sexta-feira, 12 de setembro de 2025

CPAD : A Igreja em Jerusalém — LIÇÃO 11 Uma Igreja Hebreia na Casa de um Estrangeiro

 

TEXTO ÁUREO

 “Respondeu, então, Pedro: Pode alguém, porventura, recusar a água, para que não sejam batizados estes que também receberam, como nós, o Espírito Santo?”

 (At 10.47).

VERDADE PRÁTICA

O episódio da igreja hebreia na casa do gentio Cornélio demonstra que Deus não faz acepção de pessoas.

  CPAD : A Igreja em Jerusalém — Doutrina, Comunhão e Fé: a base para o crescimento da Igreja em meio às perseguições

Comentarista: José Gonçalves

Lição 11: Uma igreja hebreia na casa de um estrangeiro

 





 

E

sta grande narrativa de Lucas mostrando em detalhes a conversão do gentio Cornélio demonstra a grande importância que esse fato tem para a fé cristã. Cornélio era um gentio e militar a serviço de Roma em Israel. Como centurião, ele comandava 100 homens (Mt 8.11; Lc 7.2-19). O texto diz que ele era da “coorte” italiana. Uma coorte era a décima parte de uma legião que era composta por 6 mil homens. Lucas destaca que Cornélio era um gentio temente a Deus. Convém destacar que, em relação à religião judaica dos dias do Novo Testamento, é possível identificar três classes de pessoas. Primeiramente, temos o judeu de nascença, considerado o povo da aliança. Foi aos judeus que Deus havia se revelado (Gn 12.1). Em segundo lugar, temos o “prosélito”, um gentio que se convertia ao judaísmo, submetia-se ao rito da circuncisão e guardava todas as leis cerimoniais. Por último, temos os “tementes a Deus”, um gentio monoteísta que aceitava a maioria das leis cerimonialistas do judaísmo, incluindo a observância do sábado e prescrições alimentares sem, contudo, submeter-se ao rito da circuncisão.

  A Revelação Divina aos Gentios

   Foi durante a hora nona, isto é, as três horas da tarde, quando se apresentava no Templo o sacrifício vespertino, que Cornélio teve uma visão. Nessa visão, um anjo de Deus orientou-o a chamar o apóstolo Pedro para dizer-lhe “palavras com que te salves, tu e toda a tua casa” (At 11.14). O anjo mesmo não lhe pregou o evangelho, mas orientou-o acerca de quem poderia fazer isso. A carta aos Hebreus informa-nos que os anjos são mensageiros de Deus enviados a favor daqueles que vão herdar a salvação (Hb 1.14). A pregação do evangelho, portanto, não é missão dos anjos; é missão do crente em Jesus.

   No dia seguinte, Pedro também teve uma visão. Por volta do meio-dia, quando lhe preparavam uma refeição, sobreveio-lhe um êxtase. Um objeto no formato de um lençol descia do céu e, dentro dele, havia toda sorte de quadrúpedes, répteis da terra e aves do céu. A ordem divina para Pedro era que ele matasse e comesse-os. Sabendo que aqueles eram animais imundos, Pedro apresentou a sua recusa ao Senhor. Deus diz a Pedro que ele não deveria considerar comum ou imundo aquilo que o Senhor purificou. A visão foi dramática. Pedro estava perplexo procurando entender a visão. Foi, então, que chegaram os emissários do centurião Cornélio. Instruído pelo Espírito Santo, Pedro vai com eles e, quando chega à casa do gentio, prontifica-se a atendê-los no que foi solicitado.

  A Mensagem aos Gentios

  Deus ama e quer salvar a todos

  “E, abrindo Pedro a boca, disse: Reconheço, por verdade, que Deus não fa z acepção de pessoas” (At 10.34). Tendo chegado à casa de Cornélio, Pedro logo discerniu o sentido da visão que tivera — Deus não exclui ninguém do seu plano salvífico. Ele quer salvar a todos (2 Pe 3.9; 1 Tm 2.4). Os gentios, portanto, foram incluídos no plano salvífico de Deus. Até então, Pedro acreditava que os judeus eram os únicos escolhidos no plano da redenção.

