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E |
ste
capítulo trata de um assunto importantíssimo para a história do cristianismo: o
início da missão transcultural da Igreja. Até esse ponto do livro de Atos, o
evangelho estava circunscrito a Jerusalém e as suas adjacências. Em outras
palavras, o evangelho estava presente em Jerusalém, já tinha alcançado as regiões
da Judeia e Samaria, mas não avançado rumo aos “confins da terra”. Nesse ponto
da missão da Igreja, os “confins” da terra começam a ser alcançados. Dizendo
isso de outra forma, a igreja dá início à sua missão transcultural. Gentios que
não tinham ainda contato algum com o evangelho passam a ouvi-lo da boca de
cristãos que haviam sido dispersos da cidade de Jerusalém.
Esses
crentes, embora perseguidos e desterrados da sua pátria, ao chegarem a terras
estrangeiras e desconhecidas, não se intimidam diante de outra cultura, nem
tampouco se calam. Em vez disso, eles compartilham sua fé, falando com
entusiasmo a Palavra de Deus.
O êxito acontece quando muitas pessoas creem
nas Boas Novas de salvação e entregam a sua vida ao Senhor Jesus. A igreja de
Jerusalém fica sabendo do êxito missionário desses cristãos dispersos e enviam
um obreiro experiente para ajudar na implantação e discipulado da nova igreja
que havia sido formada. E dessa forma que a obra missionária sai de Jerusalém
para Antioquia, uma importante cidade do Império Romano localizada na Síria.
A Missão Transcultural Pentecostal
Praticamente todas as denominações do
cristianismo histórico e do movimento pentecostal lançaram-se na missão
transcultural. Os luteranos, por exemplo, chegaram ao Brasil ainda bem cedo. A
presença deles na terra de Vera Cruz data do ano de 1532, enquanto os
huguenotes, protestantes franceses, celebraram o primeiro culto no Brasil em
1577. Os batistas chegaram ao Brasil na segunda metade do século XIX, e os
pentecostais, no início do século XX. O primeiro missionário pentecostal, vindo
dos Estados LTnidos, a chegar no Brasil foi Louis Francescon. Ele chegou aqui
em 1910 e fundou a Congrega ção Cristã do Brasil. Pouco tempo depois da chegada
de Francescon, também vindo dos Estados LTnidos, aportaram na cidade de Belém,
Pará, em 1910, os missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg. Vingren e
Berg fundaram em 1911, em Belém, PA, a missão “Fé Apostólica” e, em 1918,
rebatizaram a recém-implantada igreja com o nome de “Assembléia de Deus”.1
Depois de Vingren e Berg, muitos outros missionários pentecostais suecos
juntaram-se aos dois pioneiros.
Sem dúvida, a Assembléia de Deus no Brasil
tornou-se um dos maiores e bem-sucedidos projetos de implantação de igreja no
século XX. Poucos anos depois da sua fundação, a sua presença já era sentida em
vários estados do Brasil. Hoje, mais de um século depois da sua implantação e fundação, a Assembléia de
Deus está presente em todos os estados da federação, tornando-se em termos
numéricos o maior movimento evangélico do Brasil.
