segunda-feira, 22 de julho de 2024

CPAD: O Deus Que Governa o Mundo e Cuida da Família | Lição 05: O Casamento de Rute e Boaz – A Remição da Família

 

TEXTO ÁUREO

“Agora, pois, minha filha, não temas; tudo quanto disseste te farei, pois toda a cidade do meu povo sabe que és mulher virtuosa.”

(Rt 3.11)

VERDADE PRÁTICA

Uma mulher virtuosa tem um valor incalculável, por seu caráter e sua disposição de servir a Deus e à família.

PLANO DE AULA

1- INTRODUÇÃO
O tema da presente lição é o casamento de Boaz com Rute. Esse casamento, ao longo da história da Igreja, é visto como um tipo de Cristo e a Igreja. No relacionamento de Boaz com Rute temos um tipo de relacionamento do Senhor Jesus Cristo com a sua Noiva. A história de Boaz e Rute também é a história de salvação de Deus para a humanidade.
2- APRESENTAÇÃO DA LIÇÃO
A) Objetivos da lição:
I) Explicar
o compromisso de Boaz com Rute;
II) Esclarecer o casamento de Boaz com Rute;
III) Relacionar a remição da linhagem de Davi com a história de Rute.
B) Motivação: O que o casamento de uma moabita com um remidor da família de Noemi tem a ver com o plano de salvação? Das coisas simples, aparentemente sem importância, brota uma bênção que abrange toda a humanidade. Deus usou uma crise de uma família para fazer a manutenção de um plano definido desde a fundação do mundo.
C) Sugestão de Método: Inicie a aula de hoje perguntando o que é mais difícil quando aguardamos uma promessa? Crer em meio ao contexto completamente contrário ao que foi prometido? Ou esperar o tempo necessário, dias, meses, anos ou décadas, para ver se concretizar o que foi prometido? Explique que o assunto de hoje traz lições preciosas a respeito da promessa de salvação e, também, acerca de como devemos nos comportar diante da espera de uma promessa. Aguardar as promessas de Deus se cumprirem pode ser tão desafiador quanto crer diante do improvável. Por isso, desenvolva esta aula de modo que a fé de seus alunos seja estimulada a enfrentar os obstáculos da espera.
3- CONCLUSÃO DA LIÇÃO
A) Aplicação: O casamento entre Boaz e Rute nos ensina que Deus usa as coisas simples para fazer cumprir um plano muito maior. Também temos a lição de que é necessário aprendermos a esperar o tempo e aguardar o processo devido para alcançar a promessa.

4- SUBSÍDIO AO PROFESSOR
A) Revista Ensinador Cristão. Vale a pena conhecer essa revista que traz reportagens, artigos, entrevistas e subsídios de apoio à lições Bíblicas Adultos. Na edição 98, p.38, você encontrará um subsídio especial para esta lição.
B) Auxílios Especiais: Ao final do tópico, você encontrará auxílios que darão suporte na preparação de sua aula:
1) O texto “O Contexto Histórico do Casamento entre Boaz e Rute”, localizado após o segundo tópico, explica os desafios e as condições legais que foram cumpridos para a união entre Boaz e Rute;
2) O texto “O Legado da Obediência”, localizado após o terceiro tópico, destaca o tema da redenção salvífica presente no livro.

INTRODUÇÃO

O livro de Rute começa com fome e mortes, mas termina com duas grandes celebrações: o casamento de Boaz e Rute e o nascimento de Obede, o avô de Davi. Nosso Deus é poderoso para reverter tragédias em bênçãos. Além de um redentor humano, a história nos apresenta parte da genealogia de Jesus Cristo, nosso Redentor divino-humano.

