sábado, 6 de julho de 2024

CPAD : O Deus Que Governa o Mundo e Cuida da Família | Lição 02: O Livro de Rute

 


TEXTO ÁUREO

“E sucedeu que, nos dias em que os juízes julgavam, houve uma fome na terra; pelo que um homem de Belém de Judá saiu a peregrinar nos campos de Moabe, ele, e sua mulher, e seus dois filhos.”

(Rt 1.1) 

VERDADE PRÁTICA

Servir a Deus não nos isenta de crises. Em qualquer circunstância, o segredo é permanecer fiel, confiando na providência divina.

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE

Rute 1.1- 5
1- E sucedeu que, nos dias em que os juízes julgavam, houve uma fome na terra; pelo que um homem de Belém de Judá saiu a peregrinar nos campos de
Moabe, ele, e sua mulher, e seus dois filhos.
2 – E era o nome deste homem Elimeleque, e o nome de sua mulher, Noemi, e os nomes de seus dois filhos, Malom e Quiliom, efrateus, de Belém de Judá; e vieram aos campos de Moabe e ficaram ali.
3 – E morreu Elimeleque, marido de Noemi; e ficou ela com os seus dois filhos,
4 – os quais tomaram para si mulheres moabitas; e era o nome de uma Orfa, e o nome da outra, Rute; e ficaram ali quase dez anos.
5 – E morreram também ambos, Malom e Quiliom, ficando assim esta mulher desamparada dos seus dois filhos e de seu marido.

PLANO DE AULA

1-INTRODUÇÃO
O Livro de Rute conta uma história muito bonita entre nora e sogra. Rute, a nora, amou singelamente a sua sogra, Noemi. Após o falecimento do esposo de Rute, filho de Noemi, este orientou a sua nora a retornar à terra nativa, Moabe. Rute, a moabita, não concordou em deixar a sua sogra, de modo que a seguinte declaração mostra a profundidade do compromisso dela com a mãe de seu saudoso esposo: O teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus (Rt 1.16). Nesse contexto, contemplamos a maneira que Deus preserva a história de pessoas que permanecem fiéis apesar das circunstâncias. Por isso, nesta lição, temos o objetivo de apresentar um panorama do Livro de Rute e seus principais temas.
2- APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO
A) Objetivos da Lição:
I) Fazer a análise da organização do Livro de Rute;
II) Remontar o contexto histórico do Livro de Rute;
III) Apresentar o propósito e a mensagem do Livro de Rute.

B) Motivação: A Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal traz um relato que serve de motivação para a aula desta semana: “Quando conhecemos Rute, ela é uma viúva sem perspectiva de vida. Acompanhamos sua união com o povo de Deus, a colheita no campo e o risco de sua honra na eira de Boaz. Finalmente a vemos tornar-se esposa dele. Um retrato de como chegamos a Cristo. Começamos sem esperança e somos estrangeiros rebeldes sem parte no reino de Deus. Então […] Deus nos salva, perdoa, reconstrói nossa vida. […]. A redenção de Rute através de Boaz é um retrato da nossa remissão através de Cristo”.
C) Sugestão de Método: Para introduzir esta aula, apresente o esboço do Livro de Rute. Explique que o livro está estruturado nos seguintes pontos:
1) A Adversidade de Noemi (1.1-5)
2) Noemi e Rute (t.6-22);
3) Rute conhece Boaz no campo (2.1-23);
4) Rute vai até Boaz na eira (3.1-18);
5) Boaz se casa com Rute (4.1-13);
6) A bênção e realização de Noemi (4.14-17);
7) A história da família – de Perez a Davi (4.18). Você pode reproduzir esse esboço no data show, na lousa ou até mesmo em Cartolina. Pode também, por meio das Bíblias de Estudo, Pentecostal ou Aplicação Pessoal, aprofundar a sua pesquisa e apresentar um quadro mais completo do livro aos alunos. O ponto aqui é que você esteja consciente da necessidade de apresentar a estrutura do livro por meio de esboço com o objetivo de sua classe compreender melhor o desenvolvimento da história sagrada de Rute.
3- CONCLUSÃO DA LIÇÃO
A) Aplicação: O Livro de Rute nos apresenta um quadro grandioso de superação de uma mulher diante de uma situação desoladora. Com o livro aprendemos que não importa quão devastadora ou desafiadora possa ser a nossas circunstâncias, pois a nossa esperança está centrada em Deus que tem os recursos infinitos para nos disponibilizar.

