segunda-feira, 6 de outubro de 2025

CPAD : Espírito, Alma e Corpo Lição 2: O Corpo — A maravilhosa obra da criação de Deus

 


TEXTO ÁUREO

Eu te louvarei, porque de um modo terrível e tão maravilhoso fui formado; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem.

(Sl 139.14).

VERDADE PRÁTICA

A ciência busca desvendar os mistérios do corpo humano, mas o crente descansa em saber que é obra da poderosa e perfeita mão de Deus.

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE

Salmos 139.1-4,13-18.

1 — Senhor, tu me sondaste e me conheces.

2 — Tu conheces o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento.

3 — Cercas o meu andar e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos.

4 — Sem que haja uma palavra na minha língua, eis que, ó Senhor, tudo conheces.

13 — Pois possuíste o meu interior; entreteceste-me no ventre de minha mãe.

14 — Eu te louvarei, porque de um modo terrível e tão maravilhoso fui formado; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem.

15 — Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra.

16 — Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe, e no teu livro todas estas coisas foram escritas, as quais iam sendo dia a dia formadas, quando nem ainda uma delas havia.

17 — E quão preciosos são para mim, ó Deus, os teus pensamentos! Quão grande é a soma deles!

18 — Se os contasse, seriam em maior número do que a areia; quando acordo, ainda estou contigo.

PLANO DE AULA

1. INTRODUÇÃO

Esta lição o convida a conduzir seus alunos à reflexão bíblica sobre o corpo humano como uma maravilhosa criação de Deus. Em um tempo de tantas distorções sobre identidade e propósito, esta aula oferece uma oportunidade rica de afirmar verdades bíblicas sobre a dignidade do corpo, seu valor espiritual e sua função no culto e na comunhão cristã. Ensine com fé, equilíbrio e clareza, lembrando que cada corpo é templo do Espírito e expressão da glória do Criador.

2. APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO

A) Objetivos da Lição: I) Conduzir os alunos a reconhecerem que o corpo humano é uma criação maravilhosa de Deus, formada com propósito, sabedoria e amor; II) Conscientizar os alunos sobre a importância de glorificar a Deus com o corpo, evitando extremos como o desprezo do corpo e sua idolatria; III) Incentivar os alunos a compreenderem o papel do corpo nas relações interpessoais, na vida congregacional e no culto a Deus.

B) Motivação: Compreender o valor do corpo humano à luz da Bíblia, nos ajuda a viver com propósito, gratidão e santidade. Esta lição revela como nosso corpo glorifica a Deus e integra nossa adoração e comunhão. É um chamado à reverência e equilíbrio diante do Criador.

C) Sugestão de Método: Para enfatizar o ensino do tópico III, sugerimos a dinâmica de grupo intitulada “Corpo em Comunhão”. Divida a classe em pequenos grupos e atribua a cada um o nome de uma parte do corpo (como mãos, pés, olhos, ouvidos). Cada grupo deve refletir e compartilhar como essa parte é essencial para o funcionamento do corpo humano e, por analogia, como isso se aplica à vida da igreja e à participação individual no culto. Após as apresentações, relacione as contribuições à importância da presença física, da comunhão e do envolvimento no culto, alertando sobre os excessos da tecnologia. A atividade é encerrada com a leitura de 1 Coríntios 12.12-27, destacando que cada membro é necessário no Corpo de Cristo.

3. CONCLUSÃO DA LIÇÃO

A) Aplicação: Compreendendo nosso corpo como obra divina, devemos honrá-lo em santificação, equilíbrio e serviço, tanto individualmente quanto em comunhão com outros e no culto a Deus, glorificando-O em tudo.

4. SUBSÍDIO AO PROFESSOR

A) Revista Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e subsídios de apoio à Lições Bíblicas Adultos. Na edição 103, p.37, você encontrará um subsídio especial para esta lição.

B) Auxílios Especiais: Ao final do tópico, você encontrará auxílios que darão suporte na preparação de sua aula: 1) O texto “A Criação Maravilhosa de Deus”, localizado depois do primeiro tópico, complementa o estudo a respeito da criação do ser humano; 2) O texto “Do Pó da Terra e do Fôlego de Vida”, ao final do segundo tópico, aprofunda a respeito de uma visão equilibrada sobre o corpo.

COMENTÁRIO

INTRODUÇÃO

Há séculos o racionalismo e o cientificismo procuram explicar a existência humana. Segundo seus propagadores, essas escolas de pensamentos teriam suficientes respostas para o homem em sua busca de compreensão da realidade. Apesar disso, razão e ciência não conseguem desvendar nem mesmo todos os mistérios do corpo humano. Como resultado, o homem pós-moderno vive uma grande crise de identidade. Somente pela fé, por meio das Escrituras Sagradas, temos respostas sobre nossa constituição e existência.

