TEXTO ÁUREO
“Eu te louvarei, porque de um modo terrível e
tão maravilhoso fui formado; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o
sabe muito bem.”
(Sl 139.14).
VERDADE PRÁTICA
A
ciência busca desvendar os mistérios do corpo humano, mas o crente descansa em
saber que é obra da poderosa e perfeita mão de Deus.
LEITURA
BÍBLICA EM CLASSE
Salmos
139.1-4,13-18.
1
— Senhor,
tu me sondaste e me conheces.
2
— Tu
conheces o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento.
3
— Cercas
o meu andar e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos.
4
— Sem
que haja uma palavra na minha língua, eis que, ó Senhor, tudo conheces.
13
— Pois
possuíste o meu interior; entreteceste-me no ventre de minha mãe.
14
— Eu
te louvarei, porque de um modo terrível e tão maravilhoso fui formado;
maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem.
15
— Os
meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido
como nas profundezas da terra.
16
— Os
teus olhos viram o meu corpo ainda informe, e no teu livro todas estas coisas
foram escritas, as quais iam sendo dia a dia formadas, quando nem ainda uma
delas havia.
17
— E
quão preciosos são para mim, ó Deus, os teus pensamentos! Quão grande é a soma
deles!
18
— Se
os contasse, seriam em maior número do que a areia; quando acordo, ainda estou
contigo.
PLANO
DE AULA
1.
INTRODUÇÃO
Esta
lição o convida a conduzir seus alunos à reflexão bíblica sobre o corpo humano
como uma maravilhosa criação de Deus. Em um tempo de tantas distorções sobre
identidade e propósito, esta aula oferece uma oportunidade rica de afirmar
verdades bíblicas sobre a dignidade do corpo, seu valor espiritual e sua função
no culto e na comunhão cristã. Ensine com fé, equilíbrio e clareza, lembrando
que cada corpo é templo do Espírito e expressão da glória do Criador.
2.
APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO
A)
Objetivos da Lição: I) Conduzir os alunos a
reconhecerem que o corpo humano é uma criação maravilhosa de Deus, formada com
propósito, sabedoria e amor; II) Conscientizar os alunos sobre a importância de
glorificar a Deus com o corpo, evitando extremos como o desprezo do corpo e sua
idolatria; III) Incentivar os alunos a compreenderem o papel do corpo nas
relações interpessoais, na vida congregacional e no culto a Deus.
B)
Motivação: Compreender o valor do corpo humano à luz da
Bíblia, nos ajuda a viver com propósito, gratidão e santidade. Esta lição
revela como nosso corpo glorifica a Deus e integra nossa adoração e comunhão. É
um chamado à reverência e equilíbrio diante do Criador.
C)
Sugestão de Método: Para enfatizar o ensino do
tópico III, sugerimos a dinâmica de grupo intitulada “Corpo em Comunhão”.
Divida a classe em pequenos grupos e atribua a cada um o nome de uma parte do
corpo (como mãos, pés, olhos, ouvidos). Cada grupo deve refletir e compartilhar
como essa parte é essencial para o funcionamento do corpo humano e, por
analogia, como isso se aplica à vida da igreja e à participação individual no
culto. Após as apresentações, relacione as contribuições à importância da
presença física, da comunhão e do envolvimento no culto, alertando sobre os
excessos da tecnologia. A atividade é encerrada com a leitura de 1 Coríntios
12.12-27, destacando que cada membro é necessário no Corpo de Cristo.
3.
CONCLUSÃO DA LIÇÃO
A)
Aplicação: Compreendendo nosso corpo como obra divina,
devemos honrá-lo em santificação, equilíbrio e serviço, tanto individualmente
quanto em comunhão com outros e no culto a Deus, glorificando-O em tudo.
4.
SUBSÍDIO AO PROFESSOR
A)
Revista Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa
revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e subsídios de apoio à Lições
Bíblicas Adultos. Na edição 103, p.37, você encontrará um subsídio especial
para esta lição.
B)
Auxílios Especiais: Ao final do tópico, você
encontrará auxílios que darão suporte na preparação de sua aula: 1) O texto “A
Criação Maravilhosa de Deus”, localizado depois do primeiro tópico, complementa
o estudo a respeito da criação do ser humano; 2) O texto “Do Pó da Terra e do
Fôlego de Vida”, ao final do segundo tópico, aprofunda a respeito de uma visão
equilibrada sobre o corpo.
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
Há
séculos o racionalismo e o cientificismo procuram explicar a existência humana.
Segundo seus propagadores, essas escolas de pensamentos teriam suficientes
respostas para o homem em sua busca de compreensão da realidade. Apesar disso,
razão e ciência não conseguem desvendar nem mesmo todos os mistérios do corpo
humano. Como resultado, o homem pós-moderno vive uma grande crise de
identidade. Somente pela fé, por meio das Escrituras Sagradas, temos respostas
sobre nossa constituição e existência.
Palavra-Chave:
CORPO
AUXÍLIO
BIBLIOLÓGICO
A
CRIAÇÃO MARAVILHOSA DE DEUS
“A simples afirmação de que Deus criou os céus
e a terra é um dos conceitos mais desafiadores que confrontam a mente moderna.
A vasta galáxia em que vivemos gira a uma incrível velocidade de 788.410
quilômetros por hora. Porém, mesmo a esta alucinante velocidade, nossa galáxia
ainda necessita de 200 milhões de anos para concluir uma única rotação. Além
disso, existe mais de um bilhão de outras galáxias como a nossa no universo.
