domingo, 19 de outubro de 2025

CPAD : Espírito, Alma e Corpo — Lição 4: O corpo como templo do Espírito Santo

 


TEXTO ÁUREO

Ou não sabeis que o nosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?

(1Co 6.19).

VERDADE PRÁTICA

Ter consciência de que nosso corpo é habitação do Espírito Santo faz toda a diferença na maneira como o possuímos.

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE

1 Coríntios 3.16,17; 6.15-20.

1 Coríntios 3

16 — Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?

17 — Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo.

1 Coríntios 6

15 — Não sabeis vós que os vossos corpos são membros de Cristo? Tomarei, pois, os membros de Cristo e fá-los-ei membros de uma meretriz? Não, por certo.

16 — Ou não sabeis que o que se ajunta com a meretriz faz-se um corpo com ela? Porque serão, disse, dois numa só carne.

17 — Mas o que se ajunta com o Senhor é um mesmo espírito.

18 — Fugi da prostituição. Todo pecado que o homem comete é fora do corpo; mas o que se prostitui peca contra o seu próprio corpo.

19 — Ou não sabeis que o nosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?

20 — Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus.

PLANO DE AULA

1. INTRODUÇÃO

Como podemos fazer uma reflexão a partir desta pergunta do apóstolo Paulo: “Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo?”. A presente lição nos mostra que essa verdade muda a maneira como vivemos, cuidamos do nosso corpo e servimos a Deus. A partir desse ensino, veremos que a santidade também passa pelo corpo, como parte essencial da vida cristã.

2. APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO

A) Objetivos da Lição: I) Levar os alunos a compreenderem que seus corpos pertencem a Deus e são habitação do Espírito Santo; II) Ensinar que o corpo humano, à semelhança do tabernáculo no Antigo Testamento, é portador da presença de Deus; III) Conscientizar os alunos sobre a responsabilidade de manter o corpo em santidade, por meio da fuga do pecado, da prática das disciplinas espirituais e do cuidado físico.

B) Motivação: Esta lição revela uma verdade transformadora: nosso corpo não é apenas matéria, mas templo do Espírito Santo. Compreender isso muda nossa relação com o pecado, com o cuidado pessoal e com o serviço cristão.

C) Sugestão de Método: Para reforçar o terceiro tópico, “Cuidando do Templo do Espírito”, utilize o método de estudo de caso com reflexão em grupo. Apresente situações do cotidiano que envolvem decisões sobre sexualidade, saúde física e hábitos espirituais, e peça que os alunos analisem cada caso à luz da Palavra de Deus. Estimule o debate com perguntas como: “Essa atitude honra o corpo como templo do Espírito?”; “Como a disciplina espiritual poderia influenciar essa decisão?”. Encerre com um momento de aplicação pessoal, incentivando cada aluno a identificar uma área em que pode cuidar melhor do seu corpo como expressão de santidade e gratidão a Deus.

3. CONCLUSÃO DA LIÇÃO

A) Aplicação: Desafie sua classe a refletir: “Tenho honrado a Deus com meu corpo?”. A conclusão desta lição é a de incentivar cada aluno a assumir um compromisso prático de santificação e cuidado físico, reconhecendo que o corpo é morada do Espírito Santo.

4. SUBSÍDIO AO PROFESSOR

A) Revista Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e subsídios de apoio à Lições Bíblicas Adultos. Na edição 103, p.38, você encontrará um subsídio especial para esta lição.

B) Auxílios Especiais: Ao final do tópico, você encontrará auxílios que darão suporte na preparação de sua aula: 1) O texto “Uma Visão Cristã do Corpo”, localizado depois do primeiro tópico, aprofunda o tópico a respeito “Corpo: Propriedade e Habitação Divina”; 2) O texto “Santidade do Corpo”, ao final do terceiro tópico, aprofunda o tópico “Cuidando do Templo do Espírito”.

COMENTÁRIO

INTRODUÇÃO

Na lição anterior, vimos como o pecado afetou o corpo humano, trazendo sofrimento e morte. Mas vimos também que a obra redentora de Cristo é poderosa para restaurar todas as coisas, o que inclui a redenção de nossa matéria corrompida (Rm 8.23). Nesta lição, estudaremos a respeito do corpo como templo do Espírito Santo, enfatizando sua importância e necessidade de cuidado, principalmente quanto à santificação.

