sábado, 11 de outubro de 2025

CPAD : Espírito, Alma e Corpo — Lição 3: O corpo e as consequências do pecado

 


TEXTO ÁUREO

No suor do teu rosto, comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado, porquanto és pó e em pó te tornarás.

(Gn 3.19).

VERDADE PRÁTICA

O pecado do primeiro Adão afetou o homem no corpo, na alma e no espírito. Mas a Redenção em Cristo, o último Adão, tem o poder de restaurá-lo plenamente.

 LEITURA BÍBLICA EM CLASSE

Gênesis 3.17-19; Eclesiastes 12.1-7.

Gênesis 3

17 — E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida.

18 — Espinhos e cardos também te produzirá; e comerás a erva do campo.

19 — No suor do teu rosto, comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado, porquanto és pó e em pó te tornarás.

Eclesiastes 12

1 — Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais venhas a dizer: Não tenho neles contentamento;

2 — antes que se escureçam o sol, e a luz, e a lua, e as estrelas, e tornem a vir as nuvens depois da chuva;

3 — no dia em que tremerem os guardas da casa, e se curvarem os homens fortes, e cessarem os moedores, por já serem poucos, e se escurecerem os que olham pelas janelas;

4 — e as duas portas da rua se fecharem por causa do baixo ruído da moedura, e se levantar à voz das aves, e todas as vozes do canto se baixarem;

5 — como também quando temerem o que está no alto, e houver espantos no caminho, e florescer a amendoeira, e o gafanhoto for um peso, e perecer o apetite; porque o homem se vai à sua eterna casa, e os pranteadores andarão rodeando pela praça;

6 — antes que se quebre a cadeia de prata, e se despedace o copo de ouro, e se despedace o cântaro junto à fonte, e se despedace a roda junto ao poço,

7 — e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.

1. INTRODUÇÃO

Nesta lição, destacaremos as consequências do pecado sobre o corpo humano, conforme a perspectiva bíblica apresentada. Ao abordar temas como sofrimento, envelhecimento e esperança na glorificação, você guiará seus alunos a compreenderem o impacto da Queda e a Redenção oferecida por Cristo.

2. APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO

A) Objetivos da Lição: I) Analisar como o ser humano foi criado em perfeição, e de que forma o pecado trouxe sofrimento; II) Explicar que, apesar das consequências do pecado, o ser humano continua responsável por suas escolhas; III) Refletir sobre as limitações físicas e as enfermidades como realidade pós-queda, mantendo a esperança na glorificação do corpo.

B) Motivação: Estudar esta lição nos ajuda a entender como o pecado corrompeu a perfeição original do corpo humano e como somos hoje chamados a viver com responsabilidade diante de Deus, aguardando a restauração completa em Cristo.

C) Sugestão de Método: Para ensinar a responsabilidade humana diante do pecado, e reforçar o ensino do segundo tópico, utilize o método da discussão de casos práticos, com situações que envolvam decisões éticas e morais na vida adulta — como cuidar do corpo diante do estresse, lidar com vícios, ou exercer autoridade com equilíbrio na família. Proponha perguntas reflexivas que levem os alunos a confrontarem suas escolhas com os princípios bíblicos, destacando o livre-arbítrio e a mordomia do corpo como dádiva de Deus. Estimule o grupo a compartilhar experiências com sabedoria, criando um ambiente de aprendizado mútuo e aplicação prática da fé cristã no dia a dia.

3. CONCLUSÃO DA LIÇÃO

A) Aplicação: Diante das consequências do pecado sobre o corpo, desafie sua classe a viver com responsabilidade, cuidando do corpo como templo do Espírito Santo, e mantendo firme a esperança na glorificação prometida por Cristo.

4. SUBSÍDIO AO PROFESSOR

A) Revista Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e subsídios de apoio à Lições Bíblicas Adultos. Na edição 103, p.37, você encontrará um subsídio especial para esta lição.

