TEXTO ÁUREO
“Agora, pois,
minha filha, não temas; tudo quanto disseste te farei, pois toda a cidade do
meu povo sabe que és mulher virtuosa.”
(Rt 3.11)
VERDADE PRÁTICA
Uma mulher
virtuosa tem um valor incalculável, por seu caráter e sua disposição de servir
a Deus e à família.
PLANO
DE AULA
1-
INTRODUÇÃO
O
tema da presente lição é o casamento de Boaz com Rute. Esse casamento, ao longo
da história da Igreja, é visto como um tipo de Cristo e a Igreja. No
relacionamento de Boaz com Rute temos um tipo de relacionamento do Senhor Jesus
Cristo com a sua Noiva. A história de Boaz e Rute também é a história de
salvação de Deus para a humanidade.
2- APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO
A) Objetivos da lição:
I) Explicar o compromisso de Boaz com Rute;
II) Esclarecer o casamento de Boaz
com Rute;
III) Relacionar a remição da
linhagem de Davi com a história de Rute.
B) Motivação: O que o casamento de uma moabita com um remidor da família de
Noemi tem a ver com o plano de salvação? Das coisas simples, aparentemente sem
importância, brota uma bênção que abrange toda a humanidade. Deus usou uma
crise de uma família para fazer a manutenção de um plano definido desde a
fundação do mundo.
C) Sugestão de Método: Inicie a aula de hoje perguntando o que é mais difícil
quando aguardamos uma promessa? Crer em meio ao contexto completamente
contrário ao que foi prometido? Ou esperar o tempo necessário, dias, meses,
anos ou décadas, para ver se concretizar o que foi prometido? Explique que o
assunto de hoje traz lições preciosas a respeito da promessa de salvação e,
também, acerca de como devemos nos comportar diante da espera de uma promessa.
Aguardar as promessas de Deus se cumprirem pode ser tão desafiador quanto crer
diante do improvável. Por isso, desenvolva esta aula de modo que a fé de seus
alunos seja estimulada a enfrentar os obstáculos da espera.
3- CONCLUSÃO DA LIÇÃO
A) Aplicação: O casamento entre Boaz e Rute nos ensina que Deus usa as
coisas simples para fazer cumprir um plano muito maior. Também temos a lição de
que é necessário aprendermos a esperar o tempo e aguardar o processo devido
para alcançar a promessa.
4-
SUBSÍDIO AO PROFESSOR
A) Revista
Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa revista que traz reportagens,
artigos, entrevistas e subsídios de apoio à lições Bíblicas Adultos. Na edição
98, p.38, você encontrará um subsídio especial para esta lição.
B) Auxílios Especiais: Ao final do tópico, você encontrará auxílios que darão
suporte na preparação de sua aula:
1) O texto “O Contexto Histórico do Casamento entre Boaz e Rute”, localizado
após o segundo tópico, explica os desafios e as condições legais que foram
cumpridos para a união entre Boaz e Rute;
2) O texto “O Legado da Obediência”, localizado após o terceiro tópico, destaca
o tema da redenção salvífica presente no livro.
INTRODUÇÃO
O
livro de Rute começa com fome e mortes, mas termina com duas grandes
celebrações: o casamento de Boaz e Rute e o nascimento de Obede, o avô de Davi.
Nosso Deus é poderoso para reverter tragédias em bênçãos. Além de um redentor
humano, a história nos apresenta parte da genealogia de Jesus Cristo, nosso
Redentor divino-humano.
Palavra-Chave: Remição
AUXÍLIO
VIDA CRISTÃ
“
O CONTEXTO HISTÓRICO DO CASAMENTO ENTRE BOAZ E RUTE – Noemi provavelmente
pensou que Boaz era seu parente mais próximo. Ele possivelmente desejou
casar-se com Rute porque sua resposta demonstra que pensava algo sobre isto.
