TEXTO ÁUREO
“No suor do teu
rosto, comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado,
porquanto és pó e em pó te tornarás.”
(Gn 3.19).
VERDADE PRÁTICA
O pecado do primeiro Adão afetou o homem no corpo,
na alma e no espírito. Mas a Redenção em Cristo, o último Adão, tem o poder de
restaurá-lo plenamente.
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE
Gênesis
3.17-19; Eclesiastes 12.1-7.
Gênesis
3
17
— E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à
voz de tua mulher e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás
dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da
tua vida.
18
— Espinhos e cardos também te produzirá; e comerás
a erva do campo.
19
— No suor do teu rosto, comerás o teu pão,
até que te tornes à terra; porque dela foste tomado, porquanto és pó e em pó te
tornarás.
Eclesiastes
12
1
— Lembra-te do teu Criador nos dias da tua
mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais venhas a
dizer: Não tenho neles contentamento;
2
— antes que se escureçam o sol, e a luz, e a
lua, e as estrelas, e tornem a vir as nuvens depois da chuva;
3
— no dia em que tremerem os guardas da casa,
e se curvarem os homens fortes, e cessarem os moedores, por já serem poucos, e
se escurecerem os que olham pelas janelas;
4
— e as duas portas da rua se fecharem por
causa do baixo ruído da moedura, e se levantar à voz das aves, e todas as vozes
do canto se baixarem;
5
— como também quando temerem o que está no
alto, e houver espantos no caminho, e florescer a amendoeira, e o gafanhoto for
um peso, e perecer o apetite; porque o homem se vai à sua eterna casa, e os
pranteadores andarão rodeando pela praça;
6
— antes que se quebre a cadeia de prata, e se
despedace o copo de ouro, e se despedace o cântaro junto à fonte, e se
despedace a roda junto ao poço,
7
— e o pó volte à terra, como o era, e o
espírito volte a Deus, que o deu.
1.
INTRODUÇÃO
Nesta lição, destacaremos as consequências do pecado
sobre o corpo humano, conforme a perspectiva bíblica apresentada. Ao abordar
temas como sofrimento, envelhecimento e esperança na glorificação, você guiará
seus alunos a compreenderem o impacto da Queda e a Redenção oferecida por
Cristo.
2.
APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO
A)
Objetivos da Lição: I)
Analisar como o ser humano foi criado em perfeição, e de que forma o pecado
trouxe sofrimento; II) Explicar que, apesar das consequências do pecado, o ser
humano continua responsável por suas escolhas; III) Refletir sobre as
limitações físicas e as enfermidades como realidade pós-queda, mantendo a
esperança na glorificação do corpo.
B)
Motivação: Estudar esta lição
nos ajuda a entender como o pecado corrompeu a perfeição original do corpo
humano e como somos hoje chamados a viver com responsabilidade diante de Deus,
aguardando a restauração completa em Cristo.
C)
Sugestão de Método: Para
ensinar a responsabilidade humana diante do pecado, e reforçar o ensino do
segundo tópico, utilize o método da discussão de casos práticos, com situações
que envolvam decisões éticas e morais na vida adulta — como cuidar do corpo
diante do estresse, lidar com vícios, ou exercer autoridade com equilíbrio na
família. Proponha perguntas reflexivas que levem os alunos a confrontarem suas
escolhas com os princípios bíblicos, destacando o livre-arbítrio e a mordomia
do corpo como dádiva de Deus. Estimule o grupo a compartilhar experiências com
sabedoria, criando um ambiente de aprendizado mútuo e aplicação prática da fé
cristã no dia a dia.
3.
CONCLUSÃO DA LIÇÃO
A)
Aplicação: Diante das
consequências do pecado sobre o corpo, desafie sua classe a viver com
responsabilidade, cuidando do corpo como templo do Espírito Santo, e mantendo
firme a esperança na glorificação prometida por Cristo.
4.
SUBSÍDIO AO PROFESSOR
A)
Revista Ensinador Cristão. Vale
a pena conhecer essa revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e
subsídios de apoio à Lições Bíblicas Adultos. Na edição 103, p.37,
você encontrará um subsídio especial para esta lição.