Palavra-Chave:

TEMPLO

 

 AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO

UMA VISÃO CRISTÃ DO CORPO

 “Muitas religiões no mundo ensinam que a alma e o espírito são importantes, mas que o corpo não; e o cristianismo é, às vezes, influenciado por essas ideias. Na verdade, o cristianismo considera o aspecto físico de modo muito sério. Adoramos a um Deus que criou o mundo físico e o declarou como sendo bom. Ele nos promete uma nova terra, onde as pessoas terão seu corpo transformado — não uma nuvem cor-de-rosa onde almas desencarnadas ouvirão a música de uma harpa. No âmago do cristianismo, encontra-se a história do próprio Deus, que teve um corpo, carne e sangue. Ele veio viver conosco, oferecendo tanto a cura física como a restauração espiritual. Nós, humanos como Adão, somos uma combinação de pó e espírito. Da mesma maneira que o nosso espírito afeta o nosso corpo, este afeta o nosso espírito. Não podemos cometer pecados com o nosso corpo sem prejudicar nossa alma, porque corpo e alma estão inseparavelmente unidos. Na Nova Terra, teremos o corpo ressurreto, que não foi corrompido pelo pecado. Então apreciaremos a plenitude da nossa salvação.” (Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2022, p.1590).

AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO 

SANTIDADE DO CORPO

 “Este ensino a respeito da imoralidade sexual e das prostitutas era especialmente importante para a igreja coríntia porque o templo da deusa do amor, Afrodite, ficava em Corinto. Esse templo empregava mais de mil prostitutas como sacerdotisas, e o sexo era parte do ritual de adoração. Paulo declarou claramente que os cristãos não devem tomar parte na imoralidade sexual, ainda que isso seja aceitável e popular em nossa cultura. Os cristãos são livres para ser tudo o que puderem para Deus, mas não estão livres de Deus. O Senhor criou o sexo para ser um belo e essencial ingrediente do casamento, mas o pecado sexual — a prática de sexo fora do casamento — sempre fere alguém.

É uma atitude que magoa a Deus porque mostra que preferimos seguir nossos próprios desejos a colocar-nos sob a direção do Espírito Santo. Fere também os outros porque viola o comprometimento tão necessário a um relacionamento sadio.” (Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2022, pp.1590,1591).

 SUBSÍDIOS ENSINADOR CRISTÃO

O CORPO COMO TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO

Nesta oportunidade, estudaremos uma das doutrinas mais importantes dos ensinos de Paulo: o corpo como templo do Espírito Santo. O cuidado do corpo enquanto templo do Espírito Santo está além de ele ser um instrumento dos propósitos divinos. O crente é habitação do Espírito não apenas para executar dons espirituais e ministeriais com vista à edificação da igreja (1Co 12.4-11). É de fundamental importância o crente preservar a comunhão plena e a intimidade com o Senhor. Para tanto, precisa manter seu corpo em santificação e honra (Rm 12.1,2). Dentre os cuidados com o corpo, citados na lição, está a santificação e a separação de qualquer imoralidade sexual ou depravação do corpo. A falta de bom senso de muitos crentes tem levado ao descuido com hábitos, conversas e acesso a conteúdo que alimentam a mente com o mundanismo. A Palavra de Deus é clara quando afirma que o ouvido prova as palavras como o paladar prova a comida (Jó 34.3). Já nos dias de Jó se percebia a necessidade de filtrar qualquer informação que chegasse aos ouvidos. Semelhantemente, a mente é influenciada pelo que os olhos assistem. Acerca disso, o salmista declara: “Não porei coisa má diante dos meus olhos” (Sl 101.3a). Expor os olhos a todo tipo de conteúdo que se tem acesso, seja por meio das redes sociais ou presencialmente, é mais um desafio que deve ser enfrentado pelo crente com disciplina. Assumir um compromisso com hábitos saudáveis para o corpo inclui ter o cuidado com aquilo que permitimos alimentar a nossa mente.

Como propriedade do Espírito Santo, o crente deve apresentar seu corpo como instrumento de honra e não de desonra.

  Comentário Bíblico Beacon (CPAD) cita Crisóstomo: “Como pode o corpo se tornar um sacrifício?

