sexta-feira, 26 de setembro de 2025

CPAD : A Igreja em Jerusalém — Lição 13: Assembleia de Jerusalém

 





A

 organização de uma igreja faz parte do estágio natural do seu desenvolvimento. A medida que a igreja vai crescendo, ela vai ganhando nova estrutura. Vimos que a igreja de Jerusalém começa com o grupo dos apóstolos e, em seguida, institui um corpo diaconal e presbiteral. O surgimento do sistema de governo na igreja é algo intrínseco à própria natureza que necessita organizar-se. E dentro dessa estrutura organizacional que os problemas, quer de natureza social, moral ou doutrinária, são tratados. Isso aconteceu em Jerusalém, que formou o seu primeiro Concilio1 para resolver uma importante questão de natureza doutrinária levantada pelos judaizantes.

   No contexto do primeiro Concilio ou Assembléia da igreja de Jerusalém, o problema foi causado por crentes judeus, zelosos e obser vadores da Lei. Esses crentes tinham ido até Antioquia visitar os novos crentes da igreja que havia sido implantada pelos cristãos dispersos.

   O texto deixa claro que eles foram até ali por conta própria e sem autorização dos líderes da igreja-mãe. Ao chegarem a Antioquia e vendo uma igreja formada por gentios, logo apregoaram que eles deveríam circuncidar-se e guardar a Lei de Moisés.

   O expositor bíblico F. F. Bruce observa que:

   O Concilio de Jerusalém é um evento ao qual Lucas atribui a maior importância; foi, em sua opinião, tão marcante quanto a conversão de Paulo ou a pregação do evangelho a Cornélio e sua família. De acordo com seu relato, o concilio foi uma reunião dos apóstolos e anciãos da igreja de Jerusalém convocada para considerar, primeiro, os termos em que os crentes gentios poderíam ser admitidos como membros da igreja (com atenção especial à questão de se deveríam ou não ser circun- cidados) e, segundo, os meios pelos quais a interação social, e especialmente a partilha da mesa, poderíam ser promovidos entre os crentes judeus e gentios. Paulo e Barnabé, com alguns representantes da igreja em Antioquia do Orontes, estavam presentes na reunião, onde tiveram a oportunidade de relatar suas experiências recentes em Chipre e na Ásia Menor, mas não tomaram parte na decisão; essa era a responsabilidade dos líderes em Jerusalém.2

   O problema era grave e tanto Barnabé como Paulo, juntamente com os demais crentes antioquenos, acharam por bem apresentar o problema à liderança da igreja-mãe em Jerusalém. O que estava em jogo era a salvação pela graça ou pelas obras da Lei. Esse problema com os judaizantes também vai surgir posteriormente com os cristãos da Galácia. Ali foi necessário o apóstolo Paulo escrever uma carta dura, condenando a prática dos judaizantes. A salvação pelas obras também foi o estopim que fez eclodir a Reforma Protestante no século XVI.

   A questão era de natureza doutrinária e precisava de um posicionamento não apenas firme da liderança, mas que o seu conteúdo refletisse com precisão as Escrituras. Dessa forma, Tiago, que liderava a igreja de Jerusalém nessa época, e o apóstolo Pedro, uma conhecida coluna da igreja, alternaram-se no debate teológico mostrando que a inclusão dos gentios na Igreja já havia sido prevista pelos profetas. Deus, portanto, já havia deixado claro que os gentios faziam parte do seu plano salvífico.

   Essa exposição apostólica tinha um propósito claro: mostrar que Deus, ao aceitar os gentios na Igreja, não exigiu deles nada além de demonstração da fé em Cristo Jesus. Pedro lembra que esse fato já havia sido mostrado na conversão do gentio Cornélio da cidade de Cesareia. A prova cabal de que isso era verdade foi o fato de o Senhor ter derramado o seu Espírito sobre os gentios sem a necessidade de cumprirem preceito algum da Lei. Deus não exigiu a circuncisão ou qualquer outra prática cerimonial mosaica por parte dos gentios em Cesareia; então, por que iria exigir dos cristãos de Antioquia? O argumento de Tiago vai na mesma direção. Tiago lembra as profecias do Antigo Testamento em que estão previstas a inclusão dos gentios à fé.

