sexta-feira, 26 de setembro de 2025

CPAD : A Igreja em Jerusalém — LIÇÃO 12 : O Caráter Missionário da Igreja de Jerusalém

 

 


E

ste capítulo trata de um assunto importantíssimo para a história do cristianismo: o início da missão transcultural da Igreja. Até esse ponto do livro de Atos, o evangelho estava circunscrito a Jerusalém e as suas adjacências. Em outras palavras, o evangelho estava presente em Jerusalém, já tinha alcançado as regiões da Judeia e Samaria, mas não avançado rumo aos “confins da terra”. Nesse ponto da missão da Igreja, os “confins” da terra começam a ser alcançados. Dizendo isso de outra forma, a igreja dá início à sua missão transcultural. Gentios que não tinham ainda contato algum com o evangelho passam a ouvi-lo da boca de cristãos que haviam sido dispersos da cidade de Jerusalém.

   Esses crentes, embora perseguidos e desterrados da sua pátria, ao chegarem a terras estrangeiras e desconhecidas, não se intimidam diante de outra cultura, nem tampouco se calam. Em vez disso, eles compartilham sua fé, falando com entusiasmo a Palavra de Deus.

   O êxito acontece quando muitas pessoas creem nas Boas Novas de salvação e entregam a sua vida ao Senhor Jesus. A igreja de Jerusalém fica sabendo do êxito missionário desses cristãos dispersos e enviam um obreiro experiente para ajudar na implantação e discipulado da nova igreja que havia sido formada. E dessa forma que a obra missionária sai de Jerusalém para Antioquia, uma importante cidade do Império Romano localizada na Síria.

   A Missão Transcultural Pentecostal

   Praticamente todas as denominações do cristianismo histórico e do movimento pentecostal lançaram-se na missão transcultural. Os luteranos, por exemplo, chegaram ao Brasil ainda bem cedo. A presença deles na terra de Vera Cruz data do ano de 1532, enquanto os huguenotes, protestantes franceses, celebraram o primeiro culto no Brasil em 1577. Os batistas chegaram ao Brasil na segunda metade do século XIX, e os pentecostais, no início do século XX. O primeiro missionário pentecostal, vindo dos Estados LTnidos, a chegar no Brasil foi Louis Francescon. Ele chegou aqui em 1910 e fundou a Congrega ção Cristã do Brasil. Pouco tempo depois da chegada de Francescon, também vindo dos Estados LTnidos, aportaram na cidade de Belém, Pará, em 1910, os missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg. Vingren e Berg fundaram em 1911, em Belém, PA, a missão “Fé Apostólica” e, em 1918, rebatizaram a recém-implantada igreja com o nome de “Assembléia de Deus”.1 Depois de Vingren e Berg, muitos outros missionários pentecostais suecos juntaram-se aos dois pioneiros.

  Sem dúvida, a Assembléia de Deus no Brasil tornou-se um dos maiores e bem-sucedidos projetos de implantação de igreja no século XX. Poucos anos depois da sua fundação, a sua presença já era sentida em vários estados do Brasil. Hoje, mais de um século depois  da sua implantação e fundação, a Assembléia de Deus está presente em todos os estados da federação, tornando-se em termos numéricos o maior movimento evangélico do Brasil.

   Em 1913, três anos depois que chegou aqui no Brasil e dois anos após a implantação da missão pentecostal no Pará, o missionário Daniel Berg escreveu uma carta para ser publicada no jornal Sanningens Vittne, com sede em Minneapolis, Estados Unidos, e que tinha como redator A. A. Holmgren. Este foi um batista sueco, amigo de Vingren e Berg, radicado na América e que havia se pentecostalizado no aviva mento que ocorrera em Chicago entre 1906 e 1909.2

   Berg escreveu sobre o trabalho de implantação da igreja no Brasil:

   Pará, Brasil, junho de 1913 Meu querido irmão. Paz através do sangue! O Senhor é realmente bom, portanto, eu o louvarei. Ele tem me preservado até esta hora na fé em seu nome, até mesmo dos homens maus que aparecem em nosso caminho. Em breve a batalha terminará e nós descansaremos. Eu serei fiel a Jesus até que ele venha, custe o que custar, e também defenderei toda a verdade, que Jesus não apenas salva perfeitamente de todos os pecados, mas também batiza no Espírito Santo e no fogo. Louvado seja seu nome por essa experiência! Acabo de voltar de Bragança, onde Jesus abriu uma porta para sua palavra através de uma família que crê na verdade, e a irmã dessa família agora foi batizada nas águas e está buscando o batismo do Espírito. Tivemos uma reunião lá no final da noite de domingo e muitos vieram e ouviram a palavra do Senhor. Até mesmo em uma aldeia fora de Bragança, chamada Quatipuru, o Senhor começou a trabalhar de modo que agora há 22 pessoas que se renderam completamente a Jesus em um curto espaço de tempo, e há algumas semanas atrás, batizamos 7 delas em água e 2 na quinta-feira passada. Ontem à noite, Jesus batizou uma irmã no Espírito Santo em nossa missão aqui no Pará, e outra irmã há três semanas atrás. O Senhor terá a glória por tudo. Orem por mim para que eu possa estar pronto quando Jesus vier. Saudações a todos! Seu irmão em Cristo (Daniel Berg).3

