TEXTO ÁUREO
“Então, as mulheres disseram a Noemi: Bendito
seja o Senhor, que não deixou, hoje, de te dar remidor, e seja o eu nome
afamado em Israel.”
(Rt 4.14).
VERDADE PRÁTICA
Conhecidas ou anônimas, muitas mulheres foram
fundamentais no plano divino de redenção da humanidade.
LEITURA
BÍBLICA EM CLASSE
Rute
4.13-22; Ester 7.1-7.
Rute
4
13
— Assim,
tomou Boaz a Rute, e ela lhe foi por mulher; e ele entrou a ela, e o Senhor lhe
deu conceição, e ela teve um filho.
14
— Então,
as mulheres disseram a Noemi: Bendito seja o Senhor, que não deixou, hoje, de
te dar remidor, e seja o seu nome afamado em Israel.
15
— Ele
te será recriador da alma e conservará a tua velhice, pois tua nora, que te
ama, o teve, e ela te é melhor do que sete filhos.
16
— E
Noemi tomou o filho, e o pôs no seu regaço, e foi sua ama.
17
— E
as vizinhas lhe deram um nome, dizendo: A Noemi nasceu um filho. E chamaram o
seu nome Obede. Este é o pai de Jessé, pai de Davi.
18
— Estas
são, pois, as gerações de Perez: Perez gerou a Esrom,
19
— e
Esrom gerou a Arão, e Arão gerou a Aminadabe,
20
— e
Aminadabe gerou a Naassom, e Naassom gerou a Salmom,
21
— e
Salmom gerou a Boaz, e Boaz gerou a Obede,
22
— e
Obede gerou a Jessé, e Jessé gerou a Davi.
Ester
7
1
— Vindo,
pois, o rei com Hamã, para beber com a rainha Ester,
2
— disse
também o rei a Ester, no segundo dia, no banquete do vinho: Qual é a tua
petição, rainha Ester? E se te dará. E qual é o teu requerimento? Até metade do
reino se fará.
3
— Então,
respondeu a rainha Ester e disse: Se, ó rei, achei graça aos teus olhos, e se
bem parecer ao rei, dê-se-me a minha vida como minha petição e o meu povo como
meu requerimento.
4
— Porque
estamos vendidos, eu e o meu povo, para nos destruírem, matarem e lançarem a
perder; se ainda por servos e por servas nos vendessem, calar-me-ia, ainda que
o opressor não recompensaria a perda do rei.
5
— Então,
falou o rei Assuero e disse à rainha Ester: Quem é esse? E onde está esse cujo
coração o instigou a fazer assim?
6
— E
disse Ester: O homem, o opressor e o inimigo é este mau Hamã. Então, Hamã se
perturbou perante o rei e a rainha.
7
— E
o rei, no seu furor, se levantou do banquete do vinho para o jardim do palácio;
e Hamã se pôs em pé, para rogar à rainha Ester pela sua vida; porque viu que já
o mal lhe era determinado pelo rei.
PLANO
DE AULA
1.
INTRODUÇÃO
Neste trimestre estudaremos os livros históricos de Rute e Ester. Neles, veremos como Deus usou duas mulheres na história da salvação. Elas foram muito importantes para preparar todo o contexto necessário para o advento do Senhor Jesus, o nosso Salvador. Apresente o comentarista deste trimestre, pastor Silas Queiroz, membro do Conselho de Comunicação e Imprensa da CGADB. Jornalista, Bacharel em Teologia e Direito, Procurador-Geral do município de Ji-Paraná, RO. Atua como pastor nas congregações de Ji-Paraná, cidade na qual reside.
2.
APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO
A)
Objetivos da Lição: I)
Apresentar o perfil de Rute, a moabita; II) Traçar o perfil de Ester, a judia
que ascendeu ao posto de rainha; III) Refletir a respeito da mulher cristã como
protagonista no Reino de Deus.
B)
Motivação: Rute
e Ester nos apresentam perfis de mulheres de Deus que podem nos inspirar em
nosso relacionamento com Deus, no compromisso mútuo com o próximo. Não há
dúvida de que os exemplos dessas duas grandes mulheres ressoam ainda hoje e
influenciam as mulheres do século XXI.
C)
Sugestão de Método: Muito
se discute a respeito do papel da mulher no mundo atual. A Bíblia revela
mulheres fortes, moralmente corajosas e, ao mesmo tempo, dedicadas à sua
família e aos negócios da cidade. Essa mulher bíblica que se revela em Rute e
Ester, se revela em muitas mulheres hoje que amam a Jesus, sua igreja local e
sua família. Por isso, introduza esta lição fazendo a contextualização entre a
mulher cristã de hoje com a mulher da Bíblia em Rute e Ester.
3.
CONCLUSÃO DA LIÇÃO
A)
Aplicação: Deus
chama mulheres e as capacita para fazer uma grande obra em seu reino, para
serem seu instrumento no século atual, de modo que o seu nome seja glorificado.
Que o Espírito Santo continue a capacitar mulheres para a sua obra no mundo!
4.
SUBSÍDIO AO PROFESSOR
A)
Revista Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa revista que traz
reportagens, artigos, entrevistas e subsídios de apoio à Lições Bíblicas
Adultos. Na edição 98, p.36, você encontrará um subsídio especial para esta
lição.
B)
Auxílios Especiais: Ao
final do tópico, você encontrará auxílios que darão suporte na preparação de
sua aula: 1) O texto “Quando alguém diz”, localizado depois do primeiro tópico,
ressalta a pessoa de Rute; 2) O texto “Ester”, ao final do segundo tópico,
aprofunda a introdução a respeito de Ester.