Palavra-Chave:

CORPO

AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO

A CRIAÇÃO MARAVILHOSA DE DEUS

 “A simples afirmação de que Deus criou os céus e a terra é um dos conceitos mais desafiadores que confrontam a mente moderna. A vasta galáxia em que vivemos gira a uma incrível velocidade de 788.410 quilômetros por hora. Porém, mesmo a esta alucinante velocidade, nossa galáxia ainda necessita de 200 milhões de anos para concluir uma única rotação. Além disso, existe mais de um bilhão de outras galáxias como a nossa no universo. Alguns cientistas afirmam que o número de estrelas na criação é igual a todos os grãos de areia de todas as praias do mundo. Ainda assim, este complexo mar de estrelas em movimento funciona com notável ordem e eficiência. Dizer que o universo ‘surgiu’ ou ‘evoluiu’ requer mais fé do que acreditar que Deus está por trás dessas estatísticas surpreendentes. Deus criou um universo maravilhoso. Deus não precisava criar o universo; Ele escolheu criá-lo. Por quê? Deus é amor, e o amor é melhor expressado em direção a algo ou alguém — assim, Deus criou o mundo e as pessoas como uma expressão do seu amor. Não devemos reduzir a criação de Deus a meros termos científicos. Lembre-se de que Deus criou o universo porque ama cada um de nós” (Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2022, p.1590).

 AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO

DO PÓ DA TERRA E DO FÔLEGO DE VIDA

 “‘... Do pó da terra’ implica que não há nada fantasioso em relação aos elementos químicos que compõem o nosso corpo. O corpo é o invólucro, uma estrutura sem vida até que Deus o torne vivo com o seu ‘fôlego de vida’. Quando Deus retira este fôlego, nosso corpo retorna ao pó. Desse modo, nossa vida e valor provêm do Espírito de Deus. Muitos se vangloriam de suas conquistas e habilidades como se fossem donos de suas próprias forças; outros sentem-se desvalorizados por não possuírem muitas habilidades. Na verdade, nosso valor não provém de nossas realizações, mas do Deus que criou o universo e escolheu presentear-nos com o misterioso e miraculoso dom da vida. Faça como Ele, valorize a vida” (Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2022, pp.7,8).

 SUBSÍDIOS ENSINADOR CRISTÃO

 O CORPO — A MARAVILHOSA OBRA DA CRIAÇÃO DE DEUS

  Nesta lição, veremos com maiores detalhes uma das obras mais sublimes de nosso Criador: o corpo humano. De modo extraordinário, o Senhor formou o homem do pó da terra. O corpo é a estrutura material onde se encontra a alma e o espírito. A Bíblia o classifica também como templo do Espírito Santo e, como tal, precisa ser preservado (1Co 3.16). O cuidado com o corpo está além da simples nutrição ou atividade física. Cuidar do corpo significa também ter uma vida equilibrada de modo a evitar que os maus comportamentos e pensamentos da natureza humana pecaminosa tornem a predominar sobre o corpo. Ainda que por um tempo haja em nós uma incessante luta entre a carne e o espírito, nosso corpo deve ser apresentado para uma vida que ande no espírito e sirva a Deus com integridade (Gl 5.16).

Vale ressaltar que, antes da Queda, o propósito de Deus era que o homem desfrutasse da plenitude da vida em perfeita comunhão com seu Criador. Nesse sentido, o corpo humano fruía de plenas condições quando habitava o Éden. Conforme discorre o Comentário da Bíblia de Estudo Pentecostal — 

  Edição Global (CPAD), “ao criar os seres humanos à sua própria imagem, Deus designou as pessoas como seres triunos (isto é, ‘trifacetados’), com espírito, alma e corpo (1Ts 5.23; Hb 4.12). Deus formou Adão do pó da terra (corpo) e soprou em suas narinas o fôlego de vida (espírito), e ele se tornou ‘alma vivente’ (alma, Gn 2.7). Deus pretendia que, ao comer da árvore da vida e obedecer à sua instrução de não comer da árvore da ciência do bem e do mal, a humanidade continuasse a viver em sua condição perfeitamente criada (cf. Gn 2.16,17; 3.22-24). Somente depois que a morte entrou no mundo, como resultado do pecado humano, é que lemos sobre o corpo retornando ao pó e o espírito voltando para junto de Deus (Gn 3.19; 35.18; Ec 12.7; Ap 6.9). Em outras palavras, a separação do corpo do espírito e da alma (isto é, o momento da morte física) é resultado da maldição de Deus sobre a raça humana por causa do pecado. [...] O corpo também passará por uma transformação quando ressuscitar (isto é, quando voltar à vida para se unir à alma e ao espírito). Esta é a maneira como a nossa completa qualidade de ser humano será restaurada, no final, se tivermos entregados a nossa vida a Jesus Cristo”. (2022, pp.1106,1107).

  A vida plena no Espírito deve ser destacada. Atualmente, nos deparamos com a busca demasiada por uma beleza perfeita e culto à imagem, inclusive por quem trabalha com mídias sociais. O excesso de exposição do corpo traz efeitos à mente e ao corpo. Nosso corpo é templo do Espírito e deve estar à serviço do Reino (Rm 12.1,2).

CONCLUSÃO

A verdadeira adoração ao Criador abrange a integralidade de nosso ser, o que inclui todo o nosso corpo (Rm 12.1; 1Co 6.20). Reconhecer-se como obra das mãos de Deus leva-nos a nos render à Sua soberania e permanecer confiando em Seu eterno poder (Jó 1.20-22; 2.10; 19.25-27). Que saibamos possuir nosso corpo em santificação e honra (1Ts 4.4).