Com certeza, não intentou desposar Noemi porque era muito velha para gerar
filhos (1.11,12). Outro membro da família era o parente mais próximo; portanto,
tinha o direito de tomar Rute como sua esposa. Caso sua resposta fosse
negativa, Boaz estaria livre para casar-se com ela (3.13). Boaz marcou o
encontro com seu parente no portão da cidade. Este era o centro das atividades
locais. Ninguém podia entrar ou sair daquela localidade sem passar por lá. Os
ambulantes instalavam seus negócios naquele local, que também servia como
câmara municipal. Oficiais da cidade juntavam- – se para realizar suas
transações comerciais. Por existirem tantas atividades, este era um bom lugar
para o encontro das testemunhas (4.2) e um local apropriado para Boaz fazer sua
proposta. Boaz habilmente apresentou seu caso ao primo. Primeiro, transmitiu
novas informações ainda não mencionadas na história – Elimeleque, o falecido
marido de Noemi, ainda possuía uma propriedade que estava à venda. Como parente
mais próximo, este tinha a prioridade para comprar a terra, o que ele concordou
(Lv 25.25). Entretanto, Boaz disse que, de acordo com a lei, se ele adquirisse
a propriedade também teria que casar-se com a viúva […]” (Bíblia de Estudo
Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2004, p.360).
AUXÍLIO
BIBLIOLÓGICO
“O
LEGADO DA OBEDIÊNCIA
As
genealogias no livro de Rute são apresentadas fornecendo dez gerações,
explicando as omissões e, portanto, as diferenças com outros registros. As
genealogias do Novo Testamento (Mt 1.3-6; Lc 3.32,33) são construídas sobre a
precisão registrada no livro de Rute (Rt 4.17-22), o que também é a ligação
mais vital na linhagem traçada de Abraão até Cristo. Contudo, o nome de Rute
não aparece de fato nesses versículos (vv. 17-22), talvez por sua história ser
o cerne do livro de Rute. Mateus incluiu o nome dela. Rute era pura e deu
testemunho das qualidades do mais alto caráter em contraste com outras mulheres
mencionadas, o que pode ter sido a razão de ele a ter mencionado pelo nome.
Ainda assim, ela também precisava de um go’el, um remidor. E exatamente como
Rute, não pertencente ao povo de Deus, proibida de entrar na congregação do
Senhor (Dt 23.3) e sem esperança – alienada de Deus – se humilhou aos pés do
parente remidor, Boaz, pedindo sua aceitação e ajuda, todas as mulheres têm de
se humilhar aos pés do Senhor Jesus e buscar sua redenção salvífica. Ao fazer
isso, assim como Rute encontrou a segurança terrena, você encontrará o descanso
celestial” (Patterson, D. K, KELLEY, R. H. Comentário Bíblico da Mulher Antigo
Testamento. Vol. I. Rio de Janeiro: CPAD, 2022, pp.486-82).
CONCLUSÃO
A história de Rute é uma história de redenção. Uma moabita foi não somente remida, mas entrou para a genealogia do Redentor da humanidade, Jesus, o filho de Davi. Ao lado de Tamar e Raabe, Rute proclama a graça de Deus, que se manifesta a todos, judeus e gentios (Tt 2.11). Que proclamemos com poder a vida e a obra de nosso Redentor divino-humano, Jesus Cristo, o Salvador dos homens (1 Tm 4.10; At 4.12).
CPAD: O Deus Que Governa o Mundo e Cuida da Família – Os
Ensinamentos Divinos nos livros de Rute e Ester para a Nossa Geração
| Lição 05: O Casamento de Rute e Boaz – A Remição da
Família
INTRODUÇÃO
A história
de Rute torna-se cada vez mais empolgante a cada capítulo, principalmente pelo
caráter dialógico da obra. Em meio ao desenrolar dos fatos que marcam a
profunda amizade entre Noemi e Rute, um terceiro personagem entra em cena:
Boaz, o parente remidor. O autor apresenta-nos esse belemita como um “homem
valente e poderoso, da geração de Elimeleque” (Rt 2.1). Era, portanto, um
parente de Elimeleque, embora não saibamos de que grau. “Os rabinos entendiam
que Boaz era sobrinho de Elimeleque” (Every Clayton, p. 46). Matthew Henry (p.
200), acrescenta: “[Boaz] era neto de Naassom, príncipe da tribo de Judá no
deserto, filho de Salomão [Salmom], que provavelmente era um dos filhos mais
moços de Raabe, prostituta de Jericó”.
