TEXTO ÁUREO
“Ou não sabeis que o
nosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de
Deus, e que não sois de vós mesmos?”
(1Co 6.19).
VERDADE PRÁTICA
Ter consciência de que nosso corpo é habitação do
Espírito Santo faz toda a diferença na maneira como o possuímos.
LEITURA
BÍBLICA EM CLASSE
1
Coríntios 3.16,17; 6.15-20.
1
Coríntios 3
16
— Não sabeis vós que sois o templo de Deus e
que o Espírito de Deus habita em vós?
17
— Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o
destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo.
1
Coríntios 6
15
— Não sabeis vós que os vossos corpos são
membros de Cristo? Tomarei, pois, os membros de Cristo e fá-los-ei membros de
uma meretriz? Não, por certo.
16
— Ou não sabeis que o que se ajunta com a
meretriz faz-se um corpo com ela? Porque serão, disse, dois numa só carne.
17
— Mas o que se ajunta com o Senhor é um mesmo
espírito.
18
— Fugi da prostituição. Todo pecado que o
homem comete é fora do corpo; mas o que se prostitui peca contra o seu próprio
corpo.
19
— Ou não sabeis que o nosso corpo é o templo
do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de
vós mesmos?
20
— Porque fostes comprados por bom preço;
glorificai, pois, a Deus no vosso corpo e no vosso espírito, os quais pertencem
a Deus.
PLANO
DE AULA
1.
INTRODUÇÃO
Como podemos fazer uma reflexão a partir desta
pergunta do apóstolo Paulo: “Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito
Santo?”. A presente lição nos mostra que essa verdade muda a maneira como
vivemos, cuidamos do nosso corpo e servimos a Deus. A partir desse ensino,
veremos que a santidade também passa pelo corpo, como parte essencial da vida
cristã.
2.
APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO
A)
Objetivos da Lição: I)
Levar os alunos a compreenderem que seus corpos pertencem a Deus e são
habitação do Espírito Santo; II) Ensinar que o corpo humano, à semelhança do
tabernáculo no Antigo Testamento, é portador da presença de Deus; III)
Conscientizar os alunos sobre a responsabilidade de manter o corpo em
santidade, por meio da fuga do pecado, da prática das disciplinas espirituais e
do cuidado físico.
B)
Motivação: Esta lição revela
uma verdade transformadora: nosso corpo não é apenas matéria, mas templo do
Espírito Santo. Compreender isso muda nossa relação com o pecado, com o cuidado
pessoal e com o serviço cristão.
C)
Sugestão de Método: Para
reforçar o terceiro tópico, “Cuidando do Templo do Espírito”, utilize o método
de estudo de caso com reflexão em grupo. Apresente situações do cotidiano que
envolvem decisões sobre sexualidade, saúde física e hábitos espirituais, e peça
que os alunos analisem cada caso à luz da Palavra de Deus. Estimule o debate
com perguntas como: “Essa atitude honra o corpo como templo do Espírito?”;
“Como a disciplina espiritual poderia influenciar essa decisão?”. Encerre com
um momento de aplicação pessoal, incentivando cada aluno a identificar uma área
em que pode cuidar melhor do seu corpo como expressão de santidade e gratidão a
Deus.
3.
CONCLUSÃO DA LIÇÃO
A)
Aplicação: Desafie sua classe
a refletir: “Tenho honrado a Deus com meu corpo?”. A conclusão desta lição é a
de incentivar cada aluno a assumir um compromisso prático de santificação e
cuidado físico, reconhecendo que o corpo é morada do Espírito Santo.
4.
SUBSÍDIO AO PROFESSOR
A)
Revista Ensinador Cristão. Vale
a pena conhecer essa revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e
subsídios de apoio à Lições Bíblicas Adultos. Na edição 103, p.38,
você encontrará um subsídio especial para esta lição.
B)
Auxílios Especiais: Ao
final do tópico, você encontrará auxílios que darão suporte na preparação de
sua aula: 1) O texto “Uma Visão Cristã do Corpo”, localizado depois do primeiro
tópico, aprofunda o tópico a respeito “Corpo: Propriedade e Habitação Divina”;
2) O texto “Santidade do Corpo”, ao final do terceiro tópico, aprofunda o
tópico “Cuidando do Templo do Espírito”.