Deixe que o olho não veja nada mau, e ele se torna um sacrifício; permita que a língua não diga nada vergonhoso, e ela se torna uma oferta; deixe que a mão não faça nada ilegal, e ela se torna uma oferta em holocausto. Não, isto não será suficiente, mas precisamos ter a prática ativa do bem — a mão precisa dar esmolas, a boca precisa abençoar em lugar de amaldiçoar, o ouvido precisa dar atenção sem cessar os ensinamentos divinos. Pois um sacrifício não tem nada impuro, um sacrifício é a primícia de outras coisas. Portanto, que nós possamos produzir frutos para Deus com as nossas mãos, com os nossos pés, com a nossa boca, e com todos os nossos outros membros” (Volume 8, 2006, p.159). Na perspectiva de Crisóstomo, não basta apenas rejeitar o que é impuro e desagradável aos olhos do Senhor. É preciso também ocupar nossas vidas com o que glorifica a Deus e enche nossa mente de conteúdos que edificam a vida espiritual.

CONCLUSÃO

Corpo e mente saudáveis nos tornam mais dispostos para adorar e servir a Deus (Mc 12.30). Que vivamos de maneira sábia e equilibrada, como templo do Espírito. Um elevado privilégio, fruto da graça de Deus em Cristo Jesus.

   CPAD : Espírito, Alma e Corpo — A restauração integral do ser humano para chegar à estatura completa de Cristo

Comentarista: Silas Queiroz      

Lição 4: O corpo como templo do Espírito Santo

 


   INTRODUÇÃO

   O texto bíblico de que se extrai o título deste capítulo está contido na Primeira Carta de Paulo aos crentes de Corinto, cidade onde o apóstolo iniciou a sua missão após passar por Atenas na sua viagem pela Macedônia e Acaia (At 16-18). Conforme Lucas narra em Atos 18.1-3, foi em Corinto que Paulo encontrou Aquila e Priscila, casal judeu que tinha o mesmo oficio que ele: fazer tendas. Depois de algum tempo pregando na sinagoga, o trabalho começou a produzir frutos (At 18.8). Certamente diante de algum temor pelas resistências que já havia sofrido na cidade (18.6), Paulo precisou ser encorajado a continuar a sua missão em Corinto (At 18.9,10). O resultado foi o apóstolo dos gentios permanecer na cidade dos coríntios por um ano e seis meses (18.11), deixando uma igreja estabelecida, para qual agora escreve.

   Um dos cenários que Paulo permite-nos ver em Corinto é de manifesta carnalidade (1 Co 3.1-4), o que bem justifica a sua ênfase na identificação do corpo como templo do Espírito Santo (3.16,17; 6.17-20). Pelas notícias recebidas por ele e que transparecem nos seus escritos, observa-se que o ambiente pernicioso da cidade estava influenciando a vida da igreja nascente. Corinto orgulhava-se dos seus templos pagãos e da sua antiga acrópole, a Acrocorinto, que também abrigava vários santuários de diversas divindades pagãs. (Hoje não passa de um amontado de pedras em ruínas no alto de uma grande montanha, próxima aos escombros daquela que foi uma das mais famosas cidades da região do Peloponeso, no centro-sul da Grécia).1

   0 Tenebroso histórico de Corinto

   Uma das características de Corinto era a licenciosidade, a busca de senfreada por prazeres carnais, inclusive estimulada pelos cultos pagãos que expunham e exploravam o corpo. O quadro de bestialidade era mais acentuado do que em outras cidades da região em razão de Corinto, como cidade portuária e de grande fluxo comercial, abrigar diversas culturas. Leon Morris (1981, p. 12) retrata bem esse cenário e menciona que, na cidade, era comum a concentração de gregos, latinos, sírios, egípcios e judeus, que, além de cuidar de negócios, se entregavam às diversões e a todo tipo de luxúria que Corinto oferecia, além de envolverem-se em brigas.