I – BOAZ, O REMIDOR
1. Um homem próspero
Os termos “valente” e “poderoso” referem-se
ao caráter íntegro e à influência de Boaz, além do seu poder econômico.1
Boaz era um grande produtor rural — “um poderoso fazendeiro”, como sugerem
alguns eruditos (Morris, p. 253). Ele tinha plantações de cevada e trigo e
muitos trabalhadores ao seu serviço (2.5,6,23) — na linguagem de hoje, era um
homem
do agronegócio. Boaz, decerto, reunia qualificações morais e condições
econômicas para cumprir o papel de remidor.
O significado do nome “Boaz” é incerto. Morris (1986, p. 253) diz que o
nome pode estar ligado à ideia de rapidez, ou força. Significaria, talvez, “filho
da força”. Warren W. Wiersbe (2006, p. 181) apresenta um significado
semelhante: “nele há força”.
2. “Goel” e “Levir”
Como já afirmamos, a expressão “da geração de
Elimeleque” não nos permite saber o grau de parentesco entre Boaz e o marido de
Noemi. De qualquer sorte, como parente próximo, poderia ser o goel, o
resgatador da terra que o falecido havia vendido (Rt 4.3), como também poderia
cumprir o costume antigo do casamento levirato (Gn 38.6-11). Eram duas
prescrições distintas contidas na Lei de Moisés.
A primeira, relativa ao goel, dizia
respeito à “solidariedade familiar”, como ensina Roland De Vaux (1903–1971)
(2004, 43):
Os membros da família em sentido amplo devem uns aos outros ajuda e
proteção. A prática particular desse dever é regulada por uma instituição da
qual se encontram em formas análogas em outros povos, por exemplo, entre os
árabes, mas que, em Israel, toma uma forma particular, com um vocabulário
especial. É a instituição do go’el,
palavra procedente de uma raiz que significa “resgatar, reivindicar”, e, mais
fundamentalmente, “proteger”.
O go’el é um redentor,
um defensor, um protetor dos interesses do indivíduo e do grupo. Ele intervém
em certo número de casos.
Se um israelita precisou se vender como escravo para pagar uma dívida,
deverá ser resgatado por um de seus parentes próximos, Lv 25.47-59.
Quanto um israelita precisa vender seu patrimônio, o go’el tem direito preferencial na
compra, pois é muito importante evitar a alienação dos bens da família. A lei
está codificada em Lv 25.25. É como o go’el
que Jeremias adquire o campo de seu primo Hanameel, Jr 32.6s.
De Vaux vê que essa última hipótese
encaixa-se à situação de Noemi, conjugando-se a hipótese, contudo, com a figura
do casamento pelo levirato (p. 43, 44): “O costume é ilustrado também na
história de Rute, mesmo que aí a compra da terra se complique por um caso de
levirato. Noemi tem uma posse
que
a pobreza a obriga a vender; sua nora Rute é viúva e sem filhos. Boaz é um go’el
de Noemi e de Rute”. O papel do resgatador seria adquirir a terra de
maneira que permanecesse na mesma herdade — no caso, de Elimeleque.
Já a lei do levirato previa que o irmão do cunhado (levir)
casasse-se com a viúva e suscitasse descendência ao falecido (Dt 25.5-10; Mt
22.24-48). Tudo indica que essa prática foi ampliada, seguindo uma ordem de
parentesco mais abrangente, semelhante à do resgatador (Lv 25.48,49). No caso
de Boaz, havia um remidor “mais chegado” do que ele (Rt 3.12).
Ainda citando De Vaux (p. 61), é importante
que consideremos a peculiaridade do caso de Rute, em que as duas leis — go’el
e levir — fundem-se:
A
história de Rute combina o costume do levirato com o dever do resgate que
incumbia ao go’el. A lei de Dt
25 não se aplica porque Rute não tem mais cunhado, Rt 1.11-12. O fato de que um
parente próximo deva tomá-la por esposa, e isso seguindo certa ordem, Rt 2.20;
3.12, indica seguramente uma época ou um ambiente em que a lei do levirato era
um assunto de clã mais do que de família no sentido estrito. De qualquer forma,
as intenções e os efeitos desse casamento são os de um casamento levirático:
trata-se de “perpetuar o nome do falecido”, Rt 4.5,10; cf. 2.20, do qual a
criança que há de nascer será considerada filha, Rt 4.6; cf. 4.17.