Alguns cientistas afirmam que o número de estrelas na criação é igual a todos
os grãos de areia de todas as praias do mundo. Ainda assim, este complexo mar
de estrelas em movimento funciona com notável ordem e eficiência. Dizer que o
universo ‘surgiu’ ou ‘evoluiu’ requer mais fé do que acreditar que Deus está
por trás dessas estatísticas surpreendentes. Deus criou um universo
maravilhoso. Deus não precisava criar o universo; Ele escolheu criá-lo. Por
quê? Deus é amor, e o amor é melhor expressado em direção a algo ou alguém —
assim, Deus criou o mundo e as pessoas como uma expressão do seu amor. Não
devemos reduzir a criação de Deus a meros termos científicos. Lembre-se de que
Deus criou o universo porque ama cada um de nós” (Bíblia de Estudo Aplicação
Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2022, p.1590).
AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO
DO
PÓ DA TERRA E DO FÔLEGO DE VIDA
“‘... Do pó da terra’ implica que não há nada
fantasioso em relação aos elementos químicos que compõem o nosso corpo. O corpo
é o invólucro, uma estrutura sem vida até que Deus o torne vivo com o seu
‘fôlego de vida’. Quando Deus retira este fôlego, nosso corpo retorna ao pó.
Desse modo, nossa vida e valor provêm do Espírito de Deus. Muitos se vangloriam
de suas conquistas e habilidades como se fossem donos de suas próprias forças;
outros sentem-se desvalorizados por não possuírem muitas habilidades. Na
verdade, nosso valor não provém de nossas realizações, mas do Deus que criou o
universo e escolheu presentear-nos com o misterioso e miraculoso dom da vida. Faça
como Ele, valorize a vida” (Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Rio
de Janeiro: CPAD, 2022, pp.7,8).
SUBSÍDIOS ENSINADOR CRISTÃO
O CORPO — A MARAVILHOSA OBRA DA CRIAÇÃO DE
DEUS
Nesta lição, veremos com maiores detalhes uma
das obras mais sublimes de nosso Criador: o corpo humano. De modo
extraordinário, o Senhor formou o homem do pó da terra. O corpo é a estrutura
material onde se encontra a alma e o espírito. A Bíblia o classifica também
como templo do Espírito Santo e, como tal, precisa ser preservado (1Co 3.16). O
cuidado com o corpo está além da simples nutrição ou atividade física. Cuidar
do corpo significa também ter uma vida equilibrada de modo a evitar que os maus
comportamentos e pensamentos da natureza humana pecaminosa tornem a predominar
sobre o corpo. Ainda que por um tempo haja em nós uma incessante luta entre a
carne e o espírito, nosso corpo deve ser apresentado para uma vida que ande no
espírito e sirva a Deus com integridade (Gl 5.16).
Vale
ressaltar que, antes da Queda, o propósito de Deus era que o homem desfrutasse
da plenitude da vida em perfeita comunhão com seu Criador. Nesse sentido, o
corpo humano fruía de plenas condições quando habitava o Éden. Conforme
discorre o Comentário da Bíblia de Estudo Pentecostal —
Edição
Global (CPAD), “ao criar os seres humanos à sua própria imagem, Deus
designou as pessoas como seres triunos (isto é, ‘trifacetados’), com espírito,
alma e corpo (1Ts 5.23; Hb 4.12). Deus formou Adão do pó da terra (corpo) e
soprou em suas narinas o fôlego de vida (espírito), e ele se tornou ‘alma
vivente’ (alma, Gn 2.7). Deus pretendia que, ao comer da árvore da vida e
obedecer à sua instrução de não comer da árvore da ciência do bem e do mal, a
humanidade continuasse a viver em sua condição perfeitamente criada (cf. Gn
2.16,17; 3.22-24). Somente depois que a morte entrou no mundo, como resultado
do pecado humano, é que lemos sobre o corpo retornando ao pó e o espírito
voltando para junto de Deus (Gn 3.19; 35.18; Ec 12.7; Ap 6.9). Em outras
palavras, a separação do corpo do espírito e da alma (isto é, o momento da
morte física) é resultado da maldição de Deus sobre a raça humana por causa do
pecado. [...] O corpo também passará por uma transformação quando ressuscitar
(isto é, quando voltar à vida para se unir à alma e ao espírito). Esta é a
maneira como a nossa completa qualidade de ser humano será restaurada, no
final, se tivermos entregados a nossa vida a Jesus Cristo”. (2022,
pp.1106,1107).
A vida plena no Espírito deve ser destacada.
Atualmente, nos deparamos com a busca demasiada por uma beleza perfeita e culto
à imagem, inclusive por quem trabalha com mídias sociais. O excesso de
exposição do corpo traz efeitos à mente e ao corpo. Nosso corpo é templo do
Espírito e deve estar à serviço do Reino (Rm 12.1,2).
CONCLUSÃO
A
verdadeira adoração ao Criador abrange a integralidade de nosso ser, o que
inclui todo o nosso corpo (Rm 12.1; 1Co 6.20). Reconhecer-se como obra das mãos
de Deus leva-nos a nos render à Sua soberania e permanecer confiando em Seu
eterno poder (Jó 1.20-22; 2.10; 19.25-27). Que saibamos possuir nosso corpo em
santificação e honra (1Ts 4.4).