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
Rute e Ester são os dois livros da Bíblia que levam o nome de mulheres. Registram duas das mais belas, extraordinárias e dramáticas histórias sagradas. A primeira, ocorrida em Moabe e Belém, no período dos juízes, que durou, aproximadamente, de 1375 a 1050 a.C. A segunda, na Pérsia, depois do cativeiro babilônico, entre 483 e 473 a.C. Rute e Ester viveram em épocas, circunstâncias e contextos muito diferentes, mas expressaram as mesmas virtudes espirituais e morais: fé, convicção, humildade, coragem, obediência, simplicidade, pureza, abnegação, temor a Deus e disposição de servir. Essas duas mulheres foram fundamentais para a preservação do povo judeu, a descendência piedosa de Abraão. Suas vidas continuam sendo fontes de profunda inspiração para todos que desejam agradar a Deus e viver para a sua glória (Sl 147.11; 1Co 10.31; Hb 11.6).
Palavra-Chave:
MULHERES
AUXÍLIO VIDA CRISTÃ
“QUANDO
ALGUÉM DIZ: ‘Deixe-me contar sobre a minha sogra’, esperamos algum tipo de
declaração negativa ou anedota humorística, pois muitas delas têm sido alvo de
ridicularização ou comédia. [...] Não é dito muito sobre Noemi a não ser que
amava e cuidava das noras. Obviamente, a vida dela foi um poderoso testemunho
para a realidade do Senhor. Rute foi atraída para ela — e para o Deus dela. Nos
meses que se sucederam, o Todo-Poderoso levou esta jovem viúva moabita a um
homem chamado Boaz, com quem posteriormente se casou. Como resultado, ela se
tornou bisavó de Davi e ancestral do Messias. Que profundo impacto teve a vida
de Noemi!” (Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2004,
p.354).
AUXÍLIO VIDA CRISTÃ
“ESTER
A
beleza e o caráter de Ester conquistaram o coração de Assuero (ou Xerxes), e
assim o rei fez de Ester sua rainha. Mesmo em sua posição tão favorecida, ela
arriscou a própria vida, entrando à presença do rei sem ser chamada. Não havia
sequer a garantia de que o rei a receberia. Embora fosse a rainha, não estava
completamente segura. Mas, com cautela e coragem, Ester decidiu arriscar sua
vida, abordando o rei a favor de seu povo.
[...]
Neste ínterim, Deus estava trabalhando ‘nos bastidores’. O Senhor fez com que o
rei lesse os registros históricos do reino, à noite, e descobrisse que
Mardoqueu certa vez salvou a sua vida. Assuero não perdeu tempo para honrar
Mardoqueu por tal ato. Durante o segundo banquete, Ester revelou ao rei a
conspiração de Hamã contra os judeus, e este foi sentenciado. [...] O risco que
Ester correu confirmou que Deus era a fonte de sua segurança” (Bíblia de
Estudo Aplicação Pessoal. Rio
de Janeiro: CPAD, 2004, p.692).
SUBSÍDIOS ENSINADOR CRISTÃO
DUAS
IMPORTANTES MULHERES NA HISTÓRIA DE UM POVO
Prezado(a)
professor(a), a paz do Senhor. Estamos iniciando um novo trimestre de estudos
com a revista Lições Bíblicas Adultos, editada pela CPAD. Nesta nova e rica
oportunidade, seus alunos aprenderão sobre os livros que narram as histórias de
duas mulheres que tiveram papel proeminente na história do povo de Deus. Rute,
a moabita, e Ester, uma judia órfã, tiveram seus destinos traçados para serem
instrumentos de Deus com o intuito de livrar Seu povo da destruição. Para
apresentar o processo da ação divina por meio dessas mulheres destemidas, o
comentarista deste trimestre é o pastor Silas Queiroz, da Assembleia de Deus em
Ji-Paraná (RO), procurador geral do munícipio, formado em Direito pela
Universidade Luterana do Brasil, bacharel em Teologia pela Faculdade de
Teologia Logos (FAETEL) e autor dos livros Maturidade Espiritual do
Líder, Sejam Firmes e Jesus, o Filho de Deus,
todos editados pela CPAD.
A
introdução ao assunto do presente trimestre consiste em apresentar Rute e Ester
como personagens centrais que se destacaram na história de Israel. Essas duas
mulheres são exemplos de fé e temor a Deus. Suas atitudes revelam que o
cumprimento do propósito divino requer coragem, amor, persistência e
resiliência diante das perseguições. Embora tenham vivido em épocas diferentes,
Rute e Ester tornaram-se conhecidas pelas mesmas virtudes espirituais e morais:
fé, convicção, humildade, coragem, obediência, simplicidade, pureza, abnegação,
temor a Deus e disposição para servir. Esses aspectos foram vistos não apenas
pelos homens, mas principalmente por Deus, que conhece todas as coisas (Sl
139.1). Note que a credibilidade dessas mulheres foi notória não pelo fato de
serem esmeras conhecedoras dos rudimentos das leis mosaicas, e sim porque
preservavam em seus estilos de vida os princípios divinos e imutáveis,
indispensáveis para a conduta de qualquer servo de Deus, não importe a época.