4- SUBSÍDIO AO PROFESSOR
A) Revista Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa revista que traz reportagens, artigos, revistas e subsídios de apoio à lições Bíblicas Adultos. Na edição 98, p.37, você encontrará um subsídio especial para esta lição.
B) Auxílios Especiais: Ao final do tópico, você encontrará auxílios que ajudarão a aprofundar a reflexão sobre o tema.
1) O texto “Rute”, localizado depois do primeiro tópico, destaca o significado do seu nome e o propósito espiritual da obra;

2) O texto “Compromisso com a Aliança”, ao final do terceiro tópico, demonstra como os conceitos de aliança, concerto e fidelidade estão presentes no livro de Rute.

INTRODUÇÃO

O livro de Rute se destaca não apenas por sua beleza literária mas, principalmente, pela profundidade espiritual de sua mensagem. Fonte de inspiração para judeus e cristãos ao longo dos séculos, o livro narra uma história de amizade, amor e redenção. Uma extraordinária demonstração de como o Todo-poderoso trabalha em meio às crises para cumprir seus desígnios eternos. Ele transforma tristeza em alegria, perdas em ganhos, derrotas em vitórias. Rute nos apresenta Jeová-Jireh, o Deus que provê (Gn 22.14).

Palavra-Chave:

Providência

AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO  

“RUTE – O livro de Rute traz o nome de


uma das principais personagens do livro. Rute era viúva de Malom, nora de Noemi e, por fim, esposa de Boaz. A etimologia de seu nome não é clara, embora alguns tentem ligar o nome a t(amizade” (heb. re’ut) ou a “associando-se com ou vendo” (heb. ra’ah). Apesar de Rute ser mencionada (com frequência especificamente como “a moabita”) várias vezes nas páginas desse livro e mais uma vez na genealogia do Messias (Mt 1.5), é surpreendente que esse livro notável traga seu nome no título. Rute não era israelita; como moabita, era de uma nação que odiava Israel. Alguns não consideram Rute a personagem principal do livro; contudo, os eventos do livro ficam definitivamente na redenção ilustrada primeiro em sua rejeição dos deuses pagãos de Moabe a fim de se comprometer com Iavé, o Deus de Israel. A história continua através da união com Boaz, o parente remidor, pondo-a na genealogia do rei Davi – o maior rei de Israel. Ela, por intermédio de Davi, passou a fazer parte da linhagem de Jesus Cristo, o futuro “Filho de Daü” guê, por fim, redimiria seu povo. A graciosa redenção de Deus foi desvelada, e sua fiel providência e libertação foram reveladas na história de Rute. O livro traz seu nome ao longo das gerações, e sua história resolve sem sombra de dúvida a preocupação amorosa de Deus com as mulheres e seu compromisso absoluto de santificar o casamento e a proeminência da família” (Patterson, D. K, KELLEY, R. H. Comentário Bíblico da Mulher – Antigo Testamento. Vol. I. Rio de Janeiro: CPAD, 2o22, p.469).

AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO

“COMPROMISSO COM A ALIANÇA
Deus demonstrou sua lealdade à aliança ao derramar sua benevolência (heb. chesed, uma palavra que engloba amor, gentileza benevolência, misericórdia, graça, lealdade e fidelidade; veja 1.8; 2.zo; 3.1o) não só para com Noemi de Belém, mas também para com Rute, a moabita. Boaz também demonstrou lealdade à aliança em sua disposição de ser o parente remidor de Rute e Noemi. O ‘concerto’, ou aliança, embora não seja mencionado no livro, está subjacente a tudo, começando com o compromisso de Rute com o Deus de Noemi (r.t6,17). A lealdade amorosa, o serviço fiel e o espírito obediente de Rute são fundamentais para o compromisso. Todavia, ainda mais importante é o fato de que Iavé Deus, sempre fiel, jamais se esquece das promessas feitas a Israel” (Patterson, D. K, KELLEY, R. H. Comentário Bíblico da Mulher Antigo Testamento. Vol. 1. Rio de Janeiro: CPAD, 2022, p.472).

CONCLUSÃO

O livro de Rute nos ensina que, a despeito da incredulidade e dos pecados do homem, Deus sempre trabalha para cumprir os seus desígnios. Sem violar o princípio do livre-arbítrio humano, o Todo-poderoso conduz a história e executa seu plano eterno de redenção. O livro também nos mostra como a fidelidade de Deus se aplica às circunstâncias comuns da vida. Em tudo Ele é fiel (Is 64.4).