CPAD : Espírito, Alma e Corpo — A
restauração integral do ser humano para chegar à estatura completa de Cristo
Comentarista: Silas Queiroz
Lição 2: O Corpo — A maravilhosa
obra da criação de Deus
INTRODUÇÃO
No
primeiro capítulo, buscamos apresentar uma síntese do pensamento bíblico acerca
do homem, destacando-o como uma unidade, um ser integral, composto, porém, de
três partes distintas: espírito, alma e corpo. Neste capítulo, trataremos
especificamente do corpo, a substância material do ser humano. Nossa reflexão
partirá do estudo dos versículos 13 ao 16 do Salmo 139, nos quais Davi expressa
o seu deslumbramento com a formação do corpo humano, a criação fisica de Deus
mais extraordinária.
Fruto
de uma compreensão espiritual, o salmista admira o modo como ele foi formado
por Deus no ventre materno. Davi emprega o termo hebraico yare, que,r na ARC,
qualifica esse “modo” como “terrível e tão maravilhoso”, transmitindo a ideia
de assombro. A Almeida Revista e Atualizada (ARA) traduz como “modo
assombrosamente maravilhoso”. A expressão também é usada para revelar o temor
causado em quem presencia e reconhece as admiráveis obras de Deus, como
destacam Harris, Archer Jr. e Waltke (1998, p. 656). Foi esse reconhecimento
espiritual da grandiosidade da obra divina que levou Davi a louvar so Senhor
pela formação do seu corpo.
Citando Êxodo 14.31, Josué 4.23,24 e 1 Samuel
4.7-9, esses autores referem-se ao emprego deyare como expressão de temor a
Deus diante dos seus grandes feitos. Êxodo 14.27-31 contém a narrativa da
abertura do Mar Vermelho para a passagem dos hebreus, o seu fechamento e a
destruição total dos egípcios e como isso causou um grande espanto no povo e
levou-o a temer a Deus (14.31). Observa-se, portanto, que se trata de uma forte
reação emocional, de espanto e temor diante de um feito visível, porém
inexplicável, incompreensível à mente humana. Davi experimentou emoção
semelhante quando se referiu ao modo tão maravilhoso como o corpo humano é
formado por Deus.
Racionalismo e Cientificismo
Embora
físico, tangível e sujeito a investigações em laboratórios, o corpo humano é
uma obra tão extraordinária que muitos dos seus mistérios não podem ser
explicados nem mesmo pela mais moderna ciência, quanto mais pela filosofia.
Desde René Descartes (1596-1650), os racionalistas propugna- vam que a razão
humana seria capaz de dar respostas a todas as perguntas do homem, sem
necessidade alguma da fé. Assim, o racionalismo passou a representar a
tentativa de julgar tudo à luz da razão, no afã de liquidar com pletamente o
sobrenatural (BROWN, 1989, p. 37). Desde então, a filosofia sucedeu-se
ciclicamente em tantas escolas de pensamento sem nenhuma delas alcançar
explicações terminativas para os problemas do homem. Filho do racionalismo, o
cientificismo (ou cienticismo) é a “Doutrina segundo a qual a ciência, em
virtude de seus formidáveis avanços, é capaz de resolver todos os problemas
humanos, inclusive os de ordem metafísica e espiritual” (Andrade, 1999, p. 82).
Apesar dessas soberbas pretensões humanas, depois de séculos de intensas pesquisas,
os grandes cientistas do mundo admitem que ainda se sabe muito pouco da própria
fisiologia humana (Guyton e Hall, 1998, p. 28).1
Não
acreditar em Deus como Criador tem levado grande parte da humanidade a viver
numa abissal crise de identidade. A ciência é muito importante para a vida
humana e, sem dúvida alguma, tem avanços de grande relevância em diversas
áreas, como na medicina, mas nunca desvendará todos os mistérios da criação
divina, inclusive do corpo humano. Somente pela fé, por meio da Revelação
escrita, temos respostas sobre nossa constituição e existência e sobre todos os
grandes feitos de Deus. Por isso, em vez de insistir em compreender o
incompreensível, o melhor caminho para o homem é render-se à soberania do
Criador e reconhecer o seu eterno poder (Rm 1.19,20). Ao contemplar as suas
inexplicáveis obras, só nos resta louvá-lo, como fez Davi, com alma serena e
tranquila.
I - A
MARAVILHOSA OBRA DE DEUS
1. Do pó da terra
Deus fez o corpo do homem (adam) do pó da
terra da terra, com o produto dela, o corpo humano. Além do grande percentual
de água — em crianças, pode chegar a mais de 70%, e em adultos fica em torno de
56% da composição do corpo —, a matéria humana tem muitos dos mesmos elementos
químicos encontrados na terra, o mesmo pó do qual o homem foi formado. Arthur
Guyton (1919—2003) ejohn Hall mencionam diversos deles: oxigênio, magnésio, potássio,
fosfato, sódio, dióxido de carbono etc. (ibid. p. 03). Acerca da estrutura do
corpo, geralmente se afirma ser ele composto de cerca de 37 trilhões de
células, além de tecidos, órgãos e sistemas. Quanto às células, que são
organismos vivos, há estudiosos que apontam para um número bem maior, como os
já citados Guyton e Hall [ibid., p. 03), que falam em cerca de 100 trilhões de
células.
A
respeito do funcionamento dessa “máquina humana”, afirmam:
O corpo humano contém,
literalmente, milhares de sistemas de controle. Os mais intrincados deles são
os sistemas genéticos, que atuam em todas as células a fim de controlar o
funcionamento intercelular e, também, todas as funções extracelulares. [...]