B) Auxílios Especiais: Ao final do tópico, você encontrará auxílios que darão suporte na preparação de sua aula: 1) O texto “Pecado e Morte”, localizado depois do primeiro tópico, aprofunda o tópico a respeito “da Perfeição à Morte”; 2) O texto “Sereis como Deus”, ao final do segundo tópico, aprofunda a respeito do tópico “A Responsabilidade Humana”, levando em conta a falsa promessa da Serpente.

COMENTÁRIO

INTRODUÇÃO

Gênesis nos apresenta os terríveis efeitos do pecado em toda a Criação. O homem experimentou de forma imediata a separação espiritual de Deus, manifestada no senso de culpa e na reação à presença do Criador após a primeira transgressão (Gn 3.6-10). Não muito depois, a morte física entrou na história humana, começando por Abel (Gn 4.8). Os impactos do pecado no corpo, a parte material do ser humano, é o assunto desta lição.

Palavra-Chave:

PECADO

 AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO

 

 

 

PECADO E MORTE

 “Quando Adão e Eva pecaram, a morte moral e espiritual veio de imediato (cf. 2.17; cf. Jo 17.3, nota), enquanto a morte física ocorreu posteriormente (5.5). (1) Deus havia dito: ‘no dia em que dela comeres, certamente morrerás’ (2.17). Moralmente, a vida de Deus morreu neles, e a sua natureza tornou-se pecaminosa (isto é, espiritual e moralmente corrupta, contrária à natureza perfeita e pura de Deus). Espiritualmente, o antigo relacionamento com Deus foi destruído. A anterior inocência foi substituída pela culpa e pelo juízo. A partir de então, cada pessoa que nasce vem ao mundo com uma natureza pecadora (Rm 8.5-8). Essa corrupção da natureza humana envolve um desejo inato (isto é, congênito) e uma tendência de seguir pelo próprio caminho egoísta sem interesse por Deus ou pelos outros. A natureza pecadora é transmitida a todos os seres humanos (5.3; 6.5; 8.21; veja Rm 3.10-18, nota; Ef 2.3). (2) A Bíblia não ensina que todos pecaram quando Adão pecou, nem que a sua culpa pessoal foi colocada sobre toda a raça humana (veja Rm 5.12, nota). A Bíblia ensina que Adão introduziu a Lei do pecado e da morte a toda a humanidade (cf. Rm 5.12; 8.2; 1Co 15.21,22) e, desde então, cada pessoa que vive decide seguir o seu próprio caminho (Is 53.6)” (Bíblia de Estudo Pentecostal — Edição Global. Rio de Janeiro: CPAD, 2022, p.13).

 AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO

“SEREIS COMO DEUS

Satanás sempre tentou os seres humanos a crerem que podem ser como Deus e a decidirem por si mesmos o que é bom e o que é mau — o que é certo e o que é errado. (1) Ironicamente, ao tentarem ser ‘como Deus’, os homens se separaram do Deus Todo-Poderoso e tornaram-se falsos deuses para si mesmos (veja o v.22, nota; Jo 10.34, nota). As pessoas então procuram obter conhecimento moral e fazer juízos éticos usando o próprio raciocínio em lugar da Palavra de Deus. Mas Deus ainda é o juiz supremo que decide o que é certo e errado. (2) As Escrituras dizem que todos os que agem como se fossem seus próprios deuses ‘desaparecerão da terra e de debaixo deste céu’ (Jr 10.10,11). Este será também o destino do anticristo, que reivindicará ser Deus (2Ts 2.4)” (Bíblia de Estudo Pentecostal — Edição Global. Rio de Janeiro: CPAD, 2022, p.13).