São essas preciosas lições que nosso Senhor Jesus instruiu aos Seus discípulos:
“Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes” (Jo 14.17). Logo,
para Deus, o relevante não é apenas o conhecer, mas, sim, o praticar. A entrega
de Rute à fé judaica revela a devoção de um coração que anelava verdadeiramente
se entregar a Deus. De acordo com o Comentário Bíblico Beacon (CPAD,
Volume 2), “ela foi uma escolha de convicção, e não de emoção, conforme se vê
no contraste com Orfa (Rt 1.14); uma escolha feita apesar de todas as
dificuldades (vv.11-13); a escolha em favor de um povo (v.16); uma escolha sem
opção de voltar atrás (vv.17,18)” (p.163). Como consequência de suas virtudes,
essas mulheres foram honradas por Deus. Nesse sentido deve ser a escolha de
todo aquele que almeja servir a Deus: uma entrega completa.
CONCLUSÃO
Deus continua usando mulheres para cumprir seus propósitos. Algumas se tornam conhecidas e tem seus nomes registrados na história, como Rute e Ester. Outras, como a mulher de Noé, vivem a vida toda no anonimato (Gn 6.10,18; 7.7,13; 8.15,16), mas nem por isso deixam de ser importantes. O que seria do patriarca sem uma companheira fiel ao seu lado enquanto cumpria a missão divina que recebera? No Reino de Deus, seja homem, seja mulher, o que importa não é o quanto a pessoa aparece, pois o Senhor olha para o coração (1Sm 16.7; 1Co 3.12-15).
Lição
1: Duas importantes mulheres na história de um povo
O
Deus que governa o Mundo e cuida da Família — Os ensinamentos divinos nos
livros de Rute e Ester para a nossa geração
Comentarista: Silas
Queiroz
Duas Importantes Mulheres Na História
De Um Povo Introdução
Os livros de Rute e Ester podem ser
considerados como um tributo às mulheres piedosas — de ontem, de hoje e de
sempre —, que assentam no coração o propósito de servir a Deus a despeito de
toda e qualquer circunstância contrária, incluindo o espírito da época, hostil
a todos os que decidem viver crendo e praticando o que as Sagradas Escrituras
ensinam. Essas belíssimas porções da literatura canônica ensinam-nos que a
mulher que teme ao Senhor não cede a ideologias ou pressões culturais; não
gasta o tempo ou a energia dela com pensa- mentos e discussões sexistas,
pois ela sabe que o Criador fez macho e fêmea para um viver cooperativo e
não conflitante. Essa mulher sábia entende que homem e mulher são
diferentes para que se completem — cada um, porém, exercendo o seu próprio
papel no plano divino para a glória de Deus.
Nesse espectro da história feminina na
Bíblia, o livro de Rute brinda-nos com o exemplo de Noemi e da moça
moabita que dá nome ao livro. Como as mulheres sábias de nossos dias e de
todos os tempos, essas personagens tiveram a graça de viver livres dos
traumas que os conflitos mentais, verbais e físicos produzem na nefasta
arena da “guerra dos sexos”. Noemi e Rute inspiram as mulheres que não dão
palco para a luta inglória do feminismo, que impõe comportamentos que
só servem para desgastar e deformar a figura da mulher, roubando dela a
verdadeira beleza (moral e física), as ternas e duradouras alegrias da
vida — como o casamento e a maternidade — e o prazer de servir a Deus,
produzindo, como consequência da sua rebeldia, incalculáveis prejuízos para as
estruturas sociais como um todo, incluindo as comunidades cristãs, que são
as igrejas locais de todos os continentes.
Esse tom inspirativo está presente
também no livro de Ester, que nos reserva um drama empolgante. Nele,
vemos, pela fé, a mão do Deus Todo-poderoso agindo na História de maneira
absolutamente precisa, usando principalmente uma mulher. A vida de Ester, uma
moça judia nascida na Babilônia no tempo do cativeiro, órfã de pai e mãe,
inspira-nos a todos — especialmente as mulheres —, com o seu exemplo de
obediência, superação, pureza e coragem. O Senhor continua à procura de homens
e mulheres que possa usar para cumprir os seus extraordinários e eternos
propósitos.
Parênteses
Históricos
Um ponto
fundamental a ser considerado no estudo conjunto de Rute e Ester é
a diferença de contextos geográficos e históricos entre as histórias. Além
da característica comum de serem os únicos livros da Bíblia que levam nome de
mulheres, Rute e Ester também têm em comum o fato de preencherem
parênteses históricos. Cronologicamente, a história de Rute está inserida
na grande narrativa do livro de Juízes. A história encaixa-se entre alguns
dos seus capítulos. Já o texto de Ester trata de fatos ocorridos entre os
capítulos 6 e 7 do livro de Esdras, compondo a literatura pós-exílica.
Apesar dessa conexão cronológica, Rute e Ester são livros específicos e
autônomos que, todavia, precisam ser estudados levando-se em conta o
contexto da história sagrada em que estão inseridos.
O
Período dos Juízes
Já no
primeiro versículo de Rute, o leitor é situado com o tempo e o lugar
dos fatos. A narrativa é linear e passa-se em Belém, na Judeia (atual
Cisjordânia), e em Moabe (atual Jordânia) nos dias dos juízes (cf. Rt 1.1). Cronologicamente,
o período dos juízes vai de aproximadamente 1375 a 1050 a.C., situando-se
entre a morte de Josué e a coroação do rei Saul. Podemos considerar esse tempo
como a terceira fase da história da nação de Israel após a saída do Egito,
o “forno de ferro”, onde foi forjada (Dt 4.20). A primeira fase deu- se
nos dias de Moisés (a jornada de 40 anos pelo deserto). A segunda, nos dias
de Josué (a conquista de Canaã) e dos anciãos contemporâneos seus. Com a
morte dessa geração, a nação de Israel entrou num profundo declínio moral
e
espiritual, iniciando-se o tempo que ficou conhecido como os dias dos juízes.