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
Na lição anterior, vimos como o pecado afetou o
corpo humano, trazendo sofrimento e morte. Mas vimos também que a obra
redentora de Cristo é poderosa para restaurar todas as coisas, o que inclui a
redenção de nossa matéria corrompida (Rm 8.23). Nesta lição, estudaremos a
respeito do corpo como templo do Espírito Santo, enfatizando sua importância e
necessidade de cuidado, principalmente quanto à santificação.
Palavra-Chave:
TEMPLO
AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO
UMA
VISÃO CRISTÃ DO CORPO
“Muitas
religiões no mundo ensinam que a alma e o espírito são importantes, mas que o
corpo não; e o cristianismo é, às vezes, influenciado por essas ideias. Na
verdade, o cristianismo considera o aspecto físico de modo muito sério.
Adoramos a um Deus que criou o mundo físico e o declarou como sendo bom. Ele
nos promete uma nova terra, onde as pessoas terão seu corpo transformado — não
uma nuvem cor-de-rosa onde almas desencarnadas ouvirão a música de uma harpa.
No âmago do cristianismo, encontra-se a história do próprio Deus, que teve um
corpo, carne e sangue. Ele veio viver conosco, oferecendo tanto a cura física
como a restauração espiritual. Nós, humanos como Adão, somos uma combinação de
pó e espírito. Da mesma maneira que o nosso espírito afeta o nosso corpo, este
afeta o nosso espírito. Não podemos cometer pecados com o nosso corpo sem
prejudicar nossa alma, porque corpo e alma estão inseparavelmente unidos. Na
Nova Terra, teremos o corpo ressurreto, que não foi corrompido pelo pecado.
Então apreciaremos a plenitude da nossa salvação.” (Bíblia de Estudo
Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2022, p.1590).
AUXÍLIO
BIBLIOLÓGICO
SANTIDADE
DO CORPO
“Este ensino
a respeito da imoralidade sexual e das prostitutas era especialmente importante
para a igreja coríntia porque o templo da deusa do amor, Afrodite, ficava em
Corinto. Esse templo empregava mais de mil prostitutas como sacerdotisas, e o
sexo era parte do ritual de adoração. Paulo declarou claramente que os cristãos
não devem tomar parte na imoralidade sexual, ainda que isso seja aceitável e
popular em nossa cultura. Os cristãos são livres para ser tudo o que puderem
para Deus, mas não estão livres de Deus. O Senhor criou o sexo para ser um belo
e essencial ingrediente do casamento, mas o pecado sexual — a prática de sexo
fora do casamento — sempre fere alguém.
É uma atitude que magoa a Deus porque mostra que
preferimos seguir nossos próprios desejos a colocar-nos sob a direção do
Espírito Santo. Fere também os outros porque viola o comprometimento tão
necessário a um relacionamento sadio.” (Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Rio
de Janeiro: CPAD, 2022, pp.1590,1591).
SUBSÍDIOS
ENSINADOR CRISTÃO
O
CORPO COMO TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO
Nesta oportunidade, estudaremos uma das doutrinas
mais importantes dos ensinos de Paulo: o corpo como templo do Espírito Santo. O
cuidado do corpo enquanto templo do Espírito Santo está além de ele ser um
instrumento dos propósitos divinos. O crente é habitação do Espírito não apenas
para executar dons espirituais e ministeriais com vista à edificação da igreja
(1Co 12.4-11). É de fundamental importância o crente preservar a comunhão plena
e a intimidade com o Senhor. Para tanto, precisa manter seu corpo em
santificação e honra (Rm 12.1,2). Dentre os cuidados com o corpo, citados na
lição, está a santificação e a separação de qualquer imoralidade sexual ou
depravação do corpo. A falta de bom senso de muitos crentes tem levado ao
descuido com hábitos, conversas e acesso a conteúdo que alimentam a mente com o
mundanismo. A Palavra de Deus é clara quando afirma que o ouvido prova as
palavras como o paladar prova a comida (Jó 34.3). Já nos dias de Jó se percebia
a necessidade de filtrar qualquer informação que chegasse aos ouvidos.
Semelhantemente, a mente é influenciada pelo que os olhos assistem. Acerca
disso, o salmista declara: “Não porei coisa má diante dos meus olhos” (Sl
101.3a). Expor os olhos a todo tipo de conteúdo que se tem acesso, seja por
meio das redes sociais ou presencialmente, é mais um desafio que deve ser
enfrentado pelo crente com disciplina. Assumir um compromisso com hábitos
saudáveis para o corpo inclui ter o cuidado com aquilo que permitimos alimentar
a nossa mente.