Muitos outros sistemas de controle atuam nos órgãos para gerir o funcionamento
das diferentes partes desses órgãos; outros atuam por todo o corpo para regular
as interações entre órgãos. O sistema respiratório, por exemplo, amando em
associação com o sistema nervoso, regula a concentração de dióxido de carbono
no líquido extracelular. De igual modo, o fígado e o pâncreas regulam a
concentração de glicose no líquido extracelular. Os rins regulam a concentração
dos íons hidrogênio, sódio, potássio, fosfato e de outros íons no líquido
extracelular. (p. 05)
Para a
grande pergunta “Quem estabeleceu tudo isso?”, há somente uma resposta, como
disse Paulo no areópago de Atenas: “O Deus que fez o mundo e tudo que nele há
[...] ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas [...];
porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (At 17.24,25,28). O máximo que
a ciência humana pode fazer nas suas investigações é seguir tateando e
avançando na descoberta, ainda que parcialmente, da magnitude dessa obra
divina. A ciência constata o que Deus criou, mas não consegue explicar ou
provar qualquer outra origem que não seja o soberano Criador, embora insista.
2. Deus, o Autor da vida
Adão
foi feito o protótipo da raça humana, como está em Atos 17.26. Como destaca
French L. Arrington (2009, p. 730), “A ênfase de Paulo se dá no modo como
[Deus] criou a humanidade; Ele fez todas as nações de uma única pessoa: Adão.
Todos os seres humanos compartilham a mesma natureza, porque têm um antepassado
comum (Gn 1.26-28).”2
Esse é
um ponto de partida fundamental para explicar a origem da mulher, também
formada de modo maravilhoso e sobrenatural, mas a partir de uma matéria humana
já existente, o corpo de Adão (Gn 2.21,22). A linguagem hebraica expressa a
singularidade do processo de formação da mulher, um corpo distinto em anatomia,
fisiologia e genética, que impressionou a Adão (Gn 2.23) e ainda impressiona o
homem pela sua singular beleza. Apesar disso, como parte da rebeldia do homem
contra Deus, tem sido cada vez mais comum a rejeição do corpo em relação ao
sexo biológico, na tentativa de fazer prevalecer os desejos, como pontua Nancy
Pearcey (2022, p. 196):
Hoje, o tratamento aceito não é ajudar as
pessoas a mudarem o seu sentimento interior de identidade de gênero para
combinar com o seu corpo, mas a mudarem seu corpo (por meio de hormônios e
cirurgias) para que este passe a combinar com os seus sentimentos.
Apesar
dessa negação da realidade fisiológica, Pearcey observa o quão distintos são os
corpos do homem e da mulher (ibid., p. 198):
A biologia é mais do que um pedaço
de carne entre as pernas. Em uma Ted Talk popular, a cardiologista Paula
Johnson declarou: “Todas as células têm sexo — e o que isso quer dizer é que
homens e mulheres são diferentes em tudo, até o nível celular e molecular.
Significa que somos diferentes em todos os nossos órgãos, desde o cérebro até o
coração, os pulmões, as articulações”. Em outras palavras, não importa qual
seja a sua fisiologia de gênero, quando estiver doente e o médico colocá-lo na
mesa de cirurgia, ele continuará precisando saber o seu sexo biológico original
para dar-lhe o melhor tratamento médico possível.3
Louvemos a Deus, portanto, pela sua
maravilhosa criação, que nos fez macho e fêmea, com as devidas distinções,
todas para a sua glória!
2. A individualizada formação
integral
Deus
fez todos os seres humanos a partir de um (Adão), mas isso não retira de cada
um a sua individualidade. Cada ser humano é obra única das mãos de Deus, que
forma espírito, alma e corpo. Esse processo dá-se conforme acontece o ato de
procriação que Ele mesmo estabeleceu pela união íntima de homem e mulher (Gn
4.1; Is 57.16; Zc 12.1). As Escrituras falam claramente da existência de vida
humana completa (corpo, alma e espírito) desde o ventre materno (Gn 25.22; Lc
1.15,39-44; G1 1.15). A primeira ocorrência desse ex traordinário fenômeno está
registrada em Gênesis 4.1. A questão é considerar como se dá essa
individualizada formação integral (corpo, alma e espírito).
A formação do corpo acontece a partir da
fusão de células sexuais do homem (espermatozóide) e da mulher (óvulo). O sexo
de uma criança é determinado pelo tipo de espermatozóide que fertiliza o óvulo
— ou seja, se é um espermatozóide masculino ou feminino. Guyton e Hall explicam
o tamanho do feto desde o início da gestação, afirmando que, durante as duas a
três semanas, é praticamente microscópico. A partir daí, começa o crescimento,
e, algumas semanas, depois a mamãe passa a percebê-lo.4 As Escrituras mostram
claramente que o feto não fica inerte no ventre da mãe. Pelo contrário! E capaz
de agir, reagir e expressar sentimentos, o que demonstra claramente a existência
de um ser completo em formação. Gênesis 25.22 fala da luta de Esaú e Jacó antes
do nascimento. Mais evidente ainda é o relato de Lucas, que apresenta João
Batista sendo cheio do Espírito Santo ainda no ventre (Lc 1.15). Quando Maria
chegou à casa da prima Isabel e saudou-a, “a criancinha saltou no seu ventre”
(Lc 1.41).