   Deus não quer que ninguém pereça (Lc 19.10). Mediante Cris to, Deus salvará todos os que nEle creem. Assim, todos os que vêm a Cristo e creem nEle (sem exceção) podem ter a vida eterna. A doutrina que alega estarem algumas pessoas condenadas arbitra riamente não se sustenta. O Senhor não quer que ninguém pereça, mas que todos venham ao arrependimento (2 Pe 3.9). O veredito de Paulo é que se ore “por TODOS os homens”, pois Deus deseja que “TODOS os homens sejam salvos” porque Cristo “deu a si mesmo em resgate por TODOS” (1 Tm 2.1-6, NAA). O escopo da salvação de Deus é ilimitado do lado dEle, mas os homens fazem limitações para as suas próprias feridas por sua incredulidade.1

   Deus proveu salvação para toda a humanidade, sem exceção: “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo [não apenas alguns selecionados]” (2 Co 5.19); “Reconciliou ambos [judeus e gentios] a Deus em um corpo pela cruz” (Ef 2.16). A Bíblia põe em relevo o caráter universal da expiação: “E ele é a propiciação [ou propiciatória] pelos nossos pecados — e não somente pelos nossos próprios, mas também pelos do mundo inteiro” (1 Jo 2.2, NAA; Rm 5.6-18). Assim sendo, ninguém é excluído nessa reconciliação” (Hb 2.9; At 10.34). A Bíblia contraria o ensino que afirma que somente os eleitos são influenciados a arrepender-se e crer no evangelho. Contra essa teoria, destacam-se Palavras de Jesus: “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim” Jo 12.32). Há vários textos bíblicos que corroboram esse fato: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo não para que condenasse o mundo [isto é, as pessoas no mundo], mas para que o mundo fosse salvo por ele (Jo 3.16,17). Deus é amor. O amor é próprio da natureza divina. O seu amor modera a sua justiça em misericórdia e graça. E um erro pensar que Deus quer condenar certas pessoas arbitrariamente. O seu poder e sabedoria foram mostrados na criação, mas o seu amor é mostrado em redenção. O homem precisava muito de misericórdia, mas não a merecia o mínimo. Cristo morreu por nós enquanto ainda éramos pecadores (Rm 5.8). O amor divino deu à luz a graça. A graça divina deu à luz a redenção mediante a morte de Cristo, e a redenção deu à luz a salvação.

  Há várias passagens nas Escrituras exortando ao arrependimento e que demonstram a verdade da responsabilidade do homem na dinâmica da salvação. Isso pode ser visto no chamado de João Batista ao arrependimento e de Jesus e dos apóstolos que verberaram a mesma mensagem. Pedro conclamou ao arrependimento chamando o povo a “arrepender-se” e a “converter-se”. Da mesma forma, Paulo, anos depois, exclamou que Deus ordena a todos os homens que “se arre pendam” (At 17.30,31). A salvação é concedida a todos os que se arre penderem e crerem. Se as pessoas estivessem decretadas à condenação, que necessidade havería do arrependimento? Se algumas pessoas já estão condenadas, então por que perder tempo e energia para ordená-las a fazer o que era impossível para elas fazerem? Se as pessoas já estão condenadas ao Inferno, por que agonizar em oração para que as pessoas sejam salvas? Por que ordenar que se arrependam? No último livro da Bíblia, lemos sete vezes a exortação ao arrependimento e cinco vezes que “eles não se arrependeram”. Isso tudo seria farsa se a doutrina do decreto condenatório estivesse correta.

   Cristo fez tudo por nós pelo Espírito Santo. O homem tem a sua parte no processo da salvação porque não é uma máquina — imóvel, insensível, sem vida, irresponsável. A fé é despertada pela chamada do evangelho. Quando as pessoas escutam a mensagem do Reino e nela creem, então recebem a vida eterna. Foi assim quando Pedro pregou a Palavra de Deus, mostrando que Cristo era o Messias prometido, e muitos creram. Os que receberam as suas palavras entraram na eleição de Deus. O Espírito Santo usa a verdade para trabalhar obediência no coração dos homens. O poder da Palavra é expresso pelo seguinte texto: “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.32). O Espírito Santo emprega a cruz para atrair as pessoas para Deus: “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim” Jo 12.32). Ele tem poder de persuasão.