Palavra-Chave: Remição

AUXÍLIO VIDA CRISTÃ

“ O CONTEXTO HISTÓRICO DO CASAMENTO ENTRE BOAZ E RUTE – Noemi provavelmente pensou que Boaz era seu parente mais próximo. Ele possivelmente desejou casar-se com Rute porque sua resposta demonstra que pensava algo sobre isto. Com certeza, não intentou desposar Noemi porque era muito velha para gerar filhos (1.11,12). Outro membro da família era o parente mais próximo; portanto, tinha o direito de tomar Rute como sua esposa. Caso sua resposta fosse negativa, Boaz estaria livre para casar-se com ela (3.13). Boaz marcou o encontro com seu parente no portão da cidade. Este era o centro das atividades locais. Ninguém podia entrar ou sair daquela localidade sem passar por lá. Os ambulantes instalavam seus negócios naquele local, que também servia como câmara municipal. Oficiais da cidade juntavam- – se para realizar suas transações comerciais. Por existirem tantas atividades, este era um bom lugar para o encontro das testemunhas (4.2) e um local apropriado para Boaz fazer sua proposta. Boaz habilmente apresentou seu caso ao primo. Primeiro, transmitiu novas informações ainda não mencionadas na história – Elimeleque, o falecido marido de Noemi, ainda possuía uma propriedade que estava à venda. Como parente mais próximo, este tinha a prioridade para comprar a terra, o que ele concordou (Lv 25.25). Entretanto, Boaz disse que, de acordo com a lei, se ele adquirisse a propriedade também teria que casar-se com a viúva […]” (Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2004, p.360).

AUXÍLIO BIBLIOLÓGICO

“O LEGADO DA OBEDIÊNCIA
As genealogias no livro de Rute são apresentadas fornecendo dez gerações, explicando as omissões e, portanto, as diferenças com outros registros. As genealogias do Novo Testamento (Mt 1.3-6; Lc 3.32,33) são construídas sobre a precisão registrada no livro de Rute (Rt 4.17-22), o que também é a ligação mais vital na linhagem traçada de Abraão até Cristo. Contudo, o nome de Rute não aparece de fato nesses versículos (vv. 17-22), talvez por sua história ser o cerne do livro de Rute. Mateus incluiu o nome dela. Rute era pura e deu testemunho das qualidades do mais alto caráter em contraste com outras mulheres mencionadas, o que pode ter sido a razão de ele a ter mencionado pelo nome. Ainda assim, ela também precisava de um go’el, um remidor. E exatamente como Rute, não pertencente ao povo de Deus, proibida de entrar na congregação do Senhor (Dt 23.3) e sem esperança – alienada de Deus – se humilhou aos pés do parente remidor, Boaz, pedindo sua aceitação e ajuda, todas as mulheres têm de se humilhar aos pés do Senhor Jesus e buscar sua redenção salvífica. Ao fazer isso, assim como Rute encontrou a segurança terrena, você encontrará o descanso celestial” (Patterson, D. K, KELLEY, R. H. Comentário Bíblico da Mulher Antigo Testamento. Vol. I. Rio de Janeiro: CPAD, 2022, pp.486-82).

CONCLUSÃO

A história de Rute é uma história de redenção. Uma moabita foi não somente remida, mas entrou para a genealogia do Redentor da humanidade, Jesus, o filho de Davi. Ao lado de Tamar e Raabe, Rute proclama a graça de Deus, que se manifesta a todos, judeus e gentios (Tt 2.11). Que proclamemos com poder a vida e a obra de nosso Redentor divino-humano, Jesus Cristo, o Salvador dos homens (1 Tm 4.10; At 4.12).

  CPAD: O Deus Que Governa o Mundo e Cuida da Família – Os Ensinamentos Divinos nos livros de Rute e Ester para a Nossa Geração

| Lição 05: O Casamento de Rute e Boaz – A Remição da Família

 

INTRODUÇÃO 

  A história de Rute torna-se cada vez mais empolgante a cada capítulo, principalmente pelo caráter dialógico da obra. Em meio ao desenrolar dos fatos que marcam a profunda amizade entre Noemi e Rute, um terceiro personagem entra em cena: Boaz, o parente remidor. O autor apresenta-nos esse belemita como um “homem valente e poderoso, da geração de Elimeleque” (Rt 2.1). Era, portanto, um parente de Elimeleque, embora não saibamos de que grau. “Os rabinos entendiam que Boaz era sobrinho de Elimeleque” (Every Clayton, p. 46). Matthew Henry (p. 200), acrescenta: “[Boaz] era neto de Naassom, príncipe da tribo de Judá no deserto, filho de Salomão [Salmom], que provavelmente era um dos filhos mais moços de Raabe, prostituta de Jericó”. 