Essa
realidade biológica e espiritual revela a perversidade e a gravidade do aborto,
prática abjeta que tanto se busca legalizar por todo o mundo, inclusive no
Brasil. Existem movimentos mundiais de defesa desse violento ato, liderados
principalmente por feministas, que popularizam a frase “Meu corpo, minhas
regras”,5 ignorando que o corpo do feto não é uma mera extensão do corpo da
mulher, mas um novo corpo, de um novo indivíduo, pleno e único, que Deus está
formando no ventre materno.
De
outro lado, a constatação da plena vida humana em formação no ventre aponta
para a sublimidade e sensibilidade da maternidade, missão que precisa ser
cumprida com profundo amor, cuidado e proteção, no temor de Deus, ante a
consciência de conduzir mais um ser vivente, criado à imagem de Deus. Não é
demais, portanto, rememorar como as Sagradas Escrituras exaltam o papel de
procriar, às vezes menosprezado mesmo no meio evan gélico, influenciado pelo
secularismo \igente, materialista e reticente ao que a Bíblia prescreve. O
Salmo 127.3-5 diz-nos que “os filhos são herança do Senhor, e o fruto do
ventre, o seu galardão”.
Teorias
sobre a formação da alma
As
Escrituras afirmam de maneira expressa que Deus forma o espírito da alma de
cada ser humano: ‘Assim diz Deus, o Senhor, que criou os céus, e os estendeu, e
formou a terra e tudo quanto produz, que dá a respiração ao povo que nela está
e o espírito, aos que andam nela” (Is 42.5); “Peso da palavra do Senhor sobre
Israel. Fala o Senhor, o que estende o céu, e que funda a terra, e que forma o
espírito do homem dentro dele” (Zc 12.1); ‘Além do que, tivemos nossos pais
segundo a carne, para nos corrigirem, e nós os reverenciamos; não nos
sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, para vivermos?” (Hb 12.9). Pelo
fato de a Bíblia não dar detalhes de como isso acontece, diferentes teorias
surgem na tentativa de explicar esse fenômeno. São três as principais. A
primeira é a teoria da preexistência, segundo a qual as almas são criadas por
Deus antes da existência do corpo, em algum momento do passado.6 Segundo essa
tese, as almas ficam em diversas esfe ras do mundo espiritual e entram no corpo
gerado, no processo chamado de reencarnação (RENOVATO, 2021, p. 272). Essa
teoria está alinhada à doutrina espírita e não possui qualquer fundamento nas
Escrituras.
A
segunda teoria é a criacionista, segundo a qual Deus cria uma nova alma por
ocasião do nascimento de cada indivíduo, infundindo-a no corpo. Conforme
Geisler: “A essência do Criacionismo, a respeito da alma huma na, é que Deus cria
diretamente um novo indivíduo para todas as pessoas que nascem neste mundo.
Apesar do corpo de cada novo ser humano ser gerado pelos seus pais por
intermédio de um processo natural, a alma é sobrenaturalmente criada por Deus”
(2017, p. 20).
A
terceira teoria é o traducianismo, conceito segundo o qual a alma do homem,
como o corpo, origina-se mediante reprodução, ou seja, é reproduzida juntamente
com o corpo pela relação natural e, portanto, é transmitida pelos pais aos
filhos (BERKHOLF, 2012, p. 181). Ao longo da história da Igreja, grandes
teólogos, inclusive da Reforma, dividiram-se entre essas duas linhas de
pensamento, com defesas e refutações de ambos os lados, como apresenta Berkhof
(ibid., p. 182-85).
Escrevendo sobre o tema na Teobgia Sistemática
editada por Stanley Horton (1996, p. 252-55), Timothy Munyon apresenta as três
teorias, refuta a primeira (o preexistencialismo) e, entre as duas últimas,
parece inclinar-se para o tra- ducianismo. Afirmando que o criacionismo não
leva em conta a tendência inerente das pessoas ao pecado — a visão criacionista
não explicaria a herança do pecado original —, Munyon defende o traducianismo
argumentando:
Deus outorgou a Adão e Eva a
capacidade de gerar filhos de com posição semelhante à deles mesmos. E, na
declaração de Davi: “Em pecado me concebeu minha mãe” (SI 51.5), temos
evidências de que ele herdou dos pais, ao ser concebido, uma alma com tendência
ao pecado. Finalmente, em Atos 17.26, Paulo declara: “Deus [...] de um só fez
toda a geração dos homens”, que subtende que tudo quanto se constitui em
“humanidade” provém de Adão.
O que
se observa, em síntese, é que criacionistas e traducianistas creem que a alma é
criada por Deus. Para os primeiros, Ele faz isso diretamente no útero materno.
Para os segundos, Ele já faz de forma indireta por intermédio dos pais.
“Especificamente falando, o Criacionismo defende que apesar de cada novo corpo
humano ser gerado pelos pais, cada nova alma humana é diretamente criada por
Deus” (GEISLER, p. 23). Na sua conclusão, o citado autor alinha-se ao
traducianismo, argumentando ser “difícil compreender como cada ser humano
podería ter nascido em pecado sem que almas de caídas sejam geradas a partir
dos seus pais, pois Deus seguramente não cria uma alma decaída cada vez que um
novo ser humano é concebido” (p. 34). Wayne Grudem (2010, p. 400) considera,
contudo, que “não parece haver nenhuma dificuldade teológica real na afirmação
de que Deus dá a cada criança uma alma humana dotada de tendências pecaminosas
semelhantes às encontradas nos pais”.