A nova geração deixou de servir ao
Senhor e passou a prestar culto aos deuses dos cananeus, Baal e Astarote
(Jz 2.7-13). Isso produziu um trágico resultado para a nação (2.14,15).
A crise levava o povo de Israel a clamar
ao Senhor por livramento (3.9,15), e Ele atendia Israel por causa do seu
gemido (2.18). A resposta divina dava-se por meio de libertadores chamados
de “juízes”, que eram usados de forma sobrenatural para livrar a nação
“das mãos dos que os atacavam e roubavam” (2.16 – NAA). O ofício desses
juízes, portanto, em nada se assemelhava à função dos magistrados civis,
como conhecemos hoje. Conforme Donald Stamps, no seu comentário na Bíblia de Estudo Pentecostal, tais juízes eram “líderes militares e tribais [...] dotados de
superiores qualidades de liderança [que] realizavam grandes feitos, mediante
a proteção e o poder de Deus” (2009, p. 388).¹
A
Cronologia de Rute
Sendo o
período dos juízes tão extenso, cobrindo cerca de 225 anos (entre 1375
e 1050 a.C.), em que parte dessa época situam-se os fatos narrados no
livro de Rute? Não há uma resposta precisa para essa pergunta. Existem
opiniões diversas sobre a datação dos fatos descritos em Rute, as quais
faremos referência no capítulo se- guinte, que é dedicado ao estudo da
organização do livro e a um aprofundamento maior no seu contexto
histórico, propósito e mensagem.
Teologicamente falando, não faz diferença o
tempo preciso da viagem de Elime- leque e a sua família para Moabe. Por
isso, o autor bíblico preocupou-se apenas em transmitir uma descrição
teológica do caráter da época em que se deram os acontecimentos — os dias
dos juízes —, já que todo esse período foi marcado por crises cíclicas,
sempre resultando em tragédias (Duguid, 2016, p. 132). A época
é sintetizada pela expressão “não havia rei em Israel, e cada um fazia o
que bem que- ria” (Jz 17.6, NTLH).
Ester e o Pós-Cativeiro Babilônico
De
Belém, na Judeia, a história bíblica transporta-nos para Susã, na Pérsia,
cerca de cinco séculos depois. Novamente se verifica a nítida
historicidade da literatura bíblica logo no começo da obra (Et 1.1). Era
por volta do ano 483 a.C. O cativeiro babilônico, profetizado por Jeremias
para durar setenta anos (Jr 25.11), havia termi- nado em 539 a.C., quando
Ciro, o persa, derrotou o Império Babilônico e permitiu o retorno dos
judeus exilados (cf. Ed 1.1-3).
O primeiro grupo de judeus exilados seguiu
para Jerusalém sob a liderança de Zorobabel em 538 a.C. (Ed 2.1,2; 3.8).
Foram aproximadamente 50 mil os que
dei- xaram a Babilônia (Ed 2.64,65),² um número muito pequeno comparado ao de ju- deus
espalhados pelas cidades babilônicas, dentre as quais Susã, agora
trans- formada em capital do Império Persa.³
A baixa adesão ao chamamento de reconstrução
de Jerusalém deu-se por duas razões principais, como observa Eugene H.
Merrill (2021, p. 501): a primeira, o fato de a maioria daqueles judeus
ter nascido no exílio; a segunda, as boas condi- ções em que viviam na
Babilônia:
[...]
está claro que na época do decreto de
Ciro, a maioria dos judeus exilados pertencia a uma geração que não
conhecia a sua pátria. Tinham nascido no exílio e, embora sonhassem com
Jerusalém, eram o povo da Babilônia. A gera- ção mais antiga e os
idealistas sonhavam por retornar ao lar, mas é fato notório que Sesbassar,
Zorobabel e outros líderes do retorno aparentemente não conseguiram um
grande número de judeus para acompanhá-los à pátria. Obvia- mente isto não
é difícil de compreender, visto que em Babilônia eles eram relativamente
prósperos, sendo doloroso reiniciar a vida em uma terra de morte e cinzas.
Donald
Stamps (2009, p. 709) também nos dá uma surpreendente informação quanto à
disparidade entre o número de judeus exilados que viviam na Babilônia
e o grupo que atendeu à convocação para reconstruir Jerusalém.⁴ Segundo esse reconhecido
comentarista pentecostal, os exilados judeus eram “um milhão ou mais”, o
que faz concluir que apenas 5% aceitou o grande desafio de deixar o conforto da
vida nas grandes cidades babilônicas, agora sob domínio persa, e
enfren- tar a longa e penosa viagem de volta (cerca de 1.500 km) até à
capital de Judá,
com o grande desafio de reconstruir uma cidade destruída e totalmente desolada.⁵ É essa
geração conformista que enfrentará mais de perto o terrível drama
da ameaça de extermínio narrado no livro de Ester. Os persas eram
conhecidos por assegurarem a liberdade religiosa e até incentivarem a
prática dos diversos cultos dos povos dominados.⁶ Mas esse quadro sofrerá uma terrível e inesperada mu- dança
por força de um decreto de Assuero, que ordenará a matança dos judeus
de todas as províncias do vasto Império Persa (Et 3.8-13).