  CPAD : O Deus Que Governa o Mundo e Cuida da Família – Os Ensinamentos Divinos nos livros de Rute e Ester para a Nossa Geração

| Lição 02: O Livro de Rute

 


INTRODUÇÃO

Ο livro de Rute está entre Juízes e 1 Samuel. Levando em consideração que o crítico quadro espiritual de Israel retratado em Juízes prolonga-se até os primeiros capítulos de 1 Samuel, o livro pode ser considerado um verdadeiro lírio no meio do deserto, ou, "semelhante a uma linda flor num jardim abandonado, ou a uma luz clara que aparece na escuridão da noite", como diz S. E. MacNair (1983, 95). Rute destaca-se não apenas pela sua beleza literária, mas também pela profundidade espiritual da sua mensagem. Um bálsamo para judeus e cristãos ao longo dos séculos, o livro narra uma história de amor e redenção. Trata-se de uma extraordinária demonstração de como o Todo-Poderoso trabalha em meio às crises para cumprir os seus desígnios eternos. Nas suas páginas, vê-se continuamente o agir do Deus que transforma tristeza em alegria e derrotas em vitórias.

  Não há dúvida de que o agir providencial de Deus é o que mais marca a narrativa belemita. A providência divina é percebida ao longo de todo o livro. O Jeová Jireh, proclamado por Abraão em Gênesis 22.14, é o Deus que tudo prove para Noemi e Rute, inclusive um remidor, Boaz, e um herdeiro, Obede, prolongador da semente de Elimeleque, da linhagem de Davi (Rt 4.13-22).

  O livro faz parte da chamada "trilogia de Belém", as três narrativas cujo cenário descreve o período dos juízes em relação à cidade que também é conhecida como Efrata (Merril, 2001, p. 184). São clas: Mica e o levita (Jz. 17-18), o levita e a concubina (Jz 19-21) e, por fim, a história de Rute, num corpus literário distinto e específico. O livro apresenta uma história curta, porém de grande riqueza espiritual, pela conduta exemplar e pela fé perseverante dos seus principais personagens e, principalmente, pelo desfecho da obra, que revela o grande propósito de toda a história: a preservação da linhagem piedosa de Abraão, de onde viria (e veio) Jesus, Filho de Davi, o Salvador do mundo.

 I - A ORGANIZAÇÃO DO LIVRO

  Seja na Bíblia Hebraica, seja na Cristă, Rute aparece como um livro separado de Juízes. Há, porém, muita discussão se isso sempre foi assim. Conforme destaca Eugene H. Merril (ibid., p. 188),

  A antiga tradição canônica entre os judeus tradicionalmente tem incluído e considerado o livro de Rute como livro dos Juízes, e tal raciocínio tem base nas fortes considerações literárias e históricas. Seu autor coloca os acontecimentos no tempo "quando os juízes govermavam" (Rt 1.1), e o cenário ainda está envolto nas duas últimas páginas narrativas do livro dos Juízes. (Enquanto as outras histórias são do princípio daquela era, Rute deve ser localizada no final do período, pois esta heroína está separada de Davi por apenas três gerações). Além disso, a acusação que comumente servia como um refrão por todo o livro dos Juízes "Naqueles dias não havia rei em Israel: cada qual fazia o que achava mais reto" (Jz 17.6; 18.1; 19.1; 21.25) e que lançava toda aquela era em uma espécie de caos moral e apostasia da Lei, está sem dúvida refletida nas palavras de abertura do livro de Rute – No dia em que julgavam os juízes", ou seja, quando não havia um rei.

  Ao longo dos tempos, houve muita variação na composição e ordem dos livros do Antigo Testamento até chegar à organização que temos hoje, com Rute sendo um livro distinto, vindo imediatamente após Juízes. Conforme explica  Norman Geisler e Willian Nix (2006, p. 75):

  Os livros das Escrituras judaicas foram reagrupados várias vezes desde quando foram redigidos. Alguns deles, de modo especial os que fazem parte dos escritos, foram redigidos e aceitos pela comunidade judaica séculos antes das datas que os teóricos da crítica lhes atribuem.

Acerca dessa variação de posição, R. Clyde Ridall (2020, p. 160) sintetiza:

  Na Biblia hebraica moderna este livro está colocado no Megilloth e é lido publicamente na Festa das Semanas (no tempo da colheita). Contudo, até por volta do ano 450 de nossa era, o livro de Rute era considerado uma continuação de Juízes. Em sua lista de livros inspirados, Josefo aparentemente considera Juízes e Rute como um único livro.   Ao que tudo indica, Jerônimo deixa implícito que os dois estavam juntos no cânon hebraico. Rute aparece na LXX e na Vulgata logo depois de Juízes (como em nossas versões atuais). Não se sabe por que nem como o livro saiu de sua posição original junto aos "Profetas Anteriores" e foi parar no Hagiógrafo (ou Escritos), a terceira divisão do cânon hebraico.

   Embora a formação do conjunto literário e a ordem dos livros tenha sofrido variação, é preciso ser dito, contudo, que os livros do Antigo Testamento, como conteúdo canônico, jamais estiveram em disputa na antiga comunidade de Israel.