Ha outros reconhecidos teólogos que se
alinham à visão criacionista. Comentando Zacarias 12.1, Mathew Henry (2022, p.
1210) afirma que o corpo é proveniente dos pais de nossa carne, mas a alma é
infundida pelo Pai dos espíritos, citando Hebreus 12.9 (2022, p. 1210). O
pastor Elinaldo Renovato aborda esse assunto apresentando a “teoria
participativa”, que também é exposta por outros teólogos, como Myer Pearlman.
Sobre ela, diz Renovato (2021, p. 273)7:
Toda
nova pessoa humana é fruto da ação imediata de Deus e da dos pais: Deus e os
pais produzem o sujeito inteiro, mas os pais podem produzi-lo somente enquanto
é um ser material vivo, isto é, tem um corpo, e Deus o produz imediatamente enquanto
é um ser pessoa, isto é, tem uma alma. [-•] Assim, podemos concluir que a alma
humana se forma, segundo as leis da procriação, deixadas por Deus, numa
cooperação entre os pais biológicos, e “o pai dos espíritos” (Hb 12.9). Cada
vez que um gameta masculino funde-se com um feminino, no casamento, ou fora
dele, pela lei do Criador, forma-se um conjunto espírito+alma dentro do homem.
[...]
O modo como Deus atua na formação
da alma é um mistério ao qual devemos nos curvar, em nosso entendimento
limitado.
Este
autor alinha-se ao entendimento do precitado teólogo pentecostal por entender
que escapa ao processo biológico, de forma isolada, a formação das substâncias
imateriais do ser humano, as quais as Escrituras atribuem expressamente como
ação divina. Eventuais dificuldades na aplicação desse entendimento, mormente
em relação aos efeitos do pecado original, estão no campo da ausência de
Revelação divina específica sobre o assunto e de nossa limitada compreensão dos
fenômenos espirituais revelados. Não convém, contudo, polemizar a respeito de
pontos dessa tese teológica que nos pareçam intrincados.
II - O
CORPO E A GLÓRIA DE DEUS
1. O divino tecelão
A
compreensão do corpo como uma maravilhosa obra das mãos de Deus deve
estimular-nos a glorificá-lo com todo o nosso ser, como Davi expressa no Salmo
139 e em tantas outras poesias da sua palavra. Apesar de a Bíblia não ter
pretensão alguma de ser uma obra científica — como, de fato, não o é —, todas
as suas afirmações podem ser confirmadas pela verdadeira ciência, quando esta
consegue alcançar evidências relacionadas ao objeto da revelação
escriturística, como é o caso da tecedura do corpo.
A
ciência reconhece a formação dos órgãos e sistema do corpo humano exatamente
dos tecidos formados pelas células presentes no embrião. Moore, Persaud e
Torchia (2022, p. 29-33) explicam como durante o desenvolvimento embrionário
são formados os órgãos do corpo numa complexa harmonia entre os tecidos que
compõem o organismo. Junqueira e Carneiro (2018, p. 246) explicam que cada um
dos tecidos é formado por vários tipos de células características daquele
tecido e por arranjos característicos de células grandes e complexas.8 John e Michael E. Hall (2021, p. 48) falam
dessa formação dos tecidos e órgãos como “um agregado de muitas células
diferentes mantidas juntas por estruturas de suporte intercelulares”.9 Todo
esse processo, que escapa à ação direta do homem, acontece como estabelecido
por Deus, o Autor da vida Jr 1.5; Is 49.1).
2. Entendimento e louvor
O
cristão não despreza a ciência, pois a reconhece como uma das manifestações da
graça comum; uma capacidade dada por Deus ao homem para investigar, conhecer e
produzir meios necessários e úteis para o seu bem-estar. Não somos inimigos da
verdadeira ciência e nem a tememos em nada. Quem crê em Deus, contudo, não
depende de comprovação científica para maravilhar-se diante da obra do Criador,
pois, na sua compreensão espiritual da realidade, vê-se livre de toda
especulação e dúvida, tendo o coração cheio de gratidão e louvor. Davi louvava
a Deus porque a sua alma estava satisfeita com o entendimento que ele obtivera
da maravilhosa obra de Deus (SI 139.14). A verdadeira fé produz entendimento e
percepção espiritual corretos, gerando quietude interior, mas a falta de
reconhecer-se como obra divina deixa o ser humano em crise de identidade.
Inquieto e em busca de explicações sobre si mesmo, torna-se vítima dos mais
variados enganos.
Nos dias de Paulo, já era evidente a
falência da filosofia dos gregos, que, desde os pré-socráticos, buscavam
explicação para os fenômenos do Universo e da vida humana nas suas formulações
epistemológicas. Também o período clássico, de Sócrates a Aristóteles, e dos
seus sucessores (incluindo os estoicos), não deram respostas suficientes para a
humanidade. Na verdade, contribuíram para um estado de loucura e aprofundamento
no pecado, como aponta o apóstolo na sua carta aos romanos (ver Rm 1.21,22). A
idolatria e a depravação são semelhantes às que vemos hoje, com um profundo
ultraje ao corpo (Rm 1.18-32).
3. O perigo dos extremos
É
muito comum ao ser humano a busca de extremos, inclusive em relação ao corpo.