De Vaux contribui ainda para um maior
entendimento do assunto ao afirmar que esse costume tinha paralelos em outros
povos, especialmente vizinhos de Israel. “O Código de Hamurabi não fala dele,
mas as leis assírias consagram-lhe vários artigos. Nelas não se expressa a
condição de que a viúva não tenha filho, mas isso pode ser devido a uma lacuna
do texto”, explica. De Vaux cita alusões ao levirato em leis hititas,2
entre os hurritas de Nuzu e talvez em Elam.3
Rute,
a Respigadeira
Rute decide voluntariamente ir ao campo
respigar (apanhar, juntar, recolher espigas – heb. laqat). O seu
voluntarismo fica evidente (Rt 2.2). A atitude de Rute mostra-nos a sua
prontidão, própria de uma mulher virtuosa, que “não come o pão da preguiça” (Pv
31.27) ou “não dá lugar à preguiça”, como traduz a NVI.4 Uma mulher
assim não precisa ser
mandada
para cumprir o seu dever; antes, prontifica-se a fazer além dele, pois foi o
que Rute fez. Não necessariamente estava no script que ela tivesse que
ir ao campo respigar.
É importante também considerar que, por trás
dessa prontidão de Rute, estava o conhecimento que ela obtivera, certamente
através de Noemi, acerca da Lei Mosaica em relação aos pobres, para que os
ricos, donos de plantações, deixassem que recolhessem as espigas que caíssem ao
chão durante as colheitas (Lv 19.9; 23.22; Dt 24.19). Fazem muito bem os pais
que ensinam os seus filhos quanto ao valor e a importância do trabalho, não
lhes permitindo o ócio. Um baixo nível de comprometimento com o trabalho tem
sido uma das causas de graves problemas nos casamentos, levando muitos casais e
famílias cristãs a amargarem profundas tristezas, com reflexos negativos na
igreja e em toda a sociedade. Salomão fala sobre o quadro caótico do campo do
preguiçoso — que pode ser lido como o quarto, o escritório, o carro do
preguiçoso (cf. Pv 24.30-34).
Em nossos dias, há o agravante das redes sociais, que têm roubado o
tempo de muita gente, de todas as idades — talvez mais dos adolescentes e
jovens, que costumam passar horas no quarto, navegando com pouco ou nenhum
proveito. Além do empobrecimento intelectual e econômico, isso pode afetar a
saúde mental e emocional, além de trazer prejuízos espirituais. Rute demonstrou
muita disposição e coragem ao prontificar-se imediatamente para o trabalho.
Apesar das circunstâncias desfavoráveis que enfrentava junto com a sogra, não
se rendeu às dificuldades — e não por falta de opção para entreter-se, pois ela
poderia muito bem ter optado sair pela cidade, acompanhado o fluxo da época,
seguindo jovens pobres ou ricos (Rt 3.10).
3. Temor e respeito
Quando lemos Rute 2.1-4, entendemos que Boaz
veio ao campo já no período da tarde, quando o trabalho estava bem avançado.
Logo que chegou, saudou os seus empregados, demonstrando ser um homem temente a
Deus. A invocação a Jeová (“O Senhor seja convosco”), dirigida a todos os
segadores,
também indica o seu respeito aos que trabalhavam com ele. Os empregados
retribuem-lhe com uma saudação também amistosa e piedosa: “O Senhor te abençoe”
(Rt 2.4).
Boaz não chegou perguntando como estava o
serviço ou cobrando resultados. Ele também não foi seletivo ou altivo,
dirigindo-se somente ao chefe dos trabalhadores. Falou com todos eles: “E eis
que Boaz veio de Belém e disse aos segadores […]” (2.4). Somente depois Boaz
dirige uma pergunta específica ao chefe dos trabalhadores, relacionada a Rute:
“De quem é esta moça?” (2.5). Essa sequência de fatos revela que Boaz
considerava as pessoas mais importantes que o trabalho que prestavam. Embora
seja razoável que todo o patrão espere um trabalho produtivo dos seus
empregados, o correto é considerar que as pessoas têm mais valor que o trabalho
que fazem. Assim, buscar falar ao coração de cada uma delas é mais importante
que lhes impor obrigações em nome de uma mera troca de dinheiro versus tempo
e produção.