   Pelo contexto, depreende-se que houve no debate a participação de outros membros da Assembléia presentes. Isso fez com que a decisão ali tomada tivesse a aceitação não apenas da lide rança, mas de toda a igreja, e servisse de parâmetro para as demais igrejas cristãs já implantadas. Deve ser observado, contudo, que a resolução, embora evitasse impor aos gentios o legalismo judaico, trouxe algumas recomendações que iriam ajudar na convivência de judeus e gentios. Dessa forma, a Resolução de Jerusalém orientou as igrejas a: “Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da fornicação; destas coisas fareis bem se vos guardardes” (At 15.29).

   John Stott destaca que:

   todas as abstenções exigidas estavam ligadas às leis cerimoniais estabelecidas em Levítico 17 e 18, e três delas diziam respeito a questões dietéticas que poderíam impedir refeições comunitárias entre judeus e gentios. Abster-se seria uma concessão gentil e temporária (apesar de “essenciais” — v.28 — em certas circunstâncias) às consciências dos judeus, uma vez que a circuncisão fora declarada desnecessária, protegendo, assim, a verdade do evangelho e estabelecendo o princípio da igualdade.3

   Dessa forma, Stott entende que três dessas “abstinências”, que tinham a ver com alimentos, exigidas aqui deveríam ser vistas como uma concessão à consciência dos judeus convertidos, que ainda consideravam tais comidas como ilícitas e abomináveis perante Deus.

   E interessante observarmos que Lucas destaca que essa resolução de Jerusalém foi uma decisão tomada pelo Espírito Santo e pela Igreja: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (At 15.28). Esse texto mostra como o Espírito Santo orientava e guiava a primeira igreja nas suas decisões. Não era, portanto, apenas uma decisão tomada por uma pessoa ou, ainda, por um colegiado, mas por pessoas sob a orientação e direção do Espírito Santo. Isso explica por que a igreja de Jerusalém demonstra ser exitosa na sua tomada de decisões.

   Em resumo, podemos dizer que o Concilio de Jerusalém deve servir tanto de modelo como de alerta para nós. Infelizmente, não são poucas as decisões precipitadas tomadas hoje no contexto das igrejas. As vezes, as decisões são tomadas de forma monocrática e unilateral, e, mesmo quando tomada por “nós”, muitas vezes não conta com a participação do Espírito Santo. Quando isso acontece, temos muitos problemas. O resultado é a fragmentação da igreja. Devemos lembrar, contudo, que isso não existe apenas em igrejas, mas também no espaço convencional. Quando isso acontece, os problemas crescem em magnitude. Crentes ficam frustrados, líderes ficam desacreditados, e igrejas ficam censuradas.

   Não tenho dúvida de que, se orássemos mais e dependéssemos mais do Espírito Santo, teríamos mais paz nessa área. Não estou dizendo que não teríamos problemas, mas que saberiamos como resolvê-los com sabedoria. Lamentavelmente, muitas vezes quando surge um conflito na esfera eclesiástica, logo os tribunais são visitados. Nessa hora, é mais importante escutar o que diz o código civil do que o que diz a Bíblia. A Resolução de Jerusalém, que fora tomada sob direção do Espírito Santo, trouxe paz e unidade para a Igreja. Diz a Escritura que a igreja sentiu-se fortalecida com ela: “E, quando iam passando pelas cidades, lhes entregavam, para serem observados, os decretos que haviam sido estabelecidos pelos apóstolos e anciãos em Jerusalém, de sorte que as igrejas eram confirmadas na fé e cada dia cresciam em número” (At 16.4,5).

    CPAD : A Igreja em Jerusalém — Doutrina, Comunhão e Fé: a base para o crescimento da Igreja em meio às perseguições

Comentarista: José Gonçalves

Lição 13: Assembleia de Jerusalém


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