   Morris usa a expressão “licenciosidade proverbial” para sintetizar o de gradante nível moral de Corinto, cujos habitantes “eram pronunciadamente propensos a satisfazer os seus desejos, fossem de que espécie fossem” (idem). Craig S. Keener (2024, p. 3175) aborda a questão da notória imoralidade de Corinto mencionando expressamente a prostituição, que era considerada como uma “indústria importante”. O histórico da antiga Corinto (dos tempos do Império Grego) era de “culto à prostituição” e, segundo Keener, essa reputação permanecia na Corinto dos dias de Paulo (tempos do Império Romano), já que escritos posteriores registram a associação de Corinto com o prazer sexual e a com a lascívia, apontando que Afrodite, junto com Poseidon, continuaram a ser uma das principais divindades gregas adoradas na cidade (ibid., p. 3176).

   Citando A. M. Hunter, Morris recorda que o conceito de Corinto era tão vil que o termo “corintianizar” era usado com o sentido de “ir para o diabo”. Não é preciso ir mais longe para entender, então, como o corpo humano era usado para todo tipo de prática abjeta e pecaminosa nas plagas corintianas, degradando a criação divina.

   Paulo escreve aos coríntios para conscientizá-los da nova vida que agora deviam viver, como templos do Espírito Santo, buscando exortá-los a uma consagração integral ao Deus Criador a fim de glorificá-lo, pois Cristo Jesus já os redimira por inteiro. Assim, não deveríam mais servir aos seus próprios desejos ou aos espíritos das trevas, que agiam mediante o paganismo da época. Os ensinos de Paulo são absolutamente necessários em todos os tempos, e ainda mais hoje, pois o Maligno continua agindo por meio de um sistema mundano cada vez mais corrupto e hostil, que prega a degradação do corpo.

  1 - CORPO: PROPRIEDADE E HABITAÇÃO DIVINA

  1. Comprado e selado

   Como já destacamos nesta obra, a Queda afetou o ser humano por inteiro. Por isso, Deus, o Pai, planejou e executou uma obra de completa Redenção através do sacrifício de Jesus Cristo, o seu próprio Filho. Esse res gate, efetuado mediante preço de sangue (1 Pe 1.18,19), não alcança apenas a parte imaterial do homem, mas também o corpo (1 Co 6.20). Essa visão da integralidade do ser humano, como uma unidade composta, é essencial em todos os aspectos de nossa existência, para que não tenhamos um pensa mento dualista, que nos conduz a condutas que busquem compartimentar a vida, valorizando o espírito e desprezando a matéria, como se ela fosse má.

   Como seres integrais, pertencemos a Deus no espírito, na alma e no corpo. Este, aliás, é, literalmente, templo e santuário; morada de Deus, como Jesus prometera aos discípulos Jo 14.16,17). É importante observar a mudança de condição que Jesus prenunciava. A expressão “habita convosco e estará em vós” indica dois estados distintos. Antes da morte e ressurreição de Jesus, os discípulos tinham a presença do Espírito com eles. Depois passaram a tê-lo dentro deles pela experiência da regeneração Jo 20.22), como acontece com todos os que nascem de novo Jo 3.3-8; Tt 3.4-7; 1 Pe 1.23). Essa mudança de condição já havia sido mencionada por Jesus em João 7.37-39. Com a sua glorificação, Jesus conquistou o poder de outorgar o Espírito Santo a todos os que nEle creem, como um selo de propriedade e habitação. Isso não deixa dúvida da necessidade que temos de consagrarmo-nos por inteiro. Os que usam o argumento de que Deus quer “apenas o coração” ignoram essa cristalina verdade bíblica e tornam comprometida a real presença do Espírito na sua vida (1 Ts 4.4; 1 Pe 1.15).

   2. “Não sabeis vós?”

   Como já destacado, Paulo teve um tempo significativo de ministério presencial em Corinto: ficou um ano e seis meses ensinando a Palavra de Deus à nova igreja (At 18.11). É bem provável, portanto, que a pergunta retórica feita aos coríntios tenha o sentido de lembrá-los de que haviam recebido uma doutrina integral e não dualista, que incluía o aspecto corpóreo espiritual; o ensino de que o corpo é o templo do Espírito Santo. A ênfase paulina certamente foi necessária pelo histórico e pelas características vigentes no ambiente coríntio. Qualquer semelhança com nossos dias não é mera coincidência, mas, sim, a clara demonstração de que o ser humano continua inveterado para satisfazer as suas próprias paixões, invariavelmente detratando o corpo. Ressaltar a doutrina da santificação integral continua sendo necessário e urgente. Pertençamos a Deus por inteiro.