Analfabetismo Funcional e Distração
É fato também que tem ficado cada vez mais
difícil a relação patrão-empregado diante do crescente analfabetismo funcional
e a sua relação com o ambiente de trabalho. Ao lado disso — e consequentemente
—, crescem as dificuldades com uma produção mais eficiente, quadro agravado
também pelo alto índice de distração pela forte atração das mídias e redes
sociais. Embora seja evidente que não poucos empregados envolvem-se em
trivialidades e questões pessoais que prejudicam o rendimento funcional,
confrontar-lhes com a ideia de “compra do tempo” não é o caminho para resolver
o problema. Em tempos de tanta desumanização do trabalho, pode parecer utopia,
mas falar ao coração das pessoas (ou, pelo menos, tentar), elas sendo
empregadas ou não, é sempre o melhor caminho.
A constatação dessa realidade não justifica e
muito menos retira o dever dos empregados. Paulo escreveu aos colossenses que
os tais devem trabalhar servindo “em simplicidade de coração” (Cl 3.22). Na NAA
é: “com sinceridade de coração”. O versículo 23 é mais enfático ainda: “E, tudo
quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens”.
Assim, não resta dúvida de que a solução é alcançar essa disposição de coração.
Quanto aos patrões, a Palavra de Deus ensina que devem fazer “o que for de
justiça e equidade” (Cl 4.1).
Pelo padrão bíblico, patrões e empregados
devem tratar-se com mútua consideração, reconhecendo a posição e o papel
próprios de cada um na relação de trabalho (Ef 6.5-9; Cl 3.22- 4.1). Quando o
cristão não age assim, seja patrão, seja empregado, compromete a eficácia do
evangelho com o seu mau testemunho (Mt 5.13-16), além de sujeitar-se ao juízo
divino sobre a sua conduta aqui e na eternidade (Cl 3.24,25; 4.1).
II – O CARINHO DE BOAZ PARA COM RUTE1
A pureza não exclui a ternura
Logo que chegou ao campo, Boaz notou a
presença de uma moça diferente entre os segadores e foi informado de que se
tratava de Rute, a moabita, que voltara com Noemi dos campos de Moabe (Rt
2.5,6). Não somente a identificação da moça e a sua história, que já era
conhecida, mas também o seu comportamento e dedicação ao trabalho
sensibilizaram Boaz, que se dirigiu a ela terna e respeitosamente, chamando-a
de filha — certamente também em função da diferença de idade que havia entre
eles (cf. 2.8).
O gesto de Boaz ensina-nos que o dever de pureza de um homem para uma
mulher não exclui o seu dever de educação, fineza e, com o devido respeito,
expressão de ternura. No caso de Boaz, a última hipótese era ainda mais
cabível, pois Rute era bem mais nova que ele; assim, poderia tratá-la como
filha (1 Tm 5.1,2). Não é preciso ser rude para ser santo.
Boaz deu a Rute a liberdade de continuar catando espigas na sua
plantação e assegurou-a de que ela seria tratada com o devido acatamento e
respeito (Rt 2.9). Boaz preocupou-se com a segurança de Rute e, por isso,
conferiu a ela “proteção especial”, conforme observa Carson (ibidem, p. 444).
Ser generoso, gentil e bondoso não retira a masculinidade de homem algum; pelo
contrário, reforça-a. Como destaca o pastor Douglas Baptista, a generosidade de
Boaz é uma das características da verdadeira masculinidade (2023, p. 72).
Ressaltando a relação que generosidade tem com benignidade e bondade (Gl 5.22),
Baptista mostra o conceito mais amplo do termo, abrangendo expressões como
“carinho”, “meiguice”, “delicadeza” e benevolência”, como encontramos em
Bergstén (1999, p. 94) e Ribas (2009, p. 297).
Um viver santo não exige que sejamos rudes e
descorteses (2 Rs 4.8,9). Jesus, o mais puro dos homens, convivia com todos (Mc
2.15-17; Jo 4.3-27). Humildade e mansidão são virtudes essenciais a todo
cristão (Mt 11.19).