B)
Auxílios Especiais: Ao
final do tópico, você encontrará auxílios que darão suporte na preparação de
sua aula: 1) O texto “Pecado e Morte”, localizado depois do primeiro tópico,
aprofunda o tópico a respeito “da Perfeição à Morte”; 2) O texto “Sereis como
Deus”, ao final do segundo tópico, aprofunda a respeito do tópico “A
Responsabilidade Humana”, levando em conta a falsa promessa da Serpente.
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
Gênesis nos apresenta os terríveis efeitos do pecado
em toda a Criação. O homem experimentou de forma imediata a separação
espiritual de Deus, manifestada no senso de culpa e na reação à presença do
Criador após a primeira transgressão (Gn 3.6-10). Não muito depois, a morte
física entrou na história humana, começando por Abel (Gn 4.8). Os impactos do
pecado no corpo, a parte material do ser humano, é o assunto desta lição.
Palavra-Chave:
PECADO
AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO
PECADO
E MORTE
“Quando Adão
e Eva pecaram, a morte moral e espiritual veio de imediato (cf. 2.17; cf. Jo
17.3, nota), enquanto a morte física ocorreu posteriormente (5.5). (1) Deus
havia dito: ‘no dia em que dela comeres, certamente morrerás’ (2.17).
Moralmente, a vida de Deus morreu neles, e a sua natureza tornou-se pecaminosa
(isto é, espiritual e moralmente corrupta, contrária à natureza perfeita e pura
de Deus). Espiritualmente, o antigo relacionamento com Deus foi destruído. A
anterior inocência foi substituída pela culpa e pelo juízo. A partir de então,
cada pessoa que nasce vem ao mundo com uma natureza pecadora (Rm 8.5-8). Essa
corrupção da natureza humana envolve um desejo inato (isto é, congênito) e uma
tendência de seguir pelo próprio caminho egoísta sem interesse por Deus ou
pelos outros. A natureza pecadora é transmitida a todos os seres humanos (5.3;
6.5; 8.21; veja Rm 3.10-18, nota; Ef 2.3). (2) A Bíblia não ensina que todos
pecaram quando Adão pecou, nem que a sua culpa pessoal foi colocada sobre toda
a raça humana (veja Rm 5.12, nota). A Bíblia ensina que Adão introduziu a Lei
do pecado e da morte a toda a humanidade (cf. Rm 5.12; 8.2; 1Co 15.21,22) e,
desde então, cada pessoa que vive decide seguir o seu próprio caminho (Is
53.6)” (Bíblia de Estudo Pentecostal — Edição Global.
Rio de Janeiro: CPAD, 2022, p.13).
AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO
“SEREIS
COMO DEUS
Satanás sempre tentou os seres humanos a crerem que
podem ser como Deus e a decidirem por si mesmos o que é bom e o que é mau — o
que é certo e o que é errado. (1) Ironicamente, ao tentarem ser ‘como Deus’, os
homens se separaram do Deus Todo-Poderoso e tornaram-se falsos deuses para si
mesmos (veja o v.22, nota; Jo 10.34, nota). As pessoas então procuram obter
conhecimento moral e fazer juízos éticos usando o próprio raciocínio em lugar
da Palavra de Deus. Mas Deus ainda é o juiz supremo que decide o que é certo e
errado. (2) As Escrituras dizem que todos os que agem como se fossem seus
próprios deuses ‘desaparecerão da terra e de debaixo deste céu’ (Jr 10.10,11).
Este será também o destino do anticristo, que reivindicará ser Deus (2Ts 2.4)”
(Bíblia de Estudo Pentecostal — Edição Global. Rio de
Janeiro: CPAD, 2022, p.13).
SUBSÍDIOS ENSINADOR CRISTÃO
O
CORPO E AS CONSEQUÊNCIAS DO PECADO
A partir do
relato de Gênesis, podemos entender que a Queda do homem trouxe muitos
problemas para a humanidade. Os mais grave dentre eles é a morte do corpo.
