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organização de uma igreja faz parte do estágio
natural do seu desenvolvimento. A medida que a igreja vai crescendo, ela vai
ganhando nova estrutura. Vimos que a igreja de Jerusalém começa com o grupo dos
apóstolos e, em seguida, institui um corpo diaconal e presbiteral. O surgimento
do sistema de governo na igreja é algo intrínseco à própria natureza que
necessita organizar-se. E dentro dessa estrutura organizacional que os
problemas, quer de natureza social, moral ou doutrinária, são tratados. Isso
aconteceu em Jerusalém, que formou o seu primeiro Concilio1 para resolver uma
importante questão de natureza doutrinária levantada pelos judaizantes.
No
contexto do primeiro Concilio ou Assembléia da igreja de Jerusalém, o problema
foi causado por crentes judeus, zelosos e obser vadores da Lei. Esses crentes
tinham ido até Antioquia visitar os novos crentes da igreja que havia sido
implantada pelos cristãos dispersos.
O texto deixa claro que eles foram até ali
por conta própria e sem autorização dos líderes da igreja-mãe. Ao chegarem a
Antioquia e vendo uma igreja formada por gentios, logo apregoaram que eles
deveríam circuncidar-se e guardar a Lei de Moisés.
O
expositor bíblico F. F. Bruce observa que:
O Concilio de Jerusalém é um evento ao qual Lucas atribui a maior
importância; foi, em sua opinião, tão marcante quanto a conversão de Paulo ou a
pregação do evangelho a Cornélio e sua família. De acordo com seu relato, o
concilio foi uma reunião dos apóstolos e anciãos da igreja de Jerusalém convocada
para considerar, primeiro, os termos em que os crentes gentios poderíam ser
admitidos como membros da igreja (com atenção especial à questão de se deveríam
ou não ser circun- cidados) e, segundo, os meios pelos quais a interação
social, e especialmente a partilha da mesa, poderíam ser promovidos entre os
crentes judeus e gentios. Paulo e Barnabé, com alguns representantes da igreja
em Antioquia do Orontes, estavam presentes na reunião, onde tiveram a
oportunidade de relatar suas experiências recentes em Chipre e na Ásia Menor,
mas não tomaram parte na decisão; essa era a responsabilidade dos líderes em
Jerusalém.2
O
problema era grave e tanto Barnabé como Paulo, juntamente com os demais crentes
antioquenos, acharam por bem apresentar o problema à liderança da igreja-mãe em
Jerusalém. O que estava em jogo era a salvação pela graça ou pelas obras da
Lei. Esse problema com os judaizantes também vai surgir posteriormente com os
cristãos da Galácia. Ali foi necessário o apóstolo Paulo escrever uma carta
dura, condenando a prática dos judaizantes. A salvação pelas obras também foi o
estopim que fez eclodir a Reforma Protestante no século XVI.
A questão era de natureza doutrinária e
precisava de um posicionamento não apenas firme da liderança, mas que o seu
conteúdo refletisse com precisão as Escrituras. Dessa forma, Tiago, que
liderava a igreja de Jerusalém nessa época, e o apóstolo Pedro, uma conhecida
coluna da igreja, alternaram-se no debate teológico mostrando que a inclusão
dos gentios na Igreja já havia sido prevista pelos profetas. Deus, portanto, já
havia deixado claro que os gentios faziam parte do seu plano salvífico.
Essa
exposição apostólica tinha um propósito claro: mostrar que Deus, ao aceitar os
gentios na Igreja, não exigiu deles nada além de demonstração da fé em Cristo
Jesus. Pedro lembra que esse fato já havia sido mostrado na conversão do gentio
Cornélio da cidade de Cesareia. A prova cabal de que isso era verdade foi o
fato de o Senhor ter derramado o seu Espírito sobre os gentios sem a
necessidade de cumprirem preceito algum da Lei. Deus não exigiu a circuncisão
ou qualquer outra prática cerimonial mosaica por parte dos gentios em Cesareia;
então, por que iria exigir dos cristãos de Antioquia? O argumento de Tiago vai
na mesma direção. Tiago lembra as profecias do Antigo Testamento em que estão
previstas a inclusão dos gentios à fé.