   A interpelação feita por Paulo indica que havia certa displicência espiritual na igreja de Corinto, o que o levou a usar por quatro vezes a expressão “não sabeis” ou “não sabeis vós” (1 Co 3.16; 6.15,16,19). Esse é um claro indica tivo de falta de maturidade espiritual. Os coríntios eram imaturos e carnais, como Paulo bem enfatizou (1 Co 3.1,2). A dificuldade de apreensão espiritual daqueles crentes foi percebida por Paulo durante o período de plantação da igreja e ainda persistia. Talvez até tivesse sido agravada diante das péssimas notícias chegadas ao apóstolo (1 Co 5.1,2,9-11). Paulo diz claramente que precisou limitar-se nos seus ensinos (3.1), dirigindo-se aos coríntios como a “meninos em Cristo” em função da carnal compreensão que demonstravam.

   O que se espera de todo cristão (da Igreja) é que haja progresso espiritual à medida que a Palavra de Deus é ensinada e exercita-se a comunhão, o amor, a fé, a esperança e as demais virtudes do Espírito (G15.22). Contudo, há casos em que infelizmente parece haver estagnação e até retrocesso, com crentes e igrejas repetindo os mesmos problemas infantis; girando em torno de questões banais e rasteiras, disputas pueris e lutas fratricidas. As vezes, isso é visto até mesmo entre os que tem o dever de trabalhar pelo aperfeiçoa mento dos santos, como acontecia em Corinto (2 Co 11.12-15). Esse tipo de cenário costuma florescer em igrejas que misturam manifestações de dons espirituais e obras da carne (G1 5.19-21).

   Os dons espirituais são maravilhosos e devem ser buscados, mas ainda há um caminho ainda mais excelente (1 Co 12.31). O ponto mais alto da vida cristã é uma fluente produção do fruto do Espírito, principalmente o amor (1 Co 13.1-8). Em relação ao corpo, esse sublime estágio espiritual traz-nos a compreensão do que é a verdadeira liberdade cristã, tema que Paulo procurou ensinar especialmente aos coríntios, dado o número de questões carnais que apresentavam. A liberdade cristã faz-nos entender que não podemos viver segundo o que agrada ou consideramos ser lícito. Devemos considerar, antes de tudo, se o que queremos fazer edifica ou convém; se pode ou não ser motivo de escândalo ou tropeço a nosso irmão (Mt 18.6; Rm 14.2-11; 1 Co 6.12; 8.8-13).

   Frequentemente se verifica questões ligadas à santificação do corpo, o que gera longas discussões e contendas, que por si só demonstram imaturidade e camalidade. O padrão de vestuário costuma ser um dos pontos mais debatidos. O mais sábio e espiritual, contudo, é seguir o caminho da moderação, em apreço ao modelo de santificação plena, isto é, sem desconsiderar o aspecto corporal. Aliás convém observar que, após tratar o pecado de Adão e Eva num claro confronto de ordem espiritual, o próprio Deus voltou-se para a questão corpórea. O casal cobrira-se com aventais de folhas de figueira (Gn 3.7). O Senhor, contudo, substituiu-os por roupas de peles, demonstrando que o corpo — seja da mulher, seja do homem —não deve ser fragilmente coberto e ficar sujeito à exposição, como objeto de tentação e cobiça (Gn 3.21; 1 Tm 2.9). Se Deus não se importasse com que tipo de roupa cada um veste, ali teria sido o primeiro sinal dessa liberdade estética ou de expressão pessoal que o ser humano tanto buscou. Deus, porém, substituiu as vestes de folhas para vestes de couro. O padrão moral segundo Deus é sempre mais elevado do que o nosso.

   3. Propriedade e domínio

   Ao referir-se ao corpo do cristão como uma “propriedade” de Deus, devidamente comprado por bom preço (1 Co 6.20), Paulo transmite a clara lição de direito absoluto; o domínio pleno que o Remidor tem sobre a sua possessão. Esse, ademais, é o conceito de propriedade comum, visto, inclusive, no Direito Civil: o detentor da propriedade deve ter também o domínio. Assim, se pertencemos ao Espírito, devemos viver sob o seu domínio a fim de glorificá-lo.