Desde quando criou o ser humano, o propósito de Deus era que o homem vivesse
eternamente e desfrutasse das bênçãos disponíveis na criação. Por isso, o
instituiu no jardim do Éden, um lugar próspero e de plena paz. Ali, Adão,
juntamente com sua esposa Eva, tinha todos os recursos à disposição (Gn
2.7,16,17). O sofrimento, as aflições e as doenças tanto físicas quanto
emocionais não faziam parte do propósito divino para a vida humana neste mundo.
Mas, a natureza humana declinou em razão do pecado e a morte entrou neste mundo
(Rm 5.12). Por essa razão, os males desta vida imperam sobre o corpo e o levam
a uma morte lenta e angustiante.
A principal
consequência do pecado na vida humana é a morte. A respeito desse assunto, na
obra Teologia do Novo Testamento (CPAD), Roy B. Zuck discorre
que o apóstolo “Paulo usa a palavra ‘morte’ em relação à morte física e
espiritual ao descrever que ‘o salário do pecado é a morte’ (Rm 6.23). A morte
espiritual é a condição de separação de Deus: ‘A inclinação da carne é a morte’
(Rm 8.6). Se a condição atual dos não-cristãos não mudar, a vida deles
terminará em morte eterna, a separação final da presença de Deus. A vida
controlada pelo pecado leva à morte (6.16). Todas as pessoas, por serem filhas
de Adão, começam a vida sob o domínio da morte (5.14). Até mesmo os cristãos
lutam com a mortalidade, a separação da alma e espírito do corpo na morte
física. Conforme declara Paulo, há a expectativa de que, um dia, quando isto
que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se
revestir da imortalidade, a morte será derrotada (1Co 15.54). Todavia, até lá,
‘nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos,
esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo’ (Rm 8.23)”. (2008,
pp.288,289).
Há, porém,
nos Evangelhos, uma nova esperança trazida à vida daqueles que aceitam a fé em
Jesus como Salvador e Senhor. A Palavra de Deus nos revela quem crê no Filho de
Deus passa da morte para a vida (Jo 5.24), a saber, aqueles que creem em Seu
sacrifício na cruz do Calvário como ato que remove a culpa dos pecados e
oferece o perdão divino. Desde então, podemos experimentar uma nova natureza
espiritual capaz de obedecer a Deus e manter-se em comunhão plena com Ele (1Jo
5.4,5). O grande desafio agora é a mortificação das obras da carne contaminada
pelo pecado. O apóstolo Paulo ensina que, pelo Espírito, mortificamos a
natureza pecaminosa e produzimos as virtudes do Fruto do Espírito (Gl 5.16).
CONCLUSÃO
Apesar de todo o abatimento e sofrimentos que
experimentamos em nosso corpo como consequência do pecado e de nossas próprias
transgressões, em Cristo temos a certeza de uma Redenção completa, conquistada
por sua obra perfeita na cruz do Calvário. Ele nos dará um novo corpo,
eternamente transformado e saudável (Ap 21.4-6; 22.2).
CPAD
: Espírito, Alma e Corpo — A restauração integral do ser humano para chegar à
estatura completa de Cristo
Comentarista: Silas Queiroz
Lição 3: O corpo e as
consequências do pecado
INTRODUÇÃO
Os
três elementos do ser humano foram afetados com a Queda. A primeira
consequência foi de ordem espiritual: a imediata perda da comunhão com Deus,
com terríveis consequências também na alma, como vergonha, culpa e medo, que
Adão e Eva não conheciam. No versículo 19 de Gênesis 3, vemos uma síntese das
consequências causadas ao corpo. Em um curto e objetivo texto, Moisés trata do
sofrimento diário à falência total da matéria e o seu retorno ao pó. A
expressão “até que tornes à terra” abrange a jornada de agruras do ser humano
em toda a existência terrena, o que inclui traba lhos penosos e debilidades do
corpo, até a sentença finalmente ser cumprida com o seu tombamento ao solo de
onde foi tirado. E o homem volta a ser simplesmente pó: “és pó e em pó te
tornarás”. Triste fim para quem fora criado para viver eternamente em comunhão
com o Criador. É o fim funesto e miserável que nos foi legado pelo primeiro
Adão, mas há também um fim glorioso assegurado por Cristo, o último Adão (1 Co
15.45,48).