 SUBSÍDIOS ENSINADOR CRISTÃO

 

 

O CORPO E AS CONSEQUÊNCIAS DO PECADO

  A partir do relato de Gênesis, podemos entender que a Queda do homem trouxe muitos problemas para a humanidade. Os mais grave dentre eles é a morte do corpo. Desde quando criou o ser humano, o propósito de Deus era que o homem vivesse eternamente e desfrutasse das bênçãos disponíveis na criação. Por isso, o instituiu no jardim do Éden, um lugar próspero e de plena paz. Ali, Adão, juntamente com sua esposa Eva, tinha todos os recursos à disposição (Gn 2.7,16,17). O sofrimento, as aflições e as doenças tanto físicas quanto emocionais não faziam parte do propósito divino para a vida humana neste mundo. Mas, a natureza humana declinou em razão do pecado e a morte entrou neste mundo (Rm 5.12). Por essa razão, os males desta vida imperam sobre o corpo e o levam a uma morte lenta e angustiante.

  A principal consequência do pecado na vida humana é a morte. A respeito desse assunto, na obra Teologia do Novo Testamento (CPAD), Roy B. Zuck discorre que o apóstolo “Paulo usa a palavra ‘morte’ em relação à morte física e espiritual ao descrever que ‘o salário do pecado é a morte’ (Rm 6.23). A morte espiritual é a condição de separação de Deus: ‘A inclinação da carne é a morte’ (Rm 8.6). Se a condição atual dos não-cristãos não mudar, a vida deles terminará em morte eterna, a separação final da presença de Deus. A vida controlada pelo pecado leva à morte (6.16). Todas as pessoas, por serem filhas de Adão, começam a vida sob o domínio da morte (5.14). Até mesmo os cristãos lutam com a mortalidade, a separação da alma e espírito do corpo na morte física. Conforme declara Paulo, há a expectativa de que, um dia, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, a morte será derrotada (1Co 15.54). Todavia, até lá, ‘nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo’ (Rm 8.23)”. (2008, pp.288,289).

  Há, porém, nos Evangelhos, uma nova esperança trazida à vida daqueles que aceitam a fé em Jesus como Salvador e Senhor. A Palavra de Deus nos revela quem crê no Filho de Deus passa da morte para a vida (Jo 5.24), a saber, aqueles que creem em Seu sacrifício na cruz do Calvário como ato que remove a culpa dos pecados e oferece o perdão divino. Desde então, podemos experimentar uma nova natureza espiritual capaz de obedecer a Deus e manter-se em comunhão plena com Ele (1Jo 5.4,5). O grande desafio agora é a mortificação das obras da carne contaminada pelo pecado. O apóstolo Paulo ensina que, pelo Espírito, mortificamos a natureza pecaminosa e produzimos as virtudes do Fruto do Espírito (Gl 5.16).

 CONCLUSÃO

Apesar de todo o abatimento e sofrimentos que experimentamos em nosso corpo como consequência do pecado e de nossas próprias transgressões, em Cristo temos a certeza de uma Redenção completa, conquistada por sua obra perfeita na cruz do Calvário. Ele nos dará um novo corpo, eternamente transformado e saudável (Ap 21.4-6; 22.2).

    CPAD : Espírito, Alma e Corpo — A restauração integral do ser humano para chegar à estatura completa de Cristo

Comentarista: Silas Queiroz

Lição 3: O corpo e as consequências do pecado

 


  INTRODUÇÃO

   Os três elementos do ser humano foram afetados com a Queda. A primeira consequência foi de ordem espiritual: a imediata perda da comunhão com Deus, com terríveis consequências também na alma, como vergonha, culpa e medo, que Adão e Eva não conheciam. No versículo 19 de Gênesis 3, vemos uma síntese das consequências causadas ao corpo. Em um curto e objetivo texto, Moisés trata do sofrimento diário à falência total da matéria e o seu retorno ao pó. A expressão “até que tornes à terra” abrange a jornada de agruras do ser humano em toda a existência terrena, o que inclui traba lhos penosos e debilidades do corpo, até a sentença finalmente ser cumprida com o seu tombamento ao solo de onde foi tirado. E o homem volta a ser simplesmente pó: “és pó e em pó te tornarás”. Triste fim para quem fora criado para viver eternamente em comunhão com o Criador. É o fim funesto e miserável que nos foi legado pelo primeiro Adão, mas há também um fim glorioso assegurado por Cristo, o último Adão (1 Co 15.45,48).