   De fato, na sua carta aos coríntios, a ênfase de Paulo volta-se ao aspecto do domínio divino em relação ao corpo e o dever que o cristão tem de pos suí-lo para a glória de Deus, pois, como já observado, Corinto experimenta graves problemas voltados ao aspecto corporal. Assim, o apóstolo acentua que nosso corpo “[...] não é para a prostituição, senão para o Senhor” (1 Co 6.13). Também apresenta uma clara ideia de pertencimento integral (1 Co 6.15; 2 Co 6.16). Por tudo isso, não resta dúvida de que o pecado contra o corpo ofende gravemente a santidade de Deus e produz terríveis sofrimentos (SI 31.9,10; 51.4; 1 Co 3.17; 5.1-5; 6.18). Quando é cometido, de nada adianta esconder-se, como fez Adão. Precisamos apresentar-nos a Deus, arrependidos e humilhados, em sincera confissão. Somente isso nos conduz a uma verdadeira e completa cura e restauração pela poderosa ação do sangue de Jesus (SI 32.1-6; Tg 5.16; ljo 1.7-9).

  II - O CORPO COMO TABERNÁCULO

  1. Portador da Presença

   Assim como usa o termo “templo” (gr. naos), inserido na realidade hebraica como hekal (palácio, templo) no período da monarquia, Paulo recorre a um termo anterior — “tabernáculo” (gr. skenos; hb. mishkan) —, que Israel conheceu durante a peregrinação pelo deserto do Sinai (2 Co 5.4). A mesma invocação metafórica foi feita pelo apóstolo Pedro (2 Pe 1.14). Essa alusão demonstra, a princípio, o entendimento espiritual da sacralidade do corpo, principalmente pela remissão que faz ao Antigo Testamento; ao Tabernáculo de Moisés, acerca do qual o próprio Deus declarou que seria a sua habitação entre o povo (Ex 25.8).

   Assim como em relação ao Tabernáculo de Moisés e ao Templo dos dias da monarquia judaica, a presença de Deus, que enche todo o Universo, podería ser considerada apenas na forma transcendente, como suficiente mente realizada entre a comunidade de crentes sob o Novo Pacto.2 Contudo, Deus não é apenas um Ser transcendente, mas também imanente; por isso se agrada de habitar com o seu povo, como fez no Antigo Testamento, e agora o faz na Nova Aliança, vivendo no interior de cada um que crê no seu Filho e recebe-o como Salvador e Senhor. Esse uso imagético do Tabernáculo para simbolizar o corpo, portanto, solidifica o entendimento de que o crente é, literalmente, portador da presença de Deus (Rm 8.11). O Todo-Poderoso decidiu viver em nós, uma tão frágil habitação, assim como se manifestou numa tenda levantada no deserto (Jo 14.23; 2 Co 4.7; Ap 3.20).

   2. Tabernáculo e tricotomia

   A figura do Tabernáculo de Moisés é também invocada de forma ana lógica em relação à tríplice composição humana. Alguns autores fazem essa comparação, como Eurico Bergstén (2013), que afirma:

   Assim como o tabernáculo no deserto era dividido em três partes, também o homem o é. O pátio do tabernáculo representa a parte externa e visível do homem, que é o seu corpo; o lugar santo, que não se podia ver de fora, representa a alma, e o lugar santíssimo representa o espírito do homem.

   De fato, é possível ver a imagem tricotômica do ser humano nas três partes da edificação feita no deserto: (1) o pátio — um espaço externo aberto —, (2) o Lugar Santo e (3) o Lugar Santíssimo — um espaço interno único, coberto, separado apenas por um véu (Êx 26.33; 27.9), o que lembra a tênue divisão entre alma e espírito (Hb 4.12). O pastor Antonio Gilberto (2021, p. 1921) faz a mesma analogia, acrescentando também o próprio templo. Comentando 1 Tessalonicenses 5.23, ele recomenda: “Confronte as referências do homem ao Tabernáculo e Templo, os quais eram tripartidos (1 Co 3.16; 2Co 5.1; 2Pe 1.13-14)”. Severino Pedro da Silva (1988, p. 61) desenvolve o mesmo raciocínio.