Em
1913, três anos depois que chegou aqui no Brasil e dois anos após a implantação
da missão pentecostal no Pará, o missionário Daniel Berg escreveu uma carta
para ser publicada no jornal Sanningens Vittne, com sede em Minneapolis,
Estados Unidos, e que tinha como redator A. A. Holmgren. Este foi um batista
sueco, amigo de Vingren e Berg, radicado na América e que havia se
pentecostalizado no aviva mento que ocorrera em Chicago entre 1906 e 1909.2
Berg
escreveu sobre o trabalho de implantação da igreja no Brasil:
Pará, Brasil, junho de 1913 Meu
querido irmão. Paz através do sangue! O Senhor é realmente bom, portanto, eu o
louvarei. Ele tem me preservado até esta hora na fé em seu nome, até mesmo dos
homens maus que aparecem em nosso caminho. Em breve a batalha terminará e nós
descansaremos. Eu serei fiel a Jesus até que ele venha, custe o que custar, e
também defenderei toda a verdade, que Jesus não apenas salva perfeitamente de
todos os pecados, mas também batiza no Espírito Santo e no fogo. Louvado seja
seu nome por essa experiência! Acabo de voltar de Bragança, onde Jesus abriu
uma porta para sua palavra através de uma família que crê na verdade, e a irmã
dessa família agora foi batizada nas águas e está buscando o batismo do
Espírito. Tivemos uma reunião lá no final da noite de domingo e muitos vieram e
ouviram a palavra do Senhor. Até mesmo em uma aldeia fora de Bragança, chamada
Quatipuru, o Senhor começou a trabalhar de modo que agora há 22 pessoas que se
renderam completamente a Jesus em um curto espaço de tempo, e há algumas
semanas atrás, batizamos 7 delas em água e 2 na quinta-feira passada. Ontem à
noite, Jesus batizou uma irmã no Espírito Santo em nossa missão aqui no Pará, e
outra irmã há três semanas atrás. O Senhor terá a glória por tudo. Orem por mim
para que eu possa estar pronto quando Jesus vier. Saudações a todos! Seu irmão
em Cristo (Daniel Berg).3
Nessa
carta, vemos Berg, que, nessa época, estava radicado em Belém, PA, implantando
uma igreja em Bragança, município daquele estado. De lá o missionário
pentecostal assembleiano procurava alcançar outras localidades, como o povoado
por ele citado, de nome Quatipuru. Observamos, portanto, que havia um trabalho
de implantação da igreja seguido pelo discipulado. Da mesma forma, três meses
após Berg ter escrito sobre o trabalho de implantação da igreja no Brasil,
Gunnar Vingren escreveu uma carta-relatório em que descreve as dificuldades e
desafios encontrados na evangelização aqui no Brasil. E possível percebermos o
ardor do trabalho missionário que tinham que lutar em várias frentes. Por um
lado, havia a perseguição religiosa; por outro, as dificuldades geográficas de
um país com dimensões continentais; e, por outro, a escassez de obreiros. Em
dezembro de 1913, Vingren escreveu:
Pará,
Basil,
Io de
dezembro de 1913.
Meu
amado irmão A. A. Holmgren,
Graça e
paz!
Louvor, honra e glória ao Senhor Jesus que
sofreu e morreu por nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação e que
em breve virá para receber sua noiva que o espera. Caro irmão, obrigado por sua
carta com a letra de câmbio de 10 dólares anexa. O Senhor o abençoe. Depois que
o Ir. Daniel foi restaurado da saúde (pois Jesus o curou), ele viajou para casa
na Suécia para visitar seus pais e descansar um pouco e, depois de alguns
meses, retornar para cá. Ele partiu em 15 de novembro. No entanto, ele pretende
ficar um pouco em Portugal em sua viagem de volta. Seu endereço é: Vargón,
Rânnum, Suécia. Eu louvo o Senhor por seu cuidado conosco por meio de vocês. No
entanto, achei que não estava de acordo com a vontade de Deus deixar o campo.