I - DA
PERFEIÇÃO À MORTE
1. A
certificação divina
Um Deus perfeito criou tudo perfeito,
inclusive o ser humano. O próprio Deus certifica a sua obra. Primeiro, depois
de haver criado o Universo e todos os animais (Gn 1.25) e, segundo, criado o
homem, a coroa da criação (v. 31). Trata-se, portanto, de uma certificação de
toda a criação. A distinção entre as expressões “era bom” e “era muito bom” não
significa a existência de defeito ou qualidade inferior na ordem antes criada,
mas a constatação de que faltava um ser para dirigir tudo o que fora dantes
criado, o homem. Assim, formado o regente, todo o conjunto da obra divina
recebe o selo de “minto bom”.
O perfeito funcionamento do Universo incluía
um espaço habitado pelo homem, adornado de seres animados e inanimados, todos à
disposição do único ser racional, inteligente e autoconsciente, o ser humano.
Adão e Eva receberam um lugar especial para viver, um jardim no Éden,
especialmente plantado por Deus para abrigar a sua principal criatura (2.8). A
vida humana era plena em todos os aspectos. Não havia infortúnio algum. O
primeiro casal vivia em completa harmonia vertical (com Deus) e horizontal
(entre si), além de não sofrer qualquer dano originado da natureza, incluindo
os animais. Nada afligia o homem! Por mais que tentemos imaginar quão aprazível
era a vida de Adão e Eva antes da Queda, ficaremos aquém da realidade que
viveram. Afetada pelo pecado, nossa mente não concebe um ambiente sem 0
conhecimento do mal, da mesma forma como não conseguimos imaginar a plenitude
da glória futura (Rm 8.18; 1 Co 2.9; 13.12; 1 Jo 3.3).
2. Pecado e dor
De uma
experiência literalmente paradisíaca, Adão e Eva passaram a viver os flagelos
da dor no espírito, na alma e no corpo. Houve um complexo de alterações na
ordem criada e na experiência humana, sendo o mais grave deles a perda da
comunhão com Deus, que é a morte espiritual. Bentho e Plácido (2019, p. 65)
trabalham o conceito de “separação global”, lembrando que a Queda levou o homem
à separação não apenas de Deus, mas também de si mesmo, o que originou os
problemas psicológicos (Gn 3.10), dos outros homens (origem de problemas
sociológicos ou de relacionamento, Gn 4.8; 4.23; Rm 1.29-31) e da natureza (os
problemas ecológicos, Gn 3.17; Rm 8.20-22).'
Nosso
foco aqui ê tratar das dores manifestadas no corpo, decorrentes de fatores
imateriais e materiais. O ambiente tornou-se adverso, amaldiçoado por causa da
transgressão de Adão (Gn 3.17,18,22-24). A beleza orgânica e a sua
funcionalidade foram alteradas: a terra passou a produzir espinhos e ervas
daninhas (Gn 3.18). A indizível sensação de bem-estar que o homem desfrutava,
oriunda de Deus e que fluía em todo o seu ser (Gn 2.7,25;Jó 33.4), foi
substituída por inadequação, vergonha, culpa, medo, angústias e tristezas. Todo
esse com plexo de problemas seria somado para promover padecimento e
degeneração no corpo, culminando com a morte física (Gn 3.19). Um terrível
inimigo de todos os homens, nem mesmo todo o cuidado do corpo é capaz de
evitá-la. Mesmo os maiores tesouros foram capazes de impedir que a morte
pusesse um fim à existência dos homens mais ricos e poderosos de todos os
tempos, desde os grandes impérios do Egito, Babilônia, Pérsia, Grécia ou Roma.