   A salvação, portanto, é pela fé, e não pelo destino; pela graça, e não pela arbitragem; por escolha, e não por compulsão. Foi plane jada e provida pela soberania do amor, sendo recebida e desfrutada pela fé. A salvação está condicionada à fé do homem: “Pela graça sois salvos”. O caminho da salvação de Deus é absoluto e arbitrário: “Sendo justificados livremente pela sua graça”, isto é, sem o mérito do homem. A graça foi mostrada através da redenção (Rm 3.24-25); esse é o lado de Deus. “Salvo pela fé” é o lado do homem. A fé é o elo que conecta o pecador necessitado ao poderoso e misericordioso Salvador. “Não de obras”. Existe apenas um elo, e isso é a fé: “E isso não é de vós, é dom de Deus”. Sim. Ninguém acredita independentemente de Deus; mas essa fé não é forçada arbitrariamente no ser humano contra a vontade do homem. Não é dada a poucos eleitos, nem retido de outros não eleitos.2

   O Pentecostes Gentílico

  “E, dizendo Pedro ainda estas palavras, caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra. E os fiéis que eram da circuncisão, todos quantos tinham vindo com Pedro, maravilharam-se de que o dom do Espírito Santo se derramasse também sobre os gentios. Porque os ouviam falar em línguas e magnificar a Deus” (At 10.44-46).

   O Espírito foi derramado sobre os gentios enquanto Pedro ainda pregava a Palavra. Um sinal notório serviu de evidência para os crentes judeus presentes que vieram com Pedro de que a salvação, de fato, fora dada aos gentios. Eles haviam recebido o Espírito Santo. Eles também os ouviram falar em outras línguas e magnificar a Deus. Fica evidente que esses crentes nessa época consideravam o fenômeno do falar em línguas como a evidência do batismo pentecostal.

   Convém destacar que o falar em línguas em Atos (2.4; 10.46; 19.6) é o mesmo em natureza e essência daquelas faladas em 1 Coríntios (14.2,4,5,13,14), porém diferindo no seu propósito. Na ocorrência de Atos 2.4, foram reconhecidas pelos presentes, mas isso não aconteceu com as línguas de Atos 10.46 e em 1 Coríntios, que, neste último caso, precisavam de interpretação para serem entendidas. Assim, as línguas são sempre espirituais, uma vez que são inspiradas pelo Espírito Santo, podendo, dessa forma, ser conhecidas por quem ouve e desconhecidas para quem fala ou desconhecidas para quem ouve e para quem fala, a menos que haja interpretação. A razão de que essas línguas são sempre espirituais está no fato de que o falante de línguas deve orar para interpretá-las, e não estudar como se requer de um aprendiz de idiomas (1 Co 14.13). Assim, em Corinto, por haver indoutos e descrentes no culto, havia a necessidade de alguém, também movido pelo Espírito, interpretar as línguas que estavam sendo faladas. Todavia, em uma reunião de caráter privativo, como a que aconteceu na casa de Cornélio em Cesareia, isso não era necessário. Dizer que as línguas em Atos eram autênticas por tratar-se de idiomas reais e, em Corinto, um falar “extático” sem sentido algum porque não eram compreendidas não tem fundamentação. Quem pensa assim desconsidera, por exemplo, o alto conceito que Paulo tinha sobre o fenômeno glossolálico em 1 Coríntios 12—14. Paulo afirmou que as línguas em Corinto permitiam a quem falava comunicar-se diretamente com Deus (1 Co 14.2), trazendo, dessa forma, edificação ao falante; edificava a quem ouvia quando interpretadas (1 Co 14.5); e engrandeciam a Deus como expressão de louvor (1 Co 14.14-17). O próprio Paulo era grato a Deus por falar línguas em abundância (1 Co 14.18).

   Vamos ilustrar o que está sendo afirmado aqui. O pastor Jack Hayford conta que, certa vez, voou ao lado de um engenheiro civil. As primeiras palavras trocadas demonstraram que aquele homem não era muito simpático à fé cristã. Durante o voo, Hayford diz que estava procurando alguma forma de estabelecer uma conexão onde fosse possível compartilhar o evangelho de Jesus. Assim, durante o voo, Hayford diz ter ouvido a voz do Senhor orientando-o a falar em línguas com aquele homem. Hayford, depois de receber permissão do engenheiro para falar-lhe, narra o que segue:

  Desviei o olhar do rosto dele, meus olhos focalizados no padrão do estofamento da parte de trás do assento na frente dele e, em um tom de conversa, comecei a falar em minha linguagem espiritual. Eu mal tinha começado quando parecia que eu tinha um canto linguístico, e me ouvi falando uma língua diferente de qualquer outra que eu já tinha ouvido em oração antes. A duração total de tudo o que eu falei foi aproximadamente a duração deste parágrafo. Parei e olhei de volta para Bill. Sua resposta foi imediata e profissional. “Essa é uma língua pré-kiowa, de onde veio nossa língua indígena kiowa.” Incrivelmente, consegui manter a naturalidade, embora tudo dentro de mim quisesse gritar: “Sério?! Aleluia!” Ele continuou: “Não conheço todas as palavras que você falou, mas conheço a ideia que elas expressam.” Eu mal podia acreditar no que ele estava dizendo — eu estava perplexo, mas totalmente reservado em meu comportamento exterior. “Que ideia elas expressam?” Perguntei. “Bem”, ele gesticulou de forma ascendente com a mão. “Algo a respeito da luz que vem do alto.” Foi algo do Espírito Santo, e eu sabia o que deveria dizer agora. “Obrigado, Bill. E incrível que isso tenha acontecido.