1. Na Bíblia Hebraica

A Bíblia Hebraica, a Tanakh, é composta apenas dos 39 livros do Antigo Testamento da Bíblia Cristă. Nela, o livro de Rute pertence à terceira divisão ou seção chamada Ketuvim ou Hagiógrafos (Escritos Sagrados). A primeira seção é a Torah (Pentateuco ou Lei), e a segunda é a Nevi'im (Profetas) (Lc 24.44). Dentre os Escritos, que são 11 livros, estão os Megillot (cinco rolos), livros curtos que eram lidos publicamente nas festas judaicas anuais. São eles: Cântico dos Cânticos, Rute, Lamentações, Eclesiastes e

Ester. Em função de narrar fatos ocorridos durante a colheita, a leitura litúrgica de Rute era tradicionalmente feita durante o Shavu'ot (Pentecostes), a festa da colheita.

 2. Na Bíblia Cristã

  Enquanto a Bíblia Hebraica está dividida em três seções (Pentateuco, Profetas e Escritos), o Antigo Testamento da Bíblia Crista é composto de quatro seções: Pentateuco, Poéticos, Históricos e Proféticos. Rute está categorizado como um livro histórico, diante do seu evidente gênero narrativo, sem deixar, contudo, de apresentar uma extraordinária beleza poética. Aparece logo depois do livro de Juízes. Empregando estilo e linguagem pertencentes ao hebraico clássico, o seu autor expõe vários aspectos subjetivos da vida dos personagens (Rt 1.12-21; 2.13,20; 3.1; 4.16).

  A obra está organizada em quatro capítulos, somando 85 versículos ao todo.

 3. Autoria e data

  É muito comum existirem infindáveis discussões sobre aspectos históricos, autoria e data dos livros da Bíblia. São extensas as teses que consomem longos tempos de navegação fora das Escrituras, que poderiam ser dedicados ao crescimento em edificação pelo estudo do Livro Sagrado. Os pentecostais não ignoram o mundo acadêmico e nem negam o valor das suas pesquisas quando produzem extraordinárias descobertas a respeito da história bíblica e do seu registro canónico. Dedicam, contudo, mais tempo para o estudo das próprias Escrituras, e não para tudo o que a Alta Crítica escreve acerca dela. Cremos na inspirada, inerrante, completa e infalível Palavra de Deus.

  De qualquer sorte, é importante pelo menos citar que há uma diversidade de opiniões entre os eruditos a respeito da autoria e data do livro de Rute. Samuel é o autor mais provável, embora Esdras e Ezequias também sejam citados como supostos autores (BEACON, p. 159). Ο Talmude, obra milenar de regulamentos e tradições judaicas, atribui a Samuel a autoria (BEP, p. 420).2 A forma como o autor refere-se a Jessé e Davi parece indicar contemporaneidade e familiaridade com os personagens, o que também aponta para Samuel (Rt 4.17). Além disso, as características gerais da obra indicam uma atmosfera própria do início do período da monarquia de Israel, reforçando ainda mais a autoria do profeta, sacerdote e último juiz de Israel.

  Quanto à data, também há muito debate e imprecisão. Contudo, considerando a provável autoria de Samuel, o livro teria sido escrito no século X a.C. Um dos principais argumentos para essa conclusão, como destaca Leon Morris (1986, p. 219, 220), diz respeito ao estilo e à linguagem presentes na obra, pertencentes ao hebraico clássico, o que indica uma época primitiva, ou seja, dos dias de Samuel, logo após os fatos narrados no livro, bem distante do estilo visto em livros escritos no período pós-exílico (segunda metade do século V a.C.), como os livros das Crônicas dos reis de Israel, escritos provavelmente por Esdras.

  De fato, verifica-se que a narrativa de Rute encerra-se com a referência a Davi ("e Obede gerou a Jessé, e Jessé gerou a Davi" - Rt 4.22). Seria de todo improvável que um livro escrito após a monarquia (e no período pós- exílico!) não citasse qualquer outro rei de Israel, principalmente Salomão.

 II-O CONTEXTO HISTÓRICO

  No capítulo anterior, apresentamos um panorama do contexto histórico do livro de Rute, os dias dos juízes (Rt 1.1). Esse período, que durou mais de três séculos, começou depois da morte de Josué (por volta de 1375 a.C.) e estendeu-se até o início da monarquia de Israel com a ascensão de Saul ao trono (1050 a.C.). Os fatos narrados em Rute devem ter ocorrido mais para o fim dos dias dos juízes em função da proximidade geracional com Davi: Boaz gerou a Obede; Obede gerou a Jessé, e Jessé gerou a Davi (Rt 4.21, 22). Apenas três gerações, portanto, separam Rute de Davi.