  I - DA PERFEIÇÃO À MORTE

  1. A certificação divina

  Um Deus perfeito criou tudo perfeito, inclusive o ser humano. O próprio Deus certifica a sua obra. Primeiro, depois de haver criado o Universo e todos os animais (Gn 1.25) e, segundo, criado o homem, a coroa da criação (v. 31). Trata-se, portanto, de uma certificação de toda a criação. A distinção entre as expressões “era bom” e “era muito bom” não significa a existência de defeito ou qualidade inferior na ordem antes criada, mas a constatação de que faltava um ser para dirigir tudo o que fora dantes criado, o homem. Assim, formado o regente, todo o conjunto da obra divina recebe o selo de “minto bom”.

  O perfeito funcionamento do Universo incluía um espaço habitado pelo homem, adornado de seres animados e inanimados, todos à disposição do único ser racional, inteligente e autoconsciente, o ser humano. Adão e Eva receberam um lugar especial para viver, um jardim no Éden, especialmente plantado por Deus para abrigar a sua principal criatura (2.8). A vida humana era plena em todos os aspectos. Não havia infortúnio algum. O primeiro casal vivia em completa harmonia vertical (com Deus) e horizontal (entre si), além de não sofrer qualquer dano originado da natureza, incluindo os animais. Nada afligia o homem! Por mais que tentemos imaginar quão aprazível era a vida de Adão e Eva antes da Queda, ficaremos aquém da realidade que viveram. Afetada pelo pecado, nossa mente não concebe um ambiente sem 0 conhecimento do mal, da mesma forma como não conseguimos imaginar a plenitude da glória futura (Rm 8.18; 1 Co 2.9; 13.12; 1 Jo 3.3).

   2. Pecado e dor

   De uma experiência literalmente paradisíaca, Adão e Eva passaram a viver os flagelos da dor no espírito, na alma e no corpo. Houve um complexo de alterações na ordem criada e na experiência humana, sendo o mais grave deles a perda da comunhão com Deus, que é a morte espiritual. Bentho e Plácido (2019, p. 65) trabalham o conceito de “separação global”, lembrando que a Queda levou o homem à separação não apenas de Deus, mas também de si mesmo, o que originou os problemas psicológicos (Gn 3.10), dos outros homens (origem de problemas sociológicos ou de relacionamento, Gn 4.8; 4.23; Rm 1.29-31) e da natureza (os problemas ecológicos, Gn 3.17; Rm 8.20-22).'

   Nosso foco aqui ê tratar das dores manifestadas no corpo, decorrentes de fatores imateriais e materiais. O ambiente tornou-se adverso, amaldiçoado por causa da transgressão de Adão (Gn 3.17,18,22-24). A beleza orgânica e a sua funcionalidade foram alteradas: a terra passou a produzir espinhos e ervas daninhas (Gn 3.18). A indizível sensação de bem-estar que o homem desfrutava, oriunda de Deus e que fluía em todo o seu ser (Gn 2.7,25;Jó 33.4), foi substituída por inadequação, vergonha, culpa, medo, angústias e tristezas. Todo esse com plexo de problemas seria somado para promover padecimento e degeneração no corpo, culminando com a morte física (Gn 3.19). Um terrível inimigo de todos os homens, nem mesmo todo o cuidado do corpo é capaz de evitá-la. Mesmo os maiores tesouros foram capazes de impedir que a morte pusesse um fim à existência dos homens mais ricos e poderosos de todos os tempos, desde os grandes impérios do Egito, Babilônia, Pérsia, Grécia ou Roma. Agora, em tempos de ciência tão avançada, por mais que se cuide do corpo, há um limite para essa vida terrena. Em um passado recente (2020-2023), todas as nações da terra experimentaram uma terrível pandemia, a da COVID-19, que ceifou mais de 15 milhões de vidas em todo o mundo, sem discriminar posição política ou condição social ou econômica. Depois da Queda, o caminho natural de todo o ser humano é envelhecimento e morte (Ec 12.1-7).