Agora, em tempos de ciência tão avançada, por mais que se cuide do corpo, há um
limite para essa vida terrena. Em um passado recente (2020-2023), todas as
nações da terra experimentaram uma terrível pandemia, a da COVID-19, que ceifou
mais de 15 milhões de vidas em todo o mundo, sem discriminar posição política
ou condição social ou econômica. Depois da Queda, o caminho natural de todo o
ser humano é envelhecimento e morte (Ec 12.1-7).
3. Velhice, autenticidade e
gratidão
O fato
de a morte ser o destino de todos os homens nesta existência (ressalvados os
salvos em Cristo vivos no dia do Arrebatamento), não significa que devemos
viver descuidados em relação a nosso corpo. Devemos cuidar de nossa saúde,
principalmente por meio de meios preventivos, evitando, sempre que possível, o
acometimento de doenças. Ainda assim, devemos estar certos de que, mesmo
saudáveis, avançaremos em idade e há um processo natural de degeneração das
células ligada ao envelhecimento. Não é sábio negar essa realidade e procurar
viver como se a juventude fosse eterna, como num conto de fadas.
Dentre
as muitas patologias identificadas nesses tempos de vida tão agitada e
estranha, surgiu uma nova síndrome chamada gerontofobia: um terrível e mórbido
medo de envelhecer que causa ansiedade e pro duz comportamentos incompatíveis
com a idade. O envelhecimento, no entanto, nada mais é do que um caminho
natural para todo ser humano, não podendo ser diagnosticado como transtorno.
Lembremo-nos de que a Bíblia fala da velhice de maneira natural, clara e direta,
ressaltando a sua importância e honra (Lv 19.32; Jó 12.12). Não se pode
considerar depreciativo o emprego do termo “velho”, como têm sido distorcidos
os sentidos de tantas outras expressões atualmente. Pelo contrário! Os velhos
são dignos de maior atenção e honra, seja pela idade alcançada, seja pelo
exemplo e experiências de vida, seja pelas limitações que os anos trazem e
precisam, sim, ser compensadas com cuidados adequados, devidos por todos nós. A
questão, portanto, não é meramente vernacular.
No processo
de rejeição da palavra “velho”, passou-se depois para o emprego do termo
“idoso”; logo após “pessoa idosa”; em seguida, “terceira idade”; e, por fim,
“melhor idade”, um eufemismo moderno usado para suavizar essa condição humana.2
Deixando de lado qualquer discussão in frutífera, o mais sábio a cada um de nós
é considerar o momento próprio da vida, compreendendo-o e adotando um
comportamento compatível. Em alguns casos, a rejeição da idade leva idosos a
práticas de pouca adequação. Estilos estéticos e cosméticos exagerados terminam
por comprometer a pró pria sobriedade. As Escrituras ensinam-nos reconhecer as
características e o valor de cada etapa de nossa existência (Pv 20.29). Cuidar
de si é muito importante, mas é preciso ser sábio e viver todas as fases da
vida de maneira sóbria, em profunda gratidão e temor a Deus (Ec 8.5,6; 12.13).
II - A RESPONSABILIDADE HUMANA
1. Corpo e livre-arbítrio
A
mordomia do corpo faz parte da responsabilidade pessoal de cada ser humano, a
despeito das paixões da natureza pecaminosa herdada de Adão. Conforme enfatiza
a Declaração de Fé das Assembléias de Deus no Brasil, o pecado original
desfigurou a imagem de Deus no homem, mas não a aniquilou (Gn 9.6; Tg 3.9)
(2025, p. 99). O homem passou a conhecer não somente o bem, mas também o mal,
como consequência de sua infeliz e grave decisão no Éden (Gn 3.22). Mas apesar
de todo o ser humano nascer com tendência ou inclinação para o pecado, contínua
dotado de livre-arbítrio. Por isso, a Queda não serve como justificativa para
qualquer atitude de degradação do corpo. Cabe ao homem decidir como usá-lo,
para o bem ou para o mal. Isso está explícito na afirmação de Deus a Caim (Gn
4.7).