Vai-se do desprezo ao culto. Reconhecer-se como obra de Deus, criado à sua
imagem, evita que isso aconteça. Essa compreensão leva-nos a valorizar nosso
ser na sua integralidade, incluindo o corpo. Povos antigos, que eram
politeístas e, portanto, não criam no Deus de Israel, que fez o homem, admitiam
facilmente a oferta de sacrifícios humanos aos seus deuses, além de praticarem
o escravismo às escâncaras.
No
ambiente religioso dos primeiros séculos da Igreja, havia a influência de
filosofias e heresias que depreciavam o corpo humano por considerarem a matéria
intrinsecamente má, dentre as quais o platonismo, o gnosticismo e o
maniqueísmo. Os gnósticos refletiam o dualismo platônico, que fazia uma clara
distinção entre “o espírito bom e a matéria má” e pregavam que a salvação seria
alcançada principalmente por atos ascéticos de negação dos desejos do corpo
material e mau e por uma gnose especial ou conhecimento acessível somente a uma
elite entre os cristãos (CAIRNS, 2008, p. 59). O maniqueísmo, fundado por Mani
ou Maniqueu (216—277 d.C.), tinha alguns pontos semelhantes com o gnosticismo
por comungar de uma visão dualista. Ele pregava que a alma do homem ligava-o ao
reino da luz, enquanto o seu corpo levava-o a ser escravo do reino das trevas.
Para Mani e os seus adeptos, a salvação compreendia a libertação da alma, que
estava escravizada à matéria do corpo (ibid., p. 85).
Observa-se quanto esses pensamentos
filosófico-religiosos depreciavam o corpo e terminaram influenciando a fé
cristã (principalmente no período medieval, quando o ascetismo teve grande
crescimento, marcadamente com o surgimento do movimento monástico). Cairns,
assim como outros estudiosos, consideram que foi essa visão dualista que levou
a Igreja Católica a instituir o celibato, já que se exaltava a tal ponto a vida
ascética que se considerava o instinto sexual um mal e enfatizava-se a
superioridade do estado civil de solteiro. Earle Cairns assinala que o próprio
Agostinho foi discípulo dos maniqueístas durante 12 anos (ibid.). De outro
lado, havia o culto ao belo, como na Grécia Antiga, em que a beleza era
considerada um dom divino, em constante exaltação pública.
O
desequilíbrio permanece. Vícios, automutilações e outras atitudes ex
travagantes, como piercings, escarificações e tatuagens, deformam e desonram o
corpo (Lv 19.28; Pv 23.29-35; 1 Ts 4.4). Por outro lado, há o narcisismo
moderno, marcado pela supervalorização do corpo em detrimento da alma e do
espírito. A idolatria do “eu” leva à prática excessiva de selfas, publicações
de si mesmo em redes sociais, cuidados estéticos, cosméticos e físicos (2 Tm
3.2; 1 Pe 3.3-5). Embora cuidar do corpo seja necessário, principalmente em
tempos de uma vida tão sedentária, assiste-se a um crescimento exacerbado de
espaços dedicados a essa prática (como as academias), sempre bem espelhadas e
com ampla reprodução de imagens nas redes sociais. Em um mundo de tantos excessos,
o cristão deve observar todas as coisas — não apenas se são lícitas, mas também
se são convenientes — e ser equilibrado em tudo (1 Co 6.12).
4.
Princípios ou regras?
Precisamos encarar a mordomia do corpo como
envohida em nosso propósito espiritual, sob pena de incorrermos nos mesmos
erros de religiosos como os fariseus, que fizeram das coisas externas um fim em
si mesmas. Como nossa tendência quando falamos em corpo é logo pensar em
regras, devemos sempre nos lembrar de que nortear a vida cristã com base nos
princípios bíblicos é mais importante. Um deles é a busca da glória de Deus e
aplica-se às práticas mais simples de nosso cotidiano, inclusive o cuidado de
nosso corpo (1 Co 10.31). Trata-se de um parâmetro espiritual, muito mais
importante do que regras rígidas e inflexíveis, que podem levar-nos ao
legalismo (Mt 23.1-7,23).
Um exemplo que deve levar-nos à reflexão é a
proporção de tempo e dinheiro que dedicamos aos cuidados do corpo em relação ao
que fazemos pela alma e o espírito (Lc 12.17-20). Considerar a proporção de
nossos esforços em relação a esta vida e a vida eterna é uma necessária,
prudente e sábia atitude. É isso que nos ensina Paulo quando traça um paralelo
entre exercício corporal e piedade (gr., ensebem), que é nossa dedicação à
obediência e comunhão com Deus (1 Tm 4.8).
III - O
CORPO E A COLETIVIDADE
1. A prática relacionai
Qual
a relação entre corpo e Igreja? Essa reflexão deve começar pelo entendimento de
que o individualismo não combina com o sentido mais elementar de Igreja, que,
aliás, é um reflexo neotestamentário de um dos propósitos para o qual fomos
criados por Deus como seres relacionais, gregários e sociáveis. Isso está
explícito na constatação da necessidade de companhia para o homem e na ordem de
procriação e enchimento da terra (Gn 1.28; 2.18). Tornar esse aspecto da
vontade Deus já superado pode ser uma escolha teológica, porém sem suporte
algum nas Escrituras. É preciso compreender, portanto, que te mos necessidades
e deveres que vão além de nossa individualidade, os quais iniciam pelo
propósito de gerar filhos e constituir família. Se negligenciarmos no âmbito da
família, o que poderemos fazer em termos de Igreja?