  1. No tempo dos juízes

  Os dias dos juízes foram marcados por uma grande anarquia e uma profunda apostasia e infidelidade do povo hebreu (Jz 1.7-19). Como já assinalado, uma frase que identifica bem esse período é: "cada qual fazia o que parecia direito aos seus olhos" (Jz 17.6). A Nova Tradução da Linguagem de Hoje traduz como: "cada um fazia o que bem queria". Isso demonstra o quadro anárquico que estava em Israel, bem diferente do propósito e da ordem de Deus estabelecida por intermédio de Moisés, que previa uma unidade nacional sob a obediência da Lei (Dt 31.12, 13).

   A sensação de estabilidade pela conquista da terra e o seu estabelecimento nas cidades (Js 2.6), somado à convivência com os povos cananeus que não foram desalojados, produziram uma drástica mudança no coração da nação israelita ao longo das gerações. Josué advertira ao povo que não se misturasse às nações que haviam ficado na terra e que sequer fizessem menção aos nomes dos seus deuses (Js 23.7).

  O povo deveria manter um extremo zelo de Deus e da sua Palavra, obedecendo a Ele em tudo e buscando viver isento de todos os costumes dos cananeus que permaneceram na terra, mas Israel fez o contrário de tudo isso.

 2. Secularismo, hedonismo e idolatria

  O principal marco da transição da fidelidade do culto hebreu para a frieza, o declínio e a apostasia foi a morte de Josué e dos demais líderes do seu tempo. A nova geração, que não tinha uma profunda comunhão com Deus e não conhecia o que Ele havia feito em favor do povo hebreu, desviou-se do caminho. O resultado disso foi uma rápida corrupção moral e espiritual da nação (Jz 2.7-13). Israel cedeu ao estilo de vida pecaminoso e aos deuses dos cananeus. O pervertido culto a Baal (o deus da tempestade e da chuva) e a Astarote (a deusa do amor e da fertilidade) passou a ser praticado pela nação num degradante nível de imoralidade e idolatria.

  A nação de Israel tornou-se secularista, hedonista e idólatra, entregando-se aos prazeres carnais e aos ídolos dos cananeus, como analisa Matthew Henry (2022, p. 97, 98):

  Toda essa geração em alguns anos se esfriou, suas boas instruções e exemplos morreram e foram enterrados com eles e surgiu outra geração de israelitas que tinha tão pouca compreensão da religião e se preocupava tão pouco comela que, apesar de todos os beneficios da sua educação, podemos verdadeiramente dizer que não conheciam o Senhor da forma cometa, ou seja, não o conheciam como havia se revelado; completamente devotados ao mundo ou tão indulgentes com a came no que se referia ao ócio e a luxúria, que não davam a mínima importância para o verdadeiro Deus e à sua santa religião. Dessa forma, foram facilmente atraídos aos falsos deuses e às suas superstições abomináveis. [...]

  Quando abandonaram o único e verdadeiro Deus não se tomaram ateistas, nem eram tão insensatos a ponto de dizer. Não há Deus. Mas eles seguiram outros deuses. Retinham tanto da natureza pura a ponto de dizerem que existia Deus, mas também permanecia tanto da natureza corrupta que multiplicavam os deuses. Eles estavam dispostos a aceitar qualquer deus, e seguir a moda, não a regra, na adoração religiosa.

  Geralmente, ocorre assim: as gerações piedosas vão sendo atraídas pelos costumes das sociedades mundanas, em busca de prazer e entretenimento, até serem roubadas no seu coração, abandonando a prática da verdadeira religião, o culto ao Deus Eterno. O passo seguinte é flertar com falsas práticas religiosas até assumir novos deuses.

 Lições para todos os Tempos

  Algumas lições espirituais fundamentais podem ser extraídas do trágico exemplo de Israel no período pós-conquista.

  A primeira é sobre o quanto é importante uma liderança madura, experiente e temente a Deus, que tenha força moral e espiritual para ser exemplo com a própria casa e conduzir o povo em serviço, obediência e adoração. Josué foi esse tipo de líder. Quando o povo fica sem condutores idôneos, os prejuízos são incalculáveis em toda e qualquer época. No Reino de Deus, não basta ter carisma para liderar; é preciso ter caráter aprovado (1 Tm 3.2-13; 2 Tm 2.15; Tt 2.7,8). Nesse sentido, é imperativo que, como igreja, valorizemos mais os líderes locais, que pastoreiam com zelo o rebanho do Senhor, fortalecendo os vínculos da comunidade de fé a que pertencemos (Hb 13.7,17; 1 Ts 5.12, 13).