   Nessa carta, vemos Berg, que, nessa época, estava radicado em Belém, PA, implantando uma igreja em Bragança, município daquele estado. De lá o missionário pentecostal assembleiano procurava alcançar outras localidades, como o povoado por ele citado, de nome Quatipuru. Observamos, portanto, que havia um trabalho de implantação da igreja seguido pelo discipulado. Da mesma forma, três meses após Berg ter escrito sobre o trabalho de implantação da igreja no Brasil, Gunnar Vingren escreveu uma carta-relatório em que descreve as dificuldades e desafios encontrados na evangelização aqui no Brasil. E possível percebermos o ardor do trabalho missionário que tinham que lutar em várias frentes. Por um lado, havia a perseguição religiosa; por outro, as dificuldades geográficas de um país com dimensões continentais; e, por outro, a escassez de obreiros. Em dezembro de 1913, Vingren escreveu:

  Pará, Basil,

  Io de dezembro de 1913.

  Meu amado irmão A. A. Holmgren,

  Graça e paz!

   Louvor, honra e glória ao Senhor Jesus que sofreu e morreu por nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação e que em breve virá para receber sua noiva que o espera. Caro irmão, obrigado por sua carta com a letra de câmbio de 10 dólares anexa. O Senhor o abençoe. Depois que o Ir. Daniel foi restaurado da saúde (pois Jesus o curou), ele viajou para casa na Suécia para visitar seus pais e descansar um pouco e, depois de alguns meses, retornar para cá. Ele partiu em 15 de novembro. No entanto, ele pretende ficar um pouco em Portugal em sua viagem de volta. Seu endereço é: Vargón, Rânnum, Suécia. Eu louvo o Senhor por seu cuidado conosco por meio de vocês. No entanto, achei que não estava de acordo com a vontade de Deus deixar o campo. Talvez mais tarde o Senhor por suas intercessões me leve a obter algum tempo de descanso, embora não como eu quero, mas como o Senhor quer. Irmão, ore para que o Senhor envie trabalhadores para sua grande seara. Nesse grande país, que é 18 vezes maior do que a Suécia ou maior que os Estados Unidos e o Alasca4 juntos, agora estou sozinho até onde sei, que defende um evangelho pleno. Lembre-se de mim em suas orações, pois a batalha contra os poderes das trevas está cada vez mais acirrada. Até agora, o Senhor tem tido sua mão protetora sobre mim, de modo que ninguém me prejudicou, apesar de meus muitos e amargos inimigos. Jesus está fazendo e realizando uma obra maravilhosa aqui e, por isso, o inimigo está com raiva. Glória a Jesus! Desde a última vez que escrevi para você mais de 50 pessoas foram batizadas em água e cerca de 68 foram batizadas com o Espírito Santo e com fogo dando-lhes todo o testemunho da Bíblia do batismo do Espírito, falando em novas línguas, e os doentes foram curados. Os crentes receberam línguas, interpretação, profecias e visões. O poder de Deus tem sido maravilhosamente revelado. Toda honra a Jesus porque a obra é do Senhor. Isso naturalmente enfurece o inimigo. Em dois lugares, os crentes foram presos várias vezes e tiveram que suportar muita zombaria e escárnio, mas, apesar de tudo jejuando ao Senhor e alegres em Jesus. Os protestantes (os chamados cristãos, de várias denominações) e os católicos escreveram os mais horríveis artigos mentirosos sobre mim e sobre esta obra do Senhor. Já passa da meia-noite, portanto não posso escrever mais nada desta vez. O barco está partin do agora pela manhã. O Senhor os abençoe. Cumprimentem os santos com muito carinho. Seu irmão, lutando pela causa do Senhor” (Gunnar Vingren).5

   O registro dessas cartas, mostrando o pioneirismo desses missionários estrangeiros fazendo um trabalho de missão transcultural, implantando igrejas em solo brasileiro, não tem apenas valor histórico. E um documento importante também porque, além de revelar como se deu a incursão da mensagem evangélica pentecostal no Brasil, mostra como foi formada a identidade da Assembléia de Deus brasileira. Esse registro também mostra que esses missionários seguiam os mesmos princípios usados na implantação da igreja pelos primeiros cristãos.