Talvez mais tarde o Senhor por suas intercessões me leve a obter algum tempo de
descanso, embora não como eu quero, mas como o Senhor quer. Irmão, ore para que
o Senhor envie trabalhadores para sua grande seara. Nesse grande país, que é 18
vezes maior do que a Suécia ou maior que os Estados Unidos e o Alasca4 juntos,
agora estou sozinho até onde sei, que defende um evangelho pleno. Lembre-se de
mim em suas orações, pois a batalha contra os poderes das trevas está cada vez
mais acirrada. Até agora, o Senhor tem tido sua mão protetora sobre mim, de
modo que ninguém me prejudicou, apesar de meus muitos e amargos inimigos. Jesus
está fazendo e realizando uma obra maravilhosa aqui e, por isso, o inimigo está
com raiva. Glória a Jesus! Desde a última vez que escrevi para você mais de 50
pessoas foram batizadas em água e cerca de 68 foram batizadas com o Espírito
Santo e com fogo dando-lhes todo o testemunho da Bíblia do batismo do Espírito,
falando em novas línguas, e os doentes foram curados. Os crentes receberam
línguas, interpretação, profecias e visões. O poder de Deus tem sido
maravilhosamente revelado. Toda honra a Jesus porque a obra é do Senhor. Isso
naturalmente enfurece o inimigo. Em dois lugares, os crentes foram presos
várias vezes e tiveram que suportar muita zombaria e escárnio, mas, apesar de
tudo jejuando ao Senhor e alegres em Jesus. Os protestantes (os chamados
cristãos, de várias denominações) e os católicos escreveram os mais horríveis
artigos mentirosos sobre mim e sobre esta obra do Senhor. Já passa da
meia-noite, portanto não posso escrever mais nada desta vez. O barco está
partin do agora pela manhã. O Senhor os abençoe. Cumprimentem os santos com
muito carinho. Seu irmão, lutando pela causa do Senhor” (Gunnar Vingren).5
O
registro dessas cartas, mostrando o pioneirismo desses missionários
estrangeiros fazendo um trabalho de missão transcultural, implantando igrejas
em solo brasileiro, não tem apenas valor histórico. E um documento importante
também porque, além de revelar como se deu a incursão da mensagem evangélica
pentecostal no Brasil, mostra como foi formada a identidade da Assembléia de
Deus brasileira. Esse registro também mostra que esses missionários seguiam os
mesmos princípios usados na implantação da igreja pelos primeiros cristãos.
Missão
Transcultural Antioquia
“E os
que foram dispersos pela perseguição que sucedeu por causa de Estêvão caminharam
até à Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra senão
somente aos judeus. E havia entre eles alguns varões de Chipre e de drene, os
quais, entrando em Antioquia, falaram aos gregos, anunciando o Senhor Jesus”
{At 11.19,20). Esse texto do livro de Atos mostra
como teve início a missão transcultural da igreja de Jerusalém. Lucas detalha
que isso decorreu em virtude da perseguição que sobreviera a Estêvão, um dos
sete escolhidos para o serviço diaconal. A perseguição dispersou os crentes por
diversas localidades. Alguns deles chegaram à cidade de Antioquia, na Síria.
Antioquia era uma importante cidade do Império Romano, com um centro cultural
muito diversificado e uma grande população gentílica.
Os
cristãos que ali chegaram trataram logo de compartilhar a sua fé em Cristo com
os gentios, e o resultado não demorou a aparecer: “E a mão do Senhor era com
eles; e grande número creu e se converteu ao Senhor” (At 11.21). Os convertidos
aqui não eram prosélitos do judaísmo, judeus helenistas, nem tampouco gentios
pertencentes ao grupo dos “tementes a Deus”, mas gentios totalmente pagãos. E
exatamente esse aspecto que caracteriza a natureza transcultural da igreja de
Jerusalém nessa fase da sua história. Os primeiros “missionários” cristãos
estavam levando o evangelho além das fronteiras das suas terras de origem e
para uma cultura diferente da deles.
Duas coisas ficam em destaque na redação
lucana. Em primeiro lugar, esses “missionários” eram, na verdade, crentes
leigos que compartilhavam a sua fé à medida que se deslocavam. Não dá para
deduzir do texto que eles tivessem algum treinamento formal para a obra
missionária. Eles não foram enviados pela igreja de Jerusalém como missionários
para Antioquia; isso iria acontecer posteriormente (At 13). Eram crentes leigos
desterrados que não se intimidavam ao compartilhar a sua fé em Cristo. Mesmo
sem um treinamento formal em missões, esses crentes demonstravam forte
consciência missionária. Eles sabiam que cumprir o “Ide” de Jesus era
responsabilidade deles. Talvez uma das maiores tragédias da igreja de hoje é
que temos muitos cristãos, mas poucas testemunhas de Jesus.