Como propriedade do Espírito Santo, o crente deve
apresentar seu corpo como instrumento de honra e não de desonra.
O Comentário Bíblico Beacon (CPAD)
cita Crisóstomo: “Como pode o corpo se tornar um sacrifício?
Deixe que o olho não veja nada mau, e ele se torna
um sacrifício; permita que a língua não diga nada vergonhoso, e ela se torna
uma oferta; deixe que a mão não faça nada ilegal, e ela se torna uma oferta em
holocausto. Não, isto não será suficiente, mas precisamos ter a prática ativa
do bem — a mão precisa dar esmolas, a boca precisa abençoar em lugar de
amaldiçoar, o ouvido precisa dar atenção sem cessar os ensinamentos divinos.
Pois um sacrifício não tem nada impuro, um sacrifício é a primícia de outras
coisas. Portanto, que nós possamos produzir frutos para Deus com as nossas
mãos, com os nossos pés, com a nossa boca, e com todos os nossos outros
membros” (Volume 8, 2006, p.159). Na perspectiva de Crisóstomo, não basta
apenas rejeitar o que é impuro e desagradável aos olhos do Senhor. É preciso
também ocupar nossas vidas com o que glorifica a Deus e enche nossa mente de
conteúdos que edificam a vida espiritual.
CONCLUSÃO
Corpo e mente saudáveis nos tornam mais dispostos
para adorar e servir a Deus (Mc 12.30). Que vivamos de maneira sábia e
equilibrada, como templo do Espírito. Um elevado privilégio, fruto da graça de
Deus em Cristo Jesus.
CPAD : Espírito,
Alma e Corpo — A restauração integral do ser humano para chegar à estatura
completa de Cristo
Comentarista: Silas
Queiroz
Lição
4: O corpo como
templo do Espírito Santo
INTRODUÇÃO
O
texto bíblico de que se extrai o título deste capítulo está contido na Primeira
Carta de Paulo aos crentes de Corinto, cidade onde o apóstolo iniciou a sua
missão após passar por Atenas na sua viagem pela Macedônia e Acaia (At 16-18).
Conforme Lucas narra em Atos 18.1-3, foi em Corinto que Paulo encontrou Aquila
e Priscila, casal judeu que tinha o mesmo oficio que ele: fazer tendas. Depois
de algum tempo pregando na sinagoga, o trabalho começou a produzir frutos (At
18.8). Certamente diante de algum temor pelas resistências que já havia sofrido
na cidade (18.6), Paulo precisou ser encorajado a continuar a sua missão em
Corinto (At 18.9,10). O resultado foi o apóstolo dos gentios permanecer na
cidade dos coríntios por um ano e seis meses (18.11), deixando uma igreja
estabelecida, para qual agora escreve.
Um dos
cenários que Paulo permite-nos ver em Corinto é de manifesta carnalidade (1 Co
3.1-4), o que bem justifica a sua ênfase na identificação do corpo como templo
do Espírito Santo (3.16,17; 6.17-20). Pelas notícias recebidas por ele e que
transparecem nos seus escritos, observa-se que o ambiente pernicioso da cidade
estava influenciando a vida da igreja nascente. Corinto orgulhava-se dos seus
templos pagãos e da sua antiga acrópole, a Acrocorinto, que também abrigava
vários santuários de diversas divindades pagãs. (Hoje não passa de um amontado
de pedras em ruínas no alto de uma grande montanha, próxima aos escombros
daquela que foi uma das mais famosas cidades da região do Peloponeso, no
centro-sul da Grécia).1
0 Tenebroso histórico de Corinto
Uma
das características de Corinto era a licenciosidade, a busca de senfreada por
prazeres carnais, inclusive estimulada pelos cultos pagãos que expunham e
exploravam o corpo. O quadro de bestialidade era mais acentuado do que em
outras cidades da região em razão de Corinto, como cidade portuária e de grande
fluxo comercial, abrigar diversas culturas. Leon Morris (1981, p. 12) retrata
bem esse cenário e menciona que, na cidade, era comum a concentração de gregos,
latinos, sírios, egípcios e judeus, que, além de cuidar de negócios, se
entregavam às diversões e a todo tipo de luxúria que Corinto oferecia, além de
envolverem-se em brigas.