Esse
entendimento bíblico é fundamental para que não cedamos ao per verso pensamento
de que o homem está liberado para seguir os desejos do seu coração, possuindo o
corpo para os seus mais distintos e exóticos prazeres, e não para a glória do
Criador, conforme o propósito por Ele estabelecido, a começar pelo casamento
heterossexual e a procriação (Gn 1.27,28). A base do comportamento humano de
negação dessa realidade bíblica é o entendimento de que o que deve prevalecer
não é o sexo biológico, mas os sentimentos de cada pessoa. A partir disso, há
um universo cada vez mais amplo e complexo de teorias e classificações de
“gênero”, abarcando inúmeras categorias de pessoas: gênero-queer (pessoas que
não se consideram nem masculinas nem femininas), bigênero, pangênero, gênero
fluído e muitas outras, incluídas no termo principal, transgênero, que passou a
ser usado como um guarda-chuvas para essa variedade de categorias de “gêneros”
(PEARCEX 2022, p. 198).3
Essa
questão de “gênero” domina cada vez mais o debate público e inse- re-se nas
estruturas governamentais e não governamentais, enquanto intensificam-se as
pesquisas científicas em busca de uma suposta causa genética para essas
disfunções corporais. Mas, como acentua Pearcey (ibid., p. 31), “apesar das
pesquisas intensivas, os cientistas não conseguiram evidências claras de uma
causa genética”. Muitas pessoas acreditam estar presas no “corpo errado”.4 O
apóstolo Paulo classificou como “concupiscências do coração”, “imundícia”,
“paixões infames” e “torpeza” essas alterações do uso natural do corpo (Rm
1.24-27). As Escrituras advertem-nos de que devemos possuir nosso corpo em
santificação e honra, o que inclui a observância da pureza inclusive no leito
conjugal (1 Ts 4.4-6; Hb 13.4). Quanto aos que vivem presos às paixões carnais,
nosso sentimento deve ser de compaixão, jamais de gracejos ou ultrajes. Pelo
contrário! Devemos rogar ao Senhor, com sinceridade de alma, que opere neles
uma profunda libertação, pois nada é impossível para Deus.
2. A potencialização do
sofrimento
Na
esfera da sua responsabilidade, o homem faz com que, além das consequências
naturais decorrentes do pecado original, o corpo também sofra impactos das
transgressões que pratica ao longo da vida, inclusive contra a sua própria
matéria (Lm 3.39; Rm 1.24; 1 Co 6.18). Isso faz com que, ao mal natural, que é
a desordem e decadência do Universo (calamidades naturais, algumas doenças
etc.) seja somado o mal moral, que é a iniquidade comedda por criaturas dotadas
de vontade, conforme assinala Bruce R. Marino (1996, p. 279). Essa
potencialização do sofrimento decorre das obras da carne, listadas por Paulo em
Gálatas 5.19-21. É a manifestação do espírito de inimizade contra Deus, que
Satanás, a antiga serpente, instilou no coração humano ainda no Éden (Gn 3.1-6;
Tg 4.1-4; Ap 12.9).
Esse
quadro de corrupção foi observado logo nas primeiras gerações e somente se
agrava ao longo dos tempos (Gn 6.1-5; Mt 24.12,37; 2 Tm 3.13).
As drogas têm sido um dos instrumentos de
profunda degradação do corpo. O mais recente relatório mundial sobre drogas
divulgado pela ONU (Organização das Nações Unidas), de junho de 2024, expõe o
agravamento do problema. Há um surgimento cada vez mais crescente de
substâncias entorpecentes ilícitas, provocado por um crescimento do número de
dependentes dessas drogas. O resultado é o aumento de transtornos mentais e
outros danos à saúde, além de agravar o problema da segurança pública, sem
contar a multiplicação dos dramas pessoais e familiares. O relatório aponta
que, no ano de 2022, mais de 292 milhões de pessoas usaram drogas, um aumento
de 20% em relação à década anterior.5 6 Os perigos na área da sexualidade
também crescem, seja entre adultos, sejam entre crianças e adolescentes —
estes, os mais vulneráveis.