2. Deus estava agindo
Rute ficou extremamente surpresa com a
atenção que recebeu de um homem tão importante e poderoso. Como estrangeira e
pobre, certamente tinha receio de como seria tratada; por isso ela agia com
educação e muita discrição (Rt 2.7). Impressionada com o gesto de Boaz,
inclinou-se ao chão e, de forma humilde, reconheceu ser indigna do tratamento
que recebeu (2.10). Os personagens da história não compreendiam a dimensão do
que acontecia. O Deus da providência estava agindo, construindo todo o cenário
necessário para mais uma importante etapa do seu plano redentor. A linhagem
messiânica precisava continuar. Aquela primeira aproximação entre Boaz e Rute
seria fundamental para o desenrolar dos próximos eventos.
A providência divina agia, sem desprezar,
contudo, a participação humana na história. Deus não trabalha de forma
arbitrária, violando o livre-arbítrio humano. No exemplo em estudo, havia uma
motivação especial na conduta de Boaz para o tratamento que dispensou a Rute.
Ele já conhecia a bela história da jovem moabita (2.11). Deus estava, sim,
agindo em favor de Rute, mas não de forma arbitrária, ou seja, independente da
sua conduta.
3. Sensível e espiritual
Os atos de Boaz não eram como uma ficção ou
fruto de uma manipulação psicológica, como não são quaisquer dos atos humanos,
dado o livre-arbítrio assegurado por Deus. Como enfatiza Silas Daniel (2017, p.
402), as escolhas humanas são reais, genuínas. Boaz estava agindo dentro de um
cenário real. O Deus da providência estava abençoando Rute em recompensa pelo
seu devotado amor a Noemi e por toda a reputação que ela havia construído com o
seu cuidadoso comportamento.
O próprio Boaz sabia dessa verdade, ao
proferir a declaração que se tornou um dos versículos-chave do livro (cf. Rt
2.11). Boaz tinha uma profunda compreensão espiritual. Ele reconhecia que o
Deus dos hebreus não estava limitado a fronteiras territoriais ou barreiras
étnicas. Como servo de Yahweh, estava sendo usado para abençoar uma
piedosa moabita, uma “mulher convertida” (Gilberto, 2021, p. 397). As suas
palavras tocaram profundamente o coração de Rute e deram grande conforto a ela
(Rt 2.13).
III – A COLHEITA DE RUTE E A SUA
SOBREVIVÊNCIA
1. A lei da semeadura
Apesar de aparentemente vivermos num mundo de
impunidades, há um Deus nos céus que julga todos os atos. Não é sábio ao
cristão agir como se não acreditasse na providência divina, influenciado por
uma cosmovisão secular, que produz a ilusão de que vivemos num mundo “dos
homens”, apartados de Deus e não afetados por Ele, cada um fazendo o que bem
decide sem submeter-se ao juízo divino (Sl 73.1-17). Isso é fruto de uma
incredulidade crescente e da perda de sensibilidade quanto ao domínio universal
de Deus (Sl 24; Lc 18.1-8; 1 Tm 4.1). Essa visão dualista em nada condiz com as
Escrituras e com a realidade dos que confiam no Senhor da providência.
Rute decidiu servir ao Deus de Israel em vez
de Quemos, o deus dos moabitas, cuja adoração incluía o sacrifício de crianças
(Nm 21.29; 1 Rs 11.7; 2 Rs 3.26,27). Agora, ela
começava
a experimentar a mão invisível de Jeová Jireh, agindo graciosamente em seu
favor. A lei da semeadura funciona inexoravelmente (2 Co 9.6; Gl 6.7).
2. Os acasos de Deus
Rute retorna a casa exultante não apenas com
o resultado da sua colheita — quase um efa de cevada, ou seja, 37 litros — mas,
principalmente, pela forma como foi tratada por Boaz e os seus segadores. Noemi
quis saber onde Rute tinha trabalhado naquele dia. Quando Rute mencionou o nome
de Boaz, Noemi não escondeu a sua exultação (Rt 2.20). Uma esperança brotou no
coração da pobre viúva (cf. Jó 14.7-9).