Pelo contexto, depreende-se que houve no
debate a participação de outros membros da Assembléia presentes. Isso fez com
que a decisão ali tomada tivesse a aceitação não apenas da lide rança, mas de
toda a igreja, e servisse de parâmetro para as demais igrejas cristãs já
implantadas. Deve ser observado, contudo, que a resolução, embora evitasse
impor aos gentios o legalismo judaico, trouxe algumas recomendações que iriam
ajudar na convivência de judeus e gentios. Dessa forma, a Resolução de
Jerusalém orientou as igrejas a: “Que vos abstenhais das coisas sacrificadas
aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da fornicação; destas coisas
fareis bem se vos guardardes” (At 15.29).
John
Stott destaca que:
todas as abstenções exigidas estavam ligadas
às leis cerimoniais estabelecidas em Levítico 17 e 18, e três delas diziam
respeito a questões dietéticas que poderíam impedir refeições comunitárias
entre judeus e gentios. Abster-se seria uma concessão gentil e temporária
(apesar de “essenciais” — v.28 — em certas circunstâncias) às consciências dos
judeus, uma vez que a circuncisão fora declarada desnecessária, protegendo,
assim, a verdade do evangelho e estabelecendo o princípio da igualdade.3
Dessa
forma, Stott entende que três dessas “abstinências”, que tinham a ver com
alimentos, exigidas aqui deveríam ser vistas como uma concessão à consciência
dos judeus convertidos, que ainda consideravam tais comidas como ilícitas e
abomináveis perante Deus.
E
interessante observarmos que Lucas destaca que essa resolução de Jerusalém foi
uma decisão tomada pelo Espírito Santo e pela Igreja: “Pareceu bem ao Espírito
Santo e a nós” (At 15.28). Esse texto mostra como o Espírito Santo orientava e
guiava a primeira igreja nas suas decisões. Não era, portanto, apenas uma
decisão tomada por uma pessoa ou, ainda, por um colegiado, mas por pessoas sob
a orientação e direção do Espírito Santo. Isso explica por que a igreja de
Jerusalém demonstra ser exitosa na sua tomada de decisões.
Em
resumo, podemos dizer que o Concilio de Jerusalém deve servir tanto de modelo
como de alerta para nós. Infelizmente, não são poucas as decisões precipitadas
tomadas hoje no contexto das igrejas. As vezes, as decisões são tomadas de
forma monocrática e unilateral, e, mesmo quando tomada por “nós”, muitas vezes
não conta com a participação do Espírito Santo. Quando isso acontece, temos
muitos problemas. O resultado é a fragmentação da igreja. Devemos lembrar,
contudo, que isso não existe apenas em igrejas, mas também no espaço
convencional. Quando isso acontece, os problemas crescem em magnitude. Crentes
ficam frustrados, líderes ficam desacreditados, e igrejas ficam censuradas.
Não
tenho dúvida de que, se orássemos mais e dependéssemos mais do Espírito Santo,
teríamos mais paz nessa área. Não estou dizendo que não teríamos problemas, mas
que saberiamos como resolvê-los com sabedoria. Lamentavelmente, muitas vezes
quando surge um conflito na esfera eclesiástica, logo os tribunais são visitados.
Nessa hora, é mais importante escutar o que diz o código civil do que o que diz
a Bíblia. A Resolução de Jerusalém, que fora tomada sob direção do Espírito
Santo, trouxe paz e unidade para a Igreja. Diz a Escritura que a igreja
sentiu-se fortalecida com ela: “E, quando iam passando pelas cidades, lhes
entregavam, para serem observados, os decretos que haviam sido estabelecidos
pelos apóstolos e anciãos em Jerusalém, de sorte que as igrejas eram
confirmadas na fé e cada dia cresciam em número” (At 16.4,5).
CPAD : A Igreja em Jerusalém — Doutrina,
Comunhão e Fé: a base para o crescimento da Igreja em meio às perseguições
Comentarista: José Gonçalves
Lição 13: Assembleia de Jerusalém
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