   Missão Transcultural Antioquia

  “E os que foram dispersos pela perseguição que sucedeu por causa de Estêvão caminharam até à Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra senão somente aos judeus. E havia entre eles alguns varões de Chipre e de drene, os quais, entrando em Antioquia, falaram aos gregos, anunciando o Senhor Jesus” {At 11.19,20). Esse texto do livro de Atos mostra como teve início a missão transcultural da igreja de Jerusalém. Lucas detalha que isso decorreu em virtude da perseguição que sobreviera a Estêvão, um dos sete escolhidos para o serviço diaconal. A perseguição dispersou os crentes por diversas localidades. Alguns deles chegaram à cidade de Antioquia, na Síria. Antioquia era uma importante cidade do Império Romano, com um centro cultural muito diversificado e uma grande população gentílica.

   Os cristãos que ali chegaram trataram logo de compartilhar a sua fé em Cristo com os gentios, e o resultado não demorou a aparecer: “E a mão do Senhor era com eles; e grande número creu e se converteu ao Senhor” (At 11.21). Os convertidos aqui não eram prosélitos do judaísmo, judeus helenistas, nem tampouco gentios pertencentes ao grupo dos “tementes a Deus”, mas gentios totalmente pagãos. E exatamente esse aspecto que caracteriza a natureza transcultural da igreja de Jerusalém nessa fase da sua história. Os primeiros “missionários” cristãos estavam levando o evangelho além das fronteiras das suas terras de origem e para uma cultura diferente da deles.

  Duas coisas ficam em destaque na redação lucana. Em primeiro lugar, esses “missionários” eram, na verdade, crentes leigos que compartilhavam a sua fé à medida que se deslocavam. Não dá para deduzir do texto que eles tivessem algum treinamento formal para a obra missionária. Eles não foram enviados pela igreja de Jerusalém como missionários para Antioquia; isso iria acontecer posteriormente (At 13). Eram crentes leigos desterrados que não se intimidavam ao compartilhar a sua fé em Cristo. Mesmo sem um treinamento formal em missões, esses crentes demonstravam forte consciência missionária. Eles sabiam que cumprir o “Ide” de Jesus era responsabilidade deles. Talvez uma das maiores tragédias da igreja de hoje é que temos muitos cristãos, mas poucas testemunhas de Jesus.

   Michael Green destaca que:

   Em Atos não foram os apóstolos que levaram o evangelho para todas as partes, mas, sim, os missionários “amadores”, as pessoas que foram expulsas de Jerusalém em decorrência da perseguição que começou após o martírio de Estêvão (At 8.4). Foram estes que avançaram pela planície costeira até a Fenícia, atravessaram o mar até Chipre, e chegaram até Antioquia, no norte (At 11.19-21). Eles eram tão evangelistas quanto qualquer apóstolo. Na verdade, foram eles que deram os dois passos revolucionários de pregar a gregos que não tinham vinculo com o judaísmo, e de iniciar a missão aos gentios, a partir de Antioquia. Não foi um esforço planejado. Foram expulsos de sua base em Jerusalém, e se espalharam por todas as terras difundindo as boas-novas que tinham lhes trazido alegria, descanso e uma vida nova. De modo geral, a pregação não deve ter sido formal, mas através da conversa informal com amigos e novos conhecidos, em casas e tavernas, nas ruas e ao redor das barracas do mercado. Eles foram por todos os lados falando do evangelho, de maneira espontânea, com o entusiasmo e a convicção de quem não recebe pagamento para dizer esse tipo de coisa. Em consequência, foram levados a sério, e o movimento se espalhou, principalmente entre as classes mais baixas.6

   Em segundo lugar, Lucas acrescenta no seu texto a informação de que “a mão do Senhor era com eles”. No contexto da teologia carismática de Lucas, essa observação é uma forma de referir-se à capacitação do Espírito Santo no testemunho daqueles crentes. A “mão do Senhor” aqui tem o mesmo peso da “mão do Senhor” que vinha sobre o profeta Ezequiel (Ez 3.22; 37.1). É uma referência à capacitação profética que estava sobre os primeiros missionários cristãos. Isso significa que a pregação da Palavra foi acompanhada pela demonstração do Espírito entre os gentios. Se os textos que narram a ação do Espírito Santo capacitando os crentes para realizarem a obra de Deus forem retirados do livro de Atos, certamente teremos um livro mutilado, vazio e sem sentido algum. Sem o poder do Espírito capacitando os crentes, a Igreja não é Igreja de Jesus.