O fato de Rute trabalhar justamente nos
campos de Boaz não foi por acaso, e Noemi reconheceu isso na sua expressão. O
Senhor estava manifestando a sua beneficência em favor dela e a sua nora e,
mais que isso, do falecido Elimeleque, já que Boaz era um dentre “nossos
remidores”, isto é, tanto de Noemi quanto de Rute, como observa De Vaux na sua
obra (2004, p. 44). Naturalmente, a idade favorecia muito mais a Rute, e era
essa a preocupação e intenção de Noemi.
A fé de Rute no Deus de Israel — sob cujas
asas ela foi abrigar-se — estava sendo recompensada. A sua prontidão em cuidar
da sogra levou-a a encontrar conforto e proteção naquele que seria o resgatador
da família e que a incluiria na genealogia do Redentor da humanidade. Vale a
pena confiar em Deus e esperar nEle. Ainda hoje, podemos experimentar a ação do
Todo-Poderoso no curso de nossa vida, alcançando-nos com a sua misericórdia e
favor.
3. O resultado da colheita
Alguns frutos de nossas ações são colhidos de
imediato; já outros levam tempo para aparecer. Pela forma graciosa como era
tratada, Rute colhia cereais em abundância diariamente nos campos de Boaz (Rt
2.17,21). A colheita garantia a sua sobrevivência e da sua sogra. O trabalho
árduo durou toda a estação: entre março e abril, colheu-se cevada; e de abril a
junho, trigo. Concluído o trabalho, ficou com a sogra (Rt 2.23). Uma “colheita”
ainda maior seria feita por ela em
tempo
oportuno (Ec 3.1). Nosso Deus trabalha por aqueles que nEle esperam (Is
64.4).
Em
um mundo cada vez mais opressor, é reconfortante estar abrigado sob as asas do
Deus Eterno, guardado no esconderijo do Altíssimo (Sl 91).
CONCLUSÃO
O tema “relacionamento” sobressai-se no livro
de Rute não apenas por uma visão humana ou natural, mas, acima de tudo,
espiritual. O versículo-chave do capítulo 2 de Rute indica-nos com clareza como
nossos atos tornam-se valiosos quando praticados levando Deus em conta
—conscientes de Ele estar acima de tudo e de todos e de que é Ele quem nos
garante a recompensa pelo que fazemos. Pautar nossa conduta pelo nível de
hostilidade do mundo em que vivemos torna-nos cada vez mais rudes,
assemelhando-nos à perversidade da sociedade atual, cheia de pessoas amantes de
si mesmas, avarentas, presunçosas, soberbas, blasfemas, desobedientes a pais e
mães, ingratas, profanas, sem afeto natural (2 Tm 3.2,3).
Não podemos ficar enrijecidos por nenhum tipo
de ressentimento. Conquanto o mundo seja mesmo hostil, a graça de Deus pode
capacitar-nos a viver acima desse sentimento.
____________________________________________________________
1 Matthew Henry ainda cita uma versão dos
Caldeus, que traduz como “poderoso na lei” (2022, p. 200), o que nos remete à
apurada e justa conduta de Boaz em relação ao parente mais próximo e a forma
pública como tratou do negócio, cumprindo todo o rito legal (Rt 4.1-11).
2 Os hititas eram um grupo étnico que
morava na Palestina desde os dias dos patriarcas (Gn 15.19-21). Eram os “filhos
de Hete”, descendentes de Cam, filho de Noé, diretamente por Canaã (Gn 10.15; 1
Cr 1.13) (Wycliffe, p. 926).
3 Nuzu era um centro administrativo e um
posto avançado dos hurrianos (hurritas) localizado próximo de onde está a
moderna Kirkuk, no Iraque, cerca de 240 quilômetros ao norte de Bagdá. Elam ou
Elão, correspondente, atualmente, à região do Cuzistão, no moderno Irã
(Wycliffe, p. 619, 1380).
4 Essa mesma observação e correlação com
a mulher de Provérbios 21 foi feita pelo pastor Elinaldo Renovato de Lima no
seu livro O Caráter do Cristão (CPAD, 2017, p. 77).
O Deus Que Governa o Mundo e Cuida da Família – Os
Ensinamentos Divinos nos livros de Rute e Ester para a Nossa Geração
Silas
Queiros

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