   3. Velhice, autenticidade e gratidão

   O fato de a morte ser o destino de todos os homens nesta existência (ressalvados os salvos em Cristo vivos no dia do Arrebatamento), não significa que devemos viver descuidados em relação a nosso corpo. Devemos cuidar de nossa saúde, principalmente por meio de meios preventivos, evitando, sempre que possível, o acometimento de doenças. Ainda assim, devemos estar certos de que, mesmo saudáveis, avançaremos em idade e há um processo natural de degeneração das células ligada ao envelhecimento. Não é sábio negar essa realidade e procurar viver como se a juventude fosse eterna, como num conto de fadas.

   Dentre as muitas patologias identificadas nesses tempos de vida tão agitada e estranha, surgiu uma nova síndrome chamada gerontofobia: um terrível e mórbido medo de envelhecer que causa ansiedade e pro duz comportamentos incompatíveis com a idade. O envelhecimento, no entanto, nada mais é do que um caminho natural para todo ser humano, não podendo ser diagnosticado como transtorno. Lembremo-nos de que a Bíblia fala da velhice de maneira natural, clara e direta, ressaltando a sua importância e honra (Lv 19.32; Jó 12.12). Não se pode considerar depreciativo o emprego do termo “velho”, como têm sido distorcidos os sentidos de tantas outras expressões atualmente. Pelo contrário! Os velhos são dignos de maior atenção e honra, seja pela idade alcançada, seja pelo exemplo e experiências de vida, seja pelas limitações que os anos trazem e precisam, sim, ser compensadas com cuidados adequados, devidos por todos nós. A questão, portanto, não é meramente vernacular.

   No processo de rejeição da palavra “velho”, passou-se depois para o emprego do termo “idoso”; logo após “pessoa idosa”; em seguida, “terceira idade”; e, por fim, “melhor idade”, um eufemismo moderno usado para suavizar essa condição humana.2 Deixando de lado qualquer discussão in frutífera, o mais sábio a cada um de nós é considerar o momento próprio da vida, compreendendo-o e adotando um comportamento compatível. Em alguns casos, a rejeição da idade leva idosos a práticas de pouca adequação. Estilos estéticos e cosméticos exagerados terminam por comprometer a pró pria sobriedade. As Escrituras ensinam-nos reconhecer as características e o valor de cada etapa de nossa existência (Pv 20.29). Cuidar de si é muito importante, mas é preciso ser sábio e viver todas as fases da vida de maneira sóbria, em profunda gratidão e temor a Deus (Ec 8.5,6; 12.13).

   II - A RESPONSABILIDADE HUMANA

   1. Corpo e livre-arbítrio

   A mordomia do corpo faz parte da responsabilidade pessoal de cada ser humano, a despeito das paixões da natureza pecaminosa herdada de Adão. Conforme enfatiza a Declaração de Fé das Assembléias de Deus no Brasil, o pecado original desfigurou a imagem de Deus no homem, mas não a aniquilou (Gn 9.6; Tg 3.9) (2025, p. 99). O homem passou a conhecer não somente o bem, mas também o mal, como consequência de sua infeliz e grave decisão no Éden (Gn 3.22). Mas apesar de todo o ser humano nascer com tendência ou inclinação para o pecado, contínua dotado de livre-arbítrio. Por isso, a Queda não serve como justificativa para qualquer atitude de degradação do corpo. Cabe ao homem decidir como usá-lo, para o bem ou para o mal. Isso está explícito na afirmação de Deus a Caim (Gn 4.7).