Essas
e tantas outras questões típicas das mazelas humanas produzidas pela degradação
moral não podem ficar no campo do alarmismo ou da teorização. Cabe a cada
família, especialmente as cristãs, refletir sobre os seus modelos de vida. A
devoção dos pais, em amor responsável, é fundamental para a boa criação dos
filhos. O ensino clássico de Provérbios 22.6 é para que os filhos sejam
ensinados no caminho que devem andar e não no que querem andar. Isso exige dos
pais a correta dosagem de carinho e disciplina desde os primeiros anos de vida.
Como observa o dr. James C. Dobson (2000, p. 20), as crianças não nascem como
“folhas em branco”, como ensinaram Sigmund Freud, o pai da psicanálise, e J. B.
Watson, o criador do beluimonsmo!' Esses autores, assim como tantos que seguem
as suas idéias, consideram que tudo o que uma criança virá a ser, tanto mau
como bom, será resultado das experiências proporcionadas pelo mundo ao seu
redor, como acentua Dobson, o que é um terrível e perigoso equívoco. As
crianças não nascem neutras em relação ao bem ou mal, e muito menos
“boazinhas”. Todos viemos ao mundo já inclinados para o mal. Por isso, é
preciso que os pais — principalmente estes — ensinem o caminho do amor, do respeito,
da justiça, da verdade, da honestidade etc.
Nesse
campo de responsabilidade dos pais e educadores em geral, estão os ensinos
quanto ao corpo e o próprio cuidado deles, especialmente nas fases de
vulnerabilidade. Crianças e adolescentes dependem cada vez mais de um
vigilante, amoroso e firme cuidado dos pais no temor do Senhor (Pv 3.12;
4.10-15; 14.27; Ef 6.4). Para a proteção física e moral, aliás, o cuidado deve
ser presencial, evitando-se, o tanto quanto possível, toda e qualquer terceirização,
além de uma vigilância espiritual constante. Qualquer explo ração ao corpo de
uma criança ou adolescente tem o potencial de produzir danos irreparáveis ou de
difícil reparação para toda a vida.
III -
DO ABATIMENTO À GLORIFICAÇÃO
1. A
realidade das enfermidades
As
doenças também passaram a fazer parte da vida humana como con sequência do
pecado. Elas surgem no processo de degeneração dos órgãos e sistemas do corpo,
em decorrência de causas internas e externas. Estão entre os fatores que levam
o ser humano de volta ao pó (Gn 3.19). Como escreve Gregg R. Allison (2023, p.
243), existem muitos fatores que escapam de nosso controle, como nossa
constituição genética e nossas vulnerabilidades biológicas, que podem levar ao
desencadeamento de doenças físicas, como obesidade e problemas cardíacos, ou
mentais, como depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia. Há, também, fatores
ambientais, como observa Allison: “Nossa família natural ou de criação exerce
influência sobre nossos hábitos corpóreos, levando a sofrimentos provocados por
descuido de nossa saúde geral ou à falta de desenvolvimento físico em razão de
um déficit de amor familiar” (idem).
Há,
também, muitas enfermidades causadas ou potencializadas por hábi tos de nossa
responsabilidade. De uma forma ou de outra, são fatores que nos levam ao
abatimento. Ninguém está imune ou isento de sofrê-los, inclusive os cristãos.
Escrevendo a Timóteo, Paulo menciona o seu cooperador Trófimo, que deixara
doente em Mileto (2 Tm 4.20). Ao próprio Timóteo, o apóstolo já havia
recomendado: “Não bebas mais água só, mas usa de um pouco de vinho, por causa
do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades” (1 Tm 5.23). Tudo indica
que o jovem obreiro tinha um corpo debilitado por algumas doenças,
provavelmente distúrbios gástricos. Jesus tem poder para curar-nos de todo o
mal (Is 53.4; Mt 4.23; Hb 13.8), mas precisamos ter serenidade, sensatez,
paciência e firmeza na fé se enfrentarmos sofrimentos persistentes (Jó 1.20-22;
19.25).