Michael Green destaca que:
Em Atos não foram os apóstolos que levaram o
evangelho para todas as partes, mas, sim, os missionários “amadores”, as
pessoas que foram expulsas de Jerusalém em decorrência da perseguição que
começou após o martírio de Estêvão (At 8.4). Foram estes que avançaram pela
planície costeira até a Fenícia, atravessaram o mar até Chipre, e chegaram até
Antioquia, no norte (At 11.19-21). Eles eram tão evangelistas quanto qualquer
apóstolo. Na verdade, foram eles que deram os dois passos revolucionários de
pregar a gregos que não tinham vinculo com o judaísmo, e de iniciar a missão
aos gentios, a partir de Antioquia. Não foi um esforço planejado. Foram
expulsos de sua base em Jerusalém, e se espalharam por todas as terras
difundindo as boas-novas que tinham lhes trazido alegria, descanso e uma vida
nova. De modo geral, a pregação não deve ter sido formal, mas através da
conversa informal com amigos e novos conhecidos, em casas e tavernas, nas ruas
e ao redor das barracas do mercado. Eles foram por todos os lados falando do
evangelho, de maneira espontânea, com o entusiasmo e a convicção de quem não
recebe pagamento para dizer esse tipo de coisa. Em consequência, foram levados
a sério, e o movimento se espalhou, principalmente entre as classes mais
baixas.6
Em
segundo lugar, Lucas acrescenta no seu texto a informação de que “a mão do
Senhor era com eles”. No contexto da teologia carismática de Lucas, essa
observação é uma forma de referir-se à capacitação do Espírito Santo no
testemunho daqueles crentes. A “mão do Senhor” aqui tem o mesmo peso da “mão do
Senhor” que vinha sobre o profeta Ezequiel (Ez 3.22; 37.1). É uma referência à
capacitação profética que estava sobre os primeiros missionários cristãos. Isso
significa que a pregação da Palavra foi acompanhada pela demonstração do
Espírito entre os gentios. Se os textos que narram a ação do Espírito Santo
capacitando os crentes para realizarem a obra de Deus forem retirados do livro
de Atos, certamente teremos um livro mutilado, vazio e sem sentido algum. Sem o
poder do Espírito capacitando os crentes, a Igreja não é Igreja de Jesus.
Discipulado e Suporte Missionário
“E chegou a fama destas coisas aos ouvidos
da igreja que estava em Jerusalém; e enviaram Barnabé até Antioquia” (At
11.22).
A obra
de implantar igrejas precisa não apenas da presença dos missionários
implantadores, mas também do suporte que lhes é dado. Sem apoio ao trabalho
missionário, este está fadado ao fracasso. Esse fato era de conhecimento da igreja
de Jerusalém, pois tão logo ela ficou sabendo do surgimento da igreja de
Antioquia, enviou para lá Barnabé, um dos seus principais líderes. Barnabé era
um discipulador. Ele já havia trabalhado no discipulado de Paulo (At 9.27) e
agora fora enviado para apoiar o trabalho em Antioquia: “O qual, quando chegou
e viu a graça de Deus, se alegrou e exortou a todos a que, com firmeza de
coração, permanecessem no Senhor” (At 11.23). Esse foi o modelo em Antioquia e
deve ser, portanto, o modelo hoje.