I – BOAZ, O REMIDOR 

1. Um homem próspero 

  Os termos “valente” e “poderoso” referem-se ao caráter íntegro e à influência de Boaz, além do seu poder econômico.1 Boaz era um grande produtor rural — “um poderoso fazendeiro”, como sugerem alguns eruditos (Morris, p. 253). Ele tinha plantações de cevada e trigo e muitos trabalhadores ao seu serviço (2.5,6,23) — na linguagem de hoje, era um

homem do agronegócio. Boaz, decerto, reunia qualificações morais e condições econômicas para cumprir o papel de remidor. 

  O significado do nome “Boaz” é incerto. Morris (1986, p. 253) diz que o nome pode estar ligado à ideia de rapidez, ou força. Significaria, talvez, “filho da força”. Warren W. Wiersbe (2006, p. 181) apresenta um significado semelhante: “nele há força”. 

 2. “Goel” e “Levir” 

  Como já afirmamos, a expressão “da geração de Elimeleque” não nos permite saber o grau de parentesco entre Boaz e o marido de Noemi. De qualquer sorte, como parente próximo, poderia ser o goel, o resgatador da terra que o falecido havia vendido (Rt 4.3), como também poderia cumprir o costume antigo do casamento levirato (Gn 38.6-11). Eram duas prescrições distintas contidas na Lei de Moisés. 

  A primeira, relativa ao goel, dizia respeito à “solidariedade familiar”, como ensina Roland De Vaux (1903–1971) (2004, 43): 

  Os membros da família em sentido amplo devem uns aos outros ajuda e proteção. A prática particular desse dever é regulada por uma instituição da qual se encontram em formas análogas em outros povos, por exemplo, entre os árabes, mas que, em Israel, toma uma forma particular, com um vocabulário especial. É a instituição do go’el, palavra procedente de uma raiz que significa “resgatar, reivindicar”, e, mais fundamentalmente, “proteger”. 

  O go’el é um redentor, um defensor, um protetor dos interesses do indivíduo e do grupo. Ele intervém em certo número de casos. 

  Se um israelita precisou se vender como escravo para pagar uma dívida, deverá ser resgatado por um de seus parentes próximos, Lv 25.47-59. 

  Quanto um israelita precisa vender seu patrimônio, o go’el tem direito preferencial na compra, pois é muito importante evitar a alienação dos bens da família. A lei está codificada em Lv 25.25. É como o go’el que Jeremias adquire o campo de seu primo Hanameel, Jr 32.6s. 

  De Vaux vê que essa última hipótese encaixa-se à situação de Noemi, conjugando-se a hipótese, contudo, com a figura do casamento pelo levirato (p. 43, 44): “O costume é ilustrado também na história de Rute, mesmo que aí a compra da terra se complique por um caso de levirato. Noemi tem uma posse

que a pobreza a obriga a vender; sua nora Rute é viúva e sem filhos. Boaz é um go’el de Noemi e de Rute”. O papel do resgatador seria adquirir a terra de maneira que permanecesse na mesma herdade — no caso, de Elimeleque. 

  Já a lei do levirato previa que o irmão do cunhado (levir) casasse-se com a viúva e suscitasse descendência ao falecido (Dt 25.5-10; Mt 22.24-48). Tudo indica que essa prática foi ampliada, seguindo uma ordem de parentesco mais abrangente, semelhante à do resgatador (Lv 25.48,49). No caso de Boaz, havia um remidor “mais chegado” do que ele (Rt 3.12). 

  Ainda citando De Vaux (p. 61), é importante que consideremos a peculiaridade do caso de Rute, em que as duas leis — go’el e levir — fundem-se: 

  A história de Rute combina o costume do levirato com o dever do resgate que incumbia ao go’el. A lei de Dt 25 não se aplica porque Rute não tem mais cunhado, Rt 1.11-12. O fato de que um parente próximo deva tomá-la por esposa, e isso seguindo certa ordem, Rt 2.20; 3.12, indica seguramente uma época ou um ambiente em que a lei do levirato era um assunto de clã mais do que de família no sentido estrito. De qualquer forma, as intenções e os efeitos desse casamento são os de um casamento levirático: trata-se de “perpetuar o nome do falecido”, Rt 4.5,10; cf. 2.20, do qual a criança que há de nascer será considerada filha, Rt 4.6; cf. 4.17. 