     CPAD : Espírito, Alma e Corpo — A restauração integral do ser humano para chegar à estatura completa de Cristo

Comentarista: Silas Queiroz

Lição 2: O Corpo — A maravilhosa obra da criação de Deus

 


INTRODUÇÃO

   No primeiro capítulo, buscamos apresentar uma síntese do pensamento bíblico acerca do homem, destacando-o como uma unidade, um ser integral, composto, porém, de três partes distintas: espírito, alma e corpo. Neste capítulo, trataremos especificamente do corpo, a substância material do ser humano. Nossa reflexão partirá do estudo dos versículos 13 ao 16 do Salmo 139, nos quais Davi expressa o seu deslumbramento com a formação do corpo humano, a criação fisica de Deus mais extraordinária.

   Fruto de uma compreensão espiritual, o salmista admira o modo como ele foi formado por Deus no ventre materno. Davi emprega o termo hebraico yare, que,r na ARC, qualifica esse “modo” como “terrível e tão maravilhoso”, transmitindo a ideia de assombro. A Almeida Revista e Atualizada (ARA) traduz como “modo assombrosamente maravilhoso”. A expressão também é usada para revelar o temor causado em quem presencia e reconhece as admiráveis obras de Deus, como destacam Harris, Archer Jr. e Waltke (1998, p. 656). Foi esse reconhecimento espiritual da grandiosidade da obra divina que levou Davi a louvar so Senhor pela formação do seu corpo.

   Citando Êxodo 14.31, Josué 4.23,24 e 1 Samuel 4.7-9, esses autores referem-se ao emprego deyare como expressão de temor a Deus diante dos seus grandes feitos. Êxodo 14.27-31 contém a narrativa da abertura do Mar Vermelho para a passagem dos hebreus, o seu fechamento e a destruição total dos egípcios e como isso causou um grande espanto no povo e levou-o a temer a Deus (14.31). Observa-se, portanto, que se trata de uma forte reação emocional, de espanto e temor diante de um feito visível, porém inexplicável, incompreensível à mente humana. Davi experimentou emoção semelhante quando se referiu ao modo tão maravilhoso como o corpo humano é formado por Deus.

  Racionalismo e Cientificismo

  Embora físico, tangível e sujeito a investigações em laboratórios, o corpo humano é uma obra tão extraordinária que muitos dos seus mistérios não podem ser explicados nem mesmo pela mais moderna ciência, quanto mais pela filosofia. Desde René Descartes (1596-1650), os racionalistas propugna- vam que a razão humana seria capaz de dar respostas a todas as perguntas do homem, sem necessidade alguma da fé. Assim, o racionalismo passou a representar a tentativa de julgar tudo à luz da razão, no afã de liquidar com pletamente o sobrenatural (BROWN, 1989, p. 37). Desde então, a filosofia sucedeu-se ciclicamente em tantas escolas de pensamento sem nenhuma delas alcançar explicações terminativas para os problemas do homem. Filho do racionalismo, o cientificismo (ou cienticismo) é a “Doutrina segundo a qual a ciência, em virtude de seus formidáveis avanços, é capaz de resolver todos os problemas humanos, inclusive os de ordem metafísica e espiritual” (Andrade, 1999, p. 82). Apesar dessas soberbas pretensões humanas, depois de séculos de intensas pesquisas, os grandes cientistas do mundo admitem que ainda se sabe muito pouco da própria fisiologia humana (Guyton e Hall, 1998, p. 28).1

   Não acreditar em Deus como Criador tem levado grande parte da humanidade a viver numa abissal crise de identidade. A ciência é muito importante para a vida humana e, sem dúvida alguma, tem avanços de grande relevância em diversas áreas, como na medicina, mas nunca desvendará todos os mistérios da criação divina, inclusive do corpo humano. Somente pela fé, por meio da Revelação escrita, temos respostas sobre nossa constituição e existência e sobre todos os grandes feitos de Deus. Por isso, em vez de insistir em compreender o incompreensível, o melhor caminho para o homem é render-se à soberania do Criador e reconhecer o seu eterno poder (Rm 1.19,20). Ao contemplar as suas inexplicáveis obras, só nos resta louvá-lo, como fez Davi, com alma serena e tranquila.

  I - A MARAVILHOSA OBRA DE DEUS

1.  Do pó da terra

  Deus fez o corpo do homem (adam) do pó da terra da terra, com o produto dela, o corpo humano. Além do grande percentual de água — em crianças, pode chegar a mais de 70%, e em adultos fica em torno de 56% da composição do corpo —, a matéria humana tem muitos dos mesmos elementos químicos encontrados na terra, o mesmo pó do qual o homem foi formado. Arthur Guyton (1919—2003) ejohn Hall mencionam diversos deles: oxigênio, magnésio, potássio, fosfato, sódio, dióxido de carbono etc. (ibid. p. 03). Acerca da estrutura do corpo, geralmente se afirma ser ele composto de cerca de 37 trilhões de células, além de tecidos, órgãos e sistemas. Quanto às células, que são organismos vivos, há estudiosos que apontam para um número bem maior, como os já citados Guyton e Hall [ibid., p. 03), que falam em cerca de 100 trilhões de células.