  A segunda é sobre como é imprescindível o ensino das Escrituras como base norteadora de todas as nossas condutas individuais e coletivas. Como Moisés havia ordenado, o povo deveria ser reunido homens, mulheres, meninos e os estrangeiros para ouvir, aprender e temer a Deus, guardando todas as suas palavras. Cumprir essa ordem hoje é ser, o tanto quanto possível, assíduo e ativo nos cultos ordinários da igreja, especialmente o de oração e ensino e a Escola Dominical. A valorização mútua e o zelo congregacional são recomendados a todos (Hb 10.24,25).

  A terceira lição que podemos extrair do infeliz exemplo de Israel nos anos posteriores aos dias de Josué é o cuidado de que precisamos ter para não sermos seduzidos pelo estilo de vida mundano da sociedade que nos cerca. É fato que o modo de vida fácil e os costumes aparentemente agradáveis dos grupos sociais com os quais convivemos têm um forte poder atrativo; afinal de contas, fazer a vontade de Deus com o zelo que nos recomendam as Escrituras pode ser visto como um fardo muito pesado, principalmente quando se refere a aspectos culturais não recomendados pelas igrejas conservadoras.

  O fato é que não é possível flertar com o mundo e os seus prazeres e, ainda assim, conservar o coração ardente pela presença de Deus. Os entretenimentos mundanos não são neutros como se imagina. Assim, embora não devamos ser radicais, não podemos também nos esquecer de que nosso modo de viver deve ser santo em tudo (1 Pe 1.13-16) e de que tudo o que fizermos deve ser para a glória de Deus, não dando escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus (1 Co 10.31,32). É para isso que fomos chamados.

  No caso de Israel, é certo que a aproximação do estilo de vida cananeu foi ocorrendo aos poucos, como se não tivesse importância; como se prejuízo nenhum causasse, até ao ponto da apostasia total e do degradante declínio que marcou os dias dos juízes, ou seja, com muita opressão, angústias, mortes, tristezas e profundas desolações.

É como diz a ilustração da rã na chaleira: se for posta numa chaleira cheia de água fervendo, ela logo saltará para fora; mas, se a água estiver à temperatura ambiente, ela permanecerá até que a água ferva e ela morra cozida.

 3. Opressão, clamor e livramento

  O Deus de Israel cumpriu integralmente a sua Palavra enquanto a nação foi fiel a Ele. Como escreveu Josué: "Palavra alguma falhou de todas as boas palavras que o SENHOR falara à casa de Israel; tudo se cumpriu" (Js 21.45). Isso mostra o inestimável valor da confiança em Deus, a despeito de qualquer circunstância. Enquanto permaneceu fiel a Deus, o povo de Israel desfrutou de proteção sobrenatural: "[...] nenhum de todos os seus inimigos ficou em pé diante deles; todos os seus inimigos o SENHOR deu na sua mão" (Js 21.44).

  Tudo mudou quando o povo pecou. Com a apostasia, a nação tornou-se presa fácil dos seus inimigos, cujos exércitos atacavam e saqueavam as cidades e terras de Israel, mantendo o povo sob o seu domínio opressor por longos períodos (Jz 3.7-9;12-14;4.1-3;6.1-6). Afligida, a nação clamava a Deus, e o Senhor levantava juízes para libertar o seu povo (Jz 2.18).

  Como já observado, esses juízes não eram magistrados civis que julgavam em fóruns ou tribunais, como conhecemos hoje, embora alguns estudiosos, como, por exemplo, D. A. Carson, considerem que eles também se dedicavam a dirimir conflitos entre o povo, sem indicar, contudo, um exemplo prático desse oficio entre os juízes mencionados em todo o período. O que temos registrado nas Escrituras é que esses juízes eram, em geral, líderes militares, como Otniel, Baraque e Gideão (Jz 3.9- 11; 4.10-15; 7.16-25), poderosamente usados para "julgar" a causa do povo de Israel, livrando-o dos seus opressores. Apesar dos repetidos ciclos de infidelidade de Israel, Deus ouvia o gemido do seu povo nos seus momentos de dor e aflição (Jz 2.18). O Senhor é longânimo (SI 103.8; Jl 2.13; Rm 2.4), e as suas misericórdias são a causa de não sermos consumidos (Lm 3.22). Ele está pronto para ouvir os que clamam a Ele (Jr 29.12, 13; Is 55.6).

  nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus (1 Co 10.31,32). É para isso que fomos chamados.

  No caso de Israel, é certo que a aproximação do estilo de vida cananeu foi ocorrendo aos poucos, como se não tivesse importância; como se prejuízo nenhum causasse, até ao ponto da apostasia total e do degradante declínio que marcou os dias dos juízes, ou seja, com muita opressão, angústias, mortes, tristezas e profundas desolações.