A
Cronologia de Ester
Depois
do primeiro retorno dos judeus da Babilônia para Jerusalém, ocorrido
no ano 538 a.C., passaram-se cerca de vinte e dois anos até a conclusão da
obra de reedificação do Templo (ano 516 a.C.). Foram tempos de muita
oposição, mas também de comodismo e desânimo, narrados por Esdras e
denunciados pelos profetas Ageu e Zacarias (Ed 4.5; Ag 1; Zc 3). Finda a
construção do Templo, abre- se um hiato na história, que teve a duração de
60 anos. É nesse período, mais precisamente entre os anos 483 e 473 a.C.,
como já assinalado, que se dão os fatos descritos no livro de
Ester. Somente em 457 a.C., aproximadamente dezesseis anos depois, sob a
liderança do sacerdote Esdras, é que ocorrerá o segundo retorno de
exilados judeus da Pérsia para Jerusalém. O registro desse retorno está a partir
do capítulo 7 do livro de Esdras. O que vemos, portanto, é que nem o
providencial livramento operado por Deus nos dias de Ester fez com que um
número maior de judeus decidisse deixar as cidades babilônicas que
ocupavam (agora sob domínio da Pérsia) e voltar à capital de Judá. O
segundo grupo foi menor que o primeiro. O capítulo 8 de Esdras enumera
apenas 1.754 homens. Menos de 6 mil pessoas ao todo, considerando em torno
de 4 mil mulheres e crianças.
Rute e Ester: Uma Síntese
Biográfica
Como já
observado, os contextos geográficos e históricos da vida de Rute e
Ester são muito diferentes, assim como as circunstâncias que ambas
enfrentaram. De um lado, temos uma moabita que decidiu viver como
camponesa em Belém; de outro, uma órfã judia que se tornou rainha. O que
há de comum entre Rute e Ester são as suas virtudes espirituais e morais.
Ambas expressam fé, convicção, humildade, coragem, obediência, simplicidade,
pureza, abnegação, temor a Deus e disposição de servir. Por isso, foram
fundamentais para a preservação do povo judeu, a descendência piedosa de
Abraão. As duas continuam sendo exemplos de profunda inspiração para todos
que desejam agradar ao Senhor e viver para a sua glória (Sl 147.11; 1 Co
10.31; Hb 11.6).
I – RUTE: UMA MULHER IMPORTANTE PARA A
LINHAGEM DE DAVI
Em tempos de crise, Deus escolheu uma
mulher moabita para incluí-la na linhagem de Davi e, por conseguinte, na
ancestralidade do Messias, o Salvador do mundo. Alguns séculos antes, isso
já havia acontecido com outra improvável, Raabe, a meretriz, a mulher que,
temendo a Deus, escondeu em sua casa os dois espias enviados por Josué a
Jericó (Js 2.6,17,23). Agora, o mesmo temor a Deus e a confiança na sua
providência fazem de Rute, uma estrangeira assim como Raabe, uma
integrante da árvore genealógica de Davi. O registro é feito com destaque
pelo evangelista Mateus, quando disse que “Salmom gerou de Raabe a Boaz, e Boaz gerou de Rute a Obede, e Obede gerou a Jessé. Jessé gerou ao rei Davi [...]” (Mt 1.5,6,
grifo nosso)
1. Uma moabita
A história de Rute, a moabita, é um
dos muitos exemplos bíblicos de manifestação da graça de Deus a todos os
povos ao longo da história. Os moabitas eram um povo pagão que descendiam
de Moabe, filho da relação incestuosa de Ló, o sobrinho de Abraão, com a sua
filha mais velha (Gn 19.30-37). Depois de escapar da destruição de Sodoma,
onde vivia com a sua mulher e filhas, Ló foi morar numa caverna, num monte
próximo da cidade de Zoar, no extremo sul do mar Morto, região que se tornaria
parte do território de Moabe (Is 15.5; Jr 48.34).
Ali as suas filhas tiveram a infeliz
ideia de embebedá-lo e deitar-se com ele para suscitar-lhe descendência.
Coube à primogênita a torpe iniciativa (Gn 19.31,32).
Moabe nasceu da primogênita, e Amom, da mais
nova (Gn 19.36-38). Os dois tornaram-se pais de duas nações vizinhas de
Israel: os moabitas e os amonitas. Ambos eram povos perversos, idólatras e
inimigos de Israel em muitas circunstâncias (Jz 3.13; 10.6-9; 1 Sm 11.1-11;
12.12; 1 Rs 11.1).
Os moabitas foram hostis a Israel desde
os dias de Balaque, o rei que contratou
Balaão,
o sacerdote-adivinho, no afã de que amaldiçoasse a nação hebreia
(Nm 22.1-6). Mais tarde, as filhas dos moabitas foram instrumento de
sedução para levar os homens de Israel ao pecado sexual e à idolatria, o
que resultou na morte de 24 mil israelitas (Nm 25.1-9). Moisés ainda
relata a hostilidade dos moabitas pela indiferença que tiveram com o povo
de Israel na sua jornada pelo deserto (Dt 23.3,4). Eles impediram Israel
de passar pelas suas terras (Jz 11.17,18). No tempo dos juízes e da
monarquia hebreia, vários foram os conflitos com os moabitas (Jz 3.12-30;
2 Sm 8.1,2; 2 Rs 3.4,5,24; 14.25; 1 Cr 18.2; Ez 25.8-11; Am 2.1-3).
Tendo Moabe esse histórico de
hostilidade, idolatria e imoralidade sexual (Nm 25.1,2; Ap 2.14), era
mesmo de todo improvável que Rute, pertencendo a esse povo, entrasse para
a linhagem de Davi, família da qual viria o Messias, o Salvador do mundo
(Gn 49.8-10; Is 11.1,10; Mq 5.2; Ap 5.5). Contudo, os caminhos de Deus são
mais altos que os nossos e muito acima de nossa compreensão (Is 55.8,9;
Rm 11.33). Ele faz do improvável provável e do impossível possível quando
cremos nEle e o tememos e obedecemos sem impor-lhe qualquer condição (Gn
18.14-16; Hb 11.8-11). Ele é soberano (Jó 42.2). Rute respondeu
favoravelmente ao chamado de Jeová com devoção, fidelidade, obediência e
pureza, alcançando o favor do Eterno, o Deus da providência.