   A respeito do funcionamento dessa “máquina humana”, afirmam:

   O corpo humano contém, literalmente, milhares de sistemas de controle. Os mais intrincados deles são os sistemas genéticos, que atuam em todas as células a fim de controlar o funcionamento intercelular e, também, todas as funções extracelulares. [...] Muitos outros sistemas de controle atuam nos órgãos para gerir o funcionamento das diferentes partes desses órgãos; outros atuam por todo o corpo para regular as interações entre órgãos. O sistema respiratório, por exemplo, amando em associação com o sistema nervoso, regula a concentração de dióxido de carbono no líquido extracelular. De igual modo, o fígado e o pâncreas regulam a concentração de glicose no líquido extracelular. Os rins regulam a concentração dos íons hidrogênio, sódio, potássio, fosfato e de outros íons no líquido extracelular. (p. 05)

   Para a grande pergunta “Quem estabeleceu tudo isso?”, há somente uma resposta, como disse Paulo no areópago de Atenas: “O Deus que fez o mundo e tudo que nele há [...] ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas [...]; porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (At 17.24,25,28). O máximo que a ciência humana pode fazer nas suas investigações é seguir tateando e avançando na descoberta, ainda que parcialmente, da magnitude dessa obra divina. A ciência constata o que Deus criou, mas não consegue explicar ou provar qualquer outra origem que não seja o soberano Criador, embora insista.

   2. Deus, o Autor da vida

   Adão foi feito o protótipo da raça humana, como está em Atos 17.26. Como destaca French L. Arrington (2009, p. 730), “A ênfase de Paulo se dá no modo como [Deus] criou a humanidade; Ele fez todas as nações de uma única pessoa: Adão. Todos os seres humanos compartilham a mesma natureza, porque têm um antepassado comum (Gn 1.26-28).”2

   Esse é um ponto de partida fundamental para explicar a origem da mulher, também formada de modo maravilhoso e sobrenatural, mas a partir de uma matéria humana já existente, o corpo de Adão (Gn 2.21,22). A linguagem hebraica expressa a singularidade do processo de formação da mulher, um corpo distinto em anatomia, fisiologia e genética, que impressionou a Adão (Gn 2.23) e ainda impressiona o homem pela sua singular beleza. Apesar disso, como parte da rebeldia do homem contra Deus, tem sido cada vez mais comum a rejeição do corpo em relação ao sexo biológico, na tentativa de fazer prevalecer os desejos, como pontua Nancy Pearcey (2022, p. 196):

   Hoje, o tratamento aceito não é ajudar as pessoas a mudarem o seu sentimento interior de identidade de gênero para combinar com o seu corpo, mas a mudarem seu corpo (por meio de hormônios e cirurgias) para que este passe a combinar com os seus sentimentos.

   Apesar dessa negação da realidade fisiológica, Pearcey observa o quão distintos são os corpos do homem e da mulher (ibid., p. 198):

   A biologia é mais do que um pedaço de carne entre as pernas. Em uma Ted Talk popular, a cardiologista Paula Johnson declarou: “Todas as células têm sexo — e o que isso quer dizer é que homens e mulheres são diferentes em tudo, até o nível celular e molecular. Significa que somos diferentes em todos os nossos órgãos, desde o cérebro até o coração, os pulmões, as articulações”. Em outras palavras, não importa qual seja a sua fisiologia de gênero, quando estiver doente e o médico colocá-lo na mesa de cirurgia, ele continuará precisando saber o seu sexo biológico original para dar-lhe o melhor tratamento médico possível.3

   Louvemos a Deus, portanto, pela sua maravilhosa criação, que nos fez macho e fêmea, com as devidas distinções, todas para a sua glória!

2.  A individualizada formação integral

   Deus fez todos os seres humanos a partir de um (Adão), mas isso não retira de cada um a sua individualidade. Cada ser humano é obra única das mãos de Deus, que forma espírito, alma e corpo. Esse processo dá-se conforme acontece o ato de procriação que Ele mesmo estabeleceu pela união íntima de homem e mulher (Gn 4.1; Is 57.16; Zc 12.1). As Escrituras falam claramente da existência de vida humana completa (corpo, alma e espírito) desde o ventre materno (Gn 25.22; Lc 1.15,39-44; G1 1.15). A primeira ocorrência desse ex traordinário fenômeno está registrada em Gênesis 4.1. A questão é considerar como se dá essa individualizada formação integral (corpo, alma e espírito).

  A formação do corpo acontece a partir da fusão de células sexuais do homem (espermatozóide) e da mulher (óvulo). O sexo de uma criança é determinado pelo tipo de espermatozóide que fertiliza o óvulo — ou seja, se é um espermatozóide masculino ou feminino. Guyton e Hall explicam o tamanho do feto desde o início da gestação, afirmando que, durante as duas a três semanas, é praticamente microscópico. A partir daí, começa o crescimento, e, algumas semanas, depois a mamãe passa a percebê-lo.4 As Escrituras mostram claramente que o feto não fica inerte no ventre da mãe. Pelo contrário! E capaz de agir, reagir e expressar sentimentos, o que demonstra claramente a existência de um ser completo em formação. Gênesis 25.22 fala da luta de Esaú e Jacó antes do nascimento. Mais evidente ainda é o relato de Lucas, que apresenta João Batista sendo cheio do Espírito Santo ainda no ventre (Lc 1.15). Quando Maria chegou à casa da prima Isabel e saudou-a, “a criancinha saltou no seu ventre” (Lc 1.41).