  De Vaux contribui ainda para um maior entendimento do assunto ao afirmar que esse costume tinha paralelos em outros povos, especialmente vizinhos de Israel. “O Código de Hamurabi não fala dele, mas as leis assírias consagram-lhe vários artigos. Nelas não se expressa a condição de que a viúva não tenha filho, mas isso pode ser devido a uma lacuna do texto”, explica. De Vaux cita alusões ao levirato em leis hititas,2 entre os hurritas de Nuzu e talvez em Elam.3 

Rute, a Respigadeira 

  Rute decide voluntariamente ir ao campo respigar (apanhar, juntar, recolher espigas – heb. laqat). O seu voluntarismo fica evidente (Rt 2.2). A atitude de Rute mostra-nos a sua prontidão, própria de uma mulher virtuosa, que “não come o pão da preguiça” (Pv 31.27) ou “não dá lugar à preguiça”, como traduz a NVI.4 Uma mulher assim não precisa ser

mandada para cumprir o seu dever; antes, prontifica-se a fazer além dele, pois foi o que Rute fez. Não necessariamente estava no script que ela tivesse que ir ao campo respigar. 

   É importante também considerar que, por trás dessa prontidão de Rute, estava o conhecimento que ela obtivera, certamente através de Noemi, acerca da Lei Mosaica em relação aos pobres, para que os ricos, donos de plantações, deixassem que recolhessem as espigas que caíssem ao chão durante as colheitas (Lv 19.9; 23.22; Dt 24.19). Fazem muito bem os pais que ensinam os seus filhos quanto ao valor e a importância do trabalho, não lhes permitindo o ócio. Um baixo nível de comprometimento com o trabalho tem sido uma das causas de graves problemas nos casamentos, levando muitos casais e famílias cristãs a amargarem profundas tristezas, com reflexos negativos na igreja e em toda a sociedade. Salomão fala sobre o quadro caótico do campo do preguiçoso — que pode ser lido como o quarto, o escritório, o carro do preguiçoso (cf. Pv 24.30-34). 

  Em nossos dias, há o agravante das redes sociais, que têm roubado o tempo de muita gente, de todas as idades — talvez mais dos adolescentes e jovens, que costumam passar horas no quarto, navegando com pouco ou nenhum proveito. Além do empobrecimento intelectual e econômico, isso pode afetar a saúde mental e emocional, além de trazer prejuízos espirituais. Rute demonstrou muita disposição e coragem ao prontificar-se imediatamente para o trabalho. Apesar das circunstâncias desfavoráveis que enfrentava junto com a sogra, não se rendeu às dificuldades — e não por falta de opção para entreter-se, pois ela poderia muito bem ter optado sair pela cidade, acompanhado o fluxo da época, seguindo jovens pobres ou ricos (Rt 3.10). 

 3. Temor e respeito 

  Quando lemos Rute 2.1-4, entendemos que Boaz veio ao campo já no período da tarde, quando o trabalho estava bem avançado. Logo que chegou, saudou os seus empregados, demonstrando ser um homem temente a Deus. A invocação a Jeová (“O Senhor seja convosco”), dirigida a todos os

segadores, também indica o seu respeito aos que trabalhavam com ele. Os empregados retribuem-lhe com uma saudação também amistosa e piedosa: “O Senhor te abençoe” (Rt 2.4). 

  Boaz não chegou perguntando como estava o serviço ou cobrando resultados. Ele também não foi seletivo ou altivo, dirigindo-se somente ao chefe dos trabalhadores. Falou com todos eles: “E eis que Boaz veio de Belém e disse aos segadores […]” (2.4). Somente depois Boaz dirige uma pergunta específica ao chefe dos trabalhadores, relacionada a Rute: “De quem é esta moça?” (2.5). Essa sequência de fatos revela que Boaz considerava as pessoas mais importantes que o trabalho que prestavam. Embora seja razoável que todo o patrão espere um trabalho produtivo dos seus empregados, o correto é considerar que as pessoas têm mais valor que o trabalho que fazem. Assim, buscar falar ao coração de cada uma delas é mais importante que lhes impor obrigações em nome de uma mera troca de dinheiro versus tempo e produção. 