2. Enfado e canseira
Um dos
textos bíblicos mais realistas sobre a velhice — e também dramático, apesar de
poético — é Eclesiastes 12.1-7. Nele, Salomão procura ensinar-nos a melhor
maneira de empreender a viagem dos fantásticos dias da mocidade ao crepúsculo
da vida, culminando com o retorno ao pó. Esse processo, aliás, é implacável,
mesmo para os que alcançam a extraordinária bênção de não ter o corpo abatido
pelas doenças. O próprio processo de envelhecimento produz canseira e enfado
(SI 90.10). Limitações e fraquezas aparecem ao longo do tempo, alterando toda a
estrutura humana. Por mais que não se queira pensar nesse tempo, é uma
realidade que pode ser assistida sempre próxima de nós, em pessoas da família,
irmãos ou amigos, que já alcançaram idades avançadas.
Ter
consciência da velhice como uma realidade iminente e não a sofismar é
importante para nosso autoconhecimento, como já vimos, mas é fundamental também
para uma convivência sem orgulho e acepção de pessoas (G16.10; Tg 2.1). Ricos e
pobres são como a erva que seca e a flor que murcha e cai (Tg 1.9- 11; 1 Pe
1.24). As rugas chegam para todos. As debilidades da estrutura ósseo- -muscular
também. Todos dependemos uns dos outros e somos profundamente carentes de Deus
Jo 13.34; 17.20-23; G16.2,9,10). Por isso, é importante que, na mordomia do
corpo, invistamos mais em comunhão. Primeiro, na família, mas também na igreja,
como nos legaram os crentes primitivos (At 2.42-46).
3. O corpo glorificado
Apesar
de todas as suas debilidades, o corpo humano pode ser alcan çado pelos efeitos
da Redenção em Cristo (Rm 8.23). Todo o salvo, que foi regenerado e vive em
santificação, aguarda a glorificação. Como disse Paulo, nosso corpo abatido
será transformado para ser conforme o corpo glorioso de Cristo, segundo o seu
eficaz poder (Fp 3.20,21). O verbo transformar nesse texto é metaschermtizo, no
grego, e significa “mudar a forma”. Será a mudança do corpo carnal e mortal
para o celestial, espiritual e imortal, semelhante ao de Cristo Jesus, o Homem
Perfeito (Rm 8.29; 1 Co 15.40-49).
Será
um tipo de transformação sobrenatural, que ultrapassa nossa imaginação. O
próprio Paulo conceituou como um “mistério”. Será a vitória final do crente,
proporcionada por Cristo, sobre todo o mal causado ao corpo pelo pecado,
incluindo a morte, que não mais terá domínio sobre os salvos glorificados.
Conforme o Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal (2009, p. 180),
O
maior inimigo de todo o corpo humano é a morte. Para aqueles que não têm
esperança em Cristo, a morte representa o fim de tudo. Os cristãos receberam
uma perspectiva inteiramente diferente. Para os crentes, a morte não representa
o fim de tudo, mas simplesmente uma passagem para a vida eterna. A maioria dos
cristãos irá experimentar a morte; aqueles que ainda estiverem vivos no momento
da volta de Cristo não irão enfrentar a morte, mas reconhecerão muitos que morreram.
Mas, quando o nosso corpo perecível, que é mortal, se revestir da imortalidade,
a vitória final sobre a morte terá sido alcançada.
Na sua condição natural (“carne e sangue”),
o ser humano não herda os céus, mas o corpo também não será descartado; será
redimido (Rm 8.23). De alguma maneira gloriosa, Deus transformará nosso corpo
abatido em um corpo glorificado (1 Co 15.50-54).
CONCLUSÃO
Deus
criou o homem em estado de perfeição, mas o pecado trouxe muitas consequências
para a realidade humana em todos os aspectos, incluindo o corpo. Algumas dessas
consequências são naturais por causa dos efeitos dire tos da Queda; outras
decorrem de práticas pecaminosas pessoais ou hábitos não saudáveis, individuais
ou coletivos, que contribuem para a fragilização da matéria. Apesar de todo o
abatimento e sofrimentos a que somos sujeitos em nosso corpo, temos em Cristo a
certeza de uma Redenção completa, conquistada pela sua obra perfeita na cruz do
Calvário. Ele certamente nos dará um novo corpo.
O Corpo e as Consequências do Pecado | 53
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