  É como diz a ilustração da rã na chaleira: se for posta numa chaleira cheia de água fervendo, ela logo saltará para fora; mas, se a água estiver à temperatura ambiente, ela permanecerá até que a água ferva e ela morra cozida.

 3. Opressão, clamor e livramento

  O Deus de Israel cumpriu integralmente a sua Palavra enquanto a nação foi fiel a Ele. Como escreveu Josué: "Palavra alguma falhou de todas as boas palavras que o SENHOR falara à casa de Israel; tudo se cumpriu" (Js 21.45). Isso mostra o inestimável valor da confiança em Deus, a despeito de qualquer circunstância. Enquanto permaneceu fiel a Deus, o povo de Israel desfrutou de proteção sobrenatural: "[...] nenhum de todos os seus inimigos ficou em pé diante deles; todos os seus inimigos o SENHOR deu na sua mão" (Js 21.44).

  Tudo mudou quando o povo pecou. Com a apostasia, a nação tornou-se presa fácil dos seus inimigos, cujos exércitos atacavam e saqueavam as cidades e terras de Israel, mantendo o povo sob o seu domínio opressor por longos períodos (Jz 3.7-9;12-14;4.1-3;6.1-6). Afligida, a nação clamava a Deus, e o Senhor levantava juízes para libertar o seu povo (Jz 2.18).

  Como já observado, esses juízes não eram magistrados civis que julgavam em fóruns ou tribunais, como conhecemos hoje, embora alguns estudiosos, como, por exemplo, D. A. Carson, considerem que eles também se dedicavam a dirimir conflitos entre o povo, sem indicar, contudo, um exemplo prático desse oficio entre os juízes mencionados em todo o período. O que temos registrado nas Escrituras é que esses juízes eram, em geral, líderes militares, como Otniel, Baraque e Gideão (Jz 3.9- 11; 4.10-15; 7.16-25), poderosamente usados para "julgar" a causa do povo de Israel, livrando-o dos seus opressores. Apesar dos repetidos ciclos de infidelidade de Israel, Deus ouvia o gemido do seu povo nos seus momentos de dor e aflição (Jz 2.18). O Senhor é longânimo (SI 103.8; Jl 2.13; Rm 2.4), e as suas misericórdias são a causa de não sermos consumidos (Lm 3.22). Ele está pronto para ouvir os que clamam a Ele (Jr 29.12, 13; Is 55.6).

   III - PROPÓSITO E MENSAGEM

  Para compreender o propósito de um livro, é preciso buscar conhecer a mente do autor a partir do conteúdo da sua obra.    O hermeneuta bíblico não pode atribuir o seu próprio sentido ao texto, mas dedicar-se para extrair da Escritura a intenção do autor e a mensagem contida na obra. Assim, à luz do texto de Rute, vários propósitos podem ser vistos. Gleason L. Archer Jr. (2012, p. 344) apresenta uma síntese:

  O propósito do livro é narrar um episódio entre os ancestrais de Davi que explicava a introdução de sangue não israelita na linhagem da sua família. Ensina também o grande alcance da graça de Deus, pronto a dar as boas-vindas, na comunhão do seu povo redimido, aos convertidos gentios. Talvez o aspecto de maior importância dessa curta narrativa seja exibir a função do go'el ou "parente resgatador".

 1. O cetro de Judá

  Sem dúvida, o principal e mais evidente propósito do livro é o registro da linhagem de Davi (Rt 4.18-22). Rute apresenta-o como descendente de Judá, que é a tribo real da qual viria o Messias, "[...] o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi" (Ap 5.5). Gênesis 49.10 diz: "O cetro não se arredará de Judá, nem o legislador dentre seus pés, até que venha Siló; e a ele se congregarão os povos". Embora Rúben fosse o primogênito de Jacó, o seu ato de desonra ao leito do pai, deitando-se com a sua concubina, fez com que perdesse a primogenitura (a sua posição de liderança) (Gn 35.22; 49.4). A promessa feita a Abraão seguia, agora, pela linhagem de Judá. Se Samuel for o autor do livro de Rute, o propósito de apresentar a genealogia de Davi ganha ainda mais sentido, já que era Saul, um benjamita, quem ocupava o trono naquele tempo (1 Sm 9.1,2; 25.1; 26.1.2). O registro da ancestralidade de Davi funcionaria como uma legitimação para o futuro rei de Israel.