   Analfabetismo Funcional e Distração 

  É fato também que tem ficado cada vez mais difícil a relação patrão-empregado diante do crescente analfabetismo funcional e a sua relação com o ambiente de trabalho. Ao lado disso — e consequentemente —, crescem as dificuldades com uma produção mais eficiente, quadro agravado também pelo alto índice de distração pela forte atração das mídias e redes sociais. Embora seja evidente que não poucos empregados envolvem-se em trivialidades e questões pessoais que prejudicam o rendimento funcional, confrontar-lhes com a ideia de “compra do tempo” não é o caminho para resolver o problema. Em tempos de tanta desumanização do trabalho, pode parecer utopia, mas falar ao coração das pessoas (ou, pelo menos, tentar), elas sendo empregadas ou não, é sempre o melhor caminho. 

 A constatação dessa realidade não justifica e muito menos retira o dever dos empregados. Paulo escreveu aos colossenses que os tais devem trabalhar servindo “em simplicidade de coração” (Cl 3.22). Na NAA é: “com sinceridade de coração”. O versículo 23 é mais enfático ainda: “E, tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens”. Assim, não resta dúvida de que a solução é alcançar essa disposição de coração. Quanto aos patrões, a Palavra de Deus ensina que devem fazer “o que for de justiça e equidade” (Cl 4.1). 

  Pelo padrão bíblico, patrões e empregados devem tratar-se com mútua consideração, reconhecendo a posição e o papel próprios de cada um na relação de trabalho (Ef 6.5-9; Cl 3.22- 4.1). Quando o cristão não age assim, seja patrão, seja empregado, compromete a eficácia do evangelho com o seu mau testemunho (Mt 5.13-16), além de sujeitar-se ao juízo divino sobre a sua conduta aqui e na eternidade (Cl 3.24,25; 4.1). 

 II – O CARINHO DE BOAZ PARA COM RUTE1

 A pureza não exclui a ternura 

  Logo que chegou ao campo, Boaz notou a presença de uma moça diferente entre os segadores e foi informado de que se tratava de Rute, a moabita, que voltara com Noemi dos campos de Moabe (Rt 2.5,6). Não somente a identificação da moça e a sua história, que já era conhecida, mas também o seu comportamento e dedicação ao trabalho sensibilizaram Boaz, que se dirigiu a ela terna e respeitosamente, chamando-a de filha — certamente também em função da diferença de idade que havia entre eles (cf. 2.8). 

  O gesto de Boaz ensina-nos que o dever de pureza de um homem para uma mulher não exclui o seu dever de educação, fineza e, com o devido respeito, expressão de ternura. No caso de Boaz, a última hipótese era ainda mais cabível, pois Rute era bem mais nova que ele; assim, poderia tratá-la como filha (1 Tm 5.1,2). Não é preciso ser rude para ser santo. 

  Boaz deu a Rute a liberdade de continuar catando espigas na sua plantação e assegurou-a de que ela seria tratada com o devido acatamento e respeito (Rt 2.9). Boaz preocupou-se com a segurança de Rute e, por isso, conferiu a ela “proteção especial”, conforme observa Carson (ibidem, p. 444). Ser generoso, gentil e bondoso não retira a masculinidade de homem algum; pelo contrário, reforça-a. Como destaca o pastor Douglas Baptista, a generosidade de Boaz é uma das características da verdadeira masculinidade (2023, p. 72). Ressaltando a relação que generosidade tem com benignidade e bondade (Gl 5.22), Baptista mostra o conceito mais amplo do termo, abrangendo expressões como “carinho”, “meiguice”, “delicadeza” e benevolência”, como encontramos em Bergstén (1999, p. 94) e Ribas (2009, p. 297). 

  Um viver santo não exige que sejamos rudes e descorteses (2 Rs 4.8,9). Jesus, o mais puro dos homens, convivia com todos (Mc 2.15-17; Jo 4.3-27). Humildade e mansidão são virtudes essenciais a todo cristão (Mt 11.19). 