   Essa realidade biológica e espiritual revela a perversidade e a gravidade do aborto, prática abjeta que tanto se busca legalizar por todo o mundo, inclusive no Brasil. Existem movimentos mundiais de defesa desse violento ato, liderados principalmente por feministas, que popularizam a frase “Meu corpo, minhas regras”,5 ignorando que o corpo do feto não é uma mera extensão do corpo da mulher, mas um novo corpo, de um novo indivíduo, pleno e único, que Deus está formando no ventre materno.

   De outro lado, a constatação da plena vida humana em formação no ventre aponta para a sublimidade e sensibilidade da maternidade, missão que precisa ser cumprida com profundo amor, cuidado e proteção, no temor de Deus, ante a consciência de conduzir mais um ser vivente, criado à imagem de Deus. Não é demais, portanto, rememorar como as Sagradas Escrituras exaltam o papel de procriar, às vezes menosprezado mesmo no meio evan gélico, influenciado pelo secularismo \igente, materialista e reticente ao que a Bíblia prescreve. O Salmo 127.3-5 diz-nos que “os filhos são herança do Senhor, e o fruto do ventre, o seu galardão”.

  Teorias sobre a formação da alma

   As Escrituras afirmam de maneira expressa que Deus forma o espírito da alma de cada ser humano: ‘Assim diz Deus, o Senhor, que criou os céus, e os estendeu, e formou a terra e tudo quanto produz, que dá a respiração ao povo que nela está e o espírito, aos que andam nela” (Is 42.5); “Peso da palavra do Senhor sobre Israel. Fala o Senhor, o que estende o céu, e que funda a terra, e que forma o espírito do homem dentro dele” (Zc 12.1); ‘Além do que, tivemos nossos pais segundo a carne, para nos corrigirem, e nós os reverenciamos; não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, para vivermos?” (Hb 12.9). Pelo fato de a Bíblia não dar detalhes de como isso acontece, diferentes teorias surgem na tentativa de explicar esse fenômeno. São três as principais. A primeira é a teoria da preexistência, segundo a qual as almas são criadas por Deus antes da existência do corpo, em algum momento do passado.6 Segundo essa tese, as almas ficam em diversas esfe ras do mundo espiritual e entram no corpo gerado, no processo chamado de reencarnação (RENOVATO, 2021, p. 272). Essa teoria está alinhada à doutrina espírita e não possui qualquer fundamento nas Escrituras.

   A segunda teoria é a criacionista, segundo a qual Deus cria uma nova alma por ocasião do nascimento de cada indivíduo, infundindo-a no corpo. Conforme Geisler: “A essência do Criacionismo, a respeito da alma huma na, é que Deus cria diretamente um novo indivíduo para todas as pessoas que nascem neste mundo. Apesar do corpo de cada novo ser humano ser gerado pelos seus pais por intermédio de um processo natural, a alma é sobrenaturalmente criada por Deus” (2017, p. 20).

   A terceira teoria é o traducianismo, conceito segundo o qual a alma do homem, como o corpo, origina-se mediante reprodução, ou seja, é reproduzida juntamente com o corpo pela relação natural e, portanto, é transmitida pelos pais aos filhos (BERKHOLF, 2012, p. 181). Ao longo da história da Igreja, grandes teólogos, inclusive da Reforma, dividiram-se entre essas duas linhas de pensamento, com defesas e refutações de ambos os lados, como apresenta Berkhof (ibid., p. 182-85).

   Escrevendo sobre o tema na Teobgia Sistemática editada por Stanley Horton (1996, p. 252-55), Timothy Munyon apresenta as três teorias, refuta a primeira (o preexistencialismo) e, entre as duas últimas, parece inclinar-se para o tra- ducianismo. Afirmando que o criacionismo não leva em conta a tendência inerente das pessoas ao pecado — a visão criacionista não explicaria a herança do pecado original —, Munyon defende o traducianismo argumentando:

   Deus outorgou a Adão e Eva a capacidade de gerar filhos de com posição semelhante à deles mesmos. E, na declaração de Davi: “Em pecado me concebeu minha mãe” (SI 51.5), temos evidências de que ele herdou dos pais, ao ser concebido, uma alma com tendência ao pecado. Finalmente, em Atos 17.26, Paulo declara: “Deus [...] de um só fez toda a geração dos homens”, que subtende que tudo quanto se constitui em “humanidade” provém de Adão.

   O que se observa, em síntese, é que criacionistas e traducianistas creem que a alma é criada por Deus. Para os primeiros, Ele faz isso diretamente no útero materno. Para os segundos, Ele já faz de forma indireta por intermédio dos pais. “Especificamente falando, o Criacionismo defende que apesar de cada novo corpo humano ser gerado pelos pais, cada nova alma humana é diretamente criada por Deus” (GEISLER, p. 23). Na sua conclusão, o citado autor alinha-se ao traducianismo, argumentando ser “difícil compreender como cada ser humano podería ter nascido em pecado sem que almas de caídas sejam geradas a partir dos seus pais, pois Deus seguramente não cria uma alma decaída cada vez que um novo ser humano é concebido” (p. 34). Wayne Grudem (2010, p. 400) considera, contudo, que “não parece haver nenhuma dificuldade teológica real na afirmação de que Deus dá a cada criança uma alma humana dotada de tendências pecaminosas semelhantes às encontradas nos pais”.