   Agradeço de coração por ter me permitido fazer essa pergunta.” Ele gesticulou simplesmente, dizendo: “Imagine. Foi interessante.”3

   Hayford finaliza o seu testemunho contando da sua felicidade quando viu o próprio Senhor revelando-se àquele homem como “luz que vem do alto”. Era assim que a cultura daquele engenheiro entendia o divino. Hayford viu um diálogo inusitado como parte do propósito divino para abençoar aquela vida, que, até então, demonstrara ser totalmente cética com a fé cristã. Depois do que acabara de acontecer e tendo ouvido Hayford explicar de que fenômeno tratava-se, o engenheiro ficou totalmente aberto à fé cristã.

   Em 1993, eu estava no templo central da AD de Altos, Piauí, igreja da qual eu era membro. Naquela época, eu buscava orientação do Senhor em relação ao seu propósito e obra em minha vida. Foi então que, numa sexta-feira, quando me encontrava orando no templo, o Espírito Santo encheu-me, e eu comecei a falar em línguas. Logo em seguida, o sentido daquelas palavras começou a fluir em minha mente. O Senhor deu-me a interpretação do que havia sido dito: “Eu tenho uma aliança com você”. Entendí com clareza que essa aliança era de natureza ministerial. Naquele momento, percebi, sem nenhuma dúvida, que o Senhor certamente me chamaria para o ministério de tempo integral. Foi o que aconteceu oito anos depois.

   Craig S. Keener apresenta um quadro comparativo entre a ocorrência do fenômeno de línguas em Atos e Coríntios.4 É possível ver neste quadro comparativo elaborado por Keener que as línguas são as mesmas em natureza e essência em Lucas e em Paulo.

 



 

   Como vimos, em essência, o falar em línguas em Atos e 1 Coríntios referem-se ao mesmo fenômeno, podendo, contudo, ter propó sitos diferentes. Na verdade, as línguas diferem mais na forma do que na função. Em Atos 2.4, o fenômeno assume a forma de línguas conhecidas por quem ouvia, embora permanecessem desconhecidas para quem falava. Já em Atos 10.46 e 1 Coríntios 14.2, manifestava-se na forma de línguas desconhecidas tanto para quem falava como para quem ouvia. Em ambos os casos, tinham a função de revelar Deus, engrandecer o seu nome e trazer edificação ao cristão e à igreja (At 2.11; 10.46; 1 Co 14.4,5; 14.15).

   Dessa forma, Menzies destaca que:

   As línguas pessoais, ou seja, o dom de falar em línguas desconhecidas, têm, nas devoções particulares, o valor de edificar quem estiver ocupado na oração. Orar em uma língua desconhecida é forma exaltada de adoração (1 Co 14.4). Orar em línguas é uma prática útil, e deveria ser cultivada na vida diária do crente, pois assim a pessoa é edificada em sua fé e na vida espiritual [...] há também outro uso para as línguas. Embora seja o mesmo em essência, o dom de línguas empregado nos cultos públicos visa um propósito distinto. As línguas mencionadas no livro de Atos são evidenciais e privadas; as mencionadas nas epístolas são públicas, e visam a edificação geral.3

   Esse fato é confirmado pelas palavras do apóstolo Pedro, que via a experiência pentecostal dos gentios igual àquela que os apóstolos tiveram no Pentecostes: “estes que também receberam, como nós, o Espírito Santo?” (At 10.47). Para Pedro, portanto, os gentios haviam recebido a mesma experiência que eles haviam recebido no Pentecostes: “E, quando comecei a falar, caiu sobre eles o Espírito Santo, como também sobre nós ao princípio” (At 11.15).* * 6 Pedro identifica as línguas em Cesareia como sendo essencialmente iguais àquelas faladas em Jerusalém, porém diferindo no propósito, uma vez que, em Jerusalém, as línguas foram entendidas pelos que as ouviram, mas não foram em Cesareia.

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