Morris
usa a expressão “licenciosidade proverbial” para sintetizar o de gradante nível
moral de Corinto, cujos habitantes “eram pronunciadamente propensos a
satisfazer os seus desejos, fossem de que espécie fossem” (idem). Craig S.
Keener (2024, p. 3175) aborda a questão da notória imoralidade de Corinto
mencionando expressamente a prostituição, que era considerada como uma
“indústria importante”. O histórico da antiga Corinto (dos tempos do Império
Grego) era de “culto à prostituição” e, segundo Keener, essa reputação
permanecia na Corinto dos dias de Paulo (tempos do Império Romano), já que
escritos posteriores registram a associação de Corinto com o prazer sexual e a
com a lascívia, apontando que Afrodite, junto com Poseidon, continuaram a ser
uma das principais divindades gregas adoradas na cidade (ibid., p. 3176).
Citando A. M. Hunter, Morris recorda que o
conceito de Corinto era tão vil que o termo “corintianizar” era usado com o
sentido de “ir para o diabo”. Não é preciso ir mais longe para entender, então,
como o corpo humano era usado para todo tipo de prática abjeta e pecaminosa nas
plagas corintianas, degradando a criação divina.
Paulo
escreve aos coríntios para conscientizá-los da nova vida que agora deviam
viver, como templos do Espírito Santo, buscando exortá-los a uma consagração
integral ao Deus Criador a fim de glorificá-lo, pois Cristo Jesus já os redimira
por inteiro. Assim, não deveríam mais servir aos seus próprios desejos ou aos
espíritos das trevas, que agiam mediante o paganismo da época. Os ensinos de
Paulo são absolutamente necessários em todos os tempos, e ainda mais hoje, pois
o Maligno continua agindo por meio de um sistema mundano cada vez mais corrupto
e hostil, que prega a degradação do corpo.
1 -
CORPO: PROPRIEDADE E HABITAÇÃO DIVINA
1.
Comprado e selado
Como
já destacamos nesta obra, a Queda afetou o ser humano por inteiro. Por isso,
Deus, o Pai, planejou e executou uma obra de completa Redenção através do
sacrifício de Jesus Cristo, o seu próprio Filho. Esse res gate, efetuado
mediante preço de sangue (1 Pe 1.18,19), não alcança apenas a parte imaterial
do homem, mas também o corpo (1 Co 6.20). Essa visão da integralidade do ser
humano, como uma unidade composta, é essencial em todos os aspectos de nossa
existência, para que não tenhamos um pensa mento dualista, que nos conduz a
condutas que busquem compartimentar a vida, valorizando o espírito e
desprezando a matéria, como se ela fosse má.
Como seres integrais, pertencemos a Deus no
espírito, na alma e no corpo. Este, aliás, é, literalmente, templo e santuário;
morada de Deus, como Jesus prometera aos discípulos Jo 14.16,17). É importante
observar a mudança de condição que Jesus prenunciava. A expressão “habita
convosco e estará em vós” indica dois estados distintos. Antes da morte e
ressurreição de Jesus, os discípulos tinham a presença do Espírito com eles.
Depois passaram a tê-lo dentro deles pela experiência da regeneração Jo 20.22),
como acontece com todos os que nascem de novo Jo 3.3-8; Tt 3.4-7; 1 Pe 1.23).
Essa mudança de condição já havia sido mencionada por Jesus em João 7.37-39.
Com a sua glorificação, Jesus conquistou o poder de outorgar o Espírito Santo a
todos os que nEle creem, como um selo de propriedade e habitação. Isso não
deixa dúvida da necessidade que temos de consagrarmo-nos por inteiro. Os que usam
o argumento de que Deus quer “apenas o coração” ignoram essa cristalina verdade
bíblica e tornam comprometida a real presença do Espírito na sua vida (1 Ts
4.4; 1 Pe 1.15).
2. “Não sabeis vós?”
Como
já destacado, Paulo teve um tempo significativo de ministério presencial em
Corinto: ficou um ano e seis meses ensinando a Palavra de Deus à nova igreja
(At 18.11). É bem provável, portanto, que a pergunta retórica feita aos
coríntios tenha o sentido de lembrá-los de que haviam recebido uma doutrina
integral e não dualista, que incluía o aspecto corpóreo espiritual; o ensino de
que o corpo é o templo do Espírito Santo. A ênfase paulina certamente foi
necessária pelo histórico e pelas características vigentes no ambiente
coríntio. Qualquer semelhança com nossos dias não é mera coincidência, mas,
sim, a clara demonstração de que o ser humano continua inveterado para
satisfazer as suas próprias paixões, invariavelmente detratando o corpo.