  Ha outros reconhecidos teólogos que se alinham à visão criacionista. Comentando Zacarias 12.1, Mathew Henry (2022, p. 1210) afirma que o corpo é proveniente dos pais de nossa carne, mas a alma é infundida pelo Pai dos espíritos, citando Hebreus 12.9 (2022, p. 1210). O pastor Elinaldo Renovato aborda esse assunto apresentando a “teoria participativa”, que também é exposta por outros teólogos, como Myer Pearlman. Sobre ela, diz Renovato (2021, p. 273)7:

   Toda nova pessoa humana é fruto da ação imediata de Deus e da dos pais: Deus e os pais produzem o sujeito inteiro, mas os pais podem produzi-lo somente enquanto é um ser material vivo, isto é, tem um corpo, e Deus o produz imediatamente enquanto é um ser pessoa, isto é, tem uma alma. [-•] Assim, podemos concluir que a alma humana se forma, segundo as leis da procriação, deixadas por Deus, numa cooperação entre os pais biológicos, e “o pai dos espíritos” (Hb 12.9). Cada vez que um gameta masculino funde-se com um feminino, no casamento, ou fora dele, pela lei do Criador, forma-se um conjunto espírito+alma dentro do homem.

   [...]

   O modo como Deus atua na formação da alma é um mistério ao qual devemos nos curvar, em nosso entendimento limitado.

   Este autor alinha-se ao entendimento do precitado teólogo pentecostal por entender que escapa ao processo biológico, de forma isolada, a formação das substâncias imateriais do ser humano, as quais as Escrituras atribuem expressamente como ação divina. Eventuais dificuldades na aplicação desse entendimento, mormente em relação aos efeitos do pecado original, estão no campo da ausência de Revelação divina específica sobre o assunto e de nossa limitada compreensão dos fenômenos espirituais revelados. Não convém, contudo, polemizar a respeito de pontos dessa tese teológica que nos pareçam intrincados.

 II -   O CORPO E A GLÓRIA DE DEUS

 1. O divino tecelão

   A compreensão do corpo como uma maravilhosa obra das mãos de Deus deve estimular-nos a glorificá-lo com todo o nosso ser, como Davi expressa no Salmo 139 e em tantas outras poesias da sua palavra. Apesar de a Bíblia não ter pretensão alguma de ser uma obra científica — como, de fato, não o é —, todas as suas afirmações podem ser confirmadas pela verdadeira ciência, quando esta consegue alcançar evidências relacionadas ao objeto da revelação escriturística, como é o caso da tecedura do corpo.

   A ciência reconhece a formação dos órgãos e sistema do corpo humano exatamente dos tecidos formados pelas células presentes no embrião. Moore, Persaud e Torchia (2022, p. 29-33) explicam como durante o desenvolvimento embrionário são formados os órgãos do corpo numa complexa harmonia entre os tecidos que compõem o organismo. Junqueira e Carneiro (2018, p. 246) explicam que cada um dos tecidos é formado por vários tipos de células características daquele tecido e por arranjos característicos de células grandes e complexas.8  John e Michael E. Hall (2021, p. 48) falam dessa formação dos tecidos e órgãos como “um agregado de muitas células diferentes mantidas juntas por estruturas de suporte intercelulares”.9 Todo esse processo, que escapa à ação direta do homem, acontece como estabelecido por Deus, o Autor da vida Jr 1.5; Is 49.1).

  2. Entendimento e louvor

   O cristão não despreza a ciência, pois a reconhece como uma das manifestações da graça comum; uma capacidade dada por Deus ao homem para investigar, conhecer e produzir meios necessários e úteis para o seu bem-estar. Não somos inimigos da verdadeira ciência e nem a tememos em nada. Quem crê em Deus, contudo, não depende de comprovação científica para maravilhar-se diante da obra do Criador, pois, na sua compreensão espiritual da realidade, vê-se livre de toda especulação e dúvida, tendo o coração cheio de gratidão e louvor. Davi louvava a Deus porque a sua alma estava satisfeita com o entendimento que ele obtivera da maravilhosa obra de Deus (SI 139.14). A verdadeira fé produz entendimento e percepção espiritual corretos, gerando quietude interior, mas a falta de reconhecer-se como obra divina deixa o ser humano em crise de identidade. Inquieto e em busca de explicações sobre si mesmo, torna-se vítima dos mais variados enganos.

   Nos dias de Paulo, já era evidente a falência da filosofia dos gregos, que, desde os pré-socráticos, buscavam explicação para os fenômenos do Universo e da vida humana nas suas formulações epistemológicas. Também o período clássico, de Sócrates a Aristóteles, e dos seus sucessores (incluindo os estoicos), não deram respostas suficientes para a humanidade. Na verdade, contribuíram para um estado de loucura e aprofundamento no pecado, como aponta o apóstolo na sua carta aos romanos (ver Rm 1.21,22). A idolatria e a depravação são semelhantes às que vemos hoje, com um profundo ultraje ao corpo (Rm 1.18-32).