2.
A família belemita
Sob a ótica humana, Rute descreve a
saga de uma simples família belemita e a disposição e coragem de uma jovem
moabita que se apegou à sua sogra e terminou encontrando um judeu piedoso que,
como parente remidor, a tomou em casamento. Sob a ótica divina, contudo,
era o desenvolvimento de mais uma importantíssima fase do plano eterno de
redenção da humanidade. Prometido ainda no Éden (Gn 3.15), esse plano
importava na preservação de uma geração piedosa, iniciada em Abraão (Gn 12.1-3)
e que prosseguia através da tribo de Judá, de onde viria o Messias, o Salvador
(Mq 5.2; Ap 5.5). Sob a ótica humana, Rute surgiu inesperadamente no
cenário bíblico e passou a integrar a linhagem de Davi ao casar-se com
Boaz, um belemita, descendente de Salmom e Raabe, a meretriz (Mt 1.5).
Esse foi mais um capítulo da soberana providência, rumo ao pleno
cumpri- mento do plano salvífico anunciado desde Adão (Lc 3.23-38). Deus
estava trabalhando para cumprir a sua promessa. Ele é sempre fiel em tudo o que
promete (Nm 23.19; Js 21.45; 2 Co 1.20).
De Moabe para Belém
A
narrativa contida em Rute 1 parece indicar apenas a introdução de mais uma
his- tória familiar comum. Mesmo habitando em Belém, a “casa do pão”, a
fome que assolava a terra fez Elimeleque decidir peregrinar nos campos de
Moabe, o que expõe, em princípio, um inexplicável contraste. O povo que
recebera as promessas de todas as bênçãos divinas (Dt 28.1-14) agora
precisava buscar refúgio nas terras de um povo idólatra e impuro, que
sequer seria admitido na congregação de Israel (Dt 23.3). Essa intrigante
decisão, contudo, preparou o cenário para a mudança da história de vida de
uma despretensiosa moça moabita, Rute.
3.
Matrimônio e maternidade
Em Moabe, morre Elimeleque, ficando a
viúva Noemi e os seus filhos Malom e Quiliom (1.2). Algum tempo depois, Malom,
o primogênito, casa-se com Rute (1.4; 4.10), e o mais novo, Quiliom,
casa-se com Orfa. Ao fim de quase dez anos, tam- bém morreram Malom e
Quiliom (1.4,5). Viúva e sem filhos, Noemi decide voltar a Belém, motivada
pela notícia de que a fome havia acabado na sua terra (1.6). Em- bora
pudesse permanecer em Moabe — como decidiu Orfa, viúva de Quiliom —, Rute
escolhe vir com a sua sogra, declarando a sua fé no Deus de Israel (1.16).
A história de Rute em Belém será
desenvolvida ao longo dos capítulos e versículos do livro, como veremos
nesta obra. Nesta síntese biográfica, convém apenas dizer que o ápice da
história acontecerá com dois eventos que foram fundamentais para que o
propósito de Deus fosse consumado na vida dessa moabita. Apegada à sua sogra e
sempre disposta a obedecer-lhe e servi-la, Rute alcança o favor do Senhor,
“sob cujas asas [foi-se] abrigar” (Rt 2.12). Casou-se com Boaz, parente de
Elimeleque, e gerou Obede (hb., “servo”), tornando-se uma ancestral direta
de Davi (de quem foi bisavó) e integrante da genealogia de Jesus (Rt
4.1-22; Mt 1.5-17; Lc 3.32). Honrar o casamento e a geração de filhos traz
a bênção de Deus para muitas gerações (Hb 13.4; Sl 127.3-5).
II
– ESTER: A MULHER QUE AGIU PARA A SOBREVIVÊNCIA DOS JU- DEUS
1. De Belém para Susã
De Belém, na Judeia, as Escrituras
transportam-nos para Susã, na Pérsia (atual Irã), para conhecermos a
história de outra destemida jovem mulher, Ester, que também foi usada
providencialmente por Deus para a preservação de Israel. Orfã de pai e mãe,
ela poderia entregar-se à angústia e enveredar por caminhos de rebeldia. Contudo,
o que temos é um extraordinário exemplo de obediência, serenidade, sabedoria,
pureza e coragem. Ester foi criada pelo primo, Mardoqueu (Et 2.5-7,15),
e tornou-se rainha num ato de providência divina. No palácio, aceitou o
desafio de ser um instrumento divino para salvar o seu povo, os judeus, da
grande matança decretada pelo rei Assuero.