Ressaltar a doutrina da santificação integral continua sendo necessário e urgente.
Pertençamos a Deus por inteiro.
A
interpelação feita por Paulo indica que havia certa displicência espiritual na
igreja de Corinto, o que o levou a usar por quatro vezes a expressão “não sabeis”
ou “não sabeis vós” (1 Co 3.16; 6.15,16,19). Esse é um claro indica tivo de
falta de maturidade espiritual. Os coríntios eram imaturos e carnais, como
Paulo bem enfatizou (1 Co 3.1,2). A dificuldade de apreensão espiritual
daqueles crentes foi percebida por Paulo durante o período de plantação da
igreja e ainda persistia. Talvez até tivesse sido agravada diante das péssimas
notícias chegadas ao apóstolo (1 Co 5.1,2,9-11). Paulo diz claramente que
precisou limitar-se nos seus ensinos (3.1), dirigindo-se aos coríntios como a
“meninos em Cristo” em função da carnal compreensão que demonstravam.
O que
se espera de todo cristão (da Igreja) é que haja progresso espiritual à medida
que a Palavra de Deus é ensinada e exercita-se a comunhão, o amor, a fé, a
esperança e as demais virtudes do Espírito (G15.22). Contudo, há casos em que
infelizmente parece haver estagnação e até retrocesso, com crentes e igrejas
repetindo os mesmos problemas infantis; girando em torno de questões banais e
rasteiras, disputas pueris e lutas fratricidas. As vezes, isso é visto até
mesmo entre os que tem o dever de trabalhar pelo aperfeiçoa mento dos santos,
como acontecia em Corinto (2 Co 11.12-15). Esse tipo de cenário costuma
florescer em igrejas que misturam manifestações de dons espirituais e obras da
carne (G1 5.19-21).
Os
dons espirituais são maravilhosos e devem ser buscados, mas ainda há um caminho
ainda mais excelente (1 Co 12.31). O ponto mais alto da vida cristã é uma
fluente produção do fruto do Espírito, principalmente o amor (1 Co 13.1-8). Em
relação ao corpo, esse sublime estágio espiritual traz-nos a compreensão do que
é a verdadeira liberdade cristã, tema que Paulo procurou ensinar especialmente
aos coríntios, dado o número de questões carnais que apresentavam. A liberdade
cristã faz-nos entender que não podemos viver segundo o que agrada ou
consideramos ser lícito. Devemos considerar, antes de tudo, se o que queremos
fazer edifica ou convém; se pode ou não ser motivo de escândalo ou tropeço a
nosso irmão (Mt 18.6; Rm 14.2-11; 1 Co 6.12; 8.8-13).
Frequentemente
se verifica questões ligadas à santificação do corpo, o que gera longas
discussões e contendas, que por si só demonstram imaturidade e camalidade. O
padrão de vestuário costuma ser um dos pontos mais debatidos. O mais sábio e
espiritual, contudo, é seguir o caminho da moderação, em apreço ao modelo de
santificação plena, isto é, sem desconsiderar o aspecto corporal. Aliás convém
observar que, após tratar o pecado de Adão e Eva num claro confronto de ordem
espiritual, o próprio Deus voltou-se para a questão corpórea. O casal
cobrira-se com aventais de folhas de figueira (Gn 3.7). O Senhor, contudo,
substituiu-os por roupas de peles, demonstrando que o corpo — seja da mulher,
seja do homem —não deve ser fragilmente coberto e ficar sujeito à exposição,
como objeto de tentação e cobiça (Gn 3.21; 1 Tm 2.9). Se Deus não se importasse
com que tipo de roupa cada um veste, ali teria sido o primeiro sinal dessa
liberdade estética ou de expressão pessoal que o ser humano tanto buscou. Deus,
porém, substituiu as vestes de folhas para vestes de couro. O padrão moral
segundo Deus é sempre mais elevado do que o nosso.
3. Propriedade e domínio
Ao
referir-se ao corpo do cristão como uma “propriedade” de Deus, devidamente
comprado por bom preço (1 Co 6.20), Paulo transmite a clara lição de direito
absoluto; o domínio pleno que o Remidor tem sobre a sua possessão. Esse,
ademais, é o conceito de propriedade comum, visto, inclusive, no Direito Civil:
o detentor da propriedade deve ter também o domínio. Assim, se pertencemos ao
Espírito, devemos viver sob o seu domínio a fim de glorificá-lo.