  3. O perigo dos extremos

   É muito comum ao ser humano a busca de extremos, inclusive em relação ao corpo. Vai-se do desprezo ao culto. Reconhecer-se como obra de Deus, criado à sua imagem, evita que isso aconteça. Essa compreensão leva-nos a valorizar nosso ser na sua integralidade, incluindo o corpo. Povos antigos, que eram politeístas e, portanto, não criam no Deus de Israel, que fez o homem, admitiam facilmente a oferta de sacrifícios humanos aos seus deuses, além de praticarem o escravismo às escâncaras.

   No ambiente religioso dos primeiros séculos da Igreja, havia a influência de filosofias e heresias que depreciavam o corpo humano por considerarem a matéria intrinsecamente má, dentre as quais o platonismo, o gnosticismo e o maniqueísmo. Os gnósticos refletiam o dualismo platônico, que fazia uma clara distinção entre “o espírito bom e a matéria má” e pregavam que a salvação seria alcançada principalmente por atos ascéticos de negação dos desejos do corpo material e mau e por uma gnose especial ou conhecimento acessível somente a uma elite entre os cristãos (CAIRNS, 2008, p. 59). O maniqueísmo, fundado por Mani ou Maniqueu (216—277 d.C.), tinha alguns pontos semelhantes com o gnosticismo por comungar de uma visão dualista. Ele pregava que a alma do homem ligava-o ao reino da luz, enquanto o seu corpo levava-o a ser escravo do reino das trevas. Para Mani e os seus adeptos, a salvação compreendia a libertação da alma, que estava escravizada à matéria do corpo (ibid., p. 85).

   Observa-se quanto esses pensamentos filosófico-religiosos depreciavam o corpo e terminaram influenciando a fé cristã (principalmente no período medieval, quando o ascetismo teve grande crescimento, marcadamente com o surgimento do movimento monástico). Cairns, assim como outros estudiosos, consideram que foi essa visão dualista que levou a Igreja Católica a instituir o celibato, já que se exaltava a tal ponto a vida ascética que se considerava o instinto sexual um mal e enfatizava-se a superioridade do estado civil de solteiro. Earle Cairns assinala que o próprio Agostinho foi discípulo dos maniqueístas durante 12 anos (ibid.). De outro lado, havia o culto ao belo, como na Grécia Antiga, em que a beleza era considerada um dom divino, em constante exaltação pública.

   O desequilíbrio permanece. Vícios, automutilações e outras atitudes ex travagantes, como piercings, escarificações e tatuagens, deformam e desonram o corpo (Lv 19.28; Pv 23.29-35; 1 Ts 4.4). Por outro lado, há o narcisismo moderno, marcado pela supervalorização do corpo em detrimento da alma e do espírito. A idolatria do “eu” leva à prática excessiva de selfas, publicações de si mesmo em redes sociais, cuidados estéticos, cosméticos e físicos (2 Tm 3.2; 1 Pe 3.3-5). Embora cuidar do corpo seja necessário, principalmente em tempos de uma vida tão sedentária, assiste-se a um crescimento exacerbado de espaços dedicados a essa prática (como as academias), sempre bem espelhadas e com ampla reprodução de imagens nas redes sociais. Em um mundo de tantos excessos, o cristão deve observar todas as coisas — não apenas se são lícitas, mas também se são convenientes — e ser equilibrado em tudo (1 Co 6.12).

  4. Princípios ou regras?

   Precisamos encarar a mordomia do corpo como envohida em nosso propósito espiritual, sob pena de incorrermos nos mesmos erros de religiosos como os fariseus, que fizeram das coisas externas um fim em si mesmas. Como nossa tendência quando falamos em corpo é logo pensar em regras, devemos sempre nos lembrar de que nortear a vida cristã com base nos princípios bíblicos é mais importante. Um deles é a busca da glória de Deus e aplica-se às práticas mais simples de nosso cotidiano, inclusive o cuidado de nosso corpo (1 Co 10.31). Trata-se de um parâmetro espiritual, muito mais importante do que regras rígidas e inflexíveis, que podem levar-nos ao legalismo (Mt 23.1-7,23).

   Um exemplo que deve levar-nos à reflexão é a proporção de tempo e dinheiro que dedicamos aos cuidados do corpo em relação ao que fazemos pela alma e o espírito (Lc 12.17-20). Considerar a proporção de nossos esforços em relação a esta vida e a vida eterna é uma necessária, prudente e sábia atitude. É isso que nos ensina Paulo quando traça um paralelo entre exercício corporal e piedade (gr., ensebem), que é nossa dedicação à obediência e comunhão com Deus (1 Tm 4.8).

  III - O CORPO E A COLETIVIDADE

  1. A prática relacionai

    Qual a relação entre corpo e Igreja? Essa reflexão deve começar pelo entendimento de que o individualismo não combina com o sentido mais elementar de Igreja, que, aliás, é um reflexo neotestamentário de um dos propósitos para o qual fomos criados por Deus como seres relacionais, gregários e sociáveis. Isso está explícito na constatação da necessidade de companhia para o homem e na ordem de procriação e enchimento da terra (Gn 1.28; 2.18). Tornar esse aspecto da vontade Deus já superado pode ser uma escolha teológica, porém sem suporte algum nas Escrituras. É preciso compreender, portanto, que te mos necessidades e deveres que vão além de nossa individualidade, os quais iniciam pelo propósito de gerar filhos e constituir família. Se negligenciarmos no âmbito da família, o que poderemos fazer em termos de Igreja?