Ester era filha de Abiail, tio de
Mardoqueu. Judia nascida no exílio, não se sabe quando e em que condições
ficou órfã. O seu nome hebraico era Hadassa, que significa murta. Conforme o Dicionário Bíblico Wycliffe (2006, p. 1559), a murta era um
lindo e conhecido arbusto perene, entre os favoritos da Antiguidade; tinha folhas
perfumadas e flores brancas ou rosadas que eram usadas para perfumar
os ambientes e fazer grinaldas para os nobres nos banquetes. Já o nome
persa Ester (stara), significa “estrela”.
Ester fazia parte da geração de judeus
nascidos no cativeiro. No ano 597 a.C., Quis, o bisavô de Mardoqueu (e, ao
que tudo indica, também de Ester), fora trans- portado de Jerusalém para a
Babilônia junto com 11 mil exilados que acompa- nharam Jeconias (ou
Joaquim), rei de Judá (Et 2.5,6; 2 Rs 24.6,12-16). Conforme Isaías e
Jeremias profetizaram, o fim do cativeiro babilônico foi decretado por
Ciro, rei da Pérsia, no ano 538 a.C., mas, como já salientando, a grande
maioria dos ju- deus permaneceu na Babilônia sob domínio persa (Is
44.26,28; 45.1,4,5,13; Jr 29.10-14).
2. De órfã a rainha
Com a tomada de Babilônia, os persas
adotaram a cidade de Susã, no antigo Elão, como uma das capitais do novo
império (Et 1.1,2). Outras cidades importantes existiam na época,
destacando-se Ecbatana (na Média), Pasárgada e Persépolis (na Pérsia) —
todas, agora, com palácios reais persas, além da própria Babilônia.
Tais cidades eram, provavelmente, consideradas capitais. Susã era a
capital de inverno, embora tanto no livro Neemias (Ne 1.1,2) quanto em
Ester, observa-se, aparentemente, a permanência do imperador por anos seguidos
habitando no mesmo palácio, excetuando os tempos de guerra, como a
campanha de Assuero contra a Grécia, que durou cerca de quatro anos,
terminando no ano 480 a.C., com a destruição quase total das forças navais
persas na Batalha de Salamina,
conforme narra Heródoto (485–425 a.C.) no seu livro História.
Em Susã, viviam Ester e Mardoqueu, dentre
milhares de outros judeus. Dotada de uma rara beleza, Ester integrou o
grupo de moças virgens que se candidataram para suceder a rainha Vasti,
deposta pelo rei Assuero por conta da sua desobediência e teimosia, como escreve Flávio Josefo.⁷ Depois de uma grande festa
pública que durou 180 dias e reuniu representantes das 127 províncias da Pérsia
(Et 1.3), Assuero ofereceu, nos jardins do seu palácio, um banquete de
sete dias, regado a muita bebida para todos os que estavam na fortaleza de
Susã, ricos e pobres (1.5-8). No sétimo dia, mandou que trouxessem Vasti
“para mostrar aos povos e aos príncipes a sua formosura” (1.10-12).
A rainha recusou o chamado do rei,
“embora [ele] enviasse diversas vezes os eunucos para buscá-la”, conforme
diz Josefo, acrescentando:
Essa
teimosia [aborreceu ao rei]. Ele saiu do banquete, reuniu os magos,
que entre os persas interpretam as leis, e queixou-se a eles de ter várias
vezes pe- dido à rainha que comparecesse ante a assembleia e que ela não
queria obedecer.⁸
Vasti
foi deposta do trono, e Ester foi escolhida como rainha num inequívoco
ato da providência divina (2.16,17). Cinco anos depois, essa jovem judia,
agindo com sabedoria e muita coragem, obteve do rei um decreto que livrou
da morte o povo judeu de todo o império (8.9). Foi a providência divina
agindo em favor da geração piedosa a fim de preservá-la para o seu grande
e eterno propósito: a vinda do Messias.
Intriga os estudiosos o fato de o nome de
Deus não aparecer no livro, ao que Matthew Henry (2022, p. 845)
responde:
[...]
ainda que o nome de Deus não se encontre [no livro de Ester], o mesmo não
se pode dizer de sua mão, guiando minuciosamente os fatos que culminaram na
libertação de seu povo. Os detalhes não são apenas surpreendentes e muito
cativantes, mas também edificantes e encorajadores para o povo de Deus,
quando este se encontra em tempos de perigo e dificuldade.
3. No campo ou no palácio As
lições espirituais que podemos extrair dos livros de Rute e de Ester
apontam para o valor da confiança no cuidado e na precisa providência de
Deus em favor dos que nEle confiam e esperam (Is 64.4). Isso fica bem
evidenciado ao longo das duas narrativas. São exemplos inspirativos do
valor da fidelidade e da confiança em Deus, seja qual for o contexto em
que vivermos, visto que os princípios divinos são absolutos e imutáveis;
suficientes para orientar nossa conduta em qualquer tempo e lugar (Sl
19.7-9; 119.89-91).
III
– MULHERES DE DEUS COMO PROTAGONISTAS DA HISTÓRIA
1. O protagonismo feminino
Rute e Ester agiram como mulheres de
Deus e foram protagonistas da história sem alterarem em nada os seus
papéis. Ao longo das suas histórias, veremos o quanto elas souberam
compreender o padrão de comportamento que lhes era adequado. Assim como
elas, inúmeras outras mulheres têm sido poderosamente usadas por Deus para
fins extraordinários em todos os tempos. O protagonismo ou destaque
feminino no exercício dos seus papéis em nada conflita com o propósito de
Deus com o homem. O Senhor usa cada um segundo a sua própria constituição
pessoal. É por isso que a liderança masculina, instituída por Deus (Gn
1.26; 3.16), não anula o propósito divino com a mulher, nem lhe retira a
possibilidade de, em muitas circunstâncias, ser protagonista da história.