   Muito mais do que a invocação de figuras, as referências a Tabernáculo e Templo indicam a vontade de Deus em encher-nos, assim como aconteceu quando o Tabernáculo foi levantado (Êx 40.34,35) e o Templo foi inaugurado (2 Cr 7.2). Não tenhamos dúvida: Deus quer encher-nos e manter-nos cheios do seu Espírito, permitindo que o sintamos em todo o nosso ser: espírito, alma e corpo (Ef 3.19; 5.18). Essa profunda experiência espiritual e sensorial sempre foi marca distintiva dos pentecostais clássicos e assim continuará se permanecermos buscando a santa e doce presença do Espírito de Deus. Não pode tornar-se estranho entre nós as visíveis e audíveis manifestações divinas (At 10.44-46; 1 Co 12.7-11). “O fogo arderá continuamente sobre o altar; não se apagará” (Lv 6.13).

   3. Um Tabernáculo guiado

   A presença de Deus no Tabernáculo não era estática, mas dinâmica. Servia de direção para o povo de Deus durante toda a peregrinação pelo deserto. Essa é outra lição espiritual que podemos extrair da metáfora do Tabernáculo: a importância da presença de Deus como guia permanente e eficaz em nossa vida. O texto de Êxodo 40.36-38 informa-nos que a caminhada do povo de Israel dava-se à medida que a nuvem movimentava-se ou parava.

   Essa é uma aplicação direta para nossa realidade corpórea. Deus está interessado em guiar-nos também em nossa movimentação física, isto é, onde moramos, onde estudamos, onde trabalhamos, enfim... Não podemos permitir que sejamos enganados pelo secularismo, fazendo-nos pensar que Deus não interfere nas questões de nosso cotidiano. É Ele quem nos guia por caminhos espirituais, mas também nos guia por caminhos físicos. Tiago aconselha-nos a submetermos todos os nossos projetos à soberana direção divina e cuidar com nossas afirmações (Tg 4.15). Ser dependente de Deus e sensível ao Espírito li\Ta-nos de decisões e movimentos errados em nosso viver diário (Êx 33.15).

  III - CUIDANDO DO TEMPLO DO ESPÍRITO

  1. “Fugi da prostituição”

   Como \imos inicialmente, a igreja de Corinto mostrou-se imatura e carnal, e isso comprometia a sua missão de influenciar a sociedade coríntia. Alguns dos seus membros estavam incorrendo em práticas pecaminosas graves. Paulo aponta um caso específico, que estava abaixo do já degradante padrão da época (1 Co 5.1). O pior de tudo é que havia tolerância para a prática, já que a igreja não disciplinava o abusador. A falta de disciplina eclesiástica é um desvio grave e compromete a santidade da comunidade de fiéis e a sua autoridade para pregar o evangelho.

   No capítulo 16, a partir do versículo 15 da mesma carta, o apóstolo volta a referir-se aos pecados sexuais, novamente enfatizando a gravidade de tais transgressões, que era o fato de que, sendo o corpo o templo do Es pírito Santo — e membro de Cristo —, a prostituição é um pecado contra o próprio corpo.

   Os pecados sexuais produzem consequências de gravidade e dimensão incalculáveis. Além de afetarem diretamente o corpo, mancham profunda mente a alma e o espírito, trazendo culpa, vergonha, angústia, dor e muitas outras consequências. O seu raio de destruição costuma não ficar restrito aos autores da prática, e isso diz respeito a todo e qualquer pecado sexual. Aliás, o substantivo grego pornâa, traduzido como prostituição em 1 Coríntios 6.18, tem um significado amplo, referindo-se à “impureza” (ARA) ou “imoralidade sexual” no sentido geral (NAA e NVI). Toda prática sexual fora do casamento está abarcada nessa expressão. Ao usar o verbo “fugir” na voz ativa ipheugo, “fugir de ou para longe”), Paulo aponta para a necessidade de ações concretas que nos ponham a salvo dos terríveis malefícios das impurezas sexuais, o que começa pelo cuidado com os olhos (Jó 31.1; SI 101.3). O que vemos e como vemos determina se nosso corpo será cheio de luz ou trevas (Mt 6.22.23). Além dos nefastos efeitos espirituais, os pecados sexuais produzem graves consequências físicas e mentais. A pornografia, por exemplo, tem-se tornado um vício altamente destrutivo, amplificado diante das múltiplas possibilidades abertas com as redes sociais. O alerta divino é imperativo e radical: “Fugi!” (1 Ts 5.22).