   O ser como um todo se multiplica, mas faz isso para quê? Para interagir inclusive fisicamente, já que é pelo corpo que expressamos as faculdades de nossa alma. Temos necessidades relacionais e afetivas, pois não fomos criados para viver isolados social ou afetivamente. Embora os recursos digitais tragam muitas comodidades para o homem moderno, o contato físico continua sendo essencial para o ser humano. A troca de afetos por meio de expressões corporais não é substituída pela frieza da tecnologia. Tiago qualifica a verdadeira religião e a fé viva por práticas comunitárias reais, que exigem o envolvimento de nosso corpo (Tg 1.27; 2.14-18). Fala-se muito atualmente em sentimento de pertencimento, o que não pode ser desprezado pelo cristão (Mc 2.15-17; 6.1-3; 1 Co 5.9-10). Como está nossa comunhão?

   2. A prática congregacional

   A leitura de Atos apresenta-nos a Igreja Primitiva dando especial lugar para a expressão corporal no culto, a começar pela presença, escuta e participação. Os primeiros discípulos “agregaram-se” e dedicaram-se com perseverança à doutrina dos apóstolos, à comunhão, ao partir do pão e às orações (At 2.41,42), práticas que tinham o corpo como um elemento fundamental — mesmo porque não há culto congregacional sem envolvimento dele e dos seus sentidos.

   A Palavra de Deus adverte-nos de que, além da devoção pessoal diária, precisamos apresentar-nos a Deus regularmente no templo tanto quanto possível (Hb 10.24,25). Muitos têm sido seduzidos e enganados pelos falsos discursos dos que criticam a igreja como instituição, sugerindo o cultivo de uma fé individual ou meramente virtual.

   O fenômeno dos desigrejados, que tanto cresceu na Europa e nos Estados Unidos nas últimas décadas e contribuiu para levar muitas igrejas locais à morte, é uma preocupante realidade também no Brasil. Conquanto se reconheça que, em muitos casos e em certos momentos, seja desafiante permanecer firme na comunhão diante de experiências comunitárias difíceis, o verdadeiro discípulo de Cristo firma a sua fé nEle e não dá ouvidos à multidão que tenta impedi-lo de seguir o Mestre, como fez o cego de Jerico, que, repreendido para que se calasse, gritava ainda mais pelo Filho de Davi. Ele sabia bem qual era a sua necessidade e tinha consciência de que, embora aquela estrutura estivesse repelindo-o, Jesus estava no meio (Lc 18.35-39). A rejeição à igreja como instituição é uma prática antibíblica e altamente prejudicial à verdadeira vida cristã (Ef 4.1-3; 1 Ts 5.11-15).

  3. Tecnologia e culto

  Desafios ao culto sempre existiram para a Igreja, inclusive os mais violentos, desde a Roma antiga. Nos tempos modernos, contudo, impedimentos igualmente modernos e tremendamente sutis podem impedir que haja um culto completo, que envolva espírito, alma e corpo. E preciso refletir sobre o perigo de levar-se o corpo a estar presente no templo, mas sem nenhum envolvimento direto com o culto, principalmente através das janelas da visão, da audição e da fala. O culto divino pressupõe contemplação e participação (SI 27.4; 100.2-4). O uso excessivo de tecnologias está pondo em risco essa prática tão nobre e indispensável para a comunhão.

   Muitos recursos tecnológicos da atualidade podem ser úteis ao culto, como telões, celulares, tablets e até mesmo drones em situações bem específicas. Contudo, em alguns casos, há um flagrante abuso no uso desses recursos, o que prejudica o ambiente de culto. A falta de discrição de equipes de mídia, o registro intenso de imagens e a transmissão indiscriminada dos atos litúrgicos são algumas questões que merecem ser examinadas. Vivemos um processo de midiatização do culto. Além disso, práticas pessoais durante momentos de louvor e adoração, pregação ou ensino, já se mostram bem desproporcionais (inclusive no púlpito), como é o caso do uso do telefone celular para acesso a redes sociais, sem contar um número cada vez mais crescente de pessoas que mais fotografam e filmam que cultuam. A pergunta é: o uso que estamos fazendo da tecnologia é realmente necessário ou é a expressão de um mero modismo diante da crescente virtualização da vida?

   Não podemos permitir que a tecnologia roube nossa atenção e comprometa nosso culto a Deus. Se não fecharmos as portas de nosso corpo para o mundo externo, tão flagrantemente presentes por meio dos aparelhos tecnológicos, deixaremos de oferecer um culto completo e verdadeiro (Lv 22.17-25; Mt 6.6,7). Talvez devéssemos hoje empregar Eclesiastes 5.1 não apenas como “guardar o pé”, mas também o celular, quando entrarmos na casa de Deus, pois o sentido do texto é exatamente a necessidade de reverência no ambiente do culto divino.

   CONCLUSÃO

   Nossa compreensão da maravilhosa obra divina que é nosso corpo deve levar-nos a uma vida de inteira e constante adoração integral (Rm 12.1; 1 Co 6.20), o que inclui um cuidado equilibrado dessa matéria, que, com a alma e o espírito, compõe nosso ser como criação especial de Deus para a sua glória.

    O Corpo — A Maravilhosa Obra da Criação de Deus  43

 

 


Nenhum comentário:

Postar um comentário