No
início da Assembléia de Deus, os missionários responsáveis pela implantação da
igreja no Brasil precisaram de um grande suporte e apoio missionário para terem
êxito na sua missão. Esse fato fica bem visível quando lemos as primeiras
cartas que eles enviaram daqui do Brasil para aqueles que lhes serviram de base
e sustento missionário. Esse fato pode ser visto, por exemplo, no trabalho de
implantação da igreja em Porto Alegre pelo missionário pentecostal sueco Gustav
Nordlund. Este, vindo da Suécia, chegou à capital gaúcha em 1924, ano em que
implantou a igreja naquele estado. Cinco anos depois de ter implantado a igreja
em Porto Alegre, Nordlund começou o trabalho de implantação de igrejas no
interior do estado.
Em uma
carta enviada também ao periódico Testemunha da Verda de (Sanningens Vittne),
ele fala sobre as primeiras conversões em solo gaúcho e a necessidade de apoio
financeiro para implantar a igreja na cidade de Ijuí, Rio Grande do Sul.
Nordlund escreveu:
Porto
Alegre, Brasil, outubro de 1929
Amados
irmãos e leitores de S. V7
Que a
paz esteja com vocês!
A obra do Senhor na cidade mais
ao sul do Brasil (Rio Grande do Sul) está progredindo constantemente, pois as
almas estão se rendendo a Deus e sendo salvas, batizadas em água e no Espírito
Santo. Bendito seja o nome do Senhor! Várias portas estão abertas para o
evangelismo no estado, e a necessidade de obreiros é muito grande. Um lugar
chamado Ijuhy8 [Ijuí], onde agora temos 19 batizados nas águas e a maioria
deles também no Espírito Santo, fica a 25 horas de trem de E Alegre. A viagem
até lá custa cerca de 20 dólares. Só posso visitar esse lugar uma vez a cada
três meses, e então tenho de ficar quinze dias. O Senhor tem abençoado essas
viagens, embora muito caras, para que acreditemos em uma vitória gloriosa se
Jesus demorar. O Senhor também respondeu à oração e nos deu um precioso
colaborador para nos ajudar. Ele é luterano, tem 25 anos, esposa e um filho
pequeno. Ele estudou no seminário batista em Riga.9 O Senhor o batizou no
Espírito Santo e agora ele se sente chamado para trabalhar conosco. Ele não tem
apoio de ninguém, mas quer confiar na ajuda do Senhor. Por isso, nós o
convidamos para vir à nossa casa e comparti lhar conosco o que o Senhor nos dá,
mas como nosso apoio da Suécia não é mais do que precisamos, acreditamos que o
Senhor atenderá às nossas necessidades. Por isso, gostaríamos de informar aos
nossos amigos e aos mantenedores do Senhor que, se o Senhor pedir a alguém que
sacrifique algo por esse servo do Senhor, os fundos podem ser emiados por meio
do irmão Holmgren. Seu nome é Janiz Pinko. O Ir. Pinko também fala russo e, se
o Senhor assim o orientar, também assumiremos o trabalho entre os russos neste
estado. Fraternalmente no Senhor” (Gustav Nordlund).
Traduzindo o Evangelho —
A Questão da Contextualização
Outro
aspecto da obra transcultural da igreja de Jerusalém pode ser visto na questão
da contextualização da pregação — aquilo que Michael denomina de “traduzir” o
evangelho. Alguns nomes e expressões de natureza eminentemente judaicas são
adaptadas ou, então, suprimidas na evangelização dos gentios. Os missiólogos
obser vam que expressões tais como: “Cristo” e “Reino de Deus” eram bem
compreendidas dentro da cultura judaica, mas fariam pouco sentido entre os
gentios antioquenos.