   Esse entendimento bíblico é fundamental para que não cedamos ao per verso pensamento de que o homem está liberado para seguir os desejos do seu coração, possuindo o corpo para os seus mais distintos e exóticos prazeres, e não para a glória do Criador, conforme o propósito por Ele estabelecido, a começar pelo casamento heterossexual e a procriação (Gn 1.27,28). A base do comportamento humano de negação dessa realidade bíblica é o entendimento de que o que deve prevalecer não é o sexo biológico, mas os sentimentos de cada pessoa. A partir disso, há um universo cada vez mais amplo e complexo de teorias e classificações de “gênero”, abarcando inúmeras categorias de pessoas: gênero-queer (pessoas que não se consideram nem masculinas nem femininas), bigênero, pangênero, gênero fluído e muitas outras, incluídas no termo principal, transgênero, que passou a ser usado como um guarda-chuvas para essa variedade de categorias de “gêneros” (PEARCEX 2022, p. 198).3

   Essa questão de “gênero” domina cada vez mais o debate público e inse- re-se nas estruturas governamentais e não governamentais, enquanto intensificam-se as pesquisas científicas em busca de uma suposta causa genética para essas disfunções corporais. Mas, como acentua Pearcey (ibid., p. 31), “apesar das pesquisas intensivas, os cientistas não conseguiram evidências claras de uma causa genética”. Muitas pessoas acreditam estar presas no “corpo errado”.4 O apóstolo Paulo classificou como “concupiscências do coração”, “imundícia”, “paixões infames” e “torpeza” essas alterações do uso natural do corpo (Rm 1.24-27). As Escrituras advertem-nos de que devemos possuir nosso corpo em santificação e honra, o que inclui a observância da pureza inclusive no leito conjugal (1 Ts 4.4-6; Hb 13.4). Quanto aos que vivem presos às paixões carnais, nosso sentimento deve ser de compaixão, jamais de gracejos ou ultrajes. Pelo contrário! Devemos rogar ao Senhor, com sinceridade de alma, que opere neles uma profunda libertação, pois nada é impossível para Deus.

   2. A potencialização do sofrimento

   Na esfera da sua responsabilidade, o homem faz com que, além das consequências naturais decorrentes do pecado original, o corpo também sofra impactos das transgressões que pratica ao longo da vida, inclusive contra a sua própria matéria (Lm 3.39; Rm 1.24; 1 Co 6.18). Isso faz com que, ao mal natural, que é a desordem e decadência do Universo (calamidades naturais, algumas doenças etc.) seja somado o mal moral, que é a iniquidade comedda por criaturas dotadas de vontade, conforme assinala Bruce R. Marino (1996, p. 279). Essa potencialização do sofrimento decorre das obras da carne, listadas por Paulo em Gálatas 5.19-21. É a manifestação do espírito de inimizade contra Deus, que Satanás, a antiga serpente, instilou no coração humano ainda no Éden (Gn 3.1-6; Tg 4.1-4; Ap 12.9).

   Esse quadro de corrupção foi observado logo nas primeiras gerações e somente se agrava ao longo dos tempos (Gn 6.1-5; Mt 24.12,37; 2 Tm 3.13).

    As drogas têm sido um dos instrumentos de profunda degradação do corpo. O mais recente relatório mundial sobre drogas divulgado pela ONU (Organização das Nações Unidas), de junho de 2024, expõe o agravamento do problema. Há um surgimento cada vez mais crescente de substâncias entorpecentes ilícitas, provocado por um crescimento do número de dependentes dessas drogas. O resultado é o aumento de transtornos mentais e outros danos à saúde, além de agravar o problema da segurança pública, sem contar a multiplicação dos dramas pessoais e familiares. O relatório aponta que, no ano de 2022, mais de 292 milhões de pessoas usaram drogas, um aumento de 20% em relação à década anterior.5 6 Os perigos na área da sexualidade também crescem, seja entre adultos, sejam entre crianças e adolescentes — estes, os mais vulneráveis.