  2. Deus estava agindo 

  Rute ficou extremamente surpresa com a atenção que recebeu de um homem tão importante e poderoso. Como estrangeira e pobre, certamente tinha receio de como seria tratada; por isso ela agia com educação e muita discrição (Rt 2.7). Impressionada com o gesto de Boaz, inclinou-se ao chão e, de forma humilde, reconheceu ser indigna do tratamento que recebeu (2.10). Os personagens da história não compreendiam a dimensão do que acontecia. O Deus da providência estava agindo, construindo todo o cenário necessário para mais uma importante etapa do seu plano redentor. A linhagem messiânica precisava continuar. Aquela primeira aproximação entre Boaz e Rute seria fundamental para o desenrolar dos próximos eventos. 

  A providência divina agia, sem desprezar, contudo, a participação humana na história. Deus não trabalha de forma arbitrária, violando o livre-arbítrio humano. No exemplo em estudo, havia uma motivação especial na conduta de Boaz para o tratamento que dispensou a Rute. Ele já conhecia a bela história da jovem moabita (2.11). Deus estava, sim, agindo em favor de Rute, mas não de forma arbitrária, ou seja, independente da sua conduta. 

 3. Sensível e espiritual

  Os atos de Boaz não eram como uma ficção ou fruto de uma manipulação psicológica, como não são quaisquer dos atos humanos, dado o livre-arbítrio assegurado por Deus. Como enfatiza Silas Daniel (2017, p. 402), as escolhas humanas são reais, genuínas. Boaz estava agindo dentro de um cenário real. O Deus da providência estava abençoando Rute em recompensa pelo seu devotado amor a Noemi e por toda a reputação que ela havia construído com o seu cuidadoso comportamento. 

  O próprio Boaz sabia dessa verdade, ao proferir a declaração que se tornou um dos versículos-chave do livro (cf. Rt 2.11). Boaz tinha uma profunda compreensão espiritual. Ele reconhecia que o Deus dos hebreus não estava limitado a fronteiras territoriais ou barreiras étnicas. Como servo de Yahweh, estava sendo usado para abençoar uma piedosa moabita, uma “mulher convertida” (Gilberto, 2021, p. 397). As suas palavras tocaram profundamente o coração de Rute e deram grande conforto a ela (Rt 2.13). 

  III – A COLHEITA DE RUTE E A SUA SOBREVIVÊNCIA 

  1. A lei da semeadura 

  Apesar de aparentemente vivermos num mundo de impunidades, há um Deus nos céus que julga todos os atos. Não é sábio ao cristão agir como se não acreditasse na providência divina, influenciado por uma cosmovisão secular, que produz a ilusão de que vivemos num mundo “dos homens”, apartados de Deus e não afetados por Ele, cada um fazendo o que bem decide sem submeter-se ao juízo divino (Sl 73.1-17). Isso é fruto de uma incredulidade crescente e da perda de sensibilidade quanto ao domínio universal de Deus (Sl 24; Lc 18.1-8; 1 Tm 4.1). Essa visão dualista em nada condiz com as Escrituras e com a realidade dos que confiam no Senhor da providência. 

  Rute decidiu servir ao Deus de Israel em vez de Quemos, o deus dos moabitas, cuja adoração incluía o sacrifício de crianças (Nm 21.29; 1 Rs 11.7; 2 Rs 3.26,27). Agora, ela

começava a experimentar a mão invisível de Jeová Jireh, agindo graciosamente em seu favor. A lei da semeadura funciona inexoravelmente (2 Co 9.6; Gl 6.7). 

 2. Os acasos de Deus 

  Rute retorna a casa exultante não apenas com o resultado da sua colheita — quase um efa de cevada, ou seja, 37 litros — mas, principalmente, pela forma como foi tratada por Boaz e os seus segadores. Noemi quis saber onde Rute tinha trabalhado naquele dia. Quando Rute mencionou o nome de Boaz, Noemi não escondeu a sua exultação (Rt 2.20). Uma esperança brotou no coração da pobre viúva (cf. Jó 14.7-9). 