   Discipulado e Suporte Missionário

   “E chegou a fama destas coisas aos ouvidos da igreja que estava em Jerusalém; e enviaram Barnabé até Antioquia” (At 11.22).

   A obra de implantar igrejas precisa não apenas da presença dos missionários implantadores, mas também do suporte que lhes é dado. Sem apoio ao trabalho missionário, este está fadado ao fracasso. Esse fato era de conhecimento da igreja de Jerusalém, pois tão logo ela ficou sabendo do surgimento da igreja de Antioquia, enviou para lá Barnabé, um dos seus principais líderes. Barnabé era um discipulador. Ele já havia trabalhado no discipulado de Paulo (At 9.27) e agora fora enviado para apoiar o trabalho em Antioquia: “O qual, quando chegou e viu a graça de Deus, se alegrou e exortou a todos a que, com firmeza de coração, permanecessem no Senhor” (At 11.23). Esse foi o modelo em Antioquia e deve ser, portanto, o modelo hoje.

   No início da Assembléia de Deus, os missionários responsáveis pela implantação da igreja no Brasil precisaram de um grande suporte e apoio missionário para terem êxito na sua missão. Esse fato fica bem visível quando lemos as primeiras cartas que eles enviaram daqui do Brasil para aqueles que lhes serviram de base e sustento missionário. Esse fato pode ser visto, por exemplo, no trabalho de implantação da igreja em Porto Alegre pelo missionário pentecostal sueco Gustav Nordlund. Este, vindo da Suécia, chegou à capital gaúcha em 1924, ano em que implantou a igreja naquele estado. Cinco anos depois de ter implantado a igreja em Porto Alegre, Nordlund começou o trabalho de implantação de igrejas no interior do estado.

   Em uma carta enviada também ao periódico Testemunha da Verda de (Sanningens Vittne), ele fala sobre as primeiras conversões em solo gaúcho e a necessidade de apoio financeiro para implantar a igreja na cidade de Ijuí, Rio Grande do Sul.

   Nordlund escreveu:

   Porto Alegre, Brasil, outubro de 1929

   Amados irmãos e leitores de S. V7

   Que a paz esteja com vocês!

   A obra do Senhor na cidade mais ao sul do Brasil (Rio Grande do Sul) está progredindo constantemente, pois as almas estão se rendendo a Deus e sendo salvas, batizadas em água e no Espírito Santo. Bendito seja o nome do Senhor! Várias portas estão abertas para o evangelismo no estado, e a necessidade de obreiros é muito grande. Um lugar chamado Ijuhy8 [Ijuí], onde agora temos 19 batizados nas águas e a maioria deles também no Espírito Santo, fica a 25 horas de trem de E Alegre. A viagem até lá custa cerca de 20 dólares. Só posso visitar esse lugar uma vez a cada três meses, e então tenho de ficar quinze dias. O Senhor tem abençoado essas viagens, embora muito caras, para que acreditemos em uma vitória gloriosa se Jesus demorar. O Senhor também respondeu à oração e nos deu um precioso colaborador para nos ajudar. Ele é luterano, tem 25 anos, esposa e um filho pequeno. Ele estudou no seminário batista em Riga.9 O Senhor o batizou no Espírito Santo e agora ele se sente chamado para trabalhar conosco. Ele não tem apoio de ninguém, mas quer confiar na ajuda do Senhor. Por isso, nós o convidamos para vir à nossa casa e comparti lhar conosco o que o Senhor nos dá, mas como nosso apoio da Suécia não é mais do que precisamos, acreditamos que o Senhor atenderá às nossas necessidades. Por isso, gostaríamos de informar aos nossos amigos e aos mantenedores do Senhor que, se o Senhor pedir a alguém que sacrifique algo por esse servo do Senhor, os fundos podem ser emiados por meio do irmão Holmgren. Seu nome é Janiz Pinko. O Ir. Pinko também fala russo e, se o Senhor assim o orientar, também assumiremos o trabalho entre os russos neste estado. Fraternalmente no Senhor” (Gustav Nordlund).