O ser
como um todo se multiplica, mas faz isso para quê? Para interagir inclusive
fisicamente, já que é pelo corpo que expressamos as faculdades de nossa alma.
Temos necessidades relacionais e afetivas, pois não fomos criados para viver
isolados social ou afetivamente. Embora os recursos digitais tragam muitas
comodidades para o homem moderno, o contato físico continua sendo essencial
para o ser humano. A troca de afetos por meio de expressões corporais não é
substituída pela frieza da tecnologia. Tiago qualifica a verdadeira religião e
a fé viva por práticas comunitárias reais, que exigem o envolvimento de nosso
corpo (Tg 1.27; 2.14-18). Fala-se muito atualmente em sentimento de
pertencimento, o que não pode ser desprezado pelo cristão (Mc 2.15-17; 6.1-3; 1
Co 5.9-10). Como está nossa comunhão?
2. A prática congregacional
A
leitura de Atos apresenta-nos a Igreja Primitiva dando especial lugar para a
expressão corporal no culto, a começar pela presença, escuta e participação. Os
primeiros discípulos “agregaram-se” e dedicaram-se com perseverança à doutrina
dos apóstolos, à comunhão, ao partir do pão e às orações (At 2.41,42), práticas
que tinham o corpo como um elemento fundamental — mesmo porque não há culto
congregacional sem envolvimento dele e dos seus sentidos.
A
Palavra de Deus adverte-nos de que, além da devoção pessoal diária, precisamos
apresentar-nos a Deus regularmente no templo tanto quanto possível (Hb
10.24,25). Muitos têm sido seduzidos e enganados pelos falsos discursos dos que
criticam a igreja como instituição, sugerindo o cultivo de uma fé individual ou
meramente virtual.
O
fenômeno dos desigrejados, que tanto cresceu na Europa e nos Estados Unidos nas
últimas décadas e contribuiu para levar muitas igrejas locais à morte, é uma
preocupante realidade também no Brasil. Conquanto se reconheça que, em muitos
casos e em certos momentos, seja desafiante permanecer firme na comunhão diante
de experiências comunitárias difíceis, o verdadeiro discípulo de Cristo firma a
sua fé nEle e não dá ouvidos à multidão que tenta impedi-lo de seguir o Mestre,
como fez o cego de Jerico, que, repreendido para que se calasse, gritava ainda
mais pelo Filho de Davi. Ele sabia bem qual era a sua necessidade e tinha
consciência de que, embora aquela estrutura estivesse repelindo-o, Jesus estava
no meio (Lc 18.35-39). A rejeição à igreja como instituição é uma prática
antibíblica e altamente prejudicial à verdadeira vida cristã (Ef 4.1-3; 1 Ts
5.11-15).
3. Tecnologia e culto
Desafios ao culto sempre existiram para a Igreja,
inclusive os mais violentos, desde a Roma antiga. Nos tempos modernos, contudo,
impedimentos igualmente modernos e tremendamente sutis podem impedir que haja
um culto completo, que envolva espírito, alma e corpo. E preciso refletir sobre
o perigo de levar-se o corpo a estar presente no templo, mas sem nenhum
envolvimento direto com o culto, principalmente através das janelas da visão,
da audição e da fala. O culto divino pressupõe contemplação e participação (SI
27.4; 100.2-4). O uso excessivo de tecnologias está pondo em risco essa prática
tão nobre e indispensável para a comunhão.
Muitos
recursos tecnológicos da atualidade podem ser úteis ao culto, como telões,
celulares, tablets e até mesmo drones em situações bem específicas. Contudo, em
alguns casos, há um flagrante abuso no uso desses recursos, o que prejudica o
ambiente de culto. A falta de discrição de equipes de mídia, o registro intenso
de imagens e a transmissão indiscriminada dos atos litúrgicos são algumas
questões que merecem ser examinadas. Vivemos um processo de midiatização do
culto. Além disso, práticas pessoais durante momentos de louvor e adoração,
pregação ou ensino, já se mostram bem desproporcionais (inclusive no púlpito),
como é o caso do uso do telefone celular para acesso a redes sociais, sem contar
um número cada vez mais crescente de pessoas que mais fotografam e filmam que
cultuam. A pergunta é: o uso que estamos fazendo da tecnologia é realmente
necessário ou é a expressão de um mero modismo diante da crescente
virtualização da vida?
Não
podemos permitir que a tecnologia roube nossa atenção e comprometa nosso culto
a Deus. Se não fecharmos as portas de nosso corpo para o mundo externo, tão
flagrantemente presentes por meio dos aparelhos tecnológicos, deixaremos de
oferecer um culto completo e verdadeiro (Lv 22.17-25; Mt 6.6,7). Talvez
devéssemos hoje empregar Eclesiastes 5.1 não apenas como “guardar o pé”, mas
também o celular, quando entrarmos na casa de Deus, pois o sentido do texto é
exatamente a necessidade de reverência no ambiente do culto divino.
CONCLUSÃO
Nossa
compreensão da maravilhosa obra divina que é nosso corpo deve levar-nos a uma
vida de inteira e constante adoração integral (Rm 12.1; 1 Co 6.20), o que
inclui um cuidado equilibrado dessa matéria, que, com a alma e o espírito, compõe
nosso ser como criação especial de Deus para a sua glória.
O Corpo — A Maravilhosa Obra da Criação de
Deus 43
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