  O fato de Rute trabalhar justamente nos campos de Boaz não foi por acaso, e Noemi reconheceu isso na sua expressão. O Senhor estava manifestando a sua beneficência em favor dela e a sua nora e, mais que isso, do falecido Elimeleque, já que Boaz era um dentre “nossos remidores”, isto é, tanto de Noemi quanto de Rute, como observa De Vaux na sua obra (2004, p. 44). Naturalmente, a idade favorecia muito mais a Rute, e era essa a preocupação e intenção de Noemi. 

  A fé de Rute no Deus de Israel — sob cujas asas ela foi abrigar-se — estava sendo recompensada. A sua prontidão em cuidar da sogra levou-a a encontrar conforto e proteção naquele que seria o resgatador da família e que a incluiria na genealogia do Redentor da humanidade. Vale a pena confiar em Deus e esperar nEle. Ainda hoje, podemos experimentar a ação do Todo-Poderoso no curso de nossa vida, alcançando-nos com a sua misericórdia e favor. 

 3. O resultado da colheita 

  Alguns frutos de nossas ações são colhidos de imediato; já outros levam tempo para aparecer. Pela forma graciosa como era tratada, Rute colhia cereais em abundância diariamente nos campos de Boaz (Rt 2.17,21). A colheita garantia a sua sobrevivência e da sua sogra. O trabalho árduo durou toda a estação: entre março e abril, colheu-se cevada; e de abril a junho, trigo. Concluído o trabalho, ficou com a sogra (Rt 2.23). Uma “colheita” ainda maior seria feita por ela em

tempo oportuno (Ec 3.1). Nosso Deus trabalha por aqueles que nEle esperam (Is 64.4). 

Em um mundo cada vez mais opressor, é reconfortante estar abrigado sob as asas do Deus Eterno, guardado no esconderijo do Altíssimo (Sl 91). 

  CONCLUSÃO 

  O tema “relacionamento” sobressai-se no livro de Rute não apenas por uma visão humana ou natural, mas, acima de tudo, espiritual. O versículo-chave do capítulo 2 de Rute indica-nos com clareza como nossos atos tornam-se valiosos quando praticados levando Deus em conta —conscientes de Ele estar acima de tudo e de todos e de que é Ele quem nos garante a recompensa pelo que fazemos. Pautar nossa conduta pelo nível de hostilidade do mundo em que vivemos torna-nos cada vez mais rudes, assemelhando-nos à perversidade da sociedade atual, cheia de pessoas amantes de si mesmas, avarentas, presunçosas, soberbas, blasfemas, desobedientes a pais e mães, ingratas, profanas, sem afeto natural (2 Tm 3.2,3). 

  Não podemos ficar enrijecidos por nenhum tipo de ressentimento. Conquanto o mundo seja mesmo hostil, a graça de Deus pode capacitar-nos a viver acima desse sentimento. 

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1 Matthew Henry ainda cita uma versão dos Caldeus, que traduz como “poderoso na lei” (2022, p. 200), o que nos remete à apurada e justa conduta de Boaz em relação ao parente mais próximo e a forma pública como tratou do negócio, cumprindo todo o rito legal (Rt 4.1-11).

2 Os hititas eram um grupo étnico que morava na Palestina desde os dias dos patriarcas (Gn 15.19-21). Eram os “filhos de Hete”, descendentes de Cam, filho de Noé, diretamente por Canaã (Gn 10.15; 1 Cr 1.13) (Wycliffe, p. 926).

3 Nuzu era um centro administrativo e um posto avançado dos hurrianos (hurritas) localizado próximo de onde está a moderna Kirkuk, no Iraque, cerca de 240 quilômetros ao norte de Bagdá. Elam ou Elão, correspondente, atualmente, à região do Cuzistão, no moderno Irã (Wycliffe, p. 619, 1380).

4 Essa mesma observação e correlação com a mulher de Provérbios 21 foi feita pelo pastor Elinaldo Renovato de Lima no seu livro O Caráter do Cristão (CPAD, 2017, p. 77).

  O Deus Que Governa o Mundo e Cuida da Família – Os Ensinamentos Divinos nos livros de Rute e Ester para a Nossa Geração

 Silas Queiros

 


 





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