   Essas e tantas outras questões típicas das mazelas humanas produzidas pela degradação moral não podem ficar no campo do alarmismo ou da teorização. Cabe a cada família, especialmente as cristãs, refletir sobre os seus modelos de vida. A devoção dos pais, em amor responsável, é fundamental para a boa criação dos filhos. O ensino clássico de Provérbios 22.6 é para que os filhos sejam ensinados no caminho que devem andar e não no que querem andar. Isso exige dos pais a correta dosagem de carinho e disciplina desde os primeiros anos de vida. Como observa o dr. James C. Dobson (2000, p. 20), as crianças não nascem como “folhas em branco”, como ensinaram Sigmund Freud, o pai da psicanálise, e J. B. Watson, o criador do beluimonsmo!' Esses autores, assim como tantos que seguem as suas idéias, consideram que tudo o que uma criança virá a ser, tanto mau como bom, será resultado das experiências proporcionadas pelo mundo ao seu redor, como acentua Dobson, o que é um terrível e perigoso equívoco. As crianças não nascem neutras em relação ao bem ou mal, e muito menos “boazinhas”. Todos viemos ao mundo já inclinados para o mal. Por isso, é preciso que os pais — principalmente estes — ensinem o caminho do amor, do respeito, da justiça, da verdade, da honestidade etc.

  Nesse campo de responsabilidade dos pais e educadores em geral, estão os ensinos quanto ao corpo e o próprio cuidado deles, especialmente nas fases de vulnerabilidade. Crianças e adolescentes dependem cada vez mais de um vigilante, amoroso e firme cuidado dos pais no temor do Senhor (Pv 3.12; 4.10-15; 14.27; Ef 6.4). Para a proteção física e moral, aliás, o cuidado deve ser presencial, evitando-se, o tanto quanto possível, toda e qualquer terceirização, além de uma vigilância espiritual constante. Qualquer explo ração ao corpo de uma criança ou adolescente tem o potencial de produzir danos irreparáveis ou de difícil reparação para toda a vida.

  III - DO ABATIMENTO À GLORIFICAÇÃO

  1. A realidade das enfermidades

   As doenças também passaram a fazer parte da vida humana como con sequência do pecado. Elas surgem no processo de degeneração dos órgãos e sistemas do corpo, em decorrência de causas internas e externas. Estão entre os fatores que levam o ser humano de volta ao pó (Gn 3.19). Como escreve Gregg R. Allison (2023, p. 243), existem muitos fatores que escapam de nosso controle, como nossa constituição genética e nossas vulnerabilidades biológicas, que podem levar ao desencadeamento de doenças físicas, como obesidade e problemas cardíacos, ou mentais, como depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia. Há, também, fatores ambientais, como observa Allison: “Nossa família natural ou de criação exerce influência sobre nossos hábitos corpóreos, levando a sofrimentos provocados por descuido de nossa saúde geral ou à falta de desenvolvimento físico em razão de um déficit de amor familiar” (idem).

   Há, também, muitas enfermidades causadas ou potencializadas por hábi tos de nossa responsabilidade. De uma forma ou de outra, são fatores que nos levam ao abatimento. Ninguém está imune ou isento de sofrê-los, inclusive os cristãos. Escrevendo a Timóteo, Paulo menciona o seu cooperador Trófimo, que deixara doente em Mileto (2 Tm 4.20). Ao próprio Timóteo, o apóstolo já havia recomendado: “Não bebas mais água só, mas usa de um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades” (1 Tm 5.23). Tudo indica que o jovem obreiro tinha um corpo debilitado por algumas doenças, provavelmente distúrbios gástricos. Jesus tem poder para curar-nos de todo o mal (Is 53.4; Mt 4.23; Hb 13.8), mas precisamos ter serenidade, sensatez, paciência e firmeza na fé se enfrentarmos sofrimentos persistentes (Jó 1.20-22; 19.25).