O que não se vê em qualquer dos exemplos da Bíblia é a inversão dos
papéis, como as ideologias progressistas pretendem impor atualmente.
Rute e Ester não se destacaram pela assunção
de papéis masculinos. Não foi a rebeldia ou um espírito altivo que as
destacaram. Pelo contrário! Agiram com humildade, submissão e obediência e
tornaram-se relevantes para o povo de Israel e para toda a humanidade,
fazendo-as ingressar na fileira dos filhos da promessa feita por Deus a
Abraão (Gn 12.2,3; Gl 3.16; 4.28; Rm 4.13).
2. Cumprindo os papéis
As mulheres que agradam a Deus são as
que sabem cumprir o seu papel de forma prática, não se enveredando pelo
ativismo, sonhos de empoderamento ou falsas facilidades de realização
pessoal. Elas sabem ser mulheres da vida real, como Rute e Ester. Não foi
o acaso que fez com que Rute alcançasse o favor divino, tornando- se
integrante da linhagem de Davi. Ela soube viver diariamente cumprindo o
seu papel, conforme a sua sogra Noemi dá testemunho de como havia sido boa
esposa (Rt 1.8). Também soube construir um extraordinário relacionamento com
a sogra, o que não tem sido muito comum em nossos dias.
3. Educação familiar
Noemi e Rute, contudo, revelaram-se
como mulheres sábias, que conheciam bem a distinção dos seus papéis na
família: mãe é mãe, e esposa é esposa (Rt 1.11-13). Não confundir as
estações e não invadir espaços alheios é fundamental para a boa convivência
entre nora e sogra. O mesmo exemplo de vida prática é visto em Ester.
Apesar de órfã, teve uma boa criação com Mardoqueu, a quem devotava
obediência e profundo respeito (Et 2.10,2-23; 4.1-4). A narrativa do livro
mostra-nos que não foi apenas a beleza de Ester que a fez ser escolhida
rainha, mas também a sua humildade e comportamento no palácio, fruto da boa
educação que recebera (Et 2.15-17). Ester com- portou-se de forma simples
e humilde diante de Hegai, o “guarda das mulheres” de Assuero, seguindo
fielmente as suas orientações, o que foi decisivo para que fosse escolhida
rainha da Pérsia (2.15-17).
CONCLUSÃO
Rute e Ester foram poderosamente usadas por
Deus e tiveram os seus nomes registrados na história, como exemplo e
inspiração para as mulheres de todas as gerações. Contudo, o protagonismo
que viveram não foi resultado de vaidade ou qualquer aspiração pessoal.
Elas jamais poderiam imaginar que o Deus da provi- dência iria usá-las tão
sobrenaturalmente. O Senhor continua usando mulheres para cumprir os seus
propósitos. Algumas se tornam conhecidas e têm os nomes registrados na
história; outras vivem a vida toda no anonimato, como a mulher de Noé (Gn
6.10,18; 7.7,13; 8.15), mas nem por isso deixam de ser importantes. O
que seria do patriarca sem uma companheira fiel ao seu lado enquanto
cumpria a mis- são que recebera de Deus?
____________________________________________________________ ¹ Charles P. Pfeifer et al. (2006, p. 1113) afirma que “A palavra heb. Shopet traduzida como ‘juiz’ parece ter sido um termo emprestado dos
cananeus. Ela aparece na literatura ugarítica como spt com o sentido de ‘governante’ ou ‘juiz’ e um sinô- nimo
para ‘rei’”. Esses “juízes” libertadores manifestavam os atos poderosos
de Deus, guiando os israelitas em façanhas militares (Ibid., p. 1114). ² Esse número inclui 7.337 escravos e 200 cantores. ³ Originalmente, Susã pertencia a Elão, território dos elamitas, antiga civilização mesopotâmica.
A cidade foi dominada pelos babilônicos e, com a conquista
persa, tornou-se uma das capitais do Novo Império. Era a capital persa de
inverno (Char- les F. Pfeiffer, et. al., p. 620). Lá permaneceram centenas
de milhares de judeus após o decreto de Ciro, principalmente nascidos
durante o cativeiro. Judeus dessa antiga região estavam em Jerusalém no
dia de Pentecostes (At 2.9). Atualmente, a região faz parte do Irã,
próximo da divisa com o
Iraque. ⁴ Considerando que apenas cerca de 25 mil judeus foram levados para o cativeiro babilônico
(Merrill, 2021, p. 523/24), é mesmo surpreendente o número citado
por Donald Stamps, fazendo entender que a multiplicação do povo judeu na
Babilônia
foi
extraordinária durante os 70 anos de
cativeiro. ⁵ Segundo o historiador judeu Flávio Josefo no seu livro História dos Hebreus, havia na Babilônia, nos
dias de Zorobabel, das tribos de Judá e de Benjamim, da idade de 12 anos
para cima, 4.628.000 pessoas (pp. 506, 507). Um número muito maior que o
mencionado por Stamps, o que é compreensível pelo recorte etário (12
anos para cima) e, certamente, por incluir as mulheres. Sendo assim, os
dados menci- onados por Stamps guardam consonância com a informação de
Josefo, que corrobora o fato de que o número que seguiu para Jerusalém
foi realmente muito pe-
O Deus que governa o Mundo e cuida da Família — Os ensinamentos divinos
nos livros de Rute e Ester para a nossa geração
Silas Queiroz





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