De
fato, na sua carta aos coríntios, a ênfase de Paulo volta-se ao aspecto do
domínio divino em relação ao corpo e o dever que o cristão tem de pos suí-lo
para a glória de Deus, pois, como já observado, Corinto experimenta graves
problemas voltados ao aspecto corporal. Assim, o apóstolo acentua que nosso
corpo “[...] não é para a prostituição, senão para o Senhor” (1 Co 6.13).
Também apresenta uma clara ideia de pertencimento integral (1 Co 6.15; 2 Co
6.16). Por tudo isso, não resta dúvida de que o pecado contra o corpo ofende
gravemente a santidade de Deus e produz terríveis sofrimentos (SI 31.9,10;
51.4; 1 Co 3.17; 5.1-5; 6.18). Quando é cometido, de nada adianta esconder-se,
como fez Adão. Precisamos apresentar-nos a Deus, arrependidos e humilhados, em
sincera confissão. Somente isso nos conduz a uma verdadeira e completa cura e
restauração pela poderosa ação do sangue de Jesus (SI 32.1-6; Tg 5.16; ljo
1.7-9).
II - O
CORPO COMO TABERNÁCULO
1.
Portador da Presença
Assim
como usa o termo “templo” (gr. naos), inserido na realidade hebraica como hekal
(palácio, templo) no período da monarquia, Paulo recorre a um termo anterior —
“tabernáculo” (gr. skenos; hb. mishkan) —, que Israel conheceu durante a
peregrinação pelo deserto do Sinai (2 Co 5.4). A mesma invocação metafórica foi
feita pelo apóstolo Pedro (2 Pe 1.14). Essa alusão demonstra, a princípio, o
entendimento espiritual da sacralidade do corpo, principalmente pela remissão
que faz ao Antigo Testamento; ao Tabernáculo de Moisés, acerca do qual o próprio
Deus declarou que seria a sua habitação entre o povo (Ex 25.8).
Assim como em relação ao Tabernáculo de Moisés
e ao Templo dos dias da monarquia judaica, a presença de Deus, que enche todo o
Universo, podería ser considerada apenas na forma transcendente, como
suficiente mente realizada entre a comunidade de crentes sob o Novo Pacto.2
Contudo, Deus não é apenas um Ser transcendente, mas também imanente; por isso
se agrada de habitar com o seu povo, como fez no Antigo Testamento, e agora o
faz na Nova Aliança, vivendo no interior de cada um que crê no seu Filho e
recebe-o como Salvador e Senhor. Esse uso imagético do Tabernáculo para
simbolizar o corpo, portanto, solidifica o entendimento de que o crente é,
literalmente, portador da presença de Deus (Rm 8.11). O Todo-Poderoso decidiu
viver em nós, uma tão frágil habitação, assim como se manifestou numa tenda
levantada no deserto (Jo 14.23; 2 Co 4.7; Ap 3.20).
2. Tabernáculo e tricotomia
A
figura do Tabernáculo de Moisés é também invocada de forma ana lógica em
relação à tríplice composição humana. Alguns autores fazem essa comparação,
como Eurico Bergstén (2013), que afirma:
Assim como o tabernáculo no
deserto era dividido em três partes, também o homem o é. O pátio do tabernáculo
representa a parte externa e visível do homem, que é o seu corpo; o lugar
santo, que não se podia ver de fora, representa a alma, e o lugar santíssimo
representa o espírito do homem.
De
fato, é possível ver a imagem tricotômica do ser humano nas três partes da
edificação feita no deserto: (1) o pátio — um espaço externo aberto —, (2) o
Lugar Santo e (3) o Lugar Santíssimo — um espaço interno único, coberto,
separado apenas por um véu (Êx 26.33; 27.9), o que lembra a tênue divisão entre
alma e espírito (Hb 4.12). O pastor Antonio Gilberto (2021, p. 1921) faz a
mesma analogia, acrescentando também o próprio templo. Comentando 1
Tessalonicenses 5.23, ele recomenda: “Confronte as referências do homem ao
Tabernáculo e Templo, os quais eram tripartidos (1 Co 3.16; 2Co 5.1; 2Pe
1.13-14)”. Severino Pedro da Silva (1988, p. 61) desenvolve o mesmo raciocínio.
