — e receitou, como remédio, a misericórdia, a benignidade, a humildade, a mansidão, a longanimidade, o perdão e o amor (Cl 3.5-15). O resultado é um cenário interior de paz e abundante alegria (3.16,17).

   Quando o distúrbio tem origem espiritual — como crises produzidas por pecado não confessado —, arrependimento e abandono da prática pecaminosa são essenciais para a verdadeira cura (2 Cr 7.14; Is 53.4,5; Ef 4.31; Cl 3.8; Tg 4.6-10). O cristão, portanto, precisa ser cauteloso em não recorrer aos remédios antes de considerar se os seus problemas emocionais são ou não de origem espiritual. Mesmo a proposta de muitos, de integrar psicologia e fé cristã, precisa ser encarada com muita cautela. Erwin Lutzer (2000, p. 91) propõe uma interessante fronteira ao referir-se à discussão acerca das propostas de integração entre psicologia e Bíblia:

   Pessoalmente, acautelo-me com as tentativas de integração. Não encontro base bíblica par fazer distinção entre um problema espiritual e um problema psicológico. Basicamente, os problemas psicológicos — a menos que tenham causas físicas ou químicas — são espirituais. Onde, além das Escrituras, poderiamos encontrar uma melhor análise das necessidades humanas, juntamente com o remédio sobrenatural? Segundo escreve Pedro, o poder divino do nosso Senhor nos concedeu “tudo de que necessitamos para a vida e para a piedade, por meio do pleno conhecimento daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude (2 Pe 1.3).

   Como em tudo na vida, é preciso que haja equilíbrio quando o cristão enfrentar distúrbios psíquicos. Se, por um lado, não é razoável a busca de medicamentos para a solução de todo e qualquer tipo de problema emocional, por outro lado não se pode desprezar a necessidade de acompanhamento médico e psicológico em situações diagnosticadas clinicamente. Gomo alerta o pastor e psicólogo Maurício Ferreira Brito (2021, p. 60), não podemos materializar tudo e nem espiritualizar. O problema pode ser originado em fatores físicos ou químicos. Mesmo assim, devemos levar todas as coisas ao conhecimento de nosso Deus, rogando-lhe o seu favor, pois a bênção de que precisamos, por meio do uso de medicamentos ou não, está nas mãos dEle.

   E preciso considerar, por fim, que o uso de medicamentos não é a primeira alternativa mesmo quando os fatores não forem de ordem espiritual. Há transtornos emocionais que podem ser evitados, minorados ou vencidos com a mudanças de comportamento em nosso cotidiano. Bons hábitos alimentares, tempo regular de sono, a prática de exercícios físicos e relacionamentos saudáveis são “santos” remédios. Falando ao PODCAST JesusCopy, o psiquiatra cristão Felipe Batistela trata dessas condutas e faz uma afirmação que deve ser muito levada em conta diante do crescente consumo de ansiolíticos e antidepressivos. O médico disse que quanto mais estuda, menos remédio prescreve para os seus pacientes.15

   Para que não se conclua que essa cautela quanto ao uso indiscriminado de medicamentos para tratar de problemas emocionais seja “coisa de crente”, basta consultar fontes seculares, como o livro Voltando ao Normal, do renomado psiquiatra norte-americano Allen Francês, que faz um alerta para o excesso de diagnósticos e a medicalização da vida e afirma:

   A melhor forma de lidar com os problemas da vida diária é resolvê-los de maneira direta ou esperar que vão embora, em vez de medicalizá-los com um diagnóstico psiquiátrico ou tratá-los com um comprimido. Recorrer de modo prematuro a medicamentos provoca um curto-circuito nos caminhos tradicionais da cura natural e renovadora — buscar o apoio da família, dos amigos e da comunidade; fazer as mudanças necessárias na vida, descarregar o excesso de estresse; dedicar-se a hobbies e interesses, aos exercícios, ao descanso, às distrações, à mudança de ritmo. Superar problemas sozinho normaliza a situação, ensina novas habilidades e traz o indivíduo para perto daqueles que o ajudaram. (2016, p. 55)

   CONCLUSÃO

   O Deus criador e sustentador de todas as coisas é poderoso para, num mundo tão conturbado, agitado e cheio de contradições, dar-nos sabedoria e vigor no espírito, na alma e no corpo, a fim de vivermos saudáveis e servi-lo com todo o nosso ser (Fp 4.6,7).

   O Homem — Corpo, Alma e Espírito | 29

 


 

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