   2. Disciplinas espirituais

   Uma vez que compreendemos o aspecto espiritual de nossa realidade corpórea, é salutar que nos apliquemos fisicamente às disciplinas espirituais necessárias para uma vida cristã equilibrada e integralmente saudável. Nos so corpo tem um papel fundamental nesse processo, que é o exercício em piedade de que Paulo fala a Timóteo (1 Tm 4.7,8). De fato, já vimos que não há como compartimentar a vida espiritual, como se fosse apenas uma atividade do espírito ou da alma ou de ambos como substâncias imateriais inseparáveis que são.

   O corpo deve estar sempre presente, como veículo indispensável de nossas atitudes de adoração e serviço a Deus. Para que tenhamos uma vida espiritual plena como templo do Espírito Santo, não basta que os membros de nosso corpo deixem de ser instrumentos do pecado. As Escrituras recomendam-nos que nossos membros devem ser “apresentados” a Deus como instrumentos de justiça (Rm 6.12,13) e culto. O conhecido texto de Romanos 12.1 prevê essa entrega que não dispensa jamais a estrutura física integral, pois devemos apresentar-nos “[...] em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12.1).

   O corpo é parte essencial do culto, pois é através dele que praticamos as mais importantes disciplinas de nossa vida espiritual, como o jejum, a oração e o estudo da Palavra de Deus, fundamentais para uma contínua e fluente agência do Espírito de Deus em nosso interior. O pastor José Orisvaldo Nunes de Lima abordou o tema Disciplina do Jejum Bíblica na Revista Obreiro Aprovado (2025, 3o trim., p. 18-23), destacando que “O jejum não é essencial à salvação, mas ele, a oração, a leitura e escuta da exposição da Palavra e participação nas ordenanças do evangelho (batismo e Ceia do Senhor) são considerados “meios da graça”, ou seja, canais que conduzem à operação da graça de Deus na vida do crente”.

  3. Disciplinas corporais

   Assim como o Tabernáculo de Moisés e o Templo de Salomão, que foram objeto de esmero desde a descrição das suas composições (feitas pelo próprio Deus), a designação de materiais e o cuidado permanente com a sua manutenção, o corpo humano deve ser preservado adequadamente como templo do Espírito Santo. Seria um contrassenso se pensássemos ou agíssemos de forma difere* T (3 Jo 2). Um dos cuidados fundamentais está fígado à nossa alimentação, seja no aspecto quantitativo, seja no qualitativo. O quanto e o que comemos pode fazer toda a diferença para a saúde de nosso corpo. De fato, observa-se que este é um desafio comum a muitas pessoas. Geralmente se ouve entre os cristãos, em tom jocoso, que crente não bebe, mas come muito. Não seria isso um reflexo da falta de moderação de alguns?

   Como é comumente recomendado, é razoável moderação na ingestão de açúcar, sal, gorduras e glúten (massas). Além do aspecto alimentar, descanso (especialmente o sono, SI 127.2), exercícios físicos também são importantes cuidados para o corpo e a mente (Mt 15.32-38; Mc 4.38). Além disso, devemos fazer uso regular dos meios de saúde preventivos e curativos disponíveis (Is 38.21).

   CONCLUSÃO

   Sendo nosso corpo o templo do Espírito Santo, devemos cuidar bem dele, abstendo-nos de todas as práticas pecaminosas e dos malefícios à saúde física. Com corpo e mente saudáveis, assim como a alma e o espírito santificados, podemos adorar a Deus e servi-lo melhor (Mc 12.30). Por outro lado, o descuido no cuidado do corpo pode comprometer a missão divina em nossa vida. Sobre a importância de cuidar do corpo, há uma conhecida expressão atribuída a Robert Murray M’Cheyne, avivalista escocês do século XIX, que, no seu leito de morte aos 29 anos, teria dito: “Deus me deu uma mensagem e um cavalo, eu matei o cavalo e agora não posso levar a mensagem”.

   64 | Corpo, Alma e Espírito

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