 2. Amor e redenção

   Rute é uma peça indispensável na metanarrativa bíblica que revela o amor divino pela humanidade, manifestado através do plano de redenção, que culminou com o envio do Filho de Deus ao mundo para, uma vez encarnado, oferecesse a si mesmo como sacrificio perfeito no lugar de toda a humanidade (Jo 1.1-14; 3.16; Gl 4.4,5). Esta é a mensagem principal do livro: o amor de Deus e o seu plano de redenção da humanidade sem acepção de pessoas (At 10.34-44). Como representantes de judeus e gentios, respectivamente, Boaz e Rute prenunciam a derrubada da parede de separação (Ef 2.11-16). A redenção é vista no livro nos sentidos literal e tipológico. Boaz é tanto o parente remidor que perpetuou a descendência de Elimeleque, como também um tipo de Cristo, nosso eterno Redentor (Is 59.20; Lc 1.68; Ef 1.7; Tt 2.14).

 3. Fidelidade e altruísmo

  O período dos juízes tinha como característica principal a busca egoística dos próprios interesses. Era cada um por si. Paradoxalmente, o livro de Rute é um oásis de altruismo. Noemi, viúva e sem filhos, prefere o bem- estar das suas noras, liberando-as para voltar para as suas respectivas famílias. Não pensou em si mesma (Rt 1.8-15). Uma jovem moabita deixa a terra dos pais para acompanhar a sua sogra, já idosa, que não tinha nenhuma perspectiva material ou humana de trazer-lhe um futuro promissor (Rt 1.16, 17). Pobre e sem filhos, Noemi não tinha realmente o que oferecer a Rute. Já em Belém, o comportamento de Rute foi voltado integralmente para a proteção e o cuidado da sogra e de forma voluntária (Rt 2.2, 17, 18). Rute não esboçou uma atitude sequer que lhe pudesse favorecer em primeiro lugar, como a busca de um casamento com qualquer homem belemita (Rt 3.10). Na verdade, o interesse por casar-se não surgiu da decisão dela, mas da específica orientação da sogra (Rt 3.1- 6).

  Esse comportamento de Noemi e Rute dá uma eloquente mensagem: o valor do altruismo num mundo dominado pelo egoísmo. Enquanto nos dias dos juízes todos viviam segundo os seus próprios padrões e interesses (Jz 21.25), Noemi e Rute exalam abnegação, destoando dessa máxima individualista. Sogra e nora não pensavam em si mesmas.   Elas praticaram o amor que não busca os seus próprios interesses (1 Co 13.5).

   Por todo esse cenário de benevolência, o livro de Rute permite-nos saber que nem tudo eram trevas nos dias dos juízes. Havia um remanescente fiel, que temia ao Senhor Deus e foi usado para cumprir os seus propósitos (Jó 42.2). Como destaca R. Clyde Ridall (2020, p. 160);

  Este livro revela que a nobreza e a graça não desapareceram de Israel, até mesmo naqueles dias mais rudes de agitação e anarquia. A verdadeira piedade e simplicidade do modus vivendi nunca deixaram de existir, nem mesmo no meio de um período tão rústico.

  Conforme descobriu Martinho Lutero (1483-1546), em um mundo de crescente iniquidade, o justo vive pela fé (Mt 24.12, 13; Hc 2.4).

 CONCLUSÃO

  O livro de Rute mostra-nos que o Deus da providência é soberano e continua no controle da história. Os seus propósitos eternos e tudo o que planejou não podem ser frustrados. A despeito da incredulidade e dos pecados do homem, o Senhor trabalha para cumprir os seus desígnios. O que Ele precisa é encontrar quem esteja disposto a obedecer-lhe em tudo (Ez 22.30). Assim, sem quebrar o princípio do livre-arbítrio, Ele conduz a história e executa os seus elevados planos. O Senhor é fiel em todo o tempo.

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N. do E.: A Alta Crítica objetiva fazer uma análise das obras literárias bíblicas e lida com questões sobre a autenticidade do texto, a autoria, a data e as circunstâncias da obra. Já a Baixa Crítica busca achar a escrita original do texto, já que não mais possuímos os textos originais.

2 Leon Morris cita essa fonte (Talmude, Baba Bathra, 14b), porém considera ser uma tradição recente, que não parece ter base sólida para indicar com precisão a autoria do livro (1986, p. 213).

$ A referência învocada por D. A. Carson e que poderia atribuir aos juízes o oficio de julgar causas civis é Rute 4.12, mas esta, além de não estar relacionada aos libertadores levantados por Deus para o livramento do seu povo nos moldes vistos no livro de Juízes, está relacionado a um costume negocial comume absolutamente distinto.

   O Deus Que Governa o Mundo e Cuida da Família – Os Ensinamentos Divinos nos livros de Rute e Ester para a Nossa Geração



 

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