Ao
comentar sobre a proclamação de Jesus como “Senhor ’ em Antioquia (At 11.20),
Michael Green observa que:
As
boas-novas eram o senhorio de Jesus. Isso evidencia claramente uma evolução na
proclamação. No primeiro estágio, as “boas-novas” eram a chegada do reino de
Deus; a mesma mensagem proclamada por Jesus. Em um segundo estágio, passaram a
ser que Jesus era o “Homem” escolhido para julgar os vivos e os mortos; era
isso que os discípulos pregavam aos judeus. Em um terceiro estágio, Jesus foi
anunciado como kyrios, o que sem dúvida incluía a mensagem judaica que Pedro
trouxe para Cornélio, mas para mentes pagas deve ter tido um significado muito
maior, e conotações bem diferentes de qualquer coisa imaginada por pregadores
judaico-cristãos.10 11
Dessa
forma, Lucas informa que os cristãos que levaram o evangelho para Antioquia
anunciavam o “senhor Jesus”. O termo “senhor” não apenas era bem conhecido na
cultura gentílica em Antioquia, como também era carregado de significado e
sentido. As Boas Novas, portanto, eram sobre o senhorio de Jesus. O mesmo
evangelho que era pregado com poder em Jerusalém, agora contextualizado, também
era pregado com poder em Antioquia. Deve, contudo, ser observado que
“contextualização” não quer dizer “mutilação”. O evangelho em uma missão
transcultural pode ser contextualizado sem, contudo, ser mutilado. Muitas
vezes, em nome de uma suposta contextualização, muitos mutilam a mensagem da
cruz.11
Ed Stetzer pontua que:
Plantar igrejas deveria implicar
plantar igrejas missionais. Todavia, não confundamos os termos mentalidade
missionária e missional. O primeiro se refere mais a uma atitude de importar-se
com missões, sobretudo além-fronteiras. Missional significa pôr a missão em
prática bem aqui onde estamos. Missional significa adotar a postura de um
missionário, aprender a cultura à sua volta e adaptar-se a ela sem abrir mão de
uma relação sólida com a Bíblia.12
Assim,
o evangelho deve ser visto não só no seu aspecto histórico, mas também
supracultural. Embora o evangelho opere na cultura, ele está além dela. Ele não
pode, por exemplo, ser reduzido à cultura ou etnia de um povo. Dessa forma,
George W. Peter destaca que:
O
evangelho não é um fenômeno estritamente histórico. Ainda que opere na história,
ele não é [produto] da história, como já mencionei. Aqui comprovo que o
evangelho não é um produto étnico. Enquanto ele opera na cultura, ele não é da
cultura. Ele está na cultura, mas além dela. Ele cria e molda a cultura, enquanto,
ao mesmo tempo, julga a cultura. Ele é tanto a favor quanto contra a cultura.
Ele é a dinâmica da cultura e é a fiscalização da cultura mais séria da
cultura.
O evangelho é supracultural porque é sobrenatural em origem, propósito, destino e objetivo. Ordens eclesiásticas e religiosas, como ordens, são instituições humanas. Elas podem ser um roupão com o qual o evangelho veste-se, mas não pertencem à natureza do evangelho. Não estamos, portanto, interessados em exportar padrões e formas eclesiásticas, teológicas ou religiosas, sejam ocidentais ou orientais, latinas ou africanas. Somos encarregados de proclamar o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual transcende cultura e regionalismo. A mensagem supracultural de juízo, cura e melhoria de vida, com o poder e a sabedoria de Deus, irão adicionar uma nova dimensão a qualquer cultura que reconheça Cristo como Salvador e Senhor.13
Devemos ser gratos a Deus pelo trabalho
transcultural da igreja e por aqueles que acreditaram na chamada de Deus para
abraçá-lo. São pessoas que devem ter não apenas nossa admiração, mas,
sobretudo, nosso reconhecimento e apoio. Foram o instrumento que o Espírito
Santo escolheu para levar a gloriosa mensagem além-mar. Mesmo com as suas
limitações, eles doaram-se, deixando-nos os seus exemplos e indicando o caminho
pelo qual devemos trilhar.
CPAD : A
Igreja em Jerusalém — Doutrina, Comunhão e Fé: a base para o crescimento da
Igreja em meio às perseguições
Comentarista: José Gonçalves
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