Muito
mais do que a invocação de figuras, as referências a Tabernáculo e Templo
indicam a vontade de Deus em encher-nos, assim como aconteceu quando o
Tabernáculo foi levantado (Êx 40.34,35) e o Templo foi inaugurado (2 Cr 7.2).
Não tenhamos dúvida: Deus quer encher-nos e manter-nos cheios do seu Espírito,
permitindo que o sintamos em todo o nosso ser: espírito, alma e corpo (Ef 3.19;
5.18). Essa profunda experiência espiritual e sensorial sempre foi marca
distintiva dos pentecostais clássicos e assim continuará se permanecermos
buscando a santa e doce presença do Espírito de Deus. Não pode tornar-se
estranho entre nós as visíveis e audíveis manifestações divinas (At 10.44-46; 1
Co 12.7-11). “O fogo arderá continuamente sobre o altar; não se apagará” (Lv
6.13).
3. Um Tabernáculo guiado
A
presença de Deus no Tabernáculo não era estática, mas dinâmica. Servia de
direção para o povo de Deus durante toda a peregrinação pelo deserto. Essa é
outra lição espiritual que podemos extrair da metáfora do Tabernáculo: a
importância da presença de Deus como guia permanente e eficaz em nossa vida. O
texto de Êxodo 40.36-38 informa-nos que a caminhada do povo de Israel dava-se à
medida que a nuvem movimentava-se ou parava.
Essa é
uma aplicação direta para nossa realidade corpórea. Deus está interessado em
guiar-nos também em nossa movimentação física, isto é, onde moramos, onde
estudamos, onde trabalhamos, enfim... Não podemos permitir que sejamos
enganados pelo secularismo, fazendo-nos pensar que Deus não interfere nas
questões de nosso cotidiano. É Ele quem nos guia por caminhos espirituais, mas
também nos guia por caminhos físicos. Tiago aconselha-nos a submetermos todos
os nossos projetos à soberana direção divina e cuidar com nossas afirmações (Tg
4.15). Ser dependente de Deus e sensível ao Espírito li\Ta-nos de decisões e
movimentos errados em nosso viver diário (Êx 33.15).
III -
CUIDANDO DO TEMPLO DO ESPÍRITO
1.
“Fugi da prostituição”
Como
\imos inicialmente, a igreja de Corinto mostrou-se imatura e carnal, e isso
comprometia a sua missão de influenciar a sociedade coríntia. Alguns dos seus
membros estavam incorrendo em práticas pecaminosas graves. Paulo aponta um caso
específico, que estava abaixo do já degradante padrão da época (1 Co 5.1). O
pior de tudo é que havia tolerância para a prática, já que a igreja não
disciplinava o abusador. A falta de disciplina eclesiástica é um desvio grave e
compromete a santidade da comunidade de fiéis e a sua autoridade para pregar o
evangelho.
No capítulo 16, a partir do versículo 15 da mesma
carta, o apóstolo volta a referir-se aos pecados sexuais, novamente enfatizando
a gravidade de tais transgressões, que era o fato de que, sendo o corpo o
templo do Es pírito Santo — e membro de Cristo —, a prostituição é um pecado
contra o próprio corpo.
Os
pecados sexuais produzem consequências de gravidade e dimensão incalculáveis.
Além de afetarem diretamente o corpo, mancham profunda mente a alma e o
espírito, trazendo culpa, vergonha, angústia, dor e muitas outras
consequências. O seu raio de destruição costuma não ficar restrito aos autores
da prática, e isso diz respeito a todo e qualquer pecado sexual. Aliás, o
substantivo grego pornâa, traduzido como prostituição em 1 Coríntios 6.18, tem
um significado amplo, referindo-se à “impureza” (ARA) ou “imoralidade sexual”
no sentido geral (NAA e NVI). Toda prática sexual fora do casamento está
abarcada nessa expressão. Ao usar o verbo “fugir” na voz ativa ipheugo, “fugir
de ou para longe”), Paulo aponta para a necessidade de ações concretas que nos ponham
a salvo dos terríveis malefícios das impurezas sexuais, o que começa pelo
cuidado com os olhos (Jó 31.1; SI 101.3). O que vemos e como vemos determina se
nosso corpo será cheio de luz ou trevas (Mt 6.22.23). Além dos nefastos efeitos
espirituais, os pecados sexuais produzem graves consequências físicas e
mentais. A pornografia, por exemplo, tem-se tornado um vício altamente
destrutivo, amplificado diante das múltiplas possibilidades abertas com as
redes sociais. O alerta divino é imperativo e radical: “Fugi!” (1 Ts 5.22).