   2. Enfado e canseira

   Um dos textos bíblicos mais realistas sobre a velhice — e também dramático, apesar de poético — é Eclesiastes 12.1-7. Nele, Salomão procura ensinar-nos a melhor maneira de empreender a viagem dos fantásticos dias da mocidade ao crepúsculo da vida, culminando com o retorno ao pó. Esse processo, aliás, é implacável, mesmo para os que alcançam a extraordinária bênção de não ter o corpo abatido pelas doenças. O próprio processo de envelhecimento produz canseira e enfado (SI 90.10). Limitações e fraquezas aparecem ao longo do tempo, alterando toda a estrutura humana. Por mais que não se queira pensar nesse tempo, é uma realidade que pode ser assistida sempre próxima de nós, em pessoas da família, irmãos ou amigos, que já alcançaram idades avançadas.

   Ter consciência da velhice como uma realidade iminente e não a sofismar é importante para nosso autoconhecimento, como já vimos, mas é fundamental também para uma convivência sem orgulho e acepção de pessoas (G16.10; Tg 2.1). Ricos e pobres são como a erva que seca e a flor que murcha e cai (Tg 1.9- 11; 1 Pe 1.24). As rugas chegam para todos. As debilidades da estrutura ósseo- -muscular também. Todos dependemos uns dos outros e somos profundamente carentes de Deus Jo 13.34; 17.20-23; G16.2,9,10). Por isso, é importante que, na mordomia do corpo, invistamos mais em comunhão. Primeiro, na família, mas também na igreja, como nos legaram os crentes primitivos (At 2.42-46).

   3. O corpo glorificado

   Apesar de todas as suas debilidades, o corpo humano pode ser alcan çado pelos efeitos da Redenção em Cristo (Rm 8.23). Todo o salvo, que foi regenerado e vive em santificação, aguarda a glorificação. Como disse Paulo, nosso corpo abatido será transformado para ser conforme o corpo glorioso de Cristo, segundo o seu eficaz poder (Fp 3.20,21). O verbo transformar nesse texto é metaschermtizo, no grego, e significa “mudar a forma”. Será a mudança do corpo carnal e mortal para o celestial, espiritual e imortal, semelhante ao de Cristo Jesus, o Homem Perfeito (Rm 8.29; 1 Co 15.40-49).

   Será um tipo de transformação sobrenatural, que ultrapassa nossa imaginação. O próprio Paulo conceituou como um “mistério”. Será a vitória final do crente, proporcionada por Cristo, sobre todo o mal causado ao corpo pelo pecado, incluindo a morte, que não mais terá domínio sobre os salvos glorificados. Conforme o Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal (2009, p. 180),

   O maior inimigo de todo o corpo humano é a morte. Para aqueles que não têm esperança em Cristo, a morte representa o fim de tudo. Os cristãos receberam uma perspectiva inteiramente diferente. Para os crentes, a morte não representa o fim de tudo, mas simplesmente uma passagem para a vida eterna. A maioria dos cristãos irá experimentar a morte; aqueles que ainda estiverem vivos no momento da volta de Cristo não irão enfrentar a morte, mas reconhecerão muitos que morreram. Mas, quando o nosso corpo perecível, que é mortal, se revestir da imortalidade, a vitória final sobre a morte terá sido alcançada.

   Na sua condição natural (“carne e sangue”), o ser humano não herda os céus, mas o corpo também não será descartado; será redimido (Rm 8.23). De alguma maneira gloriosa, Deus transformará nosso corpo abatido em um corpo glorificado (1 Co 15.50-54).

   CONCLUSÃO

   Deus criou o homem em estado de perfeição, mas o pecado trouxe muitas consequências para a realidade humana em todos os aspectos, incluindo o corpo. Algumas dessas consequências são naturais por causa dos efeitos dire tos da Queda; outras decorrem de práticas pecaminosas pessoais ou hábitos não saudáveis, individuais ou coletivos, que contribuem para a fragilização da matéria. Apesar de todo o abatimento e sofrimentos a que somos sujeitos em nosso corpo, temos em Cristo a certeza de uma Redenção completa, conquistada pela sua obra perfeita na cruz do Calvário. Ele certamente nos dará um novo corpo.

    O Corpo e as Consequências do Pecado | 53

 

 


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