   Traduzindo o Evangelho —

   A Questão da Contextualização

   Outro aspecto da obra transcultural da igreja de Jerusalém pode ser visto na questão da contextualização da pregação — aquilo que Michael denomina de “traduzir” o evangelho. Alguns nomes e expressões de natureza eminentemente judaicas são adaptadas ou, então, suprimidas na evangelização dos gentios. Os missiólogos obser vam que expressões tais como: “Cristo” e “Reino de Deus” eram bem compreendidas dentro da cultura judaica, mas fariam pouco sentido entre os gentios antioquenos.

   Ao comentar sobre a proclamação de Jesus como “Senhor ’ em Antioquia (At 11.20), Michael Green observa que:

   As boas-novas eram o senhorio de Jesus. Isso evidencia claramente uma evolução na proclamação. No primeiro estágio, as “boas-novas” eram a chegada do reino de Deus; a mesma mensagem proclamada por Jesus. Em um segundo estágio, passaram a ser que Jesus era o “Homem” escolhido para julgar os vivos e os mortos; era isso que os discípulos pregavam aos judeus. Em um terceiro estágio, Jesus foi anunciado como kyrios, o que sem dúvida incluía a mensagem judaica que Pedro trouxe para Cornélio, mas para mentes pagas deve ter tido um significado muito maior, e conotações bem diferentes de qualquer coisa imaginada por pregadores judaico-cristãos.10 11

   Dessa forma, Lucas informa que os cristãos que levaram o evangelho para Antioquia anunciavam o “senhor Jesus”. O termo “senhor” não apenas era bem conhecido na cultura gentílica em Antioquia, como também era carregado de significado e sentido. As Boas Novas, portanto, eram sobre o senhorio de Jesus. O mesmo evangelho que era pregado com poder em Jerusalém, agora contextualizado, também era pregado com poder em Antioquia. Deve, contudo, ser observado que “contextualização” não quer dizer “mutilação”. O evangelho em uma missão transcultural pode ser contextualizado sem, contudo, ser mutilado. Muitas vezes, em nome de uma suposta contextualização, muitos mutilam a mensagem da cruz.11

   Ed Stetzer pontua que:

   Plantar igrejas deveria implicar plantar igrejas missionais. Todavia, não confundamos os termos mentalidade missionária e missional. O primeiro se refere mais a uma atitude de importar-se com missões, sobretudo além-fronteiras. Missional significa pôr a missão em prática bem aqui onde estamos. Missional significa adotar a postura de um missionário, aprender a cultura à sua volta e adaptar-se a ela sem abrir mão de uma relação sólida com a Bíblia.12

   Assim, o evangelho deve ser visto não só no seu aspecto histórico, mas também supracultural. Embora o evangelho opere na cultura, ele está além dela. Ele não pode, por exemplo, ser reduzido à cultura ou etnia de um povo. Dessa forma, George W. Peter destaca que:

   O evangelho não é um fenômeno estritamente histórico. Ainda que opere na história, ele não é [produto] da história, como já mencionei. Aqui comprovo que o evangelho não é um produto étnico. Enquanto ele opera na cultura, ele não é da cultura. Ele está na cultura, mas além dela. Ele cria e molda a cultura, enquanto, ao mesmo tempo, julga a cultura. Ele é tanto a favor quanto contra a cultura. Ele é a dinâmica da cultura e é a fiscalização da cultura mais séria da cultura.

   O evangelho é supracultural porque é sobrenatural em origem, propósito, destino e objetivo. Ordens eclesiásticas e religiosas, como ordens, são instituições humanas. Elas podem ser um roupão com o qual o evangelho veste-se, mas não pertencem à natureza do evangelho. Não estamos, portanto, interessados em exportar padrões e formas eclesiásticas, teológicas ou religiosas, sejam ocidentais ou orientais, latinas ou africanas. Somos encarregados de proclamar o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual transcende cultura e regionalismo. A mensagem supracultural de juízo, cura e melhoria de vida, com o poder e a sabedoria de Deus, irão adicionar uma nova dimensão a qualquer cultura que reconheça Cristo como Salvador e Senhor.13

   Devemos ser gratos a Deus pelo trabalho transcultural da igreja e por aqueles que acreditaram na chamada de Deus para abraçá-lo. São pessoas que devem ter não apenas nossa admiração, mas, sobretudo, nosso reconhecimento e apoio. Foram o instrumento que o Espírito Santo escolheu para levar a gloriosa mensagem além-mar. Mesmo com as suas limitações, eles doaram-se, deixando-nos os seus exemplos e indicando o caminho pelo qual devemos trilhar.

   CPAD : A Igreja em Jerusalém — Doutrina, Comunhão e Fé: a base para o crescimento da Igreja em meio às perseguições

Comentarista: José Gonçalves

 


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