2. Disciplinas espirituais
Uma
vez que compreendemos o aspecto espiritual de nossa realidade corpórea, é
salutar que nos apliquemos fisicamente às disciplinas espirituais necessárias
para uma vida cristã equilibrada e integralmente saudável. Nos so corpo tem um
papel fundamental nesse processo, que é o exercício em piedade de que Paulo
fala a Timóteo (1 Tm 4.7,8). De fato, já vimos que não há como compartimentar a
vida espiritual, como se fosse apenas uma atividade do espírito ou da alma ou
de ambos como substâncias imateriais inseparáveis que são.
O
corpo deve estar sempre presente, como veículo indispensável de nossas atitudes
de adoração e serviço a Deus. Para que tenhamos uma vida espiritual plena como
templo do Espírito Santo, não basta que os membros de nosso corpo deixem de ser
instrumentos do pecado. As Escrituras recomendam-nos que nossos membros devem
ser “apresentados” a Deus como instrumentos de justiça (Rm 6.12,13) e culto. O
conhecido texto de Romanos 12.1 prevê essa entrega que não dispensa jamais a
estrutura física integral, pois devemos apresentar-nos “[...] em sacrifício
vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12.1).
O
corpo é parte essencial do culto, pois é através dele que praticamos as mais
importantes disciplinas de nossa vida espiritual, como o jejum, a oração e o
estudo da Palavra de Deus, fundamentais para uma contínua e fluente agência do
Espírito de Deus em nosso interior. O pastor José Orisvaldo Nunes de Lima
abordou o tema Disciplina do Jejum Bíblica na Revista Obreiro Aprovado (2025,
3o trim., p. 18-23), destacando que “O jejum não é essencial à salvação, mas
ele, a oração, a leitura e escuta da exposição da Palavra e participação nas
ordenanças do evangelho (batismo e Ceia do Senhor) são considerados “meios da
graça”, ou seja, canais que conduzem à operação da graça de Deus na vida do
crente”.
3.
Disciplinas corporais
Assim
como o Tabernáculo de Moisés e o Templo de Salomão, que foram objeto de esmero
desde a descrição das suas composições (feitas pelo próprio Deus), a designação
de materiais e o cuidado permanente com a sua manutenção, o corpo humano deve
ser preservado adequadamente como templo do Espírito Santo. Seria um
contrassenso se pensássemos ou agíssemos de forma difere* T (3 Jo 2). Um dos
cuidados fundamentais está fígado à nossa alimentação, seja no aspecto
quantitativo, seja no qualitativo. O quanto e o que comemos pode fazer toda a
diferença para a saúde de nosso corpo. De fato, observa-se que este é um
desafio comum a muitas pessoas. Geralmente se ouve entre os cristãos, em tom
jocoso, que crente não bebe, mas come muito. Não seria isso um reflexo da falta
de moderação de alguns?
Como é
comumente recomendado, é razoável moderação na ingestão de açúcar, sal, gorduras
e glúten (massas). Além do aspecto alimentar, descanso (especialmente o sono,
SI 127.2), exercícios físicos também são importantes cuidados para o corpo e a
mente (Mt 15.32-38; Mc 4.38). Além disso, devemos fazer uso regular dos meios
de saúde preventivos e curativos disponíveis (Is 38.21).
CONCLUSÃO
Sendo
nosso corpo o templo do Espírito Santo, devemos cuidar bem dele, abstendo-nos
de todas as práticas pecaminosas e dos malefícios à saúde física. Com corpo e
mente saudáveis, assim como a alma e o espírito santificados, podemos adorar a
Deus e servi-lo melhor (Mc 12.30). Por outro lado, o descuido no cuidado do
corpo pode comprometer a missão divina em nossa vida. Sobre a importância de
cuidar do corpo, há uma conhecida expressão atribuída a Robert Murray M’Cheyne,
avivalista escocês do século XIX, que, no seu leito de morte aos 29 anos, teria
dito: “Deus me deu uma mensagem e um cavalo, eu matei o cavalo e agora não
posso levar a mensagem”.
64 | Corpo, Alma e Espírito
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